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Em 2001, o IPCC, o Painel da ONU sobre Mudança do Clima, lançou um relatório que trazia um gráfico que ficou conhecido como Taco de Hockey. O gráfico mostrava, com dados do hemisfério norte, a temperatura da superfície do planeta através dos anos. Começando do ano mil, o gráfico tinha uma tendência bem leve de resfriamento até que no século vinte a linha dispara para cima, como a ponta de um taco de hockey. Nesse episódio do Gaia, vamos dar um passo atrás e ver como é possível saber o clima do passado. Esse episódio contou com a participação de Renata Nagai, da Universidade Federal do Paraná, e Natan Pereira, da Universidade do Estado da Bahia.
Este é o segundo episódio da série Gaia. A produção e edição é feita por Oscar Freitas Neto. O projeto é uma produção do podcast Oxigênio, do Labjor/Unicamp, e conta com a orientação de Simone Pallone.
Músicas:
Fast Talkin – Kevin MacLeod (YouTube Audio Library)
Our Only Lark – Blue Dot Sessions
Eggs and Powder – Blue Dot Sessions
Copley Beat – Blue Dot Sessions
Fender Bender – Blue Dot Sessions
Ferus Cur – Blue Dot Sessions
Imagem:
Alain Couette
—
Oscar: Em 2001, o IPCC, o Painel da ONU sobre Mudança do Clima, lançou um relatório que trazia um gráfico que ficou conhecido como Taco de Hockey. O gráfico mostrava, com dados do hemisfério norte, a temperatura da superfície do planeta através dos anos. Começando do ano mil, o gráfico tinha uma tendência bem leve de resfriamento até que no século vinte a linha dispara para cima, como a ponta de um taco de hockey.
Oscar: Nesse episódio do Gaia, nós vamos dar um passo atrás e ver como é possível saber o clima do passado. E para isso…
Oscar: nós vamos para o mar.
Renata: Eu amo ir para o mar. Bom, eu sou oceanógrafa de formação. Então, sempre que tem uma oportunidade de ir para fazer coleta, né, eu sou a primeira pessoa a levantar a mão e falar eu quero ir.
Oscar: Essa é a Renata Nagai.
Renata: Eu falo isso para os meus alunos. Eu me sinto super completa quando estou no navio e eu olho para todos os lados e só vejo água. Aquela água com aquela cor que é um azul, um roxo, não sei, é uma coisa linda.
Oscar: Ela é professora na Universidade Federal do Paraná.
Renata: Eu coordeno um laboratório que chama Laboratório de Paleoceanografia e Paleoclimatologia. Então, a gente estuda o passado dos oceanos e tenta entender essas relações entre o oceano e o clima no passado, em diferentes escalas de tempo.
Renata: Para quem trabalha com paleoclima, a gente olha para o passado e tenta entender como o planeta estava quando a gente tinha, por exemplo, concentrações de CO2 na atmosfera similares com que a gente vai ter ou tem hoje. Será que oceano estava mais quente, será que o oceano estava mais ácido, como será que o oceano influenciava na chuva aqui na região da América do Sul.
Natan: A ciência começou a coletar dados de forma sistemática a partir dos anos 50, então é muito pouco tempo. Se você for construir milhares de anos, milhões de anos, é muito pouco tempo.
Oscar: Quem fala é o Natan Pereira
Natan: Sou biólogo de formação.
Oscar: Ele é professor da Universidade do Estado da Bahia.
Natan: E atualmente estou trabalhando com geoquímica de corais. Eu tento entender os sinais químicos que estão nesses organismos para entender um pouco do clima.
Oscar: Para reconstruir esse clima do passado, é preciso usar formas indiretas de fazer medições. É possível, por exemplo, procurar por documentos históricos que tenham dados do tipo, mas assim só é possível voltar no tempo até certo ponto. Para voltar muito mais é preciso dos arquivos naturais.
Natan: Então para isso a gente utiliza proxies geoquímicos, principalmente, que são evidências indiretas sobre as condições ambientais do passado que são registradas de forma ordenada e sequencial dentro de um determinado período específico.
Renata: Eu sempre gosto de exemplificar, eu falo: não dá para a gente pegar um sedimento marinho colocar um termômetro dentro dele e falar, a vinte mil anos a temperatura é tantos graus celsius, mas a gente consegue usar esses proxies para fazer isso.
Natan: A gente pode reconstruir temperatura, a gente pode reconstruir salinidade, a gente pode reconstruir concentração de CO2 atmosférico.
Oscar: Para pegar um exemplo mais fácil, as árvores podem ser usadas como um desses arquivos. Em um tronco cortado dá para ver aqueles anéis que são os períodos de crescimento da árvore.
Renata: Cada um desses anéis de crescimento vai registrar essas informações.
Oscar: Que depois podem ser reconstruídas. Em regiões temperadas o crescimento é bastante relacionado a períodos de calor quando a árvore faz fotossíntese. Em momentos frios, as árvores perdem as folhas e crescem bem menos, o que dá para perceber pela proximidade dos anéis.
Renata: Apesar de elas terem limite de tempo de vida delas, se o tronco de árvore ficar fossilizado, está no registro fóssil. Eu sei que tem gente que trabalha com esses dados que vem de tronco de árvore assim de períodos muito antigos.
Oscar: Outros arquivos naturais são o gelo das regiões polares
Renata: Espeleotemas em cavernas
Oscar: que são aquelas formações pontudas
Natan: Sedimentos e corais também são tipos de arquivos naturais
Oscar: Essa possibilidade de resgatar essas informações do passado mostra como tudo no planeta está conectado, os organismos vivos, os componentes inorgânicos, oceano, atmosfera…
Natan: Eu tenho outros exemplos bem bacanas que mostram, que trazem essa ideia de conectividade do nosso planeta.
Oscar: O Atol das Rocas é uma ilha oceânica que fica a duzentos e sessenta quilômetros de Natal
Natan: Você não tem nada perto, você não tem cidade, você não tem turismo, você não tem absolutamente nada perto. É complemente livre de ação antrópica direta. Só é permitida a entrada do pessoal do ICMbio e de pesquisadores, então é o impacto da presença humana lá é quase que inexistente. Então são 4 ou 5 pessoas que ficam na ilha que é extremamente controlada, que tem um controle muito efetivo, fiscalização com relação a turismo, pesca. Então é realmente um santuário ecológico. Nesse trabalho que eu fiz, nós publicamos em 2018, a gente coletou alguns corais dessa reserva biológica. E a gente utilizou um proxy, utilizou isótopos estáveis de carbono.
Oscar: Os isótopos são variações de um elemento químico. O carbono, por exemplo, tem número atômico de seis, ou seja, seis prótons, mas pode ter uma quantidade diferentes de nêutrons. O que forma o carbono 12, 13 e o 14.
Oscar: E, nesse trabalho, ele analisou a composição isotópica desses corais.
Natan: O coral estava recebendo cada vez menos o isótopo estáveis mais pesados que é o treze.
Oscar: A composição dos corais reflete a composição de isótopos de carbono dissolvidos no oceano. E o que acontece é os combustíveis fósseis tem uma assinatura isotópica mais leve.
Natan: A nossa atmosfera tem sido alterada principalmente pela queima de combustível fóssil. E aí você altera a atmosfera, esse carbono vai passar para os carbonos inorgânicos dissolvidos nos oceanos, você vai alterar também a composição isotópica dos carbonos inorgânico dos oceanos e isso vai passar para os corais. Então, olhar que doideira, esses corais no meio do oceano atlântico sul sem nenhuma atividade antrópica, sem nenhuma atividade turística, sem nenhuma atividade de pesca, ele simplesmente registrou uma interferência da ação principalmente via queima de combustível fóssil, de uma alteração que tem uma escala global.
Oscar: Quando a ideia é reconstruir o clima do passado, os isótopos de oxigênio são um dos proxies mais utilizados.
Natan: é uma ferramenta poderosíssima. A gente pode ter uma ideia de períodos glaciais e interglaciais de acordo com assinatura isotópica do oxigênio.
Oscar: O oxigênio tem três isótopos: o 16, o 17 e o 18.
Renata: O Oxigênio 17 tem bem pouquinho naturalmente, o Oxigênio 16 é o que tem mais e depois tem o Oxigênio 18.
Oscar: Então, o oceano é composto de moléculas de água formadas com esses diferentes isótopos de oxigênio.
Renata: Moléculas com 16, moléculas com 18. Então, moléculas mais leves e moléculas mais pesadas. E essas moléculas, quando a água é evaporada, acho que é bem intuitivo de imaginar que as moléculas de água que são formadas com o oxigênio 16 que é o mais leve é mais fácil de evaporar.
Oscar: E aí a gente tem que lembrar do ciclo hidrológico. Vamos imaginar esse oceano com a água que começa a evaporar. Daí, ela tem dois caminhos. Ela pode virar chuva.
Renata: E aí entrar nos rios e voltar para o oceano. Ou ela pode precipitar na forma de neve, então ela pode ser transportada para regiões polares ou no topo de montanhas e precipitar na forma de neve.
Oscar: E é aí que está a jogada. Porque essa neve é formada mais por isótopos mais leves. Em períodos interglaciais que são mais quentes
Natan: Quando você tem o processo de degelo, o gelo começa a derreter, esse isótopo mais leve vai voltar para o sistema.
Oscar: Já em períodos glaciais, com muito mais gelo no planeta.
Renata: A gente tem o aprisionamento das moléculas de água com oxigênio 16 nas calotas. Então a composição isotópica da água do mar ela vai ficar relativamente empobrecida em relação ao oxigênio 16. E quando a gente está falando dessa composição, a gente usa um delta, então a gente fala de delta O18 que é uma comparação entre o oxigênio mais pesado e o oxigênio mais leve. Então é uma razão entre esses dois isótopos.
Oscar: E isso também se reflete na composição de organismos e sedimentos marinhos. Ou seja, analisando essa composição, nós conseguimos saber a quantidade de gelo no planeta em determinada época.
Oscar: Vamos pegar o caso dos sedimentos marinhos.
Renata: Eu uso testemunhos marinhos que são seções do sedimento, de coluna sedimentar coletadas no oceano.
Oscar: As bacias oceânicas vão sendo preenchidas bem lentamente com sedimentos, o que vai formando camadas.
Renata: Essas camadinhas, então, elas guardam para gente informações sobre as condições ambientais do oceano naquele momento que aquelas partículas foram formadas e se depositaram no fundo do mar. A gente consegue imaginar que cada uma dessas camadas sedimentares seria uma página de um livro de história.
Oscar: Nessas camadas é possível encontrar em todo o mundo organismos chamados foraminíferos.
Renata: Eles são maravilhosos, eles são lindos. Eles têm coloração super diferente, distinta. E, por exemplo, tem algumas praias que tem areias que tem uma tonalidade de rosa ali na região ali do caribe, que o rosa das areias vem de carapaças de foraminíferos planctônicos que chamam Ruber Pink, Globigerinoides Ruber Pink.
Oscar: Eles produzem uma carapaça feita de carbonato de cálcio, semelhante as conchas dos moluscos.
Renata: E essa carapaça consegue ficar preservada no sedimento. Então depois que eles morrem eles ficam ali no sedimento. A carapaça fica ali preservadinha, intacta, então a gente consegue usar eles para reconstruir várias variáveis do oceano. Mas a gente pode usar tanto a composição química da carapaça. Então, por exemplo, os isótopos de oxigênio ou a razão magnésio-cálcio. Então como eles incorporam esses elementos da coluna d’água enquanto eles estão vivendo e ali a carapaça deles. E a gente pode usar as associações. Então a gente pode identificar as espécies que estavam vivendo naquele momento, essas espécies têm preferências ecológicas que a gente conhece hoje de estudos de foraminíferos planctônicos e bentônicos atuais. A gente sabe, por exemplo, que a espécie X gosta de viver em água quente e ela tem um crescimento ótimo entre 24, 25, 26 graus celsius. A outra espécie gosta de águas mais frias. Então a gente consegue usar essa composição das associação dos foraminíferos, esses dados ecológicos para reconstruir, por exemplo, temperatura da água do mar ou tem espécies que prefere comer matéria orgânica fresca que foi recentemente produzida e aí elas vão viver que tem alta produção primária marinha porque elas querem esse material mais fresco. E tem outras que não se importam tanto, então elas comem matérias orgânica mais degradada. Então a gente consegue também medir essas variáveis aí outras.
Oscar: Os corais também são formados de carbonato de cálcio e são usados para a reconstrução do clima.
Natan: Isso a gente analisa os isótopos estáveis de oxigênio em corais para ver temperatura ou mudança na salinidade. Isótopo de oxigênio no caso dos trabalhos com os corais é um pouco mais complicado porque ele é influenciado tanto pela temperatura, como pela salinidade. E às vezes num local que você tem uma mudança muito grande na salinidade, você acaba interferindo no seu sinal geoquímico. Por isso, é importante usar outro proxy, por exemplo, para esse trabalho de reconstrução de temperatura utiliza-se bastante a razão de estrôncio sobre o cálcio. O bom do estrôncio sobre o cálcio é que é um proxy que só depende de temperatura, não depende de salinidade. Então às vezes você tem um coral que está sob influência de salinidade muito grande e aí você faz análise isotópica e você não consegue determinar bem ali a variação de temperatura porque a curva está com muito ruído, com muita interferência. Aí a gente faz análise de estrôncio-cálcio. Então geralmente quem faz um, faz o outro, que já contam com uma interferência na salinidade no sinal isotópico do oxigênio. Então é uma forma de garantir que você vai ter dados mais robustos, mais fáceis de ser interpretados. A ideia é essa é sempre pegar um coral, fazer essas análises e tentar fazer uma reconstrução de clima, uma reconstrução de temperatura. E aí com a reconstrução da temperatura a gente pode ver, por exemplo, eventos do El Niño, como esses eventos estão acontecendo, com que frequência estão acontecendo para além do que a gente tem registrado em instrumento. Como isso está alterando ao longo dos séculos, se tem uma alteração na dinâmica do El Niño. Outros fenômenos externos que podem ter influenciado na temperatura desses corais. Daí, óbvio que a gente extrapola para o ambiente, para a região. Quando você quer fazer uma reconstrução paleoclimática da costa do nordeste, então você vai tentar coletar o máximo possível em todas as regiões, identificar todas as variáveis de cada localidade e aí você começa… é um trabalho extenso, difícil, não é um trabalho fácil. É muita coisa. Você pegar às vezes de um estado para outro você tem uma dinâmica climatológica completamente diferente e você entender isso e como isso vai influenciar nos registros de corais é um desafio para a gente.
Oscar: O Brasil não tem uma variedade grande de espécies de corais como outros locais e o Natan tem trabalhado em verificar o potencial das espécies daqui para esse tipo de análise.
Natan: Dentro dessas espécies, a gente tem algumas que crescem bastante. Porque o ideal de um arquivo paleoclimático é que ele seja confiável, mas também cubra um intervalo de tempo mais longo possível que a gente possa ter informações. Não adianta a gente pegar um coral que tem 5, 6, 10 anos, assim a gente não vai conseguir extrair muita coisa. Aqui no Brasil a gente duas espécies que têm esse potencial que é a Siderastrea Stellata e a Montastrea Cavernosa. Essas duas espécies crescem bastante, já consegui coletar algumas, principalmente Siderastrea que tem 100 anos de idade, possivelmente a gente tem outra colônia que tem quase 200 anos. Não consegui coletar, mas eu já vi alguns corais, principalmente, na região do Maracajaú no Rio Grande do Norte, que elas eram enormes. Eu acredito que ali se consiga extrair 200, 300 anos. O último trabalho que eu estou executando agora, a gente está finalizando, é uma colônia de 30 centímetros e a gente conseguiu quase 100 anos. Se a gente conseguir uma de um metro, com certeza a gente consegue chegar aos 300 anos.
Renata: O oceano transporta e distribui calor no planeta e isso garante para a gente nossa estabilidade climática, nosso bem estar. E é a temperatura da água do mar que move essas trocas. Então a interação entre atmosfera e oceano ocorre muito ali na superfície da água e muito associado a temperatura da água do mar também.
Natan: Quando a gente compreende tendências de clima, quando a gente tem uma imagem completa de como é que é uma variabilidade climática natural ou não natural, por exemplo, quando você tem ação antrópica, a gente consegue criar medidas que podem mitigar os efeitos dessas mudanças climáticas. Então, uma das principais metas de quem está estudando climatologia, tentando entender o clima, é essa. A gente tem que compreender o passado, como é que essas alterações ela ocorre e óbvio isso vai ter consequências para a nossa economia, para a nosso sistema de produção. Como essas mudanças climáticas vão afetar a biosfera marinha, como esses ecossistemas vão responder essas mudanças. Se a gente parar para pensar que muitos países, muitas pessoas, dependem diretamente de recursos naturais extraídos dos oceanos, como essas pessoas vão ficar caso essa mudanças elas venham a afetar bastante esses ecossistemas a ponto de ter ali um colapso na produção pesqueira, um colapso nesses ecossistemas que são muito apreciados para turismo.
Renata: A gente consegue dar uma perspectiva para o nosso futuro. O que vai acontecer se a gente continuar aquecendo o planeta, como que oceano vai se comportar em termos de temperatura e em termos de PH. A gente quer aprender com as mudanças do passado, as mudanças climáticas do passado.
Oscar: O Gaia é produzido e editado por mim, Oscar Freitas Neto. E conta com a orientação de Simone Pallone, do Labjor.
Este é o primeiro episódio de uma série intitulada Escuta Clima, que vai trazer a cada novo programa um dos temas do Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia Mudanças Climáticas. As pesquisas desenvolvidas no INCT estão distribuídas em seis subcomponentes: Segurança energética; Segurança hídrica; Segurança alimentar; Saúde; Desastres naturais, impactos sobre a infraestrutura física em áreas urbanas e de desenvolvimento urbano; Impactos nos ecossistemas brasileiros, tendo em vista as mudanças no uso da terra e da biodiversidade. Essas subcomponentes estão interligadas por três temas transversais: Economia e impactos em setores-chave; Modelagem do sistema terrestre e produção de cenários climáticos futuros para estudos de Vulnerabilidade-Impactos-Adaptação-Resiliência para Sustentabilidade e Comunicação, disseminação do conhecimento e educação para a sustentabilidade. Escuta Clima faz parte desse último tema transversal, sendo uma nova sessão da revista ClimaCom, e é reproduzido no Oxigênio.
A segurança energética é tratada nesse episódio inaugural, apresentando os impactos que já são observados no planeta, provocados pelas alterações climáticas causadas principalmente pela ação humana. Os cientistas entrevistados no episódio falam sobre suas pesquisas que buscam soluções na área de energia, que reduzam o impacto da produção de energia no clima.
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Camila Ramos – Mudanças climáticas. Esse tema ganhou a atenção de um novo público. Um público jovem, o que repercutiu muito na mídia mundial. Isso foi no ano passado, quando a adolescente sueca Greta Thumberg faltava das aulas nas sextas-feiras para protestar na frente do parlamento do seu país. Essa e outras ações da jovem viralizaram nas redes sociais e milhões de pessoas se engajaram no ativismo e foram pras ruas em manifestações no mundo inteiro.
[Transcrição do Discurso de Greta Thumberg]
How dare you!
Quem aí lembra desse discurso da Greta no encontro da Cúpula sobre Ações Climáticas da Organização das Nações Unidas? Aliás, a ONU junto com milhares de cientistas vêm se movimentando para diminuir os danos das mudanças climáticas há muitos anos. Mas afinal, o que são mudanças climáticas? O que ela impacta na minha e na sua vida?
Pra começar, diferente da previsão de tempo do dia ou da semana, que diz se vai chover mais ou menos, ou se a temperatura vai variar de vinte a trinta graus entre a madrugada e o pico da tarde. As mudanças climáticas são alterações sutis, que com o passar dos anos e décadas, causam grandes desequilíbrios no mundo todo. Ou seja, o aquecimento global que estamos vivendo hoje começou há mais ou menos 100 anos e tá fazendo com que as estações não sejam tão definidas, deixando os verões mais quentes e os invernos mais rigorosos, por exemplo.
Além de causar eventos climáticos mais extremos, como chuvas intensas e secas mais prolongadas e, até mesmo colocando animais e plantas em risco, quer dizer, aquele cafezinho que você tanto gosta ou aquele adocicado chocolate podem desaparecer em alguns anos. Ou ainda, milhares de pessoas estão perdendo suas casas, seus trabalhos e suas vidas porque o mar está fazendo suas ilhas e cidades litorâneas sumirem por completo do mapa!
Então, é por isso que temos que agir rápido!
Roberto Shaeffer – Em 2010, os estudos indicavam que a humanidade tinha cerca de 30 anos para reduzir suas emissões de gases de efeito estufa a metade. Hoje, a gente já sabe que temos apenas 10 anos, ou seja, entre 2020 e 2030 para reduzir as emissões de gases de efeito estuda a metade para a gente ficar dentro de uma trajetória compatível com o mundo até um grau e meio mais quente do que era na era pré-industrial.
Camila – Esse que você ouviu é o Roberto Schaeffer. Ele é professor titular de Economia de Energia no Programa de Planejamento Energético COPPE, da Universidade Federal do Rio de Janeiro. Ele também é pesquisador e coordena o subcomponente de Segurança Energética do Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia sobre Mudanças Climáticas, que é um programa federal de promoção ao desenvolvimento de pesquisa. Esse INCT conta com mais de 200 pesquisadores de várias regiões do Brasil e tem o apoio de doze instituições internacionais.
Esse trabalho que eu estou citando é dividido em seis subcomponentes. E nessa série de podcasts, que estamos lançando com esse episódio, vamos falar separadamente de cada um deles, começando hoje com o tema Segurança Energética. No episódio de hoje vamos ouvir também o André Gonçalves. Ele é pesquisador do Laboratório de Modelagem de Recursos Renováveis de Energia, no Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais / ou chamado simplesmente de INPE.
André Gonçalves – Atualmente aqui no INPE, o nosso grupo trabalha com o tema de meteorologia da energia, onde nós tentamos traduzir os conhecimentos sobre o clima em soluções para o setor de energia. Informações que permitam um maior planejamento do sistema elétrico, uma melhor operação do sistema elétrico, de maneira que a gente consiga caminhar para uma matriz mais renovável.
Camila – Ele vai falar sobre o que pode ser feito para diminuir os danos das mudanças climáticas no setor energético. Hoje vamos conhecer o maior vilão do planeta, o dióxido de carbono. Eu sou Camila Ramos e você está ouvindo o Escuta Clima, um podcast do Laboratório de Estudos Avançados em Jornalismo da Unicamp, o Labjor, que tem o apoio do Programa Mídia Ciência da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo, a FAPESP e do INCT.
[Vinheta do podcast Escuta Clima]
Camila – Por acaso você já ouviu falar em efeito estufa? Há muitos anos ele é considerado um dos maiores vilões do planeta, mas o que você pode não saber é que esse fenômeno é essencial pra vida na Terra. O que acontece é que gases como o dióxido de carbono, que também é conhecido simplesmente como CO2, são reguladores da temperatura no planeta, já que eles criam uma camada na atmosfera, que segura um pouco do calor emitido pelo Sol, o que evita que o planeta congele. E mantém um calorzinho agradável para plantas e animais, como nós, seres humanos.
O problema começa quando acontece um desequilíbrio desse sistema natural, ou seja, quando por algum motivo é liberada uma quantidade maior desses gases, do que o planeta consegue reabsorver. No caso, o motivo desse desequilíbrio do efeito estufa que estamos vivendo hoje somos nós e nosso modo de vida moderno.
Shaeffer – Ainda que para alguns, a discussão sobre o aquecimento global e as mudanças climáticas pode parecer recente, na verdade ela não é. Essa discussão é bastante antiga e suas bases científicas são conhecidas desde o final do século 19, quando o cientista sueco Svante Arrhenius, físico que foi agraciado com o Prêmio Nobel de Química em 1903, já havia estimado como que a crescente concentração de CO2 na atmosfera poderia levar ao aquecimento global. Naquele momento, final do século 19, de fato, o que Arrhenius estava preocupado ou o que o fazia preocupado era o fato que, com a revolução industrial, que tem sua origem na Inglaterra, crescentemente, você estava dependente da queima de carvão para movimentar a indústria europeia.
Camila – O físico que o Shaeffer citou entendia que o processo da queima do carvão gera o CO2. E com o tempo a consequência dessa concentração massiva do gás na atmosfera seria o aquecimento do planeta. E foi exatamente isso que aconteceu, como sabemos. Nós dependemos dos combustíveis fósseis até hoje, seja o carvão ou o petróleo.
Shaeffer – Ainda que essa discussão seja antiga, é só nos anos 60 e 70, que os cientistas voltam a reexaminar isso. E mais particularmente, essa discussão volta com força muito grande no começo dos anos 90, quando o Painel Intergovernamental de Mudanças do Clima, o IPCC, lança o seu primeiro relatório em 1990. Naquele momento, já era bastante claro que havia o problema das mudanças climáticas que os combustíveis fósseis estavam na raiz daquele problema. Hoje, 2020, 30 anos depois disso, já sabemos, já entendemos ainda melhor o fenômeno. E a temperatura média do planeta, em relação à era pré-industrial, ou seja, em relação ao comecinho da revolução industrial já está cerca de 1º mais elevado do que era naquele momento.
Camila – Esse um grau a mais é capaz de derreter geleiras, elevar o nível do mar, e deixar as chuvas, furacões, tempestades de neve mais fortes e frequentes, por exemplo. Ou fazer as secas durarem mais tempo e, também, causar ondas de calor insuportáveis. Há quem duvide desses exemplos que eu dei, mas é só olhar as evidências práticas. No ano passado, a Europa viveu uma onda de calor tão forte que causou mais de mil e quinhentas mortes.
Ainda em 2019 os Estados Unidos enfrentaram uma onda de frio extremo que, acredite, a cidade de Chicago chegou a marcar temperaturas mais negativas do que as da Antártida. E caso você esteja se perguntando se o frio extremo também é um sinal das mudanças climáticas, a resposta é sim. No Brasil também estamos sentindo as mudanças climáticas. Há um aumento dos níveis de chuvas na região Centro Sul do país. O Nordeste brasileiro também tem sido seriamente impactado, já que as secas estão durando mais tempo e são cada vez mais intensas. Mas vamos discutir essa questão no próximo episódio. Por isso, não deixe de acompanhar essa série.
Bom, não dá pra negar que os danos das mudanças climáticas que estamos sentindo já é muito devastador. E, segundo o artigo do Roberto Schaeffer e sua equipe / que foi publicado na revista científica Nature, em março deste ano. O planeta só tende a esquentar mais e mais. Em números concretos vamos chegar a um grau e meio até 2030. E mais: vamos atingir os 2 graus a mais que os níveis pré-industriais em vinte e cinco anos se nada for feito. Mas existe algo que pode e já está sendo feito. Felizmente!
Desde os anos 80, a ONU vem tentando negociar um acordo com os governantes internacionais pra diminuir as emissões de carbono. Eles só chegaram em um ponto de interesse comum no documento chamado Protocolo de Quioto, isso em 1997. Foi um grande passo pra mudança. Em poucas palavras, este acordo fez com que os países já desenvolvidos assumissem o compromisso de reduzir as emissões em 5% até 2012. Já que esses países são os mais industrializados e maiores consumidores de combustíveis fósseis.
Bom, acho que não preciso dizer que essas metas não deram muito certo, né? O protocolo de Quioto foi repensado e substituído em 2015, no Acordo de Paris. O objetivo principal desse documento é reduzir as emissões de carbono pra não ultrapassar um aquecimento global de 2 graus em relação aos níveis pré-industriais.
Schaeffer – Naquele momento se entendia que o nível seguro para o mundo seria ficar dentro desse mundo 2º mais quente. Mas hoje já se entende que 2º já é demais. Estudos do IPCC publicados em 2018, mostram quão diferente será o mundo no futuro 2º mais quente se comparado ao mundo um grau e meio mais quente. Entretanto, o que a gente nota é que o mundo está muito distante dessa trajetória em direção a um grau e meio, na medida em que muito do que deveria ser feito, não está sendo feito. Quer dizer, se no acordo de Paris, em 2015, 193 países do mundo concordaram em reduzir suas emissões num certo nível, aquilo que esses países concordaram e propuseram fazer não é de fato o que está acontecendo.
Camila – Um desses países são os Estados Unidos, que é um dos maiores emissores de carbono do mundo. Neste novo documento, os países em desenvolvimento tiveram mais espaço. Por exemplo, o Brasil se comprometeu a reduzir as emissões em cerca de 30% até 2025. Também prometeu uma participação de 45% de energias renováveis até 2040. E ainda reflorestar 12 milhões de hectares até 2030.
Shaeffer – Metas relativamente ambiciosas.
Camila – Como Shaeffer me disse em entrevista. Hoje o Brasil não só não atingiu essas metas, como piorou a situação.
Shaeffer – O que a gente nota hoje entretanto, é que o desmatamento no Brasil realmente fugiu ao controle, na medida em que o desmatamento é muito mais elevado do que era em 2015 e muito mais elevado do que aquilo que o governo brasileiro se propôs a fazer, até porque o que a gente nota é que mudança climática não é uma prioridade hoje do governo brasileiro. Aliás, qualquer coisa ligada à Ciência no Brasil hoje não é prioridade.
Camila – Uma proposta dessas reuniões, que se mostrou interessante e aplicável, foi o chamado Crédito de Carbono. E o que é esse conceito?
De forma simples, o crédito de carbono acontece quando uma empresa ou nação reduz suas emissões de gases de efeito estufa a mais do que o previsto. Assim ela pode vender este crédito, ou melhor, essa emissão evitada para outras empresas ou nações que não conseguiram ter a mesma redução. Ou seja, essa é uma forma de comercializar e tornar essa redução de carbono mais interessante para a economia.
Shaeffer – Em certo sentido, isso na Europa já funciona bem, a alguns países do mundo em que isso funciona bem e no caso brasileiro, se tem estudado em que medida a implantação de um mercado de carbono no Brasil seria uma das maneiras de você reduzir as emissões de gases de efeito estufa. Então, como falei, estudos tem sido feito, entretanto, ainda estamos um pouco distantes de implementar isso no Brasil, até porque, novamente, não é uma prioridade desse governo lidar com a mudança climática. Até porque, em algum momento esse próprio governo colocou em dúvida se mudança climática era realmente um problema real.
Camila – É inteligente e necessário pensar em soluções econômicas quando se planeja ações de mitigação das mudanças climáticas, porque propor uma redução de emissões de carbono significa substituir fontes de geração de energia, os meios de transporte e os meios de produção de alimentos e manufaturas. E pra isso é preciso desenvolver e investir em novas tecnologias, e ainda eventos climáticos causados pelas mudanças climáticas atinge diretamente a economia que vai ter que restaurar os danos.
Shaeffer – Há novas áreas de pesquisa muito importantes para a gente poder lidar melhor com a questão da mudança climática e nosso laboratório na Universidade Federal do Rio de Janeiro, a Cinergia, tem trabalhado muito nessa área. Isso tem muito a ver, também, não apenas atuar na área da mitigação, ou seja, da redução de emissão de gases de efeito estufa, mas também entender um pouco melhor qual o verdadeiro impacto das mudanças climáticas.
