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  • #88 Série Corpo, episódio 2 – Gente forte

    “Gente forte” é o segundo episódio da série Corpo. Traz histórias de pessoas que queriam ser fortes, que treinaram pra isso, e/ou estudam o tema. Os entrevistados foram a halterofilista paralímpica Maraísa Proença, apelidada de“Boneca de Ferro”, e os professores Marco Carlos Uchida e Renato Barroso, da Faculdade de Educação Física da Unicamp, e que entendem tudo de movimento e força.

    A série Corpo é produzida pelo Samuel Ribeiro, e faz parte do projeto “Histórias para pensar o corpo na ciência”, que fala de pessoas, de movimento e de pesquisa e de Educação Física. É financiado pela FAPESP (2019/18823-0) e coordenado pelos professores Bruno Rodrigues (FEF/Unicamp) e Marina Gomes, do Laboratório de Estudos Avançados em Jornalismo, da Unicamp. 

    Um lembrete: o Oxigênio está fazendo uma pesquisa de público! Não esqueça de responder. A equipe toda agradece. É só clicar aqui.

    Segue a transcrição completa do programa.

    ∗∗∗∗

    Samuel: No ano passado eu decidi que ia praticar Powerlifting, que é um esporte de levantamento de peso, e esse som que você tá ouvindo é lá das aulas que são oferecidas na minha faculdade. Mas calma, deixa eu explicar melhor…

    Samuel: Eu não sou um cara forte, mas eu sou fascinado pela força. 

    Samuel: Uma coisa que me marcou quando eu era criança eram as histórias que meu avô Mário contava. O Mário era alto e tinha um bigodão, tinha sido caminhoneiro a vida inteira e se gabava de ser um homem muito forte. Ele contava que arremessava sacos de batata pra cima do caminhão usando uma mão só. Que quando era mais novo levantava o carro do amigo e mudava a posição que tava estacionado, só de sacanagem. E que tinha pescado um peixe de mais de 100 quilos e tirado da água sozinho.

    Samuel: Eu não sei até onde essas histórias são verdade, porque além de caminhoneiro meu avô também era pescador. Mas a presença daquele homem forte ficou gravada na minha imaginação. E é por isso…

    Samuel: … que eu precisava falar desse assunto.

    Samuel: Eu sou o Samuel Ribeiro, e este é o Corpo, podcast da Unicamp que fala de pessoas e de movimento. E neste episódio a gente vai falar de força, de músculos e dos pesos que a gente é capaz de levantar.

    Samuel: E já que eu tava falando da minha infância… 

    Samuel: … eu quis começar perguntando pra Maria Fernanda, minha sobrinha, que não chegou a conhecer o bisavô Mário, se ela conhecia alguém que fosse muito forte.

    Maria Fernanda: Ninguém que eu saiba.

    Samuel: … e depois de alguma insistência…

    Maria Fernanda: A Capitã Marvel, porque ela consegue voar e ela tem bastante força. Ela tem bastante força, acho que ela consegue levantar 100 kg ou mais e ela consegue tirar do chão uma barra bem pesada.

    Samuel: Então eu segui a dica da minha sobrinha e fui procurar alguém que conseguisse levantar uma barra bem pesada.

    Maraísa Proença: É, na verdade eu fazia academia, mas nada pensando no esporte. Na verdade eu nem conhecia o…

    Samuel: Essa é a Maraísa Proença.

    Maraísa: … Powerlifting né, paralímpico, nem nada. Eu treinava normal, pra não ficar sedentária.

    Samuel: Ela é atleta de Parapowerlifting, ou halterofilismo paralímpico.

    Maraísa: … vai fazer 5 anos que eu tô no esporte. Assim, nunca me imaginei uma atleta mas, depois que eu conheci o esporte me apaixonei e não parei mais.

    Samuel: A Maraísa nasceu com uma malformação e usa prótese de perna desde pequena. Ela começou a se envolver com o esporte praticando o Powerlifting convencional. Depois ela passou para a modalidade paralímpica, e os resultados que ela tem alcançado renderam até um apelido pra ela…

    Maraísa: … Boneca de Ferro [risos]… uma vez eu tava em um evento e aí veio um pessoal pra fazer entrevista também, e aí a repórter acabou mencionando depois alguma coisa de boneca de ferro e eu acabei adotando né, gostei, achei até uma música depois, que é o nome de Boneca de Ferro, uma letra bem legal, e aí acabei adotando [risos].

    Samuel: Pra quem não conhece, o halterofilismo paralímpico tem só a prova do supino, que é aquele exercício que a gente faz deitado no banco da academia. Só que no caso das competições que a Maraísa participa, tem muito mais peso. E tem muito mais regra.

    Maraísa: … a gente saca a barra, aí tem que esperar o comando do árbitro pra poder descer, aí você tem que encostar a barra no peito sem quicar, sem afundar no peito. Tem uma pausa nítida e aí você sobe, com os braços retos, também sem, tipo, sem travar no meio e continuar, tem que ser um movimento contínuo, e aguardar o comando do árbitro pra poder guardar a barra. Fazendo tudo certinho, válido o movimento.

    Samuel: Ela tem conseguido ficar sempre entre as três primeiras colocadas na categoria em que ela compete, e tem treinado muito pra melhorar o seu desempenho. Na nossa conversa eu fiquei impressionado com toda aquela força, e fiquei pensando como seria se a minha sobrinha conhecesse ela e visse o que ela consegue fazer?

    Maraísa: Lembrei de uma situação bem engraçada. Eu tava com o meu afilhado e a minha sobrinha…

    Samuel: … talvez parecesse um pouco uma das super heroínas que ela vê nos desenhos…

    Maraísa: … era casamento da minha sogra, e aí a gente foi embora pra casa dela um pouco antes, né, que as crianças tavam com sono e aí eu fui com eles. Aí a gente chegou na casa, a porta do banheiro tava trancada e não abria por nada. E eles precisando usar o banheiro [risos].

    Samuel: … e usasse a sua força pra salvar o dia.

    Maraísa: Aí eu arrombei a porta do banheiro [risos]. Eles ficaram assustados, mas foi bem engraçado, falaram “nossa, tia!” [risos].

    Maria Fernanda: Mulher Maravilha, Capitã Marvel, Mulher Gata…

    Samuel: … e Boneca de Ferro.

    Marco Carlos Uchida: Na verdade eu acho que os meus heróis de referência na infância foram os heróis típicos japoneses, né. Então, o clássico Ultraman, Ultraseven… 

    Samuel: Pra falar um pouco sobre como a ciência vê essa questão da força…

    Uchida: … e logicamente tem a força deles, né, seja a força física ou seja a força da emissão de raios e tudo mais.

    Samuel: … eu fui conversar com alguém que entende do assunto.

    Uchida: Meu nome é Marco Carlos Uchida, né, sou professor aqui da Faculdade de Educação Física da Universidade Estadual de Campinas, e a minha linha de pesquisa principal é o treinamento de força e potência, né, atualmente para idosos e também trabalhando na área da deficiência física.

    Samuel: O Uchida faz parte do Departamento de Estudos da Atividade Física Adaptada e estuda treinamento de força desde o doutorado. Mas a questão da força acompanha ele desde antes dele ser pesquisador.

    Uchida: … e tem um episódio muito… uma passagem muito interessante que foi meu primeiro contato com algum tipo de… é… elemento da academia de musculação, né, treinamento de força, que foi uma barra e anilhas, né, que foi na casa do meu tio, lá em São Paulo. Eu devia ter mais ou menos uns, talvez 4 anos, e aí eu lembro que eu vi aquilo num quarto e fui lá levantar o peso. Então pra mim aquilo foi, acho que o primeiro contato com um implemento da força propriamente dito.

    Samuel: E levantou o peso?

    Uchida: Levantei, porque era muito leve né, devia ser talvez 4 quilos, coisa assim. Mas por isso que foi muito legal, porque eu consegui levantar o peso do solo né, então isso foi marcante.

    Uchida: Então eu sempre fui muito franzino, muito magro né, até com aspecto frágil né, aquele oriental magrinho, e eu lembro que com 14 anos, é… apesar de saber judô e tudo mais, eu tinha um amigo na minha rua que era praticante de musculação, né, que a gente chama aqui academicamente de treinamento de força.

    Samuel: Aí esse amigo chegou pra ele e falou…

    Uchida: … “pô, vamo lá fazer, participar lá da academia, tal, né, academia de musculação”, e aí eu fui.

    Samuel: O Uchida ficou encantado com a ideia de treinar e obter resultados, não só o aumento da força mas também o ganho de massa muscular. E conforme ele foi tendo resultados, ele foi se apaixonando pelo universo do treinamento.

    Uchida: … aquilo foi me retroalimentando positivamente e aí eu fui gostando, gostando, gostando, até que finalmente, né, eu fui fazer Educação Física e fui direcionado pra isso. E eu sempre comento com os meus alunos que eu fui fazer Educação Física porque eu queria abrir uma academia de musculação [risos]…

    Samuel: O Uchida não abriu uma, mas trabalhou em academias e atuou como personal trainer. Só que ele sentia necessidade de se aprofundar mais nos estudos, e aí ele foi se envolvendo com o mundo da pesquisa e nunca mais parou. Hoje ele faz e orienta vários tipos de pesquisas relacionadas com o treinamento de força.

    Uchida: Você vê um indivíduo musculoso, esse é o sinônimo de força, né. Mas pra nós aqui da academia científica, e pros estudiosos e aqueles que são na verdade os entusiastas e que estudam um pouco mais, a gente sabe que a força, né, fisiologicamente falando, ela tem basicamente dois componentes, né. Um é o componente morfológico…

    Samuel: … que é o tamanho do músculo e o jeito que ele cresce quando estimulado, a chamada hipertrofia…

    Uchida: … e outro são as adaptações do sistema nervoso, né, são as adaptações neurais…

    Samuel: … que, em resumo, é o jeito que o seu cérebro, os seus neurônios e as conexões deles com os músculos passam a funcionar de um jeito mais eficiente pra gente produzir mais força. E esses dois componentes não são a mesma coisa.

    Uchida: O que é muito comum as vezes na academia, nas musculação a gente vê isso. Tem aquele rapaz magrinho, tal, ele vai na… no equipamento lá, tipo legpress que é de empurrar o peso lá pra cima com membros inferiores, ele levanta lá uma marca imensa, e aí vem um rapaz muito maior, as vezes… é… quase o dobro de massa muscular, ele vai lá e faz com o mesmo peso. Então isso é interessante pra saber que a força não depende apenas do tamanho do músculo, mas depende também dessas adaptações do sistema nervoso.

    Samuel: E isso é interessante pra pensar em treinamento pra idosos, que é algo que o Uchida domina bastante. Ele me contou que é comum que as pessoas mais velhas consigam resultados legais no ganho de força, mesmo sem ter muito aumento da massa muscular. E quando a gente fala de treino de força nesse contexto, nem sempre tem a ver com os 100 kg da Capitã Marvel. Ou com o supino que a Maraísa faz.

    Uchida: Porque por exemplo, sentar e levantar pra você ou pra mim não é força. A gente consegue fazer talvez centenas de repetições. Mas pra um idoso, muitas vezes, se ele consegue fazer 2 ou 3 repetições saindo da cadeira e levantando, ele pode chegar em exaustão pra isso. Ou seja, isso caracteriza o que? Algo realmente muito intenso, né, e é força pra ele.

    Samuel: Então tem mais de um jeito de se pensar o treinamento de força, e o Uchida me falou de algumas pesquisas que o grupo dele tem desenvolvido nos últimos anos. Teve por exemplo um doutorado que ele orientou, feito pelo Hélio Coelho Júnior, que analisou os efeitos de um treino de força em idosos frágeis. Que são aqueles idosos que não conseguem mais fazer várias tarefas simples do dia a dia. E depois de alguns meses eles melhoraram na locomoção e em outras habilidade básicas… inclusive sentar e levantar da cadeira.

    Samuel: Teve também um mestrado recente, da Luz Castaño, que fez um treinamento de dupla-tarefa com idosos, combinando exercícios de força e exercícios cognitivos. Então enquanto o idoso levantava os pesos…

    Uchida: … a gente falava assim, agora o senhor a senhora deve falar nome de animais, então pra cada repetição né ele falava assim, então: cachorro, gato, galinha, vaca, rinoceronte, hipopótamo e ia… até o final das repetições. E aí na próxima série já era outra coisa. Agora cê tem que falar nome de fruta, então abacaxi, abacate, tomate, e maçã e aí ia… Logicamente a gente ia piorando a situação da dupla tarefa. Depois era só animais aquáticos. Animais terrestres. Animais que voam, entendeu? Então é, aumentando o grau de dificuldade.

    Samuel: A ideia era matar dois coelhos com uma cajadada só. E deu certo. Aqueles idosos voluntários treinaram por um tempo, e no final da pesquisa a Luz e o Uchida viram que de fato eles tinham melhorado na parte física e também na cognitiva. 

    Uchida: E logicamente nosso grupo de idosos eram idosos mais instruídos, né, a gente não sabe se isso por exemplo uma população com menos instrução formal teria o mesmo resultado, mas já é algo que é possível de você incluir na sua rotina de treinamento, não só uma parte física mas uma parte cognitiva também.

    Samuel: Essa nossa conversa foi longe e ele me contou de vários outros estudos que o grupo dele tem feito. Inclusive um em que ele analisou a expressão facial das pessoas durante exercícios de força…

    Uchida: … todo mundo de uma forma ou de outra utiliza a expressão facial pra você decodificar o outro ser humano [risos].  

    Samuel: … e mostrou que a gente consegue usar a careta como mais um indicador possível pra saber se um exercício tá muito difícil ou se a pessoa tá perto da exaustão, o que pode aumentar a chance de acontecer uma lesão. Enfim, tem muita possibilidade de pesquisa com essa questão da força, e o que o Uchida tá vendo agora é justamente… o halterofilismo paralímpico.

    Maraísa: … eu quando fazia só musculação, eu detestava treinar braço. Eu odiava, fazia uma coisinha ou outra porque o professor pedia muito. Mas assim, eu só gostava de treinar perna, abdominal, enfim, eu odiava treinar braço.

    Samuel: A gente volta pra Maraísa.

    Maraísa: Mas aprendi a gostar né, porque daí não teve outro jeito, eu gostei do esporte, e aí fui obrigada a gostar de treinar braço, né. Hoje em dia é ao contrário, eu adoro treinar braço e tenho preguiça de treinar perna.

    Samuel: E hoje em dia os treinos que ela faz são muito diferentes do que ela fazia na época da musculação. São treinos específicos para ganho de força, com técnicas e equipamentos diferentes dos convencionais. E a Maraísa sente os resultados disso no dia a dia.

    Maraísa: … quando eu comecei a minha primeira marca assim em competição foi 40 kg. Hoje eu levanto 81, foi a minha última marca na competição agora em fevereiro em Brasília.

    Maraísa: Eu lembro assim que quando eu comecei assim no convencional tinham pouquíssimas mulheres que faziam, e eu assim de início meio que quase que igualava né os pesos de algumas que já competiam há mais tempo. Mas aí quando eu fui pro paralímpico, aí assim já tinha um pessoal mais experiente, já mais forte, mas aquilo sempre me motivou a chegar naquele nível, entendeu? Sempre me motivou a conquistar mais, a querer mais… a estar no primeiro lugar.

    Renato Barroso: De verdade eu não tinha ninguém na minha família que era forte.

    Samuel: Esse é o professor Renato Barroso.

    Renato: … eu assisti Conan né. Então a pessoa mais forte que me vem na cabeça quando você me pergunta assim é o Arnold Schwarzenegger, que foi o ator principal do Conan.

