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  • #98 – Temático Memórias: Episódio 1 – O Palácio

    Este episódio do Oxigênio traz a primeira parte de um programa que vai tratar das memórias traumáticas. Para introduzir o tema,  no entanto, o Bruno Moraes, a Caroline Maia e o Vinicius Alves começaram falando sobre as memórias, mostrando o que são e como funcionam, como constituem a identidade, questões abordadas sob o ponto de vista da Biologia, da História e até dos games ou indústria cultural. Para trazer explicações consistentes, o trio conversou com a neurobiologista Sophia LaBanca, com a bióloga Juliana Carlota Kramer Soares e com a historiadora Ana Carolina de Moura Delfim Maciel. Roteiro, apresentação e edição ficaram por conta do Bruno, que teve a colaboração da Caroline e do Vinicius na apresentação e elaboração do roteiro, e do Gustavo Campos na edição. A coordenação do Oxigênio é de Simone Pallone.

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    Sophia LaBanca: A identidade é construída através das memórias. Daí você pega a questão da mortalidade também ligada à memória.

    William Berger: E a porta de entrada das memórias no nosso cérebro, é uma região do cérebro que tá alí do lado da amígdala, que é o hipocampo.

    Juliana Carlota Kramer Soares: Então eu acho que o grande desafio de quem estuda a memória é tentar entender como esse processo ocorre. O que acontece no nosso cérebro quando a gente aprende algo novo?

    Ana Carolina de Moura Delfim Maciel: Tem uma citação da Frances Yates, no livro “A Arte da Memória”, que eu gosto muito. Que é: “a arte da memória é como uma escrita interior”.

    Carol: Como funciona a nossa memória, e o quanto essa ligação com o passado constrói a experiência do momento presente?

    Vinícius: Qual a diferença entre se lembrar de uma situação específica e se lembrar de uma informação ou uma técnica aprendida?

    Bruno: E como diferentes ciências enxergam essas relações, e o que elas têm a nos dizer sobre o que nos constitui como pessoas e como parte de uma sociedade?

    Vinícius: Qual a relação entre memórias ruins e o trauma, e o quanto da superação desse trauma depende da superação da memória?

    Carol: O Oxigênio de hoje é o primeiro de dois capítulos voltados a entender a relação entre o trauma e a memória, e nessa parte inicial vamos nos concentrar na questão da memória em si: o que ela é, como se forma, e como NOS forma. Eu sou Caroline Maia…

    Vinícius: Eu sou Vinícius Alves…

    Bruno: E eu sou o Bruno Moraes. E começa agora: “Memórias: Episódio 1 – O Palácio”

    Vinícius: A ideia para este episódio veio de um artigo sobre a extinção de memórias traumáticas, mas a primeira entrevista do programa foi completamente acidental.

    Bruno: Pois é. Nós já estávamos discutindo a possibilidade de fazer um programa baseado numa publicação de neurociência sobre a extinção de memórias traumáticas e procurando algumas fontes. Daí, num domingo qualquer, depois de terminar a faxina de sempre, eu fui checar meu WhatsApp e vi que minha amiga Sophia LaBanca, neurobiologista e divulgadora científica, que já foi da equipe do Oxigênio, tinha mandado mensagem, falando que tinha terminado de jogar os dez títulos da série de videogames Kingdom Hearts.

    Carol: O que o Bruno não esperava é que, nessa conversa despretensiosa de domingo, o tema desse programa, que já estava em produção, iria dar as caras.

    [Trechos de Conversa]

    Bruno: “Po, e isso nem é tão difícil de fazer, né, cara?”

    Sophia: “Então, né, Bruno? Eu concordo com você que não é algo difícil de se montar…”

    Bruno: “Ah, entendi! Eu achei que tinha sido exatamente o contrário…”

    Sophia: “Mas enfim, está sendo boa essa conversa com você, porque está me ajudando a elaborar um pouco essas questões da temática. Eu acho que realmente, o… Pensando agora nessa nossa conversa, acho que o ponto principal é a memória…”

    [Fim da Conversa]

    Bruno: Pois é… Para quem não conhece, Kingdom Hearts é uma série de jogos de RPG criada pela lendária Squaresoft, empresa responsável pelas séries Final Fantasy e Chrono, em parceria com a Disney. A história de Kingdom Hearts acompanha o Sora, um jovem humano que é puxado para uma outra realidade, o Reino governado pelo… Rei Mickey. Eu fui perguntar para a Sophia a respeito dos temas principais da história da série, já que eu conheço bem pouco do mundo mais recente dos jogos. Ela logo achou que eu estava procurando uma brecha pra zoar o enredo famosamente complicado e cheio de voltas da série.

    Bruno: Não, eu nem estou falando de ser necessariamente complicada, é porque são duas empresas que constroem histórias que são muito focadas em temas, né? A Square, pelo menos os jogos deles que eu joguei até hoje, tem várias coisas que… Ou os arcos dos personagens são focados num tema central ou tem diversos pequenos arcos, tipo no Chrono Trigger, né? Em que cada um deles traz alguma coisa, algum aprendizado, assim… E a Disney nem se fala, né?

    Vinícius: Entre áudios e mensagens digitadas, o Bruno e a Sophia começaram a ver que, de todos os temas que moviam a história da série de jogos, tinha um assunto recorrente. Um assunto que talvez fosse o ponto central da narrativa. A Sophia disse que…

    Sophia: Se tivesse que pegar uma… Uma temática para definir Kingdom Hearts, eu acho que definiria pela memória… Que… Acaba juntando tanto a questão da mortalidade quanto a questão da amizade quanto a questão da identidade. Tudo gira em torno da memória. Você pega todo o arco da questão da identidade, de eles criarem uma identidade própria… A questão dos Nobodies, etc. A identidade é construída através das memórias. Toda a questão da amizade também, quando a amizade é mantida através das memórias dos momentos bons. Você liga se eu der spoiler?

    Bruno: Eu não liguei. Mas não se preocupa não, a gente não vai revelar nenhum ponto crucial do enredo neste episódio. Essa primeira parte é só pra levantar alguns dos questionamentos sobre a relação entre memória, identidade e realidade que o jogo levanta para, a partir daí, entrarmos mais a fundo na ciência da memória.

    Carol: É o caso dos Nobodies que a Sophia cita. Esses personagens são os ecos de pessoas que tiveram sua essência… O “coração”, na história, separados do resto do ser, e os nobodies são o que resta da pessoa original. Sem as memórias originais, que ficaram no coração, eles se tornam pessoas praticamente independentes, apesar de terem alguns ecos de quem foram antes da separação. Nobody vem do inglês, e significa literalmente ninguém.

    Sophia: Então, veja bem… Até o nome… Eles são ninguém quando não têm memória e se tornam uma pessoa quando têm memória. Então, assim… Dá pra perceber bastante essa temática de que a sua identidade é definida pelas suas memórias. E acho que isso é bem interessante quando você pensa de um ponto de vista filosófico, porque é uma coisa que eu até coloquei na introdução da minha tese. Que a minha tese de doutorado foi sobre o efeito da privação de sono na memória, e quando eu começo a falar sobre as memórias, eu cito lá que o John Locke considerava que a nossa identidade é definida pela memória. Era uma discussão que eles tinham na época, se a sua identidade era definida pela sua personalidade ou pela memória, e ele defendia que era definida pela memória. Então tem assim… Consonância na… Tá, tudo bem, é na filosofia ocidental, mas tem.

    Vinícius: Essa aproximação com a filosofia ocidental não é exclusividade de Kingdom Hearts, e a relação entre memória e identidade aparece em muitas outras obras de ficção.

    Carol: É o caso das histórias do autor de ficção científica do Século XX Phillip K. Dick, como “Lembramos para Você a Preço de Atacado”, que deu origem ao filme “O Vingador do Futuro”, onde a tecnologia que permite apagar e reescrever memórias faz com que o protagonista comece a questionar sua própria identidade. E a própria realidade como um todo.

    Bruno: E não dá pra esquecer da importância das memórias na percepção da realidade dos replicantes do universo de Blade Runner, também derivado da obra do Dick.

    Vinícius: Essa relação íntima entre a memória e a percepção da realidade também aparece em vários pontos de Kingdom Hearts, e o destaque que a Sophia fez tem a ver com os momentos do jogo em que a história dos protagonistas criados pela Square se cruza com os personagens do Bosque dos Mil Acres, da franquia do Ursinho Pooh.

    Bruno: O Pooh, como muitas obras da Disney, veio de uma série de livros infanto juvenis. Mas em algumas das versões feitas pela Disney, os próprios personagens do Bosque dos Mil Acres vivem dentro de um livro, e esse também é o caso do Kingdom Hearts.

    Carol: Em um ponto na história dos jogos, o protagonista Sora e seus dois companheiros inseparáveis vivem aventuras no Bosque dos Mil Acres, e elas ficam registradas nas páginas do tal livro que abriga o bosque. Depois, quando as memórias que o Ursinho Pooh e seus amigos do bosque tinham do Sora começam a ser esquecidas pelos personagens do bosque, elas também começam a sumir das páginas do livro. É a realidade se reescrevendo a partir da perda das memórias. O Bruno comentou com a Sophia que…

    Bruno: É super metafórico isso, né? Memórias que você suprime tecnicamente nunca aconteceram e, se, ao longo da vida inteira, elas nunca vêm à superfície da consciência, assim, você nunca vai saber que certas coisas aconteceram com você. E eu penso muito sobre o quanto isso não é verdadeiro também pra estados alterados da mente, sabe? Desde o próprio estado de consciência durante o sono, no qual o seu corpo está recebendo informação sobre o que está acontecendo à volta, mas você não está, é… Processando essa informação de uma maneira consciente, e, portanto, é uma parte imensa da nossa vida em que a gente não… A gente tem uma dificuldade de lembrar mesmo, porque, até mesmo o conteúdo dos sonhos, que é o que está mais, é… Aparentemente, o que está sendo apreendido mais pela sua percepção, né? Pela sua atenção… E, mesmo assim, é muito difícil reter muita memória do que está havendo. E… Ou seja, é uma parte da nossa vida que a gente não se lembra. E essa metáfora do… Do… Do caso do Ursinho Pooh aí é muito legal porque é uma representação direta da… Dessa coisa da sua realidade ser transformada pelas memórias que você… Com as quais você interpreta ela, né?

    Vinícius: A relação entre o que nós lembramos conscientemente e o que, apesar de estar gravado em algum ponto do nosso cérebro, também é uma forma de lembrança, também é uma forma de diferenciar as memórias. Com base em insights de áreas como a psicanálise, e em fenômenos observados diretamente no cérebro, a ciência contemporânea enxerga e discute cada vez mais a importância daquilo que é inconsciente para se compreender a mente como um todo. Por exemplo…

    Sophia: Tem a separação entre as memórias implícitas e explícitas. Nós temos muito mais memórias implícitas do que explícitas. Você vai falar da questão da cognição propriamente dita, tomada de decisões, etc… É… Muito mais implícito do que explícito. Até a nossa percepção… Muita coisa é implícita. Então, pra te dar aí alguns exemplos… Tem um fenômeno chamado blindsight, que seria, no inglês, então, visão cega, né? Um paradoxo. O que é esse fenômeno? Você vai lá e pega uma pessoa que é cega, mas ela é cega não por causa de dano nos olhos, ela é cega por causa de dano no córtex occipital. Essa pessoa, se você pega, coloca ela na frente de uma tela com quatro quadrantes, e fala pra ela “tem aqui, o lado superior esquerdo, superior direito, inferior esquerdo e inferior direito. Em qual deles está a luz?” e mostra a luz, a pessoa consegue acertar que a luz apareceu, sei lá… No quadrante inferior esquerdo. Mas ela não está vendo. Porque… conscientemente, pelo menos. E por que isso acontece? Porque, por mais que, conscientemente, ela não tenha mais a visão por causa de um dano no cérebro, outra região do cérebro… Muito provavelmente o tálamo ainda está conseguindo processar, de uma maneira inconsciente e passa essa informação para ela.

    Sophia: E daí tem a questão da memória implícita e explícita, que é um caso clássico, que sempre se fala é o caso do H. M., que foi um paciente, Henry Molaison… Ele já morreu, então divulgaram o nome real. Que ele tinha um caso severo de epilepsia, e daí fizeram uma cirurgia pra corrigir isso e nessa cirurgia tiraram o lobo temporal dos dois lados do cérebro. Funcionou no sentido de “ele não tinha mais epilepsia”, mas se descobriu, através dessa cirurgia que causou um caso gravíssimo de amnésia anterógrada… Então, amnésia retrógrada é quando apaga as informações anteriores, e amnésia anterógrada é não fazer novas memórias. Então, ele não perdeu nenhuma memória de antes da cirurgia. Mas, depois da cirurgia, ele não formava memórias novas. Então a memória dele durava questão de segundos, era… Era uma Dory humana. Mas o que eles perceberam? Que eram só as memórias explícitas, declarativas, que a gente chama. Ou seja, conscientes. Então o… É… Ele conhecia uma nova pessoa e daqui a cinco segundos ele já se apresentava de volta. Mas as memórias implícitas, aquelas inconscientes, ele ainda mantinha.

    Bruno: É bastante difícil, especialmente para nós seres humanos que temos uma consciência tão complicada e marcante, entender o sentido por trás da existência desses mecanismos inconscientes. Mais ainda, entender porque eles são tão importantes para a nossa percepção da realidade e, às vezes, passam por cima da parte consciente, das tais memórias explícitas.

    Sophia: Do ponto de vista da psicologia cognitiva, o que se fala com relação a isso é que a… o nosso inconsciente é capaz de processar muito mais informações, muito mais rápido do que no nosso consciente. Então é por isso que seria “útil”, digamos, ter esses dois sistemas. Do ponto de vista da neurobiologia, e vale lembrar que as duas coisas não se anulam… Essas duas interpretações, elas na verdade podem até ser vistas como complementares… Se pensa nisso mais num sentido evolutivo. Em que você vê que todas as regiões do cérebro que fazem esse processamento inconsciente são regiões do cérebro mais antigas, do ponto de vista evolutivo. É o sistema límbico, é o tálamo, o tronco encefálico, etc. Enquanto esse processamento consciente se dá todo no neo-córtex. Então é o córtex occipital, o córtex temporal, o córtex frontal, e assim por diante.

    Vinícius: Para entender melhor como o aprendizado e a memória são armazenados no cérebro, entrevistamos a bióloga Juliana Carlota Kramer Soares, que passou toda a sua pós-graduação, do mestrado ao pós doutorado, estudando os mecanismos da memória. Atualmente, Juliana é professora substituta da UNIFESP e também professora efetiva da Universidade Ibirapuera.

    Bruno: A Juliana conta que fez biologia na graduação, movida por um interesse e curiosidade gerais a respeito da vida. Mas assim que começou a estudar mais a fundo a fisiologia…

    Juliana Carlota: As matérias relacionadas com o cérebro, a neurociência, foram o que foi despertando o interesse. E eu acabei me interessando pela neurociência e, em especial, por um tema, que é a memória. Que era a coisa de tentar estudar como a gente adquire informações, como a gente se lembra das coisas, né? Tudo o que acontece no nosso dia a dia. Inicialmente, o meu interesse era mais no comportamento animal, e como os animais aprendiam… E, ao longo do tempo, a gente vai expandindo, ampliando o nosso leque de interesses e hoje em dia a gente tenta… Quer saber também o que está acontecendo com o ser humano. Então, durante o meu mestrado, meu doutorado e o meu pós-doutorado, eu segui estudando mecanismos de memória. Então tudo o que, no nosso dia a dia é considerado uma memória, então… Desde… Não só o que a gente aprende lá na escola, não só a gente lembrar onde deixou as chaves do carro, mas também lembrar como dirigir um carro, como a gente anda de bicicleta, né? Esses atos… Tudo isso foi aprendido em algum momento. E tudo isso a gente sabe que é armazenado lá no nosso cérebro. E o meu interesse é especificamente em como as nossas células nervosas se organizam para manter essas informações.