E uma linha realmente importante nesse caso, e nós temos trabalhado nisso é que não se entende ainda completamente bem qual o verdadeiro custo do dano associado às mudanças climáticas. Dependendo se quer para 2º mais quente ou 1º mais quente há custos diferentes envolvidos para isso na medida em que o mundo apenas um grau e meio mais quente é um mundo que irá de tecnologias mais avançadas, mais custosas para lidar com o problema da mudança climática.
Se se conseguir mostrar que o custo do dano é mais elevado que o custo da mitigação, está mais do que provado que o caminho que sobra para a humanidade é de fato combater fortemente as mudanças climáticas.
Camila – A boa notícia é que já existem soluções viáveis pra descarbonizar o setor energético. E melhor, o Brasil está geograficamente em um ótimo lugar. Hoje, no Brasil, 65% da matriz elétrica é formada por hidrelétricas, que é uma fonte renovável bem conhecida. Porém, outros27% são termoelétricas, que usam a queima de combustíveis fósseis pra produzir energia. Esses são dados da Agência Nacional de Energia Elétrica, de 2017, o que é uma boa proporção, mas poderia ser melhor. Isso porque o Brasil tem fatores que favorecem não só a geração hídrica, mas também solar e eólica. Primeiro que nós estamos na região tropical e recebemos uma maior quantidade de raios solares o ano todo e, segundo, é que existem bons locais no território brasileiro pras plantas solares serem instaladas, porque chove menos. Nesses locais é preciso observar alguns fatores. Quem fala sobre isso é o André Gonçalves:
André Gonçalves – Na implantação de um parque solar nós temos a alteração do uso do solo. Nós temos o bloqueio da radiação que tá chegando em solo, isso de certa forma pode afetar alguns parâmetros ecológicos locais né, em termos de balanço de radiação com o solo, a própria fertilidade do solo, você impede que aquele solo seja utilizado para outros fins. Mas geralmente, essas plantas são instaladas em locais que o solo possui uma produtividade muito baixa de maneira que o custo da terra seja mais acessível e quando a gente fala de um país com dimensões territoriais como o Brasil, eu não vejo isso como um limitante propriamente.
Camila: O pesquisador do INPE diz que ele e seus colaboradores desenvolveram trabalhos nos quais comparam a área demandada para se instalar painéis fotovoltaicos para suprir a necessidade de energia elétrica do território brasileiro com áreas que já estão em processo avançado de degradação e desertificação.
Gonçalves – Claro que sempre temos a possibilidade de recuperar essas áreas. Mas, para a gente ter uma ideia, essas áreas seriam suficientes para suprir mais de 30 vezes toda a demanda de energia do território brasileiro. Então embora essa questão da ocupação, do uso do solo seja uma desvantagem da geração solar… Você pode questionar a questão da poluição visual, eu acredito que para o Brasil, pela extensão territorial, isso não seja de fato uma desvantagem propriamente dita.
Camila – Existe também outra forma de gerar energia solar sem ser em grande escala. Esse outro meio é chamado de geração distribuída ou particular, que nada mais é do que instalar painéis fotovoltaicos nas casas para suprir as necessidades domésticas. Bom, também existe a geração eólica. Esse tipo de produção já é realidade no Brasil há pelo menos 15 anos, mas ainda tem uma presença bem tímida. Mesmo que o Brasil tenha uma boa potência natural. Sobre isso, novamente ouvimos o André.
Gonçalves – Bom, um motivo desse potencial privilegiado brasileiro, do ponto de vista da energia eólica, está relacionado ao fato de sermos um país tropical, com uma costa muito extensa expostas aos ventos alísios. Eles acabam incidindo sobre a costa do Nordeste do Brasil e a porção norte do Nordeste. Então o Nordeste brasileiro realmente é uma região de maior potencial de geração de energia pelo vento e tem essa grande vantagem do vento ser constante, ele não muda de direção, ou praticamente não muda, e a intensidade varia pouco ao longo do dia o que é muito bom para a geração de energia.
Camila – O maior ponto positivo do Brasil, que facilita a implementação dessas fontes renováveis, é o que se chama de Sistema Interligado de Energia Nacional. Ou seja, independente do lugar que a energia é gerada, ela pode ser distribuída pra qualquer outro lugar do território. Bom… quase qualquer lugar.
Gonçalves – Nós temos no Brasil um grande sistema isolado, que é o sistema Roraima, onde ele não está interligado ao sistema elétrico nacional de forma que Boa Vista que é sua capital e os demais municípios adjacentes dependem de um sistema de geração própria e de uma importação de energia que vem da Venezuela, mas que está em vias de ser cessado, se é que já não cessou. Então, nós temos plantas termelétricas em Roraima para suprir essa demanda. E a energia solar e inclusive eólica, onde o norte de Roraima possui um potencial interessante elas aparecem como opções naturais juntamente com a hidroelétrica para compor esse parque gerador.
Camila – Gonçalves e sua equipe de pesquisa tenta entender quais são as opções pra suprir a demanda de energia no estado de Roraima. Então além de serem boas soluções para reduzir as emissões de carbono no setor energético. As fontes limpas e, principalmente a solar doméstica, pode ser uma boa solução para alcançar locais onde a energia elétrica ainda não chegou. Por outro lado, a maior desvantagem da implementação dessas fontes não é nem o preço, já que o custo vem diminuindo ano após ano. Mas, sim, o fato de não ser possível armazenar a energia que foi produzida em excesso. Hoje, diversos pesquisadores tentam resolver esse problema, tentando desenvolver baterias mais eficientes. Enquanto isso, a melhor opção hoje, segundo o André Gonçalves, são as usinas híbridas de energia.
Gonçalves – Uma usina híbrida seria uma combinação entre fontes renováveis. Então, eu poderia, por exemplo, montar uma usina, como já está sendo feito, uma usina solar-eólica. Essa usina teria a vantagem de compartilhar a mesma infraestrutura, então tem a mesma linha de transmissão e tudo o mais. E combinando a geração das duas eu consigo reduzir a variabilidade, consigo ter uma estabilidade maior dessa geração e isso é muito interessante para o sistema elétrico. Da mesma forma, tem alguns experimentos no país com usinas hidro-solares, em que eles estão pegando reservatórios das usinas hidrelétrica e montando os painéis flutuantes, de maneira que eu consiga gerar energia tanto pela queda da água, pela energia potencial da água, quanto pela energia solar fotovoltaica. Então essas são soluções que poderiam, sim, contribuir para uma maior penetração da geração de energia solar-eólica no país.
Camila – Essa linha de pesquisa do Gonçalves investiga a melhor forma de combinar diferentes fontes renováveis, porque, imagine o seguinte cenário: o Brasil passa por uma grande estiagem que impossibilita a geração hídrica. Então as placas fotovoltaicas entram em ação pra suprir essa lacuna, já que o céu fica mais limpo na falta de nuvens de chuva.
Nesse mesmo sistema híbrido é possível incluir o manejo do solo para não apenas gerar energia, mas, também, sequestrar o carbono já disponível na atmosfera pela fotossíntese das plantas. É importante lembrar que atualmente não somos capazes de gerar energia com emissão zero de carbono, já que são utilizados combustíveis fósseis no transporte e nos maquinários pra instalar e fazer a manutenção dos parques.
Apesar dos transportes elétricos já serem realidade no mundo, ainda são pouco usados, embora dos estudos e testes no Brasil avançarem rapidamente. Além disso, existem veículos que não são facilmente eletrificáveis. Os aviões e os navios, por exemplo.
Gonçalves – É possível se produzir querosene de aviação a partir de biomassa, é possível se produzir combustíveis para navios a partir de biomassa. Mas são rotas tecnologicamente mais avançadas e que ainda não tem grande escala. Então cabe investimento para viabilizar essas rotas, para tentar levar o mundo num futuro não tão distante a um setor energético 100% descarbonizado. Outra vantagem também dessas rotas avançadas a base de biomassa é a possibilidade da produção de biomassa e parte do CO² que é produzido durante essa produção da biomassa, você poder armazenar esse CO² e retirar ele do ciclo do carbono e nesse caso você teria, por exemplo, o que se chama de emissões negativas de carbono.
Camila – Um exemplo de emissão negativa de carbono é a produção de etanol no Brasil. Apesar de ser liberado CO2 no momento da fermentação do açúcar, essas partículas são reabsorvidas durante a fotossíntese da próxima safra. E estamos chegando ao fim do episódio, mas antes vou reforçar que reduzir as emissões de gases de efeito estufa, não é uma tarefa apenas do setor energético.
Gonçalves – Até porque, para lidar com mudança climática não existe uma solução única, há de se atacar várias frentes ao mesmo tempo: agricultura, pecuária, florestas e setor de energia.
Camila – Por isso não deixe de acompanhar essa série do Escuta Clima, um podcast sobre pesquisas relacionadas ao Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia sobre Mudanças Climáticas.
Eu sou Camila Ramos. Este podcast é apoiado pelo Programa Mídia Ciência da FAPESP. Este projeto de jornalismo científico está sendo desenvolvido no Laboratório de Estudos Avançados em Jornalismo, do Núcleo de Desenvolvimento da Criatividade, da Unicamp. E é uma seção da revista ClimaCom e Rede de Divulgação Científica e Mudanças Climáticas.
Tem a supervisão científica da pesquisadora Simone Pallone de Figueiredo e jornalística da pesquisadora Susana Dias.
A trilha sonora foi desenvolvida pelo Lucas Carrasco, que tem apoio do PIBIC, do CNPq.
A edição do podcast é feita pelo Octávio Augusto Fonseca, da Rádio Unicamp, com apoio do Gustavo Campos, que tem suporte da bolsa SAE.
A locução da vinheta é de Bruno Moraes.
Depois do derrame, a vida segue. Neste episódio, conversamos com Gilmar, que sofreu um AVC aos 41 anos, e tentamos entender um pouco de sua realidade a partir das reflexões de pesquisa da antropóloga Monique Batista, da fisioterapeuta Juliana Valente e do profissional de Educação Física Hélio Yoshida. A série Corpo faz parte do projeto “Histórias para pensar o corpo na ciência”, que é financiado pela FAPESP (2019/18823-0) e coordenado pelo professor Bruno Rodrigues (FEF/Unicamp).
Parte 1
SAMUEL RIBEIRO
Eu tinha uns 12 anos e lembro que eu tava sentado em um toco de madeira, na beira de uma lagoa…
SAMUEL
Do meu lado tava meu avô materno, o Mário. Eu já falei dele aqui no podcast. Um homem enorme, de mãos grandes, com um bigodão branco e penteado que lembrava um pouco aqueles bandidos de faroeste. A gente tava pescando com varinha de bambu, e eu lembro…
SAMUEL
Eu lembro de uma cena em que ele tentava colocar uma minhoca no anzol e não conseguia acertar de jeito nenhum. Alguma coisa caía da mão dele: ou o anzol, ou a minhoca, ou a vara inteira. Tentou, tentou, tentou, e aí cansou e jogou tudo no chão, com raiva, xingando furioso numa mistura de português com italiano que eu não consegui entender bem.
SAMUEL
Essa lembrança me marca muito, porque meu avô era esse homem forte, aventureiro, que tinha percorrido o Brasil inteiro de caminhão e pescado peixes enormes, mas que no final da vida tinha ido morar com a gente por causa dos derrames.
SAMUEL
Acidente vascular cerebral. AVC… Quando eu penso nisso, a primeira coisa que me vem na cabeça é o Mário e como a vida dele ficou diferente. É disso que a gente vai falar hoje.
SAMUEL
Eu sou Samuel Ribeiro, e este é o Corpo, podcast que fala de pessoas e de movimento. E a gente começa…
GILMAR MARQUES
… foi em 2016, em junho, dia 22 de junho, 2016.
SAMUEL
… a gente começa com o Gilmar.
GILMAR
Não senti nada assim. Um dia antes eu tinha trabalhado normal, que eu trabalhava com pavimentação asfáltica, sabe? Serviço bem quente mesmo.
GILMAR
Aí levantei normal, sabe, coloquei a roupa de serviço, andei um metro assim, deu aquela bambeada na perna. Aí falei, “acho que é cãibra né”, já tinha cãibra antes. Aí levantei, andei mais uns 300 metros, aí deu outra bambeada na perna. Aí falei “tem alguma coisa errada né”. Aí eu voltei pra casa. Quando eu abri a porta de casa, aí não consegui mais ficar de pé, entendeu…
SAMUEL
O Gilmar tinha 41 anos na época, e tava passando ali por um derrame, do tipo hemorrágico, que é quando um vaso sanguíneo se rompe no cérebro.
GILMAR
Aí comecei meio, tipo, delirar assim, aí já fui pro UPA, do UPA fui pra Santa Casa, e… e lá não alembro muita coisa, não alembro de quase nada, até hoje não consigo alembrar.
SAMUEL
Ele ficou vários dias hospitalizado, depois meses na cadeira de rodas, e por causa daquele dia tá até hoje com algumas sequelas que mudaram completamente a vida dele.
GILMAR
E nunca pensava que isso ia acontecer comigo, apesar do médico já ter avisado, que algo ia acontecer. Mas quando você tá no foco da bagunça, aí você nem imagina né. Vê acontecer com o vizinho, mas acha que não vai acontecer com a gente.
Parte 2
SAMUEL
O AVC é uma das principais causas de morte no mundo e só no Brasil a gente tem centenas de milhares de casos todos os anos. É um problema que acomete principalmente os idosos, mas também chega em pessoas mais jovens, como foi o caso do Gilmar.
SAMUEL
Cada caso é um caso, mas o sobrevivente do derrame geralmente fica com algum tipo de sequela e precisa se adaptar em uma nova realidade.
SAMUEL
Pra entender melhor essas mudanças, eu fui conversar com a Monique Batista…
MONIQUE BATISTA
… o derrame ele é um acontecimento que transforma as relações familiares como um todo…
SAMUEL
Ela é mestra em Antropologia pela Universidade de Brasília e há uns anos atrás fez uma pesquisa pra tentar entender a realidade das pessoas que tinham tido derrame, lá na região da Ceilândia.
MONIQUE
A gente partiu de um lugar comum e coletivo. Eu frequentava um grupo de ginástica, que acontecia dentro de um centro de saúde, era um grupo que era voltado principalmente pra pessoas mais velhas, e a partir daí eu comecei a ter os meus primeiros contatos com a Dona Antonieta.
MONIQUE
… e um dia apresentando a minha pesquisa e dizendo que eu tinha vontade de conversar com ela, isso no centro de saúde né, ela veio até mim e começou a falar sobre o marido, que ele tinha passado por consecutivos derrames, e que esses derrames eles tinham comprometido habilidades motoras e cognitivas, e que desde então ele demandava uma série de cuidados.
SAMUEL
O assunto (o marido da Dona Antonieta), tava quieto ali, sem participar da conversa, e a Monique percebeu que era difícil falar de derrame sem olhar pro que acontecia dentro das casas e pra rotina das famílias. A ideia dela foi acompanhar esse dia a dia, fazendo visitas nas casas dos pacientes de AVC, acompanhando o grupo da ginástica, o grupo da oração, enfim, entrando um pouco de cabeça ali naquela realidade pra tentar entender o que que ela significava para aquelas pessoas.
MONIQUE
… eu percebi que os derrames eles eram derrames que eles eram transformadores né, eles criavam uma ideia de antes e depois. E que especialmente no caso dos derrames que traziam um comprometimento maior de habilidades motoras e cognitivas, o derrame necessariamente ele implicava em uma série de relações de cuidado. E essas relações de cuidado elas eram vivenciadas dentro da casa, do âmbito doméstico.
SAMUEL
E nessa vida doméstica, esse peso do cuidado normalmente sobrava para as mulheres. As esposas, mães e filhas, mesmo sem derrame, também viviam esse antes e depois.
MONIQUE
Então as vidas dessas mulheres elas eram povoadas assim de novas demandas. Elas eram demandas muitas vezes técnicas né, por exemplo, a esposa precisa saber quais são os medicamentos que o marido vai tomar, qual é a dose, qual é o horário, ela precisa levá-lo ao hospital, a um centro de saúde.
SAMUEL
Era o caso da Dona Antonieta, por exemplo…
MONIQUE
… porque ela era a cuidadora principal do marido. Ela precisava ficar de olho nele, então ela não poderia sair também, porque ela não poderia sair e deixar o marido sem uma pessoa dentro de casa, que pudesse cuidá-lo também.
SAMUEL
Então olha, claro, o AVC acontece ali dentro do organismo da pessoa, e a gente vai falar disso daqui a pouco. Mas quando a gente pensa nele de um jeito mais aberto, tem várias coisas que mudam do lado de fora também. E isso começa no próprio jeito que o AVC acontece…
SAMUEL
Assim, pra algumas pessoas o derrame acontece mais rápido, uma situação dramática e urgente, com correria pra chegar no hospital, tipo na história do Gilmar. E pra outras, é uma história que vai se desenrolando mais devagar, pouco a pouco…
MONIQUE
… uma pessoa ela começava a não dar mais conta de realizar algumas atividades cotidianas, por exemplo, ela começava a não abotoar a camisa na ordem correta, ela começava a pular botões assim, ou então ela ia calçar uma sandália e ela calçava o pé direito no esquerdo, e o contrário também, então tinha uma coisa que fugia ao cotidiano, que é o que era considerado normal, e o derrame ele ia sendo construído a partir desse somatório, desse acúmulo de acontecimentos.
SAMUEL
É o que os pacientes na pesquisa da Monique chamavam de doença comprida.
SAMUEL
Vários deles passaram por isso e só descobriram que tinham tido derrame depois de um bom tempo, durante um atendimento médico, quando tudo aquilo ganhou algum sentido. Eram trabalhadores que tinham feito muita coisa a vida toda, gente que participou da construção de Brasília e que viveu o crescimento ali da região. Pessoas que migraram de outros lugares, que criaram suas famílias e construíram suas casas ali…
MONIQUE
… e uma coisa que também é característica da minha pesquisa é que eu conversei com muitos homens. E, no caso, boa parte da identidade deles, homens de classes populares, está assentada no trabalho, de pessoas que trabalharam desde muito jovem né…
MONIQUE
MONIQUE
Então, por exemplo, muitas vezes os derrames eles eram vistos a partir daquilo que eles retiravam da vida dessas pessoas…
SAMUEL
E o que que você mais sente falta?
GILMAR
Andar de bicicleta, que eu adorava andar de bicicleta, pegar assim, sair daqui e ir pra longe. Amava andar de bicicleta. O meu serviço, que é operador de máquina, sabe, essas máquina de fazer asfalto, que hoje eu não consigo nem subir nela mais. É uma das coisas que mais faz falta é o serviço, entendeu, que eu trabalhei 12 ano aí numa firma, de operador de máquina, de… esses rolo grandão de compactar o asfalto.
GILMAR
E morro de vontade de voltar, mas não consigo nem dirigir né, que a mão não obedece mais. O que eu sinto mais falta e… é complicado, é o serviço.
Parte 3
JULIANA VALENTE
E pra mim sempre me chamou atenção o paciente com sequela de AVC, porque ele nunca chega na reabilitação com a queixa “ah, eu estou preocupado em ter um novo AVC e isso complicará ainda mais a minha rotina”. Não, essa não é a forma como ele nos aborda, né. Ele tá preocupado em voltar à atividade. Então ele quer voltar a trabalhar, ele quer mexer as mãos pra poder escrever, pra poder cozinhar, ele precisa das pernas pra caminhar melhor…
SAMUEL
Essa que você tá ouvindo é a Juliana Valente Grilletti.
JULIANA
… e a gente sabe que é uma patologia que, apesar de acometer bastante os idosos, ela é bem frequente numa população aí entre 40 e 60 anos de idade, que ainda tá ativa, né.
SAMUEL
Ela é fisioterapeuta, doutora em Educação Física e pesquisou os efeitos de exercícios aeróbicos em pacientes com AVC.
JULIANA
Então é uma patologia que tem um impacto grande na vida das pessoas.
SAMUEL
O primeiro contato dela com o tema foi lá por 2007, 2008, quando ela colaborou com um grupo de pesquisadores em um projeto na USP, e aí depois no doutorado ela continuou olhando pra questão do AVC. A gente conversou um pouco sobre essa trajetória mas, antes de qualquer coisa, eu pedi que a Juliana explicasse pra mim o beabá da coisa.
SAMUEL
Beleza, vamo lá. Tem dois tipos de AVC. O isquêmico acontece com mais frequência e tem a ver com uma interrupção do fluxo no vaso sanguíneo, seja porque ele tá mais estreito ou porque tem alguma coisa entupindo ele, tipo um coágulo, por exemplo… então esse vaso deixa de levar nutrientes e oxigênio lá pro cérebro, o que causa dano naquele tecido…
JULIANA
Esse entupimento ele pode ser sustentado ou ele pode ser apenas momentâneo, e isso vai determinar a magnitude, a amplitude dos sinais e sintomas que esse paciente vai apresentar a partir daí.
SAMUEL
E o segundo tipo, o hemorrágico… bem, o hemorrágico é aquele que o Gilmar teve, quando um trecho do vaso rompe mesmo por conta de um aumento na pressão, e se tem uma perda de sangue.
JULIANA
… é como encher uma bexiga, né. Quando você enche uma bexiga você começa a encher e percebe que, quanto mais você enche a bexiga, alguns pontos vão ficando mais transparentes. E exatamente, se você continuar enchendo, gerando pressão ali dentro da bexiga…
JULIANA
… aquela rasgadura na bexiga, que ela vai estourar, é onde tá mais transparente, é o local mais fino de toda aquela parede da bexiga, então…
SAMUEL
… então essa parte enfraquecida da bexiga, no caso do vaso sanguíneo, é o que a gente chama de aneurisma. Normalmente esse tipo hemorrágico é mais perigoso e tem mais chance de levar à morte, e o isquêmico tem mais sobreviventes… Só que…
JULIANA
Só que a gente não pode esquecer que quem não morre continua vivo e continua tendo que sobreviver às sequelas. Então muitos deles acabam sendo afastados das suas ocupações, eles acabam dependendo de uma ajuda do governo, eles acabam se aposentando por invalidez.
SAMUEL
E aí a gente tá falando de sequelas que variam muito de um caso pro outro, mas o comum é que tenha algum tipo de perda de controle muscular em alguma parte do corpo, do lado oposto ao lado do cérebro em que o AVC aconteceu. E além disso tem outras coisas…
JULIANA
Alterações de equilíbrio, alterações na coordenação motora, alguns têm tremores, muitos têm alterações nas habilidades motoras de forma geral, e alguns têm a perda da sensibilidade, que é um dos sintomas que os pacientes mais reclamam.
SAMUEL
Formigamento, dor, sensação de corpo mais pesado, enfim. Imagina você estar acostumado com o corpo todo de um jeito, e de repente tem que se adaptar a uma outra vida, com limitações e incômodos…
SAMUEL
É por isso que a reabilitação tem tanta importância na vida dessas pessoas. Além do médico, que vai receitar os medicamentos, a fisioterapeuta e o profissional de educação física vão atuar junto do paciente de AVC pra tentar melhorar a qualidade de vida.
SAMUEL
E aí, é claro, a gente tá falando de recuperar a parte funcional, que é a pessoa conseguir fazer as tarefas do dia a dia, andar, se trocar, enfim… mas a gente também tá falando de melhorar a saúde cardiovascular pra que aquele paciente não corra risco de ter um derrame de novo.
JULIANA
Né, o exercício sendo utilizado como uma ferramenta de proteção ao indivíduo. Então nós sabemos que se o indivíduo não realiza nenhum tipo de atividade física, ele corre… por ter o primeiro AVC, ele tem um risco maior de 40 a 60% de ter um segundo AVC.
SAMUEL
Pensa só. A hipertensão arterial é um dos principais fatores de risco pra se ter um derrame. Normalmente é um aumento da pressão que rompe o aneurisma, no caso do AVC hemorrágico, ou que desprende o coágulo que vai obstruir o vaso e causar o AVC isquêmico.
SAMUEL
Então cuidar da saúde cardiovascular é essencial pra prevenir que o derrame volte a acontecer nesse paciente, e nisso entra o exercício aeróbico, que pode ajudar nesse objetivo.
JULIANA
… quando a gente estimula o indivíduo através do treinamento aeróbico, o corpo dele se adapta melhor ao estresse, ele aumentou a variabilidade da frequência, ou seja, o corpo dele consegue responder de forma satisfatória a estímulos diferenciados, ou seja, saindo um pouco daquilo que é o cotidiano, que é a caminhada pra ir até a padaria.
SAMUEL
E aí, claro, não é sair fazendo qualquer exercício. Tem todo aquele cuidado e aquela segurança que só um profissional qualificado pode dar ao paciente. Se a pessoa é hipertensa, um exercício intenso demais pode ser perigoso. E pelo outro lado, se o exercício for leve demais, talvez não vá ser tão eficiente pra adaptar o organismo da pessoa e melhorar a saúde cardiovascular.
SAMUEL
Bom, o primeiro passo da pesquisa que a Juliana fez no doutorado foi justamente definir que tipo de treinamento aeróbico ela ia usar nos seus voluntários. E com isso definido, ela aplicou um protocolo de treino em esteira por 4 meses nos pacientes. Mas ainda tinha um problema a resolver:
… era a questão da marcha. Como que vai ser a adaptação desse paciente na esteira? Ele vai ter que caminhar com um tapete rolando numa velocidade que, de fato a gente tem um controle, mas o paciente não tem, né.
JULIANA
Então nós colocamos um sistema de segurança, então nós adaptamos uma cadeirinha, igual aquelas cadeirinhas de quem trabalha com limpeza de vidros de condomínios…
SAMUEL
… e aí os pacientes puderam seguir o protocolo. Era um jeito deles poderem fazer ali o exercício dando o estímulo certo pro coração, sem se preocuparem com o risco de enroscar o pé e cair.
JULIANA
Então nós adaptamos o nosso protocolo a essa população.
SAMUEL
E depois de aplicar esse protocolo, a ideia foi comparar o resultado nesses pacientes em comparação com pacientes que tinham feito só a reabilitação convencional na fisioterapia, sem o exercício aeróbico. E o que ela percebeu foi que…
JULIANA
Os pacientes que fizeram treinamento com fisioterapia, com estímulos variados de equilíbrio, de coordenação, de força muscular, esses pacientes acabaram tendo ganhos funcionais. Eles acabaram caminhando mais no teste de caminhada de 6 minutos e eles também tiveram uma melhora nos testes de equilíbrio, no equilíbrio de forma geral. Quando a gente compara os efeitos na modulação autonômica, ou seja, como o sistema nervoso reage sobre coração e vasos, nós percebemos que o treinamento aeróbico aí é mais eficiente. E quando a gente tá falando em proteção cardiovascular isso faz toda a diferença.
JULIANA
Então eu entendo que um dos grandes achados do doutorado foi entender não só as abordagens, como avaliar esse paciente, mas também o quanto que as terapias combinadas são importantes pra essa população. A gente não pode negligenciar o treino de força e o equilíbrio, e o treinamento aeróbico.
Parte 4
SAMUEL
Eu esqueci de contar no começo do episódio, mas eu tenho um amigo que estuda AVC há um bom tempo, e olha a coisa toda por um outro lado, mas que tem bastante a ver com o que a Juliana tava contando.
HÉLIO YOSHIDA
Eu preciso falar meu nome completo? [RISOS]
SAMUEL
O Hélio Yoshida, que já foi meu professor de Kung Fu, é também pesquisador e fez o mestrado dele aqui na Faculdade de Educação Física da Unicamp. Ele estudou os pacientes de AVC por um viés mais psicológico, analisando a parte motora mas em relação com sintomas depressivos e questões cognitivas.
HÉLIO
No começo eu fui com o olhar completamente isolado assim, “vou olhar o aspecto motor, e beleza, é isso”…
SAMUEL
… só que aí ele foi percebendo que…
HÉLIO
… “não, tem coisa ali que não explica somente pelo aspecto motor”. Que não é explicado somente pela manifestação do quanto ele consegue levantar o membro direito em comparação com o esquerdo, né.
SAMUEL
A gente já sabe que a pessoa que tem um derrame muito provavelmente vai ficar com alguma sequela, algum tipo de comprometimento nos movimentos do corpo. E isso vai impactar a qualidade de vida dela…
HÉLIO
… no que que ela consegue fazer, no que que ela fazia antes, no que que vai ser adaptado na vida dela. E esse baque ele acontece muito rápido né. Então ele acontece de uma semana pra outra, de um dia pro outro, e isso acaba elevando os sintomas depressivos dessa pessoa.
SAMUEL
E aí é claro, não é que todo mundo que tem um AVC necessariamente vai ter esses sintomas…
HÉLIO
Tem gente que lida muito bem com isso. Tem pessoas que passam por esse problema e, “putz, tive AVC, vamos lá, vamos tentar recuperar”
SAMUEL
Mas tem gente que, bom, imagina…
HÉLIO
… mas imagina, uma pessoa que era extremamente ativa…
SAMUEL
… tipo meu avô Mário, que andava a cavalo, dirigia, pescava, namorava… ou o Gilmar, com quem eu conversei mais cedo.
HÉLIO
… super forte, fazia várias atividades, de repente ele se deparou com um momento em que ele não conseguia controlar metade do corpo dele.
SAMUEL
É como se uma parte sua tivesse morrido, e não é à toa que os pacientes lá na pesquisa da Monique da antropologia falavam coisas do tipo:
MONIQUE
“ah, o derrame pegou o meu braço, hoje eu tenho um braço que morreu. O meu braço tá dormente, eu tenho uma perna que arrasta”.
SAMUEL
Era um jeito de dar sentido aquilo que estava acontecendo com eles.
SAMUEL
O Hélio comentou da importância de se olhar pro paciente de AVC de maneira global, porque não dá pra separar uma coisa da outra. A saúde física, o movimento, o psicológico, o social, tá tudo interligado. Uma coisa vai refletindo na outra, a vida fica completamente diferente, e é por isso que depois de um derrame muita gente sente esse baque. Dá até pra fazer um paralelo com o que foi a pandemia…
HÉLIO
Muitas pessoas estavam numa rotina muito louca assim, de acordar, faz tudo, corre, volta, almoça rápido, volta pras atividades, vai até a noite, trabalha no final de semana. Aí de repente tem algo maior, que foi a pandemia, que fez com que a gente parasse um pouco, desse uma pausa nas nossas atividades, e muita gente não soube lidar com isso né. Aí os sintomas depressivos aparecem, sintomas de ansiedade aparecem, a gente consegue perceber mais notícias sobre saúde mental… então é um paralelo muito semelhante com o que a gente faz, né, então…
SAMUEL
… então se a gente pensar no isolamento por conta da covid, teve gente que sofreu mais com as mudanças e outros que tiraram de letra, gente que tinha mais ou menos condição financeira, que teve esse ou aquele problema de saúde, enfim, que bebeu mais ou menos ficando em casa, que dormiu mal ou dormiu bem… se a gente pensar nisso, cada caso vai ser um caso e é muito difícil ter uma regra geral de como vai ser a situação. E isso acaba sendo bem parecido com a questão do derrame.