    Samuel: Ele também faz pesquisas sobre treinamento de força e hipertrofia. E o nome do Schwarzenegger… 

    Renato: … Shwarzenegger. 

    Samuel: … apareceu bastante na nossa conversa.

    Renato: Schwarzenegger, Arnold Schwarzenegger. O Schwarzenegger vai lá no mercado, ele vai carregar 2 ou 3 caixas de leite facilmente.

    Samuel: O Arnold veio na nossa cabeça, e a essa altura deve ter vindo na sua também, porque a gente conversou muito sobre a questão do aumento do tamanho do músculo. E esse é um dos temas que o Renato tem trabalhado, também lá na Faculdade de Educação Física da Unicamp.

    Samuel: Ele me contou que estuda força desde o começo da carreira, e que tem se dedicado a entender como que o treino de força pode afetar o desempenho esportivo na natação, na corrida, no ciclismo e em outras modalidades… mas antes de falar com o Renato sobre as pesquisas, eu tinha que perguntar…

    Renato: Eu tenho 1 metro e 98 de altura. De tênis talvez tenha 2…

    Samuel: Ele é bem fácil de achar pelos corredores da faculdade. E uma coisa que tá nas pesquisas do Renato e dos alunos que ele orienta é ver como funciona a questão do ganho de força e do aumento da massa muscular quando a gente mexe nas variáveis… 

    Renato: Volume de treino, intensidade de treino, frequência de treino…

    Samuel: … nessas variáveis do treinamento ao longo de um período. 

    Samuel: Pra simplificar, é mais ou menos assim. A gente pega dois grupos e põe eles pra fazer treinamentos de força parecidos, só que com algumas coisas diferentes. Quantas vezes por semana o treino acontece. Quantas séries de quantas repetições vão ser feitas em cada exercício. E se o peso vai estar leve ou pesado perto da força que o indivíduo já tem. E a ideia é olhar no resultado final de cada grupo o que que isso gerou em ganho de força e no tamanho do músculo.

    Samuel: Uma coisa que o Renato me explicou é que pode ser difícil fazer esse tipo de pesquisa, porque algumas diferenças a gente só constata depois de períodos mais longos de treino. E nem sempre é fácil manter os voluntários participando do treinamento de um jeito consistente por muito tempo.

    Renato: Então a gente demora um tempo pra recrutar alguns voluntários, avaliações iniciais, treino, avaliações finais. Então se nós nos estendermos e falamos assim “ah, 8 semanas é pouco, vamos fazer com 24”. 24 semanas são 6 meses! Então é muito desafiador, é muito desafiador.

    Samuel: Mas mesmo sendo desafiador, esses estudos podem ajudar a pensar treinos mais eficientes pros atletas de várias modalidades, ou mesmo a entender melhor a relação entre a força e a hipertrofia, que ainda é um tema muito quente na área. E o Renato reforçou o que o Uchida já tinha me falado, de que quando a gente fala de força a gente tá falando de muitas coisas diferentes.

    Renato: Há pouco tempo saiu na mídia aí uma foto do Cristiano Ronaldo saltando algo que eles estimaram ser por volta de 80 cm, o que é um valor muito alto. O Cristiano Ronaldo é forte? Se você comparar com o Arnold Schwarzenegger, e você tiver o Arnold Schwarzenegger como o padrão de força, o Cristiano Ronaldo não é forte. Mas se você pedir pro Arnold Schwarzenegger saltar, certamente ele não vai saltar 80 cm. Então a força ela pode se manifestar de diferentes maneiras.

    Samuel: E uma dessas maneiras é a potência, que é tipo isso que o Cristiano Ronaldo fez na foto, aplicando uma dose considerável de força num curto espaço de tempo.

    Renato: Há pouco tempo teve um programa na TV que era o strongman, que é o homem mais forte do mundo, acho que eles traduziram assim. Então tem várias provas de força. Então pega uma rocha com 150 kg e coloca num pedestal que tá a 1 metro do solo. Joga o barril pra uma barra que tá a 4 metros do solo. O barril pesa sei lá quantos quilos, 40, 50 quilos, vai jogar pra cima… E como eles têm que fazer várias vezes ainda, também pode ser considerado resistência de força.

    Renato: Então tem provas que envolvem força máxima, por exemplo uma modalidade que chama powerlifting. Então os indivíduos participam de 3 provas, que são supino… 

    Maraísa: Isso, supino.

    Uchida: Clássico, eu adoro supino, falo toda hora do supino né…

    Renato: … agachamento, levantamento terra, e o objetivo é levantar a maior quantidade de peso possível nesses exercícios, uma única vez. Mas eles levantam.

    Maraísa: … válido o movimento.

    Renato: Então são diferentes manifestações que têm que ser consideradas quando você faz uma pergunta que eventualmente parece simples. Você é forte? Eu posso ser forte se eu levantar 150 kg. Eu posso ser forte se eu jogar 10 vezes o barril por cima. Eu posso ser forte se eu saltar 80 cm.

    Samuel: Você é forte?

    Renato: Não [risos].

    Samuel: Nem com quase 2 metros de altura?

    Renato: Nem com quase 2 metros de altura.

    Samuel: Conversar sobre força me fez lembrar mais ainda do meu avô Mário, aquele homem forte que me marcou tanto. E eu lembrei de uma coisa que aconteceu no final da vida dele. 

    Samuel: Eu tinha uns 14 anos mais ou menos, e ouvi ele me chamando de dentro do banheiro. Ele tinha caído e já não conseguia levantar sozinho. Aí eu, franzino e desengonçado, abracei aquele homem enorme do melhor jeito que consegui, respirei fundo e levantei ele do chão. Ele olhou pra mim um pouco triste e comentou: “você tá forte hein moleque”. 

    Samuel: A força continua sendo algo que me fascina, mas eu percebi que quando a gente fala de força…

    Uchida: … na física é simplesmente massa vezes aceleração, né…

    Samuel: … a gente tá falando de muita coisa.

    Uchida: … acho que é muito mais do que massa vezes aceleração.

    Uchida: Acho que o importante é falar que o treinamento de força, né, ele veio de uma marginalidade da década de 70, do mundo underground, né, onde só quem treinava era o fisiculturista, né, que né, muitas vezes associado à utilização de recursos não lícitos, né, como os anabolizantes esteroides, pro que é hoje né.

    Uchida: Né, então hoje todo mundo fala assim, o que que eu tenho que fazer de musculação pra eu envelhecer melhor? Cada vez mais a ideia do treinamento de força ela não tá vindo simplesmente pra questão da estética ou pro esporte de alto rendimento, mas também pra melhorar a saúde da população como um todo.

    Samuel: Então eu posso estar falando do fisiculturista gigantesco. Da Maraísa levantando o supino. De um ciclista ou nadador que faz treino de força pra melhorar o desempenho, e de uma pessoa comum, que vai à academia pra manter a saúde. Da potência, da resistência de força, da força máxima. Ou do idoso frágil fazendo exercícios com elásticos pra poder viver melhor.

    Uchida: Eu acho que todos nós temos a capacidade de melhorar a força, né. Talvez quando você melhora a força, você pode falar “eu sou forte em relação ao que eu era antes, e posso ser mais forte no futuro”. Eu acho que a pessoa forte é aquela que consegue é… consegue ultrapassar os obstáculos, né, de forma facilitada.

    Uchida: Eu posso imaginar por exemplo, que atualmente ainda me sinto forte [risos].

    Samuel: O episódio fica por aqui. O Corpo é uma produção do podcast Oxigênio, do Labjor/Unicamp, e faz parte do projeto “Histórias para pensar o corpo na ciência”, que é feito na Faculdade de Educação Física e tem financiamento da FAPESP. 

    Samuel: A produção, as entrevistas, o roteiro e a edição deste programa foram feitas por mim, Samuel Ribeiro. O projeto é coordenado pelo professor Bruno Rodrigues, da FEF, e pela professora Marina Gomes, do Labjor. E quem coordena o Oxigênio é a professora Simone Pallone, também do Labjor.

    Samuel: E se você gostou do episódio, dá um alô pra gente nas redes sociais. A gente tá no Facebook, Instagram e Twitter, é só procurar por Corpo Podcast. Até a próxima!

     

    Músicas

    “Pastor” by Macrame.

    Blue Dot Sessions (https://www.sessions.blue).

    “Hickory Interlude” by Onesuch Village. 

    Blue Dot Sessions (https://www.sessions.blue).

    “Flattered” by Delray.

    Blue Dot Sessions (https://www.sessions.blue).

    “An Oddly Formal Dance” by Calumet.

    Blue Dot Sessions (https://www.sessions.blue).

     

    Imagem da capa

    Imagem de Ryan McGuire por Pixabay.

    23 min
  • #87 Temático: Uma velha nova epidemia
    O mundo está vivendo, desde o final do ano passado, uma pandemia causada por um vírus. Um coronavírus, altamente contagioso e letal, que se espalhou pelos cinco continentes, já deixando um rastro de mortes. Em nosso dia a dia, convivemos com muitas epidemias, podemos dizer que estamos acostumados com elas, mas não devíamos.

    Diferentemente desse novo coronavírus que estamos enfrentando, muitas doenças epidêmicas poderiam ser evitadas, com prevenção em relação aos hábitos comportamentais ou vacinas. Esse é o caso da sífilis, uma doença causada por uma bactéria, que esteve controlada no passado e que nos últimos anos voltou a crescer no Brasil. Para se ter uma ideia, de 2010 a 2018, a quantidade de pessoas infectadas pela doença aumentou em 75%.

    É sobre a Sífilis que o Oxigênio 87 vai tratar. Uma velha conhecida que vem aterrorizando o sistema público de saúde do Brasil.

    As entrevistadas foram a Edy, pessoa trans não-binária que teve sífilis e resolveu tratar abertamente do tema nas redes sociais, a sexóloga Natalia Fernandes, infectologista Ruth Khalili, da Fundação Oswaldo Cruz e a professora do programa de Pós-Graduação em Saúde Coletiva da Universidade de Fortaleza, Maria Alix.

    O programa foi produzido pelo Rafael Revadam e pelo Samuel Ribeiro. A apresentação é do Rafael e da Natália Flores, com coordenação geral da professora Simone Pallone de Figueiredo, do Labjor. O programa conta ainda com trabalhos técnicos do Gustavo Campos e do Octávio Augusto, da Rádio Unicamp, e divulgação de Samuel Ribeiro e Helena Ansani.

    Músicas:

    An Oddly Formal Dance.mp3

    Valantis.mp3

    Vienna Beat.mp3

     

    Deixe um comentário contando para a gente o que achou do episódio. Você pode mandar sugestões também pelo Twitter (@oxigenio_news), Instagram (@oxigeniopodcast) e Facebook (/oxigenionoticias). Se preferir, mande um e-mail para [email protected].

     

    Obs. Deixamos aqui nossos votos para que a pandemia de Covid-19 seja controlada o mais breve possível e que não seja tão severa no Brasil como foi em outros países. E nossa solidariedade a todos aqueles que têm sido afetados por essa terrível doença.

     

    Roteiro completo

    Edy: É... isso aconteceu em 2017. E aí eu fui, fiz o teste rápido e tal, e aí deu positivo. Pra mim foi tipo bem... foi bem estranho, foi bem ruim pra falar a verdade, porque... porque por mais que tenha muita informação na internet, ainda... ainda existia e ainda existe né, um senso comum que nos coloca, principalmente quando a gente vai falar de pessoas LGBT, enquanto vetor de doenças  sexualmente transmissíveis. E... e aí foi um choque pra mim por conta disso, sabe, não por conta da infecção em si, até porque eu conversei com os médicos, soube que existia um tratamento e que era um tratamento bem tranquilo, precisava fazer um acompanhamento durante um curto período de tempo e tal. Isso até que me aliviou um pouco, mas era mais pela condição social em que as pessoas enxergam, e como as pessoas enxergavam o meu corpo. 

    Natália: EPIDEMIA. Este é o termo que especialistas usam ao falar da sífilis no Brasil.

    Rafael: De acordo com dados do Ministério da Saúde, 18 novos casos de sífilis surgem a cada hora. De 2010 a 2018, a quantidade de pessoas infectadas pela doença aumentou em 75%.

    Natália: Mas como uma doença que tá aqui faz séculos ainda segue em alta nos dias de hoje? Para pesquisadores, enquanto falar de sexo ainda for um tabu, doenças que envolvem seu universo continuarão presentes.

    Rafael: Porque, na realidade, a sífilis é um problema sério, mas não é nenhum bicho de sete cabeças. E como qualquer problema de saúde, só dá pra pensar nela se a gente conversar de forma aberta e sem preconceitos.

    Natália: E no episódio de hoje,
    24 min
  • #87 Temático: Uma velha nova epidemia

    O mundo está vivendo, desde o final do ano passado, uma pandemia causada por um vírus. Um coronavírus, altamente contagioso e letal, que se espalhou pelos cinco continentes, já deixando um rastro de mortes. Em nosso dia a dia, convivemos com muitas epidemias, podemos dizer que estamos acostumados com elas, mas não devíamos.

    Diferentemente desse novo coronavírus que estamos enfrentando, muitas doenças epidêmicas poderiam ser evitadas, com prevenção em relação aos hábitos comportamentais ou vacinas. Esse é o caso da sífilis, uma doença causada por uma bactéria, que esteve controlada no passado e que nos últimos anos voltou a crescer no Brasil. Para se ter uma ideia, de 2010 a 2018, a quantidade de pessoas infectadas pela doença aumentou em 75%.

    É sobre a Sífilis que o Oxigênio 87 vai tratar. Uma velha conhecida que vem aterrorizando o sistema público de saúde do Brasil.

    As entrevistadas foram a Edy, pessoa trans não-binária que teve sífilis e resolveu tratar abertamente do tema nas redes sociais, a sexóloga Natalia Fernandes, infectologista Ruth Khalili, da Fundação Oswaldo Cruz e a professora do programa de Pós-Graduação em Saúde Coletiva da Universidade de Fortaleza, Maria Alix.

    O programa foi produzido pelo Rafael Revadam e pelo Samuel Ribeiro. A apresentação é do Rafael e da Natália Flores, com coordenação geral da professora Simone Pallone de Figueiredo, do Labjor. O programa conta ainda com trabalhos técnicos do Gustavo Campos e do Octávio Augusto, da Rádio Unicamp, e divulgação de Samuel Ribeiro e Helena Ansani.

    Músicas:

    An Oddly Formal Dance.mp3

    Valantis.mp3

    Vienna Beat.mp3

     

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    Obs. Deixamos aqui nossos votos para que a pandemia de Covid-19 seja controlada o mais breve possível e que não seja tão severa no Brasil como foi em outros países. E nossa solidariedade a todos aqueles que têm sido afetados por essa terrível doença.

     

    Roteiro completo

    Edy: É… isso aconteceu em 2017. E aí eu fui, fiz o teste rápido e tal, e aí deu positivo. Pra mim foi tipo bem… foi bem estranho, foi bem ruim pra falar a verdade, porque… porque por mais que tenha muita informação na internet, ainda… ainda existia e ainda existe né, um senso comum que nos coloca, principalmente quando a gente vai falar de pessoas LGBT, enquanto vetor de doenças  sexualmente transmissíveis. E… e aí foi um choque pra mim por conta disso, sabe, não por conta da infecção em si, até porque eu conversei com os médicos, soube que existia um tratamento e que era um tratamento bem tranquilo, precisava fazer um acompanhamento durante um curto período de tempo e tal. Isso até que me aliviou um pouco, mas era mais pela condição social em que as pessoas enxergam, e como as pessoas enxergavam o meu corpo. 

    Natália: EPIDEMIA. Este é o termo que especialistas usam ao falar da sífilis no Brasil.

