Oxigênio Podcast
Download on the App Store

Oxigênio Podcast episodes

  • #83 Oxilab: o museu que não pegou fogo

    Em formato narrativo e duração de 13m08s, este episódio do Oxigênio partiu das memórias do incêndio do Museu Nacional para abordar o passado, o presente e o futuro do Museu Paulista da USP. Com a sede interditada desde 2013 por problemas estruturais, o museu acabou de ter a sua reforma iniciada, e a expectativa é que tudo esteja pronto até 2022, quando ele será reinaugurado durante as comemorações do bicentenário da Independência do Brasil. Para entender melhor esse contexto, o Samuel Ribeiro conversou com o professor Paulo César Garcez Marins, que é doutor em História e trabalha na divisão de acervo e curadoria do Museu Paulista. Eles falaram sobre o surgimento e a trajetória da instituição, seus primeiros diretores, suas atividades, como foi o processo de interdição do prédio e como será o novo museu após a reinauguração. Este Oxilab #83 foi produzido e narrado pelo Samuel, para a disciplina de História da Comunicação da Ciência, do curso de Especialização em Jornalismo Científico do Laboratório de Estudos Avançados em Jornalismo Científico (Labjor), da Unicamp.  Vamos ao programa!

     

    ÂNCORA DE TV1: E atenção, uma notícia que acaba de chegar: um incêndio de grandes proporções está destruindo nesse momento o Museu Nacional no Rio de Janeiro.

    ÂNCORA DE TV1: O fogo começou por volta das sete e meia da noite, aos poucos todo o prédio histórico foi tomado pelas chamas.

    ÂNCORA DE TV2: As autoridades dizem que pouco ou nada vai sobrar do museu. Ainda não sabem o que terá provocado o incêndio combatido por bombeiros de vinte quarteis do Rio de Janeiro.

     

    SAMUEL: A primeira vez que eu visitei o Rio de Janeiro foi no ano passado, e eu dei o azar de chegar bem no dia em que o Museu Nacional pegou fogo. Eu lembro que eu tinha acabado de chegar no quarto do hotel. Sentei na cama, liguei a TV e fiquei muito triste com aquelas cenas, porque eram séculos de história que eu nunca mais ia poder visitar.

    SAMUEL: Pra mim os museus têm essa coisa louca. Cada um é de um jeito, e esse jeito de ser tá sempre mudando. Pode ser uma instituição educativa. Um lugar pra mostrar a ciência ou a arte de uma época. Pra contar as histórias de um povo, de um acontecimento, de um país. Tudo isso junto. Ou até alguma coisa diferente.

    SAMUEL: E é por isso que é tão triste quando acontece um incêndio em um museu, porque não existem dois museus iguais por aí.

    SAMUEL: Eu sou Samuel Ribeiro, e neste podcast vou falar sobre um museu que não pegou fogo: o Museu Paulista, fundado no século XIX e que foi o primeiro museu público do estado de São Paulo.

    SAMUEL: Pra saber mais dessa instituição, eu conversei com o Paulo…

    PAULO: Paulo César Garcez é… Marins… M-A-R-I-N-S… e eu sou docente e curador do Museu Paulista da USP, que é o Museu do Ipiranga.

    SAMUEL: O Paulo, que tá lá desde 2004, trabalha na divisão de acervo e curadoria. Eu liguei pra ele porque eu queria conhecer melhor a história do museu, mas a gente acabou indo além disso e falamos também sobre o futuro da instituição.

    SAMUEL: Se você não conhece ou nunca viu o Museu Paulista, procura uma foto aí no Google. A sede é uma construção antiga enorme, que fica dentro do Parque da Independência no bairro do Ipiranga, em São Paulo, e tá interditada desde 2013 por causa de problemas na estrutura das paredes. Depois de um período de planejamento, as reformas foram iniciadas agora, em 2019, e a previsão é de que a reinauguração do museu aconteça em setembro de 2022, no bicentenário da Independência do Brasil.

    SAMUEL: O prédio do museu é um patrimônio tombado, assim como o seu acervo, que tem centenas de milhares de itens. Tem fotografias, quadros, esculturas, móveis, utensílios da vida cotidiana, documentos, enfim… tudo isso reunido e organizado ao longo de mais de um século de história.

    PAULO: O Museu Paulista vai ser inaugurado e aberto ao público em 1895, na última década portanto do século XIX e num contexto importante de transição política do Brasil. O museu foi instalado em um prédio, que é o chamado Monumento à Independência, construído na década de 1880, na década anterior, que tinha sido erguido pelas autoridades imperiais para homenagear a história da fundação do país e homenagear o próprio regime imperial.

    PAULO: Esse museu tem desde a sua abertura algumas finalidades. Ele tinha uma seção histórica, na medida em que o primeiro item do acervo dele foi o quadro Independência ou Morte, do Pedro Américo, pintado em 1888, também como uma encomenda imperial, e que foi projetado para o Monumento à Independência. Ele foi projetado pro salão nobre, o salão nobre foi projetado pra abrigar essa pintura.

    SAMUEL: Desse quadro que o Paulo falou você deve se lembrar, porque deve ter visto ele nos livros de História do colégio.

    PAULO: A… coleção de história né, foi a primeira, e as autoridades republicanas julgaram então que seria contrabalançar, não é, esta herança imperial, dedicando um amplo espaço do museu para a guarda de coleções e estudo de história natural. Então o Museu Paulista vai durante várias décadas ser a principal instituição do estado de São Paulo dedicada aos estudos de botânica, zoologia, mineralogia.

    SAMUEL: O Paulo me explicou que lá no começo o museu não era muito especializado e tinha vários tipos de coleções, o que era bem comum nos museus de países americanos. Enquanto isso na Europa, as instituições já eram mais direcionadas ou para história natural, ou para história da arte, ou para história política.

    SAMUEL: E aí muito do perfil do Museu Paulista foi sendo construído pelo contexto político do país e também pelo perfil dos diretores que entravam.

    PAULO: Então, nosso primeiro diretor, que é um malacólogo né, um especialista em moluscos chamado Hermann von Ihering… era um alemão e que foi escolhido pelas autoridades republicanas para ser diretor do Museu Paulista justamente porque as autoridades queriam imprimir um caráter privilegiadamente de museu de história natural. Portanto, ele foi o primeiro escolhido por conta desta nova destinação que o prédio e que o próprio museu deveria ter na sua caracterização nessa aurora do regime republicano.

    PAULO: A partir de 1917, no entanto, houve uma decisão de converter o Museu Paulista progressivamente num museu cada vez mais, não é, um museu histórico. E isso fará com que seja nomeado então o primeiro historiador pra dirigir o museu, que é Afonso d’Escragnolle Taunay, e o Taunay será o grande responsável por firmar no museu a sua característica de museu histórico.

    SAMUEL: O Taunay, que foi professor da USP lá no comecinho da universidade, ficou como diretor até 1945, e logo depois entrou o Sérgio Buarque de Holanda, também historiador, e que dispensa apresentações.

    SAMUEL: O Paulo contou pra mim que o museu sempre foi próximo da USP, e que por um bom tempo ele foi visto como um órgão complementar dela. Foi só em 1963 que ele foi oficialmente incorporado à universidade.

    PAULO: Desde 63 os nossos diretores foram necessariamente todos professores da Universidade de São Paulo, característica essa que nós mantemos até hoje.

    SAMUEL: E foi na gestão de um desses professores, o Ulpiano Bezerra de Meneses, nos anos 90, que o Museu Paulista passou a ser um museu exclusivamente histórico, com foco na história do estado de São Paulo.

    SAMUEL: Durante toda a sua trajetória, o museu foi ganhando a cara que tem hoje – uma instituição de referência, com várias atividades de ensino, de pesquisa e de extensão. Então eu fiquei curioso pra entender como é que foram os impactos sobre tudo isso desde que o prédio-sede foi interditado.

    PAULO: Desde que foi então detectado né,

    o problema estrutural, e a nossa diretora professora Sheila Walbe Ornstein, naquele momento nossa diretora tomou uma decisão acertadíssima, não é, de interditar o prédio e de iniciar o processo que nós nos encontramos até hoje. O prédio passou a perder então muitas atividades que aconteciam lá dentro, a administração do prédio já não estava mais lá inclusive né, por uma questão de espaço, mas os laboratórios, as reservas técnicas, as atividades de aulas e as atividades educativas passaram a ser exercidas em imóveis que nós alugamos, por meio de recursos da Universidade de São Paulo, no entorno do museu.

    SAMUEL: O que a população mais lembra de um museu são as suas exposições, mas pra que elas aconteçam tem todo um processo de trabalho que tem que vir antes. Os acervos precisam ser conservados, restaurados, catalogados, estudados, enfim, é muito suor e esforço ali nos bastidores. E nada disso parou de acontecer depois que o prédio foi interditado.

    PAULO: Todas essas atividades estão sendo realizadas, não é, desde a interdição, com continuidade, não é, então o museu na verdade jamais ficou parado, não é, ele jamais ficou fechado, aliás eu diria que foi o período em que nós mais trabalhamos, não é, justamente pra planejar, em primeiro lugar, a ocupação dessas casas, o mobiliário pra recebimento de acervos nessas casas… depois, um trabalho que foi extremamente importante no nosso país também, inédito, que foi a transferência, né, de cerca de cento e cinquenta mil itens de acervos que foram acumulados num prédio durante centro e trinta anos aproximadamente e que nós tivemos que retirar em dois anos…

    SAMUEL: Outro trabalho que a equipe fez nos últimos anos foi definir as necessidades do museu pro futuro, e foi com base nisso que os arquitetos elaboraram o projeto da reforma, que começou faz pouco tempo. Até 2022 a sede vai ter uma grande área ampliada no subsolo e a toda a área principal do prédio vai ser revitalizada e usada só pras exposições – serão 39 salas que vão cobrir vários temas da história do Brasil e de São Paulo.

    SAMUEL: Essa obra é fruto de uma parceria entre a reitoria da USP, o governo do estado de São Paulo e mais de 15 patrocinadores públicos e privados, e o Paulo me contou que esse esforço tem a ver também com um aumento de sensibilidade da sociedade depois do incêndio do Museu Nacional no Rio.

    PAULO: Porque as perdas foram realmente muito fundas, e isso acentuou a necessidade de que a população e as autoridades públicas e as entidades privadas se movimentassem para a recuperação do Museu Paulista. É o lado, que nós podemos dizer, positivo, não é, que uma tragédia daquela dimensão pode gerar, as populações acordam, não é, para o perigo que é aqui no Brasil ou fora daqui – é o caso de Notre Dame de Paris também – enfim, o patrimônio ele sempre deve ser zelado com o maior cuidado porque obviamente ele sempre está em risco.