HÉLIO
Com o AVC você tem inúmeros sintomas, você tem inúmeras sequelas que se somam de diferentes formas, que vai ter um quadro diferente pra cada pessoa. E isso é muito peculiar, porque você vai trabalhar com o paciente e vai tentar entender esse paciente de uma forma diferente com que você vai tentar entender o segundo paciente, o terceiro paciente.
SAMUEL
E além das sequelas na parte motora, por exemplo, pode ser que esse primeiro, segundo ou terceiro paciente tenha algum tipo de problema na parte cognitiva por conta do AVC. E nisso que a gente chama de cognição vai entrar várias coisas…
HÉLIO
… como a orientação, a memória, o cálculo, a forma como a gente se comunica, a linguagem, como a gente consegue planejar as coisas, né. Tudo faz parte da função cognitiva.
SAMUEL
E isso tudo, que pode ser afetado de maneira diferente em cada caso de AVC, também entra na conta na hora de pensar a reabilitação ou um treinamento físico para aquela pessoa…
HÉLIO
Poxa, será que tá entendendo o que tá acontecendo com ele? Será que se eu passar um treinamento pra ele, ele vai entender o que que é? Será que vai fazer sentido pra ele? Será que ele vai criar uma identificação com aquilo que a gente tá fazendo? Será que ele compreende todo o processo que ele passou e qual que é a importância da etapa que ele se encontra?
HÉLIO
Muitas vezes eu posso querer fazer um programa de atividade física pra esse paciente, e não dá certo. Ele não melhora, ele não gosta, ele desengaja da atividade, e as vezes a gente não tá entendendo por que que isso tá acontecendo.
SAMUEL
A mesma lógica entra nas questões psicológicas. Nem sempre vai ser fácil trabalhar uma reabilitação motora ou um treinamento físico consistente se o paciente tá lá, sei lá, entrando em depressão, com ansiedade ou completamente desmotivado. Então se eu deixo de olhar pra parte psicológica…
HÉLIO
… as vezes eu não vou entender que ele não está disposto a fazer, que vai ser pior eu tentar fazer alguma atividade física ele negando tudo, e vai fazer com que ele se afaste ainda mais da reabilitação do que voltar pra prática que ele precisa, ou que ele tanto gostaria.
HÉLIO
A gente olhar pro músculo, saber o que acontece, entender por que a gente faz 4 séries de 15 e não 7 séries de 15, é fundamental na nossa prática. Mas a gente saber também que isso é influenciado pelo estado de humor em que ele se encontra, isso é influenciado pela capacidade dele entender a importância da atividade ou a importância daquilo que ele tá fazendo, se torna tão importante quanto. Porque mais do que tentar fazer com ele melhore a sua capacidade motora, é saber que a gente tá contribuindo pra que ele melhore o estado da vida dele em geral.
Parte 5
SAMUEL
Ouvindo o Hélio e as outras pessoas com quem conversei, deu pra perceber que não dá pra pensar o AVC só por esse ou por aquele lado. Tem a questão dos movimentos e da parte funcional, mas também a saúde do coração que é essencial pra prevenir outro derrame. Tem a parte social, familiar, da história de vida… enfim, tem o psicológico, o cognitivo…
SAMUEL
No fundo no fundo, essa complicação toda na verdade acaba sendo até que fácil de entender quando a gente pensa que ali tem uma… pessoa. Alguém tentando retomar e continuar a vida, com todas as contradições e dificuldades que ela tem. É o Mário, o Gilmar, familiares e amigos, jovens e idosos que precisam se reinventar.
SAMUEL
E as vezes, pra além de qualquer resultado de pesquisa, esse lado humano vem à tona pra lembrar a gente disso tudo. E a Juliana Valente, que trabalha com reabilitação, viu isso de perto ali nos pacientes da pesquisa dela.
JULIANA
Eles chegaram, muitas vezes, morando só, eram pessoas já mais velhas, que já tiveram suas famílias, seus filhos já casados, já mais idosos, que moravam sozinhos, que as vezes não conseguiam ter muita mobilidade ali pra ficar na rua, ou conversando com vizinhos e tudo mais, e quando eles iam para a reabilitação eles encontravam pessoas com as mesmas dificuldades que eles.
JULIANA
Então de lá saiu grupo de carteado, saiu romance, viagem pra Minas, então eu acho que mais do que a recuperação funcional, a gente promoveu uma recuperação social.
JULIANA
Nós precisamos acreditar na plasticidade. Então, o nosso organismo, apesar dele ter um fatalismo fisiológico, a gente olha sempre os processos patológicos e os desfechos difíceis e tudo mais, mas sempre existe a possibilidade de melhorar um pouco. E melhorar um pouco pode ser muito pra alguns.
SAMUEL
O episódio fica por aqui. Corpo é uma produção do podcast Oxigênio, do Labjor/Unicamp, e faz parte do projeto “Histórias para pensar o corpo na ciência”, que é feito na Faculdade de Educação Física e tem financiamento da FAPESP.
SAMUEL
A idealização, produção, entrevistas, roteiro e edição desse programa foram feitas por mim, Samuel Ribeiro. O projeto é coordenado pelo professor Bruno Rodrigues da FEF e supervisionado pela Marina Gomes do Labjor. Quem coordena o Oxigênio é a professora Simone Palone, também do Labjor.
SAMUEL
Se você gostou do episódio, tem alguma pergunta ou acha que faltou falar alguma coisa, manda um recado lá nas nossas redes sociais. A gente tá no Facebook, Instagram e Twitter, é só procurar por Corpo Podcast. Até a próxima!
Imagem
By Dids.
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Efeitos sonoros
By doduck, robinhood76, afterguard, diegolar, hargissssound.
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Músicas
“Lovers Hollow”, “True Blue Sky” by “Bitter”.
Os idosos enfrentam situações de discriminação. Por fazerem parte do grupo de risco da Covid-19, a condição de isolamento foi intensificada. Neste episódio, Roberta Bueno e Rafael Revadam falam sobre os cuidados que estão sendo tomados nas Instituições de Longa Permanência para Idosos, como são chamadas as casas de repouso e asilos, e sobre o que o governo brasileiro está fazendo para proteger essa população idosa asilada.
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ROTEIRO
ZULMA: Estou angustiada, né… triste. Uma coisa que nunca imaginei que passaria por isso. Muita coisa acontecendo e sem resultado, né… Não tem resultado. É isso que eu sinto. Estou triste, né? Muito triste. Porque eu tô longe, eu moro em Atibaia agora e a família trata por telefone, é a única coisa que eu tenho.
Roberta Bueno: Dona Zulma, de 93 anos, é hóspede de uma casa de repouso localizada em Atibaia, no interior de São Paulo. Ela é uma das 100 mil pessoas que vivem nas ILPIs, as Instituições de Longa Permanência para Idosos, como as casas de repouso e asilos são chamados atualmente.
Rafael Revadam: Fazendo parte do grupo de risco, os idosos estão enfrentando mais um cenário de discriminação, intensificado com a chegada do novo coronavírus. Com a pandemia, a população envelhecida encontrou mais uma situação de isolamento do resto da sociedade.
Roberta: No episódio de hoje, vamos falar da situação dos idosos na pandemia. Quais são os cuidados que estão sendo tomados nas ILPIs, e o que os políticos estão fazendo pela população idosa asilada. Eu sou Roberta Bueno.
Rafael: E eu sou Rafael Revadam. E este é o Oxigênio.
[Vinheta de abertura do podcast Oxigênio]
Roberta: De acordo com dados do IBGE, no Brasil existem cerca de 22 milhões de pessoas idosas, que são aquelas com idade maior ou igual a 65 anos. Isso corresponde a 10,5% da população.
Rafael: Já os idosos que vivem em ILPIs são, aproximadamente, 100 mil, segundo estimativa do Ipea, Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada, sendo que 60 mil estão em instituições públicas e filantrópicas.
Roberta: Mas esses números tendem a aumentar nos próximos anos. É o que explica a psicóloga especialista em cuidados da população idosa, Regina Célia Celebrone.
Regina Celebrone: O idoso, ele sempre já esteve na margem. Porque a sociedade está começando a envelhecer agora. A sociedade brasileira, né? Vai ser um grande evento, o envelhecimento humano. Vai ser um grande advento. Vai triplicar o número de idosos até 2050. E o idoso já estava marginal, já tinha um olhar de escanteio na sociedade, porque ninguém quer saber que vai ficar velho. Porque velhice é sinônimo de morte, de coisa feia, de pelanca, daquilo que não é tão lindo, de um corpo que não é mais bonito de se ver, na sociedade do espetáculo que a gente vive hoje, dos corpos perfeitos. E aí ele sofre: você não pode sair, você não pode colocar os pés fora de casa, ou você é uma ameaça para a gente. Se sai na rua, as pessoas olham feio. E aí, eu faço uma pergunta: será que já não olhavam feio para o idoso? De ser uma ameaça como fim de vida.
Rafael: É nesse cenário de discriminação que as ILPIs se encontram. E com o novo coronavírus, o cuidado com o idoso ganhou uma nova realidade. Nós perguntamos para Nadja Cardoso, coordenadora da Casa de Repouso Nova Canaã, em Atibaia, como foi contar para os moradores da casa que eles deveriam se isolar.
Nadja Cardoso: O isolamento social foi comunicado aqui na casa dia 10 de março. A princípio, a reação de cada um deles foi assustador, sem entender, na verdade. Mas o que que eu fiz? Eu fiz uma reunião aqui na casa, falando o que realmente estava acontecendo. Eles ficaram assustados, sim, afinal, quem não ficaria, né? Eles têm acesso à televisão, tem hóspedes que têm tablets e celulares… Então, eles têm acesso a informações. Mas, eu tentei passar de uma forma que eles ficassem um pouco tranquilos, pois nós estávamos fazendo a prevenção, precaução, diante dessa situação.
Roberta: Situação semelhante foi vivenciada na Casa Ondina Lobo, em São Paulo. Depois que a quarentena foi anunciada, as ILPIs começaram a tomar medidas de prevenção para proteger seus idosos. Paulo Coelho, diretor da instituição, dá mais detalhes.
Paulo Coelho: A casa é uma casa filantrópica. Toda a diretoria é voluntária. Nós não recebemos ajuda de nenhum governo federal, estadual ou municipal. A diretoria tem sempre o objetivo de buscar a receita para manter a casa, né. Quem são as pessoas que vivem hoje lá. São pessoas que estão acima de 60 anos de idade, sem família e sem recursos financeiros. Pessoas em total vulnerabilidade social. Esse é o tipo de pessoa que nós abrigamos lá. Então, hoje, quando começou todo esse processo no mundo, né, e a gente começou a perceber que isso chegou ao Brasil, né… eu lembro que por volta de 20 ou 26 de março mais ou menos, acho que é a data que eu tenho é 26 de março, o mundo já estava com 503 mil casos e o Brasil com pouco mais de mil e pouco casos. Isso tem 26 de março. Então, quando começou isso, a gente já falou nós temos que mudar e criar protocolos de segurança contra o coronavírus. Uma semana antes, eu diria antes de realmente começar explodir isso, a nossa diretoria se reuniu e começou a criar os protocolos. Tipo assim: visitas a partir de hoje não podem mais acontecer. A casa será fechada para visitas, né. Por quê? Idoso, né, de uma maneira geral, ele com toda a literatura que tem aí disponível, a gente sabe que é o risco maior pro Covid-19.
Rafael: Os idosos em geral são acometidos de mais doenças como como diabetes, cardiopatia, etc. que aumenta o risco de morte caso sejam contaminados pelo vírus.
Paulo Coelho: É óbvio que numa casa que abriga idosos que já vem de uma certa vulnerabilidade, muitos deles trazem doenças não só congênitas, mas também doenças que adquiriram durante a vida. Então, o risco era muito grande. A gente conversou e fechamos toda a entrada de idosos. Nós tínhamos um brechó e uma boutique para venda de objetos pra ajudar na manutenção da casa. Fechamos também. Ou seja, começamos a criar protocolos que garantissem o máximo possível, né, ou pelo menos mitigassem a entrada do vírus na casa, né. E aí, ééé, a gente começou a criar ações pra conseguir EPIs, ou seja, aventais, gorros, luvas, máscaras e tudo, porque nesse momento, a gente percebeu que o governo ainda não tava se preocupando com as ILPIs, sabe… Naquele momento, a gente percebeu que, fazendo contato com a secretaria social do governo, que também a secretaria de saúde, na verdade, naquele momento, eles não tinham nem sequer uma ideia de quantas ILPIs existem no estado.
Roberta: Entre as novas medidas, surgiu a necessidade do uso de equipamentos de proteção individual, os EPIs, como máscaras e luvas descartáveis.
Paulo Coelho: O que nós temos de material de EPI. Avental, luva, é uma quantidade pequena. E isso está muito difícil de comprar. Hoje, a gente tem uma necessidade premente de receber. Estamos tentando, junto ao Governo, fornecedores, luvas, aventais descartáveis. Máscara n95, para o profissional que vai estar tratando dessas pessoas em quarentena.
Rafael: Além da falta de EPIs, outro desafio é lidar com os idosos com sintomas de Covid ou diagnosticados com a doença. Por abrigar pessoas em situação de rua, a casa Ondina Lobo não conseguiu impedir a entrada do coronavírus na instituição e oito idosos testaram positivo.
Paulo Coelho: Nós chamamos o Samu. Seguimos todas as diretrizes do Governo. Nesses casos, a gente deveria comunicar o que foi feito e pedimos que eles fossem transferidos. Porque nós não somos uma casa de saúde, nós não temos estruturas para tratá-los. Ligamos para o Samu e o Samu “não, não é assim, nós vamos mandar uma equipe, essa equipe vai avaliar e aí a gente decide se traz ou não”.
Roberta: Cuidar do idoso asilado nesse momento de pandemia se tornou um debate em diferentes esferas da sociedade. Yeda de Oliveira Duarte, professora da Faculdade de Saúde Pública da USP, dá mais detalhes
Yeda Duarte: Aí, foi feita toda uma discussão de como cuidar das pessoas idosas institucionalizadas nesse momento. Primeiro tem que lembrar que os idosos podem ter sinais, sintomas inexistentes, obscurecidos ou atípicos, o que requer dobrar a vigilância em relação ao comportamento do idoso na instituição e qualquer alteração tem que ser avaliada. E, no caso de ter um idoso que pode ser suspeito, a equipe é orientada a usar o equipamento de proteção individual, o idoso passa a ser colocado em um leito isolado, num quarto privativo com leito isolado. Um quarto privativo dentro da instituição seria um quarto só para ele, com porta fechada e janela aberta, no sentido que o quarto fique ventilado e, na medida do possível, deixar apenas uma pessoa cuidando dele e essa pessoa não deveria cuidar dos outros. O que por si só gera uma série de complicações para várias instituições ou porque não tem espaço para fazer um quarto privativo ou porque não tem número de rh suficiente para deixar uma pessoa só cuidando da pessoa idosa suspeita ou caso confirmado.
Roberta: Yeda também aponta duas dificuldades enfrentadas pelas instituições: a falta de rendimentos dos idosos na pandemia e a falta de subsídios governamentais.
Yeda Duarte: A maior parte das instituições sobrevive com 70% do rendimento da pessoa idosa, que é liberado por lei e elas vivem de doações, festas, uma série de coisas que é feita na comunidade para arrecadação de fundos. Só que neste momento da pandemia, você não está tendo nenhuma dessas iniciativas. Então, a arrecadação de fundos das instituições foi brutalmente diminuída, daí essa medida de liberação de verba neste momento. Porque daqui a pouco a instituição não tem dinheiro para nada, para comprar insumo, para comprar comida etc. Nós fizemos algumas sugestões, conversando com alguns deputados, que, por exemplo, que o repasse federal per capita para as instituições conveniadas deveria ser de pelo menos um salário, porque hoje ele gira em torno de R$ 60 a R$90, o que é uma imoralidade, né. Então, se você aumenta o repasse, pelo menos por um tempo maior, as instituições teriam como se reorganizar nesse sentido.
Discurso de Damares Alves em vídeo: Os idosos foram e estão sendo prioridade neste momento de pandemia. O plano de contingência voltado para a proteção da pessoa idosa contém desde ações de proteção bancária, financeira, proteção contra violência patrimonial, mas também, lá na ponta, com distribuição de EPIs em instituições de longa permanência e o recebimento de denúncias de violência contra idosos. São inúmeras ações no Brasil.
Rafael: Quem está falando é a ministra da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos, Damares Alves. Apesar da ministra relatar que o Governo Federal vem realizando uma série de medidas de apoio às ILPIs, não é isso que é visto na prática. Em consulta ao Portal da Transparência, seu ministério possuía uma verba de R$ 160 milhões para distribuir ao cuidado da população idosa asilada. Até o início de outubro essa verba estava parada.
Roberta: Para saber como estão as políticas públicas voltadas para os idosos residentes de ILPIs, procuramos a Deputada Lídice da Mata, presidente da Comissão de Defesa dos Direitos da Pessoa Idosa da Câmara dos Deputados, a Cidoso. Em nota, a deputada revelou que a situação das ILPIs ainda é grave. Além da carência de um sistema eficiente de políticas públicas voltado às pessoas idosas, o governo demorou a regulamentar os recursos que o Congresso Nacional aprovou para as Instituições.
Rafael: O valor de R$ 160 milhões, encontrado no Portal da Transparência, foi votado e aprovado pela Câmara dos Deputados e pelo Senado Federal, e sancionado como lei no dia 29 de junho. Em 15 de julho, o Governo Federal publicou a Medida Provisória número 991, para possibilitar ao Ministério dos Direitos Humanos o pagamento do auxílio emergencial às ILPIs. Mas essa situação só foi regulamentada no início de setembro. As instituições tinham que fazer o cadastro até 3 de outubro para receber os recursos do auxílio emergencial. Enquanto isso, muitas estão passando por graves situações e, como afirma a própria ministra em um vídeo que circulou no final de setembro, mal sabiam como solicitar esse benefício.
Discurso de Damares Alves em vídeo: O Governo Federal vai repassar um auxílio emergencial para as instituições de longa permanência para idosos. As instituições que acolhem e abrigam idosos. Esse dinheiro já está disponível. Está aqui no nosso ministério. Nós vamos repassar direto para as instituições. Mas as instituições têm que fazer um cadastro no site do ministério. Já recebemos mais de duas mil instituições cadastradas, mas infelizmente algumas não estão com a documentação em dia. E, infelizmente, eu sei que tem instituições lá interior do Brasil que ainda não sabem deste recurso.
Roberta: A deputada Lídice da Mata deu mais detalhes sobre a precariedade das ILPIs. Ela disse em nota: “O Brasil tem uma política pública tímida para esta parcela da população e o orçamento hoje disponível para o setor beira ao ridículo. A maior parte das ILPIs vive de caridade, de doação. Neste momento crítico, é preciso que os recursos orçamentários cheguem às instituições, aos estados e municípios o mais rapidamente possível, para garantir às pessoas idosas o acolhimento e os cuidados necessários com a saúde e com uma velhice mais tranquila”.
Rafael: Lídice também forneceu alguns dados, obtidos em parceria com o Instituto de Pesquisa Econômica e Aplicada, o Ipea. De acordo com ela, existem cerca de 3.500 instituições que atendem pessoas idosas com idade superior a 60 anos, somente 218 são asilos públicos. E em média, cada instituição gasta mais de 700 reais com cada residente.
Roberta: A professora Yeda de Oliveira Duarte, da USP, dá mais detalhes sobre a importância dos órgãos públicos no cuidado da população idosa asilada.
Yeda Duarte: As iniciativas públicas que faltam, do meu ponto de vista, seriam de fato uma central para regular a doação de coisas para as instituições e que possa distribuir de forma equitativa entre as instituições, isso em cada local. Claro que você vai fazer isso com a sociedade, mas precisa ser feito por alguém, o órgão público precisa tomar essa frente. Segundo, tem que se pensar na questão do financiamento, que não apenas o emergencial, mas um que possa progredir para os próximos seis meses a um ano, visando a garantia da qualidade de acolhimento e de assistência a essas pessoas. E a terceira coisa, embora, muito se tenha falado também é necessário que instituições e serviços de saúde realmente conversem. Isso precisa ser gerenciado por alguém que vai saber, num determinado território, quais são as instituições existentes, quais são os serviços de saúde existentes e como se faz esse fluxo e esse fluxo precisa ser publicizado, ou seja, todos tem que saber porque na hora que acontece, eu tenho que rapidamente tomar uma medida.
Rafael: Apesar das divergências políticas, a população idosa asilada segue precisando de cuidados. Para a psicóloga Regina Célia Celebrone, nesse momento de pandemia, medidas especiais são novas demonstrações de carinho.
Regina Celebrone: Ligações individuais ou videochamadas com os idosos e seus familiares, para manter conectado. Conversar, olhar. E explicando para eles o que está acontecendo. Neste momento social, que precisa deste afastamento, desse distanciamento, para esperar isso passar. E se eles fizerem isso, eles estarão ajudando. Porque as pessoas lá de fora podem trazer a doença lá para dentro, e eles ali dentro estarão mais protegidos, inclusive. Colocar o idoso como um sujeito responsável, como protagonista. E, por enquanto, mantê-lo conectado com os vínculos lá fora.
Roberta: A especialista é esperançosa, e espera que o olhar ao idoso, que surgiu com a pandemia, permaneça quando o coronavírus for embora.
Regina Celebrone: Se tem algo que a crise trouxe de bom, vamos por assim, é trazer o idoso em evidência. Embora seja com um tom que ele é a população de risco, grupo de risco para pegar a doença, contrair o vírus e em risco de morte. Vamos pensar que tudo isso vai passar, que a maior parte dos idosos vai sobreviver e aí, que bom que serviu para sensibilizar o olhar da sociedade para quem é o idoso, que ele também tem sonhos, ele também tem projetos.
Íngrida Reis: Eu me chamo Íngrada Reis, estou só com 78 anos. Minha vida foi maravilhosa e é também. Sou muito feliz. Senti saudades de estar com a família. E gostoso é a gente ter saudade, sinal que fomos felizes. E sou também, porque aqui encontrei um lar. Foi difícil, porque eu ainda me julgo muito jovem, apesar da idade…
Rafael: O Oxigênio fica por aqui. O episódio foi apresentado por mim, Rafael Revadam, e pela Roberta Bueno. Nós também fomos os responsáveis pela produção, roteiro e as entrevistas deste episódio. E os depoimentos utilizados neste programa são de hóspedes do Recanto Nova Canaã.
Roberta: As trilhas são da Youtube Audio Library e do Blue Dot Sessions. A revisão do roteiro e a coordenação é da professora Simone Pallone, do Labjor, e os trabalhos técnicos de Rafael Revadam.
Rafael: Você pode ajudar a Casa Ondina Lobo, instituição pública que participou dessa reportagem. Para isso, basta acessar o site deles: www.ondinalobo.org.br/.
Roberta: E você também pode nos acompanhar nas redes sociais. Estamos no Facebook, (facebook.com/oxigenionoticias) e no Instagram e no Twitter, basta procurar por “Oxigênio Podcast”.
Rafael: E você também pode deixar a sua opinião sobre este episódio e sugerir temas para os próximos programas. Basta deixar o seu comentário na plataforma de streaming que utiliza. Até a próxima!
Neste #DiadoPodcast, o Oxigênio traz um novo episódio, que trata da nova rotina que mulheres, que além de cientistas são mães, tiveram que adotar no período de isolamento social por causa da Covid-19. Para tratar do tema, recorremos às cientistas que atuam nos Centros e Núcleos Interdisciplinares de Pesquisa da Unicamp, que são ligados à Coordenadoria de Centros e Núcleos Interdisciplinares de Pesquisa, a Cocen. O aumento da carga de atividades com os filhos e tarefas de casa têm afetado a produção científica dessas mulheres. Embora homens com filhos também manifestem um impacto negativo para suas carreiras neste momento, o que estudos na área de gênero indicam é que as mulheres são as mais sobrecarregadas. As entrevistadas foram as pesquisadoras Alline Tribst, Ana Carolina Maciel, Germana Barata e Priscila Coltri; a professora Guita Debert e os pesquisadores Leonardo Abdala Elias e Manuel Falleiros.
O episódio foi produzido pela Bianca Bosso e pela Beatriz Oretti, com a supervisão de Simone Pallone e Ana Carolina Maciel. A edição foi de Octávio Augusto, da Rádio Unicamp e de Gustavo Campos, do Labjor.
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Roteiro
PRISCILA: Eu fechei a porta aqui e tô num quarto, espero que nenhuma criança atrapalhe e que dê tudo certo.
BIANCA: A paralisação das atividades acadêmicas e escolares presenciais, determinada em virtude da pandemia de covid-19 impôs uma nova rotina às pesquisadoras que são mães.
BEATRIZ: Se antes era possível separar temporal e espacialmente os afazeres profissionais e o cuidado com a casa e os filhos, hoje essas tarefas se misturaram.
BIANCA: Nessa nova realidade, o espaço do trabalho dos pais se mescla com a escola e o lugar de recreação dos filhos / e ao mesmo tempo se tenta dividir o dia para a realização de mil tarefas. O resultado é uma diminuição na produtividade acadêmica, que já foi relatada em estudos realizados durante a pandemia.
BEATRIZ: O Movimento Parent in Science, que trata das consequências da chegada dos filhos na carreira científica de mulheres e homens, fez um levantamento nos meses de abril e maio, pra ver o impacto do isolamento social por causa da Covid. O levantamento revelou que as mães são as principais afetadas. Enquanto sessenta e cinco por cento dos pais entrevistados conseguiram submeter artigos científicos como planejado, esse número caiu para quarenta e sete por cento das mães. Vamos deixar o link para a pesquisa no site.
BIANCA: Eu sou Bianca Bosso, bióloga e divulgadora de ciências
BEATRIZ: Eu sou Beatriz Oretti estudante de jornalismo, e esse é o episódio número 104 do podcast Oxigênio.
Vinheta do Oxigênio
BIANCA: Para analisar o efeito do isolamento social entre pais e mães acadêmicos, realizamos um levantamento de dados com pesquisadores da Coordenadoria de Centros e Núcleos Interdisciplinares de Pesquisa da Unicamp, a Cocen.
BEATRIZ: Ao todo, obtivemos vinte e oito respostas e pudemos perceber algo em comum entre os entrevistados.
BIANCA: Agora, além das atividades de ensino, pesquisa e extensão, as mães pesquisadoras têm de lidar ao mesmo tempo com as demandas do lar e das crianças.
BEATRIZ: A Priscila Coltri, pesquisadora do Centro de Pesquisas Meteorológicas e Climáticas Aplicadas à Agricultura, o CEPAGRI, conta um pouco sobre os desafios de conciliar a criação dos dois filhos, de quatro e seis anos, com o trabalho acadêmico em home office e os serviços domésticos.
PRISCILA: O que é mais difícil é isso, é ter que fazer tudo ao mesmo tempo. A minha funcionária que limpava a casa e fazia almoço e janta estava grávida, então ela teve que ser afastada porque era do grupo de risco. A moça que olhava as crianças à tarde também não foi mais. Então eu fiquei sem nenhum suporte pra casa. Aí eu comecei a trabalhar de casa me dividindo entre todas as coisas que eu tinha que fazer em casa, ou seja, almoço, janta, limpar a casa, lavar roupa e tudo mais, o trabalho home office, né, que é reuniões e a escola das crianças.
BIANCA: A rotina da pesquisadora precisou ser adaptada a essa nova demanda. Parte do seu dia, que antes era dedicado exclusivamente à pesquisa, agora precisa ser dividido entre as inúmeras tarefas do lar.
PRISCILA: Eu mudei um pouco meu horário de trabalho: eu deixei as minhas manhãs para dar suporte a eles na escola, principalmente pra minha filha mais velha que está em fase de alfabetização. Nesse meio tempo que eles estão tendo aula e fazendo atividade e tudo mais, eu vou respondendo alguns alunos e algumas coisas rápidas por email ou mesmo por mensagens, eu lavo uma louça, eu penso no que vai ter de almoço e varro a casa, enfim. Então tudo isso acontece nas minhas manhãs. Dou almoço pra eles por volta de 12h, 12h30 e depois que acaba isso eu começo a fazer o meu trabalho, que vai até 6 e pouco da noite.
E por eles serem crianças eu tenho que estar sempre de olho neles, então assim, se eu pisco o olho, vira um móvel, vira um sofá, pega um doce na dispensa (mas assim, não um doce, muitos doces né), então, mesmo trabalhando, eu tenho que estar vigiando os dois.
BEATRIZ: Se concentrar para a escrita de um artigo ou participar de uma reunião ao mesmo tempo em que supre as necessidades dos filhos é um desafio enfrentado diariamente pela Priscila.
PRISCILA: Eles brigam entre eles e eu tenho que entrar no meio e separar, eles precisam de ajuda nas coisas básicas, no almoço, no lanche, na janta, no banho, quando faz xixi tem que limpar e assim vai, eles querem brincar, eles querem que eu pegue os brinquedos, eles querem que eu leia livrinhos, mas ao mesmo tempo toda hora eu estou fazendo alguma coisa, né, então isso é o que tem sido mais difícil pra mim.
BIANCA: Ana Carolina Maciel, pesquisadora do Centro de Memória da Unicamp, o CMU, e Coordenadora da Cocen, é mãe de uma adolescente de 16 anos e um menino de 9. Ela também assume que o desafio das mães pesquisadoras durante o isolamento social vai muito além de uma simples mudança de ambiente.
ANA CAROLINA: Por trás de uma rotina de trabalho tem uma rotina da casa funcionando ao mesmo tempo. É diferente você sair para trabalhar, você muda o chip, né, você sai desse ambiente e vai para Universidade, consegue se distanciar um pouco da lida doméstica e das preocupações da rotina das crianças. Enquanto que nós estamos trabalhando no mesmo ambiente que as crianças estão estudando, que as crianças estão com ócio com os intervalos do tempo de atividades da escola, sem ter para onde ir, sem ter o que fazer, então é claro que mais do que nunca as mães, no meu caso eu posso dizer isso, né, que nós temos que pensar em várias chaves ao mesmo tempo. Então de repente você tá numa reunião que demanda muita concentração, mas tem todo um funcionamento por trás dessas telas e nosso poder de concentração tem que ficar muito maior do que o normal e uma organização da casa muito estrita para que as coisas possam funcionar e o trabalho possa se desenvolver e a casa estar cuidada, comida na mesa… Então mais do que nunca a mulher tem que assumir muitos papéis, isso é inegável.
BEATRIZ: Germana Barata, pesquisadora do Núcleo de Desenvolvimento da Criatividade, o NUDECRI, também sente que sua rotina foi afetada pela dificuldade de equilibrar suas atribuições como pesquisadora e mãe de dois filhos, de 9 e 13 anos.
GERMANA: Fica muito tênue a nossa linha do que é trabalho e o que é vida particular. A gente acaba tendo mais coisas pra fazer do que normalmente. Às vezes a gente tem que correr dentro da própria casa porque tem reunião agendada ou tem webinar, etc, então tem sido mais difícil ter disciplina de dividir o que é tarefa do lar para tarefas profissionais.