    Bruno: Mas essas questões não foram as primeiras a interessar a Juliana durante a graduação, não. A neurocientista conta que, no princípio, ela se apaixonou pela ideia de observar o comportamento dos animais em seus hábitats, e entender o que estava acontecendo no campo.

    Carol: O fator que mudou a direção da carreira de pesquisa da Juliana não tinha tanto a ver com o objeto de pesquisa em si.

    Juliana Carlota: Então uma motivação pessoal é que eu tinha uma filhinha que, na época, tinha uns dois três anos e para mim era inconcebível deixar ela em casa e partir para uma jornada de campo. Então, eu descobri, durante a graduação, tendo algumas aulas de etologia, principalmente, que era possível estudar o comportamento dos animais em laboratório. E isso me despertou muito interesse. Porque, de início, eu achei que eu ia conseguir ficar das oito às cinco no laboratório e poder voltar pra casa tranquila depois. Ter um horário de trabalho, entre aspas, né? Mas, à medida em que eu comecei a fazer o mestrado e fui estudando, eu vi que não tinha como ficar das 8 às 5, e aí a gente vara a noite ou passa sábado e domingo… Foram vários e vários finais de semana no laboratório, cuidando dos animais.

    Vinícius: A possibilidade de estudar o comportamento em laboratório, sem precisar se deslocar para o campo, foi a saída para essa jovem pesquisadora continuar sendo também uma mãe participativa.

    Bruno: Esse caminho abriu as portas para o estudo da memória, e para outros aspectos da cognição e do comportamento de várias espécies animais, incluindo a nossa.

    Juliana Carlota: Além de estudar as memórias de uma forma geral, já há uns dez anos eu comecei a me preocupar ou me interessar também por esses aspectos moleculares envolvidos com as memórias. O que a gente acredita, ou o que se acreditava mais fortemente e ainda está nos livros didáticos quando falam de memória, é que, quando a gente aprende algo, ocorreria um fortalecimento das conexões entre um neurônio e outro, né? Entre uma célula nervosa e outra. E esse fenômeno é chamado de potenciação de longa duração, ou LTP, do inglês long term potentiation. E essa era a ideia, que toda vez que você aprende algo ocorreria esse fenômeno de LTP. Então isso foi bem difundido durante muito tempo. Tem estudos em animais que mostram esse processo, né? Mas, principalmente, estudos que a gente fala que são estudos in vitro. Você consegue registrar, você tira uma fatia do cérebro do animal e você consegue fazer estudos, coloca um eletrodo em algumas regiões e você mede esses… A gente chama “potenciais evocados” ali. O que está acontecendo, o disparo daquelas células. E a gente vê que a comunicação entre uma célula e outra foi fortalecida. No animal in vivo… Só tem, até hoje, desde 2006, um único estudo que viu isso ocorrendo em tempo real: quando o animal executava uma tarefa de memória, você tinha um disparo de neurônios. E aí, quando ele é colocado no mesmo ambiente onde ele aprendeu a tarefa, no dia seguinte… Você registra esse mesmo padrão de disparos.

    Bruno: Nossa! Ficou complexa a história! Quando falamos em “epigenética”, estamos falando de mecanismos que alteram a função de genes específicos, mas que não são dependentes da sequência do gene no DNA. Esses mecanismos são dependentes da ação de várias moléculas, que podem aumentar, diminuir ou até mesmo parar completamente a expressão de alguns genes. A Juliana detalha melhor alguns exemplos que facilitam a distinção entre a genética — focada mais nas sequências do DNA — e esses mecanismos externos à sequência do gene em si.

    Juliana Carlota: Então, já há algum tempo, existem várias evidências científicas mostrando que os hábitos de vida, o ambiente social em que a pessoa está inserida… Tudo isso pode modificar o comportamento dos genes. E é isso que o campo da epigenética estuda: as pequenas mudanças químicas que ocorrem no DNA e nas proteínas que envolvem o DNA. Então eu acho que um jeito, também, de dar um exemplo nisso aqui, para a gente entender a diferença entre genética e epigenética… É mostrar que, por exemplo… Gêmeos idênticos carregam o mesmo material genético. Mas eles exibem algumas diferenças nas suas características. Então, um exemplo, cor da pele. Então, se um deles tomar mais sol… Um morar na praia e o outro morar numa região mais fria e que, praticamente, nunca faz sol, um vai ter a pele mais bronzeada do que a do outro. Então, essas diferenças vão se acentuando com o passar dos anos, de forma que o genoma, o código genético, ele permanece idêntico, mas o epigenoma acaba sendo diferente ao longo do tempo. Porque as experiências que cada um vai passar são diferentes, e é o que vai tornar cada indivíduo único.

    Carol: O estudo da epigenética também mudou a forma como a ciência passou a entender o chamado “dogma central da biologia molecular”.

    Vinícius: Uma sequência da Biologia Molecular, ainda ensinada por muita gente por aí como se fosse um dogma, é a de que o DNA tem a informação para produzir o RNA, e este por sua vez orienta a montagem de proteínas. Mas a epigenética vem mostrando que outras moléculas também estão envolvidas nessa regulação, e as próprias sequências de RNA podem mudar antes de serem lidas para formar uma proteína. Além disso, já faz certo tempo que se sabe que nem todo RNA dá origem a uma proteína: alguns deles são os chamados RNAs não codificantes.

    Juliana Carlota: Mas eles não estão ali à toa. Eles têm um papel de regular a expressão das proteínas. Então eles não codificam para uma proteína nova, mas eles regulam a expressão dessas proteínas. Então alguns desses RNAs não codificadores são chamados de microRNAs, porque é uma molécula um pouquinho menor do que um RNA tradicional. E a função desses microRNAs é justamente de inibir a expressão de algumas proteínas. Então o papel regulatório dessas moléculas é muito grande.

    Bruno: Essa ativação e desativação é apenas um dos muitos mecanismos epigenéticos que podem estar envolvidos no fenômeno da memória. A Juliana comenta que…

    Juliana Carlota: Eu tenho interesse por outros mecanismos epigenéticos, mas, no momento, é esse o que eu venho trabalhando um pouquinho mais com ele. Qual o papel desses micro RNAs na formação das memórias. Então, por exemplo, quando um evento de aprendizagem ocorre, quando a gente aprende algo, a gente acredita que os mecanismos epigenéticos, eles aparentemente inibem alguns genes que prejudicam ou não favorecem a memória, enquanto, simultaneamente, eles permitem a ativação de genes que vão favorecer a expressão dessa memória. Então meio que essa é a ideia desse mecanismo regulatório. Porque a gente tem, no nosso genoma, no nosso código genético, cerca de 20 mil genes em cada célula. E todos esses genes não estão trabalhando o tempo todo. Então você tem, dependendo da célula, da região e da função que ela desempenha, alguns genes estão sendo expressos e outros não. Então, uns genes trabalham e outros não. E a ideia é tentar ver quais são os mecanismos que modulam isso, quando um gene vai ser expresso e quando não vai ser.

    Bruno: Mas o que o grupo de pesquisa do qual faz parte a neurobiologista mais estuda são aqueles processos de potenciação de longo prazo. Eles tentam entender como funciona a ativação coordenada dos neurônios no processamento de informação e na transformação dessa informação em uma memória. Tentam também entender o que acontece com esses neurônios quando essa memória é relembrada, e quando ela é esquecida.

    Carol: A Juliana comenta que, mais recentemente, o envolvimento dos neurônios nesse processo do armazenamento e expressão das memórias começou a ser compreendido por um ângulo que leva em conta pequenos grupos de neurônios. Os mecanismos de plasticidade sináptica, ou seja, o fortalecimento ou enfraquecimento da conexão entre neurônios, onde ocorre a transmissão de informação, começaram a ser analisados na escala desses grupamentos, e não par a par, e…

    Juliana Carlota: Esses grupos é que seriam responsáveis por mediar esses processos de aprendizagem e memória. Então você não tem… A ideia é que, assim… A gente não tem uma memória armazenada em um neurônio. Não é isso que acontece. A gente tem redes, né? Ou pequenos grupos que são ativos, que estão ativos quando a gente tem que aprender ou quando a gente tem que recordar uma informação. E aí a gente também tem sobreposição desses grupos. Então tem um neurônio desse grupo A aqui que participa de um tipo de memória, e aí tem um outro neurônio do grupo B que também participa… Então, isso também pode ocorrer. Mas, no geral, são pequenos grupos que seriam seletivamente ativados aí.

    Carol: Outra classificação importante para o estudo da memória é a separação entre as memórias de situações específicas e um outro tipo de memória, que não funciona bem como uma lembrança. A Sophia já comentou um pouco a esse respeito, mas a Juliana explica essa diferença e traz um exemplo da própria pesquisa.

    Juliana Carlota: As memórias, por exemplo, de dirigir um carro ou andar de bicicleta, isso são memórias chamadas “implícitas”. Já essa memória de “onde eu deixei as chaves do carro”, essa memória de localização, é uma memória “explícita”, ou “declarativa”, que eu posso declarar e recordar verbalmente, de forma consciente. Ao passo que dirigir um carro, a gente precisa demonstrar, através da habilidade, né? Então tocar um instrumento musical, por exemplo. Você aprendeu isso em algum momento, então isso é considerado uma memória. Mas é uma memória de uma habilidade, que você só consegue mostrar através desse desempenho. Então tem uma tarefa que a gente faz em laboratório, por exemplo, que se chama “condicionamento de piscar de olhos”. Você faz um pareamento entre um som e um sopro de ar na face, nos olhos. Então, cada vez que vem um sopro de ar a gente pisca, né? Então eu dou um som e um sopro de ar. Então você condiciona a pessoa a piscar. E esse piscar é inconsciente. Então, se eu… Depois de vários pareamentos, de várias tentativas, se você dá só o som, sozinho, a pessoa vai piscar mesmo sem ter o sopro de ar. O que é curioso é que pacientes que sofrem de amnésia têm o condicionamento preservado mas eles não têm a memória consciente de que eles passaram por esse treino. Então, se você pergunta “você já esteve aqui no laboratório? Você já passou por essa experiência?”, a pessoa vai falar que não, que é a primeira vez. Mas ela já tem o condicionamento ali.

    Bruno: OK, esse foi o ponto de vista das ciências biológicas. Mas e outras áreas do conhecimento, como elas enxergam a memória?

    Carol: Para entender melhor como as memórias se relacionam com a história e como as diferentes versões no resgate dessas memórias são importantes, entrevistamos Ana Carolina de Moura Delfim Maciel, que é historiadora e documentarista. Ana está a frente da Coordenadoria dos Centros e Núcleos Interdisciplinares de Pesquisa (COCEN) e é docente e pesquisadora do departamento de História na Unicamp.

    Vinícius: Ana Carolina gostava de história desde o Ensino Médio, mas nunca tinha pensado em ser historiadora. Era apenas um gosto pessoal, compartilhado com seu pai, que também não era historiador.

    Ana Carolina: Então a gente conversava muito sobre isso e realmente era uma das disciplinas que eu mais apreciava durante a minha formação escolar.

    Bruno: Foi a vontade de ser diplomata, à época uma carreira que poderia dar sequência à formação no Direito ou na História, que a levou a dois caminhos. O primeiro foi começar a graduação em direito e ver que não tinha muito a ver com ela. O segundo foi começar o curso de Graduação em História pela Unicamp, e…

    Ana Carolina: Já logo no primeiro semestre do curso de história, eu comecei a perceber que aquela história que eu gostava, que eu apreciava no Ensino Médio não era a história que nós estudávamos na universidade. Especialmente na Unicamp, porque o curso de história da Unicamp é muito voltado para essa dimensão da construção narrativa. Então conseguimos ali desconstruir esses temas que são enfim ensinados nas escolas mais tradicionais e pensando então como que se escreve a história. Não é por acaso que o primeiro livro que eu li do Marc Bloch era justamente pensando o que é história, como se constrói história, que forças que são acionadas quando se faz história.

    Vinícius: Com essa descoberta de outras formas de se enxergar o registro histórico, a carreira de diplomata deu lugar a outros interesses. Como, por exemplo, o interesse pelo cinema documental, que levou Ana Carolina a dirigir documentários e a registrar relatos sobre o passado em vídeo.

    Ana Carolina: Esses documentários audiovisuais que eu fiz entre o intervalo do mestrado e do doutorado eram sobre atrizes do cinema brasileiro dos anos 50. O que eu queria era me aproximar das trajetórias de vida dessas atrizes, eram atrizes que estavam esquecidas, que na época já estavam na casa dos seus 70, 80 anos. Elas não tinham permanecido na cena nem cinematográfica, nem teatral, nem televisiva. Então eu passei a me aproximar dessas atrizes e das trajetórias de vida, fazendo uma narrativa onde eu pudesse alinhavar os relatos delas né, os relatos de cunho autobiográfico com os filmes e com os recortes da imprensa etc. Então esse projeto era um projeto que eu ia abordar várias atrizes, mas por dificuldades de encontrar financiamento, eu acabei fazendo dois documentários e não dando continuidade a esse projeto. O primeiro documentário foi sobre a atriz Vera Sampaio que se chama “Amor é um lugar vazio”, e o segundo se chama “Eliane” que é sobre a atriz Eliane Lage. Todos esses filmes estão disponíveis em num link, em um canal que eu tenho no Youtube que é meu nome completo – Ana Carolina de Moura Delfim Maciel. Ali tem a maioria dos documentários e dos projetos audiovisuais que eu realizei.

    Bruno: A historiadora nos conta que a relação entre a memória e a história…

    Ana Carolina: É uma relação bastante controversa, por muito tempo a história ela esteve justamente atrelada a uma noção de testemunho, ou seja, aquele que narra presenciou os eventos, então tinha essa perspectiva. Determinado narrador viu aquilo, então ele pode relatar, efetivamente fazer história. Eu estou falando aí dos primórdios daquilo que nós denominamos História. É interessante também um exercício mnemônico que se chama “Memory Palace”, que é uma técnica ancestral cuja origem remonta ao poeta grego Simónides. É, eu estou falando de 477 antes de Cristo e ele teve a prova de que era detentor de uma memória fabulosa porque reza a lenda que durante um banquete, o teto desabou e matou todos os convidados, a maior parte dos convidados do jantar, e o Simónides tinha saído momentaneamente do ambiente e escapou ileso dessa tragédia. E ele acabou se tornando testemunha para o reconhecimento dos cadáveres porque por meio desse exercício mnemônico ele tinha memorizado a posição de cada um dos convidados à mesa. Então segundo a Frances Yates que é uma autora que eu gosto muito, que eu posso dizer que é uma das minhas maiores referências nesse assunto ligado ao tema da memória. Yates diz que foi justamente esse episódio macabro que fez com que ele fosse tido como um inventor da arte da memória.

    Carol: Com o avanço do Século XX, o peso do positivismo científico no estudo da História foi aos poucos dando espaço para que a construção tanto dos relatos e documentos quanto da própria literatura acadêmica reconhecesse cada vez mais a influência da subjetividade.

    Ana Carolina: E o que nós sabemos hoje no limiar do século XXI é de que não há dicotomia entre história e memória porque na virada do século XIX para o século XX, quando éramos ainda dominados por um olhar cientificista da história, muitas vezes positivista, não podia ter espaço para subjetividade. A história tinha que ser pretensamente isenta. Por sorte, ao longo do século XX e com todos os marcos que tivemos na história da humanidade que redimensionaram o olhar da questão da história em si, da própria questão do indivíduo na história, nós fomos nos libertando desse viés cientificista, até porque não existe um documento isento. Não é porque um documento foi redigido e depositado em um arquivo, que ele é isento, quer quiser, tudo são versões, tudo são visões, inclusive oficiais né. E com o advento da história oral, principalmente em meados do século passado, nós passamos a dar o protagonismo às minorias.