    PAULO: Então eu acho que nós precisamos aprender a construir caminhos, não é, para… a valorização das nossas exposições, das nossas instituições, e isso pede um esforço redobrado das próprias equipes, e acho que quando a gente consegue, não é, criar realmente um patamar importante de discussão pra sociedade, a sociedade já está pronta pra nos apoiar.

    SAMUEL: O podcast fica por aqui, e se você gostou e não quer esperar até 2022 pra visitar o novo Museu Paulista, pode acessar o site www.mp.usp.br e saber mais das atividades e exposições que estão acontecendo em outros espaços. Ah!, e tem também o Museu Republicano de Itu, que é uma extensão do Museu Paulista e continua funcionando normalmente.

    SAMUEL: O roteiro, a narração e a edição deste podcast foram feitos por mim, Samuel Ribeiro, como uma produção do curso de Jornalismo Científico do Labjor – Unicamp. As músicas usadas são do site Blue Dot Sessions. Até a próxima!

    ***

    Gostou do programa? Você pode nos seguir no Facebook (facebook.com/oxigenionoticias – tudo junto e sem acento), no Instagram (@radiooxigenio) e no Twitter (@oxigenio_news).

    Conta pra gente o que você achou do programa. Deixe sua crítica ou comentário na plataforma que ouve o podcast. Até o próximo episódio!

    ***

    Créditos de som

    “Waltz and Fury” by Macrame. Blue Dot Sessions (https://www.sessions.blue/).

    “Tanguedo” by Union Hall. Blue Dot Sessions (https://www.sessions.blue/).

    “When in the West” by Landsman Duets. Blue Dot Sessions (https://www.sessions.blue/).

    “Foyer of National Museum, Copenhagen”. BBC (http://bbcsfx.acropolis.org.uk/).

    “Incêndio de grandes proporções destrói o Museu Nacional, no Rio de Janeiro”. Domingo Espetacular, Record (https://www.youtube.com/watch?v=YUWpG3fADNA).

    “Incêndio destrói Museu Nacional no Rio de Janeiro”. Euronews (https://www.youtube.com/watch?v=jUhe5stSu-o).

    14 min
  • #82 Temático: Reinventando Moda

    Neste episódio temático número 82 falamos sobre como a cultura do consumo, que introduziu no nosso cotidiano objetos cada vez mais baratos e descartáveis, e cada vez mais rápido, tem nos influenciado a adquirir e usar muito mais do que precisamos. Também falamos sobre algumas iniciativas e movimentos que incentivam um consumo mais consciente – como o Desapegue, a Mapeei e o Instituto Ecotece . Os padrões desse tipo de consumo no Brasil também são abordados no programa, a partir dos resultados de uma pesquisa realizada pelo Instituto Akatu. 

    A narração desse episódio foi de Natália Flores e Gustavo Campos. Produção, roteiro e entrevistas de Natália Flores, Júlia Ramos, Oscar Xavier de Freitas Neto e Camila Cunha. A revisão do roteiro foi feita pela Simone Pallone e pela Camila Cunha.

    As trilhas são do Youtube Audio Library e foram escolhidas por Oscar Xavier de Freitas Neto. A coordenação é da professora Simone Pallone, do Labjor, e os trabalhos técnicos de Gustavo Campos e Octávio Augusto, da Rádio Unicamp.  

    Deixe seu comentário contando para a gente o que achou do episódio. Você pode mandar sugestões também pelo Twitter (@oxigenio_news), Instagram (@oxigeniopodcast) e Facebook (/oxigenionoticias). Se preferir, envie um e-mail para [email protected].

     

    24 min
  • #82 Temático: Reinventando Moda
    Neste episódio temático número 82 falamos sobre como a cultura do consumo, que introduziu no nosso cotidiano objetos cada vez mais baratos e descartáveis, e cada vez mais rápido, tem nos influenciado a adquirir e usar muito mais do que precisamos. Também falamos sobre algumas iniciativas e movimentos que incentivam um consumo mais consciente – como o Desapegue, a Mapeei e o Instituto Ecotece . Os …
    24 min
  • #81 Temático: Quando o aplicativo é seu chefe

    Neste Oxigênio Temático número 81, nossos repórteres mostram uma nova categoria de trabalho, mediada por aplicativos de celular, que colocam os trabalhadores em uma grande fragilidade em relação a direitos trabalhistas e proteção. O fenômeno que tem sido chamado de “Uberização”, por ter nessa plataforma de transporte um ícone dessa nova forma de precarização do trabalho, mas é observado em outros setores da economia.

    A produção, roteiro e as entrevistas deste episódio são de Rafael Revadam e Samuel Ribeiro. Foi apresentado por Luciane Borrmann e pelo Samuel Ribeiro.

    As trilhas são da Youtube Audio Library e do site Blue Dot Sessions, e foram escolhidas por Paula Gomes e Samuel Ribeiro. A revisão do roteiro é de Natália Flores. A coordenação é da professora Simone Pallone, do Labjor, e os trabalhos técnicos de Gustavo Campos e Octávio Augusto, da Rádio Unicamp. A arte é de Luisa Kanashiro Gebara e a divulgação nas redes sociais de Helena Ansani.

    Você pode acompanhar o Oxigênio nas redes sociais. Estamos no Facebook, (facebook.com/oxigenionoticias), no Instagram (oxigeniopodcast) e no Twitter (@oxigenio_news).

    E você também pode deixar a sua opinião sobre este episódio e sugerir temas para os próximos programas. Basta deixar o seu comentário na plataforma de streaming que utiliza.

    Até a próxima!

     

    Passageiro: Opa, Ademir, boa noite.

    Motorista: Samuel né?
    Passageiro: Tudo bem?
    Motorista: Vai pra onde?
    Passageiro: Lá perto do Mackenzie… tudo bem?

    Samuel Ribeiro: Se você já usou algum aplicativo de transporte, como Uber ou 99, esse foi um diálogo fácil de reconhecer. Todos os dias, milhões de pessoas pelo mundo usam o celular para  chamar corridas que costumam ser mais baratas e mais práticas que os táxis convencionais.

    Luciane Borrmann: É um mercado que movimenta muito dinheiro. Dados da Uber do ano passado mostraram que, só no Brasil, já eram mais de 22 milhões de usuários e 600 mil motoristas cadastrados.

    Samuel: E isso é só em um aplicativo. Os números aumentam se juntarmos os outros e também as plataformas de entrega de produtos, como o iFood e o Rappi. Essas novas formas de consumir e de trabalhar são cada vez mais comuns e têm mudado nosso cotidiano.

    Luciane: Mas como funciona a relação de trabalho entre os motoristas e essas plataformas? Para muitos pesquisadores, essa nova modalidade de prestação de serviços traz um quadro de precarização do trabalho no país. É o que explica a socióloga Ana Claudia Moreira Cardoso, professora da Universidade Federal de Juiz de Fora.

    Ana Claudia Moreira Cardoso: A gente tem vários tipos de trabalhos hoje em dia que são mediados por plataformas. Agora, se a gente pega o trabalho material por demanda, qual a principal característica? É que essas empresas se colocam como se elas não fossem empresas empregadoras. Elas se colocam como se elas fizessem simplesmente a relação entre alguém que está  pedindo um serviço e alguém que está querendo vender o serviço. Por exemplo, a Uber, ou as plataformas de entrega. Elas falam: “não, eu não sou uma empresa de transporte, eu simplesmente sou uma empresa tecnológica que produz uma plataforma. Ponto final”. A partir do momento que ela se coloca desta forma, ela diz: “Bom, se eu não sou uma empregadora, quer dizer que não há trabalhador. Portanto, se não há empregador, se não há trabalhador, não há direito do trabalho.

    Samuel: A Uber e outras empresas do ramo chamam os seus trabalhadores de “parceiros cadastrados”. Na prática, essas pessoas não têm um salário fixo, limite de carga horária, décimo terceiro, férias e outros direitos comuns de profissionais em regime CLT.

    Samuel Ribeiro: Eu sou Samuel Ribeiro.

    Luciane: Eu sou Luciane Borrmann. E no Oxigênio de hoje vamos falar sobre Uberização, a precarização do trabalho que chegou com as plataformas digitais.

    Motorista: Eu fui um dia, levando uma passageira. Não lembro ao certo de onde, eu acho que foi ali no Centro. E aí, ali Avenida do Estado, a gente foi assaltado. Quer dizer, roubado. O cara quebrou o vidro do passageiro, da frente, sei lá de que jeito, não vi, eu só ouvi o barulho, tomei um susto. Quando eu fui ver, tinha metade de um corpo dentro do meu carro, o cara arrancou meu celular e foi embora. Isso com a passageira no banco de trás. Enfim, terminei a viagem com a menina, sem o telefone. Ela chegou lá, ela me botou pra dentro da casa dela, me deu um copo d’água e me deixou usar o telefone para que eu ligasse pra Vivo, pra bloquear a minha linha. Ela foi super gentil e escreveu uma carta pra Uber. Porque na hora que ela religou o celular, ela viu que a corrida dela havia sido cancelada. Quer dizer, o cara que pegou meu celular cancelou a corrida, não sei. E pedindo que eu fosse remunerado na íntegra pela viagem. Voltei para a minha casa sem o GPS, né? Sem o celular. Fui arrumar o vidro, fui comprar um telefone novo porque eu precisava continuar trabalhando e entrei em contato com a Uber dizendo que “olha, aconteceu isso, a passageira já entrou em contato com vocês e, por favor, entrem em contato como eu devo proceder. Vocês vão me ajudar? Existe aí algum tipo de seguro? Enfim… Cara, nada. Não teve um e-mail, não teve uma ligação, não teve um WhatsApp, nada.

    Samuel: Com a expansão do Uber e dos trabalhos prestados para plataformas digitais, surgiu uma nova nomenclatura: a Uberização. A gente pediu pra Ana Claudia explicar o que significa essa palavra.