Na pandemia tem me afetado essa questão dos tantos artigos que eu tenho na minha lista ainda pra publicar e que exigem realmente um mergulho em literatura, na escrita. Esse processo de escrita pra mim ele precisa pelo menos 3 horas assim mergulhada nas leituras, na reflexão e isso tem sido prejudicado por tantos acúmulos de tarefas.
BIANCA: Aline Tribst, pesquisadora do Núcleo de Estudos e Pesquisas em Alimentação, o NEPA, também sentiu que sua rotina e produtividade acadêmica foram impactadas pelo isolamento social.
ALINE: As minhas 8 horas úteis do dia, das 8h às 5h que antes eu basicamente dedicava à atividade de pesquisa eu tive que dividi-las um pouco com as atividades escolares da minha filha mais nova para acompanhamento e com algum cuidado diário com a casa. Envolve principalmente fazer tudo caber dentro do tempo. Envolve cuidar desses três eixos: casa, atividade escolar das crianças e o meu trabalho, isso eu tento espremer durante o dia mais ou menos do jeito que dá. A minha percepção é que tudo fica pior do que poderia ser, do que era antes, quando os tempos eram mais bem delimitados.
BEATRIZ: Guita Debert, docente no Departamento de Antropologia da Unicamp, estuda questões de gênero e família e explicou ao Oxigênio que um terceiro turno foi acrescido à rotina de mães pesquisadoras durante a pandemia.
BIANCA: Esse turno extra envolve acompanhar as aulas feitas online e as atividades de acompanhamento escolar das crianças. Assim, as mães passam também a assumir o papel de educadoras, além de não poderem contar com a ajuda de empregados domésticos e dos seus pais idosos que se transformaram num grupo de risco e em princípio deveriam estar isolados dos netos e filhos adultos.
BEATRIZ: E será que esse terceiro turno impactou na produtividade acadêmica dessas pesquisadoras?
BIANCA: A resposta é sim. Bom, pelo menos é o que indicam os relatos. A Germana estima que essas atribuições extras reduziram sua produtividade no trabalho em torno de 50%. A Aline também mencionou que o tempo dedicado à pesquisa caiu em torno de 30% em sua rotina. Isso pode afetar a carreira dessas pesquisadoras futuramente…
BEATRIZ: E como será que os pais pesquisadores foram afetados por essa nova realidade?
BIANCA: Eu conversei com o Leonardo Abdala Elias, pesquisador e coordenador do Centro de Engenharia Biomédica, o CEB, que é pai e também se vê sobrecarregado com as atividades do lar e trabalho. Ele e a esposa são docentes e têm tentado estabelecer uma rotina organizada, mas com um filho de um ano e meio acabam tendo dificuldades.
LEONARDO: Esse cuidado com a casa e com a família que passou a ser prioridade máxima nesse momento e aí óbvio você tem que ter uma estruturação de horários. A agenda é bastante rigorosa para conseguir passar e conseguir atender a todas as demandas. Eu não tive muito assim uma lógica para essa organização, então em alguns momentos as coisas apertaram eu tive reuniões com o meu filho no colo. Então não foram momentos fáceis né.
BEATRIZ: Notei que todos os pesquisadores que conversamos precisaram aumentar o horário de trabalho e agora realizam pesquisas à noite, de madrugada e também aos fins de semana.
PRISCILA: Depois que eles dormem eu continuo trabalhando e trabalho também de sábado e domingo, porque aí eu compenso um pouco essas manhãs que eu tenho que ficar com os dois.
GERMANA: Muitas vezes eu tenho também que estender pra de noite, esse trabalho, né, estender esse horário pra conseguir dar conta de todas as coisas.
ALINE: Eu trabalho também à noite, no começo da noite, ou aos fins de semana pra tentar dar uma compensada na redução dessa minha jornada dedicada à pesquisa.
BEATRIZ: Essas foram a Priscila, a Germana e a Aline.
BIANCA: Isso me lembrou de uma conversa que tive com outro pesquisador. Assim como o Leonardo, outros pais também têm participado da nova rotina de casa e filhos e vêem um impacto negativo em seu trabalho. Manuel Falleiros, pesquisador do Centro de Integração, Documentação e Difusão Cultural, o CIDDIC, tem 2 filhos pequenos. Desde o início da pandemia, sua rotina, como a de todos, mudou. Com os filhos dentro de casa o tempo todo, exigindo cuidados, parte do seu trabalho é feito de madrugada.
MANUEL: Eu tenho, na medida do possível, dividido as tarefas e o trabalho né? Pois minha esposa também trabalha em casa e ela precisa de tempo para realizar as reuniões que são online e também o trabalho que precisa ser feito. Muito provavelmente se no meu caso eu deixasse a maior parte das tarefas né, que se eu não as realizasse eu certamente teria mais tempo para as minhas tarefas de trabalho e conseguiria realizar todas a tempo. O que não está acontecendo, sem a dificuldade e o preço de trabalhar de madrugada e não poder contar com descanso.
BEATRIZ: Para quem tem filhos pequenos como a Priscila, o Manuel e o Leonardo, durante o isolamento os cuidados com as crianças norteiam a organização da rotina de trabalho.
LEONARDO: Nós em casa nós temos um filho de 1 ano e meio. Então o cuidado com ele foi assim essencialmente. Isso norteou toda nossa estruturação em casa, que era para cuidar do nosso filho e a gente acabou obviamente tendo um impacto nas atividades acadêmicas e profissionais, que tornou assim o dia a dia bastante difícil.
BIANCA: Na nossa conversa com a professora Guita Debert, ela explicou que há um ideal de divisão na realização do trabalho doméstico. Apesar disso, os dados das pesquisas mostram que mesmo que os homens estejam se dedicando mais às demandas de casa, ainda assim o tempo gasto pelas mulheres nessas tarefas é muito maior do que o dos homens.
BEATRIZ: Algumas das falas corroboram o apontamento da pesquisadora Guita: embora não seja uma queixa de Aline e Priscila, a rotina de trabalho de seus parceiros durante a pandemia não permite que eles dividam igualmente os cuidados do lar e com os filhos. Seja por terem continuado com o trabalho presencial ou por não conseguirem adaptar seus horários ao novo cenário.
BIANCA: Além disso, há casos específicos em que funções não podem ser assumidas pelos parceiros, como a amamentação de crianças pequenas, por exemplo.
BEATRIZ: O conceito de que as mães devem assumir as responsabilidades pelos filhos e lar quase integralmente está enraizado em nossa sociedade e é reforçado por comportamentos que, à primeira vista, podem parecer inofensivos… O Leonardo tem um bom exemplo de como isso ocorre.
LEONARDO: O grupo da escola onde nosso filho ficou, eles o tempo todo falavam: “ah, as atividades que a mãe vai fazer com o filho…”, então até a própria sociedade acaba colocando isso. E a gente fala: “não, mas não é a mãe que vai fazer essa atividade, nós vamos fazer juntos!” Eu acho que a sociedade tem muito ainda essa visão da mulher com o cuidado da casa e com o cuidado dos filhos e o marido indo trabalhar fora de casa.
BIANCA: Priscila destaca que já existem grupos de pesquisa analisando a questão de gênero, maternidade e ciência, como o Parent in Science, que citamos no início do episódio.
PRISCILA: Existem algumas iniciativas muito legais, uma se chama por exemplo, Parent in Science, que discute a maternidade e a Ciência. E eu acho que tinha que ter mais iniciativas como essa.
BEATRIZ: Esse movimento tem o objetivo de levantar a discussão sobre a maternidade e paternidade no universo acadêmico. O grupo promove ações de pesquisas, simpósios e debates trazendo a maternidade na carreira científica para o centro da conversa.
BIANCA: O grupo realizou um levantamento sobre a produtividade acadêmica durante o isolamento que revelou que somente 8% das mulheres estão conseguindo trabalhar remotamente. Quando analisamos separadamente mulheres com filhos e sem filhos, vemos que somente 4,1% das mulheres com filhos estão trabalhando normalmente enquanto 18,4% das mulheres sem filhos conseguiram manter sua rotina de trabalho.
BEATRIZ: Já entre os homens a porcentagem é bem diferente. 14,9% dos homens com filhos conseguiram manter suas atividades remotamente, enquanto 25,6% dos homens sem filhos continuaram trabalhando normalmente no período de isolamento.
BIANCA: Para verificar se esses números correspondem à realidade dos pesquisadores dos Centros e Núcleos da Cocen, realizamos um levantamento online. Obtivemos 28 respostas, das quais 64,3% foram de mulheres. Isso revelou que 54,5% dos entrevistados com filhos admitem que houve diminuição em sua produtividade durante o período de isolamento. Além disso, 77,3% concordam que as medidas de isolamento social aumentaram sua carga de tarefas.
BEATRIZ: Para esse mesmo dado, 66,7% dos pesquisadores sem filhos relatou que notou diminuição em sua produtividade, sendo que 50% deles notou aumento em sua carga de tarefas. Ou seja, apesar dos pesquisadores sem filhos relatarem diminuição em sua produtividade, o aumento na carga de tarefas não foi tão notável quanto para os que têm filhos.
BIANCA: Vemos que muitos pesquisadores foram afetados e tiveram suas rotinas mudadas de alguma forma. Decidimos perguntar a eles quais iniciativas poderiam ajudar pais e mães pesquisadores durante e mesmo após o isolamento. E eles nos apresentaram algumas propostas.
BEATRIZ: Priscila destaca que antes de tudo, devemos buscar a eqüidade no ambiente de trabalho:
PRISCILA: Eu acho que é muito importante a gente entender a diferença entre igualdade e equidade nesse sentido. Então, igualdade é dar condições iguais a homens e mulheres. Mas na maioria das vezes, na ciência, isso a gente já vê, homens e mulheres têm condições iguais de trabalho. O problema é que as mulheres têm muito mais coisas que elas levam nas costas do que os homens. Então, aí a gente não vê equidade entre os gêneros. As mulheres têm que cuidar dos filhos, levar na escola, ir na reunião da escola, fazer o lanche, fazer atividade, limpar a casa, cuidar da roupa e fazer tudo o que elas já fazem com a casa e com as escolas, mais o trabalho delas. E na maioria das vezes, o que eu vejo não só do meu lado, mas de outros também, é que isso não acontece no gênero masculino.
BIANCA: Leonardo e Aline concordam que o período de quarentena deve ser encarado de uma forma diferente pelas agências de fomento e instituições de ensino:
LEONARDO: Eu acho que isso tem que ser visto com bastante tranquilidade pelas agências em prorrogar os tempos de entrega de relatórios, de não ter uma cobrança excessiva pela produção naquele momento. Porque eu acho que o cuidado principal é o cuidado dos filhos e da família ali naquele momento.
ALINE: É muito difícil de se cobrar qualquer coisa nesse momento de qualquer pessoa, seja mulher ou seja homem, então quem conseguiu se organizar ou manter uma produtividade, conheço pessoas que inclusive com o fato de estar isoladas em casa conseguem se concentrar mais, estão até mais produtivas do que estavam no ambiente acadêmico, então pra essas pessoas, ótimo, mas que não sejam penalizadas aquelas que pelos mais diversos motivos não conseguiram.
BEATRIZ: Ana Carolina conta que apesar de ter encarado desafios inerentes à nova situação, foi uma dessas pessoas que conseguiu aproveitar o período para criar novos projetos. A pesquisadora e coordenadora da Cocen explica que além de continuar suas funções, criou um novo projeto durante o isolamento: o Memórias covid-19.
ANA CAROLINA: Bem, a pandemia acabou me inspirando a fazer um novo projeto de pesquisa. Eu tenho um temático na Fapesp e eu propus um subprojeto que se trata da plataforma memórias covid-19. Como eu trabalho com memória e com trajetórias de vida, logo no começo da pandemia eu achei que seria importante ter algum projeto ligado a isso e eu fui desenvolvendo esse projeto ao longo dos últimos meses.
BIANCA: A pesquisadora contou como funciona o projeto.
ANA CAROLINA: É uma plataforma memórias covid-19, onde as pessoas podem compartilhar os seus relatos seus olhares sobre esses tempos de pandemia, não necessariamente que tenha adoecido ou que esteja conseguindo fazer isolamento, mas cada um de nós que tem uma vivência sobre isso uma interpretação desses tempos. Então as pessoas podem enviar fotografias, vídeos, textos, áudios é uma plataforma que aceita vários formatos e eu acho que é uma coisa muito importante que a gente vai delineando aí um arquivo memorial dessas vivências. Então em termos de pesquisa na verdade eu abri mais uma frente de trabalho não diminuiu a produtividade muito pelo contrário potencializei a minha produtividade para pensar e refletir esse momento causado pela pandemia.
BEATRIZ: Para saber mais sobre o projeto e enviar seu relato, você ouvinte pode acessar as redes sociais procurando por Memórias Covid-19.
BIANCA: No entanto, é importante relembrar que, por diversos motivos, isso não foi uma realidade experienciada por todas as mães pesquisadoras. Pensando nisso, a Germana sugere a adoção de algumas iniciativas que a Unicamp, outras universidades e as agências de fomento podem implementar para ajudar as mães cientistas após o isolamento social:
GERMANA: Talvez fosse interessante que as Universidades trouxessem rodas de conversa entre pesquisadoras, cientistas mães, com estudantes, homens e mulheres. Ter esse reconhecimento por exemplo no Lattes, com esse movimento de definir “olha, eu sou mãe, então, não é assim, “tenha pena de mim”, não é isso, mas é “considere que eu tenho tarefas gigantescas além do trabalho, né, o olhar não pode ser o mesmo de uma mulher sem filhos. Isso é algo que eu coloco e coloquei ao longo da minha trajetória nos relatórios pra Unicamp, pra mostrar minha produção, sempre lembrar as pessoas que estão me avaliando de que “olha, essa é toda a minha produção e eu tive dois filhos nesse percurso ou tive um filho nesse momento”, pra isso ser considerado.
BEATRIZ: Ana Carolina também traz uma reflexão sobre a condição das mulheres que atuam na área científica para além do período de pandemia que estamos vivendo.
ANA CAROLINA: Eu acho que nós temos ainda um longo percurso. Muitas vezes o fato da mulher ter que se ausentar durante o período para cuidar dos seus filhos etc. das licenças maternidade… de repente ela volta e tem um acúmulo esperando, eu acho que teria que ter um olhar mais atento a isso em termos de produção para uma mãe que tem filhos pequenos, pensar essa questão dos múltiplos papéis.
BIANCA: Como ouvimos neste programa, é necessário e importante falar sobre a maternidade no meio acadêmico, ainda mais nesse período de distanciamento social que estamos vivenciando – quando tudo saiu dos eixos e todos tivemos que nos adaptar a uma nova situação de vida.
BEATRIZ: Esse foi o objetivo desse episódio do Oxigênio, dar voz a essas pessoas para contarem o que estão passando nesse tempo e evidenciar que ainda há sim muito a ser feito.
BIANCA: O Oxigênio vai ficando por aqui. O episódio foi apresentado por mim, Bianca Bosso, e pela Beatriz Oretti. Nós também fizemos as entrevistas, escolhemos as trilhas e construímos o roteiro.
Esse episódio é parte de um projeto do Programa Mídia Ciência, da Fapesp, supervisionado pelas pesquisadoras Simone Pallone e Ana Carolina Maciel.
BEATRIZ: As trilhas são da Youtube Audio Library e a revisão do roteiro é da professora Simone Pallone, do Labjor. Os trabalhos técnicos são de Gustavo Campos e a edição de Octávio Augusto, da Rádio Unicamp.
BIANCA: Você pode nos acompanhar nas redes sociais do Oxigênio. Estamos no Facebook, (facebook.com/oxigenionoticias – tudo junto e sem acento), no Instagram (@radiooxigenio) e no Twitter (@oxigenio_news).
BEATRIZ: Siga também as redes sociais da Cocen, Facebook e Instagram (@cocenunicamp), além do site (cocen.unicamp.br).
BIANCA: Você também pode deixar a sua opinião sobre este episódio e sugerir temas para os próximos programas. Basta deixar o seu comentário na plataforma de streaming que utiliza. Até a próxima!
É comum encontrar os secadores elétricos nos banheiros por aí, mas será que ele é melhor ambientalmente do que as toalhas de papel? Em 2019, a FGV substituiu as toalhas de papel por secadores elétricos o que fez algumas pessoas levantarem essa questão. A equipe de Avaliação do Ciclo de Vida (ACV) do Centro de Estudos em Sustentabilidade da FGV se prontificou a realizar um pequeno estudo que ajuda a responder à questão. Esse episódio contou com a participação de Juliana Picoli e Ricardo Dinato, especialistas em ACV.
Este é o primeiro episódio da série Gaia, uma produção do podcast Oxigênio, do Labjor/Unicamp. A produção é feita por Oscar Freitas Neto. O projeto conta com a orientação de Simone Pallone.
Músicas:
Imagem:
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OSCAR: Eu sempre ia para o trabalho de ônibus. Trabalho no Centro de Estudos em Sustentabilidade da FGV que fica na avenida Nove de Julho em São Paulo. E a primeira coisa que fazia quando chegava era lavar a mão para tirar aquela sensação de mão suja. E que bom sempre tive esse costume. Um dia no ano passado,
BARULHO DE PORTA E MÃOS LAVANDO
OSCAR: eu cheguei, lavei as mãos e não encontrei o papel para enxugar.
BARULHO DE SECADOR
RICARDO: O papel toalha não estava mais lá… tinham colocado ali os secadores de ar
OSCAR: Esse é o Ricardo Dinato, especialista em Avaliação de Ciclo de Vida.
RICARDO: Começou ali a discussão, porque eu acho que muitas pessoas não gostam do secador a ar, preferem as folhas de papel. E aí veio, pô, será que ele pelo menos é melhor do ponto de vista ambiental? Umas duas, três pessoas perguntaram, comentaram. A gente falou não sei, tem alguns estudos, mas cada um fala uma coisa, depende muito das premissas. A gente falou, vamos fazer, vamos ver o que dá.
OSCAR: Eles resolveram fazer um pequeno estudo usando a Avaliação de Ciclo de Vida, também conhecida como ACV
JULIANA: É uma técnica para estimar os impactos ambientais de um determinado produto ou serviço olhando para todo o ciclo de vida desse produto ou serviço
OSCAR: Essa é a Juliana Picoli. Ela fez a revisão do estudo
JULIANA: Ela considera, então, todo o ciclo de vida desde a primeira interação da natureza que esse produto teve que passar até o seu descarte no fim de vida desse produto, né?
OSCAR: Então o estudo tem que considerar cada pequeno caminho, cada a cadeia que interage com esse produto. Pegando por exemplo o papel
MÚSICA
OSCAR: Tem que considerar
RICARDO: Desde o viveiro ali que faz as mudas
OSCAR: Na fase de plantação, a fabricação de cada insumo, cada fertilizante e defensivos agrícolas.
RICARDO: Aplicação desses produtos.
OSCAR: Que também emitem algumas substâncias.
RICARDO: E depois que elas chegarem num tamanho adequado, ela vai ser cortada. Vai para a indústria. Onde ela vai ser processada e se transformar primeiro em celulose, depois em papel.
OSCAR: Tem ainda a embalagem, o transporte de caminhão para um centro de distribuição, para um mercado e para a FGV onde ele é usado.
RICARDO: Mas não termina o ciclo de vida dele ainda. Porque a gente joga ele no lixo e esse lixo vai ser recolhido e vai ser transportado para um aterro sanitário onde ele vai passar alguns anos se decompondo. E só quando terminar a decomposição desse papel, aí sim termina o ciclo de vida desse papel.
FIM DA MÚSICA
OSCAR: É muita coisa para considerar, né?
RICARDO: Com certeza. É por isso que a gente utiliza software, nesse software tem umas bases de dados. E para esse estudo, por exemplo, a gente trabalhou basicamente com dados secundários. A gente foi nessa base de dados com estudos que outras pessoas fizeram e foi juntando tudo isso para poder ter ali o papel. Então a gente não foi atrás do fabricante de papel para coletar esses dados.
OSCAR: A ideia deles era fazer um estudo mais simplificado que é chamado de screening
RICARDO: Que é uma coisa que se consegue fazer rapidamente e que você pode ter um resultado interessante para apresentar. A gente queria mostrar para o pessoal que a ACV nem sempre é um estudo que leva meses e que custa milhões de dólares para ser feito.
OSCAR: Os únicos dados que eles coletaram diretamente foram quantas folhas de papel cada pessoa usa para secar as mãos e quanto tempo usam no secador
RICARDO: Era divertido porque toda vez que o pessoal ia no banheiro falava: Ah eu vou cronometrar agora, vou ver quantas folhas deu. Então é interessante isso, acho que só da pessoa parar para pensar o que você precisaria de informação para fazer as contas já é uma coisa interessante para a gente que trabalha na área. E, enfim, aí o pessoal coletou os dados, a gente fez os cálculos e chegou ali num resultado que até para gente foi surpreendente.
MÚSICA
OSCAR: Quando se considera a implementação de um projeto como esse, a questão ambiental é importante, mas não é a única a ser considerada. Vamos pegar, por exemplo, a questão financeira. As empresas têm gastos com o descarte de lixo que deve diminuir com o uso dos secadores. Tem ainda os impactos em logística e operacional. Com o papel, tem um processo cíclico de compras, precisa armazenar e a equipe de limpeza tem que estar sempre trocando por um novo rolo de papel. Ou seja, tem várias questões a considerar e isso também se aplica às nossas decisões do dia-a-dia.
RICARDO: Então quando a gente traz um resultado e o desempenho ambiental de uma opção é melhor do que a outra, não quer dizer que você tem que usar essa opção. Quer dizer que na sua opção ali esse é um aspecto que você pode levar em consideração. Eu dou exemplo. Você chega ali no supermercado, você tem que escolher entre o produto A e B, vamos supor um alimento A e B. Você vai ali levar em consideração o preço, a qualidade, se ele é gostoso ou não, se ele é saudável ou não, talvez você pense algumas questões sociais relacionadas ao produto, se ele é mais natural, se ele é muito processado e a questão ambiental é mais um característica que você pode levar em consideração.
JULIANA: E a tendência é que cada vez mais os aspectos ambientais e o desempenho ambiental de um produto ou de outro seja levado em consideração para ajudar a tomada de decisão de empresas, até do consumidor comum.
OSCAR: E, de modo, geral todo mundo quer fazer escolha mais correta.
RICARDO: O problema é que a gente não sabe qual é a decisão correta. No dia-a-dia, a gente acaba indo muito nesse conhecimento que a gente já tem que a gente supõe que é a melhor decisão. E uma das utilidades, umas das aplicações interessantes da ACV é exatamente isso. Trazer ali uma informação com maior qualidade para ajudar a gente nessas decisões.
OSCAR: A comparação de produtos com uma mesma função, como é o estudo que a gente está falando, é só uma das aplicações da ACV.
JULIANA: É a ACV ela é bastante utilizada e vem sendo cada vez mais porque ela tem várias aplicações. Ela pode ser utilizada para ecodesign. Então se eu estou desenvolvendo um novo produto e quero que ele tenha um desempenho ambiental melhor, eu faço um estudo de ACV para ver se eu vou usar um material A ou B na minha formulação desse meu produto. Além disso, ela pode ser utilizada até para políticas públicas. Já existem políticas públicas nacionais, inclusive, que utilizam a pegada de carbono, a avaliação de ciclo de vida para calcular e estimar os impactos ambientais.
RICARDO: Uma outra coisa muito interessante é o seguinte: eu tenho um fabricante de um determinado produto e ele quer conhecer o ciclo de vida do seu produto e entender onde estão os principais impactos ambientais, em qual parte da cadeia estão o que estão o que a gente chama de pontos críticos ou hot spots. Então a gente muitas vezes vê uma empresa trabalhando para reduzir determinado impacto ambiental de um produto, mas se ele não fez esse estudo, ele não sabe qual o melhor local ali de aplicar. Às vezes ele está trabalhando na embalagem do produto, mas o importante não era isso, seria um outro ponto ali para reduzir os impactos ambientais.
OSCAR: Mas, pelo menos aqui no Brasil, o consumidor ainda não tem tanto acesso a esse tipo de informação.
RICARDO: A gente depois que começa a trabalhar com isso fica um pouco paranoico porque começa a pensar em tudo que precisa para chegar naquilo e às vezes a gente tem que deixar um pouco de lado para conseguir comprar alguma coisa. Eu brinquei outro dia que minha esposa não gosta de ir ao supermercado comigo, né? Porque cada produto que eu vou escolher, eu gosto de ficar vendo rótulo, aonde que ele foi fabricado, tentar imaginar tudo isso. E, claro, não dá para levar tudo isso em consideração, mas a gente usa o que a gente chama de pensamento de ciclo de vida. Que não é um estudo propriamente dito, você não vai fazer nenhuma conta, não tem nenhum número, mas você começa a imaginar algumas coisas, supor. Eu lembro de um caso, uma vez, que eu fui comprar um enxaguante bucal. Tinha um enxaguante de 500 ml e um outro da mesma marca de 1 litro e o de 500 ml e o de 1 litro vinha dos EUA. Então eu fiquei pensando, transportas água dos EUA até o Brasil não é uma boa coisa muito inteligente. Então, esse tipo de pensamento a gente pode ter na tomada de decisão do supermercado e na época eu acabei optando pelo produto que era made in Brazil. Mas, de fato, a gente tem ali alguns segundos de decisão quando a gente vai fazer uma compra no supermercado porque tem sempre um monte de coisa para comprar. E é muito difícil de pensar nisso tudo em tão pouco tempo.
MÚSICA
OSCAR: Em um estudo de ciclo de vida são avaliadas 18 categorias de impactos.
JULIANA: A gente considera, por exemplo, mudanças climáticas que é o que o pessoal chama de pegada de carbono, considera o consumo de água que é a pegada hídrica, tem toxicidade que causa danos tanto na saúde humana quanto no ecossistema, acidificação terrestre que a famosa chuva ácida, tem a depleção da camada de ozônio que é outra categoria estudada, o uso do solo, uso da terra, ou seja, ela considera quanto de terra ela precisa no ciclo de vida inteiro para determinado produto.
RICARDO: Tem o que o pessoal chama de poluentes locais, que é tanto emissão de material particulado, quanto formação de ozônio em baixas altitudes, que é aquela poluição que provoca danos à saúde, ao sistema cardiorrespiratório.
OSCAR: Voltando ao estudo. Quando analisado o ciclo de vida do papel e do secador, eles perceberam que duas etapas eram as principais.
RICARDO: No caso do papel, o principal é realmente a quantidade de papel. A gente considerou transporte do papel até a quilha, depois o transporte até o aterro, a fabricação do suporte onde fica o papel, mas a gente percebeu de fato o principal o processo de fabricação do papel que ele era o responsável por praticamente todos os impactos ambientais. No caso do secador elétrico, a gente também considerou transporte, considerou a fabricação do secador elétrico, um transporte desse secador para uma possível reciclagem, depois que ele não estiver mais funcionando. Mas, sem dúvida, o principal era a energia elétrica durante o tempo que a pessoa estava secando as mãos. Então dos dois lados, de um é basicamente quantas folhas a pessoa usa e, do outro, quanto tempo a pessoa demora para secar as mãos.
OSCAR: Mas e a fabricação do secador?
RICARDO: Porque de fato você tem um impacto bastante grande para fabricar o secador elétrico. A questão é que ele tem uma vida útil muito grande e cada utilização responde por apenas uma pequena fração da fabricação desse secador. Por isso, que a gente acaba tendo um impacto pequeno para a fabricação dele.
OSCAR: E daí a importância de estender a vida útil dos produtos.
RICARDO: Uma calça jeans, por exemplo, o impacto ambiental da fabricação da calça jeans pode ser grande. Se você utilizar a calça jeans 100 vezes antes de jogar fora, você vai ter esse impacto ambiental dividido por 100. Se for uma roupa que você vai utilizar apenas 10 vezes, você dividir o impacto ambiental por 10. Então, para todos os produtos isso é bastante válido. De modo geral, conforme você aumenta a vida útil do produto, você divide esses impactos por uma quantidade maior de utilização e acaba reduzindo o impacto por utilização.
OSCAR: No caso desse estudo a quantidade de folha que as pessoas usavam não variava muito, ficava entre 2 ou 3.
RICARDO: Agora no caso do secador variou bastante, desde pessoas que colocaram 5 segundos até gente que colocou mais de um minuto para secar as mãos. Então é interessante que depende muito como a pessoa tá fazendo a sua análise. Talvez a questão do secador elétrico é que, para você sair com a mão totalmente seca, você precisa ali de um tempo razoável. Totalmente seca mesmo, mais de 20 segundos para secar as mãos. Mas na prática as pessoas não têm paciência de esperar, então, o que a gente percebe é que as pessoas acabam saindo com a mão um pouco úmida e utilizando um tempo menor. É interessante porque, por um lado o secador elétrico não cumpre totalmente sua função que seria secar as mãos. A pessoa acaba terminando o serviço na calça jeans. Mas, por outro lado, ele acaba tendo um desempenho ambiental melhor ainda porque, como a pessoa não tem paciência, ela usa menos e impacto ambiental também diminui.
OSCAR: Quer dizer que tem de considerar a calça na ACV também?
RICARDO: É, vai molhar um pouco a calça ali, né? Mas não saberia como considerar.
OSCAR: Bom, mas e o resultado?
RICARDO: O desempenho ambiental do secador elétrico foi bem superior, ou seja, ele apresentou impacto ambiental bem menor.
MÚSICA
RICARDO: Mas o pessoal não gostou muito do resultado. Porque existe uma certa resistência com o secador elétrico que de modo geral as pessoas não gostam muito e tinha bastante gente que queria conferir os resultados, refazer os cálculos.
OSCAR: Mas não tinha muito que fazer não. O secador ganhou de lavada.
JULIANA: Foram em várias categorias. Então a gente consegue dizer que é um estudo conclusivo, consegue afirmar que o secador elétrico foi superior.
RICARDO: Das 18 categorias analisadas, em 17 ele ganhou e, em uma, foi um empate técnico.
OSCAR: O que geralmente não é esperado nesse tipo de estudo.
RICARDO: Eu não esperava que o resultado fosse tão forte para um lado nem para outro. Eu esperava que o resultado que parecesse aquilo que a gente chama de trade off. Trade off é quando uma alternativa vence em algumas categorias de impacto ambiental e perde em outras e você tem que avançar no estudo para decidir afinal qual das duas é melhor.
OSCAR: Mesmo sendo um estudo bem simplificado, um dos lados ter ganhado de lavada dá uma credibilidade bem maior.
RICARDO: Porque ainda que você modifique algumas informações, alguns dados, dificilmente a outra opção vai virar completamente o jogo. Talvez esse resultado não seja tão de lavada assim. Talvez se a gente buscar dados primários talvez esse estudo possa talvez chegar mais próximo de um empate por conta dos trade offs. Mas eu acho muito difícil que o resultado totalmente invertido.
OSCAR: Mas a gente tem que lembrar que não dá para bater o martelo definitivamente.
RICARDO: O secador elétrico possui um desempenho melhor dentro de todas as limitações, premissas e suposições do nosso estudo. Isso é válido especificamente para esse cenário que foi desenhado. Então se esse mesmo estudo for feito em outro país, por exemplo, o resultado pode ser totalmente diferente.