    Rafael: De acordo com dados do Ministério da Saúde, 18 novos casos de sífilis surgem a cada hora. De 2010 a 2018, a quantidade de pessoas infectadas pela doença aumentou em 75%.

    Natália: Mas como uma doença que tá aqui faz séculos ainda segue em alta nos dias de hoje? Para pesquisadores, enquanto falar de sexo ainda for um tabu, doenças que envolvem seu universo continuarão presentes.

    Rafael: Porque, na realidade, a sífilis é um problema sério, mas não é nenhum bicho de sete cabeças. E como qualquer problema de saúde, só dá pra pensar nela se a gente conversar de forma aberta e sem preconceitos.

    Natália: E no episódio de hoje, a gente vai fazer exatamente isso. Eu sou Natália Flores.

    Rafael: E eu sou o Rafael Revadam, e este é o Oxigênio!

    Natália: A gente tá vivendo uma epidemia de sífilis. Todo ano o Ministério da Saúde solta um boletim com os dados da doença, e no último boletim os números dispararam. 

    Rafael: De 2017 a 2018, a detecção de casos de sífilis adquirida, que é aquela que a gente pega durante a relação sexual, aumentou mais de 20%. 

    Natália: E cresceram também os casos em gestantes e os casos de sífilis congênita, que é quando a mãe transmite a doença para o bebê durante a gestação ou parto.

    Rafael: Você pode pensar que este é um problema de prevenção, por que as pessoas simplesmente não usam camisinha? Mas a questão é mais além: nós não temos o hábito de falar sobre sexo, e isso afeta a nossa saúde. É o que explica a sexóloga Natalia Fernandes. 

    Natalia Fernandes: A gente vem de uma sociedade muito repressora. Eu fui estudar sexualidade, eu tinha 34 anos. Eu tô com 38 hoje. Eu não lembro nunca dos meus pais terem me ensinado que eu tinha que aprender determinadas prevenções por causa de doenças. Na minha casa, eles falavam muito de prevenção por causa de gravidez. E isso não mudou muita coisa, a nossa família mesmo não tem esse papo aberto com o adolescente. O pai, a mãe, eu acho que a falta da educação sexual, mas também a falta desse convívio familiar, de orientar exatamente o adolescente como que é essa sexualidade, e não o sexo em si.  Fazer sexo é uma coisa, sexualidade é outra. E a gente vê que os pais meio que não têm abertura com isso. Hoje eu tenho paciente que vêm no consultório para aprender a falar Olha, eu to preocupada porque eu percebi que o meu filho está entrando com a namorada em casa, não sei se eles estão usando preservativo, como eu devo abordar? O que eu tenho que falar? Ainda são poucos, as mulheres, as mães, que querem ter essa liberdade de conversa com os filhos.

    Natália: Para Natalia, a falta de informações sobre a sífilis está em diversos lugares. Nas conversas em família, nas escolas e na visão da sociedade em geral, que compra a ideia do uso da camisinha apenas para a prevenção da gravidez.

    Natalia Fernandes: Se a gente for considerar de 2016, 2017, eram números considerados razoáveis. Dos 100.000 habitantes, por exemplo, 1.700 tinham sífilis. Hoje não, é um número que cresceu muitos porcentos. Eu acho que a sexualidade da adolescência está sendo algo mais prejudicial. A sífilis é uma doença hoje que, ela pesa muito dos 18 aos 38 anos. Então, considerando que a vida sexual do adolescente está iniciando nos 12 anos de idade, então eu tenho a convicção que esta falta de prevenção têm contribuído muito. Para os adolescentes está faltando educação sexual. Algo que deveria estar nas cartilhas de escola EJA [Programa de Educação de Jovens e Adultos], algo que deveria partir, às vezes, da própria família, de instruir mais. Passou daquela coisa da pessoa ficar somente preocupada com preservativo porque está prevenindo gravidez, a pessoa tem que entender que estas ISTs, infecções sexualmente transmissíveis, elas são ruins.

    Edy: Porque… uma parte de mim queria esconder isso né, porque eu não queria que as pessoas soubessem que eu tinha… é… que eu tinha uma infecção sexualmente transmissível, só que uma outra parte de mim também pensava que eu precisava falar sobre isso, afinal de contas não é nenhuma coisa de outro mundo, sabe… é uma coisa normal que as pessoas estão sujeitas a passar, e eu achei que eu deveria falar sobre isso.

    Natália: Essa que tá falando é a Edy. A gente conheceu ela porque encontrou um texto que ela publicou em 2017, quando foi diagnosticada com sífilis. O texto era mais que um desabafo. O que a Edy queria era dividir a sua experiência e falar abertamente de um assunto que é cercado de tabus, mas não devia ser.

    Edy: Quando a gente contrai, né, essas infecções, a gente acaba virando a própria doença. E era isso que eu sentia, sabe? Que eu não tinha contraído sífilis, que naquele momento, ainda mais porque eu tinha feito a exposição e tal, eu era a doença. Eu era a doença andando, sabe? Pronta pra tipo infectar outras pessoas. E… e foi um pouco… foi um pouco, tipo, delicado desconstruir isso sabe? Então, é um processo diário de tentar não fazer parte disso, sabe? De tentar entender que o meu corpo é um corpo igual todos os outros corpos, eu não preciso fazer disso tudo aquilo que eu sou, sabe? Como se eu fosse só isso. Como se eu fosse só vetor. Só um vetor de doença. Não, não sou. 

    Rafael: A ignorância sobre a sífilis é acompanhada por outro cenário, o preconceito. Estar doente, na nossa sociedade, é um motivo de culpa.

    Natália: E mesmo que a Edy quisesse falar sobre isso, o seu post também atraiu mais reações negativas.

    Edy: Então, tiveram reações muito positivas, mas também tiveram reações negativas, né. Eu lembro que por exemplo teve… teve um menino, que eu fiquei com esse menino, e aí logo depois eu soube da… sobre a sífilis né, e a gente só beijou né, a gente só deu um beijo. E aí esse menino tipo assim ele ficou apavorado, apavorado assim, veio conversar comigo de uma maneira muito me colocando… me colocando nessa posição de vetor de doença mesmo, sabe? E isso me chocou um pouco. Porque por mais que eu esperasse que isso pudesse acontecer, é isso, veio de uma pessoa que tinha acesso ao debate, veio de uma pessoa que tinha… como evitar essa situação, mas por conta desse tabu criado em cima da sífilis, ele veio me culpabilizar.

    Rafael: Infelizmente, é muito comum que pacientes de sífilis se sintam acusados e culpados pela doença. Como diz a professora do programa de Pós-Graduação em Saúde Coletiva da Universidade de Fortaleza, Maria Alix, o preconceito é mais presente na sociedade do que o acolhimento.

    Maria Alix:  Ainda existe muito preconceito em relação às infecções sexualmente transmissíveis, as pessoas ainda são muito culpabilizadas pelo fato de ter adquirido uma dessas infecções. Então a gente precisa é… é mostrar pra população a importância da prevenção, mas o acolhimento àquelas pessoas que vivenciam determinadas situações que envolvem por exemplo a transmissão de uma infecção sexualmente transmissíveis. A gente há deparado muitas vezes por exemplo com casais que enfrentam dificuldade no relacionamento, porque acreditam né, alguns deles, que as IST estão relacionadas à infidelidade, então tem muito estigma ainda em cima dessa questão das IST. E aí a gente precisa trabalhar a população pra acabar com essa questão do preconceito, preconceito não ajuda a prevenir. O que ajuda a prevenir é que as pessoas sejam bem orientadas, que as pessoas tenham suas dúvidas efetivamente esclarecidas, pra que elas possam tomar decisões responsáveis na vida.

    Natália: Mas afinal, o que é a sífilis? É o que nós perguntamos para a infectologista Ruth Khalili, da Fundação Oswaldo Cruz.

    Ruth Khalili: A sífilis, ela é uma doença transmitida através do sexo. É uma doença causada por uma bactéria, que se chama treponema. Podemos adquirir no sexo oral, no sexo vaginal, no sexo anal, mesmo quando não acontece o ato da penetração. Então, essa sífilis é transmitida quando entramos em contato com as feridas na pele causadas por essa bactéria, é necessário ter contato com essas feridas, né, da pessoa com quem nós vamos, realizar o sexo. A bactéria, ela também pode ser transmitida da mãe para a criança durante a gestação ou durante o parto.

    Rafael: Ruth nos contou que a bactéria da sífilis pode ficar durante anos, e até mesmo décadas no corpo de uma pessoa. E o sumiço das feridas no corpo não significa que a doença sumiu.

    Ruth Khalili: E aí as pessoas me perguntam, quando eu atendo, dou resultado: “mas se eu não tiver com a ferida, eu não transmito? Eu tô curado?”. Não, não está curado. A infecção existe, está ativa. Então, como é que eu vou saber se estou hoje com sífilis, se não tenho nenhum sintoma de doença? Colhendo sangue e fazendo o teste rápido. Em 30 minutos é possível se ter o diagnóstico da infecção.

    Natália: Ruth também nos falou um problema que vem acontecendo no diagnóstico da sífilis. Como a doença fica muitos anos no nosso corpo, existem casos que só são tratados novamente quando aparecem os sintomas. Ou seja, enquanto a sífilis fica em silêncio, a pessoa é dada como curada.

    Ruth Khalili: Mas existe um conceito que talvez esteja sendo pouco falado, que é o conceito de falha de tratamento. Como eu vou diferenciar entre um caso novo e uma falha de tratamento? Quando eu estou atendendo um paciente que vem pra mim e não sabe me dar informações sobre o que foi feito no passado, ele acha que tomou benzetacil, que é comum, as pessoas têm dor de garganta e correm tomar benzetacil no posto. Né, às vezes indiretamente tá tratando a infecção, porque é o antibiótico de escolha… Então como eu vou diferenciar entre um caso novo, um caso incidente, que contribui para esses números que estão aí da epidemia – a epidemia é incontestável! Que existe um aumento do número de casos, isso é incontestável! Mas também acontece, e não é pouco frequente… dos profissionais de saúde terem dúvidas quando um exame de sífilis persiste positivo, com o mesmo valor, com o mesmo título, se aquilo é um caso novo ou não. Se aquilo é falha de tratamento, se a pessoa está tratada ou não.

    Rafael: A falta de informação é um fator comum quando o assunto é a sífilis. Se na área médica existem problemas, imagina com a população. É o que nos contou a sexóloga Natália Fernandes.

    Natalia Fernandes: Eu lido muito com mulheres casadas, elas mesmas falam para mim. “Mas eu não preciso usar preservativo, eu estou com o meu parceiro há vinte anos. A gente contraiu alguma coisa porque ele me traiu”. Não é assim. Eu posso estar com o amor da minha vida, há dez anos com o mesmo homem e contrair uma infecção. Porque é natural, do IDH do homem e da mulher, e isso se transformar numa DST. Curável, claro, que é o caso da sífilis, uma bactéria curável, mas se a gente não ficar atento, ela pode levar à morte. 

    Natália: Foi por conta da quantidade de fake news sobre a sífilis, que coletivos se uniram para debater mais sobre a doença. Edy teve contato com um deles, quando resolveu contar a sua história no Facebook.

    Edy: Inclusive depois desse post que eu fiz, teve… uma reação muito positiva que teve, é que um amigo que trabalha com IST, prevenção e populações LGBTs, é… conseguiu um curso pra mim em São Paulo, muito bacana, que falava sobre, prevenção de ISTs né, no geral. E aí era um grupo LGBT, e o objetivo desse grupo era informativo mesmo, de tipo, de dar informação pra essas pessoas e ver como que a gente podia fazer enquanto comunidade né, pra lidar com essas questões.

    Rafael: Edy também apontou outro ponto interessante que são as campanhas realizadas pelo Governo Federal, e como elas excluem pessoas que podem ter contato com a doença.

    Quando a gente pega, por exemplo, propagandas de camisinha, que muito dificilmente se fala sobre a população LGBT né, e que fala sobre HIV e tal, é uma maneira muito de colocar a culpa na pessoa, né, como se você precisa ter culpa, ou seja, você tem que ter medo, sabe, você tem que ter medo de HIV, você tem que ter medo de sífilis e todos os tipos de IST, e a maneira de você se preservar disso é você… ou você não pratica esse sexo, ou você pratica com camisinha né, e se você se descuidar, olha, a culpa é tua, e tem todo esse lance do medo. Eu queria tentar desconstruir esse lance do medo e da culpabilização, porque pra mim sexo é corresponsabilidade, né. E as pessoas as vezes não têm muito essa ideia de corresponsabilidade, de que as duas pessoas estão ali no momento, podem optar por usar camisinha ou não, isso quando é… isso quando é o sexo consentido né, óbvio. 

    Natália: E se as críticas existem numa campanha que fala de sexo, o que dizer de uma propaganda que prega a abstinência sexual?

    Rafael: Esta foi uma questão levantada pela professora Maria Alix. Se os jovens estão começando a vida sexual cada vez mais cedo, o que surte mais efeito, você falar de preservação ou você tentar proibi-los de transar?

    Maria Alix: O Brasil avançou muito na política de prevenção e assistência às pessoas com IST…E nos últimos anos vem trabalhando muito na questão do controle da sífilis congênita, porque essa epidemia se tornou um problema grave de saúde pública. É… esses últimos anos a coisa vem se tornando assim um pouco preocupante, considerando o estilo de campanha, por exemplo, que o governo vem propondo. Campanha de abstinência sexual… a gente sabe que esse tipo de campanha não tem um efeito muito positivo. O que é muito melhor é que as pessoas sejam bem orientadas, tomem decisões responsáveis, saibam da importância do uso do preservativo nas relações sexuais, e dessa forma possam fazer as medidas de prevenção de maneira consciente. A gente acredita que é por aí que deve ser feito o trabalho de prevenção. Dar autonomia às pessoas, responsabilidade às pessoas, pra que elas possam assumir os seus cuidados preventivos.

    Natália: Aliás, todos os entrevistados apontaram a falta de informação como um dos principais fatores que fizeram a sífilis se tornar a epidemia que está hoje.

    Rafael: E todos os entrevistados também falaram do papel do Governo Federal. Como apontou a sexóloga Natália Fernandes, as campanhas de preservação existem, mas ocorrem só no carnaval. 

    Natalia Fernandes: Infelizmente, o nosso governo não ajuda. Foi disponibilizado recentemente em Brasília um conteúdo de educação sexual e logo recolheram, porque os próprios pais recriminaram o Estado por causa disso. Parece que nós, profissionais, queremos ensinar as crianças a transar e não a se cuidar. Mas aí vem o governo e fala disso só para o carnaval. É como se carnaval fosse a época da pegação, vamos transar, ó, cuidado que você pega uma doença no carnaval. E o restante do ano? A gente tem que levantar mais essa bandeira. Nossos canais, com muito artifício, porque a gente não tem o apoio do governo para isso.

    Natália: E a campanha deste ano já aconteceu, viu? Com o slogan “Usar camisinha é uma responsa de todos”, o Ministério da Saúde distribuiu mais de 128 milhões de camisinhas masculinas e femininas durante o carnaval. No total, serão 570 milhões de preservativos que o Governo Federal se comprometeu a distribuir até o final do ano.

    Rafael: Esta campanha foi pensada para os jovens de 15 a 29 anos, e contou também com um vídeo declamado em poesia slam. Este comercial foi veiculado na tv, no rádio e até na internet. Mas aqui a gente coloca uma questão importante, levantada pela infectologista Ruth Khalili: a campanha existe, mas o que o público entende dela?