    Ana Claudia: De uma forma geral, a gente tem usado “uberização” como significado de precarização do trabalho. Por isso que muitas vezes a gente usa esse termo mesmo quando nós não estamos falando do trabalho mediado pela plataforma digital Uber. A gente sempre teve um trabalho precário no Brasil, então a gente sempre teve uma parte da população que foi inserida de forma muito precária. E agora, depois de 2016, sobretudo depois da Reforma Trabalhista, aí nós tivemos um processo de precarização, ou seja, um mercado de trabalho que já era precário, ele passa a ficar mais precário em função da Reforma Trabalhista e, por outro lado, você tem o que a gente chama de desenvolvimento de uma sociedade digital onde várias das novas interações, das nossas interações, passam a ser mediadas por plataformas digitais, e o trabalho é uma delas. Não teria nenhum problema o trabalho passar a ser mediado por uma plataforma digital, a questão é que como essas empresas de trabalho, elas estão se desenvolvendo justamente num contexto onde os direitos dos trabalhadores estão sendo destruídos, nós estamos falando das políticas neoliberais, da crise de 2008. Então, essas empresas estão se aproveitando para entrarem no mercado de trabalho e entrarem precarizando totalmente as relações de trabalho.

    Luciane: A relação de trabalho praticamente inexistente com as plataformas digitais fez com que motoristas começassem a questionar quais eram os seus direitos nesta relação profissional. A gente conversou com o Paulo Castro, que é advogado trabalhista e viu a necessidade de se especializar nestas novas dinâmicas após a procura de diversos trabalhadores “uberizados”.

    Paulo Castro: A minha demanda maior é que o motorista me procura porque ele simplesmente saiu da plataforma né, de aplicativos, sem nenhuma justificativa, através de e-mail, sem nenhum aviso prévio, e muitas vezes eles financiaram carros, pra poderem estar trabalhando, e eles acham isso muito injusto porque eles nunca tiveram nem oportunidade de defesa, não sabem muitas vezes nem o motivo do porquê saíram. Nisso eles já foram pros escritórios das empresas, já conversaram no escritório, ninguém dá resposta pra eles, então eles me procuram, com o objetivo já de entrar com uma demanda judicial, pra tentar resolver isso. Pra entrar com ações de reintegração dos motoristas.

    Motorista: Não é uma opção, não é uma escolha de carreira. “Ai, meu sonho é ser motorista de Uber”. O cara está lá porque não tem outro jeito. Ou, no meu caso, como me vi forçado a complementar a minha renda. Então, tem esses perrengues aí para o motorista. O desgaste do carro, a depreciação do carro, o valor do seguro dobra, então isso tudo… E a Uber leva 25%, leva ¼ da sua renda. É demais, eu acho muito.

    Samuel Ribeiro: Além da ausência de direitos, é comum a estes profissionais de plataforma cumprirem jornadas de trabalho acima de 12 horas diárias. Para Ana Claudia, com descontos cada vez maiores sobre as viagens, os motoristas passam a extrapolar seus limites físicos para fazer o dia valer a pena.

    Ana Claudia: As pessoas, 99,9%, não trabalham a mais porque elas querem. Elas trabalham a mais porque elas precisam ganhar mais. As pessoas não fazem hora extra, trabalham sábado e domingo, porque elas gostam de não ter tempo com a família, de não ter tempo de lazer, de não ter tempo de descanso. Elas trabalham a mais porque elas precisam ganhar mais. Quanto menor a renda, maior é a tendência das pessoas trabalharem a mais. No caso do Brasil, se a gente olha os dados da pesquisa de emprego e desemprego realizada pelo Dieese, se a gente olhar de todos os trabalhadores que realizam hora extra, os que realizam mais são os trabalhadores do setor de comércio. E o que significa? É porque os trabalhadores do setor de comércio têm uma renda menor. Então, esses trabalhadores de plataforma, eles trabalham muitas horas porque o que eles recebem por hora é muito pouco. Porque, claro, não tem nenhuma legislação, a empresa coloca o valor que ela quer, nós estamos em um momento de crise econômica, então muitas pessoas estão perdendo o emprego, tanto é que quando a gente faz hoje entrevistas com empregadores ou com motoristas do Uber, eles dizem que o que eles recebem por hora reduziu muito o valor, e que eles têm menos clientes. Claro, porque você tem mais gente na situação de desemprego, e numa situação de sub-ocupação, que então vai para as plataformas; Quanto maior o número de trabalhadores nessas plataformas, menos esses trabalhadores vão ganhar. Então, esses trabalhadores passam a exercer uma carga horária cada vez maior para conseguir ter o mesmo rendimento no final do mês.

    Motorista: Bom, a minha rotina é de no mínimo 12 horas de trabalho diária, tem que começar já deixar o carro super limpo. É… dá bastante trabalho, porque o tempo que eu não tô dirigindo, eu tô limpando o carro, me preocupando a cada viagem pra deixar o carro limpinho, tirando todos os risquinhos dos tapetes, tirando marca de pedra da soleira das portas, dos bancos, e é uma coisa muito tensa, porque qualquer coisinha você já pode tirar uma classificação ruim, e a sua nota cair.

    Luciane: Para o motorista de aplicativo, cada decisão tomada em prol do seu trabalho é uma decisão individual. Além da ausência das plataformas digitais,

    estes profissionais também lidam com um abandono governamental, como revela o advogado Paulo Castro.

    Paulo: O Estado brasileiro, ele entendeu recentemente através da lei federal que o motorista de aplicativo, ele não é um empregado, ele não é… ele é um motorista autônomo que presta serviço pra uma empresa de aplicativo de celular. Então ele tem que contribuir sozinho pra previdência dele. Todos os direitos básicos de um trabalhador comum, ele não tem esses direitos. E existe muita injustiça dentro dessa lei federal. Um dos pontos dessa lei é que quem

    precifica o valor da corrida nunca é os motoristas. Então, não há autonomia pros motoristas. Mesmo assim, eles estão enquadrados numa lei federal, e isso causa vários problemas, como por exemplo a justiça cível, que hoje julga os casos dos motoristas, em vez da trabalhista. Existe muitos julgados na trabalhista improcedentes, até devido à existência da lei federal. E existe aí um
    limbo jurídico sobre o direito dos motoristas. Porque eles não se enquadram como autônomo, mas também muitas vezes não têm todas as características de um empregado celetista.

    Samuel: Paulo explica, que apesar da quantidade significativa de processos movidos por motoristas, a justiça brasileira nem sempre se mostra preparada para entender essa realidade.

    Paulo: O meu ponto principal é que muitos juízes eles não observam a questão da urgência. Eu sempre peço tutela antecipada, uma tutela de urgência, pra que o motorista seja reintegrado no decorrer do processo, porque ele e a família dele dependem dessa renda, por mais precária que seja essa renda, por mais que muitas vezes essa renda não chegue a dois salários mínimos. Mas, eles dependem dessa renda, e os juízes não observam essa questão e eles, simplesmente, eles negam a tutela, querem ouvir as empresas, e isso é um dos grandes problemas, porque ele procura como última instância o Judiciário porque ele está desassistido, porque as empresas não fazem nenhum acordo administrativo, as empresas simplesmente nem dizem o porquê que o motorista saiu, e o Judiciário, por outro lado, não entende que aquele motorista, no decorrer do processo, precisa estar trabalhando.

    Motorista: Então a rotina é no mínimo 12 horas de trabalho, praticamente todos os dias, e a gente não pode trabalhar muito mais que isso senão a gente fica cansado e pode causar um acidente, tanto pra gente e prejudicar o passageiro. E… tem dias que eu chego a trabalhar 16, 17 horas, mas pra ganhar mais ou menos uns 200 e poucos reais, aí você desconta o combustível dá no máximo 150 reais por dia. Isso sem contar o desgaste do carro, a

    desvalorização do seu bem passivo, é… despesa de lavagem, manutenção, troca de pneu, IPVA, licenciamento, seguro. Se você considerar todas as outras despesas, não valeria a pena mesmo essa atividade.

    Paulo: Muitas vezes, em redes sociais, eu observo que as pessoas não querem que os motoristas tenham direitos básicos, e esse direito básico é o direito de um trabalhador comum. É um direito que vai garantir uma melhor segurança, inclusive pro passageiro. Porque quem trabalha 70 horas semanais, ao chegar a partir das 40 horas dirigindo existe um grande risco de acidentes. E, por outro lado, nós temos companhias que pretendem melhorar a vida das pessoas, mas elas estão sendo muito negligentes, estão visando muitas vezes apenas a questão econômica em vez da questão social. E o Judiciário brasileiro ele precisa intervir urgentemente, assim como a academia já está observando isso, e eu creio até que esta é a causa da década.

    Samuel: Para a socióloga Ana Claudia Moreira Cardoso, uma legislação adequada aos profissionais das plataformas digitais somente virá se a sociedade entender a precarização que este setor vive, e como ela prejudica a vida de cada um, motoristas, entregadores, consumidores e passageiros.

    Ana Claudia: Eu acho que a situação não muda se as pessoas não reagem. Então, eu não estou querendo dizer que a gente não reage, pelo contrário, quando a gente olha a história do Brasil, a gente vê que a sociedade civil, os movimentos de causa, os movimentos sociais são muito ativos, estão sempre ali na luta; Então, acho que é a necessidade de uma continuidade dessa luta. Porque a legislação não cai do céu, a legislação é exatamente um resultado de uma correlação de forças. Se tem uma lei, tem porque há uma pressão social. Agora, é uma disputa difícil, porque esse governo, ele vem, ele destrói o Ministério do Trabalho, ele faz uma legislação que precariza, ele reduz o salário mínimo. Agora a gente está numa discussão porque ele está destruindo todas as NRs, NRs são normas regulamentadoras do trabalho, são as normas que regulamentam as condições para que os trabalhadores não adoeçam. Então, agora o governo está destruindo todas as normas regulamentadoras. É muito à frente o que esses movimentos têm que lidar. E eu acho, uma coisa que dificulta ainda um pouco mais essa questão do trabalho via plataforma é porque eu acho que as pessoas, de uma forma geral, elas estão naturalizadas. Elas falam “poxa, agora tudo acontece via plataforma”; Eu vou fazer uma pesquisa, é via plataforma. Eu vou fazer uma compra, é via plataforma. As minhas relações de amizade é via plataforma. Qual é o problema do trabalho ser via plataforma? E as pessoas não param pra refletir, muitas vezes elas nem sabem, que aquele trabalhador que lá está não tem nenhum direito. Então, eu acho que a gente tem que fazer, como sociedade, como academia, como movimento sindical, é explicitar essa situação, é mostrar para a sociedade o quanto esses trabalhadores estão precários, o quanto a situação deles é insegura, o quanto eles têm uma remuneração baixa e o quanto essas pessoas que usam o táxi correm risco, porque se esses trabalhadores continuarem a trabalhar 12, 14, 16 horas, todos nós corremos o risco. Os trabalhadores, claro, mas os passageiros também.