JULIANA: Em estudos de ACV, principalmente esse estudo que a gente chama de screening, existem muitas incertezas associadas ao resultado final. Mas é um estudo que, por um lado, tem todas essas incertezas, mas, por outro, ele te dá um resultado mais rápido, é um estudo mais simples onde eu preciso coletar menos dados e é utilizado para a gente ter uma ideia inicial de como vai ser o resultado, que dados eu preciso utilizar para depois, caso seja uma decisão que não seja essa do dia-a-dia, que vá causar grandes implicações, se for numa empresa, por exemplo, que ela vai decidir de qual fornecedor ela vai comprar. Aí ela teria que fazer estudos mais complexos, coletando dados primários e aí sim diminuir as incertezas da ACV.
RICARDO: E outra questão também é o seguinte quando a gente faz um estudo comparativo sempre alguém vai ganhar e alguém vai perder. E quem perde sempre fica bravo. Aí para esse tipo de situação é importante fazer um estudo realmente mais completo.
MÚSICA
RICARDO: A Europa já dá sinais bem claros que eles vão começar a demandar esse tipo de informação de todos os produtos importados pelo bloco econômico ali, pela União Europeia. Já tem sinais bem claros que se o Brasil ou qualquer outro país quiser continuar exportando seus produtos para a União Europeia, vai precisar no mínimo ter um estudo sobre os impactos ambientais. Por enquanto, não se fala muito de algum limite de que o produto tenha que seguir algum determinado padrão de emissões ou de impactos. Mas ao menos o relatório, o estudo cada vez é mais comum e a Europa é possível que torne isso obrigatório.
JULIANA: A ACV caminha, em alguns casos, ela caminha para a certificação mesmo. Para eu conseguir um selo lá e diferenciar meu produto dos demais. Tanto certificação entre empresas que a gente fala que é B2B. Ou também B2C que seria chegando no consumidor final.
RICARDO: E se a gente olhar em outros países, né? Essa questão de certificações ou rotulagens, elas são mais bem comuns também no consumidor final. Então, EUA, Europa, Japão é comum chegar no supermercado e encontrar ali a pegada de carbono ou a pegada hídrica de alguns produtos.
OSCAR: No Brasil, ainda não é comum, mas pode ser que mude num futuro próximo.
RICARDO: Mas eu lembro da minha avó sempre falava: Ah, quando era pequena não tinha nada disso de validade, isso é tudo besteira. E hoje a gente não acha besteira, né? Eu não compro um produto se ele tiver vencido. E a gente acredita que, em médio prazo, esse tipo de coisa também vai acontecer com os impactos ambientais. Muita gente hoje acha que é besteira, mas com certeza algumas coisas vão mudar e em médio prazo.
MÚSICA
OSCAR: Esse foi o primeiro episódio da série Gaia, um podcast sobre os desafios do desenvolvimento sustentável e da mudança do clima. A série é uma produção do Oxigênio, do Labjor/Unicamp. A produção e edição é feita por mim, Oscar Freitas Neto.
Este programa explora a construção dos conceitos científicos que são apresentados em Dark, uma aclamada série alemã de ficção, suspense e drama que está disponível no canal de filmes via streaming Netflix. Dark é muito conhecida pelo alto grau de complexidade do seu roteiro, que traz diversos elementos da física. Mas o que será que realmente é ciência por trás da série? Como é que os autores conseguem escrever uma história que envolve conceitos difíceis ligados de forma tão complexa? Quem vai ajudar as jornalistas Caroline Maia e Mariana Hafiz a responder essas perguntas, fazendo uma imersão ao universo de Dark são o físico Willian Abreu e o escritor de ficção científica Fábio Fernandes. E aqui você tem o roteiro completo para acompanhar o programa. Seja bem vindo à física criativa de Dark, o episódio 102 do podcast Oxigênio.
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Willian: A própria série continuamente faz referências a artigos científicos, como por exemplo os artigos de F. Englert e R. Brout, de 1964 e do próprio Higgs, fazendo uma associação, uma menção rápida ao bóson de Higgs
Fábio: O roteiro é fundamental, porque como viagem no tempo é uma coisa que não existe, a gente pode brincar com teorias
Willian: Para que o bóson de Higgs fosse evidenciado, foi necessário a construção de um enorme acelerador de partículas na Europa, chamado LHC. Enfim, fica claro que não é possível que uma usina nuclear possa gerar isso.
Fábio: Na ficção, o importante é o que Rolland Barthes chamava de “efeito de real”: tem que provocar na pessoa – no leitor ou no espectador – a sensação de que aquilo ali é real ou poderia ser real
Willian: É realmente uma liberdade 100% artística e que não tem nenhuma relação com o que é de fato representado no universo.
Fábio: Usar só o artifício de botar a história no futuro não basta, tem que saber escrever a história mesmo. Saber como escrever a narrativa. E aí é uma coisa que não é ficção científica, é da literatura ou do roteiro.
Caroline: Dark é a primeira série original alemã da Netflix, de drama, suspense e ficção científica. Ela foi eleita a melhor série da Netflix, superando as famosas Stranger Things e Black Mirror. Com 3 temporadas, a série é reconhecida pelo enredo sombrio e super complicado que envolve viagem no tempo. A primeira temporada estreou em dezembro de 2017 e a terceira e última saiu mais cedo esse ano, em julho de 2020.
Mariana: Por envolver viagem no tempo, a série faz várias menções a temas científicos de física. Inclusive o primeiro episódio já começa com uma fala de Albert Einstein sobre o significado de tempo. Mais especificamente, Dark aborda muitos conceitos de fissão nuclear, por conta de uma usina nuclear, que é central no enredo.
Caroline: Buracos negros, Ponte de Einstein-Rosen, O paradoxo de Bootstrap, Boson de Higgs…esses são alguns dos elementos da física que a série explora. Mas será que ‘essa ciência’ que a série mostra é real? As coisas que acontecem lá poderiam mesmo acontecer na realidade? E com essa complexidade toda envolvendo física e ficção científica, como é que os roteiristas constroem histórias como Dark?
Mariana: Pra responder essas perguntas, entender melhor a física por trás de Dark e a construção do roteiro de séries como essa, o Oxigênio de hoje mergulha no universo dessa já premiada série. Eu sou a Mariana Hafiz.
Caroline: E eu sou a Caroline Maia. E começa agora o episódio 102, A física criativa de DARK.
Mariana: Em primeiro lugar, para construir um enredo complexo como o de Dark, o escritor de ficção científica precisa de muita imaginação. Como explica Fábio Fernandes, escritor do gênero, para escrever uma história assim o trabalho é semelhante ao de alguém que escreve uma ficção utilizando elementos históricos, só que com mais criatividade.
Fábio: O escritor de ficção científica tem o mesmo tipo de abordagem que um escritor de ficção histórica. O de ficção histórica trabalha com algo que já aconteceu; o escritor de ficção científica trabalha com uma ficção histórica que não aconteceu ainda ou que nunca vai acontecer, mas ele usa ferramentas semelhantes de pesquisa. Só que enquanto o historiador, o escritor de ficção histórica tem que ser historiador, ele tem que procurar livros pra pesquisar aquilo que aconteceu e preencher as lacunas do que a história não registrou, o escritor de ficção científica tá preenchendo as lacunas de tudo, praticamente.
Caroline: E a complexidade da história apresentada em Dark liga diversos conceitos e ideias já explorados em outras histórias de ficção científica. Mas a série usa esses conceitos e ideias para contar uma história nova, intrigante e que vem fazendo muito sucesso por aí.
Mariana: Pra quem gosta do gênero de ficção científica, esse tipo de construção visto em Dark acaba sendo um prato cheio, porque traz referências a outras histórias famosas e amadas pelos fãs.
Fábio: Eu gostei muito de Dark porque ela presta homenagem a vários livros de ficção científica, filmes e quadrinhos. Eu tenho um programa no meu canal do youtube, o ‘Terra Incógnita’, falando sobre isso, sobre algumas das referências e, mesmo assim, eu acho que eu falei de duas ou três. Na verdade, a história da ficção científica toda, ela vive do que a gente chama de ‘grande conversação’. Chega num momento da história da literatura em que você não consegue fazer nada de original em termos de conceitos.
Caroline: E não são só referências a outras histórias da ficção científica que encontramos em Dark. A série também cita continuamente nomes de cientistas famosos, artigos científicos e termos da Física para explicar a origem dos eventos complexos que acontecem com os moradores de Winden, principalmente após um acidente na usina nuclear da cidade.
Mariana: Mas acontece que essas menções, apesar de darem uma aparência científica para a série, são geralmente apresentadas de forma distorcida. Conforme explica o físico Willian Abreu, é o caso da frase de Einstein (abre aspas) A diferença entre passado, presente e futuro é somente uma persistente ilusão (fecha aspas), que é citada no começo do primeiro episódio. Essa frase tava numa carta que Einstein mandou para consolar a família de um amigo que tinha falecido recentemente, o Michel Bersso.
Willian: É uma coisa muito importante que a gente precisa enfatizar, de que existe a diferença de um pesquisador, de uma pesquisadora citar alguma coisa, ou falar alguma coisa ou escrever alguma coisa dentro de um contexto acadêmico e fora da Academia. Essa frase, especificamente, foi escrita fora do contexto acadêmico, então ela não deve ser considerada como alguma coisa embasada dentro da ciência. Simplesmente foi retirada de uma carta que ele escreveu para a família do amigo dele. Ainda que tenha de fato uma menção direta com o que nós chamamos de CTCs.
Caroline: CTCs são as chamadas closed timeline curves, que dizem que, teoricamente, você pode viajar no espaço em uma curva fechada de tempo.
Mariana: Ainda de acordo com o Willian, por causa de distorções como a do caso de Einstein, é preciso tomar cuidado com as interpretações sobre a ciência na série.
Willian: É uma série de fato interessante, que cita artigos científicos que são importantíssimos meios de comunicação da academia, com os pares, apesar dela citar esses artigos, ela não se aprofunda. E a física, o desdobramento deles, a solução que eles dão para viagem no tempo não têm uma profundidade, não tem nenhum embasamento a partir desses artigos. Então é importante isso: apesar de eles terem citado esses artigos, o desdobramento na série ele não tem relação e não tem embasamento para existir de fato um túnel em que você pode viajar em 3 ciclos de 33 anos.
Caroline: Na série, a viagem no tempo acontece por meio de um buraco de minhoca que existe no túnel das cavernas de Winden. É por meio dele que os personagens conseguem viajar para 33 anos no passado ou 33 anos no futuro.
Mariana: Toda a base de Dark é relacionada à viagem no tempo. É ela que une os acontecimentos da série. Viajar no tempo é algo que vem atraindo as pessoas há séculos, de forma que esse conceito já foi muito abordado nas histórias, mesmo antes do famoso escritor H.G Wells. Sobre isso, quem nos fala é o Fábio.
Fábio: Viagem no tempo é uma coisa que não é original desde antes do HG Wells. HG Wells faz a máquina do tempo em 1885, se eu não tô enganado, e ele fala dessa coisa do ‘vamos viajar no tempo com uma máquina’. Antes do Wells, você tinha viagens no tempo que não eram com máquinas, e é isso que torna a obra do Wells ficção científica. Mas o conceito de viagem no tempo já tava lá. As pessoas viajavam no tempo por sonhos, dormindo numa caverna e acordando 100 anos depois, né, essas coisas. Então, conceito de viagem no tempo já existia.
Caroline: O conceito de viagem no tempo trazido pela série está ainda muito longe da nossa realidade, apesar da referência a esse ciclo de 33 anos ter ligação com a Astronomia e o uso de calendários por diferentes civilizações. No passado, civilizações antigas precisavam de um controle do tempo e por isso desenvolveram seus calendários com base no movimento aparente do sol – digo aparente porque quem gira em torno do Sol é a Terra – ou no ciclo da Lua.
Mariana: No calendário solar temos os nossos aproximados 365 dias e no calendário lunar o ano tem 354 dias, então tem uma diferença de aproximadamente 11 dias entre os dois. Aqui entra a relação com a série porque quando você vai somando esses 11 dias por ano, ao completar 33 anos os dois calendários se coincidem.
Caroline: Então, essa questão dos 33 anos na série tem de fato alguma relação com a Astronomia. Mas a coincidência de calendários tem mais efeito em nós, humanos, em termos de crenças do que Astronomicamente falando. Assim, a realidade que é representada na série está muito distante da realidade que a gente vivencia de fato.
Mariana: O buraco de minhoca, do qual nos falou o Fábio, também é conhecido como ponte Einstein-Rosen, conforme mencionado por alguns personagens na série. O nome é uma referência a um artigo que foi realmente publicado por Albert Einstein e Nathan Rosen em 1935 na conceituada revista científica Physical Review. Nesse estudo, os dois pesquisadores de Princeton indicam que a teoria permitiria, de certa forma, a possibilidade da existência de uma ponte que liga dois pontos do espaço-tempo, como diz o Willian.
Willian: De fato, a teoria permite, tanto é que essas estruturas elas provêm de soluções dessas equações de campo de Einstein. Entretanto elas ainda não foram evidenciadas na ciência, tá. E os estudos que relacionam buracos de minhoca, que são essas deformações no espaço-tempo de forma a interligar dois pontos para que elas permanecessem estáveis, de forma a possibilitar alguém a atravessar essa região, exigiria uma coisa chamada matéria exótica que implicaria diversos problemas nos conceitos atuais da física. Então, resumindo: elas são estruturas hipotéticas que estão presentes na teoria, mas que para existirem no universo, elas implicam em grandes desafios para a compreensão da física moderna.
Caroline: Por isso que na ficção científica os escritores geralmente criam maneiras bem ficcionais de viajar no tempo, ‘tiradas da cartola’. Mas um escritor australiano chamado Greg Egan propôs uma história bem interessante com robôs, que teoricamente seria mais plausível na realidade se os buracos de minhoca realmente existirem.
Mariana: Os tais robôs da história seriam feitos de uma matéria extremamente flexível e densa ao mesmo tempo, o que permitiria que viajassem pelo buraco de minhoca sem serem danificados. O Fábio comenta como seria o movimento desses robôs, algo que ele vê como inédito nos contos de ficção.
Fábio: Eles entrariam no buraco negro e eles se esticariam, se tornariam robôs maleáveis, esticados quase ao infinito, pra eles poderem atravessar o buraco de minhoca sem serem destruídos pela pressão gravitacional. E é o único conto que eu conheço que alguém tentou fazer isso. E isso aí é interessantíssimo como proposta teórica conceitual. A relação entre a ficção científica e a ciência, quase sempre é de caráter conceitual.
Caroline: Agora, como o buraco de minhoca foi formado no universo da série, no entanto, não é claramente explicado. O que sabemos é que houve um acidente na usina nuclear de Winden na década de 1980 e desse incidente acabou vazando material radioativo. Sabemos também que esse material radioativo foi armazenado em barris dentro das cavernas e na piscina desativada do reator.
Mariana: A partir do que vazou do acidente, a série dá ênfase ao Césio 137, um elemento radioativo que no universo de Dark dá origem a uma esfera escura gigante, que eles associam ao bóson de Higgs, no singular. Para Willian, aí começa um dos principais erros científicos da série.
Willian: O bóson de Higgs não é uma coisa macroscópica, gigante, então eles já fizeram essa associação equivocada e, além disso, eles associam o bóson de Higgs a buracos de minhoca. Então são coisas bastante distintas que são a fissão nuclear, bóson de Higgs e a viagem no tempo por meio dessas estruturas hipotéticas que são chamadas de buracos de minhoca. Inclusive, esse próprio material que vazou, que eles intensificam ao dizer que é o Césio-137, ele é o combustível utilizado naquelas máquinas, naqueles aparatos de viagem no tempo.
Caroline: O problema é que usinas nucleares funcionam a partir da fissão nuclear e não seria possível, na vida real, gerar buracos de minhoca e muito menos bósons de Higgs por meio dessa fissão. Seriam necessários anos…
Mariana: Além disso, o bóson de Higgs só foi evidenciado décadas depois de ter sido previsto em teoria e, mesmo quando foi, ele era apenas um sinal nos gráficos nas telas dos cientistas do Large Hadron Collider, o LHC, que é um acelerador de partículas gigante na Suíça. Inclusive, para quem quiser ver a como essa descoberta realmente aconteceu na vida real em 2012 o documentário “Particle Fever”, ou “A febre das Partículas” em português, conta essa história e conta também um pouco dos bastidores de experimentos como esse. O Willian comentou sobre isso na entrevista que ele deu pra mim.
Willian: Em relação ao que ela é representada na série e o que acontece na vida real, são coisas completamente diferentes. A série representa o bóson de Higgs como uma esfera que se mantém estável e é algo macroscópico, então não tem nenhuma relação com o que de fato acontece na natureza. Para que o bóson de Higgs/campo de Higgs fosse evidenciado, foi necessário a construção de um aparato gigantesco e sensores extremamente sensíveis com muita energia, com uma complexidade gigantesca para que esse elemento fosse evidenciado. Então, ele não é uma estrutura macroscópica, não é, ele não vai surgir, você vai tropeçar, você vai abrir seu banheiro e vai encontrar a partícula de Deus te abençoando, isso não existe. Então realmente a série foge completamente do que é científico quando ela trata da questão do bóson de Higgs.
Caroline: Outro ponto de distorção da realidade é que pelo próprio funcionamento dos aceleradores de partículas, muito diferente do funcionamento de uma usina nuclear, o bóson ou o campo de Higgs não poderiam ter se originado por meio da fissão nuclear da usina, como aparece no contexto da série. Novamente o Willian esclarece por que não seria possível.
Willian: A usina nuclear você tem um elemento pesado radioativo, especificamente o urânio, um dos isótopos do urânio, o urânio-235, que a usina nuclear pega um nêutron e joga em direção ao núcleo desse átomo de urânio. Com esse choque desse nêutron com o núcleo desse urânio, acontece uma separação, ou seja, uma fissão desse átomo de urânio, gerando outros dois elementos mais leves. A soma da massa desses elementos mais leves não é igual à soma do urânio que gerou esses elementos, então falta um pouquinho de massa. Essa massa que foi “perdida”, mas não foi perdida, ela foi transformada em energia. E aí tem a relação com aquela famosa equação de Einstein, que é E=mcˆ2. Ou seja, uma pequena quantidade de massa é multiplicada pelo C, e o C é nada mais nada menos que a velocidade da luz ao quadrado, ou seja, a velocidade da luz é gigantesca e ainda assim ela é multiplicada ao quadrado. Então é por isso que uma usina de fissão nuclear gera tanta energia num lugar tão pequeno, porque ela fissiona um átomo grande, transformando em outros dois e gerando muita energia nesse processo. Um desses dois elementos que são gerados após a fissão é o césio-137, que é o elemento que conduz aí, de acordo com a série, todos esses acontecimentos.
Mariana: A série, então, acaba gerando essa espécie de ‘Frankenstein científico’, juntando várias esferas da ciência fora de contexto.
Caroline: O que acontece é que a ficção científica geralmente faz esses tipos de ‘extrapolações mirabolantes’ a partir de conceitos científicos justamente para deixar a história mais interessante e atraente para o público. Se a história for muito ‘realista’, geralmente acaba se tornando sem graça, como exemplifica Fábio.
Fábio: Um exemplo que é o oposto exato de Dark é uma história chamada Primer, do cineasta independente americano chamado Shane Carruth. Esse filme, que não passou nem nos cinemas, é a história de dois rapazes numa garagem, dois cientistas, construindo uma máquina do tempo, mas a história não tem graça. É uma história interessante porque eles são dois engenheiros construindo uma máquina e o filme inteiro é sobre eles pensando, conversando na garagem, comprando peças, construindo peças, pra construir a máquina do tempo de acordo com o que eles desejam. E no final eles fazem uma experiência com uma partícula, eles não viajam no tempo, entendeu. Então não é uma história tipo ‘De volta para o Futuro’, nem tipo ‘Dark’. Aquilo ali é o mais próximo que poderia acontecer de verdade de uma pessoa construindo uma máquina do tempo. E você pode trabalhar com uma transmissão de uma partícula, porque aí você tem uma coisa chamada ‘emaranhamento quântico’, que permite que se teletransporte uma partícula subatômica. Isso já foi realizado. Eu falei que viagem no tempo é uma coisa teórica, pode ser que seja feita uma viagem de teletransporte ou uma viagem no tempo no futuro? Pode, só que a gente ainda não descobriu como fazer isso com pessoas e com objetos, é só com partículas subatômicas.
Mariana: E é por isso mesmo que a ficção apresentada em Dark, embora não seja quase nada realista, acaba deixando a história tão envolvente e interessante. Se a história fosse muito realista, dificilmente algo tão complexo como o que é apresentado ao longo dos episódios poderia ser desenvolvido.
Caroline: E essa complexidade do enredo traz uma possibilidade interessante, que é misturar outros conceitos além daqueles da física, que podem ser mais simples, mas que são explorados de forma mais profunda e questionadora. Inclusive conceitos importantes para a sociedade. O Fábio cita, por exemplo, os conceitos sobre família, que escritores do século 19 trataram em suas obras.
Fábio: A gente geralmente nos últimos tempos tem visto muita obra, mais simples. E simples aí não quer dizer simplista. É você pegar um conceito só e trabalha esse conceito de maneira mais direta, mais objetiva. A obra complexa geralmente é aquela que trabalha com vários conceitos. Dark, embora seja uma história de viagem no tempo, vai tratar de conceitos como família, que não é um conceito de ficção, mas é um conceito que é muito importante de discutir, né. Dostoiévski, Tolstói, são escritores que falam muito disso, das relações de família, né, das suas sociedades das suas respectivas épocas. E é muito interessante ver uma obra que faz essa ponte também com autores do século XIX pra colocar questões de família, ainda mais envolvendo da maneira que Dark fez.
Mariana: Nessa mistura entre ciência e ficção explorada pela série Dark, tem também várias menções à religião. Ao longo dos episódios, existem várias menções a Adão e Eva e o próprio bóson de Higgs é chamado de “partícula de Deus” e parece ser utilizado para brincar com essas referências religiosas.
Caroline: Esse termo já é bastante usado na vida real há algum tempo, mas com relação ao fato de que o bóson de Higgs é muito importante pra explicar a origem da massa de todas as outras partículas. Além disso, esse nome “partícula de Deus” surgiu por pressões editoriais quando em 1933 o cientista Leon Lederman escreveu o livro “The God Particle”.
Willian: Em 1993 o Lederman foi escrever esse livro e o título que ele sugeriu do livro foi “The Goddamn Particle”, que é traduzindo “A maldita partícula”, porque ela era muito importante. Então, era crucial que ela fosse evidenciada o quanto antes para dar calma, para dar paz à toda a física moderna. Então, quando ele escreveu isso, os editores acharam melhor cortar o “The Goddamn” e colocaram “The God” então daí ficou, ‘partícula de Deus’. Então a intenção nunca foi endeusar ou elevar essa partícula como uma coisa celestial, mas como muitas coisas na ciência, esses nomes eles surgem de histórias completamente inusitadas.
Mariana: Mas mesmo a relação entre a física e a ficção em Dark sendo muito pequena, os escritores e roteiristas das histórias de ficção científica buscam ter boa noção dos conceitos científicos para poder explorá-los de forma interessante, especialmente em histórias tão complexas como a da série.
Caroline: Pra isso é fundamental estudar os conceitos da ciência que a história pretende abordar ou mesmo aqueles que nem são o foco, mas que são importantes para a compreensão do enredo, como o conceito do gato de Schrödinger apresentado em Dark e do qual nos fala o Fábio.
Fábio: Pra fazer uma obra complexa de ficção científica como Dark, estudar e contar com especialistas basta. Na verdade não há outra saída. A outra saída seria vivenciar na prática, mas a gente não vivencia na prática os conceitos de viagem no tempo né. Estudar aí seria o seguinte: estudar roteiro e outras obras que tenham feito coisas parecidas. Pra você fazer uma história interessante, do jeito que fizeram em Dark, realmente a pessoa tem que entender alguma coisa de conceitos de ficção científica e até de conceitos científicos. E aí a gente lança mão desses conceitos de física também. Ele fala muito do conceito do gato do Schrödinger, por exemplo, que é um experimento científico que nem tem a ver com viagem no tempo, mas que eles conseguiram amarrar de maneira muito interessante pra tornar crível.
Mariana: E não é só de ficção e ciência que o escritor de ficção científica precisa entender. É importante saber como abordar a história de forma interessante e bem amarrada, para parecer mais crível. E isso vale para outras histórias além de roteiros de filmes ou séries como Dark.
Caroline: O Fábio, que lembramos que é um autor de ficção científica, diz que o escritor também precisa saber mostrar como os personagens realmente reagiriam na situação proposta na história, por exemplo. Para isso, precisa saber muito mais além da física.
Fábio: A gente escreve uma obra complexa entendendo como se trabalha isso literariamente. Não precisa ser um roteiro, para escrever um conto também pode-se fazer assim, ou um romance. Mas é isso, não tem nenhum mistério. Por exemplo, eu posso escrever uma história sobre o século 25, mas vou escrever uma história com humanos. Então eu tenho que colocar ali os meus personagens com reações humanas. Então eu tenho que entender um pouco de psicologia, tenho que entender história e estrutura do romance também pra saber como é que eu articulo isso. Às vezes tem umas obras que você vai ler, mais antigas, que os personagens não são muito bem delineados, eles são ‘bidimensionais’, são ‘de papelão’, como a gente dizia antigamente. Isso significa que o escritor não fez uma pesquisa boa sobre literatura em geral.
Mariana: O desenvolvimento da história em Dark a partir dos conceitos científicos abordados é realmente muito envolvente e instigante, com reações realmente humanas dos personagens…
Caroline: Então, Dark pode não ser muito realista a partir do que se conhece e que se espera da ciência na física, mas os conceitos abordados, mesmo de forma tão distante da possível realidade, trazem beleza para a série, não é Fábio?
Fábio: A ciência é usada como ponto de partida pra se contar uma história, uma fábula, né. E eu acho que isso torna a fábula mais bonita e mais elegante.
Mariana: O Oxigênio vai ficando por aqui. O episódio foi apresentado por mim, Mariana Hafiz, e pela Caroline Maia. Nós também fizemos as entrevistas, escolhemos as trilhas e construímos o roteiro.
Caroline: As trilhas são da Youtube Audio Library e a revisão do roteiro é da professora Simone Pallone do Labjor. Os trabalhos técnicos são de Gustavo Campos e a edição de Octávio Augusto, da Rádio Unicamp. E a divulgação do programa conta com a colaboração da Helena Nogueira.
Mariana: Você pode nos acompanhar nas redes sociais. Estamos no Facebook, (facebook.com/oxigenionoticias – tudo junto e sem acento), no Instagram (@radiooxigenio tudo junto) e no Twitter (@oxigenio_news).
Caroline: E você também pode deixar a sua opinião sobre este episódio e sugerir temas para os próximos programas. Basta deixar o seu comentário na plataforma de streaming que utiliza. Até a próxima!
Na insuficiência cardíaca e na realização das pesquisas, quando a coisa não vai bem é preciso reorganizar as peças. Em “Quebra-cabeças”, conversamos sobre o papel do exercício na reabilitação cardíaca e sobre os desarranjos trazidos pela pandemia no cotidiano de quem estuda o corpo. Participaram do episódio a professora Lígia de Moraes Antunes Correa e o aluno de mestrado Erick Lucena, ambos da Faculdade de Educação Física da Unicamp. A série Corpo faz parte do projeto “Histórias para pensar o corpo na ciência”, que é financiado pela FAPESP (2019/18823-0) e coordenado pelo professor Bruno Rodrigues (FEF/Unicamp).
SAMUEL RIBEIRO: Olá. Esse é o sexto episódio da série Corpo… Quando eu comecei a produzir o podcast a minha ideia era sair por aí com o gravador na mão pra registrar as cenas das histórias, mas eu nem imaginava que tudo isso ia mudar por causa de uma pandemia.
A gente teve que se reinventar. E aqui na educação física, onde muita pesquisa depende desse encontro entre as pessoas, do suor, do movimento, da conversa… teve um tanto de gente que também precisou mudar totalmente os planos pra 2020.
Eu sou Samuel Ribeiro, e esse episódio vai ser um pouco diferente dos outros… A gente começa com a Lígia.
LÍGIA DE MORAES ANTUNES CORREA: Bom, é… meu nome é Lígia, Lígia de Moraes Antunes Correa, sou docente do Departamento de… [RISOS] calma aí, vou começar de novo! Que horror, nunca fiz isso! Vamos lá!
SAMUEL: Eu conheci a Lígia faz pouco tempo, nos corredores da Faculdade de Educação Física da Unicamp. Ela trabalha na área de reabilitação cardíaca e é professora do Departamento de Estudos da Atividade Física Adaptada desde o ano passado.
LÍGIA: … sou mãe de duas crianças… e sou uma pesquisadora que tento conciliar tudo isso junto nesse momento atual, e buscar aí, entender um pouquinho de como o exercício físico pode contribuir pra… pra nossa saúde, em especial pra saúde cardiovascular.
SAMUEL: Uma coisa engraçada na história da Lígia é que apesar dela ser bem da área de fisiologia do exercício, eu e ela temos uma orientadora em comum na nossa história, que é a professora Carmen Lucia Soares.
SAMUEL: A Carminha, que me orientou na iniciação científica, trabalha com história da educação física e do esporte, nada a ver com reabilitação cardíaca. A Lígia fez TCC com ela lá na graduação, e me explicou que esse passeio faz todo o sentido pra área que ela atua.
LÍGIA: E eu acho que a área da saúde é uma área que ela não tem como se separar das áreas das humanidades, a gente tá trabalhando com pessoas né. Então eu sou daquelas que acha que tudo contribui pra gente ter uma formação mais completa e mais humana, porque eu não posso pensar que eu vou por exemplo prescrever um exercício pra um paciente, e que isso aí unicamente vai ter um efeito biológico pra ele, né? Tem outros efeitos que estão envolvidos.
SAMUEL: Depois que se formou ela foi pro mercado de trabalho, atuou em escola, em academia… mas nesse meio tempo tinha ainda aquela vontade de trabalhar com pesquisa.
LÍGIA: Eu era apaixonada pela fisiologia cardiovascular, tinha assim, nossa, sabe aquela aula que brilha o seu olho, quando cê tá vendo aquele material, estudando…
LÍGIA: … o meu foco, o que eu queria trabalhar, era com reabilitação cardíaca. Eu sou daquele time que não queria trabalhar com exercício pra efeitos estéticos e nem pra performance, nunca foi muito a minha área, então eu queria muito fazer reabilitação cardíaca.
SAMUEL: Aí conversando com as pessoas, disseram assim pra ela:
LÍGIA: … “olha, o melhor lugar que você tem pra trabalhar com pesquisa nessa área é o Incor”.
SAMUEL: … que é o Instituto do Coração lá na USP, no Hospital das Clínicas. Lá a Lígia fez estágio de pesquisa, doutorado e pós-doutorado, e entrou de cabeça no assunto da insuficiência cardíaca…
SAMUEL: … que é uma doença que atinge muita gente, justamente porque a população tem envelhecido e, com os avanços da medicina, mais pessoas têm sobrevivido depois de ter algum tipo de problema cardiovascular. E aí o coração, que nada mais é do que uma bomba pra jogar oxigênio e nutrientes pro corpo todo, sai dessa história danificado e já não funciona mais como devia funcionar.