    Ruth Khalili: A prevenção, né, ela… ela se inicia na informação. Na informação, na repetição da informação, né, então assim, chega em épocas de carnaval, por exemplo, a gente faz as campanhas, vários outdoor em metrô, em ônibus, né, mas assim, o quanto a gente consegue chamar a atenção com as campanhas? O que chamaria mesmo atenção de pessoas em relação à prevenção da sífilis? A linguagem, ela varia de população pra população. Como eu vou abordar uma paciente, uma pessoa transexual? Como eu vou abordar uma mulher que pensa em engravidar? Eu acho que nas estratégias de prevenção nós avançamos muito também, mas talvez elas precisem ser mais sensíveis para grupos específicos. E mais precisas. No carnaval do ano passado, vários metrôs tinham a mensagem, vários locais, “cuidado com a sífilis, use camisinha”. Então assim, acho que talvez falte um retorno da população. Que que ela, como ela enxerga essas mensagens? Ela se sensibiliza? Será que ela entende? Use camisinha. Será que… como que ela entende isso, né?

    Natália: A sífilis é uma doença séria e tem dois diagnósticos, a falta de prevenção e a falta de diálogo.

    Rafael: Porque a gente precisa falar da doença, mas não só sobre ela. A gente precisa falar sobre sexo, sobre sexualidade. Afinal, as pessoas sentem atração, as pessoas transam, e isso é absolutamente normal.

    Natália: Falar de sexo é como falar de novela, livro, cinema, cada um tem as suas preferências. E como sugeriu a sexóloga Natália Fernandes, por que não transformar o sexo numa conversa diária?

    Natalia Fernandes: Eu brinco que comunicação é o tesão da relação. (risos) Eu falo isso muito nas minhas palestras. “Gente, comunicação é o tesão da relação!”. Porque um casal que se comunica, que troca figurinhas, estão sempre conversando o que é legal para um, para o outro. Eu gosto que você faz assim, eu gosto que você se cuida assim, eu gosto quando a gente vai no médico assim. Ou, vamos procurar atendimento juntos, vamos marcar um médico juntos. Eu vou com você, você me acompanha. É muito mais interessante. É muito mais gostoso um casal que se cuida. Com certeza vai ter muito menos problemas do que os outros, né?

    Rafael: O Oxigênio fica por aqui. O episódio foi apresentado por mim, Rafael Revadam, e pela Natália Flores. A produção as entrevistas deste episódio também são minhas e do Samuel Ribeiro.

    Natália: O roteiro é do Rafael Revadam, a coordenação é da professora Simone Pallone, do Labjor, e os trabalhos técnicos de Gustavo Campos e Octávio Augusto, da Rádio Unicamp.  

    Rafael: Você pode nos acompanhar nas redes sociais. Estamos no Facebook, (facebook.com/oxigenionoticias – tudo junto e sem acento). E no Instagram e no Twitter também, basta procurar por “Oxigênio Podcast”.

    24 min
  • # 86 Série Corpo, episódio 1 – vinho e vinagre

    Em “vinho e vinagre”, o primeiro episódio da Série Corpo, duas professoras da Faculdade de Educação Física da Unicamp contam tudo sobre envelhecimento e exercício. E um professor que estuda a história da velhice explica que ser velho pode ter mais de um significado. A série Corpo faz parte do projeto “Histórias para pensar o corpo na ciência”, que é financiado pela FAPESP (2019/18823-0) e coordenado pelo professor Bruno Rodrigues (FEF/Unicamp).

    Lourdes: Ah, mas eu adoro!

    Amiga: É, não, a gente vai pra dançar, a gente não vai pra arrumar namorado, não é pra nada disso. A gente vai pra dançar, se divertir.

    Samuel: Onde que a gente tá indo?

    Amiga: No Clube Aurélia.

    Lourdes: Então, deixa eu pensar no caminho que eu tenho que fazer…

    Samuel: Essa última voz que você ouviu é da minha mãe, que tá dirigindo o carro. A outra é da amiga dela. Faz alguns anos que elas se conhecem e tão sempre andando juntas, porque as duas têm uma paixão em comum: elas adoram dançar. E nesse dia, a gente foi pro baile.

    Samuel: Eu sou o Samuel Ribeiro, e este é o Corpo, um podcast pra falar de pessoas e de movimento. Nesse primeiro episódio, vamos falar de como a vida fica quando o tempo passa. E a gente começa com a minha mãe…

    Lourdes: Meu nome é Lourdes…

    Samuel: …que tem 67 anos…

    Lourdes: …eu sou uma dona de casa ativa ainda, com essa idade. Eu cuido da casa toda, de uma família toda, de neto, de filha. Faço compras, lavo, passo, cozinho. E gosto de dançar.

    Lourdes: Quer ver? [quatro, cinco, seis, sete, oito…] Eu comecei a dançar… acho que 2010… dois mil e… pera aí [quatro, cinco, seis, sete, oito, nove…] 2009, depois que… depois de 5 anos que eu fiquei viúva eu comecei a ir no baile, com a minha irmã.

    Samuel: O meu pai não saía pra dançar com a minha mãe, e ela, que era costureira, passava quase o dia inteiro trabalhando. Depois que ele morreu, essa irmã dela, que é minha tia Sueli, chegava na porta da oficina de costura e dizia assim:

    Lourdes: “Mas larga isso daí, vamo no baile!”. Até que um dia eu fui, era aniversário dela e ela disse “você vai”.

    Samuel: A minha mãe foi, e nunca mais parou de ir. Já são mais de 10 anos que ela dança quase toda semana. E dança muito bem.

    Lourdes: Eu tenho assim uma dorzinha no joelho, mas quando eu vou dançar, eu fico boa! É falta de ir no baile! Juro! Porque cê fica o dia inteiro de pé aqui dentro, mas é diferente.

    Samuel:Por que que é diferente?

    Lourdes: Porque você anda pra lá, anda pra cá, mas cê não tá… dançando… dançando você… é diferente, não sei explicar.

    Lourdes: Eu sei que quando eu vou ao baile, eu volto… quando eu tô no baile eu me sinto assim, como se eu tivesse 20, 30 anos… eu não tenho filho, eu não tenho casa, eu não tenho ninguém. Lá aquela música incorpora na gente, o pé acompanha o pé do parceiro, é uma delícia! Eu não lembro de nada, nada, nada! Se eu tiver algum problema, lá eu esqueço de tudo.

    Samuel: A dona Lourdes é uma senhora com muita energia, e lá no baile tava cheio de gente que nem ela. Gente na casa dos 60, 70 e até mesmo 80, dançando, se divertindo, paquerando. Eu olhava praquele movimento todo durante as músicas e, pra ser sincero, depois de um tempo nem dava mais pra notar quem era velho e quem não era.

    Samuel: Eu sou da Educação Física, então pra mim isso não é nenhuma novidade. A gente vê idosos correndo, levantando peso, fazendo ginástica, jogando bola, lutando… é a coisa mais normal do mundo. E até a minha mãe, que por enquanto só dança, falou esses dias que tá querendo fazer musculação porque ela acha que tá flácida.

    Samuel: Aquela imagem dos livros infantis, da vovozinha sentada na cadeira de balanço, não dá mais conta de retratar os idosos de hoje. Mas mesmo assim, a gente sabe que envelhecer continua sendo uma coisa complicada. Pra entender melhor isso eu fui conversar com quem entende de envelhecimento e pesquisa os efeitos do exercício físico nessa fase da vida.

    Mara Patrícia Traina Chacon-Mikahil: O vô Toninho?

    Samuel: Não, não é o Vô Toninho. Mas sim a neta dele, a professora Mara Patrícia Chacon-Mikahil, da Faculdade de Educação Física da Unicamp. Aqui ela tava me contando um pouco sobre as memórias que ela tem do avô.

    Mara: Ah… ele gostava muito de trabalhar com coisas da terra, então ele tinha uma horta. Era muito legal porque todo dia tinha uma salada fresquinha da horta, um monte de coisa da horta. Um dia eles pediram pra eu ir cortar salsinha da horta, e eu fui, cortei bem rentinho assim à terra e voltei com um monte de folha de cenoura.

    Cláudia Regina Cavaglieri: Nós viajamos muito.

    Samuel: E essa é a Cláudia Cavaglieri, também da Faculdade de Educação Física. Ela tava me falando da Marilene Vecchia, uma professora lá da USP que marcou sua trajetória de pesquisadora.

    Cláudia: Acho que os primeiros congressos no exterior eu fiz com a Marilene, ela já era bem idosa, inclusive num período aposentada, e ela fazia coisas muito interessantes, como me colocar sempre pra entrar no restaurante antes, para que todos os homens muito bonitos olhassem pra mim e ela viesse atrás, só prestando atenção.

    Samuel: A Cláudia e a Mara fazem parte do Departamento de Estudos da Atividade Física Adaptada e já fizeram várias pesquisas sobre os efeitos do exercício físico em pessoas idosas. A parceria delas vem de longa data, desde quando as duas ainda não trabalhavam juntas na Unicamp.

    Cláudia: Quando a vida nos aproximou, na porta da escola, com filhos na mesma escola, conversando nós começamos a fazer uma parceria, eu em outra instituição, e eu fazia algumas análises pra ela.

    Samuel: A Mara tem uma pegada mais do treinamento, e sempre olhou pra essa relação do exercício físico com a saúde, pros efeitos do treino nos músculos e na parte cardiovascular. E a Cláudia, que é farmacêutica bioquímica de formação, olha mais para o que acontece dentro dos tecidos. Então uma complementa a outra.

    Samuel: Elas me contaram sobre o que acontece com o nosso corpo quando a gente envelhece, e também sobre como a ciência tem ajudado a melhorar a qualidade de vida de quem tá envelhecendo.

    Samuel: Todo mundo uma hora ou outra vai passar por isso. O processo é complexo, mas, pra resumir: quando a gente envelhece, o corpo já não funciona tão bem e a gente começa a perder algumas coisas…

    Cláudia: … diminuição da velocidade, diminuição da visão, da audição… você vai tendo perdas orgânicas que são naturais, que não é patologia, que não é doença. É como se fosse uma máquina mesmo, é um desgaste natural com o seu organismo.

    Samuel: … é como se o corpo fosse um sapato, ou um carro…

    Mara: …parece que é tudo perfeito, funciona bem. Depois de um tempo de desgaste o sapato até fica mais gostoso, mas ele perde um pouco a parte do conforto ortopédico dele. Agora o carro, você vai, troca o pneu, troca o óleo, muda umas peças, mas algumas coisas vão deteriorando naturalmente, né.

    Samuel: Mas mesmo com esse desgaste natural, os avanços da medicina e a melhora das condições de vida ao longo das décadas têm feito com que as pessoas vivam mais tempo. Em 2018 já eram 28 milhões de pessoas com mais de 60 anos no Brasil, mais ou menos 1 em cada 10 brasileiros. E essa proporção tende a aumentar nas próximas décadas. Por isso que a qualidade de vida no envelhecimento tem sido tão estudada em várias áreas, e também na Educação Física.

    Mara: …as pessoas estão vivendo mais, mas como elas tão vivendo? Então não adianta alguém falar “ah, minha avó morreu com 98 anos de idade, ela ficou 5 anos na cama”. Quer dizer, que qualidade de vida essa pessoa teve, nesse final da vida, vamos dizer assim?

    Mara: Será que se ela tivesse um músculo mais ativo, será que se ela tivesse menor sobrepeso, ela teria desgastado menos esse organismo e tivesse condições de viver melhor?

    Samuel: Tudo indica que sim, e o que não falta é informação dizendo que exercício faz bem. Só que nem todo idoso tem acesso a uma prática de qualidade. E entre aqueles que tem, na hora de começar a fazer exercício físico muitos acabam pensando…

    Mara: …”ah, não adianta mais pra mim, eu já tô muito idoso, eu já tô com o músculo muito fraco ou já tô com o coração fraco”, e desiste. Mas isso não é verdade, porque a treinabilidade ela é possível para todos.

    Samuel: O que quer dizer que toda pessoa, jovem ou velha, saudável ou doente, tem a capacidade de sofrer adaptações no corpo e melhorar a sua saúde através do treinamento físico. E é pra isso que servem as pesquisas: pra entender o resultado dos treinos nas diferentes pessoas e pensar no jeito mais seguro e eficiente pra elas fazerem exercício.

    Mara: …é uma forma de você estressar o organismo beneficamente, porque você vai fazer um esforço que vai demandar um trabalho adicional do seu corpo, e isso vai fazer seu coração trabalhar mais, pulmão trabalhar mais, o músculo, o gasto da energia que você acumula com os alimentos… como você libera hormônios que vão conversar entre os sistemas ali dentro do próprio organismo…

    Samuel: E se fizer exercício da forma correta, o idoso vai sofrer também essas adaptações. Então não tem essa coisa de que velhinho não pode fazer exercício. O que tem é jeito certo de fazer, e pra isso a gente precisa entender de treinamento físico.

    Samuel: Lá nos projetos que a Mara e Cláudia desenvolvem é mais ou menos assim que acontece: tem um grupo de voluntários idosos. Esse grupo frequenta a faculdade por um tempo e faz um treinamento. Daí, as pesquisadoras e os alunos que ajudam na pesquisa examinam esses voluntários antes, depois e no meio do treinamento pra saber o efeito que ele teve ou não teve sobre eles. E também comparam os resultados com outros voluntários que NÃO fizeram os exercícios. É desse jeito que a gente aprende o que funciona e o que não funciona, o que é saudável e o que faz mal, e a gente também passa a entender melhor o que acontece durante o envelhecimento.

    Samuel: As professoras me explicaram que uma das coisas que acontece é que o corpo muda sua composição. A massa dos músculos diminui. A gordura sob a pele também diminui, e a gordura visceral, que fica entre os órgãos e é mais perigosa, aumenta. E isso tudo ajuda a deixar o organismo sempre inflamado…

    Cláudia: …e esse quadro inflamatório subclínico é que faz com que esse indivíduo desenvolva uma doença cardiovascular, que seja um indivíduo resistente a insulina, diabético, que leva a problemas cognitivos como Alzheimer e outras demências. E o exercício físico ele tem um papel anti-inflamatório importante.

    Samuel: Então hoje a gente entende o exercício não só como prevenção de doenças, mas também como um tratamento que pode ser usado junto com os medicamentos que o médico receita. O que a Cláudia explicou é que uma rotina de exercício físico pode ajudar, por exemplo, a tratar um idoso que tem pressão alta ou diabetes, por causa desse efeito anti-inflamatório. E esse é só um dentre vários efeitos já conhecidos.

    Cláudia: … uma das adaptações positivas do exercício físico, quando bem controlado pra essa faixa etária, é exatamente a melhora da resposta imunológica. O indivíduo idoso, que é o indivíduo ativo que treina fisicamente, ele é menos suscetível a infecções do que o indivíduo sedentário.

    Samuel: E se ele acabar ficando doente, essa doença vai ser menos grave, porque a resposta imunológica do idoso treinado vai ser melhor e mais rápida.

    Samuel: Existem vários benefícios já comprovados do treinamento pro processo de envelhecimento. Teve, por exemplo, uma pesquisa na qual elas participaram e que mostrou uma melhora no tecido do cérebro dos idosos. E com tantos efeitos positivos, eu tinha que perguntar: a terceira idade dá mesmo pra ser a melhor idade?

    Cláudia: Na realidade você tem né a infância, a adolescência, a adultez e… não tem nome, essa terceira idade, se você ver na literatura, ela não tem nome! Então inventaram comercialmente a melhor idade, né. Se ela melhor ou não é melhor, ela depende de como que você vai chegar nela. Tem algumas pessoas que vão achar que é melhor, tem outras pessoas que vão estar sempre saudosistas da juventude.

    Samuel: Você se considera uma pessoa idosa?