    Músicas

    “Fresno Alley” by Josh Lippi & The Overtimers. Youtube Audio Library (https://www.youtube.com/audiolibrary).

    “No Good Right” by Freedom Trail Studio. Youtube Audio Library (https://www.youtube.com/audiolibrary).

    “Wisteria” by The Contessa. Blue Dot Sessions (https://www.sessions.blue).

    Imagem da capa

    Matheus Bertelli – https://www.pexels.com/@bertellifotografia

    23 min
  • #81 Temático: Quando o aplicativo é seu chefe
    Neste Oxigênio Temático número 81, nossos repórteres mostram uma nova categoria de trabalho, mediada por aplicativos de celular, que colocam os trabalhadores em uma grande fragilidade em relação a direitos trabalhistas e proteção. O fenômeno que tem sido chamado de “Uberização”, por ter nessa plataforma de transporte um ícone dessa nova forma de precarização do trabalho, mas é observado em outros setores da economia. A …
    23 min
  • #80 Oxilab: IA’rte: Inteligência Artificial nas Artes

    Nesta edição de número 80 do Oxilab foi pensada especialmente pra você que curte inteligência artificial, que quer saber mais sobre o assunto. E, óbvio, vai contribuir muito também pra você que ainda não está bem familiarizado, mas que percebe que a IA está cada vez mais presente na sua vida.

    Antes da gente começar a falar propriamente do uso de IAs na Arte, vamos recordar um pouquinho – o que significa Inteligência artificial? O termo que parece ter se popularizado recentemente não é algo tão novo assim.  A primeira vez que falaram de Inteligência Artificial foi em 1956, em uma conferência que reuniu vários cientistas nos Estados Unidos. E, quem esteve por lá foi o cientista da computação John McCarth. Ele é o cara que criou a linguagem de programação conhecida por Lisp. A Lisp se tornou a principal linguagem de programação da comunidade de Inteligência artificial. De lá para cá, já se passaram sessenta e três anos, fizemos uma longa viagem no tempo, cheia de processos, mudanças e aperfeiçoamentos… agora estamos em 2019, e precisamos entender – o que é IA?

    Então, para entender melhor esse conceito vamos imaginar aqui junto comigo…

    Quando nós pensamos acionamos processos lá no nosso cérebro, certo?! a todo momento a gente interpreta coisas no nosso quotidiano e, até certa medida, seria o mesmo que dizer que processamos informações. Se por exemplo, a gente for atravessar uma rua e nela passam vários carros, interpretamos que ali existe um fluxo de tráfego e, por isso, precisamos calcular mais ou menos o intervalo de tempo que demoraremos para chegar do outro lado dela.  Caso contrário, a gente pode ser atingido por algum veículo, … e óbvio, isso não seria bom.

    Agora vem a sacada para entender a IA…

    Muito provavelmente a gente só sabe que deve ter essa atenção ao atravessar a rua, porque alguém em algum dia nos alertou sobre esse risco. Ou seja, alguém nos deu essa informação. É mais ou menos esse o funcionamento que constitui a Inteligência Artificial. Ela não interpreta como nós, mas processa informações e calcula dados que são inseridos nela pelo programador – quando falo de programadores, me refiro a essa galera aí que desenvolve pesquisa na área da IA, que criam os algoritmos, que nada mais são do que verdadeiras “receitas de bolo”. Por falar em algoritmo, esse termo se encontra ligado diretamente à IA, mas é um assunto que trataremos em outra edição.  Voltando ao que compreendemos sobre IA, a inteligência artificial é uma espécie de imitação do nosso cérebro, sem influência dos nossos sentimentos. Como já cantava Gilberto Gil, “o cérebro eletrônico faz tudo, quase tudo” e é este “quase” o que diferencia a inteligência artificial da nossa de seres humanos.

    O fato é que o uso de inteligência artificial (as IAs) nas Artes é uma prática cada vez mais comum. E quando eu falo de obras de arte realizadas por IAs, me refiro às pinturas, como a Mona Lisa, de Leonardo Da Vinci. Estou certo que você, ouvinte, já viu pelo menos a réplica do quadro da Mona Lisa, não é mesmo? Agora imagine que Da Vinci não tivesse utilizado pincel, nem tinta e nem quadro branco na produção da Mona Lisa, mas tivesse usado uma Inteligência Artificial. Conseguiu imaginar. Sim! Ou ainda não?

    Tudo bem! então, fique ligado no episódio de hoje. Vamos falar sobre IA’rte, lembrando que este é um termo que eu criei carinhosamente para me referir a arte feita com IA, ou seja, IA’rte. Nessa prática, o artista troca o pincel pelo teclado, a tinta é o algoritmo e a tela branca é substituída pela tela do computador. E agora, ficou mais fácil de entender não é mesmo?! Então vem comigo que a gente vai junto descobrir mais desse universo, onde as cores da ciência são organizadas pela relação zero e um.

    HistórIA

    O pesquisador Fabrizio Poltronieri realizou uma palestra na Unicamp sobre Inteligência Artificial e Criatividade. Ele é professor na Universidade Pública De Montfort, localizada na cidade de Leicester, na Inglaterra. Apesar de ser um assunto que levanta polêmica, o pesquisador considera o pintor Harold Cohen o primeiro artista a usar IA na arte. Segundo Fabrizio, o pintor começou a usar a IA no processo artístico já  em 1960. Então, a gente já pode calcular a partir da informação que eu dei anteriormente, que quatro anos é o intervalo do tempo que corresponde o espaço entre a conferência científica que marcou o uso do termo Inteligência Artificial e a primeira vez que alguém usou da IA para fazer Arte, datado em 1960. O artista Harold Cohen desenvolveu um programa computacional que cria imagens artísticas originais. Durante sua palestra, o professor Fabrizio explicou como ocorre essa produção de arte de maneira autônoma…

    “O conhecimento de como isso acontece só é possível através de um pensamento computacional também, um pensamento que se coloca a partir do deciframento de códigos, no caso, códigos computacionais. E eu acho, na verdade, que os códigos são sempre sistemas simbólicos que operam na interseção entre cognição e realidade. Porque os aparelhos, porque os códigos computacionais eles não emulam realidades, mas sim projetam novas realidades sobre o mundo. E esse também é um esclarecimento que quando você vê o artista trabalhando com essas tecnologias, que você pode através dela projetar novas realidades sobre o mundo da cultura, sobre o mundo humano, as coisas se tornam muito mais claras”.

    Segundo o pesquisador tem se tornado cada vez mais comum encontrar pinturas realizadas com a ajuda de IAs. Então, acredite, qualquer dia desses você pode estar visitando uma exposição por aí e se deparar com algo do tipo. Mas, essa não é apenas uma via de mão única, isso porque alguns artistas não concordam com esse modelo como arte, pelo menos é o afirma Fabrizio Poltronieri…

    “A questão do campo da arte em específico, ao meu ver, é que os artistas ainda pensam a arte como algo intrinsecamente humano, que os humanos têm capacidade de criar arte e que os computadores ainda são elementos alienígenas a isso. Historicamente, nunca foi bem resolvida a inclusão do computador no universo da arte”.

    Favorável ao uso de IA’s no processo criativo, durante uma palestra que realizou na Unicamp, o professor explicou como tem trabalhado esse processo que une arte e tecnologia lá na Inglaterra, escuta só…

    “No nosso instituto nós trabalhamos não somente com a Arte, mas com o uso criativo de computadores, como em todas as outras áreas, engenharia, medicina, arquitetura. E, na verdade, a IA não encontra tanta resistência nas outras áreas.  Porque ela é vista como um aparato técnico, que pode ajudar aos processos que as pessoas precisam fazer, como a identificação de tumores e de resistência de matérias”.

    A pic two pix e a cat two pix são exemplos de duas ferramentas que você pode utilizar para produzir arte usando a IA. Nelas, você desenha um rosto de animal ou de uma pessoa e elas usam de uma rede neural para criar uma imagem que parece uma pintura a óleo. É como se você desenhasse no paint, que é um software simples que tem em qualquer computador, e esse rabisco que você fez, depois de passar pelo processamento da IA, aparecesse pronto na InDesiner, que é um software de edição de imagem profissional. Ou seja, apesar de melhorar consideravelmente aquela imagem que você fez, essas ferramentas não fariam os desenhos sozinhas, pelo menos não por enquanto. É o que confirma o professor…

    “Esses sistemas eles devem ter uma espécie de memória e que essa memória possa ser reutilizada criativamente para trazer dados, informações novas ao mundo da cultura, ao mundo humano. E, é exatamente esse aspecto criativo que ainda falta a esse sistema. E, mais, o que eu acredito é que, é impossível ou praticamente impossível que esse sistema se torne criativo por si mesmo. Isso quer dizer o quê? Quer dizer que esses sistemas embora sejam e vão continuar sendo cada vez mais autônomos, ou seja, cada vez mais independentes da vontade humana e da presença humana, eles vão necessitar cada vez mais do homem. Vão precisar cada vez mais da presença humana nos processos para que eles sejam realmente criativos”.

    Muito possivelmente você conhece alguém, seu pai ou sua mãe por exemplo, que faz aquela comida maravilhosa, não é mesmo?! Basta você provar que você logo agradece dizendo que esse prato tá uma verdadeira obra de arte e que ninguém no mundo faz algo igual. É mais ou menos nesse sentido que surge uma das principais críticas à inteligência artificial nas Artes. Os artistas que se contrapõem ao uso da IA, alegam a falta de subjetividade artística nas pinturas, ou seja, aquele toque pessoal de cada artista. E você, o que acha disso?  O pesquisador Fabrizio discorda dessa falta de subjetividade e explica o porquê…

    “Esse é um componente muito forte, porque eles não veem como o computador pode, de certa forma, ser subjetivo. O que também remete a minha pesquisa de doutorado, com o conceito de acaso. Quando eu falo que os computadores são aparelhos culturais… Ora! Eles sendo aparelhos culturais, estando dentro, integrados e permeando o conjunto da sociedade também estão sujeitos a diferentes níveis de subjetividades. Mesmo que possa se alegar de que o computador, em si, não tenha subjetividade. O computador não existe como sistema isolado, ele existe em um ambiente de cultura humana e, por isso, está diretamente sujeito a processos subjetivos, à subjetividade”.