LÍGIA: Então imagina que por diversas causas, seja ela um infarto, seja uma hipertensão ou seja um medicamento, enfim, essa bomba começa a alterar a sua função e começa a alterar os tijolinhos que fazem parte dela, sabe? Os pedacinhos que fazem parte dela.
SAMUEL: E essas alterações nos pedacinhos do coração, no arranjo dos vários tipos células que compõe os tecidos cardíacos…
LÍGIA: Então são, vamos pensar se fosse um quebra-cabeça, vai.
SAMUEL: … vão fazendo a bomba deixar de bombear sangue de um jeito eficiente.
LÍGIA: As peças estão muito bem encaixadas. Na insuficiência cardíaca essa estruturação, esse arranjo vai se perdendo. Então elas não estão mais tão bem alinhadas, tão bem estruturadas, né, de uma forma bem simplista, e isso impede que essa bomba funcione direito. O encaixe perfeito se perde.
SAMUEL: E se perdendo o encaixe, a vida fica bem diferente. O indivíduo com insuficiência cardíaca vai sentir falta de ar e bastante dificuldade pra fazer esforço. E aqui a gente não tá falando de correr uma maratona ou fazer academia não…
LÍGIA: … ele não consegue as vezes lavar louça, não consegue varrer o chão, sente falta de ar pra tomar banho, por exemplo né. Então… é uma doença que tem uma implicação muito grande no dia a dia, inclusive afetando muitas vezes questões psicológicas, porque as pessoas param muitas vezes de fazer coisas que elas estão acostumadas a fazer…
SAMUEL: Então um tratamento bem feito pode ajudar a melhorar bastante a qualidade de vida dessas pessoas, e aí tem tanto o uso de remédios como intervenções cirúrgicas que podem ajudar. E claro, tem o exercício físico.
SAMUEL: E aí pra falar dos benefícios trazidos pelo exercício, a gente precisa voltar um pouco e entender como é que a insuficiência repercute no resto do corpo. Beleza, tem lá as alterações na estrutura do coração que fazem ele funcionar com menos eficiência. Só que aí, o sangue que devia chegar para os outros órgãos e para os músculos… acaba não chegando. Imagina, por exemplo, um músculo da perna…
LÍGIA: Se ele recebe menos oxigênio e recebe menos nutriente, esse músculo começa a sofrer uma série de alterações, que acabam ao longo do tempo levando a uma perda de massa muscular, a uma alteração do metabolismo. Então esse paciente ele tem cansaço não é só por conta do coração que não tá funcionando bem, é porque ele não tem pernas pra fazer isso, né. Eu costumo brincar que o paciente não tem perna pra subir escada.
SAMUEL: E aí o que a ciência já sabe é que o treinamento físico pode ajudar a reverter essas alterações nos músculos e, consequentemente, melhorar o bem estar do paciente.
SAMUEL: Beleza, isso é muito bom. Só que o que a Lígia quer descobrir é outra coisa.
LÍGIA: … quando a gente faz, trabalha com músculo esquelético, a gente consegue fazer uma biópsia do músculo, tirar um pedacinho do músculo – de uma forma bem leiga, tá? – cortar em fatias muito fininhas e olhar no microscópio o que tem nesse músculo. Como que é a fibra muscular, o que que tem em volta dessa fibra muscular, quantos capilares chegam no músculo.
SAMUEL: Só que quando a gente tá falando de coração…
LÍGIA: No coração a gente não pode fazer isso, né. Não dá pra fazer biópsia do coração num paciente que esteja vivo. Então a gente não consegue estudar a estrutura celular do coração em humanos.
SAMUEL: Então a solução é examinar esse tecido do coração de algum outro jeito. E foi nessa pegada que a Lígia tem feito uma parceria com o Otávio Rizzi Coelho Filho, que é pesquisador na Faculdade de Ciências Médicas da Unicamp que também trabalha com o tema da insuficiência.
LÍGIA: E esse médico em especial ele trabalha com uma técnica de imagem muito especializada né, a ressonância cardíaca magnética, ele tem alguns protocolos bem avançados, bem inovadores, que poucos centros do mundo fazem, então foi uma feliz coincidência né, eu conversei com ele, eu falei que tinha interesse em estudar essa área, e ele tava começando um projeto com insuficiência cardíaca e ele topou colocar reabilitação cardíaca pra esses pacientes.
SAMUEL: Basicamente, o que a Lígia vai conseguir ver com essa técnica é se um determinado protocolo de treinamento é capaz de trazer mudanças pros tecidos do coração com insuficiência.
SAMUEL: Lembra, das pecinhas do quebra cabeça, ou dos tijolinhos do coração? A ressonância consegue analisar como estão as células de contração do coração, os cardiomiócitos, e também o que que fica em volta deles, que é a matriz extracelular… e a presença exagerada dessa matriz, que é o que acontece no coração com insuficiência, é o que a gente chama de fibrose.
LÍGIA: … então o que a gente quer ver nesse projeto é se com o treinamento físico a gente consegue alterar isso de alguma forma pra reduzir a quantidade de fibrose, né, porque a fibrose é um tecido que não é elástico. Ele não contrai bem e não relaxa bem, então isso atrapalha a função do coração.
SAMUEL: Bom, aqui eu vou abrir um parênteses. A Lígia e vários outros pesquisadores aqui da Educação Física trabalham com pacientes, com atletas, enfim, com gente. Muitas vezes pra pesquisa andar são necessários meses de aplicação de treino, controle de frequência dos voluntários e várias coletas de dados… isso sem contar que estamos falando de gente que muitas vezes é da população de risco pras formas graves da covid. Gente que precisa vir até a faculdade e vai conversar, se movimentar, suar, enfim…
SAMUEL: Lá no comecinho do ano a Lígia tava tocando o projeto que a gente comentou e tava planejando iniciar outras colaborações de pesquisa aqui na Unicamp. Só que aí…
LÍGIA: … veio a pandemia e tudo isso ficou em stand by, tudo isso ficou suspenso…
SAMUEL: A pandemia [trovão]. Essa que não tem saído das nossas cabeças 24 horas por dia. Que mudou toda nossa rotina, inclusive os planos de pesquisa da Lígia. Bom, inclusive os meus planos de pesquisa, já que eu tô começando o doutorado.
SAMUEL: Foi por isso que eu decidi abrir o espaço do podcast pra gente ter outro tipo de conversa. Um pouco mais tranquila, um pouco mais leve. Nesses tempos em que tanta coisa tem mudado e a gente muitas vezes se sente ansioso, sobrecarregado… insuficiente, eu quis trazer um outro pesquisador pra conversar comigo e com a Lígia.
SAMUEL: E a gente começa… com o Erick…
SAMUEL: E aí eu pensei da gente começar, Erick, que você contasse um pouco pra Lígia sobre o que você está pesquisando e como você começou a pensar em pesquisa. Como é que está sendo esse começo de mestrado, qual é a tua ideia, etc?
ERICK LUCENA: Tá, só pra focar um pouco, você fala do mestrado ou do geral? Porque eu comecei desde a graduação em 2016.
SAMUEL: Não, pode falar tudo!
ERICK: Tudo?
SAMUEL: Fica à vontade, do jeito que você achar melhor.
LÍGIA: [RISOS] Conta sua história.
ERICK: Em 2015 eu entrei na FEF né e eu fazia o estágio de um curso técnico que eu fiz. Aí nisso era aquela rotina né, trabalho e faculdade. Aí meu contrato acabou, aí eu pensei “bom, tô fazendo a faculdade de Educação Física e eu gosto, vou focar bastante agora só na faculdade”. Aí conheci o método low pressure fitness e quis estudar isso. Conversei com o professor Uchida, que hoje é meu orientador no mestrado, e ele topou fazer um projeto nessa linha.
ERICK: Só nisso, como eu não tinha experiência, demorei cerca de 1 ano só pra escrever projeto, mandar pro PIBIC, comitê de ética… a primeira vez demora mais tempo. Aí eu fiz essa iniciação científica, e nesse caminho a gente começou um projeto de extensão de powerlifting, de levantamentos básicos. Nisso fui fazer uma pesquisa nessa área também, que aí foi minha segunda iniciação científica. Aí foi meu TCC, e então continuei no mestrado.
ERICK: Agora estou com o projeto que inicialmente era sobre envelhecimento, mas com a pandemia mudei o cenário, principalmente em relação à minha bolsa. Eu tinha conseguido, tive alguns percalços. Fiz a mudança rápida pra não perder tempo. Estou na área do parapowerlifting e estou em contato com o CPB pra fazer uma pesquisa com os atletas do parapowerlifting.
SAMUEL: Erick, você sabe que quando entrei no mestrado foi totalmente de improviso. Tive uma trajetória totalmente diferente da tua. Eu queria fazer pesquisa, mas estava trabalhando na época. Aí fui conversar com o Edivaldo e a gente teve uma ideia de iniciação científica. Aí eu comecei a fazer o projeto, mas eu trabalhava e estudava de noite, quase não tinha tempo, tudo muito devagar. Demorei, demorei, demorei, e acabei não dando retorno pro Edivaldo.
SAMUEL: Quando abriu o processo seletivo de mestrado eu falei “quer saber cara, vou dar um gás nesse projeto, vou expandir ele, ampliar bastante e vou prestar o mestrado com o Edivaldo”. E fiz isso sem avisar ele!
LÍGIA: [RISOS]
ERICK: Você se inscreveu sem falar com ele?
SAMUEL: Não falei. Ele ficou assim, “mas como que você não fala que vai prestar mestrado, não avisa?”. Mas tudo deu certo no final.
LÍGIA: Samuel, uma curiosidade, por que que você decidiu fazer Educação Física? Porque você fez Ciência Sociais primeiro.
SAMUEL: Então, é uma coisa super besta. Eu sempre gostei de ciências humanas, queria fazer História, mas como não fiz cursinho fiquei com medo de não passar e fiz Ciências Sociais. No curso de Sociais eu fiz IC na História, com historiadoras. Legal, me formei, deu aula de História e Sociologia no ensino básico, só que nesse meio tempo eu tinha uma prática esportiva.
SAMUEL: Eu era da seleção brasileira de Wushu. Comecei a praticar na minha época de Sociais e fui convocado em 2014 para o Mundial de Tai Chi na China. E eu fui, comecei a tentar periodizar meu treino, tava fazendo treino de força na academia, mas assim, muito rudimentar, muito artesanal. E eu já estava dando aula de Tai Chi, meio que informalmente.
SAMUEL: Aí falei “bom, Tai Chi é uma coisa que muito idoso faz, então eu preciso me qualificar”. E aí eu presto Educação Física, e no primeiro semestre me aproximo de quem? Da área de humanas de novo! É um ciclo vicioso!
LÍGIA: [RISOS] Você sai da humanas, mas a humanas não sai de você!
ERICK: Samuel, o mestrado veio primeiro que a graduação em Educação Física ou veio depois?
SAMUEL: Primeiro! Eu virei mestre antes de me graduar. Aliás, não me graduei ainda, a colação é agora em setembro.
LÍGIA: Eu acho que é engraçado essas trajetórias. É como eu, que fiz iniciação científica na bioquímica e monografia com a Carminha!
ERICK: Qual o tema da monografia?
LÍGIA: Foi sobre calistenia, a história da calistenia. Eu me formei só em licenciatura plena na época, do primeiro pro segundo ano fiz iniciação científica na bioquímica com a Denise, mas decidi fazer licenciatura. Aí como morava com uma aluna da Carminha, ela falou assim “por que você não faz a monografia com ela?”. E eu gostei da ideia, fui conversar com a Carminha.
SAMUEL: Isso é algo que eu ia perguntar pra vocês dois. Uma coisa muito legal é conhecer o orientador, o contato com o orientador. Eu lembro muito do momento que cheguei no Edivaldo e falei que queria fazer pesquisa, lembro de vários detalhes que não lembraria numa situação normal. Erick, como foi teu primeiro contato com o Uchida?
ERICK: Eu lembro que a porta tava entreaberta. Eu não conhecia o professor Uchida, não tinha feito nenhuma disciplina com ele. Cheguei, bati na porta e perguntei se podia conversar com ele. Entrei, expliquei o que eu queria fazer, ele me apresentou pros alunos de pós dele que estavam no laboratório. Eu comecei a frequentar o grupo dele e fui ficando. A área era cinesiologia, gosto bastante dessa área, aí saiu o projeto de iniciação, o projeto de extensão, e acabei ficando.
ERICK: Lígia, a sua área é bioquímica, e sua monografia foi na área de humanas. Como foi isso?
LÍGIA: Acho que a graduação é o momento para experimentar e conhecer o maior número de possibilidades. Eu sempre gostei muito das biológicas e eu sabia que o final da minha carreira ia ser nesse sentido. Mas penso que quem gosta de estudar e pesquisar, essa questão de entender as humanas e o método científico por outra visão é super válido. Eu trabalho muito na área da saúde, e não tem como desconectar uma coisa da outra. Então penso que ganhei muito. O que aprendi muito com a Carminha é essa questão de organização, de como conduzir um projeto, e tudo isso serve para mim até hoje. Isso é método científico, independente se é humanas ou biológicas. Essas interfaces, em especial na graduação, são muito válidas.
SAMUEL: E teu orientador do doutorado? Como que você chegou nele?
LÍGIA: Na minha época de graduação não existia nem a disciplina de atividade física para grupos especiais, mas eu sempre quis trabalhar com reabilitação cardíaca. Quem se aproximava mais disso era a professora Vera, e aí fui falar com ela. Ela me falou “olha, você quer fazer reabilitação cardíaca? Procura o Dante Passanezzi e procura o Incor”. Aí fui atrás disso. Os dois centros têm um programa de aprimoramento que é pra aprender a trabalhar com reabilitação cardíaca. Eu fiz um estágio uma época no Dante, ia toda sexta-feira pra São Paulo fazer esse estágio, e o pessoal de lá começou a me apresentar o que era reabilitação, os trabalhos, as pesquisas, e começaram a falar do Incor.
LÍGIA: “Olha, lá é super forte na pesquisa, assim assado, você precisa conhecer o professor Carlos Eduardo Negrão”. E ele era uma pessoa super ocupada na época. Mandei um e-mail pra ele e a secretária dele muito rapidamente respondeu e falou pra agendar uma reunião com ele. Marquei e fui conversar. Lembro até hoje, cheguei na sala dele e fomos tomar café. Ele me explicou tudo que ele queria e exigia de um aluno do doutorado, e eu falei “olha, eu trabalho em Campinas, mas estou disposta a mudar pra São Paulo, vou me organizar pra vir pra cá”.
LÍGIA: E aí foi uma coisa engraçada. Eu pedi demissão do trabalho, arrumei um lugar pra morar em São Paulo, arrumei um emprego de personal trainer, só que eu nunca mais tinha falado com o professor Negrão. Aí um dia apareci na unidade de reabilitação, só que eu só me dei conta quando eu tava entrando no Incor. “Nossa, eu nunca mais falei com o homem! E se ele não quiser mais, não tiver vaga, ou mudou de rumo?”. Eu cheguei lá. Daí que caiu a ficha. Mas aí deu tudo certo, enfim, ele foi super receptivo, deu as orientações. Mas foi meio que agora ou nunca.
LÍGIA: E Erick, por que você escolheu o Uchida pra trabalhar sem conhecer ele?
ERICK: Por causa do laboratório, de cinesiologia. Sempre que eu passava lá pra ir no prédio da informática eu via lá. Aí eu falava “nossa, eu gosto tanto desse tema”. E eu sempre via a porta fechada. Eu não tinha aula com ele e não conhecia quem ficava lá dentro. Eu sempre passava lá e pensava “nossa, eu gosto desses nomes, neuromuscular, cinesiologia”. Um dia vi a porta aberta, e aí aconteceu. Acho que as coisas vão se construindo aos poucos, e chega uma hora que acontece.
SAMUEL: A gente tá falando sobre orientador, aí fiquei pensando, a Unicamp é sua primeira docência no ensino superior?
LÍGIA: Como eu estava trabalhando em um laboratório muito focado em pesquisa de ponta, a gente era meio desencorajado a trabalhar com docência. Mas como lá tem aprimoramento em Educação Física, eu ajudei vários anos nas aulas do programa. Então trabalhei muito com a especialização, e tive oportunidade de orientar os trabalhos de conclusão de curso. Mas como docente da graduação é a primeira vez. Mas eu gosto muito de dar aula. Apesar das dificuldades que a gente tem, é uma das coisas que mais gosto de fazer.
SAMUEL: Eu perguntei isso na verdade porque fiquei pensando assim, nossos planos de pesquisa foram afetados pela pandemia. E você estava começando a orientar alunos da Unicamp quando chegou a pandemia. Como está sendo isso para você?
LÍGIA: É um desafio. Eu gosto muito de conversar, sentar junto, explicar. No começo fiquei um pouco temerosa de como ia conseguir orientar à distância. Porque apesar do projeto em si não ter começado, a gente precisou desenhar o projeto, escrever, e tudo isso teve que ser feito de forma remota. E não é a mesma coisa, né. Pra mim foi um desafio, mas por um lado foi bom, porque a gente entende que dá pra fazer isso de outras formas.
LÍGIA: O que atrapalhou bastante é que eu tinha a expectativa de ter um aluno de mestrado, que entrasse no processo seletivo do início deste ano. E o processo seletivo foi cancelado por conta da pandemia. Esse projeto novo não começou e tenho que esperar um aluno pra poder tocar ele. A questão dos alunos de TCC e iniciação, foi toda uma adaptação. No começo foi mais difícil, mas agora está indo bem.
LÍGIA: Eu tinha a ideia de começar um grupo de estudos no começo do ano. Me organizei toda pra fazer, aí foi cancelado. Falei “bom, a gente vai voltar daqui 15 dias, um mês, vai dar certo”. Aí nada. Abril nada, maio nada. Eu fala “gente, eu preciso montar um grupo de estudo, pros alunos me conhecerem melhor! Eu vou ter que começar a fazer um grupo online!”.
LÍGIA: Como eu, Lígia, vou captar alunos pra fazer parte de um grupo virtual sobre exercício físico e saúde? E eu não sou uma pessoa que fica postando no Facebook, no Instagram. Aí marquei, chamei uns alunos e fiz uma página no Facebook. Aí vi que tinha uma curtida ou outra, e meu marido me disse “Lígia, seus alunos não veem Facebook, tem que ser no Instagram” [RISOS]. E foi o mais engraçado, eu coloquei no Instagram, sei lá, acho que em um ou dois dias começou gente de fora da Unicamp a me procurar.
LÍGIA: Mas assim, o grupo está tendo reuniões semanais, tem desde aluno do primeiro ano até aluno graduado, e tem inclusive alunos que estão fazendo graduação em outra instituição e que vieram me procurar. E a disciplina que eu dou é de saúde coletiva, então hoje estou montando duas linhas. A gente acaba que reveza, tem reunião toda semana, uma semana eu falo mais das questões de saúde coletiva, outra semana mais de reabilitação cardíaca, doenças crônicas, efeito do exercício…
SAMUEL: E você Erick, como tá sendo pra se adaptar no cenário online?
ERICK: Inicialmente foi feita uma adaptação às pressas. O projeto mudou, e o contato com o orientador está sendo só remoto. A parte da pesquisa, o que estamos fazendo? Aguardar a retomada gradual e ver como vai ser essa parte da coleta. Agora está sendo o ajuste do projeto, o que é possível fazer no isolamento social. Mas o pós quarentena vai ser diferente. Já está tendo a retomada, os atletas voltaram a treinar na semana passada, então daqui a um mês, dois meses, vai ser possível tentar alguma coisa.
LÍGIA: Uma dúvida Erick, você falou que seu projeto inicial era com idosos, e aí vocês optaram por mudar para parapowerlifting. E por que vocês fizeram essa opção, porque essa também é uma população que tem um risco né?
ERICK: Com o idoso seria crônico, por volta de 3 meses de treino. Aí pensei na logística do deslocamento do idoso até a faculdade pra fazer o treinamento e as avaliações. No parapowerlifting, como já temos a aproximação dos projetos de extensão, a coleta pode ser mais rápida de fato, e eles estão voltando aos treinos já com os cuidados. Como são várias classes de deficiência, estão voltando as que têm menos risco primeiro.
SAMUEL: Acho que podíamos amarrar com vocês contando quais são as expectativas de vocês para o futuro próximo e que dica dariam para quem não faz pesquisa e quer começar.
LÍGIA: Eu acho que pros próximos meses o cenário que temos, ainda mais pra quem trabalha com populações especiais, na pesquisa a gente vai ter uma dificuldade muito grande. Isso deve melhorar mesmo só no começo do ano que vem, e quando tivermos de fato uma vacina. Eu vejo que a gente deve ter um cenário complicado em questão de financiamentos, por conta da recessão que a pandemia vai gerar. Acho que vai ser um ano desafiador pra qualquer área de pesquisa, principalmente as que precisam de grandes financiamentos. Agora, acho que não dá pra parar, e não dá pra ficar esperando voltar ao normal. Quem tem interesse em fazer pesquisa ou começar um novo projeto, tem que se engajar nesses grupos de estudo, até pra ter uma formação inicial. Isso a gente consegue fazer e dá pra fazer à distância. Ainda é um caminho incerto, que a gente vai ter que buscar soluções novas pra se adaptar.
ERICK: Nesse ano eu espero que algumas atividades irão voltar, bem limitadas. Vamos fazer apenas o que for possível. Pra quem não começou ainda, primeiro de tudo, é ver a ciência como um método aplicável. Ter curiosidade e buscar o contato. Na pandemia a gente viu bastante, a divulgação científica ficou com mais luz, ficou bem visível pra quem tá querendo entrar. E buscar sempre experiência. Colocar a mão na massa e buscar pessoas experientes.
LÍGIA: Pra todos nós que somos da pesquisa, a ciência está muito em voga né. Temos que aproveitar o momento para divulgar o que a gente faz e a importância disso para a sociedade, talvez para captar novos interessados, novos alunos e pesquisadores. Esse é o momento certo pra mostrar a nossa importância, e pensando no exercício físico, está mais evidente do que nunca a importância dos hábitos saudáveis. Então a gente tem uma oportunidade única pra mostrar o que a gente faz pra sociedade, o que não deixa de ser um papel da universidade.
SAMUEL: O episódio fica por aqui. Corpo é uma produção do podcast Oxigênio, do Labjor Unicamp, e faz parte do projeto “Histórias para pensar o corpo na ciência”, desenvolvido na FEF Unicamp e financiado pela FAPESP.
SAMUEL: Produção, roteiro e edição foram feitas por mim, Samuel Ribeiro. O projeto é coordenado pelo professor Bruno Rodrigues da FEF e pela Marina Gomes, do Labjor. Ah, e quem coordena o Oxigênio é a Simone Palone, também do Labjor.
SAMUEL: Se você gostou do episódio, dá uma força pra gente e compartilha nas suas redes sociais. A gente tá no Twitter, Instagram e Facebook. É só procurar por Corpo Podcast. Até a próxima!
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Músicas
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Quando o Brasil atinge a infeliz marca dos mais de 119 mil mortos e 3,8 milhões de infectados, não poderíamos deixar de comentar o assunto e prestar nossa solidariedade aos familiares que agora enfrentam o processo de luto. Os convidados da vez são: Lucas Barbosa (psicólogo especializado em luto), a Professora e Doutora em Antropologia Social Letícia Ferreira (UFRJ), a Helena Ansani (mestranda em divulgação científica e parte da equipe do Oxigênio) e a Maria Aparecida Teixeira (psicóloga clínica e hospitalar)*. Trazemos também relatos de quem perdeu pessoas queridas e agora enfrenta o luto neste momento atípico. A sugestão do tema foi da Helena e encerra a nossa série QUARENTENA com o centésimo episódio do Oxigênio.
*A Maria Aparecida Teixeira, em um gesto de solidariedade, está ajudando várias pessoas a conversar sobre suas perdas, inclusive aqueles que não têm condições financeiras de arcar com um serviço do tipo. Para os que podem, a contribuição é bem-vinda. Contato: (19) 99126-7880 (Campinas).
**Uma série idealizada, produzida e ilustrada por Carolina Sotério.
Minuto da Química – São Carlos: Olá, meu nome é Milene do podcast Minuto da Química. E gostaríamos de parabenizar a temporada do Quarentena.
Carol: A série que você ouve agora surgiu em meio às medidas de distanciamento social, em um cenário sem precedentes da doença Covid-19. No primeiro episódio, tratamos exatamente dos anseios e dificuldades de mudar as atividades presenciais para o remoto. No segundo, trouxemos alternativas para colaborar com as pesquisas em andamento sem sair de casa. Já em nossa terceira produção, comentamos dos cuidados necessários com a população idosa, considerada de risco para a doença. No quarto episódio, nos dedicamos a mostrar um pouquinho do trabalho dos cientistas que estão por trás dos estudos das vacinas e o levantamento de dados. Agora, chegamos ao último episódio, bem quando o Brasil ultrapassa a triste marca dos mais de 115 mil mortos pela Covid-19.
A obra “A hora da estrela” de 1977 marca o último romance de Clarice Lispector, na qual a morte e a despedida são questões presentes. A escritora ucraniana naturalizada brasileira também inclui nessa narrativa o seu próprio adeus, ao falecer em 9 de dezembro do mesmo ano no Rio de Janeiro. Conforme a escritora registra no começo do livro, a história acontece em estado de emergência e de calamidade pública. Novamente, uma calamidade se repete e com ela o assunto volta à tona. As mortes trágicas, as despedidas incompletas e o luto. O Lucas Barbosa, que fala com a gente, é psicólogo, especialista em luto e desenvolve um projeto chamado “Guarda-chuva”, que trata de oferecer suporte sobre esse processo. Para início de conversa: afinal, o que exatamente é o luto?
Lucas: O luto ele pode ser compreendido como uma reação à perda de algo ou alguém. Nos afeta aí em todo o aspecto da nossa vida biopsicossocial. A gente tem alterações biológicas, sono, apetite, o modo ao qual a gente vai reagir às coisas no nosso ambiente, acaba sentindo maior intensidade de alguns sentimentos, da tristeza, raiva, culpa, de como a gente vai compreender nosso mundo na nossa nova realidade que se apresenta e também nos aspectos sociais, onde a gente interage: de como as pessoas vão chegar pra gente, se elas sabem como nos ajudar, como se comportar diante a essa nova questão. E aí o luto é um processo universal e seu viver é particular, muito singular. Todo mundo no planeta vai passar por um processo de luto. A gente tem uma ideia de que a morte é a única fonte ou natureza pra luto, só que se a gente tem diversos tipos de perda, a gente vai vivenciar o processo de luto. É um processo que vem para que a gente possa aprender a lidar com a ausência e aí tem muitas perguntas e dúvidas: será que só eu sinto isso? Será que é só comigo? E a gente sempre vai dizer que a sua experiência de luto, é sua experiência de luto. E é importante que seja experienciado, vivido, sentido.
Carol: E o luto acaba um dia ou é algo que carregamos para sempre?
Lucas: Quem vai me dizer isso é o próprio enlutado, o sujeito que se comporta. Então vamos olhar a história dele? Como foi a história dele de lidar com perdas? Será que ele já vivenciou isso anteriormente? Lógico que nunca igual, mas você ali já uma perda, como foi, quem acolheu, quem estava do lado, e a saudade será experienciada em todo esse processo do luto nesse “para sempre”.
Carol: Essa questão, embora natural no percurso da vida, traz à tona o desconhecido. Como escreve Clarice no livro “Assim como ninguém lhe ensinaria um dia a morrer: na certa morreria um dia como se antes tivesse estudado de cor a representação do papel de estrela.” Da mesma forma, não existe manual de instruções para lidar com o que sentimos ao perder alguém muito querido, fazendo com que as pessoas enfrentem essa situação de diferentes formas. Mas é preciso tomar cuidado, pois o processo de luto pode, inclusive, se agravar. É o conta o Lucas sobre o chamado “luto complicado”.
Lucas: É importante a gente enfatizar, na nossa história, na literatura – e é importante a gente olhar a história pra gente não repetir algumas coisas – que o luto ele já foi considerado patológico. Se receitava medicamentos porque acreditava-se que as pessoas morriam por conta do luto, afinal, a gente sabe que o luto ele afeta o nosso funcionamento do organismo, o apetite, o sono e isso implica que havia adoecimento porque não se alimentavam… Só que a gente tem que saber que o luto não é doença. Então, a partir dos anos 90, a gente começou a ver o denominado hoje “luto complicado”. E aí hoje a gente não tem um consenso sobre esses critérios diagnósticos. É também uma discussão muito maior sobre as vantagens de se obter um diagnóstico sobre luto complicado como forma de garantia de tratamento e para o enlutado saber que o que ele sente tem nome e tem tratamento. A gente também não vai determinar pelo tempo, a gente sabe que, no mínimo, quatro estações desse processo de luto a gente vai passar – outono, inverno, verão, primavera – porque é um ano que podem aparecer sentimentos muito intensos. É o primeiro ano sem a pessoa naquele nosso ambiente, interagindo com a gente. Então, como que eu posso identificar e saber que eu estou no luto complicado? A gente sabe que voltar o que era antes não tem como. A gente já passou por um momento estressante, traumático. E a gente sempre vai olhar o que aconteceu, como você lida com isso, quem é sua rede de apoio… Então a gente vai olhar fatores complicadores para o processo do luto.
Carol: Com a pandemia do novo coronavírus e as medidas de distanciamento social recomendadas pela Organização Mundial de Saúde, a OMS, os rituais de luto precisaram ser re-significados. Despedidas sem abraços e muitas vezes sem nem mesmo ver os rostos dos entes queridos, parecem marcar um vazio nas famílias atingidas pela doença. Lucas, como essa situação tem afetado o emocional humano em um momento que já é considerado de muita sensibilidade?
Lucas: Tudo mudou. Nossas relações mudaram, ou seja, o mundo que a gente conhecia nçao existe mais, e com isso a gente também tem que se adaptar a essa nova realidade que se apresenta. O luto é um processo dinâmico, exige afeto, companheirismo, auxílio, e não ter esses recursos pode gerar maiores estresses pro enlutado. Então, se há possibilidades de ligação, ligue. Mande uma mensagem. Às vezes a gente acha que incomoda. E é importante mostrar que a gente se importa. Dar um novo sentido aos novos rituais não é fácil, então o luto mais do que superar, se adaptar, é se reinventar. E essa reinvenção é constante. Lógico que o velório é o recurso que a gente tem, que a gente sabe que é esse momento necessário para a gente compreender o que está acontecendo nesse choque inicial que a gente tem diante da perda. E ter a ausência desses rituais, afetos, abraços, reuniões familiares, pode ser um fator complicador. Então a gente vai se reinventar de como a gente vai fazer isso. Deixar, um bolo na porta da casa da pessoa, ligar, mandar mensagem. Essa situação, essa ausência vai afetar de forma significativa, no sentido de que as pessoas não estão podendo expressar o seu pesar.