    Lourdes: Ah não, só quando eu tiver assim, uns 75, aí sim. É, eu não sou da terceira idade, sou da segunda, por enquanto. Eu gosto de forró, de vaneirão, eu gosto de coisa rápida. Por isso que eu falo pra você que eu não sou da terceira idade, porque na terceira idade, cê vai num clube assim bem de terceira idade, tocam música do Roberto Carlos… sabe? Aquelas musiquinha bem… por quê? Porque os velhinhos não aguentam dançar música rápida, eu guento! Eu guento aqueles forró bem paulera! Então eu não tenho paciência de dançar música lenta, eu não vou.

    Edivaldo Góis Junior: Até a década de 60 você encontra o termo velhice.

    Samuel: Esse é o Edivaldo Góis Junior, que também é professor da Faculdade de Educação Física da Unicamp. Só que ele não faz o mesmo tipo de pesquisa que a Mara e a Cláudia.

    Edivaldo: Falar sobre velhos, velhas, velhice, não era nada pejorativo.

    Samuel: O Edivaldo estuda a história da velhice. Ele me contou que as ideias sobre as pessoas mais velhas foram mudando ao longo do tempo, e a gente pode ver isso nas mudanças das palavras que a gente usa pra falar dessa fase da vida.

    Edivaldo: A partir da década de 60 começam a surgir outros termos que começam a colocar: “não, olha, será que é pejorativo chamar uma pessoa de velho ou velha, não é melhor usar a palavra idoso?”. E aí, mais próximo aqui da gente no século XXI, começam a surgir termos como melhor idade, como… terceira idade, é, outros termos que envolviam a velhice negando o termo velhice.

    Samuel: E da mesma forma que dá pra envelhecer de formas diferentes quando a gente tá falando só da questão do corpo, dependendo de como que a pessoa leva a vida, aqui nos estudos da história a ideia de velhice também não é uma coisa só. Depende de quem tá falando, de onde tá falando… e de quando tá falando.

    Edivaldo: …a velhice é uma construção social. Ou seja, definir o que é velhice vai depender muito da visão de mundo que a pessoa tá respondendo. Ela pode responder isso a partir de um pensamento científico biológico, e aí ela vai adotar a palavra envelhecimento [MC ao fundo?], processo de envelhecimento [MC ao fundo?]. Ou ela pode, como uma pessoa comum relataria, falar: “ah é um estado de espírito”.

    Lourdes: …como se eu tivesse 20, 30 anos!

    Edivaldo: Ou seja, nós temos muitas representações sobre o que é velhice, depende de quem está respondendo.

    Samuel: Então não existe uma velhice?

    Edivaldo: Não, não existe uma velhice né.

    Samuel: A ideia de velhice que predominava nos anos 1930, que é o período que o professor estuda, era muito diferente da atual, e isso era fácil de notar nos jornais da época. Quando se falava em velhice, se falava em decadência, morte e doença.

    Edivaldo: Um colunista chamado Costallat ele… relata a morte de um guarda noturno. E esse guarda noturno ele se suicida. E aí ele vai dizer o seguinte, “bom, veja como é difícil a vida para qualquer velho, mas sobretudo para um velho trabalhador, que nem via a luz do sol, que trabalhava durante a noite”, “ter vivido por mais de 60 anos é um ato heroico, e um ato heroico também foi o suicídio”. Então perceba, tá muito distante dessa ideia de que a qualidade de vida ela tá acessível a todos, basta você ter uma responsabilidade individual e buscar.

    Samuel: Então essa ideia da terceira idade ativa, da pessoa velha com qualidade de vida, que é tão normal pra gente, naquela época não era. Só que assim como hoje, nos anos 30 tinha mais de uma ideia sobre o que era a velhice. E foi nessa época também que as ideias médicas de cuidar do corpo para prolongar a vida começaram a ganhar força.

    Edivaldo: Os médicos diziam assim: bom, se a gente tá controlando a natureza em relação aos meios de transporte, todas aquelas tecnologias que começavam a ficar um pouco mais presentes na sociedade urbana, como os confortos da mobilidade urbana, ah, isso também vai acontecer no campo da medicina e o homem vai viver mais”. Tudo bem que eles falavam em 150 anos daqui a 100 anos, então agora a gente pode olhar e falar “calma, não chegamos nisso”.

    Samuel: Mas chegamos em algum lugar. No geral a expectativa de vida aumentou e uma boa parte da população passa dos 60 anos de idade. A qualidade de vida também aumentou, e os idosos são cada vez mais como a Dona Lourdes e cada vez menos como o guarda noturno da história do jornal. Mas tanto nos anos 1930 como agora, a velhice não é uma coisa só…

    Edivaldo: Então a gente vai de uma manifestação em que a velhice é só sofrimento, pra outra em que a velhice é uma vida de comercial de margarina…

    Samuel: E o Edivaldo comentou que por causa das desigualdades sociais ainda tem muita gente sem acesso à essa vida saudável. Então não dá pra imaginar que tem como todo mundo viver o mesmo estilo de vida e envelhecer da mesma forma. Essa velhice, terceira idade, processo de envelhecimento ou melhor idade ainda tá longe de ser uma coisa só. E aí eu perguntei pro Edivaldo o que ele ia ser daqui a 30 anos, e ele respondeu sem pestanejar:

    Edivaldo: Serei velho com orgulho! Sem problema algum…

    Samuel: Depois de todas essas conversas eu fiquei pensando: como que eu vou ser quando eu for velho? A verdade é que eu ainda não sei. Mas acho que se eu tivesse que desejar algo, eu ia pedir pra não esquecer nada. E pra ter energia pra fazer coisas novas, do jeito que a minha mãe tem.

    Samuel: Eu perguntei pra ela como ela quer estar daqui a 20 anos.

    Lourdes: Ai eu quero tá que nem eu tô hoje: lúcida, quero estar dirigindo, quero ir ao mercado… talvez eu não consiga fazer mais, assim, essas limpeza mais pesada, mas… chama uma faxineira.

    Samuel: E a Cláudia, no final da entrevista, também me contou o que ela espera pro futuro…

    Cláudia: Eu quero continuar viajando, conhecendo pessoas, e atraindo jovens ao meu lado né, porque a gente só pode envelhecer de duas maneiras: como vinho, quanto mais velho melhor, ou virar vinagre… eu não quero virar vinagre, eu quero ser um vinho de uma boa safra, que quanto mais maduro melhor. Onde as pessoas consigam enxergar em mim coisas boas, e que eu consiga levar coisas boas… e não as dificuldades e amarguras da vida, que todo mundo tem. Não quero ser vinagre, eu quero ser vinho tinto e do bom.

    Samuel: O episódio fica por aqui. A série Corpo é uma produção do podcast Oxigênio, do Labjor/Unicamp, e faz parte do projeto “Histórias para pensar o corpo na ciência”, financiado pela FAPESP e coordenado pelo professor Bruno Rodrigues, da FEF/Unicamp.

    Samuel: E se você gostou do episódio, mande para um amigo seu ouvir, fale da gente nas suas redes sociais. A produção, as entrevistas, o roteiro e a edição do programa foram feitas por mim, Samuel Ribeiro, e a coordenação do Oxigênio é da professora Simone Palone, do Labjor. Até o próximo episódio!

    Porteiro: Tchau, muito obrigado.

    Lourdes: Brigada, bem!

    Amiga: Tchau!

    Porteiro: Tchau, valeu!

    Músicas

    “Greylock” by Skittle.

    Blue Dot Sessions (https://www.sessions.blue).

    “Rambling” by Calumet.

    Blue Dot Sessions (https://www.sessions.blue).

    “Winter Theme” by Glacier Quartet.

    Blue Dot Sessions (https://www.sessions.blue).

    Imagem da capa

    Imagem de Just killing time por Pixabay.

    21 min
  • # 86 Série Corpo, episódio 1 – vinho e vinagre
    Em “vinho e vinagre”, o primeiro episódio da Série Corpo, duas professoras da Faculdade de Educação Física da Unicamp contam tudo sobre envelhecimento e exercício. E um professor que estuda a história da velhice explica que ser velho pode ter mais de um significado. A série Corpo faz parte do projeto “Histórias para pensar o corpo na ciência”, que é financiado pela FAPESP (2019/18823-0) e coordenado pelo professor Bruno Rodrigues (FEF/Unicamp).
    Lourdes: Ah, mas eu adoro!
    Amiga: É, não, a gente vai pra dançar, a gente não vai pra arrumar namorado, não é pra nada disso. A gente vai pra dançar, se divertir.
    Samuel: Onde que a gente tá indo?
    Amiga: No Clube Aurélia.
    Lourdes: Então, deixa eu pensar no caminho que eu tenho que fazer...
    Samuel: Essa última voz que você ouviu é da minha mãe, que tá dirigindo o carro. A outra é da amiga dela. Faz alguns anos que elas se conhecem e tão sempre andando juntas, porque as duas têm uma paixão em comum: elas adoram dançar. E nesse dia, a gente foi pro baile.
    Samuel: Eu sou o Samuel Ribeiro, e este é o Corpo, um podcast pra falar de pessoas e de movimento. Nesse primeiro episódio, vamos falar de como a vida fica quando o tempo passa. E a gente começa com a minha mãe...
    Lourdes: Meu nome é Lourdes...
    Samuel: ...que tem 67 anos...
    Lourdes: ...eu sou uma dona de casa ativa ainda, com essa idade. Eu cuido da casa toda, de uma família toda, de neto, de filha. Faço compras, lavo, passo, cozinho. E gosto de dançar.
    Lourdes: Quer ver? [quatro, cinco, seis, sete, oito...] Eu comecei a dançar... acho que 2010... dois mil e... pera aí [quatro, cinco, seis, sete, oito, nove...] 2009, depois que... depois de 5 anos que eu fiquei viúva eu comecei a ir no baile, com a minha irmã.
    Samuel: O meu pai não saía pra dançar com a minha mãe, e ela, que era costureira, passava quase o dia inteiro trabalhando. Depois que ele morreu, essa irmã dela, que é minha tia Sueli, chegava na porta da oficina de costura e dizia assim:
    Lourdes: "Mas larga isso daí, vamo no baile!". Até que um dia eu fui, era aniversário dela e ela disse "você vai".
    Samuel: A minha mãe foi, e nunca mais parou de ir. Já são mais de 10 anos que ela dança quase toda semana. E dança muito bem.
    Lourdes: Eu tenho assim uma dorzinha no joelho, mas quando eu vou dançar, eu fico boa! É falta de ir no baile! Juro! Porque cê fica o dia inteiro de pé aqui dentro, mas é diferente.
    Samuel:Por que que é diferente?
    Lourdes: Porque você anda pra lá, anda pra cá, mas cê não tá... dançando... dançando você... é diferente, não sei explicar.
    Lourdes: Eu sei que quando eu vou ao baile, eu volto... quando eu tô no baile eu me sinto assim, como se eu tivesse 20, 30 anos... eu não tenho filho, eu não tenho casa, eu não tenho ninguém. Lá aquela música incorpora na gente, o pé acompanha o pé do parceiro, é uma delícia! Eu não lembro de nada, nada, nada! Se eu tiver algum problema, lá eu esqueço de tudo.
    Samuel: A dona Lourdes é uma senhora com muita energia, e lá no baile tava cheio de gente que nem ela. Gente na casa dos 60, 70 e até mesmo 80, dançando, se divertindo, paquerando. Eu olhava praquele movimento todo durante as músicas e, pra ser sincero, depois de um tempo nem dava mais pra notar quem era velho e quem não era.
    Samuel: Eu sou da Educação Física, então pra mim isso não é nenhuma novidade. A gente vê idosos correndo, levantando peso, fazendo ginástica, jogando bola, lutando... é a coisa mais normal do mundo. E até a minha mãe, que por enquanto só dança, falou esses dias que tá querendo fazer musculação porque ela acha que tá flácida.
    Samuel: Aquela imagem dos livros infantis, da vovozinha sentada na cadeira de balanço, não dá mais conta de retratar os idosos de hoje. Mas mesmo assim, a gente sabe que envelhecer continua sendo uma coisa complicada. Pra entender melhor isso eu fui conversar com quem entende de enve...
    21 min
  • #85 Oxilab: Nexus – Energia
    O que significa segurança para você? A segurança da vida contemporânea depende de três elementos: energia, água e alimentos. O NEXUS dessa tríade impõe desafios para suprir as necessidades básicas da crescente população frente a crise climática. 

    No primeiro episódio da série Oxilab #85 - Nexus, conversamos sobre ENERGIA com o cientista Davi Gabriel Lopes, engenheiro agrônomo, pós-graduado em Engenharia Mecânica pela Unicamp. Ele fala sobre segurança energética, o sistema elétrico brasileiro e políticas públicas que prometem encaminhar o Brasil rumo a agenda do acordo de Paris. 

    O programa mostra como o país é um verdadeiro paraíso energético. No entanto, sem investimentos em ciência, tecnologia, inovação, infraestrutura e uma agenda política alinhada podemos ficar em apuros. 

    A entrevista, o roteiro e a narração são de Camila Cunha e a produção do Planteia, iniciativa de divulgação científica. A decupagem de entrevistas é de Paula Gomes; as sonoras e/ou apoio na produção são de Allison Almeida e Samuel Ribeiro; e social mídia por Helena Ansani. A coordenação é da Prof. Simone Pallone do Labjor - Unicamp e os trabalhos técnicos de Gustavo Campos e Jeverson Barbieri da Rádio Unicamp.

    Deixe seu comentário contando o que achou do episódio. Você também pode mandar sugestões pelo Twitter (@oxigenio_news), Instagram (@oxigeniopodcast) e Facebook (/oxigenionoticias). Se preferir, envie um e-mail para [email protected].

     
    Abaixo, a transcrição do episódio:
    Camila Cunha: Nas manchetes dos jornais, os efeitos das mudanças climáticas já são rotina.

    [Som de mudança de estações de rádio…]

    Camila Cunha: Essa crise traz perigos e incertezas e os danos e riscos estimados por cientistas são alarmantes. O que fazer? Bom, precisamos que os governantes estimulem ações e mudanças via implementação de políticas públicas aqui e agora. Sem investimentos pesados e contínuos em ciência, tecnologia e inovação, além de infraestrutura e incentivos fiscais, as mudanças profundas que a economia, hoje movida a combustíveis fósseis, precisa será inviável. Em 2050 seremos 9 bilhões de habitantes e a necessidade de energia, água e alimentos será cada vez maior. A escassez ou limitada disponibilidade dessa tríade é crítica principalmente nos países pobres ou em desenvolvimento. O desafio está na interdependência desses recursos - energia, água e alimentos. O aumento da oferta direta de um deles implica na depleção (ou redução) dos outros dois e nas suas respectivas cadeias produtivas.

    Camila Cunha: Eu sou Camila Cunha e pensando nisso, nós do Oxigênio em parceria com a iniciativa Planteia de divulgação científica, preparamos uma série de quatro episódios para conversar sobre o status desses recursos no Brasil. No primeiro episódio da série, o tema é energia. Então, se liga, aí!

    [Vinheta de abertura da Rádio Oxigênio]

    Davi Gabriel Lopes: Eu sou engenheiro agrônomo de formação, me formei pela Universidade Federal do Ceará. Sou mestre e doutor em Planejamento de Sistemas Energéticos pela Faculdade de Engenharia Mecânica da Unicamp. Sou atualmente pesquisador colaborador do Instituto de Biologia. A minha linha de pesquisa é células a combustíveis, utilizando o hidrogênio como vetor de energia, principalmente hidrogênio a partir de biocombustíveis, mas não só... A gente está desenvolvendo um projeto com gás natural veicular para diminuir a intensidade de carbono no transporte brasileiro. 