    O que Fabrizio coloca é que a máquina funciona como uma extensão do corpo humano, assim como o corpo pode ser considerado uma extensão dessa máquina. Se a gente observar um pouco da história vamos perceber que a tecnologia sempre esteve presente e influenciando nas relações do ser humano com o mundo. A gente pode pensar, por exemplo, o ser humano no período conhecido como Idade da Pedra. Naquela época nossos antepassados começaram a criar suas primeiras ferramentas, aquilo era a tecnologia da Pré-história que passou afetar a construção e constituição do ser humano.

    “Eu não vejo, e isso eu explorei na minha Tese de Doutorado, uma distinção de forma de ruptura entre o computador e o homem. Pelo contrário, considero dois tipos de mentes: existem processos mentais no computador assim como existe a mente humana. A questão é que, a mente que existe no computador é de uma outra natureza, não é tão plástica como a mente humana. Então, acredito que os dois são interligados semioticamente, no sentido que eles trocam constantemente signos, símbolos, índices. Agora, a questão é de aceitação nesse campo específico da Arte, ter os sistemas computacionais como algo que possam auxiliar nos processos criativos”.

    E não custa nada explicar que uma prática não anula a outra, não é mesmo?! Uma pintura feita com a ajuda de uma inteligência artificial não é melhor e nem pior do que uma pintada com o pincel feita pelo humano, pelo simples fato de nem tudo que é diferente necessariamente é discordante ou está em embate. São apenas processos distintos.

    E, aí, o que você acha de tudo isso? Legal não é!? Mande sua opinião sobre o assunto nas nossas redes sociais… não sabe ainda onde encontrar o Oxigênio? Você pode nos seguir no Facebook (facebook.com/oxigenionoticias – tudo junto e sem acento), no Instagram (@radiooxigenio) e no Twitter (@oxigenio_news). E se gostou do tema de hoje, se quer saber mais sobre a influência da Inteligência Artificial nas relações sociais, avisa pra gente.

    A produção e o roteiro e a revisão desse episódio são da Camila Cunha e Inácio de Paula. O programa foi apresentado por mim, Inácio de Paula.

    A entrevista é de Inácio de Paula com gravação feita por Camila Cunha da palestra Inteligência Artificial e Criatividade. A coordenação da professora Simone Pallone, do Labjor e os trabalhos técnicos de Gustavo Campos, e Octávio Augusto, da Rádio Unicamp.

    E, por último, porém não menos importante, se você acha que a inteligência artificial já realiza funções de arrepiar o cabelo… eu deixo aqui uma mensagem para que você fique pensando até nosso próximo encontro. Se a gente for traçar uma linha histórica paralela a do ser humano, tendo na outra o ponto de partida o potencial de desenvolvimento da Inteligência artificial – que ainda vai ser explorado, saiba que podemos pensar que a IA ainda não saiu do seu período Pré-histórico.

    E não esquece de me contar o que você achou do programa. Deixe sua opinião ou comentário na plataforma que ouve o podcast. Até o próximo episódio!

    17 min
  • #80 Oxilab: IA’rte: Inteligência Artificial nas Artes
    Nesta edição de número 80 do Oxilab foi pensada especialmente pra você que curte inteligência artificial, que quer saber mais sobre o assunto. E, óbvio, vai contribuir muito também pra você que ainda não está bem familiarizado, mas que percebe que a IA está cada vez mais presente na sua vida. Antes da gente começar a falar propriamente do uso de IAs na Arte, vamos …
    17 min
  • #79 Temático: À sombra da floresta
    Os Sistemas Agroflorestais misturam na mesma área culturas agrícolas e espécies arbóreas. A planta de origem sul-americana, cultuada por Olmecas e Maias, adora sombra e água fresca. Na verdade, é à sombra da floresta, que o cacau cresce e frutifica.  No episódio #79, vamos até a região Amazônica conhecer dois produtores de cacau do tipo bean-to-bar: Dona Nena e Gustavo Sartori, que exploram essa forma …
    39 min
  • #79 Temático: À sombra da floresta

    Os Sistemas Agroflorestais misturam na mesma área culturas agrícolas e espécies arbóreas. A planta de origem sul-americana, cultuada por Olmecas e Maias, adora sombra e água fresca. Na verdade, é à sombra da floresta, que o cacau cresce e frutifica. 

    No episódio #79, vamos até a região Amazônica conhecer dois produtores de cacau do tipo bean-to-bar: Dona Nena e Gustavo Sartori, que exploram essa forma de plantio e criam seus próprios chocolates. Depois conversamos com Idalto Pereira, que deixou a pecuária para plantar cacau, e dois representantes do Projeto Cacau Floresta, iniciativa da ONG The Nature Conservancy, o Rodrigo Freire e a Thaís Maier. 

    No final, o pesquisador e engenheiro florestal Daniel Braga responde como o cacau ajuda a preservar florestas e a vida selvagem e a melhorar a qualidade de vida na zona rural. Uma viagem que nos leva às raízes da guloseima mais adorada do mundo: o chocolate!

    O roteiro e a produção é de Camila Cunha. Entrevistas de Camila Cunha, Luciana Rathsam e Oscar Freitas. Narração de Camila Cunha e Gustavo Campos. Revisão de Natália Flores e Allison Almeida. Música de Caroline Maia. Mídia social e divulgação de Paula Gomes, Oscar Freitas Neto, Helena Ansani e Luísa Kanashiro. Coordenação de Simone Pallone e trabalhos técnicos, Gustavo Campos e Octávio Augusto da Rádio Unicamp.

    Deixe seu comentário contando para a gente o que achou do episódio. Você pode mandar sugestões também pelo Twitter (@oxigenio_news), Instagram (@oxigeniopodcast) e Facebook (/oxigenionoticias). Se preferir, envie um e-mail para [email protected].

    Abaixo, a transcrição do episódio.

     

    música…

    Camila Cunha – Olá, Ouvinte! Bem-vindos! Hoje vamos falar sobre uma planta sagrada de frutos grandes, que está contribuindo para frear o desmatamento de florestas e restaurar áreas degradadas. A cultura também aparece para agregar valor e melhorar a qualidade de vida de agricultores familiares. Você está achando que se trata de uma planta milagrosa? Arrisca um palpite sobre que planta é essa? Aqui vão mais algumas dicas. É uma planta de sombra e água fresca, encontrada naturalmente no sub-bosque de florestas. Seus Frutos, além de serem consumidos a mais de 5.300 anos por nativos do continente americano, vão do amarelo ao roxo e dão nos galhos como jabuticabas, pensos como lanternas. De tão importante para a sociedade, Jorge Amado, um dos maiores nomes da nossa literatura, escreveu um romance dedicado a cultura, que se estabeleceu no sul da Bahia na década de 30. 

    música…

    Camila Cunha – Já sabe a resposta? Sim, estamos falando do cacau. Para antigas civilizações mesoamericanas, como os Olmecas e os Maias, os frutos do cacaueiro eram símbolo de poder social, econômico e político. Envolto em misticismo religioso, o cacau era o alimento dos deuses. Quando os espanhóis chegaram por aqui logo perceberam a magia dos frutos, que na Europa, no final da década de 1870, foram misturados a açúcar e leite pelas mãos engenhosas de suíços, produzindo a iguaria mais desejada do mundo, o chocolate.

    Gustavo Sartori – Se você degustar um chocolate Europeu, um chocolate Suíço, você vai perceber um forte sabor de leite. Eu costumo até dizer que o europeu achou no cacau uma maneira de vender o leite deles, né? E nós estamos tentando trabalhar uma maneira de vender o nosso cacau e não o nosso leite. 

    Camila Cunha – Quem fala é o Gustavo Sartori, produtor de cacau e chocolateiro no Estado de Rondônia, que vamos conhecer neste episódio. Os grandes fabricantes de chocolate usam muito açúcar e gordura em suas preparações, muitas vezes mascarando o sabor de amêndoas de cacau de baixa qualidade. Produzir uma boa amêndoa, que valha um chocolate amargo, exige um manejo rigoroso da cultura, com investimento, tecnologia e mão-de-obra capacitada. Vários produtores, como o Gustavo, estão produzindo e beneficiando amêndoas e criando os seus próprios chocolates, que levam no sabor a identidade nacional. É o caso também da Izete Costa, a Dona Nena, produtora de cacau e chocolateira na Ilha do Combú, que fica pertinho da capital Belém no Pará. 

    música…

    Camila Cunha – Apesar desses exemplos bem sucedidos de produtores independentes, a cadeia produtiva do cacau ainda tem muitos desafios, principalmente na África, onde estão os maiores produtores. Juntos, eles respondem por mais de 75 % das amêndoas produzidas no mundo. 

    música…

    Camila Cunha – Mas, nem tudo é doce na cultura cacaueira, pois ela se estabeleceu em meio a problemas ambientais e de ordem social. Segundo o Barômetro do Cacau do VOICE Network, publicado em 2018, 90 % das florestas nativas do oeste africano foram devastadas pela expansão de cacauais e mais de 2 milhões de crianças trabalham nas lavouras da Costa do Marfim e de Gana. No Brasil, estima-se que quase 8 mil crianças e adolescentes trabalhem nas roças de cacau, segundo dados de 2014 do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, o IBGE. Outro problema na produção de cacau é a frequente variação de preços pagos aos produtores. Mesmo em época de vacas magras, quando os preços do cacau estão baixos, os atravessadores e os beneficiadores das amêndoas / e os fabricantes e os revendedores de chocolate / sempre lucram, quem assume todos os riscos e, geralmente, perde, é o cacauicultor. A falta de poupança, seguridade social e crédito rural agravam ainda mais a situação.

    Gustavo Campos – Camila, espere um momento! Você está falando de aspectos negativos do cacau, e disse no início do programa que ele ajudaria a resolver questões ambientais urgentes… Como? 

    música…

    Camila Cunha – Eu sou Camila Cunha

    Gustavo Campos – E, eu sou Gustavo Campo. Neste episódio, vem com a gente conhecer dois produtores do tipo bean-to-bar, que na tradução literal significa, amêndoa-pra-barra, de chocolate claro, ou seja, produtores que trabalham verticalmente na cadeia produtiva. 

    Camila Cunha – Depois, falamos com dois responsáveis e um participante do Projeto Cacau Floresta, iniciativa da ONG The Nature Conservancy Brasil. E, por fim, o pesquisador Daniel Braga, responde a nossa pergunta: como o cacau ajuda no enfrentamento das questões ambientais urgentes no Brasil? Vamos?!

    vinheta de abertura…

    música…

    Dona Nena – Minha relação com o cacau começou muito cedo, ajudando a família a beneficiá-lo, fazendo colheita, quebra, fermentação e secagem. Minha família tinha o hábito de fazer o seu próprio chocolate, que era consumido somente pela família e o restante era passado para o atravessador. E, em 2003, mais ou menos 2004, comecei a participar de uma feira, onde eu entrei trabalhando com biojoias, mas vi que tinha potencial para outros produtos florestais. Então, eu comecei a fazer o chocolate caseiro, que era da família, e levar para feira, onde foi dando certo e aos poucos eu fui melhorando. 