    Bruno: Ana Carolina comenta que essa preocupação com a voz de minorias e com a incorporação de relatos orais, feitos por pessoas não necessariamente inseridas no contexto acadêmico ou da atuação política, trouxe a importância de trajetórias individuais e pontos de vista subjetivos para a História.

    Ana Carolina: Isso sem dúvida redimensiona a história e o que nós sabemos hoje é que o passado é redigido, ele é rememorado ou ele é esquecido. O que importa é que o passado é algo que nós construímos no presente. Então não tem um passado que espera passivamente que determinado historiador avalie. É sempre uma construção do presente, é sempre um olhar do presente.

    Carol: O tal “Palácio da Memória” também tem um exemplo na ficção, o que mostra a diversidade possível de histórias sobre aspectos diferentes da memória.

    Ana Carolina: Eu gostaria de indicar para os que não conhecem uma série que se chama “Sherlock” que é baseado no livro de Conan Doyle sobre o Sherlock Holmes. Nessa adaptação o personagem, ele tem um mecanismo de memória que é denominado “mind palace” ou “memory palace” que seria um palácio mental ou um palácio da memória, aonde o detetive revisita o seu passado. É como se fosse um exercício psíquico, então ele mergulha nesse espaço mental e consulta arquivos de dados, textos, imagens que estão ali armazenados. É muito interessante, é muito ousado imaginar que você pode mergulhar no seu subconsciente e encontrar vestígios, documentos nessa técnica de memória né que fica como um mapa mental. E nos remete também à técnica mnemônica que eu mencionei do Simónides que é justamente essa ideia de que você visualiza, você registra e a partir dali você revisita esse passado.

    Carol: O Oxigênio vai ficando por aqui, mas esse não é o fim da nossa aventura pelas memórias. Em quinze dias estreia o segundo capítulo, onde nós vamos finalmente entrar na questão que motivou esse programa!

    Bruno: Gostou do episódio de hoje? Então comenta nas nossas redes, ou recomenda pra alguém que também se interesse por essas questões de memória (ou de videogame, quem sabe?)

    Vinícius: O programa de hoje foi roteirizado pelo Bruno Moraes, com colaboração de Caroline Maia e minha, Vinícius Alves.

    Bruno: Cada um de nós gravou de sua própria casa, pra mantermos o isolamento social, e os trabalhos técnicos também foram feitos remotamente. Quem assumiu a edição dessa vez fui eu, com colaboração da Carol, do Vinícius e do Gustavo Campos.

    Carol: E não se esqueça de seguir o Oxigênio nas redes sociais. Oxigenionoticias no facebook e @oxigeniopodcast no instagram, tudo junto e sem acento, e oxigenio_news no twitter.

    45 min
  • # 97 – Quarentena ep. 4 – Os Bastidores da Ciência

    A pandemia tem mostrado a importância da ciência no combate ao novo Coronavírus. Mas você já se perguntou sobre quem é esse cientista que está estudando a vacina? Quem são essas pessoas por trás dos dados que acompanhamos todos os dias? Ou o motivo de algumas soluções demorarem tanto a chegar? Isso tudo é discutido neste episódio do QUARENTENA, com a participação de Natalia Pasternak (bióloga e presidente do Instituto Questão de Ciência), Altay Lino de Souza (professor da Universidade Federal de São Paulo e produtor do Naruhodo Podcast) e Rafael Izbicki (estatístico e professor da Universidade Federal de São Carlos). A produção e apresentação do programa são de Carol Sotério. 

    _________________________

    Carol: Elementar, meu caro Watson.

    Essa expressão tão conhecida surgiu em meio a uma encenação do detetive mais famoso da ficção: Sherlock Holmes. Criado por sir Arthur Conan Doyle, um escritor britânico, o personagem originalmente retratado em livros ajudou na construção do estereótipo de um cientista excêntrico, genial e não muito sociável.

    A verdade é que não costumamos ver esse tipo de personagem no dia-a-dia. Mas sabemos que os cientistas estão por aí. Nesta pandemia, recebemos notícias o tempo todo sobre essas pessoas. Elas estão desenvolvendo tratamentos, fabricando respiradores, estudando o novo coronavírus ou ainda fazendo previsões sobre o impacto da Covid-19 em todo o mundo. Mas como é que tudo isso é realmente feito? Como é a ciência longe da ficção?

    Carol: Você está ouvindo o QUARENTENA. Eu sou a Carol, e o no episódio de hoje falaremos sobre os bastidores da ciência em tempos de pandemia.

    Carol: No livro chamado “um estudo em vermelho”, a primeira obra que apresenta o personagem Sherlock Holmes, vemos a descrição do cientista pelos olhos de seu colega, o médico Watson. Com uma listinha, Watson enumera características sobre o detetive: uma pessoa que possui um vasto conhecimento de química, algumas habilidades musicais e cheio de mistérios. Na vida real, o cientista está longe de ser misterioso, podendo estar mais próximo de você do que possa imaginar. Cerca de 60% da pesquisa que é desenvolvida no Brasil vem de 15 universidades públicas, entre elas a UNICAMP. Mas para estar qualificado pra fazer uma pesquisa de excelência nessas instituições, é preciso estudar muitos anos. Em média, uma graduação leva cinco anos; um mestrado, dois; um doutorado quatro anos e um estágio de pós-doutorado pode durar de seis meses a seis anos, variando entre os programas e as oportunidades de outros trabalhos que vão aparecer no caminho. Esse trabalho, muitas vezes, requer um regime de dedicação exclusiva, isto é, que seja sua única ocupação, e é remunerado com as bolsas de pesquisa com valores não atualizados desde 2013 no Brasil. Sobre isso, a nossa entrevistada, a bióloga Natalia Pasternak e presidente do Instituto Questão de Ciência, tem algo a nos falar:

    Natalia: As pessoas realmente não têm muita noção de como a ciência funciona no Brasil, como é o trabalho do cientista, qual que é o nível de dedicação, o que um docente faz, o que um pós-doc faz, o que um estudante de pós-graduação faz – na cabeça da maioria das pessoas, inclusive, os estudantes de graduação não são nem profissionais. Eles não entendem que aquele já é um profissional formado que está fazendo um trabalho de pesquisa remunerado por uma bolsa de estudos. E daí a gente junta tudo e fica justamente com aquela impressão que as pessoas têm de que as universidades não servem pra nada. Eles não entendem que as universidades são grandes centros de pesquisa, não são apenas escolas. E isso é algo que também se reflete muito dentro da universidade, que também até hoje acho que não entendeu muito bem qual que é o seu papel na formação de profissionais, na valorização desses profissionais, dos pós-graduandos.

    Carol: Uma situação que tem sido corriqueira no Brasil é a fuga de cérebros. Em meio a falta de oportunidades no país, diversos pesquisadores têm procurado por oportunidades em outras nações. Em um ranking de competitividade global de talentos feito pela Insead com 132 países, o Brasil caiu em oito posições em relação ao ano passado. Um dos motivos é justamente a fuga de cérebros.

    Natalia: O que vem pela frente é que a ciência brasileira vai acabar. Porque a gente não valoriza os profissionais, a gente não remunera os profissionais, a gente não tem financiamento pra eles trabalharem e a gente não tem uma comunicação com a sociedade para que a sociedade pressione o governo pra que isso aconteça. O futuro promete muito pouco pra ciência brasileira se a gente não mudar de atitude e se a gente não tiver um governo mais favorável também. A gente fala muito da nossa falha, da falta de comunicação, mas isso não faz milagre num governo anticiência. Nós estamos vivendo o governo mais anticiência que a gente já teve, não interessa o quanto a gente se esforça pra se comunicar com a sociedade. É claro que isso tem que ser feito, mas a gente precisa de um novo governo. Nesse governo, a situação da ciência certamente só vai piorar.

    Carol: A questão é que na realidade, estamos longe de ser Sherlock Holmes. As ideias brilhantes não partem simplesmente de mentes geniais, mas sim de pessoas que estudaram muito para ter aquele conhecimento. E para alcançar resultados significativos, a ciência não se faz apenas com cérebro e papel. É preciso toda uma infraestrutura…

    Natalia: Essa noção hollywoodiana de que a ciência é feita por poucos gênios brilhantes é completamente errada e ela vem justamente de filmes e romances onde uma pessoa sozinha tem uma ideia brilhante, coloca em prática e salva o mundo. E isso não existe em ciência, a ciência é um trabalho colaborativo, que é feito com equipes e, claro que cientistas brilhantes existem e graças à eles muitas vezes a ciência avança, mas eles são muitos e eles não são únicos gênios isolados. E principalmente eles não são isolados.

    Carol: Vale lembrar que as ações relacionadas ao enfrentamento da Covid-19 no Brasil, por exemplo, só foram possíveis porque temos uma estrutura instalada, construída ao longo de muitos anos, inclusive com pessoas bem formadas para atuar nas diversas áreas que estão sendo requisitadas hoje. Para produzir ciência é preciso toda uma infraestrutura…

     Não adianta você ser brilhante e você não ter uma boa equipe pra trabalhar, você não vai conseguir fazer nada sozinho. Você precisa de estrutura, laboratório, insumos, financiamento… Então as pessoas não tiram do chapéu, aquele “Eureka” não existe. O “Eureka” pra virar produto, tecnologia, conhecimento, precisa de uma infraestrutura que não depende só do cérebro do cientista. Depende a construção de um ambiente adequado para que a ciência possa produzir. E esse ambiente inclui laboratórios, equipamentos, pessoas, técnicos, uma boa administração. Então isso não é simplesmente um trabalho de poucos gênios.

    Carol: O Sherlock Holmes dos livros ficou famoso pela aplicação de seu método de investigação que envolvia a observação dos mínimos detalhes, a formulação de hipóteses, a realização de experiências e, no final, fazia uma conclusão certeira sobre seus casos. Na ciência, algo similar existe e tem se popularizado como método científico. Na prática, nem tudo acontece dessa mesma forma. Diferentes áreas do conhecimento requerem diferentes métodos para minimizar possíveis erros na produção científica. Será que estamos mesmo falando de um método para a produção de um novo conhecimento ou o método científico se assemelha, na verdade, à uma minimização de erros? O Altay Lino de Souza, professor da Universidade Federal de São Paulo e produtor do Naruhodo Podcast pode explicar melhor esse assunto.

    Altay: O método científico formal é um conjunto de etapas que levam ao teste de uma hipótese. Você testar uma hipótese é o que constrói, ou coloca um tijolinho de conhecimento sobre um tema. Esse método científico ele varia conforme a área do conhecimento, de fato. Então o método científico formal, assim, que é muito usado na área de biológicas e exatas em geral, na área experimental principalmente, depende muito da reprodutibilidade. Você não trabalha com a certeza, você reduz a incerteza. A cada vez que eu reproduzo um resultado, eu estou cada vez menos errado. Esse é um jeito de fazer ciência, com base no falseamento de hipóteses. Outras áreas do conhecimento não se baseiam necessariamente no falseamento. Na verdade você constrói estruturas lógicas ou cenários que tentam descrever os comportamentos das pessoas em certos períodos no tempo ou em certas situações. Então na verdade eu não estou testando uma hipótese apenas, eu estou testando a validade de um corpus, que é um conjunto de regras. 

    Carol: Mas nem tudo são flores…

    Altay: O problema aqui é que ambos os métodos tem críticas. Tanto o método indutivo, porque depende muito da qualidade das pesquisas que você faz, dos consenso das áreas, reproduções que sejam de fato equivalentes – aí a gente vê várias áreas que sofrem com problemas de reprodutibilidade, nas áreas biológicas e exatas, principalmente – e nas áreas de humanas, como os métodos são, em geral, mais dedutivos, eles se baseiam em premissas. Quando você quebra uma premissa em geral você invalida todo o corpus e isso faz com que essas áreas do conhecimento elas acabam sendo muito personalistas. Isso é uma crítica que se estende também à todas as áreas sociais, que são personalistas demais e a pessoa defende muito mais um teórico do que a teoria. Então nenhuma área está incólume a esses problemas de crítica epistemológica de como o conhecimento é construído em cada uma delas.

    Carol: Com a pandemia, cientistas de diversas áreas do conhecimento têm buscado soluções para amenizar o problema de ordem mundial. Entre esses trabalhos está a tão comentada busca por uma vacina que seja capaz de imunizar a população da doença Covid-19. O estudo desse tipo de tratamento, na verdade, envolve várias etapas. Mas como temos acompanhado, um resultado eficaz não surge da noite para o dia. 

    Natalia: Como que você pesquisa uma vacina? Você vai começar como qualquer outro medicamento, trabalhando in vitro, na bancada do laboratório com cultura de células, fazendo a sua formulação vacinal. Então agora, por exemplo, a gente tem várias estratégias vacinais sendo testadas no mundo. Algumas que são estratégias de primeira geração, que a gente chama de vacinas à moda antiga, que trabalham com vírus inativados ou vírus atenuados, que é o jeito que a gente faz vacinas já há 60 anos. Outras estratégias que são mais modernas, que incluem as vacinas de vetor, como a de Oxford, onde você tem um vetor que carrega uma sequência genética do seu vírus de interesse, então eles só servem como um veículo, ou as vacinas genéticas que são de DNA e RNA onde você também só trabalha com uma sequência genética do vírus, que foi exatamente o que o pessoal da Oxford fez, eles tinha uma vacina pra MERS e aí eles trocaram a sequência pra colocar a sequência do COV2 e, voilá, vacina pro COV2 pronta, só falta testar né.

    Carol: E essa testagem envolve mais quatro etapas.

    Natalia: Primeiro você vai fazer os testes pré-clínicos, em camundongos, depois em macacos e daí a gente passa pra humanos. Fase 1 de humanos você vai testar só segurança, são poucas pessoas, vê só se a sua vacina é segura, se ela não tá fazendo mal, não é tóxica pra ninguém. Na fase 2 você aumenta o número de pessoas pra centenas de pessoas e você vai ver parâmetros: formação de anticorpos, resposta celular e ainda, claro, aumentando a sua amostra você consegue ver mais efeitos colaterais. Fase 3 é a fase mais importante, onde você vai ver eficácia. Você vai comparar o efeito da sua vacina com o efeito de um placebo. Pra isso você tem que trabalhar com um grupo muito grande de pessoas, milhares de pessoas, e nesses grupos grandes então você vai ter uma parte que vai receber a vacina, uma parte que vai receber o placebo, você expõe todo mundo à doença – por isso que o Brasil é o cenário ideal agora, porque tem muita doença circulando – e você vê se sua vacina realmente protegeu as pessoas de ficarem doentes. Uma vez que isso deu certo, você vai aprovar a vacina e vai começar a produzir pra fase 4, que é quando você realmente coloca a vacina no mercado, mas você continua observando, porque às vezes na fase 4 às vezes aparecem efeitos que não apareceram antes.

    Carol: Do outro lado, cientistas teóricos trabalham com dados, monitorando pelo computador a evolução da doença e fazendo previsões para o futuro. Sobre isso, o Rafael Izbicki, estatístico e professor da Universidade Federal de São Carlos tem algo a nos falar.