    Camila Cunha: Quem fala é o Davi Gabriel Lopes, pesquisador no Laboratório de Genômica e bioEnergia da Unicamp. As células a combustível que o Davi estuda são muito interessantes, pois usam hidrogênio para gerar energia elétrica para dispositivos de uso diário, como lâmpadas, eletrodomésticos e até motores de carros elétricos. O mais legal é que essas células a combustível liberam água ao invés ...
    24 min
  • #85 Oxilab: Nexus – Energia

    O que significa segurança para você? A segurança da vida contemporânea depende de três elementos: energia, água e alimentos. O NEXUS dessa tríade impõe desafios para suprir as necessidades básicas da crescente população frente a crise climática. 

    No primeiro episódio da série Oxilab #85 – Nexus, conversamos sobre ENERGIA com o cientista Davi Gabriel Lopes, engenheiro agrônomo, pós-graduado em Engenharia Mecânica pela Unicamp. Ele fala sobre segurança energética, o sistema elétrico brasileiro e políticas públicas que prometem encaminhar o Brasil rumo a agenda do acordo de Paris. 

    O programa mostra como o país é um verdadeiro paraíso energético. No entanto, sem investimentos em ciência, tecnologia, inovação, infraestrutura e uma agenda política alinhada podemos ficar em apuros. 

    A entrevista, o roteiro e a narração são de Camila Cunha e a produção do Planteia, iniciativa de divulgação científica. A decupagem de entrevistas é de Paula Gomes; as sonoras e/ou apoio na produção são de Allison Almeida e Samuel Ribeiro; e social mídia por Helena Ansani. A coordenação é da Prof. Simone Pallone do Labjor – Unicamp e os trabalhos técnicos de Gustavo Campos e Jeverson Barbieri da Rádio Unicamp.

    Deixe seu comentário contando o que achou do episódio. Você também pode mandar sugestões pelo Twitter (@oxigenio_news), Instagram (@oxigeniopodcast) e Facebook (/oxigenionoticias). Se preferir, envie um e-mail para [email protected].

    Abaixo, a transcrição do episódio:

    Camila Cunha: Nas manchetes dos jornais, os efeitos das mudanças climáticas já são rotina.

    [Som de mudança de estações de rádio…]

    Camila Cunha: Essa crise traz perigos e incertezas e os danos e riscos estimados por cientistas são alarmantes. O que fazer? Bom, precisamos que os governantes estimulem ações e mudanças via implementação de políticas públicas aqui e agora. Sem investimentos pesados e contínuos em ciência, tecnologia e inovação, além de infraestrutura e incentivos fiscais, as mudanças profundas que a economia, hoje movida a combustíveis fósseis, precisa será inviável. Em 2050 seremos 9 bilhões de habitantes e a necessidade de energia, água e alimentos será cada vez maior. A escassez ou limitada disponibilidade dessa tríade é crítica principalmente nos países pobres ou em desenvolvimento. O desafio está na interdependência desses recursos – energia, água e alimentos. O aumento da oferta direta de um deles implica na depleção (ou redução) dos outros dois e nas suas respectivas cadeias produtivas.

    Camila Cunha: Eu sou Camila Cunha e pensando nisso, nós do Oxigênio em parceria com a iniciativa Planteia de divulgação científica, preparamos uma série de quatro episódios para conversar sobre o status desses recursos no Brasil. No primeiro episódio da série, o tema é energia. Então, se liga, aí!

    [Vinheta de abertura da Rádio Oxigênio]

    Davi Gabriel Lopes: Eu sou engenheiro agrônomo de formação, me formei pela Universidade Federal do Ceará. Sou mestre e doutor em Planejamento de Sistemas Energéticos pela Faculdade de Engenharia Mecânica da Unicamp. Sou atualmente pesquisador colaborador do Instituto de Biologia. A minha linha de pesquisa é células a combustíveis, utilizando o hidrogênio como vetor de energia, principalmente hidrogênio a partir de biocombustíveis, mas não só… A gente está desenvolvendo um projeto com gás natural veicular para diminuir a intensidade de carbono no transporte brasileiro. 

    Camila Cunha: Quem fala é o Davi Gabriel Lopes, pesquisador no Laboratório de Genômica e bioEnergia da Unicamp. As células a combustível que o Davi estuda são muito interessantes, pois usam hidrogênio para gerar energia elétrica para dispositivos de uso diário, como lâmpadas, eletrodomésticos e até motores de carros elétricos. O mais legal é que essas células a combustível liberam água ao invés de gases do efeito estufa. Isso mesmo, água! Claro, ainda são muitos os gargalos para que elas sejam usadas corriqueiramente, mas as pesquisas servem justamente para isso: melhorar e baratear os processos de produção tanto do gás hidrogênio quanto dos componentes que formam a célula a combustível. Mas, esse não será nosso foco hoje. Voltemos a água, ops, voltemos a energia. Eu perguntei para o Davi, o que é segurança energética?

    Davi Lopes: Segurança energética é a capacidade que um país tem de produzir sua própria energia ao invés de depender de outros países. Alguns países europeus dependem de outros países para complementar a sua matriz energética, a partir de gás natural vindo da Rússia, por exemplo. A Alemanha está proibindo o uso de fontes de energia a partir da energia nuclear e está importando energia e cada vez mais dependente de outros países. Por isso, que ela optou (agora está diminuindo), mas optou pela energia solar fotovoltaica, porque isso garante que ela dependa cada vez menos dos países fronteiriços. A energia é isso, não há vida contemporânea sem energia e suas transformações. Um país que não detém todo o processo de produção da suas potencialidades energéticas é um país que pode sofrer, por exemplo, numa guerra. Alguém pode fechar a torneirinha e acabou o gás natural. No Brasil, a gente usa essas potencialidades. Normalmente, as pessoas gostam de falar muito mal, aqui não é assim, não é assado. A gente tem um dos mais modernos setores elétricos e a gente consegue utilizar as nossas potencialidades nacionais. Com a descoberta do pré-sal a gente começou a ficar menos dependente lá de fora. Apesar que agora a gente está importando combustíveis refinados, mas isso é (mais) um problema de engenharia econômica, do que propriamente de segurança energética, porque a gente tem a capacidade de gerar e utilizar as nossas potencialidades no que se refere ao petróleo, que é uma fonte estratégica ainda. Infelizmente, né?! A segurança energética é, basicamente isso, a capacidade que o país tem de gerar a sua própria energia para prover os setores agrícolas, industriais, de serviços, etc., sem depender de outro país, por exemplo.   

    Camila Cunha: O mundo ainda é movido por fontes de energia não renováveis, que incluem o carvão mineral, o petróleo, o gás natural e a nuclear, que dependem de reservas finitas e esgotáveis. O Davi comentou que a dependência energética, principalmente desses recursos escassos, pode deixar um país vulnerável, por exemplo em guerras. 

    Camila Cunha: Em geral, a concentração geográfica desses recursos energéticos, das rotas e da infraestrutura da cadeia de produção, a diversidade dos países exportadores e até a infraestrutura precária ou vulnerável a ataques em algumas localidades podem ser o estopim ou a desculpa de conflitos violentos, instabilidade social ou disputas políticas. E, por que será que esses recursos energéticos que podem durar talvez mais 100 anos ainda são considerados estratégicos? Bom, conhecemos muito bem as propriedades físico-químicas dessas matérias-primas, o rendimento energético delas é alto, os preços são atrativos e a infraestrutura já está instalada (são plataformas, poços, refinarias, dutos, malhas ferroviárias e rodoviárias), que geram, claro, muitos empregos. Todos esses fatores levam ao “aprisionamento tecnológico”, esse é o termo técnico usado por economistas e significa que a estrutura do sistema e a rede de relação dos diferentes atores que a compõe geram tantas amarras, que acabam por impedir ou desestimular alternativas que poderiam ser mais vantajosas para o mercado, para a sociedade e para o meio-ambiente. Em geral, os investimentos nos sistema energético são de muito longo prazo e as decisões de hoje afetam significativamente o futuro. E, o Brasil? Davi, quais são as fontes energéticas que o Brasil utiliza? Quais são as nossas potencialidades nacionais?

    Davi Lopes: O Brasil usa mais ou menos 35,5% de petróleo e derivados, 12% de gás natural. Há uma tendência agora de aumentar o uso do gás natural, porque a distribuição já não é mais um monopólio natural. A hidráulica a gente está com mais ou menos 13%. E, eu estou falando aqui matriz energética e não matriz elétrica tá?! Há uma diferença. [continua].

    Camila Cunha: Deixa eu interromper o Davi um pouquinho aqui. Matriz energética é o conjunto de fontes que um país possui para suprir sua demanda interna de energia. Já a matriz elétrica, está embutida na energética, e incluem somente as fontes usadas para a produção de energia elétrica. Continua Davi…

    Davi Lopes: [continuação] 17% de derivados da cana e carvão vegetal, 8%. E, as demais renováveis, 5,4%. De forma geral a nossa matriz energética é 43,5%, 44% renovável. Se a gente comparar com o mundo, o mundo é 14,1% intensivo na suas matrizes energéticas a partir de fontes renováveis. Por isso, eu considero e falo sempre isso em palestras e na sala de aula, que a gente é um Emirados Árabes de fontes renováveis. Na nossa matriz elétrica a gente tem 70% hidráulico e mais 16% de eólico. 

    Camila Cunha: Somos mais que um paraíso tropical, somos um paraíso de fontes renováveis! A hidroeletricidade compõe uma das principais fontes energéticas do Brasil. A tendência é reduzir o uso do petróleo, dada a volatilidade dos preços internacionais e do desenvolvimento de um parque tecnológico petrolífero nacional, além disso temos o etanol utilizado como combustível para veículos leves, cujo incentivo começou na década de 70 com o Pró-Álcool. O país ainda tem grande vocação para a geração de energia solar e eólica. O uso da água, da biomassa, do sol e dos ventos para gerar energia compõem as fontes de energia renováveis. Explorar esse tipo de potencialidade tem, em geral (depende do caso a caso), mais vantagens do que desvantagens, como ilustra o Davi com as hidroelétricas. 

    Davi Lopes: É necessário que a gente compreenda enquanto nação que a gente precisa de energia renovável e a gente precisa de energia renovável, barata. O ciclo da água é renovável. Quando a gente fala da energia hidrelétrica a gente tá falando de energia limpa e barata. A questão é: é barata por que a gente não leva em consideração impactos socioambientais? Eu acredito que sim. Mas mesmo se a gente embutir no preço esses valores. Se é que dá para valorar os valores sociais no impacto de uma hidrelétrica, por exemplo, alegando um cemitério de uma pequena cidade ou o sentimento humano… Há vantagens nas hidrelétricas do ponto de vista econômico, tá, para quem tá escutando aí, antropólogos, sociólogos, eu tô falando basicamente do ponto de vista econômico, tem vantagens comparativas com as outras fontes, isso sem dúvida nenhuma. Do ponto de vista dos impactos ambientais para a mudança climática, as grandes hidrelétricas têm os impactos nos primeiros cinco anos. Segundo alguns estudos já publicados e internacionalmente aceitos, você tem o impacto do metano, porque você tem material orgânico naquele local e você vai colocar água. Você tem reações de bactérias e se lança esse gás de efeito estufa, que é 33 vezes, se eu não me engano, mais intensivo do que o dióxido de carbono. E sim, há impactos globais, mas bastante resumido se você comparar, por exemplo, com uma termelétrica a combustível. Então, essas perguntas são bem interessante né, porque a gente precisa ter essas preocupações dentro do planejamento energético: barato, universal e que causam menos impactos. Mas os impactos das hidrelétricas são maiores nas comunidades locais e no bioma local do que propriamente no mundial, pelo menos do ponto de vista dos gases de efeito estufa.

    Camila Cunha: Planejamento energético: barato, universal e com reduzido impacto. A palavra “planejamento” parece estar faltando nas ações de nossos governantes. Quem não lembra do maior racionamento de energia do país, em 2001? Ou do racionamento recente de água, em 2014? As duas crises atingiram São Paulo em cheio e não foram fatalidades. O descompasso entre aumento da demanda e a capacidade instalada (reservatórios, geração, linhas de transmissão e distribuição) levou ao uso predatório dos reservatórios por anos, deixando o sistema cada vez mais dependente do regime anual de chuvas. Incertezas no marco regulatório, desvalorização cambial em 1999 e balanço das contas públicas afastaram investimentos públicos e privados. Desde racionamentos ainda mais antigos, como os da década de 80, no desespero da crise a solução é sempre a construção de poluidoras termelétricas que funcionam as custas de combustíveis fósseis. O Davi explica que a energia renovável pode ser uma vantagem competitiva para o país, afinal nós temos o know-how…

    Davi Lopes: A nossa matriz energética é extremamente renovável, isso é um grande benefício para o país. Só que quando a gente compara com outros países, a gente começa a se perguntar: por que a gente não utiliza as nossas potencialidades de energias não renováveis, já que os outros países, a média é de 14% e a nossa média é de 44%? Então… O Brasil na verdade tem “entre aspas” poluído sua matriz elétrica. A gente tem optado erroneamente, na minha humilde opinião, a se desenvolver a partir de fontes não renováveis, como alguns leilões de energia a partir de carvão, por exemplo, e a gente tem sujado a nossa matriz energética a partir da nossa matriz elétrica, exatamente porque a gente tem uma vantagem comparativa (em relação a) outros países. Qualquer países europeu pode chegar no Brasil e falar: Vocês tem que deixar de emitir na sua matriz energética! O governo pode optar e falar o seguinte: Então… a gente tem 44% da nossa matriz energética de renováveis, vocês 14%, então a gente tem um certo direito de poluir, né?! O que é uma visão muito pobre, pouco estratégica. Essa retórica de que vocês poluem e eu também vou poluir, é uma retórica já bastante ultrapassada, porque o planeta é só um. Não interessa quem poluiu mais e quem poluiu menos, o que interessa é estrategicamente como agir para que se impacte menos. Então na verdade, a vantagem comparativa com outros países que a gente tem de ser tão renovável é exportar essa expertise tecnológica-científica para que outros países comprem da gente esse conhecimento já bastante arraigado nas nossas comunidades e nos nossos setores. 

    Camila Cunha: O consumo de energia elétrica acima de uma tonelada equivalente de petróleo por ano está associado a menores taxas de analfabetismo, mortalidade infantil e fertilidade e maior expectativa de vida. Apesar do Brasil estar em uma posição razoável, superior a esse valor, o atraso no investimento em infraestrutura contribui para a retração da economia, que não pode alavancar sem energia. Novos racionamentos poderão representar grandes obstáculos para o país passada essa fase de recessão e estagnação. 

    Davi Lopes: A energia é extremamente importante para o desenvolvimento de um país. Por exemplo, no nosso caso a energia hidráulica, é uma energia barata, porque a gente tem todo o conhecimento técnico-científico sobre a transformação de energia potencial em energia elétrica. Encarecendo essa nossa energia a gente vai impactar diretamente no setor industrial, no setor de comércio, enfim, no setor de serviços, por que a energia é um insumo, é um dado, é um input, que a gente sempre leva em consideração quando está fazendo nossas planilhas de custo. 

    Camila Cunha: Em um país continental como o Brasil, como funciona o sistema elétrico?