    Gustavo Campos – Na feira, o chocolate da Dona Nena foi descoberto pelo chef paraense Thiago Castanho e ganhou fama passando a ser usado em seus restaurantes. Como parte presente de sua culinária, Thiago valorizou a forma artesanal de produção e o produto final.

    Dona Nena – Hoje nós produzimos em torno de 200 kg por mês de cacau e chocolate. A gente não tem como expandir tanto, porque nós não desmatamos para plantar o cacau. A gente aproveita espaços ociosos ou queda natural de árvores. O cacau, na Ilha [do Combú], é uma cultura nativa. Hoje a gente tá plantando novos pés para perpetuar a espécie, mas tudo que colhemos é um cacau vindo de um sistema agroecológico. Nós trabalhamos também outras culturas como o açaí, o cupuaçu, a pupunha… mas hoje para nós, ele é o carro-chefe. É o nosso manjar dos Deuses. O nosso chocolate, ele tem um diferencial que é da diversidade de plantas que rodeiam e soltam suas folhas, né? Para nutri-lo e para adubar as plantas, né? E, também, é um cacau diferenciado, de várzea, que é irrigado pelas marés. Eu acho que isso dá todo esse toque especial nele. 

    Camila Cunha –  O cacau é nativo da Amazônia. E, segundo arqueólogos, é bem provável que os povos nativos da região não cultivassem a espécie, como faziam com o milho e a mandioca, pela abundância das árvores encontradas na mata. Assim, como feito pela Dona Nena, o cacau é uma cultura originalmente extrativista. O tamanho das árvores varia entre 3 a 4 m de altura, necessitando de poda para que as plantas recebam luz suficiente e frutifiquem na medida certa. Para colher um fruto é necessário paciência, porque a primeira frutificação só ocorre de 3 a 5 anos após o plantio. A formação e a maturação dos frutos também é lenta, chegando a até seis meses. Quando prontos, os frutos são colhidos e as sementes separadas para fermentação por 3 a 8 dias, em recipiente geralmente coberto por folhas de bananeira. O líquido resultante da fermentação é drenado e as amêndoas são secas ao sol. Depois, então, são torradas, descascadas e moídas para produzir o licor de cacau, que aí sim, vai virar manteiga de cacau e pasta de chocolate. 

    música…

    Gustavo Campos – A Dona Nena comenta que além do cacau, o açaí, o cupuaçu e a pupunha são plantadas na mesma lavoura. 

    Camila Cunha – Esse tipo de plantio, que mistura espécies florestais e agrícolas, em um arranjo espacial e temporal único de sucessão das espécies, é chamado de Sistema Agroflorestal. Essa forma de manejo de espécies ajuda na preservação dos recursos naturais e no fortalecimento das comunidades locais em termos socioeconômicos. 

    Gustavo Campos – E, para Dona Nena e outras 11 famílias… é sinônimo de sustentabilidade.

    Idalto Pereira – Eu vim de Goiás para lá [São Félix do Xingu, Pará] devido a dificuldade financeira. Viemos em busca de oportunidade nova, no Pará. Aí chegando começamos a trabalhar errado por falta de formação. A gente chegou e queria derrubar a mata e criar gado. De início esse foi o que… Todos que vão para a Amazônia praticamente tem essa mesma história de fazer pasto e criar pecuária, só que com o tempo muda o cenário, o solo vai degradando.

    Gustavo Campos – Você ouviu Idalto Pereira, produtor no município de São Félix do Xingu, situado no sudeste do Pará. Ele saiu de Goiás para trabalhar com pecuária e desmatou a floresta para abrir espaço para o pasto. A atividade não floresceu e aí apareceu o cacau…

    Idalto Pereira – Depois de um certo tempo na propriedade vi que a renda familiar tinha diminuído. Tavamos tendo perda, deixando de ganhar dinheiro. O cacau veio como o carro-chefe na propriedade. A gente se inovou. A gente tinha muita área degradada e um dos focos era recuperar as nascentes e recuperar um pouco do que nós mesmo tínhamos estragado. Aí a gente pegou e viemos com cacau. Esse cacau nosso, ele é um cacau diferenciado e, mais, vamos pôr assim, mais dificultoso de se formar. Por se tratar de área degradada, a gente começou com o cacau em uma área que já não produzia nem mais pastagem. A gente teve que trabalhar a terra, plantar o milho e plantar banana, para poder recuperar um pouco do solo para entrar com cacau. E no meio do cacau a gente plantou as espécies nativas da própria Amazônia. A gente plantou no espaçamento de 18 por 18 para poder formar uma floresta nos próximos 10, 15 anos. Uma floresta por cima, para quem passava é uma floresta por cima, e por baixo, tem o cacau produzindo a fonte de renda da nossa família.

    Gustavo Campos – As mudanças na atividade produtiva e na mentalidade do agricultor são resultado da sua participação no Projeto Cacau Floresta. Quem fala a seguir é Rodrigo Freire, vice-coordenador de Restauração da ONG The Nature Conservancy Brasil, que encabeça o projeto. 

    Rodrigo Freire – O projeto surgiu em 2013 com a proposta de ajudar agricultores familiares no sudeste do Pará em São Félix do Xingu a melhor produzir cacau nas suas áreas. Uma boa parte deles já possuem plantio antigo de cacau, então a gente ajuda a melhor manejar o cacau, ter maior produtividade, manejo do solo, fertilidade, aumentando assim o manejo como poda, fertilização, controle de pragas, de fungos como vassoura-de-bruxa, podridão-parda que são as principais. Com isso o produtor melhora a produção dele nos plantios antigos e também a região é uma área dominada pela agropecuária, pecuária de corte com muitos espaços pouco produtivos e a gente ajuda também esses agricultores a transformar a parte desses espaços, na grande maioria já estão degradadas improdutivos, em novos plantios de cacau em sistemas agroflorestais. Sistemas agroflorestais na lógica de consorciamento de pés de cacau com pés de açaí, de mandioca, banana, milho, espécies florestais para sementes e madeira como a andiroba, mogno, ipê, jatobá numa lógica de substituir pasto pouco produtivo por uma agrofloresta biodiversa com cacau. Essa é a proposta do projeto: melhorar a renda do produtor, recuperar áreas degradadas e ajudar a evitar novos desmatamentos. A partir do momento que o produtor vê que ele pode ter uma vida melhor, uma renda melhor através de sistemas agroflorestais e recuperando áreas improdutivas do que fazer novos desmatamentos. 

    Gustavo Campos – A engenheira florestal Thaís Maier, integrante do Projeto Cacau Floresta, esclarece como o projeto interliga diferentes atores: indústrias, governo, cooperativas, agricultores, suas famílias e a comunidade. 

    Thaís Maier – Então a gente trabalha em parceria com as cooperativas locais. Elas por sua vez repassam às indústrias, que a gente tem parceria inclusive, que estão trabalhando para ter um cacau livre desmatamento, livre de trabalho infantil, porque como o cacau no mundo é muito atrelado a questão do desmatamento, trabalho infantil e trabalho escravo no Brasil. É uma oportunidade de ter uma fonte de matéria-prima para essas indústrias, essas empresas corporações, terem uma matéria-prima mais limpa, assim mais sustentável. Por isso, a nossa parceria com eles. Eles dão recursos para gente executar o projeto, a gente vai na ponta, ajuda os agricultores. É um arranjo institucional mesmo. A gente trabalha com a questão de treinamentos, visitas técnicas, numa série de eixos de ação do projeto para tomar escala. Hoje a gente está com 130 agricultores, sendo credenciados mais 120, o que vai resultar em 500 hectares de sistemas agroflorestais com cacau, são então 250 famílias. Também [temos] uma agenda que alia a questão da restauração ambiental e adequação ambiental da propriedade rural em relação ao Código Florestal e também a gente trabalha com agenda de gênero e juventude.

    música…

    Camila Cunha – As metas do projeto para 2020 são converter 1000 hectares em Sistemas Agroflorestais e 500 hectares em áreas de preservação permanente, além de capacitar 60 pessoas. O projeto Cacau Floresta vai muito além de ajudar agricultores familiares a melhorarem a gestão ambiental de suas propriedades. Temas transversais como trabalho infantil, juventude e inclusão da mulher na gestão da propriedade rural também estão na pauta. O resultado não poderia ser diferente. Escute o relato do Idalto. 

    Idalto Pereira – Depois que a gente começou a fazer parte desse projeto Cacau Floresta as coisas só tem andado. Eu digo sempre foi uma luz que apareceu para nós porque todo mundo se empolgou. A minha esposa, ela faz a parte de gerenciamento de todos, desde pagar os funcionário. Tudo ela que faz. Quando a gente contrata alguém, compra de insumos, essa parte de pagamento ela que faz. E, na parte ambiental também nós conseguimos resgatar mais animais, porque tem uma parte de floresta preservada e muitos animais da floresta tão migrando para dentro do cacau. Para a gente que tem duas filhas, são crianças, elas se empolgam. Esses dias a gente tirou até foto de um bicho lá, de uma anta, dentro da propriedade. Para elas, elas encabularam, até assustaram, pensaram que era… mas isso não é bom,  isso é ótimo, não é bom não, é ótimo. Aí estão todos empolgados. Sem contar também que o meu filho. Ele estudou numa escola técnica que tem lá que chama Casa Familiar Rural, aprendeu bastante, conhecimento e trabalhamos juntos na propriedade. E o que eu tenho, a ganhar hoje principalmente, com o projeto é eu tá com a minha família toda reunida. Que lá tá: eu, minha esposa, minhas filhas, o meu filho, que já é de maior com a mulher dele, o neto. Nós estamos, todo mundo, trabalhando junto. Todo mundo se vê todo dia…

    Gustavo Campos – Assim como Idalto, a família de Gustavo Sartori deixou Botucatu, no interior de São Paulo, para explorar a pecuária em Rondônia. Mesmo prosperando com a atividade, ele resolveu trabalhar com um produto típico da região. A escolha, claro, foi o cacau. Junto de um sócio, no município de Ouro Prêto do Oeste, em Rondônia, ele se tornou produtor de cacau e chocolateiro. 