    Rafael: O estatístico ele tem, de fato, um papel central aí na ciência e em particular agora durante a pandemia. Existem, por exemplo, esses diferentes modelos de como a doença se espalha e esses modelos são desenvolvidos em conjuntamente por estatísticos, epidemiologistas, virologistas, médicos. E o papel do estatístico está tanto no desenho de experimentos e entender como você deve coletar dados pra corroborar diferentes modelos, como também, uma vez que você tem os dados, como que você pega esses dados e transforma eles em informação útil. Em vários outros aspectos o estatístico também ajuda muito. Quando você quer saber se um medicamento novo funciona ou não funciona pra combater o coronavírus, você precisa também de um estatístico pra tentar criar um experimento adequado para  responder a essa pergunta.E depois, uma vez coletados esses dados, o estatístico ajuda a responder essas perguntas olhando pra esses dados.

    Carol: E na contra-mão dos estereótipos, também existem os cientistas que não precisam necessariamente do jaleco e da bancada. É o que conta o Rafael.

    Rafael: O dia-a-dia da pesquisa de um estatístico é , em geral, na frente de um computador e com papel e caneta. Isso porque a grande massa da pesquisa que a gente faz consiste em resolver problemas de outros cientistas que não conseguem ser resolvidos com as técnicas usuais de estatística, os métodos que já existem. Então a gente precisa criar métodos novos pra resolver esses problemas e isso envolve muita matemática e muita computação.

    Carol: Trabalhos desse tipo têm orientado as políticas públicas de diversos países. Pesquisadores da Imperial College em Londres, por exemplo, têm feito previsões sobre o futuro de vários países caso medidas de mitigação da doença sejam tomadas ou não. No entanto, a situação e os dados mudam constantemente, afinal, previsões são previsões. 

    Rafael: Os modelos de previsão de quantos óbitos vão acontecer e quando vão acontecer os picos eles, de fato, mudam muito. A primeira coisa a se entender é que modelos são simplificações da realidade que fazem uma série de pressupostos. Em geral, eles assumem uma certa condição e dão as predições sobre aquela condição. O que acontece é que, na prática, essa situação ela é dinâmica. Se, de repente, todo mundo começa a sair na rua, é óbvio que vai aumentar o número de mortos, enquanto que o modelo que assume que todo mundo tá em quarentena não vai conseguir predizer isso. O segundo motivo é que, mesmo que as suposições de um modelo forem todas razoáveis, os modelos eles dependem de quantidades que são desconhecidas. Por exemplo, uma pessoa que está infectada por coronavírus, transmite o vírus em média pra quantas pessoas? Quantas pessoas vão ter sintomas? Quantas vão vir à óbito? Então existe uma série de fatores que são desconhecidos e esses fatores, em geral, eles são estimados. Mas as estimativas elas são estimativas, elas não são os valores reais dessas quantidades. São por esses motivos que os modelos variam tanto. E isso não quer dizer que os modelos são inúteis. Na verdade, o contrário. Os modelos eles são úteis pra sintetizar toda a informação que você tem nos dados e o modelo é uma forma de simplificar isso pra que você possa tomar políticas públicas de forma mais bem informada.

    Carol: A forma como as pesquisas aconteciam anteriormente mudaram muito com a Covid-19. Muitos laboratórios precisaram interromper as atividades práticas devido às medidas necessárias de distanciamento social. Outros precisaram continuar funcionando por realizarem estudos que podem mudar os rumos da pandemia. Desse grupo, há os que já desenvolviam pesquisas em áreas similares, por exemplo, e os que estão ligados ao mercado, com outra lógica. As qualificações dos trabalhos, defesas de tese, reuniões e muito mais, precisaram se adaptar ao digital. Muitos professores têm orientado os trabalhos à distância. Ao mesmo tempo, vários estudantes precisaram realizar a etapa de defesa do seu trabalho de forma remota para adquirir o título de doutor ou mestre. Perguntamos para o Rafael como ele e seu grupo estão dando continuidade aos trabalhos de forma remota. 

    Rafael: As reuniões de pesquisa que eu faço continuam acontecendo quase que normalmente. A diferença é que ao invés do trabalho ser presencial, ele é à distância. É claro que a distância muda um pouco a dinâmica do trabalho, ele de certa forma fica menos espontâneo e a gente acaba perdendo um pouco da criatividade que a pesquisa exige. Muitas vezes as grandes ideias elas aparecem quando a gente tá tomando café ou discutindo algum outro assunto. Quando a gente faz a reunião à distância isso acaba se perdendo, mas as pesquisas continuam andando de forma quase que normal. A pandemia, por outro lado, acabou trazendo pra pesquisa uma nova perspectiva em termos de acesso ao que está sendo feito em outros locais. Em geral, os departamentos costumam ter seminários periódicos nos quais as pessoas são convidadas pra mostrar o que estão fazendo e, em geral, como esses seminários são presenciais, as pessoas que apresentam são pessoas do próprio país, da região onde o departamento está instalado. Mas com a pandemia, esses seminários começaram a ser transmitidos de forma online, e isso fez com que pessoas de diversos países pudessem participar de seminários em outros locais, sem nenhum custo. 

    Carol: E o que podemos esperar da produção científica em um futuro pós-Covid?

    Natalia: O que eu gostaria de esperar da produção científica é que ela, primeiro, seja mais científica. A gente está vendo muito paper ruim agora na época da Covid, muitas coisas feitas às pressas, muita coisa feita sem critério, sem rigor metodológico, então eu gostaria que isso acabasse e a gente voltasse a ter um pouco mais de rigor. A gente precisa pensar também em mecanismos de vigilância epidemiológica pra que a gente possa rastrear possíveis novas ameaças e não ficar tão vulnerável em uma próxima vez. E isso tudo precisa de investimento contínuo em ciência. Não pode ser esse investimento em soluços que a gente está acostumado. A gente não pode ser tão reativo, a gente vai ter que ser mais proativo. Não é questão de prever o futuro, porque, óbvio que  a gente não tem bola de cristal, mas de estar minimamente preparado e, às vezes, com a sensação sim de que “a gente não está com nenhuma emergência pra enfrentar, por que a gente está investindo dinheiro nisso?” Porque a nossa ciência não pode mais funcionar só reagindo à demandas. A gente realmente precisa começar a prever o que é importante, o que é de base e, de repente, num mundo em que a gente vive hoje – que é um mundo em que a gente está explorando cada vez mais de forma predatória a probabilidade da gente encontrar com novas doenças emergentes é muito real, não só de vírus, mas de bactérias e outros parasitas também, então a gente tem que estar preparado com biotecnologia sustentável pro momento onde isso acontecer. 

    Carol: Ao contrário do que lemos nos contos de Sherlock Holmes, os cientistas são pessoas comuns muito mais próximas de nós do que podemos imaginar e diferem bastante dos estereótipos dos filmes e livros. Eles estão nas universidades, institutos de pesquisa, empresas e diversas organizações pelo mundo. São estudantes de iniciação científica da graduação, mestres, doutores, professores e pesquisadores. São trabalhadores, com compromissos como outros profissionais e cidadãos. Claro que eles apresentam algumas particularidades em seu perfil, como a curiosidade, o interesse em pesquisar coisas novas, em desvendar mistérios da natureza ou criados pelos homens, ou seja, um pouco do que faz mesmo o personagem que demos destaque neste episódio.

    E também como outros ambientes de trabalho, a ciência precisa de investimentos. E não são poucos. Laboratórios exigem uma quantidade de equipamentos que são caros, na maioria das vezes. Pesquisas precisam de insumos, que vão desde reagentes à medidas de análise, que podem ser caras, não estarem disponíveis em qualquer lugar e precisarem ser importadas em várias situações. A pesquisa precisa de muitos trabalhadores, equipes cada vez mais multidisciplinares e bem formadas. Ou seja, é necessário investir em ciência para tomarmos decisões baseadas em evidências. Em meio à pandemia, uma saída efetiva é encontrar uma vacina que seja eficiente e segura contra a doença, mas é preciso apostar em pessoas qualificadas para realizar esse trabalho. Enquanto acompanhamos as notícias, essas pessoas estão nos bastidores da ciência, encarando diversos desafios para fazer do mundo um lugar melhor para todos. 

    Carol: Apesar da distância física, espero que a mensagem chegue até você, nessa grande rede digital. Estamos juntos, mesmo cada um na sua casa. Por trás ou não dos bastidores, em um abraço virtual.

    Eu sou a Carol e esse foi o QUARENTENA.

    Fontes:

    INSEAD. The Global Talent Competitiveness Index 2020. Disponível em <https://www.insead.edu/sites/default/files/assets/dept/globalindices/docs/GTCI-2020-report.pdf>. Acesso: 03/07/2020

    Clarivate Analytics. Research In Brazil: Funding Excellence. Disponível em: <https://jornal.usp.br/wp-content/uploads/2019/09/ClarivateReport_2013-2018.pdf>. Acesso: 01/07/2020

    Músicas: 

    One Little Triumph by The Bulwark

    Tidal Foam by Macrame

    Bundt by Confectionary

    Plasticity by Radiopink

    Disponíveis em Blue Dot Sessions: <https://www.sessions.blue/>

     

    24 min
  • # 96 Série Corpo – episódio 5 – O peso do peso

    Obesidade, corpo gordo, plus size. Para falar sobre peso corporal precisamos ir além da balança. Em “O peso do peso”, a gente navega pela história da Júlia, uma professora de balé que ensina outros tipos de corpos a dançar, e discute os vários sentidos do corpo gordo a partir da fisiologia do exercício e da história do peso no Brasil. Participaram do episódio a Cláudia Cavaglieri, da Faculdade de Educação Física da Unicamp, e Denise Bernuzzi de Sant’Anna, historiadora da PUC São Paulo. A série Corpo faz parte do projeto “Histórias para pensar o corpo na ciência”, que é financiado pela FAPESP (2019/18823-0) e coordenado pelo professor Bruno Rodrigues (FEF/Unicamp).

    Segue o roteiro completo.

    SAMUEL RIBEIRO – Oi. O que você tá ouvindo é uma apresentação de balé. O som vem de um vídeo, que eu quero que você imagine aí. Fecha os olhos. Tem a plateia, as cortinas, a iluminação… e no meio do palco uma bailarina profissional, graciosa, dançando na ponta dos pés. Visualizou?

    Agora diz pra mim: como é que era o corpo dessa bailarina? Ela era magra, gorda, musculosa? E por que que você imaginou ela desse jeito?

    Eu sou Samuel Ribeiro e este é o Corpo, podcast que fala de histórias e de movimento humano. E a gente começa com a Júlia… a bailarina.

    JÚLIA DEL BIANCO – Meu nome é Júlia Del Bianco, eu sou bailarina, professora de dança, e também sou modelo plus size e influenciadora digital.

    SAMUEL – A Júlia faz balé clássico desde criança e se formou em Dança na Unicamp. Ela já deu aula em escolas e ONGs, e é fundadora da Dance for Plus, uma escola itinerante que traz a dança pra quem não se encaixa nos padrões de corpo daquela bailarina… que muita gente deve ter imaginado junto com a música.

    O trabalho da Júlia segue na linha de todo um movimento que aconteceu nas últimas décadas, e que luta contra o preconceito e a estigmatização do corpo gordo. E tem a ver também com as experiências que ela viveu quando era aluna de balé…

    JÚLIA – Eu hoje, eu olhando as minhas fotos, eu considero que eu era uma pessoa magra. Mas eu sempre tive mais peito, mais coxa, é, mais bunda, e pra uma bailarina isso não é aceitável. Mas quando eu comecei a dançar era uma coisa assim, que você tinha que ser uma tábua assim, sem nada.

    Então eu era essa pessoa um pouquinho mais curvilínea no meio de um monte de bailarinas que eram mais retas, assim, com o corpo mais reto. Então eu sempre tive um corpo fora do padrão do balé.

    SAMUEL – A Júlia tinha um dilema ali na adolescência: ela era uma bailarina e se dedicava nos treinos e nos ensaios, só que ao mesmo tempo o ambiente do balé tava ali dizendo que o corpo dela… não era corpo de bailarina.

    Bom, o tempo foi passando e a Júlia engordou…

    JÚLIA – … só que daí eu comecei a perceber um outro lado. Eu comecei a perceber um lado de que eu ia comprar roupa e eu não tinha roupa pra eu comprar, mesmo que fosse de ginástica pra eu querer fazer alguma coisa pra emagrecer, entendeu?

    SAMUEL – E começou a sentir na pele uma série de outras pressões por causa do corpo, inclusive questões de acessibilidade…

    JÚLIA – Acessibilidade de as vezes não caber nos lugares, de… eu sempre dancei, sempre fui ativa, mas eu era tida como sedentária. Então eu comecei a ver um outro lado da moeda né.

    SAMUEL – Aí, vendo esse outro lado da moeda, ela virou professora e quis ensinar dança de um jeito que não deixasse ninguém de fora. E além de ajudar as alunas, ela também acabou se ajudando muito nesse processo.

    JÚLIA – … eu comecei a ver que eu tinha um impacto muito grande nas minhas alunas, né, e que elas melhoravam a autoestima delas.

    SAMUEL – A Júlia pensou…

    JÚLIA – … “nossa, mas eu faço tão bem pra elas, né, e eu tô aqui em um processo tão autodestrutivo né, me odiando tanto”. Daí foi um começo assim.

    … a dança ela é uma coisa que… cê me pergunta “mas como que você não desistiu?”, eu falo “não sei”, porque pra mim dançar, o movimento, me expressar, é uma coisa que eu me sinto muito bem, muito completa, então me satisfaz muito fazer aula, ir pro palco. E eu fico muito triste quando as pessoas não fazem ou são impedidas de fazer isso.

    SAMUEL – Falar sobre corpo gordo dentro da Educação Física costuma ser complicado. Muita gente tem estudado a parte cultural e social sobre os diferentes corpos e o movimento humano. A gente também tem todo um acúmulo da ciência mais biológica olhando as questões de saúde ligadas ao excesso de peso e à obesidade. E nos dois casos, toda hora, tem estudo novo saindo!

    Pra completar, no dia a dia de quem estuda e trabalha na área acabam aparecendo também ideias que vêm do senso comum, preconceitos, coisas que aparecem na mídia… não é tão simples como parece.

    Por clarear um pouco tudo isso eu fui conversar com a Claudia…

    CLÁUDIA REGINA CAVAGLIERI – Bom, eu sou a professora Claudia Cavaglieri, eu sou professora da Faculdade de Educação Física da Unicamp e trabalho no Laboratório de Fisiologia do Exercício.

    SAMUEL – Ela já apareceu aqui no podcast, lá no primeiro episódio. A gente voltou a conversar porque faz anos que ela estuda os efeitos do treinamento físico na saúde de pessoas obesas e com sobrepeso.

    No geral, as pesquisas dela olham para os efeitos do exercício físico na saúde dessas pessoas a partir de marcadores bioquímicos, do que acontece lá nas células e que pode ser medido por substâncias presentes no corpo.

    CLÁUDIA – Nosso grupo ele não está preocupado com as questões estéticas. A nossa grande preocupação é exatamente a relação do excesso de peso e da obesidade com o aumento de risco de doenças, né.

    SAMUEL – Aqui a gente tá falando de doenças crônicas, tipo diabetes e hipertensão, que precisam de tratamento contínuo e podem diminuir a qualidade de vida ou até levar a uma morte precoce.

    A Organização Mundial da Saúde diz que são mais de 2 bilhões de pessoas no mundo com excesso de peso, 600 milhões obesas. E no Brasil os dados recentes da pesquisa Vigitel 2019, do Ministério da Saúde, apontam para mais de 55% da população brasileira com excesso de peso…

    CLÁUDIA – Você imagine, mais da metade da população brasileira. Enquanto que 20% da população já é obesa. Então realmente é um problema seríssimo, né, e nós precisamos de alguma maneira contribuir, estudar e entender porque que tá acontecendo esse aumento de obesidade na população como um todo.