    Davi Lopes: Então o Brasil tem dois sistemas, né?! Tem o Sistema Interligado Nacional e tem o Sistema Isolado. O Sistema Interligado Nacional é basicamente a geração de energia em qualquer ponto do país – excluindo naturalmente o isolado – e ele pode ser transferido para outras regiões. Por exemplo: se o Nordeste estiver produzindo muita energia e estiver consumindo pouca energia, e o Sudeste estiver produzindo pouca energia e consumindo muita energia, o Nordeste pode importar energia para o Sudeste, por exemplo. A gente tem dentro do setor elétrico, um dos mais modernos do mundo. Aqui quando falta energia por três horas a gente reclama, liga para distribuidora, etc. etc… Não tô dizendo que não deva fazer isso, mas por exemplo, (se) faltar energia em Nova York, a Califórnia não manda energia para Nova Iorque para suprir essa demanda de energia, como acontece no caso brasileiro. Então a gente tem um sistema bastante robusto, bastante confiável e bastante moderno. 

    Camila Cunha: Isso é fantástico! Os subsistemas do Sistema Interligado Nacional são todos conectados e aproveitam melhor a sazonalidade dos rios com a permuta de excedentes de energia elétrica. E, o que seria o Sistema Isolado?

    Davi Lopes: O Sistema Isolado, ele não (é) necessariamente isolado em distância. Por exemplo, eu fiz um trabalho no meu mestrado de um reformador de etanol e célula combustível que a comunidade que foi atendida ficava a 25 Km da capital Cuiabá. Então ela é isolada do ponto de vista energético, não é isolada do ponto de vista de transporte, distância… Por que eles não põe essas comunidades no Sistema Interligado? Principalmente pela baixa demanda. Você tem comunidades muito dispersas e baixo consumo de energia. Ele não desperta interesse econômico da distribuidora de levar energia para essas localidades. E aí foi criado o Programa “Luz Para Todos”, que obrigou as distribuidoras a levar energia a qualquer pessoa. Então, no começo do programa em 2004 a gente tinha 16 milhões de conterrâneos nossos sem energia, basicamente utilizavam a energia da lenha para cocção, para cozinhar, e muito dificilmente tinham acesso a gás, porque é muito caro. O “Luz Para Todos” levou para várias comunidades o Sistema Interligado. Ele atualmente tem cerca de um milhão de pessoas (que) ainda não são atendidas dentro do Sistema Interligado, mas são atendida de certa forma por alguma geração local que é distribuída. Se utiliza a geração fotovoltaica, geradores a diesel. Então a gente tem um setor extremamente pujante e moderno. É bom que os ouvintes saibam disso. A Agência Nacional de Energia Elétrica (ANEEL), a Agência Nacional de Petróleo, Gás e Biocombustíveis (ANP) são agências extremamente competentes no trabalho que fazem, principalmente porque elas estão do lado do consumidor. Então, incentivam projetos de pesquisa e desenvolvimento, tanto a ANEEL quanto a ANP, enfim, é um setor que para além da distribuição, geração e transmissão tem uma preocupação de realmente garantir segurança e qualidade da energia para consumidores brasileiros.

    Camila Cunha:  O Programa Luz para Todos foi pensando para levar eletrificação para regiões rurais e remotas do país e universalizar o acesso a energia elétrica. Em mais de 10 anos, o programa atingiu 16,2 milhões de pessoas. Davi, existem outros projetos relacionados à energia em andamento no Brasil? Quais você destacaria? 

    Davi Lopes: Há atualmente dois programas extremamente relevantes no Brasil que vai onerar o primeiro de forma direta, o setor de energia, e outro de forma indireta, que é o RenovaBio e o Rota2030. O RenovaBio é um programa específico para a produção de biocombustíveis no Brasil onde ele onera o distribuidor que vende mais combustíveis de fonte fóssil e que beneficia os produtores rurais, que são mais eficientes dentro de todo o seu processo. Nosso maior gargalo é o setor agrícola, é o setor que mais polui no Brasil, torná-lo mais eficiente dentro desse processo de produção do biocombustível, essa eficiência vai ser remunerada a partir dos CBios, que é uma moeda que ainda está sendo discutida. Então, essa é uma política bastante importante que tem tido um aceite bastante entusiasmado da academia e do setor produtivo nacional que tem visto no RenovaBio uma oportunidade interessante de gerar conhecimento e gerar riquezas de uma fonte renovável que a gente domina. 

    Camila Cunha: O RenovaBio é um incentivo para aumentar a participação dos biocombustíveis, feitos em sua maioria de cana-de-açúcar e soja, na matriz energética e promover a segurança energética do país, estimulando o mercado de combustíveis interno ao mesmo tempo que reduzimos as emissões de gases do efeito estufa como acordado em Paris em 2016. E o Rota 2030?

    Davi Lopes: O Rota 2030 impacta indiretamente, uma parte dele prevê motores mais eficientes, com autonomia maior, o uso de célula a combustível usando biocombustíveis como o etanol e combustíveis como menor intensidade de carbono, como o gás natural, vai trazer um impacto positivo para o setor de energia. O RenovaBio vai impactar diretamente, de forma mais significativa, na minha opinião, o nosso setor (energético). A gente espera que tenha uma conversa entre os dois projetos.

    Camila Cunha: O Rota 2030 quer fazer do Brasil um pólo automobilístico moderno ou mais próximo dos países ricos. Um dos focos do programa está nos carros híbridos e elétricos, cujos preços e tecnologia ainda estão fora do nosso alcance. O programa prevê também aumento da eficiência energética e segurança de veículos, bem como atração de investimentos para o setor. Qual será efeito desses programas? Ainda precisamos esperar para ver!

    Camila Cunha: O roteiro e a apresentação desse episódio energético é de Camila Cunha. Sou eu! O roteiro teve apoio de Allison Almeida e decupagem de entrevistas de Paula Gomes. A coordenação é da professora Simone Pallone, do Labjor. Trabalhos técnicos de Gustavo Campos e Octávio Augusto, da Rádio Unicamp, e apoio do Planteia. Gostou do programa? Acompanhe o Oxigênio no Facebook (facebook.com/oxigenionoticias – tudo junto e sem acento), no Instagram (@radiooxigenio) ou siga a gente no Twitter (@oxigenio_news). E para conhecer a iniciativa de divulgação científica Planteia, acesse www.planteia.com.br. Me conta o que você achou do programa. Deixe sua crítica ou comentário na plataforma que ouve o podcast. Até o próximo episódio! 

     

    Créditos:

    Efeito sonoro e músicas:

    “Tuning small medium-wave receiver” da biblioteca BBC Sound Effect.

    “Burrow Burrow” e “Marquetry” de Little Rock disponíveis no Blue Dot Sessions.

    “Sour Apple” de RAGE da Biblioteca de áudio do YouTube.

    Som de vídeos do Youtube:

    “Evacuação de cidades na Austrália por conta de onda de calor” do Canal UOL.

    “Antártica registra recorde de calor com 18,3ºC”,  “Frio histórico nos EUA tem sensação térmica de -70ºC” e “Japão se prepara para chegada de tempestade” do canal Band Jornalismo.

    “Mudanças climáticas: pior seca em 50 ano s no Brasil” do Canal ONU Brasil.

    “Mais de 50 morrem com chuvas e enchentes em Minas Gerais” do Canal Jornal O Globo.

    Imagem de capa:

    “stockvault-bulb128619.jpg” de Carol Padilha e edição de Camila Cunha

    24 min
  • #84 Temático: Literatura e novela

    Neste episódio #84, o Oxigênio trata da literatura apresentada nas novelas, seja em obras completas como em duas novelas no ar atualmente pelas redes Globo e SBT ou fazendo referências a diversas obras como a novela que se encerra hoje, Bom Sucesso, em transmissão na Rede Globo. E como elas podem estimular a leitura. O aumento em índices de procura por livros clássicos abordados nessas novelas, mostra o poder de comunicação da telenovela no Brasil. O programa contou com entrevistas de Rosane Svartman, uma das autoras da novela Bom Sucesso e da professora da Universidade Municipal de São Caetano do Sul e doutora em comunicação, Daniela Jakubaszko.

    O episódio foi apresentado por Samuel Ribeiro e Rafael Revadam. A produção, roteiro e as entrevistas deste episódio são de Rafael Revadam. A revisão do roteiro e coordenação são da professora Simone Pallone, do Labjor, e os trabalhos técnicos de Gustavo Campos e Octávio Augusto, da Rádio Unicamp.

     

    Samuel Ribeiro: Das cinco novelas inéditas em exibição na TV aberta no Brasil atualmente, três giram em torno do universo literário.

    Rafael Revadam: Duas delas, Éramos Seis e As aventuras de Poliana, são inspiradas em livros homônimos. A terceira, Bom Sucesso, tem uma editora como núcleo principal e utiliza trechos de obras literárias em sua história, mencionando os títulos e os autores.

    Samuel: Estamos vivendo um momento em que produções culturais são questionadas por políticos e apoiadores. Como a censura a uma história em quadrinhos durante a Bienal do Livro, no Rio de Janeiro. E diante de fatos como esse, qual a importância de se falar em literatura? Eu sou o Samuel Ribeiro.

    Rafael: Eu sou o Rafael Revadam, e no programa de hoje vamos abordar a literatura por trás das telenovelas.

    (Vinheta de abertura do Oxigênio)

    Samuel: Foi por causa de uma troca de exames, que a costureira Paloma, vivida por Grazi Massafera, e o editor Alberto, Antonio Fagundes, se conheceram. Ao perceberem a paixão em comum por livros, os dois se tornam amigos e passaram a refletir sobre a vida usando as obras da ficção.

    Rafael: Esse é o começo da novela Bom Sucesso, atual novela das 7 da noite, da Rede Globo, escrita por Paulo Halm e Rosane Svartman. A ideia de trazer o universo literário para a televisão veio das vivências da própria Rosane, coautora da novela. É o que ela conta para nós.

    Rosane Svartman: Há dois anos eu sou curadora da Arena Jovem, que é um espaço para debates e mesas dentro da Bienal Internacional do Livro, no Rio de Janeiro, que é o maior evento da América Latina dedicado à literatura, né? São mais ou menos 600 mil pessoas que passam pela Bienal, e eu fiquei muito impressionada, como a literatura podia ser popular e como que esse evento, que é um evento comercial, como ele é impactante, como consegui enxergar ali um público muito diverso, interessado na literatura. Então, daí veio a ideia para uma das arenas da novela, né? Porque a novela fala de literatura, tem a editora, mas também fala de outros assuntos, claro. Mas a ideia de que um dos universos fosse uma editora e que a gente pudesse falar de literatura e dos livros, com certeza essa ideia veio por causa desse trabalho na Bienal.

    Samuel: Rosane explica que os livros citados na novela são selecionados de acordo com o desenrolar da trama. Ela e a equipe buscam na literatura histórias que se encaixem nas situações da novela, mas admite que o contrário também acontece, de criar um roteiro para tratar do livro em questão.

    Rosane Svartman: A narrativa da novela é o que mais importa. Então, na verdade, a gente vai pensando que livro se encaixaria na narrativa. É claro que, às vezes, vem a ideia de um livro super legal, de uma cena super legal, e a gente tenta fazer com que a história chegue naquele livro, mas é mais difícil disso acontecer. Geralmente é o contrário. A Paloma está na dúvida entre dois amores, nossa, “Dona Flor”, que é aquela mulher que consegue ter dois amores ao mesmo tempo poderia ser um livro bacana para ilustrar isso, e a gente traz “Dona Flor”. Muitas vezes a gente tem uma situação, e a gente pergunta para as pessoas da equipe, ou temos alguns amigos que trabalham em editoras, ou pessoas que eu sei que gostam de ler muito, que também ajudam. Eu falo: “Gente, o tema é esse. Alguém tem alguma ideia? Para onde a gente pode ir?”. E aí sempre vem uma sugestão também. A gente discute aqui na redação, e aí decide qual o melhor caminho, que livro pode ilustrar melhor aquela situação para o roteiro.

    Rafael: A experiência da equipe de roteiristas com o universo da literatura ajuda muito. São bons leitores, assistem peças de teatro, filmes e essas referências têm sido fundamentais. Aliás, essa é uma dica para quem quer contar boas histórias.

    Rosane Svartman: Eu sou uma leitora voraz, o Paulo Halm também, e algumas pessoas da equipe também. Isso ajuda, né? A gente faz reunião toda semana sobre o rumo da história, então nessas reuniões a gente geralmente fala. “Gente, e aí? Alguma ideia? Algum livro?”. O Charles Peixoto, que é um dos colaboradores, ele é muito experiente e foi de um grupo de poesias, ele está sugerindo sempre alguma poesia. Então, quando o assunto é poesia, a gente sempre vai para o Charles, ele que traz de Quintana a Maiakovski. E quando são as histórias, os livros, aí geralmente eu e Pepê, a gente já tem aí um grande arcabouço de livros que a gente leu. Eu acho que quando você escreve uma novela, você, na verdade, coloca ali todo o seu repertório. Então é importante ver peças, ver filmes, ler livros, até porque quem conta história também tem que ouvir e ler boas histórias para conseguir contar.

    Samuel: A menção de livros no decorrer da história trouxe um resultado inesperado. O telespectador que acompanha a novela, também passou a se interessar pelos livros falados nela.

    Rafael: Dados da plataforma Zoom, usada para comparativo de preços na internet, mostraram um aumento na procura por determinados livros, conforme eles apareciam nos capítulos de Bom Sucesso.

    Samuel: O levantamento analisou os primeiros livros que apareceram na novela, entre os quais estavam Peter Pan, Alice no País das Maravilhas, Gabriela Cravo e Canela. O grande destaque ficou para a obra O Mágico de Oz, que teve um aumento de busca de 15% no comparativo com o mesmo mês, em 2018. Trata-se de uma mudança significativa, principalmente para um país que a porcentagem de consumidores cresceu de 2011 a 2015 de 50 para 56%, segundo dados da pesquisa “Retratos da Leitura no Brasil”, de 2016, um estudo, realizada pelo Instituto Pró-Livro a cada quatro anos.

    Rafael: E se o telespectador é influenciado por uma novela que cita diversos livros, o que acontece quando ele acompanha uma novela inspirada em uma única obra? É o caso de Éramos Seis, inspirada na história homônima de Maria José Dupré e em exibição na Rede Globo.

    Samuel: Dados da plataforma Estante Virtual, que reúne sebos e livrarias, apontaram um crescimento de 67% nas compras do livro que inspirou a novela, somente no mês de outubro de 2019, no comparativo com janeiro do mesmo ano.

    Rafael: Além disso, do total de compras da obra, 42% ocorreram entre os meses de setembro e outubro, período da divulgação e início de exibição da novela.

    Samuel: Para a professora da Universidade Municipal de São Caetano do Sul e doutora em comunicação, Daniela Jakubaszko, adaptações de obras literárias são sempre bem-vindas, desde que haja a atualização de seus contextos.

    Daniela Jakubaszko: O que me preocupa mais é como essa obra vai representar os tempos e espaços com os quais ela se entrelaça. Então, em “Éramos Seis”, por exemplo, o que me chamou muito a atenção? Várias cenas fazem uma referência tanto no passado quanto no futuro. É uma família que cai muito o seu padrão de vida pelas dívidas. Eles têm ainda um certo conforto porque vêm de uma situação confortável, mas é aquele desespero de quem falta comida na mesa, de quem tem que economizar e cortar gastos de todos os lados. Hoje a discussão era e tem tudo a ver com o presente, né? Eu não tenho dinheiro para por carne na mesa. O que é legal da adaptação? São todas essas pontes, todos esses entrelaçamentos entre tempos e espaços. É o passado ensinando o que a gente tem que fazer no presente, e às vezes nos preparando para o que vai vir no futuro.

    Rafael: Para Daniela, um dos grandes atrativos da atual novela das 6 horas é justamente trazer temas atuais num contexto de época. Mas a pesquisa também chama a atenção para um tom conformista em alguns debates sociais.