    Gustavo Sartori – A família minha quando veio para Rondônia, os pioneiros vieram com o objetivo de trabalhar na pecuária de corte. Trabalhar na pecuária de corte, quando me surgiu essa possibilidade a ideia era agregar valor a um produto da região, a um produto que valesse a pena trabalhar. Nisso surgiu a possibilidade do chocolate, o cacau um produto, uma matéria-prima é valiosa. Inclusive a origem do nome, né, o Theobroma, é o manjar dos deuses e então resolvemos trabalhar esse produto. A princípio a fazendinha tinha uma pequena plantação de cacau, algo em torno de um hectare nós começamos a implementar uma lavourinha de cacau e a trabalhar o projeto da fábrica. Nós chegamos à conclusão que não deveríamos plantar o total da lavoura, porque existe muita produção de cacau no interior do Estado. A região, hoje Rondônia é o terceiro maior produtor, embora Pará e Bahia são grandes produtores. Existe aqui uma produção de cacau já instalada de agricultores familiares e produtores que estão trabalhando com a qualidade do cacau. Aqui há quem diga que o cacau da Amazônia vai para outros estados e até mesmo para fora [do país] para fazer blend pela qualidade do cacau que se encontra aqui por dar um melhor ponto de chocolate, um chocolate mais frutado, com sabor um pouco mais agradável.

    Gustavo Campos – O Gustavo [Sartori] também optou pelo Sistema Agroflorestal. Ele relata a experiência com o plantio de cacau.

    Gustavo Sartori – Ele é feito onde era a princípio pastos, né? A gente vem plantando árvores de sombra, que são as árvores primárias e na sequência se planta o cacau e as árvores definitivas que vão fazer o sombreamento do cacau. Aqui no nosso, nós estamos reflorestando as áreas do cacau. Inclusive na propriedade existe uma APP que era uma nascente que já a tempo foi reflorestada e começou inclusive a produzir a água, não só cacau, mas também produziu a água. O que a gente planta integrado com cacau são árvores nativas. Tivemos um plantio o ano passado, mas devido à seca muito forte perdemos muitas árvores, devemos re-plantar esse ano de novo, mas a ideia é trabalhar com mogno, cerejeiras, é ipê, é árvores frutíferas integradas, como a jaqueira, manga, algumas árvores que também produz, produz alguns insetos, alguns, algumas moscas, uma mosquinha que ajuda na polinização do cacau. Então, tudo isso a gente está integrando para poder revitalizar a floresta. 

    Camila Cunha – O Gustavo é zootecnista de formação e as dificuldades foram grandes para dominar um sistema de plantio diferente e os tratos culturais necessários ao cacau. Hoje com assistência técnica do Serviço Nacional de Aprendizagem Rural (Senar), os erros iniciais foram corrigidos. O Gustavo identifica que os benefícios da adequação ambiental da propriedade vão muito além da produção de cacau. Tanto ele, quanto o Idalto, relataram a recuperação de nascentes em suas propriedades. 

    música…

    Camila Cunha – Hoje, a cacauicultura e a pecuária são as principais atividades que geram renda na região Amazônica, segundo dados do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA) de 2010 e do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) de 2017. Daniel Braga, pesquisador da Universidade de São Paulo, atribui dois fatores como fundamentais para isso: as políticas públicas que atraíram tanto mão de obra como investimentos e a consolidação da cadeia de mercado. Mas… como essas atividades adquiriram tamanho destaque? Quem responde é o Daniel.

    música…

    Daniel Braga – Quanto o então Presidente General Médici anunciou a abertura da Rodovia Transamazônica em 1970, o cacau foi amplamente estimulado, com forte presença da CEPLAC, e ele era visto como um meio de vida capaz de promover a colonização daquela região, visto que tinha um bom retorno financeiro e era uma cultura perene, o que facilitava a permanência dos colonos ali naquela região. Mas, além disso, o plantio do cacau foi estimulado na região da Transamazônica também, porque haviam sido mapeados solos de alta fertilidade como a Terra Roxa, por exemplo. Então em 1976, o Governo Federal lançou o Plano para Expansão Nacional do Cacau, chamado PROCACAU. Nesse momento histórico, na década de 70, a história do cacau acabou convergindo com a história da pecuária naquela região do entorno da Rodovia Transamazônica. 

    música…

    Camila Cunha – A inauguração da Transamazônica, a maior rodovia do país, com mais de 5,600 Km, cortando os estados da Paraíba ao Amazonas, coincide com o boom do cacau no Sul Bahia e o fortalecimento da CEPLAC, a Comissão Executiva do Plano da Lavoura Cacaueira. Juntas, essas mudanças impulsionaram a expansão das lavouras na região Amazônica. Após 10 anos da construção da rodovia, os objetivos traçados na Ditadura Militar de infraestrutura e de colonização não foram atingidos e a ausência do poder público, hospitais, escolas, saneamento básico, levaram a conflitos sociais e desmatamento. E aí entra a pecuária…

    Daniel Braga – Nesse período o governo estava promovendo a colonização e o desenvolvimento rural a partir da introdução massiva da pecuária. E a pecuária serviu como principal estratégia para ocupação de grandes áreas nas regiões de fronteira agrícola da Amazônia como um todo. Foram criadas para isso diversas políticas de incentivos fiscais e facilidades de financiamento para atrair investidores. Por exemplo, os descontos tributários, redução de imposto para equipamentos importados, créditos rurais subsidiados e outros fomentos, como o próprio Programa Nacional de Desenvolvimento da Pecuária (o PROPEC). E, além de demandar pouca mão de obra, devido ao baixo custo das terras da região Amazônica, iniciou-se um processo de especulação fundiária por meio da formação de pastagens, um processo que perdura até os dias de hoje. Ao longo do tempo, a pecuária foi se consolidando no território amazônico. Isso junto com a evolução das tecnologias para essa atividade. Então facilidades industriais, a expansão da quantidade de matadouros e de infraestrutura pública básica, acesso à energia, estradas, água. Enfim, o crescimento do rebanho bovino na Amazônia Legal aconteceu de forma exponencial. No começo de 1970, por exemplo, havia cerca de 1,5 milhões de cabeças de gado na Amazônia Legal e isso aumentou para mais de 85 milhões no ano de 2017. Para você ter uma ideia esse número, de 85 milhões, equivale a 4 vezes a população humana no mesmo território da Amazônia Legal. Esse número representa cerca de 40% do rebanho bovino nacional. 

    Camila Cunha – No doutorado, o Daniel se perguntou quão bem vivem os agricultores familiares da Amazônia e comparou as duas atividades: cacauicultura e pecuária. Os resultados indicam que os produtores de cacau em Sistemas Agroflorestais são tão bem-sucedidos quanto os produtores de gado. 

    Daniel Braga – Nós fomos a campo levantar informações com base na realidade atual, considerando pequenos agricultores familiares com áreas de cacau e/ou gado já formadas, com mais de 8 anos de idade. O que nós encontramos naquelas diversas realidades é que o cacau se encontra predominantemente em áreas de solos mais férteis, enquanto a pecuária ocupa áreas de solos mais pobre no geral. Esse fato pode ser fundamentado a partir de literaturas que também descrevem o cacau como uma planta sensível no seu manejo, que prefere solos mais férteis e que a pecuária já se permite o desenvolvimento em condições menos favoráveis de solo. Em relação aos resultados do nosso estudo é que os produtores de cacau podem ser tão bem-sucedidos, quanto os pecuaristas. Então, o status social de produtor bem-sucedido, ele poderia também ser aferido aos produtores de cacau, que também conseguem alcançar bons níveis de bem-estar econômico tanto quanto os pecuaristas. 

    Camila Cunha – O interessante do estudo é que o cacau foi capaz de gerar uma renda pelo menos seis vezes maior que o gado para a mesma área e preservou mais vegetação nativa. Quando as famílias adotaram ambos, cacau e gado, a chance de sucesso aumentou. Mas o desmatamento também. 

    Daniel Braga – Os produtores de cacau, em média, tem uma propriedade de 52 hectares e conservam 47% da cobertura florestal original; os produtores de gado tem propriedades com 130 hectares e conservam cerca de 36% de floresta. Então, o que a gente tem como resultado é que em média os produtores que trabalham somente com cacau tendem a conservar um pouco mais de floresta do que os outros produtores do nosso estudo. Visto que quando se tem cacau e gado na mesma propriedade as famílias costumam ter propriedades com cerca de 90 hectares em uma área de cobertura florestal ainda menor de 31%.

    Gustavo Campos – E, quanto a nossa pergunta inicial… Como então o plantio de cacau pode ajudar a resolver questões ambientais urgentes, como desmatamento, perda de biodiversidade, conservação do solo e qualidade de vida? 

    Daniel Braga – Do meu ponto de vista o cacau já ajuda a conservar a floresta desde que o produtor tenha o bom senso de não avançar sobre suas reservas. Na verdade, isso acontece em diversas situações, mas já é uma questão de fiscalização e de falta de governança. Bem, o primeiro ponto sobre essa visão de que o cacau ajuda conservar as florestas é o simples fato de o cacau ser uma cultura rentável e ocupar áreas de terra menores do que a pecuária, que seria no caso a primeira opção alternativa, nessas situações. Outro ponto é que o cacau é plantado em sua maioria em Sistemas Agroflorestais, com espécies arbóreas nativas, que fazem o sombreamento das lavouras. Dessa forma é possível preservar os recursos genéticos das espécies florestais, bem como manter um fluxo gênico de outras espécies da fauna e da flora, obtendo-se corredores ecológicos em escala de paisagem, como acontece em Medicilândia, por exemplo. Além disso, o cacau em Sistema Agroflorestal provê diversos serviços ambientais, como a manutenção de polinizadores, o estoque de carbono, a proteção do solo, dos recursos hídricos e vários outros. 

    música…

    Camila Cunha – Os Sistemas Agroflorestais, principalmente em regiões da Amazônia, aparecem como a melhor alternativa para aumentar a renda familiar e a qualidade de vida das comunidades em zonas rurais. Isso por causa da diversificação da produção, com a inclusão de espécies nativas mais bem adaptadas às condições locais.   