    SAMUEL – Aqui a gente tá falando de um problema de saúde pública e que vai bem além dos indivíduos, porque envolve fatores sociais, econômicos, culturais, psicológicos, enfim, é muito mais complexo do que colocar tudo na conta de uma ABRE ASPAS falta de vontade.

    Por exemplo, quando a gente pensa no aumento do sedentarismo, não dá pra deixar de pensar em questões socioeconômicas e em como é o ritmo da vida das pessoas…

    CLÁUDIA – … especialmente as pessoas que vivem nas grandes cidades, né. Elas gastam muito tempo em deslocamento, trabalho, e isso faz com que cada vez ela tenha menos tempo pra poder fazer algum tipo de exercício e cuidar da própria saúde.

    SAMUEL – Tem também o aumento do consumo dos alimentos ultraprocessados, que são rápidos e baratos mas muito pouco saudáveis; e a falta de espaços e políticas públicas pro lazer e pra prática de atividade física.

    Em alguns casos há fatores genéticos e hormonais que resultam no excesso de peso. Também tem fatores psicológicos… E até os fatores históricos influenciam, já que as mudanças nas tecnologias contribuíram pra gente gastar cada vez menos energia no nosso dia a dia. Coisas bobas mesmo: tenta lembrar como era o gesto de abrir a janela do carro com a manivela.

    Aliás, energia é a chave pra gente entender o que faz a gente engordar. Pra resumir a história, o que o corpo faz é transformar em gordura as calorias que a gente ingere além do necessário, e aí ele armazena essa gordura no tecido adiposo pra gente usar depois em caso de necessidade… o que faz todo o sentido na nossa evolução, porque os nossos antepassados não tinham tanta alimento disponível como a gente tem hoje.

    CLÁUDIA – A glicose é o principal substrato energético do nosso organismo, mas os estoques que a gente tem de glicose eles são baixos, eles duram muito pouco tempo. Então a nossa principal fonte de energia pra esses períodos de estresse prolongado, ou de jejum prolongado é a gordura. Então o tecido adiposo branco, que é a nossa dobrinha, né, que é as nossas gordurinhas que aparecem externamente, é um tecido de estoque de energia.

    SAMUEL – As células do tecido adiposo funcionam como um baú, uma caixinha pra guardar energia.

    CLÁUDIA – Cada célula ela tem uma capacidade de estoque de gordura, e à medida em que ela vai aumentando esses estoques, algumas dessas células elas entram em sofrimento.

    SAMUEL – Conforme as caixinhas vão enchendo de gordura, duas coisas acontecem: elas se multiplicam, aumentam de quantidade, e vão também aumentando de tamanho. Só que como essas células são pouco vascularizadas e têm poucas mitocôndrias, essa expansão toda vai virando um problema.

    CLÁUDIA – … o que que vai acontecer? Elas acabam ficando muito distantes do vaso sanguíneo e têm dificuldade de receber oxigênio. Então elas entram num processo de sofrimento. E ao entrar nesse processo de sofrimento, elas acabam gerando substâncias químicas que ativam o sistema imunológico…

    SAMUEL – … e o sistema imunológico vai pra cima do tecido adiposo, porque ele não consegue diferenciar esse sufocamento da célula de outros ataques, tipo uma bactéria, por exemplo. O resultado disso é o começo de uma inflamação local.

    CLÁUDIA – Então o indivíduo com excesso de peso, o indivíduo obeso, ele acaba gerando, tendo uma inflamação subclínica. Que não é uma inflamação do tipo “ai eu dei uma pancada na perna e tô com a minha perna inflamada”, que é poucos dias, né, cinco dias passa o problema. Essa inflamação é uma inflamação que ocorre todo dia. Ele fica constantemente inflamado.

    SAMUEL – Começa a rolar interferências em outros tecidos do organismo. A inflamação contínua favorece o surgimento de problemas cardiovasculares, por exemplo, e impacta também na nossa sensibilidade a insulina, podendo levar ao diabetes.

    Ah, um parênteses. Pra completar o cenário ainda tem mais uma coisa importante que a Cláudia me explicou: mais do que armazenar energia, o tecido adiposo é um órgão endócrino e secreta substâncias que têm funções no organismo, tipo a leptina por exemplo, que atua lá no cérebro no controle da fome e da saciedade.

    Então quando esse tecido aumenta demais e aquele quadro de inflamação se instala, a tendência é que ocorra mudanças em vários aspectos do organismo.

    Entendendo tudo isso, o que a Cláudia e outros pesquisadores têm feito é ver como o exercício pode ser usado pra diminuir os marcadores de inflamação nas pessoas obesas ou com sobrepeso, já que eles estão associados às doenças graves que preocupam tanto.

    CLÁUDIA – Então um dos primeiros projetos nossos era com indivíduos com excesso de peso…

    SAMUEL – … a Cláudia fez esse primeiro estudo junto com a Mara Patrícia Chacon-Mikahil, também do Laboratório de Fisiologia. O objetivo era ver se o treinamento combinado – que é aquele que mistura exercício aeróbico com exercício de força – diminuía a inflamação. Isso sem mexer em nada na dieta dos participantes, porque a ideia era isolar os efeitos do exercício. Só que aí…

    CLÁUDIA – … a gente viu que o indivíduo com excesso de peso com meia idade, 16 semanas de treinamento não conseguiram mostrar pra nós uma alteração significante. Mas aí nós tivemos uma dúvida: será que era realmente o tempo do treinamento, ou o próprio treino, ou era porque eles não tinham uma inflamação subclínica com alterações significantes?

    SAMUEL – Passa pro próximo estudo. Agora a pesquisa foi ser feita em cima de uma população realmente obesa…

    CLÁUDIA – E nós ampliamos de 16 semanas pra 24 semanas de treinamento, e o que que a gente observou depois de 24 semanas? Realmente, eles já tinham alterações importantíssimas desses marcadores inflamatórios, e depois de 24 semanas o exercício conseguiu realmente promover o efeito anti-inflamatório.

    SAMUEL – Sucesso! Aí teve mais uma pesquisa nessa linha, que terminou no ano passado, dessa vez com obesos que já tinham desenvolvido diabetes tipo II. E além da redução da inflamação e da melhora da diabetes, teve uma outra coisa que chamou a atenção da Cláudia e da equipe da pesquisa…

    CLÁUDIA – Nós fizemos biópsia do tecido adiposo deles subcutâneo, e vimos que o exercício físico conseguia modular, né, o que a gente chama hoje de browning do tecido adiposo. Que que é isso? Mudar o tecido adiposo branco, que eu disse que tinha poucas mitocôndrias, pra um tecido adiposo que a gente chama de intermediário, tecido adiposo bege.

    Ele desenvolve mais mitocôndrias, ele gasta mais energia gerando mais calor, e isso pode ser um fator que contribui para que o exercício físico leve a esta perda de massa gorda nesse indivíduo.

    SAMUEL – O interessante aqui é notar que a preocupação principal das pesquisas era a diminuição da inflamação pra reduzir os riscos à saúde, e não um emagrecimento radical e a todo custo. Claro, com o treinamento combinado usado no estudo o corpo tende a mudar, mas isso não é necessariamente sinônimo de uma grande perda de peso…

    CLÁUDIA – O que se tem mesmo de mudança é da composição corporal. A gente substitui. O indivíduo ele perde porcentagem de gordura, e substitui pela massa muscular, o que é extremamente favorável, por que? Porque hoje o músculo, além dele ser responsável pela nossa mobilidade, né, da contração, ele também é considerado um órgão endócrino, e ele produz substâncias, proteínas que são citocinas anti-inflamatórias.

    SAMUEL – E essas substâncias, produzidas por conta do exercício, vão neutralizar as substâncias inflamatórias que tão sendo produzidas no sofrimento do tecido adiposo. Tipo uma guerra mesmo, que acontece dentro do nosso organismo.

    CLÁUDIA – Então por isso que o treinamento combinado tem esses efeitos muito benéficos, porque ele associa a perda de gordura com a massa magra. Eu estou diminuindo as citocinas inflamatórias, estou aumentando as anti-inflamatórias. E com isso, né, eu melhoro a sensibilidade do receptor de insulina, eu diminuo a pressão arterial, e todos os outros benefícios bioquímicos desse tipo de treinamento.

    SAMUEL – Beleza. Não é novidade pra ninguém (e eu sempre repito isso por aqui) que o exercício físico feito de forma adequada faz bem pra todo mundo. Altos e baixos, jovens e velhos, gordos e magros… todo mundo se beneficia. A gente tá cansado de escutar isso.

    E no caso do corpo gordo – esse do sobrepeso ou da obesidade –, o exercício tem o plus de poder diminuir a inflamação que é típica do aumento da gordura. Saber disso pode ajudar a melhorar a qualidade de vida das pessoas. Maaaaas… se a coisa fosse simples, nem virava assunto aqui no podcast.

    A gente volta pra Júlia, que me contou um pouco sobre as barreiras que as pessoas gordas enfrentam.

    JÚLIA – Às vezes a pessoa ela vem lá da escolinha que ela era escolhida pra ficar no gol porque vai tampar o gol, porque ela é gorda. “Ah não, eu não vou te escolher porque você é muito lento, você não vai conseguir correr”. Então a pessoa as vezes ela nem quer ir fazer exercício porque olha o tanto de impedimento que ela tem, lá de criança ela já sofria todas essas coisas, “ah você não vai fazer balé porque bailarina gorda não existe”. Daí ela quer fazer alguma coisa, ela não acha roupa, ela não acha um lugar que acolha ela, ela não acha um professor que entenda as coisas que ela tá passando, então é uma coisa muito complexa, de social assim.

    SAMUEL – Pra mim, que sou um cara magro, das ciências humanas e meio intruso no mundo da Educação Física, isso é algo que sempre chamou a atenção. A ciência da área e a nossa própria formação reforçam a todo momento que a pessoa gorda precisa fazer exercício, só que ao mesmo tempo o corpo gordo nem sempre é bem-vindo em alguns ambientes de prática. É estigmatizado, estereotipado, subestimado e vira xingamento.

    JÚLIA – Sem contar nas piadas as vezes, né? Nos memes que as pessoas colocam. Todo lugar tem uma rede social, e as vezes colocam uns memes que você olha e fala assim “cara, não”, sabe? Acabei de ver, teve uma academia grande que colocou uma pessoa gorda, deitada, cheia de porcariada assim, de junk food, e olhando pra uma live e meio que fazendo, sabe? Então é aquele estereótipo que o gordo só come porcaria, o gordo só fica deitado com um monte de porcaria, e a gente sabe que não é assim, né?

    SAMUEL – Afinal, nós que somos professores e profissionais da Educação Física queremos ou não queremos que o corpo gordo se movimente?

    JÚLIA – Aí a pessoa abre a rede social, tá aquela imagem lá, super errada assim, então imagina o que que isso faz na cabeça da pessoa. A pessoa vai falar assim “não, isso não é pra mim, atividade física não é pra mim, o meu é esse negócio aí do jeito que eles tão falando”, né.

    … as vezes o profissional que tá dando a aula, as vezes ele é muito bem preparado, mas as vezes ele não tem a empatia de olhar para aquele corpo gordo e pensar que ele é um corpo potente e ele é um corpo limitado, como qualquer outro, né. Então essa empatia assim de saber que, é, algumas coisas vão ter que ser diferentes, assim como… eu acho que em qualquer corpo na verdade, né.

    Dificilmente uma pessoa pensaria em uma bailarina gorda, é uma coisa meio absurda pro estereótipo, se você for pensar. Mas estamos aqui pra provar que é possível [RISOS].

    DENISE BERNUZZI DE SANT’ANNA – Olha, peso é uma… é uma ideia histórica porque a maneira de medir o peso e de perceber o que que é pesado, leve, gordo e magro, isso mudou muito ao longo da história. Ao longo da história e entre as várias sociedades.

    SAMUEL – Essa é a Denise Bernuzzi de Sant’Anna, historiadora e professora da PUC São Paulo. Ela é autora do livro “Gordos, Magros e Obesos: uma história do peso no Brasil”.

    DENISE – … a primeira pergunta que eu fiz foi essa aliás: será que hoje tem mais gente gorda ou é a nossa percepção que mudou? Ou são essas duas coisas? Então essa pergunta foi o início do meu trabalho.

    SAMUEL – Eu fui conversar com ela pra tentar entender esses vários sentidos sobre o peso do corpo. Com a Cláudia eu falei de obesidade e sobrepeso, a Júlia é uma modelo plus size, e mesmo a palavra ‘gordo’ pode significar orgulho ou desdém, elogio ou xingamento, dependendo da entonação e de quem tá falando. Não é fácil!

    A pesquisa da Denise olhou para os vários jeitos de perceber e nomear as questões do peso do corpo ao longo da história brasileira. Ela me contou que coisas simples, como a popularização da balança nos anos 1960, mudaram a relação das pessoas com o peso. Antes disso as pessoas se pesavam menos… era uma coisa mais de consulta médica do que do cotidiano.

    DENISE – Então como é que se sabia que era gordo e magro? Era mais ou menos pelo que se via, pelo volume do corpo, mais até do que pelo peso. O peso era suposto, não é, ele não era medido… não fazia parte da identidade das pessoas dizer assim “ah eu sou uma pessoa que peso 60 quilos, 70 quilos”.

    SAMUEL – Na mesma época dessa popularização da balança começam a se popularizar também as ideias médicas de que ser gordo traz riscos de doenças. A palavra obesidade vai ganhando mais força, e a figura do gordo começou a aparecer na imprensa muito mais do que aparecia antes. A Denise queria entender melhor essa mudança de percepção…

    DENISE – Foi assim: eu tava muito mais interessada em perceber como é que o gordo se tornou uma figura tão discutida, problematizada, debatida, porque antes cê não via ele muito nos jornais e nas revistas, e de repente começa a ver. Então o que que aconteceu? E aí eu me deparei também com alguns debates sobre a magreza.

    SAMUEL – Até os anos 30, por exemplo, não existia muita preocupação com quem era gordo…

    DENISE – … se falava do problema daqueles que eram muito gordos. Não se usava a palavra obesidade com muita frequência. “Os muitos gordos poderão ter problemas de saúde”, mas também não diziam quais eram, se eram muitos esses problemas. Agora os gordos figuravam num território onde não havia muita análise, e os magros é que eram mais problemáticos, porque o Brasil naquela época que era mais rural do que urbano…

    SAMUEL – O magro ou magricela lembrava o Jeca Tatu do Monteiro Lobato, que era o estereótipo do Brasil atrasado e pobre, com fome e verminose… doente.

    DENISE – Então se desconfiava mais do magro do que o do gordo. Não que não tivesse problema os gordos, mas digamos que a balança negativa pendia mais pro lado do magricela. E aí você encontra várias propagandas de remédio pra engordar, no Brasil. Pras mulheres, pra ter anca, pra ter peito, não é, pra ser mais cheinha de corpo, que a mulher varapau, a Olívia Palito, não é possível um negócio desse.

    SAMUEL – Dos anos 60 pra frente, com um estilo de vida cada vez mais urbano no Brasil, as visões sobre o peso foram mudando.

    DENISE – … o homem que era tido como um comilão, um glutão como se dizia, ou mesmo a mulher, a glutona, ela era as vezes mal vista porque ela comia demais, era muito glutona e tal. Mas parava por aí. Agora eles são vistos como doentes, aqueles que têm problemas cardiovasculares, que depois têm problema de diabetes e etc. Então do glutão você vai pro doente.

    SAMUEL – Com o passar dos anos, termos como sobrepeso, obesidade mórbida e cirurgia bariátrica foram aparecendo mais e ficando mais comuns no dia a dia das pessoas. A magreza também teve seus altos e baixos: do magro miserável do Brasil rural a gente passou pra magreza considerada bela, e lá nos anos 1980 chega um novo termo: anorexia.