    Daniela Jakubaszko: O que eu achei significativo neste capítulo foram essas marcações das cenas de pobreza, essa coisa, como a mulher tem que se virar sozinha. No caso ali, ela era viúva. Mas muitas mulheres vão se identificar com ela. Não são viúvas, mas de alguma maneira são esquecidas, abandonadas, pelos pais de seus filhos. Ou ex-maridos, ou alguma coisa assim. Então, os homens são bastante omissos, só cresce no Brasil o número de mulheres que chefiam as famílias. As mulheres estudam mais do que os homens, mas ganham menos do que eles, às vezes nos mesmos cargos, ganham pelo menos 30% a menos. A telenovela, nesses conflitos, ela se aproxima, mas as questões nos conflitos sociais, ela se retrai, e às vezes ela tem um posicionamento bastante conformista mesmo.

    Samuel: Para Daniela, o autor que adapta uma obra literária tem a liberdade de destacar alguns contextos e retirar outros, até porque a novela é um formato narrativo diferente de um livro.

    Rafael: Mas mesmo com diferenças, as comparações são inevitáveis e é importante percebermos se a adaptação passa a mesma mensagem que a obra que a originou.

    Daniela Jakubaszko: Eu estudei aquela telenovela, a “Eta Mundo Bom”, que era uma adaptação de Voltaire e também, claro, uma homenagem a Mazzaropi, porque a adaptação de Mazzaropi para Voltaire é realmente genial. Ele vai para a ironia, que tem muito mais a ver com Voltaire do que o que a telenovela acaba fazendo. Então, tudo bem, eles dizem sobre essa homenagem para o Mazzaropi, localizam a inspiração, a adaptação, ali em Voltaire, o Candinho, porém a crítica que o Voltaire fazia a uma filosofia na época. O que acontecia? “Tudo o que acontece de ruim é para melhorar a vida da gente”. Então, no fim, é para o bem que as coisas ruins acontecem com a gente. Essa filosofia foi muito ironizada por Voltaire, e a novela, ela não traz essa contradição, que a literatura abraça com muita tranquilidade e com muita maestria. Então essa frase, na telenovela, que era repetida a exaustão, chegava até a ficar chato o bordão, ela tinha uma outra conotação. Era como validando esta filosofia que não era nem a intenção do Voltaire, muito menos de Mazzaropi. É muito interessante assistir, ler o romance e assistir as obras de forma comparada. A gente tem que aceitar os limites de cada gênero, aceitar o propósito e a proposta de cada gênero, mas às vezes é inevitável também que a gente faça determinadas comparações. E aí localizar no nosso contexto, no nosso tempo e espaço. Bom, mas que sentido isso se produz? Então, na época do “Eta mundo Bom”, olha que coisa interessante, era às vésperas do impeachment de Dilma, né? Então você tem todo um clima que se estabelece por meio da novela, que “nossa, isso parece ruim, mas é melhor para você”. É como um remédio ruim que você toma, sabe? Então, aquilo repetido à exaustão, o espectador fatalmente, ele vai levar aquilo para outros setores da vida dele, né? A telenovela meio que é uma mediação para a interpretação dessa realidade. E aí é como se a Globo entrasse um pouco nesse clima, né, do impeachment, “não, é ruim, mas é bom”.

    Samuel: Por refletirem a sociedade, as novelas também são impactadas por acontecimentos políticos e sociais. Após o caso de censura de uma história em quadrinhos na Bienal do Livro do Rio de Janeiro por conter um beijo gay, a literatura ficou em alta na mídia.

    Rafael: Questionada se a escolha das obras citadas em Bom Sucesso teve uma influência de pensamentos conservadores em alta, a autora Rosane Svartman foi categórica.

    Rosane Svartman: Olha, eu acho que a gente não pode ter muito esse pensamento quando escreve, a gente foi selecionando as obras de acordo com a história. A gente vive uma era pós-moderna de resistência e controle, que a gente vai vivendo ciclos de resistência e controle, e eu acho que a gente está agora num período agora de mais controle. Então é claro que, por causa da classificação indicativa, e por causa do horário da novela, a gente está atento à história, aos temas e até cenas, que possam gerar problemas nesse sentido. O que a gente viveu na Bienal, e a gente, no dia anterior a que isso aconteceu, era justamente lá na Arena, eram umas mesas de literatura trans, literatura LGBTQ+ do Plínio Cabral, que também trabalha na novela e foi curador das mesas. Foi muito impactante aquele momento na Bienal, e ao mesmo tempo foi muito bonito ver as pessoas saindo da Arena segurando os seus livros. Eu acho que é uma cena que eu jamais vou esquecer na minha vida

    Samuel: Já a professora Daniela Jakubaszko afirma que as adaptações de literatura em telenovelas colaboram para o rompimento de um pensamento preconceituoso.

    Daniela Jakubaszko: Ninguém foi censurar os livros de terra plana, certo? Mas por que foram censurar os quadrinhos com personagens homoafetivos? Não sei. É alguma coisa que, com certeza a gente não resolveu, porque ela torna a acontecer, passa uma geração, passa outra, e o mesmo desafio se repete, é apresentado para nós. Então, eu acho que nós hoje temos um grande aliado que é a internet, e todo o acesso à literatura que a internet nos proporciona. A gente tem esses livros que vão passando épocas e vão, de alguma maneira, cativando cada vez mais novas gerações. “Éramos Seis”, eu li quando estava no ensino fundamental, não sei, lá pela 4ª, 5ª série, uma coisa assim. O livro é maravilhoso, eu amei aquele livro, mas ele já falava de uma outra época, já não era da minha geração. E aí, eu li, e agora gerações atuais vão ler também. Vai se construindo uma memória, de fato, da nossa nação, da nossa história. A literatura ajuda muito na construção, na manutenção dessa memória. Então, é fundamental que as telenovelas se aproximem cada vez mais da literatura, e que a gente resista. E que a gente crie estratégias criativas para burlar essas tentativas de censura, tentativas de tolher a liberdade de expressão das pessoas.

    Rafael: Enquanto muitos alegam que a sociedade não lê mais, a autora Rosane Svartman conta que os bons resultados de audiência de Bom Sucesso revelam o contrário.

    Rosane Svartman: Eu acredito no poder de comunicação de uma telenovela, e ao mesmo tempo eu acredito que o público quer ouvir boas histórias. O resumo é o seguinte: o que é uma telenovela? Você tentar contar uma boa história para um público de milhões de pessoas, e uma audiência de milhões de pessoas. E acreditar que essa história, que emociona a nós, os autores, e que a gente quer muito contar, também vá emocionar esse público. Eu acho que a telenovela, desde que ela nasceu, ela sobrevive e muito através do diálogo com a sociedade, de tentar ver o que está premente, o que está latente, e tentar dialogar com a sociedade para conseguir audiência dentro desse modelo apoiado na publicidade, no merchandising. Isso aconteceu mais ou menos, sei lá, nos últimos 70 anos, e continua acontecendo. Então, eu acredito que a novela vem tendo bons números, Bom Sucesso, em parte porque as pessoas querem sim falar de literatura, querem sim ouvir boas histórias, e isso, pra mim, me dá bastante esperança.

     

    Você pode nos acompanhar nas redes sociais. Estamos no Facebook, (facebook.com/oxigenionoticias), no Instagram (@oxigeniopodcast) e no Twitter (@oxigenio_news). E você também pode deixar a sua opinião sobre este episódio e sugerir temas para os próximos programas. Basta deixar o seu comentário na plataforma de streaming que utiliza. Até a próxima!

     

    Referências:

    Pesquisa Retratos da Leitura no Brasil, realizada pelo Instituto Pró-Livro:

    http://prolivro.org.br/home/images/2016/RetratosDaLeitura2016_LIVRO_EM_PDF_FINAL_COM_CAPA.pdf

    Filme Candinho, de Mazzaropi (1953)

    https://www.youtube.com/watch?v=Zz9jMUde2GM

     

    17 min
  • #84 Temático: Literatura e novela
    http://oxigenio.comciencia.br/wp-content/uploads/2020/01/84_Tematico_Literatura_e_Novela.mp3

     

    Neste episódio #84, o Oxigênio trata da literatura apresentada nas novelas, seja em obras completas como em duas novelas no ar atualmente pelas redes Globo e SBT ou fazendo referências a diversas obras como a novela que se encerra hoje, Bom Sucesso, em transmissão na Rede Globo. E como elas podem estimular a leitura. O aumento em índices de procura por livros clássicos abordados nessas novelas, mostra o poder de comunicação da telenovela no Brasil. O programa contou com entrevistas de Rosane Svartman, uma das autoras da novela Bom Sucesso e da professora da Universidade Municipal de São Caetano do Sul e doutora em comunicação, Daniela Jakubaszko.

    O episódio foi apresentado por Samuel Ribeiro e Rafael Revadam. A produção, roteiro e as entrevistas deste episódio são de Rafael Revadam. A revisão do roteiro e coordenação são da professora Simone Pallone, do Labjor, e os trabalhos técnicos de Gustavo Campos e Octávio Augusto, da Rádio Unicamp.

     

    Samuel Ribeiro: Das cinco novelas inéditas em exibição na TV aberta no Brasil atualmente, três giram em torno do universo literário.

    Rafael Revadam: Duas delas, Éramos Seis e As aventuras de Poliana, são inspiradas em livros homônimos. A terceira, Bom Sucesso, tem uma editora como núcleo principal e utiliza trechos de obras literárias em sua história, mencionando os títulos e os autores.

    Samuel: Estamos vivendo um momento em que produções culturais são questionadas por políticos e apoiadores. Como a censura a uma história em quadrinhos durante a Bienal do Livro, no Rio de Janeiro. E diante de fatos como esse, qual a importância de se falar em literatura? Eu sou o Samuel Ribeiro.

    Rafael: Eu sou o Rafael Revadam, e no programa de hoje vamos abordar a literatura por trás das telenovelas.

    (Vinheta de abertura do Oxigênio)

    Samuel: Foi por causa de uma troca de exames, que a costureira Paloma, vivida por Grazi Massafera, e o editor Alberto, Antonio Fagundes, se conheceram. Ao perceberem a paixão em comum por livros, os dois se tornam amigos e passaram a refletir sobre a vida usando as obras da ficção.

    Rafael: Esse é o começo da novela Bom Sucesso, atual novela das 7 da noite, da Rede Globo, escrita por Paulo Halm e Rosane Svartman. A ideia de trazer o universo literário para a televisão veio das vivências da própria Rosane, coautora da novela. É o que ela conta para nós.

    Rosane Svartman: Há dois anos eu sou curadora da Arena Jovem, que é um espaço para debates e mesas dentro da Bienal Internacional do Livro, no Rio de Janeiro, que é o maior evento da América Latina dedicado à literatura, né? São mais ou menos 600 mil pessoas que passam pela Bienal, e eu fiquei muito impressionada, como a literatura podia ser popular e como que esse evento, que é um evento comercial, como ele é impactante, como consegui enxergar ali um público muito diverso, interessado na literatura. Então, daí veio a ideia para uma das arenas da novela, né? Porque a novela fala de literatura, tem a editora, mas também fala de outros assuntos, claro. Mas a ideia de que um dos universos fosse uma editora e que a gente pudesse falar de literatura e dos livros, com certeza essa ideia veio por causa desse trabalho na Bienal.

    Samuel: Rosane explica que os livros citados na novela são selecionados de acordo com o desenrolar da trama. Ela e a equipe buscam na literatura histórias que se encaixem nas situações da novela, mas admite que o contrário também acontece, de criar um roteiro para tratar do livro em questão.

    Rosane Svartman: A narrativa da novela é o que mais importa. Então, na verdade, a gente vai pensando que livro se encaixaria na narrativa. É claro que, às vezes, vem a ideia de um livro super legal,
    17 min
  • #83 Oxilab: o museu que não pegou fogo
    Em formato narrativo e duração de 13m08s, este episódio do Oxigênio partiu das memórias do incêndio do Museu Nacional para abordar o passado, o presente e o futuro do Museu Paulista da USP. Com a sede interditada desde 2013 por problemas estruturais, o museu acabou de ter a sua reforma iniciada, e a expectativa é que tudo esteja pronto até 2022, quando ele será reinaugurado durante as comemorações do bicentenário da Independência do Brasil. Para entender melhor esse contexto, o Samuel Ribeiro conversou com o professor Paulo César Garcez Marins, que é doutor em História e trabalha na divisão de acervo e curadoria do Museu Paulista. Eles falaram sobre o surgimento e a trajetória da instituição, seus primeiros diretores, suas atividades, como foi o processo de interdição do prédio e como será o novo museu após a reinauguração. Este Oxilab #83 foi produzido e narrado pelo Samuel, para a disciplina de História da Comunicação da Ciência, do curso de Especialização em Jornalismo Científico do Laboratório de Estudos Avançados em Jornalismo Científico (Labjor), da Unicamp.  Vamos ao programa!

     

    ÂNCORA DE TV1: E atenção, uma notícia que acaba de chegar: um incêndio de grandes proporções está destruindo nesse momento o Museu Nacional no Rio de Janeiro.

    ÂNCORA DE TV1: O fogo começou por volta das sete e meia da noite, aos poucos todo o prédio histórico foi tomado pelas chamas.

    ÂNCORA DE TV2: As autoridades dizem que pouco ou nada vai sobrar do museu. Ainda não sabem o que terá provocado o incêndio combatido por bombeiros de vinte quarteis do Rio de Janeiro.

     

    SAMUEL: A primeira vez que eu visitei o Rio de Janeiro foi no ano passado, e eu dei o azar de chegar bem no dia em que o Museu Nacional pegou fogo. Eu lembro que eu tinha acabado de chegar no quarto do hotel. Sentei na cama, liguei a TV e fiquei muito triste com aquelas cenas, porque eram séculos de história que eu nunca mais ia poder visitar.

    SAMUEL: Pra mim os museus têm essa coisa louca. Cada um é de um jeito, e esse jeito de ser tá sempre mudando. Pode ser uma instituição educativa. Um lugar pra mostrar a ciência ou a arte de uma época. Pra contar as histórias de um povo, de um acontecimento, de um país. Tudo isso junto. Ou até alguma coisa diferente.

    SAMUEL: E é por isso que é tão triste quando acontece um incêndio em um museu, porque não existem dois museus iguais por aí.

    SAMUEL: Eu sou Samuel Ribeiro, e neste podcast vou falar sobre um museu que não pegou fogo: o Museu Paulista, fundado no século XIX e que foi o primeiro museu público do estado de São Paulo.

    SAMUEL: Pra saber mais dessa instituição, eu conversei com o Paulo...

    PAULO: Paulo César Garcez é... Marins... M-A-R-I-N-S... e eu sou docente e curador do Museu Paulista da USP, que é o Museu do Ipiranga.

    SAMUEL: O Paulo, que tá lá desde 2004, trabalha na divisão de acervo e curadoria. Eu liguei pra ele porque eu queria conhecer melhor a história do museu, mas a gente acabou indo além disso e falamos também sobre o futuro da instituição.

    SAMUEL: Se você não conhece ou nunca viu o Museu Paulista, procura uma foto aí no Google. A sede é uma construção antiga enorme, que fica dentro do Parque da Independência no bairro do Ipiranga, em São Paulo, e tá interditada desde 2013 por causa de problemas na estrutura das paredes. Depois de um período de planejamento, as reformas foram iniciadas agora, em 2019, e a previsão é de que a reinauguração do museu aconteça em setembro de 2022, no bicentenário da Independência do Brasil.

    SAMUEL: O prédio do museu é um patrimônio tombado, assim como o seu acervo, que tem centenas de milhares de itens. Tem fotografias, quadros, esculturas, móveis, utensílios da vida cotidiana, documentos, enfim... tudo isso reunido e organizado ao longo de mais de um século de história.
    14 min

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