    Daniel Braga – O Brasil é um país essencialmente florestal, mais de 50% do território é coberto por florestas, detém a Amazônia, que é um dos maiores contínuos florestais do mundo, com uma das maiores biodiversidades também, que podem ser utilizadas dentro do seu potencial biotecnológico, também um país produtor de madeira tropical um dos últimos países que ainda detém esse recurso em abundância e também os próprios produtos florestais não madeireiros. O Brasil tem tratado de maneira muito negligente o uso das florestas e a própria forma de fazer agricultura em si. Não tem colocado essa questão como parte da agricultura. Então, seria uma questão mesmo de mudança cultural. Onde o agricultor fosse visto também como o manejador florestal.

    música…

    Camila Cunha – A fala do Idalto, que escutamos no início do episódio, ilustra bem a mudança cultural: de pecuarista, ele se tornou um manejador florestal. O Daniel relembra que “muitas vezes tudo que os produtores têm é a terra e o tempo de mão de obra” e fazer a transição para um novo meio de vida é um grande desafio. Alinhar a capacidade de investimento, a aptidão, a aquisição de novos conhecimentos pelo agricultor com segurança e estabilidade financeira é essencial. O Daniel aponta ainda outros desafios…

    Daniel Braga – Então como fazer essa transição? Os produtores, normalmente, não estão acostumados a fazer o manejo das árvores. Então, eles seguem com rigor, muitas vezes, o manejo agrícola das suas culturas, mas não fazem manejo das árvores, não fazem o manejo de poda, não introduzem árvores, retiram árvores, manejo da biomassa, enfim. Então esse é um ponto chave para que se tenha essa transição do convencional para os Sistemas Agroflorestais. Outro ponto, seria mais uma questão de desenvolvimento de tecnologias agroflorestais mais adequadas para cada região. Claro, que não vai haver um único modelo empregado amplamente no Brasil todo, mas os Sistemas Agroflorestais, eles propiciam uma diversidade extremamente grande, até imensurável, de oportunidades, de opções de combinações entre as espécies. Só que para isso ainda precisa de muito investimento em pesquisa, em ciência, e também capacitação técnica, aproveitando o conhecimento já existente nas localidades, que muitas vezes é ignorado. E, por fim, importante nessa transição entre sistemas produtivos convencionais e Sistemas Agroflorestais seria o próprio estabelecimento de cadeias de mercado consolidadas para absorver os produtos diversos. Então, se tivesse um mercado, mercados preparados, consolidados, as cadeias bem formadas, o produtor se sentiria mais seguro em ter essas espécies nos seus sistemas produtivos. Então, essa parte de consolidação dos mercados, ela é fundamental. Somente a partir dela é que se pode vislumbrar o desenvolvimento dessas tecnologias. 

    Camila Cunha – O desenvolvimento de mercados também passa pelo paladar. Conhecer frutas exóticas e valorizar sabores únicos passa por transformações culturais, acesso à informação e pela demanda por novas experiências em voga pelos novos consumidores que veem comida como saúde e entretenimento. Hoje tem cada vez mais espaço nas prateleiras para os produtos ditos saudáveis, orgânicos e sustentáveis, com baixo teor de açúcar, sal e gorduras. O setor de alimentos está se reinventando e os produtos estão cada vez mais de nicho. 

    Gustavo Sartori – O que a gente tá acostumado a ver e saborear nas ruas aí, nos mercados, é mais doce, né, teor baixo de cacau e muito açúcar. Quando você começa a trabalhar com chocolate um pouco mais intenso, não é com qualquer amêndoa que se produz então nós trabalhamos a qualidade do cacau e da amêndoa para produzir. Existe um padrão que é seguido, que paga-se por amêndoas superior, superior tipo um, tipo dois, tipo três, amêndoa comum. Os órgãos que compram, as empresas que compram, já seguem esse mesmo padrão. O que eu faço é pagar um diferencial para o produtor. O chocolate Awiina, o produtor que se dedicar a fazer um bom produto, uma boa fermentação, uma boa secagem, um produto com qualidade ele chega a receber 100% em cima do valor do cacau. Então, nós chegamos a pagar R$ 20 o quilo do cacau, enquanto no mercado tava circulando a R$ 10 aqui, é um incentivo para o produtor trabalhar um pouco mais a qualidade, que o grande segredo do cacau não é só o plantio todo né é após a colheita, existem macetes, que se o produtor trabalhar com qualidade a gente consegue produzir um chocolate gourmet e mais intenso.

    Camila Cunha – Quem fala é o Gustavo. O paladar brasileiro é doce. Por aqui, chocolate tem que ter no mínimo 25% de cacau. Para outros países o valor é maior, gira em torno de 33%. Chocolates amargos, feitos sem leite, demandam melhores amêndoas. Eles trazem mais benefícios à saúde e fazem bem para a cacauicultura nacional.

    Gustavo Sartori – Acreditamos que a amêndoa da região é uma amêndoa de qualidade superior. A gente tem degustado bastante chocolate de vários regiões do Brasil e do mundo, inclusive, e a gente percebe uma qualidade no chocolate daqui. Não só o produzido por nós, mas alguns artesanais que tem também, amêndoas que nós levamos lá fora para produzir, ela dá uma qualidade superior. A nossa ideia é agregar valor aqui, que os produtores se incentivem em produzir em trazer mais Indústrias para cá, né? Porque hoje nós estamos com o Awiina agregando um pequeno percentual da produção. Seria ótimo para o Estado, para a economia da Região, para a preservação do meio ambiente, se toda esse cacau e essa amêndoa fosse processado na região e saísse na forma de chocolate. Somos moradores da Amazônia temos que ser defensores da Amazônia e preservá-la e com cacau a gente consegue fazer isso, agregar valor e poder dar renda ao produtor. Se nós conseguimos produzir um produto, que agregue valor e consiga vender por um valor maior para o consumidor final, sem os atravessadores, que vem aqui muitas vezes pegar o nosso produto e agregar valor em cima dele, eu acho que estamos no caminho certo. O objetivo não é só produzir chocolate, é ajudar a desenvolver a região, ajudar a preservar a região e ajudar a mostrar o que nós temos de bom no nosso Estado para todo mundo. 

    música….

    Gustavo Campos – A produção e o roteiro desse delicioso episódio são da Camila Cunha. O programa foi apresentado por nós: Gustavo Campos e…

    Camila Cunha – Camila Cunha. As entrevistas foram feitas por Luciana Rathsam, Oscar Freitas Neto e Camila Cunha. A revisão do roteiro é de Natália Flores e Allison Almeida. A coordenação da professora Simone Pallone, do Labjor e os trabalhos técnicos de Gustavo Campos, e Octávio Augusto, da Rádio Unicamp.  

    Gustavo Campos – Para quem quiser saber mais sobre o assunto deixamos no site algumas referências que usamos para fazer o programa.

     Camila Cunha – Gostou do programa? Você pode nos seguir no Facebook (facebook.com/oxigenionoticias – tudo junto e sem acento), no Instagram (@oxigeniopodcast) e no Twitter (@oxigenio_news). Me conta o que você achou do programa. Deixe sua crítica ou comentário na plataforma que ouve o podcast. Até o próximo episódio!

    música…

    vinheta de fechamento.

     

    Créditos:

    Efeito sonoro especial:

    “Brazil – Oropendola Weaver Birds, Amazonas” de Tim Lewis

    A gravação foi feita durante trabalho realizado para o projeto “If Not Us Then Who?” (“Se Não Nós, Então Quem?”, tradução), que observa populações indígenas e seu papel na preservação dos habitat naturais remanescentes. 

    Para saber mais sobre o projeto, clique aqui.

    Nota: Autorização de uso do efeito sonoro cedida pelo autor Tim Lewis via e-mail. 

    Crédito das trilhas e efeitos sonoros:

    Small Stream Flowing, Walking in Forest, Wind in Pine Trees, Wholesome de Kevin MacLeod, Rainbow Forest e Green Forest.

    Nota: Todas as músicas estão disponíveis na Biblioteca de Áudio do YouTube

    Crédito de vídeo usado no teaser:

    Canal do YouTube e Blog Meu Terroir de Paula Theotonio.

    YouTube: “Bate-papo com Dona Nena | Chocolate do Combu, Pará“

    Crédito de imagem:

    Foto de Camila Cunha e edição de Luísa Kanashiro.

    Material extra para os curiosos:

    [1] FOUNTAIN, A.; HUETZ-ADAMS, F. Cocoa Barometer 2018. Leiden: VOICE Network, 2018. Para ler, clique aqui.

    [2] DIAS, J. C. O trabalho infantil nos principais grupamentos de atividades econômicas do Brasil. Brasília: FNPETI, 2016. Para ler, clique aqui.  

    Nota: Luciana Rathsam entrevistou a Dona Nena; Oscar Freitas Neto, o Idalto Pereira, o Rodrigo Freire e a Thaís Maier; e Camila Cunha, o Gustavo Sartori e o Daniel Braga. 

     

    39 min
  • #78 Oxilab: Rap e o Brasil atual
    A sigla rap é a união das palavras em inglês rhythm and poetry, que significam ritmo e poesia. O gênero se caracteriza por  letras marcantes, que relatam a vida na periferia das grandes cidades e batidas fortes. No Brasil, o rap surge em São Paulo nos anos 80 e ganha visibilidade com os Racionais MC’s.  Mas a partir de 2010 o Rap começa a ocupar …
    16 min

About Oxigênio Podcast

From the publisher's feed

Podcast e programa de rádio sobre ciência, tecnologia e cultura produzido pelo Labjor-Unicamp em parceria com a Rádio Unicamp. Nosso conteúdo é jornalístico e de divulgação científica, com episódios…

More shows like Oxigênio Podcast

Braincast by B9

Braincast

106 Listeners

Xadrez Verbal by Central 3 Podcasts

Xadrez Verbal

166 Listeners

Naruhodo by Naruhodo, Ken Fujioka, Altay de Souza, B9

Naruhodo

120 Listeners

Petit Journal by Petit Journal

Petit Journal

77 Listeners

DrauzioCast by Portal Drauzio Varella

DrauzioCast

8 Listeners

Foro de Teresina by piauí

Foro de Teresina

230 Listeners

Escafandro by Rádio Escafandro

Escafandro

41 Listeners

História FM by Prof. Dr. Icles Rodrigues

História FM

34 Listeners

O Assunto by G1

O Assunto

168 Listeners

WW – William Waack by CNN Brasil

WW – William Waack

5 Listeners

Ciência Suja by Ciência Suja

Ciência Suja

19 Listeners

BBC Lê by BBC Brasil

BBC Lê

14 Listeners

Rádio Novelo Apresenta by Rádio Novelo

Rádio Novelo Apresenta

104 Listeners

A Hora by UOL

A Hora

14 Listeners

IA Sob Controle - Inteligência Artificial by Alura - Hipsters Network

IA Sob Controle - Inteligência Artificial

3 Listeners