    Esse desfile de palavras, no final das contas, acaba sendo um indicador de que a importância da nossa aparência e do nosso peso pra nossa identidade foi crescendo cada vez mais nas últimas décadas.

    DENISE – … da ideia de que o corpo que eu sou é o corpo que eu tenho e é o corpo que na verdade designa pela aparência a minha identidade. Então eu mostro ser aquilo que eu sou na grande profundidade do meu ser.

    Eu pelo corpo, não é nem a roupa, é o corpo mesmo, o seminu ou corpo nu, eu mostro aquilo que eu sou, né. Se eu sou forte, não só fisicamente mas também mentalmente, se eu sou uma pessoa de sucesso, se eu sou saudável, então o corpo se torna sua principal carta de identidade. E isso é uma tendência que desfavorece qualquer, digamos assim, qualquer fora do padrão, não é.

    SAMUEL – Mas aí, como a coisa tá sempre em movimento e mesmo esse padrão foi construído ao longo do tempo, hoje a gente tem várias outras identidades lutando por espaço. Tem movimentos de afirmação do corpo gordo e que lutam contra a gordofobia (olhas as palavras aí!). Ou mesmo a ideia de plus size, que começou na moda, foi ganhando força e hoje é todo uma rede de produtos, serviços e conteúdos voltados às pessoas gordas.

    No final da minha conversa com a Denise, eu perguntei pra ela qual tinha sido a resposta dela pro problema da pesquisa: afinal, tem mais pessoas gordas ou a gente que começou a olhar mais pro peso do corpo?

    DENISE – … a minha resposta é exatamente dupla. Nós vemos mais, por inúmeras razões, até porque se sai mais na rua hoje, as mulheres sobretudo saem mais na rua do que em 1900, mas não só por isso porque de fato as pessoas, se compararmos, elas são mais gordas, no total no geral.

    … a alimentação do brasileiro, a partir da década de 80, se tornou muito mais industrializada, há muito mais alimentos processados e há uma inversão na sociedade que eu coloco no livro.

    SAMUEL – Se antes o excesso de gordura era mais comum entre os mais ricos, que podiam comer mais, agora é muito mais comum entre os mais pobres, que comem alimentos de menor qualidade, mais baratos e fáceis de encontrar. Isso tem a ver com o que a Cláudia me explicou antes, da obesidade ser uma questão multifatorial.

    DENISE – Então assim, não é porque nós vamos fazer movimentos afirmativos em relação ao corpo gordo que nós vamos deixar de fazer a crítica que precisa ser feita econômica e socialmente, de uma desigualdade alimentar, trágica, na sociedade, que é: os alimentos mais saudáveis são os mais caros, são os mais difíceis de achar em determinados bairros, em determinadas regiões.

    Depois, uma pessoa que trabalha o dia todo, como por exemplo… sei lá… sentada, como caixa de supermercado ou coisa do tipo, vai chegar em casa exausta, não vai querer fazer exercício e vai querer comer a primeira pizza congelada que vê, e tá certo, porque afinal de contas tá cansada e merece alguma coisa que é quase como um presente ali.

    Então não é fácil dizer assim “ah ela não quer fazer exercício, ela não quer se alimentar”. Não se trata de um querer aí, não é, nós tendemos a culpar as pessoas. O problema é a sociedade, é a desigualdade de distribuição alimentar que ainda existe nesse país.

    Parte 5

    SAMUEL – O episódio fica por aqui. Corpo é uma produção do podcast Oxigênio, do Labjor/Unicamp, e faz parte do projeto “Histórias para pensar o corpo na ciência”, que é feito na Faculdade de Educação Física e tem financiamento da FAPESP.

    SAMUEL – A idealização, produção, entrevistas, roteiro e edição desse programa foram feitas por mim, Samuel Ribeiro. O projeto é coordenado pelo professor Bruno Rodrigues da FEF e supervisionado pela Marina Gomes do Labjor. Quem coordena o Oxigênio é a professora Simone Palone, também do Labjor.

    SAMUEL – Se você gostou do episódio, tem alguma pergunta ou acha que faltou falar alguma coisa, manda um recado lá nas nossas redes sociais. A gente tá no Facebook, Instagram e Twitter, é só procurar por Corpo Podcast. Até a próxima!

    Imagem

    Reprodução (detalhe) de “The dancers” (1987), de Fernando Botero.

    Músicas

    “Setting Pace”, “Jog to the Water”, “Lakeside Path” by Duck Lake.

    Blue Dot Sessions (https://www.sessions.blue).

    27 min
  • #95 Quarentena – Envelhe(ser)

    Nesta pandemia, os cuidados com os idosos precisam ser redobrados! Questões sobre as necessidades especiais, o distanciamento social e as políticas públicas necessárias para assistir essa parte da população são discutidas nesse terceiro episódio da série Quarentena. Foram entrevistados os especialistas: Karina Gramani Say, fisioterapeuta e professora do departamento de Gerontologia da UFSCar; Marco Túlio Cintra, médico geriatra, professor da UFMG e presidente da Sociedade Brasileira de Geriatria e Gerontologia em Minas Gerais; e Maria Santos, filha da Dona Joana (81 anos) e muito experiente no cuidado de pais idosos. 

    Carol: Desde que passamos a existir, atravessamos as mais diferentes fases da vida. Vida essa com início, meio e fim. Nascemos necessitando de cuidados alheios. Depois, ao crescer, nos tornamos independentes. Mas ao envelhecer, uma parte da independência vai embora e a necessidade de cuidados alheios volta, em maior ou menor intensidade.

    Em tempos de pandemia do novo coronavírus, o cuidado com o outro se torna ainda mais importante, especialmente com aqueles que já atingiram a terceira idade. Segundo a Organização Mundial de Saúde, a OMS, essa fase se inicia por volta dos 60 anos, variando entre os países. No Brasil, a estimativa de vida é de cerca de 72 anos para os homens e 79 para as mulheres, segundo o IBGE. Essa diferença é chamada de sobremortalidade masculina, e as razões que definem esses números são várias, entre elas as causas não naturais, como a violência e os acidentes de trânsito. Mas se por um lado temos observado diversos familiares preocupados com seus entes de mais idade, de outro vemos um crescente retrato do abandono.

    Carol: Você está ouvindo o QUARENTENA. Eu sou a Carol e no episódio de hoje falaremos sobre a velhice em tempos de pandemia.

    No conto “Feliz aniversário”, a escritora Clarice Lispector retrata a velhice e as relações familiares. Descrevendo o ambiente da comemoração dos 89 anos da dona Anita, Clarice ressalta algumas situações que, às vezes, chegam junto com a idade: a presença familiar por obrigação, a falta de colaboração entre os filhos e a inversão de papéis.

    E quando a mesa estava imunda, as mães enervadas com o barulho que os filhos faziam, enquanto as avós se recostavam complacentes nas cadeiras, então fecharam a inútil luz do corredor para acender a vela do bolo, uma vela grande com um papelzinho colado onde estava escrito “89″. Mas ninguém elogiou a idéia de Zilda, e ela se perguntou angustiada se eles não estariam pensando que fora por economia de velas — ninguém se lembrando de que ninguém havia contribuído com uma caixa de fósforos sequer para a comida da festa que ela, Zilda, servia como uma escrava, os pés exaustos e o coração revoltado. Então acenderam a vela. E então José, o líder, cantou com muita força, entusiasmando com um olhar autoritário os mais hesitantes ou surpreendidos, “vamos! todos de uma vez!” — e todos de repente começaram a cantar alto como soldados:  

     

    Happy birthday to you / Parabéns pra você / Muitas felicidades / Muitos anos de vida

    Carol: Vemos que a dona Anita do conto chegou aos 89 anos, uma idade já acima da expectativa média de vida para as mulheres brasileiras. Segundo o IBGE, cerca de 14% da população brasileira é composta de idosos, um número que está por volta de 30 milhões de pessoas. Falamos tanto sobre envelhecer, mas o que de fato significa isso? A palavra da vez está com a Karina Gramani Say do departamento de gerontologia da UFSCar.

    Karina: Primeiro é importante a gente entender que velhice é uma fase da vida – a fase mais madura da vida – mas ela é mais uma fase da vida assim como a infância, a adolescência, a vida adulta e a velhice. Então é importante que a gente entenda que desde o momento que a gente nasce a gente tá num processo de envelhecimento, que inclui passar por todas as fases da vida e atingir a velhice. Aqui no Brasil e em países subdesenvolvidos é considerado idoso a pessoa a partir dos 60 anos de idade. Já nos países desenvolvidos, idoso é considerado acima de 65 anos. Por que essa diferença? Porque a gente tem características relacionadas ao nosso acesso à saúde, às condições de vida,que fazem com que as pessoas no Brasil e em países subdesenvolvidos tenham condições de envelhecimento menos favorecidas que os países desenvolvidos.

    Carol: Muitas vezes quando falamos em idosos pensamos na imagem de um aposentado. No entanto, 8% dos brasileiros ainda trabalham após os 60 anos. Com o aumento da qualidade e expectativa de vida, muitas dessas pessoas continuam ativas profissionalmente. Estão dando aulas nas universidades, atuando na política, na área da saúde e exercendo muitas outras profissões que nem daria para mencionar. Mas por que, então, nós vemos pessoas aos 60 anos tão fragilizadas e, do outro lado, pessoas tão ativas?

    Karina: Se a gente entender esse processo de envelhecimento e o quanto a gente precisa se cuidar ao longo da vida tem muito a ver com isso de chegar a velhice estando bem disposto, estando independente para as atividades de vida diária…. Então o que é importante é que a gente entenda que quanto mais a gente manter bons hábitos de vida ao longo do ciclo da nossa vida, nós vamos envelhecer com melhores condições físicas, mentais, bem-estar. E esses bons hábitos de vida incluem – além de alimentação, cuidados com saúde e atividade física – também outras dimensões, com a boa relação social e familiar – ter amigos, participar da sua comunidade, seja indo em igrejas, tendo grupos de amigos – como também ter outras dimensões de lazer e espiritualidade. Isso tudo vai nos ajudar a envelhecer bem.

    Carol: Durante a pandemia, uma das principais dificuldades enfrentadas pelas pessoas com familiares maiores de 60 anos tem sido manter o distanciamento social e a orientação para ficar em casa. Por um lado, vivemos uma situação atípica, na qual muitas emoções estão envolvidas em todas as partes. No primeiro episódio dessa série, tratamos inclusive dos anseios de mudar a rotina e nos vermos sem respostas concretas sobre o dia que virá. Isso afeta diretamente a liberdade e autonomia de qualquer pessoa em qualquer idade. A questão que surge agora é: o que devemos fazer em situações como essa com os nossos idosos? Para os que convivem com seus familiares de maior idade, como conversar com eles sobre a necessidade de se proteger ficando em casa?

    Karina: É muito importante que a família que tenha um idoso dê mais importância ainda a essa situação de distanciamento social, porque a gente sabe que os idosos são grupo de risco, muitos deles têm várias comorbidades associadas como hipertensão, diabetes, insuficiência renal crônica, situações neurológicas e situações oncológicas que fazem com que esse idoso tenha um risco, ao ser contaminado pelo Covid, de ter uma situação mais grave do que as outras pessoas. Então, se você tem um idoso dentro da sua casa, você deve ser o mais criterioso com esse distanciamento social para proteger principalmente esse idoso que convive com a gente dentro de casa. Então, se for preciso sair, sair com máscaras. Ao chegar em casa, deixar o sapato fora de casa ou num local isolado próximo a porta de entrada. Ao chegar em casa já trocar a roupa e se higienizar. Se vier com mercadorias, higienizar essas mercadorias que vão estar sendo usufruídas pela família. Manter, o familiar, as medicações que o idoso faz de uso contínuo. Então mesmo numa situação diferente que a gente tá vivendo hoje de pandemia, é importante que os cuidados que já eram contínuos com o idoso continuem e que a gente não minimize esses cuidados. Então as medicações que são de uso contínuo elas precisam continuar conforme prescrição médica e nos mesmos horários. Oferecer hidratação a esse idoso de duas em duas horas é muito importante. Ficar atento às alterações de comportamento desse idoso, como confusões mentais e, principalmente, incentivar esse idoso que tá com a gente em casa a manter atividades físicas e de estimulação cognitiva para preservar a vida dele. 

    Carol: E o que os familiares podem fazer durante a pandemia com os entes idosos que vivem sozinhos mas precisam de seus cuidados?

    Karina: Se o idoso mora sozinho ou se a gente tem, por exemplo pais, avós que moram em outra cidade, é importante que a gente mantenha esse vínculo emocional durante essa fase de distanciamento social. Então ligações constantes pra ter notícias e conversar com esse idoso, videochamadas são importantes. A gente garantir que esse idoso tenha como receber compras de supermercados, quitanda ou farmácia é uma forma de ajudá-los nesse momento que a gente não pode visitá-los e não pode ter contato físico. E principalmente: esclarecer ao idoso a importância do distanciamento social, de ficar em casa, de não receber visitas, de ir no culto (se esse idoso é muito religioso), de não frequentar a missa, de ter opções, como por exemplo, de assistir a missa mais pela televisão. E a gente entender que o idoso precisa de informações de forma clara pra que ele também entenda e possa se precaver.

    Carol: E caso você seja o idoso que mora sozinho, quais as recomendações?

    Karina: A prevalência de idosos que moram sozinhos é grande no nosso país. A primeira coisa pra esses idosos que mora sozinhos é se manter em casa e pedir auxílio pras compras de supermercado, quitanda e farmácia ou pra própria família ou pra amigos ou vizinhos pra que ele não precise sair de casa. Se isso não for possível, se o idoso não tiver alguém pra auxiliá-lo nessas atividades que são fora de casa, é importante que o idoso, ao sair, tome cuidado com o uso de máscaras e que também escolha os horários de menor frequência de pessoas no estabelecimento que ele precise ir. E, ao chegar em casa, esse idoso deve ter muito cuidado com tirar os sapatos, fazer higienização da sua roupa, das suas compras. Ao morar sozinho, é importante que o idoso mantenha as suas medicações – que pode ser através de alarmes no celular – se hidratar, não ir às igrejas e cultos. Se mantenha em casa se possível sempre. 

    Carol: E quando o familiar contaminado pela Covid-19 divide o lar com um idoso?

    Karina: É importante que a gente tenha os cuidados de se isolar num cômodo, de não dividir toalhas, objetos pessoais como prato, copo, talher. Então ficar isolado num cômodo, quando for circular pela casa, ir ao banheiro ou cozinha, usar máscara e manter o distanciamento desse idoso. E intensificar a limpeza desses lugares que são de uso coletivo pro idoso.

    Carol: E o que precisa ser feito ou já está sendo feito pelo poder público no caso dos idosos em situação de pobreza?

    Karina: A gente já tem alguns idosos que recebem aposentadoria, mas a gente sabe que, muitas vezes, a aposentadoria não provê todas as necessidades econômicas. A gente tem idosos que conseguem o benefício complementar. Essa situação de distanciamento social, ela só vem acentuar as desigualdades sociais já existentes, tanto para os idosos quanto para as populações vulneráveis. A gente sabe que a população de rua também sofre nesse momento de distanciamento social. É importante que a gente garanta o auxílio emergencial, que haja um rastreio dessas pessoas idosas em situação de pobreza pela secretaria de assistência social, um apoio da comunidade para esses idosos moradores em áreas de pobreza e o acompanhamento da equipe de saúde da família. 