Carol: Mas algumas estratégias podem ser adotadas para amenizar a dor do luto…
Lucas: A melhor estratégia que a gente pode adotar é falar sobre. Parece paradoxal, mas a gente tem que evitar evitar. Quando a gente perde, a gente passa a evitar os ambientes que a gente tinha em relação comum com a pessoa. Então assim, rede de apoio: quem eu gosto de conversar? Quem eu me sinto acolhido? Quem pode me ajudar nesse momento? Você pode estar tudo, mas não está sozinho. Essa ideia que a gente tem de estar só é porque a gente não compartilha. Então a gente tem que compartilhar. Falar é a melhor solução para todas as coisas.
Carol: Às vezes falar da morte é um tabu. De outro lado, algumas culturas enxergam a morte como uma celebração. E há, ainda, culturas nas quais a morte passa em silêncio. Por que então lidamos com essa informação de formas tão diversas? Quais as influências? A Letícia Carvalho de Mesquita Ferreira é doutora em Antropologia Social e professora da Universidade Federal do Rio de Janeiro. Ela conversa com a gente sobre essa questão.
Letícia: Talvez um primeiro ponto importante a considerar é que a morte é um evento da vida, da biografia dos sujeitos, que, evidentemente, vai ser experimentada de formas diversas em contextos socioculturais diversos. Maneiras de ritualizar a morte, de ocultar esse tema com tabus de diferentes ordens, são algumas das maneiras possíveis de lidar com esse evento e o que eu tenho de estudo sobre o tema foca muito particularmente na maneira como as ditas sociedades ocidentais modernas lidou historicamente com a morte, em que a morte foi se tornando algo medicalizado, hospitalizado… E a gente produziu o que o Norbert Elias chama de um certo afastamento da morte para os bastidores da vida. E o que acontece, pra ele, é o processo de reprodução da solidão dos moribundos. A gente foi afastando, ao longo do tempo, os moribundos, aqueles que considerávamos à beira da morte ou que estavam vivendo os processos da morte e do morrer. Essa é uma maneira de morrer e de lidar com a morte que evidentemente vai variar a cada contexto segundo religiões, crenças as mais diversas, mas é uma maneira que a gente pode pensar que acaba sendo geral nas sociedades contemporâneas, urbanizadas, é essa maneira solitária, medicalizada que foi dada pra morte e pro morrer. Que gera um certo tipo de solidão e que afasta os corpos daqueles que são moribundos daqueles com quem ele viveu suas vidas. E uma das coisas interessantes que esse modelo de morte carrega é uma certa ideia sobre a vida que a gente tem de que a morte ao final de um processo, depois do envelhecimento… Então que a gente pode esperar uma certa morte como parte do curso natural da vida. Isso faz com que, se a gente espera que a morte acontece para aquele que já envelheceu e já viveu a vida toda, isso faz com que interrupções bruscas da vida – mortes por acidente, por situações absolutamente inesperadas – isso um curso esperado como natural pra vida e pra morte. Isso gera um desestabilização, claro, e sentimentos muito ambivalentes e difíceis de lidar diantes da morte e do morrer.
Carol: Com a pandemia, vários rituais de despedida foram interrompidos, re-significados ou nem mesmo concretizados. Letícia, é possível prever fenômenos que surgirão na nossa cultura a partir dessa realidade de hoje?
Letícia: Então acho difícil fazer qualquer tipo de previsão, mas acho importante marcar que a pandemia é um desses momentos que interrompeu, alterou, deslocou as nossas formas de esperar ou de atribuir algum tipo de previsibilidade pra vida. Tanto que o grupo de risco era dos idosos, isso faria equivaler, então “a morte estaria vindo para quem a gente já esperaria que ela já estivesse próxima”, que são os mais velhos. Ainda assim, com os números alarmantes que a gente vê no Brasil a gente sabe que a morte se apresenta não apenas pros grupos de risco e isso surpreende e coloca em suspensão para qualquer pessoa suas expectativas de continuidade da vida, de previsibilidade, então isso já é um dado importante da pandemia. Outro é o fato da gente ter tido que alterar os rituais de despedida. Eu acho que isso por si só já é uma questão pra gente pensar, o manejo desses corpos tem sido objetivo de interessantes reflexões de cientistas sociais: como isso tem sido gerido pelo Estado, nos hospitais, nos Institutos Médico Legais, e o que isso carrega na questão de desigualdade nas gestão dos corpos vivos e mortos no Brasil. Por um lado é um tema interessante, mas por outro acho que a gente pode pensar que, independente de conseguir prever o que vem daqui em diante em termos do luto e nossas práticas de luto, acho que a gente tem que olhar para o presente e tentar entender o que tem sido como alternativa como saída pra se lidar com esse número absurdo de mortes em termos coletivos mesmo, e com a continuidade da vida. Que relação é essa entre a gente continuar seguindo ao mesmo tempo em que a gente ouve todos os dias um número crescente e impressionante de mortes diárias?
Carol: O narrador da história conta a experiência de Macabéa ao perder sua tia e as implicações do acontecimento na vida da personagem. Na vida real, a Covid-19 já proporcionou a algumas pessoas experiências similares, mas com uma despedida silenciosa, sem abraços, sem reunião… Quem conta esse relato pra nós é a Helena, aqui da equipe do Oxigênio.
Helena: Eu perdi meu avô em julho, na verdade ele faleceu no dia 3 de julho. Ele deu entrada no hospital no dia 2 e o médico já disse que era uma situação muito grave, provavelmente seria muito difícil ele se recuperar. Como meu avô não faleceu por Covid, a gente conseguiu fazer o velório. Nós reunimos toda a família e só os amigos mais íntimos, pra evitar o máximo possível a aglomeração. Nós todos ficamos distantes uns dos outros, com máscaras e sem os abraços, o que foi muito difícil, principalmente vendo a minha avó sofrer porque tinha perdido o marido. Perder alguém que a gente ama é sempre difícil, mas é muito pior em uma situação em que a gente não pode se abraçar. Como ele era muito conhecido na cidade, em outra ocasião com certeza o velório estaria lotado. Cidade pequena todo mundo se conhece, cresce junto, e não foi do jeito que a gente imaginava. A despedida, eu ainda sinto uma sensação estranha de que ela não foi completa. Na verdade faltou um abraço da despedida mesmo, porque, na realidade, desde março que eu não abraçava meus avós tentando preservá-los. A vida sem contato pra mim ela não tem sentido. Parece que é um pesadelo isso que a gente tá vivendo e eu espero que esse pesadelo acabe logo.
Carol: A Maria, que é psicóloga, também vivencia o luto da perda de uma irmã. A causa não foi o coronavírus, mas em função da pandemia, a despedida teve que seguir os mesmos protocolos.
Maria: Quarta-feira de sol a minha irmã traz um vaso de Gerânio como um presente de aniversário. Ela se despediu e a gente combinou da gente comer na garagem aqui de casa, bem distanciado. No sábado ela passou mal, foi para o pronto-socorro e em 2h30min ela foi à óbito. E foi uma experiência muito dolorosa e inusitada. Eu quis arrumar o vestido mais bonito que ela tinha pra vesti-la pra gente se despedir dela e não foi possível. Eu ouvi assim “não adianta, ela vai ser colocada num saco preto e o caixão vai ser lacrado”. E ela não morreu de Covid. Foi um velório restrito, de 1h30min, aquele caixão realmente lacrado. E junto com esse caixão lacrado foram muitos planos, muitas coisas que a gente tinha combinado de fazer. A gente tinha combinado de fazer um tatuagem, eu, ela e outra irmã. “As três Marias”. Eu acho que essa pandemia, esse momento, ele nos rouba a possibilidade de sonhar. Então é importante que a gente tenha um espaço pra poder falar sobre isso. Pra ajudar, eu tenho mais uma pessoa da família que está na UTI, com Covid, e espero que ele se recupere brevemente. O contato com ele, por enquanto, é virtual, por vídeo-chamada. Sou psicóloga, eu trabalho com pessoas que estão procurando ajuda neste momento, com ansiedade, com pânico e com perdas. Eu não imaginei que eu fosse passar por isso também.
Carol: Ao contar a história de Macabéa, a protagonista da trama “A hora da estrela”, Clarice Lispector conta também a história de planos interrompidos repentinamente. Da mesma forma, a pandemia da Covid-19 que se instaurou em um cenário sem precedentes, pôs fim a vários planos e levou muitas famílias a reinventarem suas despedidas.
Por isso, fazer a sua parte na prevenção da doença é também respeitar a dor das pessoas que perderam seus entes queridos, além de zelar por quem está ao seu redor. Para isso, é necessário respeitar o distanciamento social e ficar em casa, na medida em que for possível.
Apesar da distância física, espero que a mensagem chegue até você nessa grande rede digital. Espero que essa série tenha, de alguma forma, trazido algum conforto e muita informação. O episódio de hoje é dedicado a todos que perderam seus familiares e amigos queridos por causa dessa pandemia. Toda nossa solidariedade a vocês.
Estamos juntos, mesmo cada um na sua casa. Nessa nossa despedida, em um abraço virtual.
O meu nome é Carolina Sotério e essa foi a série QUARENTENA.
Músicas:
Dialtone 11 by Sketchbook, Secret Pocketbook by Holyoke e Heater by Migration <https://app.sessions.blue/>
AnaCaptainslogue by Noir Et Blanc Vie <https://studio.youtube.com/channel/UCem-6sz7UIv9os3bfjePjwQ/music?utm_campaign=upgrade&utm_medium=redirect&utm_source=%2Faudiolibrary%2Fmusic>
Dorris Day by DJ Williams <https://studio.youtube.com/channel/UCem-6sz7UIv9os3bfjePjwQ/music?utm_campaign=upgrade&utm_medium=redirect&utm_source=%2Faudiolibrary%2Fmusic>
Quando o Brasil atinge a infeliz marca dos mais de 119 mil mortos e 3,8 milhões de infectados, não poderíamos deixar de comentar o assunto e prestar nossa solidariedade aos familiares que agora enfrentam o processo de luto. Os convidados da vez são: Lucas Barbosa (psicólogo especializado em luto), a Professora e Doutora em Antropologia Social Letícia Ferreira (UFRJ), a Helena Ansani (mestranda em divulgação científica e parte da equipe do Oxigênio) e a Maria Aparecida Teixeira (psicóloga clínica e hospitalar)*. Trazemos também relatos de quem perdeu pessoas queridas e agora enfrenta o luto neste momento atípico. A sugestão do tema foi da Helena e encerra a nossa série QUARENTENA com o centésimo episódio do Oxigênio.
*A Maria Aparecida Teixeira, em um gesto de solidariedade, está ajudando várias pessoas a conversar sobre suas perdas, inclusive aqueles que não têm condições financeiras de arcar com um serviço do tipo. Para os que podem, a contribuição é bem-vinda. Contato: (19) 99126-7880 (Campinas).
**Uma série idealizada, produzida e ilustrada por Carolina Sotério.
Minuto da Química – São Carlos: Olá, meu nome é Milene do podcast Minuto da Química. E gostaríamos de parabenizar a temporada do Quarentena.
Carol: A série que você ouve agora surgiu em meio às medidas de distanciamento social, em um cenário sem precedentes da doença Covid-19. No primeiro episódio, tratamos exatamente dos anseios e dificuldades de mudar as atividades presenciais para o remoto. No segundo, trouxemos alternativas para colaborar com as pesquisas em andamento sem sair de casa. Já em nossa terceira produção, comentamos dos cuidados necessários com a população idosa, considerada de risco para a doença. No quarto episódio, nos dedicamos a mostrar um pouquinho do trabalho dos cientistas que estão por trás dos estudos das vacinas e o levantamento de dados. Agora, chegamos ao último episódio, bem quando o Brasil ultrapassa a triste marca dos mais de 115 mil mortos pela Covid-19.
A obra “A hora da estrela” de 1977 marca o último romance de Clarice Lispector, na qual a morte e a despedida são questões presentes. A escritora ucraniana naturalizada brasileira também inclui nessa narrativa o seu próprio adeus, ao falecer em 9 de dezembro do mesmo ano no Rio de Janeiro. Conforme a escritora registra no começo do livro, a história acontece em estado de emergência e de calamidade pública. Novamente, uma calamidade se repete e com ela o assunto volta à tona. As mortes trágicas, as despedidas incompletas e o luto. O Lucas Barbosa, que fala com a gente, é psicólogo, especialista em luto e desenvolve um projeto chamado “Guarda-chuva”, que trata de oferecer suporte sobre esse processo. Para início de conversa: afinal, o que exatamente é o luto?
Lucas: O luto ele pode ser compreendido como uma reação à perda de algo ou alguém. Nos afeta aí em todo o aspecto da nossa vida biopsicossocial. A gente tem alterações biológicas, sono, apetite, o modo ao qual a gente vai reagir às coisas no nosso ambiente, acaba sentindo maior intensidade de alguns sentimentos, da tristeza, raiva, culpa, de como a gente vai compreender nosso mundo na nossa nova realidade que se apresenta e também nos aspectos sociais, onde a gente interage: de como as pessoas vão chegar pra gente, se elas sabem como nos ajudar, como se comportar diante a essa nova questão. E aí o luto é um processo universal e seu viver é particular, muito singular. Todo mundo no planeta vai passar por um processo de luto. A gente tem uma ideia de que a morte é a única fonte ou natureza pra luto, só que se a gente tem diversos tipos de perda, a gente vai vivenciar o processo de luto. É um processo que vem para que a gente possa aprender a lidar com a ausência e aí tem muitas perguntas e dúvidas: será que só eu sinto isso? Será que é só comigo? E a gente sempre vai dizer que a sua experiência de luto, é sua experiência de luto. E é importante que seja experienciado, vivido, sentido.
Carol: E o luto acaba um dia ou é algo que carregamos para sempre?
Lucas: Quem vai me dizer isso é o próprio enlutado, o sujeito que se comporta. Então vamos olhar a história dele? Como foi a história dele de lidar com perdas? Será que ele já vivenciou isso anteriormente? Lógico que nunca igual, mas você ali já uma perda, como foi, quem acolheu, quem estava do lado, e a saudade será experienciada em todo esse processo do luto nesse “para sempre”.
Carol: Essa questão, embora natural no percurso da vida, traz à tona o desconhecido. Como escreve Clarice no livro “Assim como ninguém lhe ensinaria um dia a morrer: na certa morreria um dia como se antes tivesse estudado de cor a representação do papel de estrela.” Da mesma forma, não existe manual de instruções para lidar com o que sentimos ao perder alguém muito querido, fazendo com que as pessoas enfrentem essa situação de diferentes formas. Mas é preciso tomar cuidado, pois o processo de luto pode, inclusive, se agravar. É o conta o Lucas sobre o chamado “luto complicado”.
Lucas: É importante a gente enfatizar, na nossa história, na literatura – e é importante a gente olhar a história pra gente não repetir algumas coisas – que o luto ele já foi considerado patológico. Se receitava medicamentos porque acreditava-se que as pessoas morriam por conta do luto, afinal, a gente sabe que o luto ele afeta o nosso funcionamento do organismo, o apetite, o sono e isso implica que havia adoecimento porque não se alimentavam… Só que a gente tem que saber que o luto não é doença. Então, a partir dos anos 90, a gente começou a ver o denominado hoje “luto complicado”. E aí hoje a gente não tem um consenso sobre esses critérios diagnósticos. É também uma discussão muito maior sobre as vantagens de se obter um diagnóstico sobre luto complicado como forma de garantia de tratamento e para o enlutado saber que o que ele sente tem nome e tem tratamento. A gente também não vai determinar pelo tempo, a gente sabe que, no mínimo, quatro estações desse processo de luto a gente vai passar – outono, inverno, verão, primavera – porque é um ano que podem aparecer sentimentos muito intensos. É o primeiro ano sem a pessoa naquele nosso ambiente, interagindo com a gente. Então, como que eu posso identificar e saber que eu estou no luto complicado? A gente sabe que voltar o que era antes não tem como. A gente já passou por um momento estressante, traumático. E a gente sempre vai olhar o que aconteceu, como você lida com isso, quem é sua rede de apoio… Então a gente vai olhar fatores complicadores para o processo do luto.
Carol: Com a pandemia do novo coronavírus e as medidas de distanciamento social recomendadas pela Organização Mundial de Saúde, a OMS, os rituais de luto precisaram ser re-significados. Despedidas sem abraços e muitas vezes sem nem mesmo ver os rostos dos entes queridos, parecem marcar um vazio nas famílias atingidas pela doença. Lucas, como essa situação tem afetado o emocional humano em um momento que já é considerado de muita sensibilidade?
Lucas: Tudo mudou. Nossas relações mudaram, ou seja, o mundo que a gente conhecia nçao existe mais, e com isso a gente também tem que se adaptar a essa nova realidade que se apresenta. O luto é um processo dinâmico, exige afeto, companheirismo, auxílio, e não ter esses recursos pode gerar maiores estresses pro enlutado. Então, se há possibilidades de ligação, ligue. Mande uma mensagem. Às vezes a gente acha que incomoda. E é importante mostrar que a gente se importa. Dar um novo sentido aos novos rituais não é fácil, então o luto mais do que superar, se adaptar, é se reinventar. E essa reinvenção é constante. Lógico que o velório é o recurso que a gente tem, que a gente sabe que é esse momento necessário para a gente compreender o que está acontecendo nesse choque inicial que a gente tem diante da perda. E ter a ausência desses rituais, afetos, abraços, reuniões familiares, pode ser um fator complicador. Então a gente vai se reinventar de como a gente vai fazer isso. Deixar, um bolo na porta da casa da pessoa, ligar, mandar mensagem. Essa situação, essa ausência vai afetar de forma significativa, no sentido de que as pessoas não estão podendo expressar o seu pesar.
Carol: Mas algumas estratégias podem ser adotadas para amenizar a dor do luto…
Lucas: A melhor estratégia que a gente pode adotar é falar sobre. Parece paradoxal, mas a gente tem que evitar evitar. Quando a gente perde, a gente passa a evitar os ambientes que a gente tinha em relação comum com a pessoa. Então assim, rede de apoio: quem eu gosto de conversar? Quem eu me sinto acolhido? Quem pode me ajudar nesse momento? Você pode estar tudo, mas não está sozinho. Essa ideia que a gente tem de estar só é porque a gente não compartilha. Então a gente tem que compartilhar. Falar é a melhor solução para todas as coisas.
Carol: Às vezes falar da morte é um tabu. De outro lado, algumas culturas enxergam a morte como uma celebração. E há, ainda, culturas nas quais a morte passa em silêncio. Por que então lidamos com essa informação de formas tão diversas? Quais as influências? A Letícia Carvalho de Mesquita Ferreira é doutora em Antropologia Social e professora da Universidade Federal do Rio de Janeiro. Ela conversa com a gente sobre essa questão.
Letícia: Talvez um primeiro ponto importante a considerar é que a morte é um evento da vida, da biografia dos sujeitos, que, evidentemente, vai ser experimentada de formas diversas em contextos socioculturais diversos. Maneiras de ritualizar a morte, de ocultar esse tema com tabus de diferentes ordens, são algumas das maneiras possíveis de lidar com esse evento e o que eu tenho de estudo sobre o tema foca muito particularmente na maneira como as ditas sociedades ocidentais modernas lidou historicamente com a morte, em que a morte foi se tornando algo medicalizado, hospitalizado… E a gente produziu o que o Norbert Elias chama de um certo afastamento da morte para os bastidores da vida. E o que acontece, pra ele, é o processo de reprodução da solidão dos moribundos. A gente foi afastando, ao longo do tempo, os moribundos, aqueles que considerávamos à beira da morte ou que estavam vivendo os processos da morte e do morrer. Essa é uma maneira de morrer e de lidar com a morte que evidentemente vai variar a cada contexto segundo religiões, crenças as mais diversas, mas é uma maneira que a gente pode pensar que acaba sendo geral nas sociedades contemporâneas, urbanizadas, é essa maneira solitária, medicalizada que foi dada pra morte e pro morrer. Que gera um certo tipo de solidão e que afasta os corpos daqueles que são moribundos daqueles com quem ele viveu suas vidas. E uma das coisas interessantes que esse modelo de morte carrega é uma certa ideia sobre a vida que a gente tem de que a morte ao final de um processo, depois do envelhecimento… Então que a gente pode esperar uma certa morte como parte do curso natural da vida. Isso faz com que, se a gente espera que a morte acontece para aquele que já envelheceu e já viveu a vida toda, isso faz com que interrupções bruscas da vida – mortes por acidente, por situações absolutamente inesperadas – isso um curso esperado como natural pra vida e pra morte. Isso gera um desestabilização, claro, e sentimentos muito ambivalentes e difíceis de lidar diantes da morte e do morrer.
Carol: Com a pandemia, vários rituais de despedida foram interrompidos, re-significados ou nem mesmo concretizados. Letícia, é possível prever fenômenos que surgirão na nossa cultura a partir dessa realidade de hoje?
Letícia: Então acho difícil fazer qualquer tipo de previsão, mas acho importante marcar que a pandemia é um desses momentos que interrompeu, alterou, deslocou as nossas formas de esperar ou de atribuir algum tipo de previsibilidade pra vida. Tanto que o grupo de risco era dos idosos, isso faria equivaler, então “a morte estaria vindo para quem a gente já esperaria que ela já estivesse próxima”, que são os mais velhos. Ainda assim, com os números alarmantes que a gente vê no Brasil a gente sabe que a morte se apresenta não apenas pros grupos de risco e isso surpreende e coloca em suspensão para qualquer pessoa suas expectativas de continuidade da vida, de previsibilidade, então isso já é um dado importante da pandemia. Outro é o fato da gente ter tido que alterar os rituais de despedida. Eu acho que isso por si só já é uma questão pra gente pensar, o manejo desses corpos tem sido objetivo de interessantes reflexões de cientistas sociais: como isso tem sido gerido pelo Estado, nos hospitais, nos Institutos Médico Legais, e o que isso carrega na questão de desigualdade nas gestão dos corpos vivos e mortos no Brasil. Por um lado é um tema interessante, mas por outro acho que a gente pode pensar que, independente de conseguir prever o que vem daqui em diante em termos do luto e nossas práticas de luto, acho que a gente tem que olhar para o presente e tentar entender o que tem sido como alternativa como saída pra se lidar com esse número absurdo de mortes em termos coletivos mesmo, e com a continuidade da vida. Que relação é essa entre a gente continuar seguindo ao mesmo tempo em que a gente ouve todos os dias um número crescente e impressionante de mortes diárias?
Carol: O narrador da história conta a experiência de Macabéa ao perder sua tia e as implicações do acontecimento na vida da personagem. Na vida real, a Covid-19 já proporcionou a algumas pessoas experiências similares, mas com uma despedida silenciosa, sem abraços, sem reunião… Quem conta esse relato pra nós é a Helena, aqui da equipe do Oxigênio.
Helena: Eu perdi meu avô em julho, na verdade ele faleceu no dia 3 de julho. Ele deu entrada no hospital no dia 2 e o médico já disse que era uma situação muito grave, provavelmente seria muito difícil ele se recuperar. Como meu avô não faleceu por Covid, a gente conseguiu fazer o velório. Nós reunimos toda a família e só os amigos mais íntimos, pra evitar o máximo possível a aglomeração. Nós todos ficamos distantes uns dos outros, com máscaras e sem os abraços, o que foi muito difícil, principalmente vendo a minha avó sofrer porque tinha perdido o marido. Perder alguém que a gente ama é sempre difícil, mas é muito pior em uma situação em que a gente não pode se abraçar. Como ele era muito conhecido na cidade, em outra ocasião com certeza o velório estaria lotado. Cidade pequena todo mundo se conhece, cresce junto, e não foi do jeito que a gente imaginava. A despedida, eu ainda sinto uma sensação estranha de que ela não foi completa. Na verdade faltou um abraço da despedida mesmo, porque, na realidade, desde março que eu não abraçava meus avós tentando preservá-los. A vida sem contato pra mim ela não tem sentido. Parece que é um pesadelo isso que a gente tá vivendo e eu espero que esse pesadelo acabe logo.
Carol: A Maria, que é psicóloga, também vivencia o luto da perda de uma irmã. A causa não foi o coronavírus, mas em função da pandemia, a despedida teve que seguir os mesmos protocolos.
Maria: Quarta-feira de sol a minha irmã traz um vaso de Gerânio como um presente de aniversário. Ela se despediu e a gente combinou da gente comer na garagem aqui de casa, bem distanciado. No sábado ela passou mal, foi para o pronto-socorro e em 2h30min ela foi à óbito. E foi uma experiência muito dolorosa e inusitada. Eu quis arrumar o vestido mais bonito que ela tinha pra vesti-la pra gente se despedir dela e não foi possível. Eu ouvi assim “não adianta, ela vai ser colocada num saco preto e o caixão vai ser lacrado”. E ela não morreu de Covid. Foi um velório restrito, de 1h30min, aquele caixão realmente lacrado. E junto com esse caixão lacrado foram muitos planos, muitas coisas que a gente tinha combinado de fazer. A gente tinha combinado de fazer um tatuagem, eu, ela e outra irmã. “As três Marias”. Eu acho que essa pandemia, esse momento, ele nos rouba a possibilidade de sonhar. Então é importante que a gente tenha um espaço pra poder falar sobre isso. Pra ajudar, eu tenho mais uma pessoa da família que está na UTI, com Covid, e espero que ele se recupere brevemente. O contato com ele, por enquanto, é virtual, por vídeo-chamada. Sou psicóloga, eu trabalho com pessoas que estão procurando ajuda neste momento, com ansiedade, com pânico e com perdas. Eu não imaginei que eu fosse passar por isso também.
Carol: Ao contar a história de Macabéa, a protagonista da trama “A hora da estrela”, Clarice Lispector conta também a história de planos interrompidos repentinamente. Da mesma forma, a pandemia da Covid-19 que se instaurou em um cenário sem precedentes, pôs fim a vários planos e levou muitas famílias a reinventarem suas despedidas.
Por isso, fazer a sua parte na prevenção da doença é também respeitar a dor das pessoas que perderam seus entes queridos, além de zelar por quem está ao seu redor. Para isso, é necessário respeitar o distanciamento social e ficar em casa, na medida em que for possível.
Apesar da distância física, espero que a mensagem chegue até você nessa grande rede digital. Espero que essa série tenha, de alguma forma, trazido algum conforto e muita informação. O episódio de hoje é dedicado a todos que perderam seus familiares e amigos queridos por causa dessa pandemia. Toda nossa solidariedade a vocês.
Estamos juntos, mesmo cada um na sua casa. Nessa nossa despedida, em um abraço virtual.
O meu nome é Carolina Sotério e essa foi a série QUARENTENA.
Músicas:
Dialtone 11 by Sketchbook, Secret Pocketbook by Holyoke e Heater by Migration <https://app.sessions.blue/>
AnaCaptainslogue by Noir Et Blanc Vie <https://studio.youtube.com/channel/UCem-6sz7UIv9os3bfjePjwQ/music?utm_campaign=upgrade&utm_medium=redirect&utm_source=%2Faudiolibrary%2Fmusic>
Dorris Day by DJ Williams <https://studio.youtube.com/channel/UCem-6sz7UIv9os3bfjePjwQ/music?utm_campaign=upgrade&utm_medium=redirect&utm_source=%2Faudiolibrary%2Fmusic>
Quão fundo podem ir as marcas que o trauma deixa em uma pessoa, e quais são os fatores que determinam a intensidade dessas marcas em cada um? Nessa segunda e última parte da minissérie “Memórias”, nosso temático em duas edições sobre traumas e sua relação com os mecanismos da memória, o trio de divulgadores científicos formado por Bruno Moraes, Caroline Marques Maia e Vinicius Alves tenta entender a relação entre memórias, trauma, transtornos psiquiátricos e a percepção da realidade.
Partindo, como da outra vez, de um exemplo ficcional saído dos videogames, o programa traz a maneira como a série Silent Hill representa o trauma, e segue daí para as entrevistas com as psicólogas Paula Rui Ventura e Mara Regina Nunes Alves, com o psiquiatra William Berger, e com a bióloga Juliana Carlota Kramer Soares, que já havia participado da primeira parte. Junto a essa equipe de especialistas de diversas áreas, o Oxigênio tentará dar respostas aos mecanismos por trás do surgimento e da superação do trauma, tratando para isso de temas que vão da genética à terapia, passando até mesmo por um artigo baseado na observação de neurônios disparando em tempo real.
O roteiro e apresentação foram feitos pelos apresentadores Caroline, o Vinícius e o Bruno, com trabalhos técnicos de Octávio Augusto, da Rádio Unicamp, e de Gustavo Campos auxiliando na edição. A coordenação do Oxigênio é de Simone Figueiredo, que também ajudou a elaborar o roteiro.
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Paula: Eventos potencialmente traumáticos são aqueles que ameaçam a vida ou a integridade física das pessoas.
Bruno: Por que algumas pessoas são mais vulneráveis do que outras para desenvolverem transtorno após um trauma?
Juliana Carlota: Nem todo mundo que passa por uma situação em que é assaltado vai desenvolver um trauma. Tem gente que supera isso muito bem, outras pessoas não. Então, praticamente todo mundo vai passar por alguma experiência traumática na vida.
Carol: Como o trauma se instala na mente na forma de uma memória tão vívida, como se o evento traumático tivesse acontecido agora?
William: terapia cognitivo comportamental vai mostrando para o indivíduo que apesar daquele evento ter sido perigoso naquele momento, ele não é mais perigoso de forma que você tenha que recrutar todos os mecanismos de defesa.
Vinícius: Como entender os fatores que levam algumas pessoas a superar as experiências traumáticas de longo prazo? E como desenvolver terapias para ajudar as que não conseguem deixar essas memórias pra trás?
Carol: O Oxigênio de hoje é o segundo episódio da minissérie MEMÓRIAS e trata de questões sobre o Trauma. Vamos falar sobre eventos potencialmente traumáticos, o que é Transtorno de Estresse Pós Traumático, seus sintomas e também seus tratamentos. Eu sou Caroline Maia.
Bruno: Eu sou Bruno Moraes.
Vinícius: E eu sou o Vinícius Alves. E começa agora: “Memórias: Episódio 2 – O Trauma”
Bruno: Como já comentamos no primeiro episódio, antes desse programa virar uma minissérie, com link pra videogames e ficção, tínhamos uma pauta até que simples: Iríamos falar sobre um artigo publicado no princípio deste ano pelo grupo de pesquisa do professor Susumu Tonegawa, do Massachusetts Institute of Technology, o MIT.
Carol: Depois de ler o artigo e de ter entrevistado pessoas de diferentes áreas do conhecimento sobre o tema, que nós percebemos qual era a melhor forma de lidar com ele. Primeiro explicar como funciona a memória, o que fizemos no programa anterior. E no programa de hoje vamos falar sobre o envolvimento das memórias no medo, no trauma, e na superação.
Bruno: Mas antes… Tem um pouco mais de videogame pra dar ao programa uma pitada mais nerd… Quer dizer… Pra trazer mais um paralelo entre as questões científicas desse episódio e uma obra ficcional. A gente até tentou pensar em um exemplo que viesse de uma outra mídia pra dar uma variada, mas esse é realmente um dos exemplos mais fortes sobre a relação entre os traumas que alguém carrega e a forma como a realidade dessa pessoa é distorcida por esses traumas. Bem-vindos… A Silent Hill.