    Está sendo discutido um oferecimento de um auxílio emergencial para os cuidadores informais, que são aquelas pessoas que cuidam de idosos, mas não de uma maneira profissional. Isso seria importantíssimo nesse período para que a gente pudesse manter essas pessoas mais tranquilamente dentro casa, sanando as suas necessidades econômicas e isso garantiria uma maior proteção ao idoso e à sua saúde.

    Carol: Infelizmente, em tempos de pandemia, outros fatores se fazem ainda mais presentes…

    Karina: Infelizmente a gente sabe que nesse tempo de distanciamento social, se manter em casa faz com que aumente alguns casos de violência e isso também acontece com a violência ao idoso. Então, quanto mais políticas públicas a gente tiver de cuidados a longo prazo, e que a comunidade entenda que ela pode e deve olhar esse idoso que mora perto, a gente consegue assistir melhor esse idoso, que tem um nível socioeconômico menor.

    Carol: Novas demandas têm surgido em um mundo no qual a população global envelhece rapidamente. Países como o Japão já possuem uma população idosa bastante numerosa. Ao mesmo tempo, a média de filhos por família vem diminuindo. Ou seja, caminhamos para um cenário com maior população de idosos. Pensando nisso, a OMS definiu o período de 2020 a 2030 como a década do envelhecimento saudável, visando criar estratégias e planos de ação para melhorar a vida dos idosos e da comunidade que os cerca. Como devemos nos preparar para esse mundo que envelhece rapidamente?

    Karina: É preciso que a gente defenda políticas públicas pra população idosa e que a gente olhe pra todo esse processo de envelhecimento e que a gente garanta o envelhecimento digno no Brasil. Essas políticas públicas precisam garantir, ao longo da vida, o completo bem-estar. Não quer dizer ausência de doença, mas quer dizer que a gente promova a saúde ao invés de acolher só a doença, que a gente controle as doenças crônicas – que são as mais prevalentes na nossa sociedade – e que a gente incentive ações preventivas na área da saúde relacionadas às doenças crônicas, mas relacionadas também às questões de quedas, de dor, que pioram muito o processo de envelhecimento. Além disso, é importante que gestores municipais, estaduais e federais entendam que a gente precisa precisa de políticas de cuidadores de idosos públicos. A gente consegue, com cuidadores públicos, assistir tanto a família que cuida desse idoso dentro de casa, como o idoso que é sozinho – evitando a institucionalização desse idoso – e a gente sabe que cuidadores públicos teriam um gasto menor do que manter esse idoso numa instituição de longa permanência, além de todo o bem-estar emocional e social que é esse idoso permanecer junto com a sua família ou na sua casa. Isso já acontece no Brasil com uma experiência de muito sucesso na cidade de Barueri.

    Além disso, a gente precisa investir nesse cuidado a longo prazo em diferentes setores da sociedade, principalmente com equipes domiciliares, e qualificar os profissionais de saúde social para o envelhecimento. A gente precisa também investir em valorização da pessoa idosa em outros setores que não só de saúde social, como nas empresas que oferecem e vendem mercadorias pra esse idoso, de transporte público, os setores de construção civil. Que eles tenham esse olhar e a gente também incentive o respeito à pessoa idosa e ações intergeracionais, que traz benefícios tanto pra pessoa idosa, como para as crianças, adolescentes e adultos que convivem com esses idosos. É importante que a gente valorize a participação dessa pessoa idosa na nossa comunidade.

    Carol: No conto da Clarice Lispector, há momentos em que os familiares enxergam dona Anita como uma idosa que necessita de cuidados da família, quase sem decisão sobre si, e há outros em que a própria Dona Anita pensa:

    Como tendo sido tão forte pudera dar à luz aqueles seres opacos, com braços moles e rostos ansiosos? (…). O tronco fora bom. Mas dera aqueles azedos e infelizes frutos, sem capacidade sequer para uma boa alegria. Como pudera ela dar à luz aqueles seres risonhos, fracos, sem austeridade? O rancor roncava no seu peito vazio.

    Na velhice, há realmente uma relação de inversão dos filhos assumindo o papel dos pais ou mesmo nessas situações a figura de pai e filho se mantém como antes? Como se sentem as partes envolvidas? Quem tem uma história pra nos contar é a Maria, filha da Dona Joana e que passa por uma situação bastante semelhante.

    Maria: Então, no início, eu achei que eu iria só acompanhar a medicação, se ela tava tomando certinho, fazer um teste de glicemia capilar para controlar o diabetes dela, ver se ela tava tomando nos horários certos e tudo mais. E aí eu comecei a fazer esse tipo de acompanhamento junto com ela,e aí eu percebi que, na realidade, ela não precisava só de alguém pra ver se ela tava tomando a medicação certa ou não, e fazer um teste pra ver se o diabetes estava controlado ou não. No decorrer desse tempo eu percebi que ela precisava que muito mais que isso. Ela precisava de alguém do lado dela, de uma companhia pra ela, de um proteção no geral pra ela. Porque eu percebi que aí, aconteceu uma dependência: eu comecei a dar a medicação, caminhar pra tomar banho. Comecei a perceber também que aquela comida gostosa que ela sempre fez pra gente se reunir todo mundo e almoçar no domingo junto com ela, ela já não conseguia mais, já tava se esquecendo do tempero, de como fazia, já deixava queimar, e eu vi que eu como filha tomei as rédeas da situação.

    E foi aí que eu percebi uma carência muito grande vinda do idoso, que ele sente aquela necessidade de sair pra passear. Ele gosta de ir no shopping, ele gosta de sair pra tomar um lanche, ele gosta de fazer uma caminhada, de ir numa praça, mas ele fica aguardando a companhia né, porque eles não têm mais segurança de fazer tudo isso sozinho. Eles querem alguém do lado, guiando, orientando e dirigindo eles. E é muito bom essa companhia, é muito prazerosa.

    Karina: É muito importante que a gente tenha esse convívio. O que a gente quer é viver com nossos pais e avós, que eles vivam bem até o final da sua vida. Mas é importante que os filhos entendam que idosos não são crianças. E a gente não pode infantilizar esse idoso e esquecer que esse idoso, pra que ele tenha uma saúde adequada,a gente precisa respeitar a sua autonomia de tomar decisões. Decisões simples, como o que ele vai comer, ou que roupa ele vai colocar, mas decisões também de vida, como se ele quer passear, se ele quer ir pra igreja, se ele quer casar novamente.os filhos precisam estar preparados pra isso, e preparados pra assistir ao pai nas dificuldades que essa pessoa idosa tiver, mas não neutralizar as ações. Mas isso é muito bom quando a gente tem uma família harmônica, uma família que tem laços afetivos. E a gente sabe que não é sempre assim. Então por isso que cuidadores formais, públicos, são importantes nessa fase do cuidado.

    Carol: No conto da Clarice Lispector, dona Anita relembra a figura do filho Jonga, o único por quem ela mantinha um verdadeiro carinho, mas que veio a falecer. 

    Como Jonga fazia falta nessas horas! Também fora o único a quem a velha sempre aprovara e respeitara, e isso dera a Jonga tanta segurança. E quando ele morrera, a velha nunca mais falara nele, pondo um muro entre sua morte e os outros. Esquecera-o talvez. Mas não esquecera aquele mesmo olhar firme e direto com que desde sempre olhara os outros filhos, fazendo-os sempre desviar os olhos.

    Depois desse incidente, dona Anita é evidentemente afetada. A festa já não é mais a mesma quando era Jonga quem puxava os parabéns e sabia o que dizer em quase todas as situações. Algo inevitável para todos nós, mas que às vezes é um tabu, é justamente a morte. Esse assunto, sobre o qual tantos filósofos refletiram a respeito, implica diretamente em nossa autonomia de viver. Mas, em tempos de pandemia, um fator externo pode dar cartada final. Com a falta de respiradores, uma decisão da medicina popularmente conhecida como “a escolha de Sofia” é relembrada. Em virtude do possível colapso hospitalar por causa do novo coronavírus, essa escolha implica agora em decidir se uma pessoa mais jovem ou mais idosa terá prioridade no uso do aparelho. Quem fala sobre isso com a gente é o Professor Marco Túlio Cintra, médico geriatra, atuante na UFMG e presidente da Sociedade Brasileira de Geriatria e Gerontologia em Minas Gerais.

    Marco: Uma situação que chamou muito a atenção de muitas pessoas foi o que aconteceu na Itália. A Itália é um país que não tinha tantas unidades de terapia intensiva, e quando aconteceu o momento mais crítico da pandemia lá, do Covid-19, pessoas muito idosas com comorbidades foram preteridas para a assistência dos mais jovens. essa é uma situação que não é cuidado paliativo. Essa é uma situação de manejo de catástrofe. Em manejo de catástrofe, você cuida daquele que tem mais chance de sobreviver. Quando nós falamos de um idoso ir ou não à terapia intensiva, ser ou não ser entubado, seja por Covid-19, seja por qualquer outra doença, nós precisamos saber que diante do estado de saúde desse idoso, e diante da gravidade da doença que ele adquiriu, qual que é o prognóstico de recuperação dessa pessoa para definir isso. Vou dar um exemplo: um paciente com uma demência muito avançada, que já não sai mais de casa sozinho, dentro de casa precisa de auxílio para banho, para trocar de roupa, já não consegue mais andar sem auxílio de terceiros, tem que dar alimentação na boca, ou seja, uma pessoa completamente dependente, com um histórico de várias infecções nos últimos meses, já muito emagrecida e desnutrida. Imagina que essa pessoa que tem uma infecção grave, uma sepse, uma pneumonia grave. Um paciente desses, a chance de sobrevivência é muito baixa, e a chance de ao ser entubado e ir pra ventilação mecânica de, se sobreviver, sobreviver num estado extremamente crítico de saúde, muito debilitado.

    Diante dessa situação, muitas vezes o correto, é que se discuta essa situação com a família, os responsáveis, que se coloque os prós e contras, as baixas probabilidades de sobrevivência, e se sobreviver, há uma probabilidade muito grande de um estado muito debilitado, com um cuidado muito difícil, e que diante dessa situação toda e do sofrimento inclusive do paciente e família, que se discuta se vai ser entubado ou não, se vai pra uma terapia intensiva ou não e idealmente mesmo é que essas situações sejam discutidas antes que uma emergência acontecer, isso sim é um cuidado paliativo e uma prerrogativa fundamental do cuidado paliativo é a comunicação, é a discussão da situação que tá se passando com a família e a decisão compartilhada,. E que com a infecção pelo Covid-19 e com outras intercorrências clínicas, se faz necessário esse tipo de discussão com pessoas com pior estado de saúde.

    Carol: Outro assunto que surgiu durante essa pandemia e já se mostrou não efetivo é a questão do isolamento vertical, ou seja, a decisão de isolar somente os mais vulneráveis, o que inclui os idosos. Por que isso não funciona?

    Marco: Primeiro que a experiência mundial nessa questão já tem mostrado que os países que adotaram um distanciamento ampliado mantendo somente os serviços essenciais, e mantendo todos aqueles que eram possíveis em distanciamento, e fazendo a maior quantidade possível de testes para o SARS-Cov-2, que é o vírus da infecção do Covid, se saíram muito melhor do que os países que não fizeram medidas significativas de distanciamento e que testaram muito pouco a sua população. Exemplos são os surtos graves que tão acontecendo na América do Sul, e incluem países como o Brasil e também a Suécia, que comparada aos países vizinhos do Norte da Europa, se saiu muito pior. No Brasil, o desafio seria imenso de fazer um distanciamento somente vertical, só mantendo aqueles com fatores de risco e idosos isolados. Imagine uma casa com dois cômodos, num aglomerado, e nós temos vários aglomerados, comunidades, pessoas mais carentes, mais pobres nesse país, imagina uma casa com dois cômodos, três cômodos manter uma pessoa idosa, por exemplo, isolada, distanciada dos demais membros da família? Tem uma sala, tem um banheiro e tem quarto. Não tem como, é inviável. Pessoas morando em palafitas na região amazônica, embaixo das palafitas um rio passando, e manter somente as pessoas de maior risco em distanciamento. Era impossível, porque alguém lá dentro teria que sair pra trabalhar. Não há nem espaço nessas casas, para fazer esse tipo de distanciamento. Pra fazer um distanciamento vertical seria necessário ter lugares imensos, país afora, para poder colocar as pessoas que não teriam condição de fazer distanciamento em casa por questões econômicas, de onde eles vivem, a situação delas, e para poder manter elas em distanciamento. O custo é imenso e nós já sabemos pelos desfechos da pandemia pelo Covid em diversos países que isso não deu certo, então a maneira correta de lidar com a questão é fazer um distanciamento ampliado, manter somente os serviços essenciais pra poder diminuir o ritmo de transmissão da doença e com isso conseguir conter a pandemia mais rapidamente. E principalmente, testando a população, para você conseguir detectar os transmissores e mantê-los também em distanciamento.

    Carol: No conto de Clarice Lispector, o aniversário de 89 anos da dona Anita termina com os votos de uma nova reunião no próximo ano, mesmo que essa reunião sustentasse, no fundo, uma mera obrigação.

    — Até o ano que vem! repetiu José a indireta feliz, acenando a mão com vigor efusivo (…)

    Enquanto isso, lá em cima, sobre escadas e contingências, estava a aniversariante sentada à cabeceira da mesa (…). Será que hoje não vai ter jantar, meditava ela. A morte era o seu mistério.

    Carol: Nessa pandemia o cuidado com os idosos é extremamente necessário. Além disso, é mais um exercício de empatia, especialmente com aquele que carrega consigo toda uma experiência de vida e que, um dia, já esteve do outro lado cuidando de alguém.

    Envelhecer é natural no curso da vida, e é um fenômeno que acontece a cada dia de nossa existência. Mas tomar certos cuidados agora pode projetar um amanhã melhor que o hoje. Afinal, quando tomamos medidas preventivas nessa pandemia, não estamos prevenindo somente a nós mesmos, mas todos aqueles que convivem conosco. Vale lembrar que a discriminação contra pessoas por motivos de idade, chamada etarismo, é uma forma de preconceito! E o abandono de idosos é crime! Denúncias podem ser feitas pelo disque 100 gratuitamente.

    Apesar da distância física, espero que a mensagem chegue até você nessa grande rede digital. Estamos juntos, mesmo cada um na sua casa. Em diferentes fases da vida e em um abraço virtual.

    Carol: Eu sou a Carol e esse foi o QUARENTENA.

    Colaboração: Matheus Steigenberg Populim

    Fique por dentro do podcast da UFMG sobre Covid-19: o Avascast, disponível no Spotify e Anchor.FM 

    Fontes:

    World Health Organization (WHO). Disponível em: https://www.who.int/healthinfo/survey/ageingdefnolder/en/ acesso em 14 maio 2020.

    World Health Organization (WHO). Disponível em: https://www.who.int/ageing/en/ acesso em 14 maio 2020.

    IBGE. Disponível em: https://agenciadenoticias.ibge.gov.br/agencia-noticias/2012-agencia-de-noticias/noticias/26103-expectativa-de-vida-dos-brasileiros-aumenta-para-76-3-anos-em-2018 acesso em 14 maio 2020.

    IBGE. Disponível em: Tábua completa de mortalidade para o Brasil – 2018 acesso em 14 maio 2020.

    IBGE. Disponível em: https://www.ibge.gov.br/apps/populacao/projecao/ acesso em 14 maio 2020.