Carol: A série de jogos de terror Silent Hill, da desenvolvedora japonesa Konami tem muito a ver com o conceito de traumas. E não é só pelo fato de ser uma série que lida com o terror mas, principalmente, porque o trauma psicológico dos personagens é parte central do enredo de muitos desses jogos.
Vinícius: E essa vivência dos personagens tem muito a ver com a questão que trouxemos para o Oxigênio na primeira parte dessa minissérie em dois episódios. Ou seja, o quanto as memórias moldam a percepção da realidade em torno de uma pessoa.
Bruno: Silent Hill é uma cidade fictícia nos Estados Unidos, com a história marcada pelas atividades de um culto religioso de centenas de anos. A história dos jogos, em geral, se passa em uma realidade alternativa, relacionada à ação do culto e povoada por criaturas perturbadoras.
Carol: Em Silent Hill 2, o protagonista James chega à cidade após receber uma carta de sua esposa, dizendo que sentia saudades deles juntos, citando algumas memórias do casal, e dizendo que estava esperando por ele num lugar especial em uma cidade próxima, Silent Hill, onde o casal passou sua lua de mel. O intrigante disso é que Mary, a esposa do James, havia morrido algum tempo antes de escrever essa carta.
Bruno: Em uma história ao mesmo tempo aterrorizante e melancólica, Silent Hill 2 mostra a jornada de James pela cidade assombrada, lutando com as criaturas e, no processo, com o próprio passado que ele suprimiu das suas memórias. O interessante é que, em alguns momentos do jogo, a cidade da realidade alternativa se transforma ainda mais, tornando-se mais distorcida, mais ilógica, e mais violenta. Ela também se torna mais pessoal.
Vinícius: Nessa realidade alternativa, o “outro mundo”, tanto os cenários quanto as criaturas refletem traumas do passado de quem está ali. Cada pessoa vê um “outro mundo” diferente. Por exemplo, o “outro mundo” se manifesta para James como um lugar frio, melancólico e cinzento, o que pode ser lido como uma manifestação do luto que ele está vivenciando.
Carol: As criaturas que habitam esse pesadelo “personalizado” do James refletem suas frustrações quanto à doença que levou sua esposa à morte, e aos efeitos dessa doença no seu casamento…Sem dar spoiler, mas só pra deixar um parêntese aqui de que o cara foi MUITO machista com a esposa, e talvez a cidade o tenha chamado ali exatamente para ele encarar isso de frente!
Bruno: Enquanto isso, a personagem chamada Angela, enxerga, ao invés de uma realidade gelada e cinzenta, um lugar em chamas, com criaturas que remetem a homens deformados, à feiúra e à agressividade. Tudo isso faz sentido quando se descobre que, desde a infância, Angela sofreu diversos tipos de abusos psicológicos e físicos, e de sua própria família. Em especial por parte do pai e do irmão. E na grande metáfora que é o “outro mundo” de Silent Hill, esses efeitos emocionais dos repetidos traumas são extrapolados como monstros, enigmas psicológicos que remetem a memórias desagradáveis e distorções da própria arquitetura da cidade. Para muitos dos personagens da série, encarar os traumas explicitados em Silent Hill e conseguir deixar a cidade significa retornar a uma vida com um novo significado, uma nova compreensão da totalidade da vida, permitida, em parte, pelo confronto com as partes mais sombrias da própria mente.
Carol: Mas e na vida real? Como as memórias traumáticas podem transformar a realidade da pessoa traumatizada?
Vinícius: Para entender melhor quando um trauma passa a ser uma doença na vida de algumas pessoas, entrevistamos a psicóloga Paula Rui Ventura, que é coordenadora do Laboratório de Trauma e Medo na Universidade Federal do Rio de Janeiro. Paula é uma psicóloga com experiência de pesquisa sobre o diagnóstico e o tratamento do Transtorno de Estresse Pós-Traumático, também chamado de TEPT.
Paula: A pessoa apresenta um conjunto de sintomas relacionados ao trauma. O evento traumático é re-experienciado de modo persistente através de lembranças, pesadelos, sensações de que tudo está acontecendo de novo, um intenso sofrimento psíquico. Além disso, a pessoa evita tudo que lembre o evento traumático, como lugares e pessoas… E apresenta também sintomas como insônia, irritabilidade, hipervigilância, que é uma sensação de estar sempre tenso.
Vinícius: Nossa, é mais complexo do que eu imaginava. Diante de todos esses sintomas, podemos considerar que o TEPT afeta consideravelmente as relações sociais dos pacientes.
Paula: Tem também uma sensação de entorpecimento emocional que é o nome que a gente dá para sentimentos de distanciamento das outras pessoas, apresentando dificuldade de experienciar emoções positivas que é uma coisa que normalmente não se fala, mas que está presente no TEPT.
Bruno: Alguns dos exemplos típicos de eventos que podem levar ao TEPT são:
Paula: Assalto, sequestro, abuso sexual, abuso físico, acidentes naturais como maremotos, terremotos, furacões, acidentes automobilísticos também.
Carol: É, realmente são situações que, como a Paula comentou, ameaçam a vida ou a integridade física da pessoa. Agora uma curiosidade, já existem pesquisas indicando quais tipos de traumas geram mais transtornos pós-traumáticos na população?
Paula: Os piores traumas são aqueles causados diretamente por outros seres humanos, como no caso do estupro por exemplo. Então por mais terríveis que sejam os traumas coletivos, eles são menos danosos do ponto de vista psíquico do que os traumas causados por relações interpessoais, de um ser humano em relação a outro ser humano. Então para ter uma ideia em relação à questão do estupro, 0.7% dos homens sofrem estupro ao longo da vida e 65% desenvolvem transtorno do estresse pós traumático. Para você ver como é alta a porcentagem. Já no caso das mulheres, 9.2% sofre estupro ao longo da vida e 46% desenvolve transtorno de estresse pós-traumático. Então, mais uma vez bem alta a porcentagem.
Bruno: De fato, uma porcentagem alta. Mas parece muito estranho que os homens, apesar de serem bem menos expostos a essa violência terrível, tenham uma taxa tão mais alta de desenvolvimento do transtorno. Segundo a Paula, as causas dessa diferença ainda não são bem compreendidas.
Paula: Não se sabe ao certo o porquê dessa diferença de percentuais em termos do desenvolvimento do TEPT em homens e mulheres, mas o que se acredita é que, provavelmente é alguma diferença do ponto de vista cultural que está operando aí. No sentido de que os homens talvez se sintam mais humilhados, mais envergonhados do que as mulheres. Então essa seria uma hipótese, mas que não foi testada ainda, seria só uma ideia preliminar.
Vinícius: As experiências traumáticas impactam de forma diferente as pessoas. Algumas vão desenvolver o transtorno de estresse pós-traumático e outras não, ou sentirão em graus diferentes, como explica a psicóloga da UFRJ.
Paula: A carga genética e a história pessoal tornam algumas pessoas mais propensas a desenvolver o TEPT do que outras.
Carol: Existe uma crença popular de que as pessoas que são frequentemente expostas a situações traumáticas, como aquelas que encaram a violência todos os dias, vão se acostumando com essa situação e simplesmente não desenvolvem traumas por isso.
Vinícius: Mas não é bem assim. Como a Paula disse, quanto maior o número de eventos traumáticos na vida, maior a probabilidade de desenvolver o transtorno ligado ao trauma… Um bom exemplo disso são as pessoas que moram em locais onde convivem com a violência diariamente.
Bruno: Quem comenta sobre isso é o William Berger, docente na Universidade Federal do Rio de Janeiro e membro da comissão de trabalho e estudos em violência, estresse e trauma, da Associação Brasileira de Psiquiatria.
William: Quanto maior é o número de eventos traumáticos que a pessoa é exposta durante a vida, e as pessoas que moram em comunidades violentas são constantemente expostas, isso aumenta o risco do indivíduo chegar no momento em que seus fatores pessoais ali, ele não consegue mais dar conta daquela violência. E aí é como um copo que transborda e o indivíduo acaba desenvolvendo o transtorno de estresse pós-traumático.
Carol: William atende frequentemente pessoas de comunidades no Rio de Janeiro que sofrem com o transtorno de estresse pós-traumático. A situação dessas pessoas é tão complicada que podem superar até mesmo o que passam os militares que estão numa situação de guerra.
William: Eu estudei na Universidade de São Francisco na Califórnia, eu fiz parte do meu doutorado lá e tive a oportunidade de conversar com alguns veteranos de guerra do Irã, Iraque, lá da operação Iraque livre, enfim… que os Estados Unidos coordena. Quando o cara ele é um soldado e vai pra guerra, primeiro ele recebe treinamento pra ir pra guerra né e depois recebe equipamento pra ir pra guerra e depois é mandado durante algum período pra guerra, muitas vezes 6 meses mais ou menos, e ele volta pra sua casa, pra segurança do seu lar e possivelmente ele é convocado depois. Mas ele tem uma data de ida e uma data de volta. O indivíduo que mora numa comunidade do RJ, por exemplo, ele não tem um tempo de exposição ao evento, aquilo é uma coisa diária. Ele não tem um ambiente de segurança para onde ele volta, ele não foi treinado pra aquilo ali. Então, a sensação de insegurança e de impotência é muito maior, por exemplo, do que num soldado que é convocado pra guerra.
Bruno: Nossa entrevistada do primeiro capítulo do “Memórias”, Juliana Carlota Kramer Soares, comenta um pouco sobre essa história tão diferente de guerra que é a vivenciada em comunidades no Brasil e há séculos faz vítimas com um mesmo perfil. Uma guerra contra a própria população que é inaceitável em uma república democrática no século XXI.
Juliana Carlota: Quando a gente compara o Brasil com o resto do mundo, apesar de a gente não ter uma guerra declarada aqui aparentemente, os dados mostram que morre mais gente no Brasil do que em países que têm uma guerra civil. E essas pessoas que morrem são negros — pretos e pardos — e pobres. Então isso é uma realidade muito triste. Tem um estudo, ele é de 2017… é um estudo grande, multicêntrico assim, que comparou pessoas de diferentes países e de diferentes níveis socioeconômicos. E aí, o índice de TEPT na população já era em torno de 4%. Mas, se a gente pensar em outros transtornos mentais… por exemplo, depressão e ansiedade… Praticamente 33% da população mundial sofre de transtorno de ansiedade. E, no Brasil, por exemplo, também esses níveis se comparam, isso no mundo e no Brasil a porcentagem é cerca de 30% das pessoas têm algum tipo de transtorno, né? Com certeza parte disso também é devido às condições precárias de vida aí que a gente tem aqui no país.
Vinícius: Juliana comenta ainda que
Juliana: com certeza a exposição a situações traumáticas pode sim alterar a nossa percepção da realidade, e mudar também o funcionamento cerebral. Então pode gerar transtornos mentais, como por exemplo a depressão e a ansiedade, ou o TEPT, e, de forma geral, as pessoas passam a ter uma visão menos esperançosa da vida, ou então elas vão estar sempre tensas, né? Ou em alerta, com aquela expectativa de que algo ruim pode acontecer. Mas o que acontece é que nem todo mundo vai desenvolver um transtorno. Isso depende de características individuais. E esse é o desafio, né? Entender o que está acontecendo.
Carol: Para entender o que está acontecendo é necessário saber como essas memórias traumáticas são formadas, armazenadas, acessadas e extintas. A porta de entrada das memórias no nosso cérebro é por uma região específica conhecida como hipocampo, que acaba estimulando uma outra região do nosso cérebro, que é muito relacionada ao medo, que é a amígdala. William nos explica como isso se processa…
William: Diante de uma situação de perigo, você tem uma hiper estimulação da amígdala. O seu lobo-frontal tenta balancear um pouco essa estimulação da amígdala, mas, de qualquer jeito, essa informação, essa memória da situação aflitiva, ela é armazenada no cérebro a princípio na amígdala, depois no hipocampo, e depois ela vai sedimentando e vai passando pra outras regiões do cérebro. Então, quando ocorre transtorno de estresse pós-traumático, ocorre armazenamento dessa memória emocionalmente carregada, no sentido negativo, ela é hiper consolidada. Então, o TEPT ele é, na verdade, uma patologia da memória, porque ela passa daquele ponto onde ela é benéfica pro indivíduo se lembrar daquela situação e ela é armazenada de uma forma muito intensa.
Bruno: E nem sempre uma pessoa precisa se lembrar conscientemente dessa situação traumática para que sua realidade fique marcada. As memórias traumáticas também podem ser implícitas, e isso acontece em casos em que memórias são suprimidas, como em traumas da primeira infância. É o que nos conta a Juliana.
Juliana Carlota: Alguém que durante a infância, criança, lá por volta dos dois, três anos de idade… A criança se queimou no fogão. E aí ela não lembra, né? Depois de adulto você não se lembra desse ocorrido. Mas você desenvolve uma aversão por fogão ou por cozinhar. Então uma das explicações para isso, das hipóteses para explicar esse trauma, né? “Eu tenho um trauma de fogão”, é que nessa fase, por volta dos dois anos de idade, o teu hipocampo, que é a região responsável por formar novas memórias, não está completamente formado. Ele ainda está se desenvolvendo. Agora, uma outra região do cérebro que é a amígdala, que está relacionada com as emoções já estava desenvolvida. Então foi aí nessa região que ocorreu essa associação, entre a queimadura que você sofreu e essa situação traumática aí. Então, toda vez que a pessoa chega perto de um fogão, ela não sabe muito bem o porquê, mas ela tem uma reação de medo ou um certo desconforto.
Carol: Mas, por que essa memória, consciente ou não, quando é trazida à tona, dispara reações tão intensas que chega a parecer que o indivíduo está revivendo o evento traumático? Como isso se transforma na patologia do TEPT? Como explica William, isso ocorre pela liberação de hormônios que estimulam a amígdala de novo quando a memória vem à tona.
William: Sempre que essa memória é trazida à tona por qualquer razão, você tem uma nova liberação de noradrenalina, você tem uma nova estimulação da amígdala, e a memória volta a ser consolidada de forma intensa. Então, isso explica parte da patologia do TEPT, que ao invés da memória se tornar cada vez mais branda ao longo do tempo – como ocorre com as nossas memórias neutras né, por exemplo, dificilmente a gente se lembra o que almoçou há dois meses atrás, na última quarta-feira do mês, se não aconteceu alguma coisa importante ali, se não houve um evento emocional que te fizesse lembrar aquilo ali. Então as memórias neutras, elas vão se apagando ao longo do tempo. Isso não corre na memória do TEPT, pelo contrário, algumas vezes elas vão se tornando mais intensas.
Vinícius: Mas quando passamos por situações que podem gerar traumas, não é só a noradrenalina que é liberada. Outro hormônio, o cortisol, que é conhecido como o hormônio do estresse, também está envolvido… afinal, numa situação difícil como as que podem causar traumas, é de se esperar que as pessoas fiquem bem estressadas! E o cortisol, ao contrário da noradrenalina, pode ajudar o indivíduo a lidar melhor com a situação.
William: Esse cortisol, do mesmo jeito que o lobo frontal, ou até de maneira mais intensa, ele diminui a atividade da amígdala. Então, ele balanceia de forma que essa memória traumática seja armazenada na medida certa. Quando você não tem esse tipo de cortisol, seja por uso de medicações ou por características genéticas do indivíduo, você tem essa hiperestimulação da amígdala e a consolidação da memória de uma maneira nociva, intensa demais. Os pesquisadores vêm tentando desenvolver drogas ou utilizar drogas já existentes que diminuam o risco do indivíduo desenvolver o transtorno de estresse pós-traumático frente a uma situação de perigo ou uma situação potencialmente traumática. Mas até agora, não tem nenhuma droga com a eficácia clínica.
Bruno: É… evitar o trauma não é fácil… mas algumas pessoas acabam lidando melhor do que outras com situações que podem causá-los. Tem pessoas que são mais impactadas do que outras quando encaram situações muito difíceis. Essa resposta depende, entre outros fatores, das características genéticas de cada um.
Vinícius: E é por isso que dizemos que existem situações POTENCIALMENTE traumáticas… Nenhuma situação em si, necessariamente, vai gerar um trauma… isso vai depender da percepção e da resposta da pessoa.
Carol: Mesmo, por exemplo, numa situação de um assalto, em que o indivíduo tem uma arma apontada para sua cabeça e corre risco de vida, ainda é algo apenas com potencial para gerar trauma.
William: No geral, diante dos vários eventos traumáticos a que o indivíduo pode ser exposto ao longo da vida, a maior parte dos indivíduos – cerca de dois terços, eles evoluem muito bem. Eles têm um período de ansiedade, eles têm um período que pode até ter sintomas de estresse pós-traumático, mas que isso desaparece espontaneamente, sem a necessidade de nenhuma intervenção. Alguns indivíduos desenvolvem uma coisa ainda que chama Crescimento Pós-Traumático, que seria uma reação positiva em relação à depois que o indivíduo desenvolve a sua espiritualidade, ele passa a dar mais atenção pras suas atividades de prazer e menos de trabalho, ele passa a tentar aproveitar melhor a vida, seus familiares, seus amigos. Então ele passa a ter uma maior qualidade de vida depois que ele passa por um evento traumático.
Bruno: Uma outra questão que também pode influenciar nas predisposições individuais é a epigenética, que comentamos no episódio anterior. As alterações causadas por fatores do ambiente na regulação de genes podem afetar a resposta de cada pessoa a traumas de acordo com sua história de vida. E isso começa mesmo antes do nascimento, como nos conta a nossa entrevistada Juliana.
Juliana Carlota: Pensando na questão da epigenética, o que a gente sabe é que muitos pacientes que têm transtorno de estresse pós-traumático apresentam alterações no padrão de expressão de diversos genes. Principalmente genes que regulam a resposta do cérebro ao estresse. Outra coisa que a gente sabe também, a respeito desses mecanismos celulares é que as experiências que são vividas pelos pais… Alterações de dieta, maus tratos, tudo isso pode ser transmitido, de alguma forma, para as gerações futuras.
Carol: Uma vez que a memória está sedimentada no cérebro, independente de se relacionar a um evento positivo ou negativo, isso está ligado a um processo de aprendizagem. Aprendemos o que é bom ou o que é ruim e quando essas memórias são desencadeadas por algum estímulo, temos sensações boas ou ruins que nos ajudam a lidar melhor com a situação.
Vinícius: Aprender a diferença entre uma situação perigosa e uma segura, depende da síntese de proteínas no cérebro. E é sobre esse tema que um artigo recentemente publicado na revista Neuron aborda.
Bruno: O artigo, liderado pelo professor Susumu Tonegawa, do Massachusetts Institute of Technology, o MIT, foi o ponto de partida pra essa pauta. Os pesquisadores identificaram duas populações de neurônios no cérebro de camundongos, sendo uma delas relacionada tanto com a extinção de memórias de um condicionamento de medo, quanto com o sistema de recompensa, que é responsável pela resposta a estímulos prazerosos.
Vinícius: A Juliana, que trabalha com condicionamento de medo, comenta que resultados como o desse artigo são possíveis graças a alguns aparelhos de pesquisa de nova geração, possíveis pelo orçamento e investimento altos no MIT. Dentre essas tecnologias, inacessíveis para grupos de pesquisa em países com menor financiamento público e privado da ciência como o Brasil, está a técnica de optogenética, que, como explica a Juliana permite
Juliana Carlota: ligar e desligar, entre aspas, né… Então ativar e desativar neurônios.
Bruno: Com a precisão permitida por essa técnica, pesquisadores podem investigar o envolvimento de redes específicas de neurônios, para ver exatamente onde estão as células envolvidas em qualquer processo estudado, e qual o efeito de “desligar” essas células.
Carol: Para o estudo da memória, além dessa ativação e desativação seletivas, os pesquisadores do MIT também conseguiram obter dados precisos sobre a atividade de grupos de neurônios em indivíduos vivos, através de outro aparelho de alta tecnologia, chamado de miniscope. Com esse mini microscópio, é possível olhar para o cérebro do camundongo e…
Juliana Carlota: registrar, em tempo real, esse… Influxo de cálcio, que está ocorrendo nas células ali. Ele está registrando o potencial de ação… a passagem ali da informação de um neurônio pra outro. É muito difícil reproduzir o que ele faz em outros lugares, né? Praticamente impossível. A gente usa técnicas muito mais simples, que são técnicas farmacológicas… Então o que a gente faz é inativar uma região inteira do cérebro com uma droga, geralmente é o mucimol, então eu consigo inativar aquela estrutura… Então eu inativo toda uma parte da amígdala, e eu inativo toda uma parte do córtex pré-límbico. E aí eu vejo como que fica essa conversa entre as regiões, se uma das regiões não está funcionando direitinho, né, como era esperado. Então, é possível também inferir aí essa conexão funcional entre essas estruturas, mesmo sem usar uma técnica tão refinada. Então aqui no Brasil a gente tem que trabalhar com o que a gente tem. É mais trabalhoso, é mais demorado, mas são as ferramentas que a gente tem disponíveis. E, apesar de ser trabalhoso, eu acho muito legal a gente estar conseguindo publicar, né, em 2020… Mesmo com todas essas dificuldades e mesmo demorando muito, não é?
Vinícius: Segundo a Juliana, outra coisa que as técnicas apresentadas no artigo permitiram fazer foi quebrar um paradigma, mostrando que os neurônios que estão envolvidos na formação de uma memória não são os mesmos envolvidos na extinção dessa memória. Em camundongos, pelo menos, as memórias parecem ser “desaprendidas” numa região das chamadas amígdalas basolaterais onde os neurônios …
Juliana Carlota: também estão envolvidos com a formação de uma memória considerada positiva, né? Que, no caso, é uma recompensa aí de beber água. Então a gente poderia falar no termo substituição. A gente estaria sobrepondo ou substituindo uma memória. Um tipo de neurônio adquiriu a informação e agora um outro grupo, que é esse grupo do… da região posterior do basolateral é que está envolvida com a extinção. De certa forma, isso faz sentido se a gente pensar no conceito que eu dei de extinção, que… A extinção, na verdade, é uma nova aprendizagem. E aí, pensando, né, no ser humano, a gente pensar que talvez a gente não consiga apagar totalmente uma memória traumática, mas o que a gente consegue fazer é ressignificar. Então essa memória passaria a ter uma valência emocional menor. Então ela não vai te causar o mesmo sofrimento que ela causava anteriormente. Você ainda se lembra do que aconteceu, mas você não vai sofrer tanto com essa lembrança.
Carol: O artigo traz ainda novos conhecimentos sobre a síntese das proteínas ligadas à aprendizagem e consolidação das memórias traumáticas no cérebro, o que ajuda a entender melhor como tudo funciona e desenvolver tratamentos cada vez mais adequados para ajudar pessoas com TEPT ou outros transtornos ligados ao medo, como comenta William.
William: O que esse artigo ele tem de interessante é que ele adiciona mais um passo no conhecimento sobre a fisiopatologia do medo e de vários transtornos psiquiátricos relacionados ao medo. Não só o TEPT, mas como as fobias específicas, por exemplo, o transtorno do pânico. Quanto mais conhecimento sobre esses mecanismos né, dessa produção de síntese proteica e ativação de outros neurônios nessas regiões bastante específicas do cérebro, a gente consegue desenvolver drogas que consigam atuar com maior especificidade e eficiência nesse mecanismo bastante específico dessa região cerebral.
Carol: Mas e no mundo real da clínica?… Como podemos superar um trauma? Já que as memórias traumáticas são tão bem sedimentadas em nosso cérebro e que revivê-las pode despertar reações tão intensas como no momento que gerou o próprio trauma, como se pode tratar isso? As principais drogas utilizadas no tratamento de transtorno de estresse pós-traumático são os antidepressivos.
William: Embora antidepressivos tenham esse nome, eles não tratam só a depressão, então mesmo que o indivíduo não tenha sintomas depressivos, ele pode ser tratado em vários transtornos mentais com antidepressivo. E os antidepressivos utilizados no tratamento do TEPT, pelo FDA – que é a agência americana de controle de medicações – só tem até agora sertralina e a paroxetina, que são dois antidepressivos inibidores da recaptação de serotonina.
Bruno: Mas, na realidade, o que mais vai ajudar no tratamento do trauma de fato nem são os remédios.
William: O que se mostra mais eficaz para a prevenção do transtorno de estresse pós-traumático na verdade é o suporte social que é mobilizado, como os amigos, os familiares do indivíduo, e as psicoterapias. A psicoterapia cognitivo comportamental focada no trauma parece ser a intervenção de primeira escolha para o tratamento de transtorno de estresse pós-traumático. Porque ela faz uma dessensibilização da memória traumática, é o que a gente chama de extinção da memória traumática – ela ensina o indivíduo que aquela situação vivida, ela passa a ser segura em outro ambiente. Você não precisa mais ter a generalização do sentimento de perigo.
Vinícius: Ainda sobre psicoterapias, com certeza falar do trauma é sempre muito difícil. Segundo conversamos com a Paula, que conhece casos de pacientes que trazem queixas de depressão e ansiedade, muitas vezes o quadro principal na verdade é o de TEPT.
Paula: Psicólogos e psiquiatras diante de um novo paciente precisam questionar a sobrevivência de alguma situação traumática. Pode ser através dos questionários ou pode ser através de uma pergunta direta mesmo. A pergunta precisa ser feita de maneira cuidadosa para que o paciente não se sinta invadido e sim acolhido. Caso o paciente responda que sim, que ele teve uma vivência traumática, é preciso ver se ele se sente à vontade ou não para mencionar o que ocorreu em um primeiro momento. Muitas vezes é necessário que se passem várias sessões até que o paciente consiga falar algo a respeito do trauma, e isso precisa ser respeitado.
Bruno: Para contar pra gente um pouco da experiência clínica com pacientes que já passaram por eventos potencialmente traumáticos na vida, entrevistamos a psicóloga Mara Regina Nunes Alves, que por sinal é mãe do Vinícius. Mara é psicóloga formada pela Universidade do Sagrado Coração – a USC – e tem experiência clínica de três décadas, sendo que a maior parte foi na saúde pública, atendendo em uma unidade básica no interior de São Paulo.
Mara: Infelizmente atendi vários casos de pacientes em transtorno de estresse pós-traumático e eu posso destacar um dos casos que mais me impressionou, usando nomes fictícios, é claro. Então, Luciana foi estuprada pelo seu próprio pai aos 06 anos, precisou ser levada ao Hospital e ao Instituto Médico Legal (IML) pra realizar exame de corpo delito. Só depois de ter tomado essas providências, a mãe Ana a trouxe para Unidade pra fazer tratamento psicoterápico, relatando o ocorrido. Quando eu comecei o tratamento, realizei uma anamnese bem estruturada com a mãe e então iniciei os atendimentos com a criança.
A Luciana estava extremamente assustada a princípio; mostrava-se hostil e pouco comunicativa durante as sessões, mas com o tempo ela foi se soltando e melhorando sutil e progressivamente, através da aplicação de técnicas projetivas, relaxamentos e da própria terapia lúdica – a ludoterapia. É óbvio que a Luciana só se sentiu mais segura quando o caso chegou ao Fórum e foi devidamente esclarecido. Porque o pai agressor que estava foragido foi detido. Ela ficou em tratamento psicoterápico comigo mais uns 08 meses e depois mudou-se para outra cidade, mas já apresentando melhoras nos sintomas ansiosos e na escolaridade. Além disso, o terror noturno e a fobia social que ela tinha desenvolvido no transtorno de estresse pós-traumático. também diminuíram comprovadamente.
Carol: Mara também comenta que, dentro da diversidade de pacientes que passam por acompanhamento psicoterapêutico de médio ou longo prazo, existem sinais a se procurar, indicativos do progresso de pacientes no processo de superação do trauma.
Mara: O que percebo depois de tantos anos de profissão, é que traumas mais severos tendem a acompanhar as pessoas ao longo da vida e só são amenizados com o tempo, mas infelizmente nunca esquecidos. A condição de transtorno de estresse pós-traumático pode durar meses ou anos, normalmente, e com gatilhos que trazem de volta memórias do trauma, acompanhadas de intensas reações emocionais e físicas.
Carol: Até agora a gente focou em traumas que envolvem relações interpessoais, mas e aquelas situações que envolvem de uma vez só uma comunidade toda, como o rompimento de barragens, chuvas e enchentes que levam casas embora? Ou mesmo tragédias naturais que afetam cidades inteiras, como terremotos e maremotos?
Vinícius: Considerando que, infelizmente, ainda estamos em plena pandemia de coronavírus e que essa pandemia pode atuar como uma espécie de trauma coletivo, podemos esperar então que muitas pessoas desenvolverão transtorno de estresse pós-traumático?
Paula: Então nas situações de pandemia, tem o medo do vírus, por exemplo, da doença que é o que a gente está vivendo que é extremamente estressante para toda população. Mas há um inimigo em comum que une todos e que leva um sentimento de solidariedade também. Então tem todos os aspectos negativos, mas tem aspectos positivos como esse de solidariedade que não está envolvido em um outro trauma interpessoal, por exemplo. Caso alguém próximo da pessoa morra, pode ser um evento extremamente traumatizante, ainda mais se for uma coisa súbita como morrer do Covid.
Bruno: Uma outra visão acerca do impacto psicológico da pandemia da COVID-19, especialmente levando em conta os efeitos do confinamento e do clima geral de ansiedade e incerteza, é a de que todo esse processo pode ter efeitos de longo prazo para a saúde mental mesmo de pessoas que não passarem por esse trauma da perda de alguém próximo.
Juliana Carlota: Então o fato de ficar preso, né? Confinado em casa e mudando aí nossos hábitos… O ser humano é um ser social, que precisa de contato social. Exceção é uma ou outra pessoa que gosta mais de ficar sozinho, que se sente mais à vontade isolado, mas, em geral, a gente precisa de contato social. Então tem vários psicólogos e psiquiatras que estão dando entrevista e estão afirmando que provavelmente esses transtornos mentais vão aumentar ao final dessa pandemia. Então a gente também tem que olhar pra isso e se preocupar. E não sei se tem alguma coisa pra… A gente tenta prevenir, tenta conversar por whatsapp, por reuniões virtuais aí, lives… De alguma forma manter contato com as pessoas no nosso ciclo de amigos pra tentar evitar que alguma coisa pior venha a acontecer com a gente no futuro.
Vinícius: E essa minissérie em dois episódios do Oxigênio fica por aqui. O programa de hoje foi roteirizado por nós três, com colaboração da nossa coordenadora, professora Simone Pallone, e trabalhos técnicos do Octávio Augusto da Rádio Unicamp e do Gustavo Campos.
Carol: Se você gostou do programa, conta pra gente nas nossas redes sociais, ou em uma resenha no seu agregador de podcasts preferido!
Bruno: Se puder também compartilhar com alguém da família, do trabalho ou do seu círculo de amizades que goste de ciência e games ou esteja passando por um momento difícil, é uma super força para a gente, e pode ser que ajude essa pessoa também.
Carol: E se quiser ficar sempre de olho nas novidades do Oxigênio, segue a gente nas redes sociais. Oxigenionoticias no facebook e @oxigeniopodcast no instagram, tudo junto e sem acento, e oxigenio_news no twitter.
Vinícius: Até a próxima!
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