     

    Músicas:

    Music provided by  Creative Commons Music Free To Monetize: Here Comes the Bride – Wedding March by Wagner – Stringspace String Quartet FREE WEDDING Music https://youtu.be/INE0NEPeGL0 https://goo.gl/7XDEmg

    Funeral March by Chopin – Youtube Audio Library

    Secret-Pocketbook  by Holyoke – Blue Dot Sessions
    Union Hall Melody by Union Hall – Blue Dot Sessions
    Valantis by Cauldron – Blue Dot Sessions
    Gambrel by Architect – Blue Dot Sessions
    In other times by Darby – Blue Dot Sessions

    35 min
  • #94 – Temático: Esperando Betelgeuse

    Neste programa contamos a história da estrela Betelgeuse que, no final de 2019, passou a apresentar um comportamento estranho, o que levou muita gente a acreditar que estava prestes a testemunhar um evento único. E astrônomos que estudam a estrela mais de perto levantaram hipóteses do que estava acontecendo. Quem nos ajuda a contar esta história é Geisa Ponte, mestranda em Astrofísica no Centro de Radioastronomia e Astrofísica Mackenzie, e Vladimir Jearim, pesquisador do Museu de Astronomia e Ciências Afins (MAST).

    GEISA: A gente ver uma comportamento inesperado e inédito que nunca tinha sido registrado nela e aí juntou com esse gatilho com as ondas gravitacionais que não se confirmou, então isso tudo levou a uma crescente de expectativa realmente, inclusive dentro da comunidade científica.

    OSCAR: Neste programa vou trazer a história de uma estrela chamada Betelgeuse que, no final do ano passado, começou a ter um comportamento estranho. 

    SAMUEL: Astrônomos do mundo todo começaram a observar mais de perto e estudar o que poderia estar acontecendo. Isso também chamou a atenção de bastante gente…. que começou a acompanhar o assunto na internet com muita expectativa.

    Eu sou Samuel

    OSCAR: Eu sou o Oscar e esse é o Oxigênio

    OSCAR: Quem estava falando no começo do programa é a Geisa Ponte

    GEISA: Eu trabalho com astrofísica estelar observacional usando dados da missão espacial TESS da NASA para procurar variação de brilho de estrelas de emi solares. E para investigar como que essa variação de brilho tem a ver com o comportamento magnético dessas estrelas. E a gente vai falar um pouco sobre uma estrela que é muito diferente das quais eu trabalho.

    OSCAR: Eu de fora, assim leigo, você falando me pareceu dentro do assunto. Mas, pelo jeito, não é tanto assim.

    GEISA: É, bom, ainda é dentro de astrofísica estelar, né? Principalmente, observacional essa questão.

    SAMUEL: Mas antes de avançar mais no que estava acontecendo, a gente precisa falar sobre Betelgeuse.

    OSCAR: Além do nome do personagem, se você é fã do Guia do Mochileiro das Galáxias deve lembrar que o Ford Prefect é de um planeta perto dessa estrela.

    GEISA: Eu trabalho com estrelas que a gente diz que é pequena, estrelas pequenininhas do tipo solar e betelgeuse é muito muito grandona. Betelgeuse é mais ou menos 900 vezes o tamanho do sol.

    OSCAR: Para tentar dar uma ideia melhor , o tamanho de betelgeuse é equivalente à órbita de júpiter. Se a gente pegasse betelgeuse e colocasse no lugar do sol, ela engoliria mercúrio, vênus, a Terra, Marte e chegaria até júpiter.

    GEISA: Por que mais ou menos? Porque existe as imprecisões que são inerentes a medidas, análise, instrumentos tudo mais. Mas também porque ela pulsa, esse raio dela varia, ela é uma estrela pulsante

    SAMUEL: Betelgeuse fica na constelação de Orion. Se você quiser encontrar no céu, a melhor forma é primeiro procurar pelas três Marias

    VLADIMIR: Então a pessoa tem que identificar as três marias, a um lado e a outro das três marias quase a maneira diametral oposta você vai ter duas estrelas brilhantes.

    SAMUEL: Esse é o Vladimir.

    VLADIMIR: Meu nome é Vladimir Jearim de Pena Soares

    SAMUEL: Ele é pesquisador do Museu de Astronomia e Ciências Afins

    VLADIMIR: Vai ter uma estrela amarelada, avermelhada, brilhante e vai ter uma estrela branco-azulada. A avermelhada é Betelgeuse.

    GEISA: Isso, ela é bem vermelha, dá para notar que ela é bem vermelha. E ela vai estar na parte de baixo. Porque a gente está no hemisfério sul, então, na verdade, Orion está de cabeça para baixo. Então quando a gente está vendo a cintura dele, ali as três marias, a gente está vendo a cintura, o cinturão e você vai imaginar os braços onde você normalmente imaginaria a perna. Então ali que ela vai estar, na parte de baixo. E a parte de cima são as pernas que a gente imaginaria que são os braços. Mas é porque a gente está no hemisfério sul e a gente vê invertido de quem convencionou Orion ao contrário, que foram as culturas do hemisfério norte.

    OSCAR: Se você quiser ver a constelação, ela fica visível durante o nosso verão. Mas não é muito difícil de encontrar porque ela uma das estrelas mais brilhantes…. ou, pelo menos, era…

    SAMUEL: A Betelgeuse, se compararmos com o Sol, é muito mais jovem

    GEISA: Ela tem entre 8 ou 8,5 milhões de anos, se a gente compara com o Sol que tem 4,5 Bilhões de anos, então assim são ordens de grandeza muito diferentes.

    SAMUEL: Só que, por outro lado, ela é considerada uma Supergigante Vermelha, ou seja, é muito mais massiva que o Sol.

    GEISA: Ela tem cerca de 11, 12 massas solares atualmente porque ela perdeu muita massa ao longo da vida dela. A gente sabe que por ser muito muito mais massiva ela queima muito mais rápido esse combustível, então de fato ela vai ter um tempo de vida muito menor.

    SAMUEL: E, pelo que sabemos dos modelos de evolução estelar, ela está no final de sua vida

    GEISA: A gente sabe que isso está acontecendo justamente pela cor da luz que ela emite e pelo raio, pela densidade dela, a gente sabe que ela tá muito no finalzinho de vida dela.

    OSCAR: O Vladimir explicou que estrelas diferentes seguem caminhos diferentes. Uma estrela, na sua formação, acumula uma certa quantidade de massa.

    VLADIMIR : Dependendo dessa massa, ela vai ter um caminho evolutivo diferente.

    OSCAR: Vamos pegar uma estrela pequena como exemplo…

    OSCAR: Uma estrela se mantém pelo equilíbrio de duas forças. Uma delas vem das fusões que acontecem dentro dela.

    GEISA: Conforme essas fusões vão acontecendo lá, a gente tem uma produção de energia acontecendo no núcleo da estrela que ela promove o que a gente chama de pressão de radiação. Essa energia sendo produzida ela empurra o material para fora. E a gravidade empurra para dentro, então existe o equilíbrio. Então tem esse equilíbrio do que está empurrando para fora do que está empurrando para dentro.

    VLADIMIR: A medida que uma estrela vai avançando em sua evolução, basicamente, o que vai acontecendo é a transformação de um elemento leve em um elemento mais pesado. A vida da estrela começa com a transformação de hidrogênio em hélio.

    OSCAR: A estrela vive nesse equilíbrio entre a fusão e a gravidade. Até que o hidrogênio vai acabando e ela começa a contrair e esquentar até um ponto que passa a conseguir fundir o hélio…. 

    VLADIMIR: O hélio do núcleo vai começar a se transformar em carbono.

    SAMUEL: E quando o seu combustível acabar, ela vai se contrair de novo e esquentar, mas dessa vez não vai conseguir fundir outros elementos mais pesados, se transformará em uma anã branca, vai esfriar e morrer…. MÚSICA PARA silenciosamente…

    OSCAR: Mas uma estrela massiva não para por aí.  Ela consegue avançar na tabela periódica fundindo elementos cada vez mais pesados. Oxigênio, Neônio, silício…. A estrela se organiza como uma cebola com camadas de elementos cada vez mais pesados até o núcleo.

    VLADIMIR: Esse cenário que o núcleo vai ficando isolado e pesado e produzindo muita energia. E ao mesmo tempo, o exterior vai ficando isolado e frio […] vai chegar um momento que o núcleo não via ser mais capaz de se transformar em outra coisa

    SAMUEL: Isso acontece quando o núcleo começa a se transformar em ferro

    GEISA: O ferro é um elemento que quando você está sintetizando, a estrela está lá sintetizando, ao invés de ele produzir energia, ele demanda energia

    VLADIMIR: Aí começa a desandar tudo

    OSCAR: A estrela fica cada vez mais instável

    VLADIMIR: O núcleo isolado com muita energia, mas ao mesmo tempo tendo que ceder essa energia rapidamente para o entorno, então aí começam os pulsos térmicos.

    SAMUEL: Um hora as energias não se equilibram mais

    GEISA: E a gravidade vence

    VLADIMIR: Esse colapso súbito gera uma explosão… que chamamos explosão de supernova

    GEISA: É o evento mais energético da natureza que a gente fala que a supernova é, né? Porque justamente toda essa matéria foi comprimida num intervalo muito curto de tempo. A parte interna dela é transformada em energia e tudo mais e acontece uma coisa muito muito energética, um evento muito energético, explosivo, gigantesco. Joga todas as camadas para fora, emite vários tipos de radiação até muito perigosas para quem estiver lá por perto. Se tiver algum planeta, sistema planetário ali perto, vai sofrer as consequências, eu não queria estar lá perto…

    OSCAR: O fato é que, a partir de dezembro do ano passado, Betelgeuse começou a perder cada vez mais o seu brilho. 

    GEISA: Ela começou a apresentar uma diminuição de brilho que foi, de certa forma, repentino. E ela começou a realmente a ficar muito muito mais fraquinha no céu assim ao ponto da gente conseguir com olho nu realmente identificar essa queda de brilho nela, né?

    SAMUEL: E essa queda de brilho fez muita gente acreditar que esse era um sinal que sua explosão poderia acontecer a qualquer momento. E isso acabou se juntando a uma outra notícia, de que pesquisadores teriam detectado ondas gravitacionais que poderia estar ligado com a estrela.

    GEISA: Que logo se desmentiu, viu que não tinha a ver porque não foi tão assim tão localizado na região da estrela.

    OSCAR: Mas a possível explosão acabou virando um assunto muito comentado no Twitter, o que levou a Geisa, que trabalha com divulgação científica, a criar um perfil para falar do assunto

    GEISA: Eu entendi que existia uma demanda das pessoas muito curiosas sobre essa estrela que estava para explodir a qualquer momento. E já tava saindo em jornal, já tava saindo na mídia. E também bastante astrônomos estrangeiros falando sobre isso e a gente não  tinha ninguém especificamente falando sobre isso em português.

    SAMUEL: Então ela criou um perfil que responde todo dia a pergunta 

    GEISA: Betelgeuse explodiu hoje? Aí eu boto todo dia lá não. As pessoas assinam, elas colocam notificação para receber minha postagem, porque elas querem ser notificadas caso aconteça a supernova. É muito engraçado porque provavelmente elas teriam a notícia antes por alguma outra forma, mas tem toda essa questão de bom humor do Twitter.

    GEISA: Eu também usei o perfil para falar de super gigantes vermelhas, explicar um pouco de astrofísica estelar. Então assim, foi uma coisa que eu usei como gancho, sabe, de atrair as pessoas para a divulgação científica.

    GEISA: E o dia que eu não posto o pessoal cobra. Cadê? Cadê Betelgeuse? Cadê você? E meu nome é Geisa, tem aquela questão das pessoas ficarem me chamando de Betelgeisa, então é uma coisa muito engraçada, é muito divertido.

    OSCAR: Mas para entender esse movimento todo no Twitter que a Geisa acompanhou, é preciso saber quão raro é uma supernova.

    GEISA: A gente tem registros de supernovas assim acontecendo não tão raramente, mas quando a gente está falando de outras galáxias. São eventos tão energéticos que a gente consegue detectar isso de outras galáxias.

    SAMUEL: O Vladimir conta, por exemplo, que uma supernova marcante foi a 1987a

    VLADIMIR: Em fevereiro de 1987, aparece um objeto novo no céu, aí todo mundo fica louco já com a possibilidade de se comunicar e fazer observações com telescópios com maior performance técnica.

    OSCAR: Essa supernova aconteceu na Grande Nuvem de Magalhães, fora da nossa galáxia, e foi possível observar a olho nu, ela apareceu como uma estrela fraca no céu. Para se ter uma ideia, a última supernova que tinha sido possível observar a olho nu foi descrita por Kepler em 1604.

    GEISA: Quando a gente fala de uma supernova dentro da nossa própria galáxia que seja observável, que esteja a uma distância que a gente consiga ver um espetáculo realmente que dure bastante tempo, isso é um evento bastante raro.

    SAMUEL: Uma supernova que aconteceu dentro da nossa galáxia foi a do ano 1006, que provavelmente é mais brilhante já registrada. estima-se que ela apareceu mais brilhante que Vênus. O pensador e estudioso persa, Avicena, descreveu assim

    OSCAR: Ela permaneceu por quase três meses, ficando cada vez mais fraca até desaparecer; no início ela era escura e verde, e depois começou a emitir faíscas o tempo todo, e então se tornou mais e mais esbranquiçada e, por fim, tornou-se mais fraca e desapareceu.

    GEISA: E essas outras que a gente sabe que aconteceram, que foram registradas na história assim, elas não foram a mesma distância que seria Betelgeuse. Betelgeuse está muito mais perto.

    SAMUEL: A supernova de 1987 estava aproximadamente a 160 mil anos luz. A de 1006, a 7 mil e 200 anos luz. Betelgeuse está por volta de 650 anos luz.

    GEISA: Então a gente veria a maior. A maior registrada pela a humanidade realmente.

    SAMUEL: Se Betelgeuse explodisse, nós receberíamos primeiro uma chuva de partículas chamadas neutrinos e logo depois a luz da explosão.

    GEISA: Haveria um aumento de brilho muito grande, muito grande mesmo. A expectativa é que seja comparável a uma lua cheia. Então isso duraria, a expectativa é que dure de algumas semanas a alguns meses, sendo possível ver durante o dia mesmo.

    OSCAR: A gente teria noites claras, né? Porque se for como uma lua, noite clara por algum tempo, algumas semanas talvez, né?

    GEISA: Sim, sim e se a gente pudesse ter uma Lua cheia no céu e Betelgeuse no céu a noite também, ia ser uma noite bem clara.

    GEISA: Seria, realmente, um evento muito inédito para a gente. Principalmente, para a nossa civilização que nunca, na nossa época, nos nossos contemporâneos da ciência moderna seria um evento realmente único. E a expectativa é que esse brilho dela a noite durasse talvez alguns anos. A gente poderia ver ela decaindo aquele brilho durante um tempo porque é um evento energético que ele vai ali depois se dissipando toda aquela energia e o brilho vai diminuindo com o tempo.

    OSCAR: Em fevereiro, o Observatório Europeu do Sul liberou duas imagens de Betelgeuse. A primeira era de janeiro de 2019 e ela aparecia como uma bola embaçada com o centro claro e amarelo, e o entorno alaranjado. 

    GEISA: É uma das poucas estrelas que a gente consegue resolver o raio dela, apontando e fazendo a imagem dela a gente consegue realmente ver o tamanho dela, a gente consegue ver a bolota dela, não só aquele pontinho brilhante.

    OSCAR: A outra é de dezembro de 2019 e a forma de Betelgeuse estava diferente, Ela não tinha escurecido por inteira, a região sul estava bem mais apagada que a norte.

    GEISA: E dá para ver que realmente tinha alguma coisa acontecendo que diminuiu o brilha dela. A gente conseguiu ver, realmente, fazendo a imagem da estrela.

    GEISA: Betelgeuse é uma estrela que já variava esse brilho, mas ela nunca tinha variado nessa escala. ela nunca tinha perdido essa quantidade toda de brilho. No mínimo dela a gente calcula que ela perdeu cerca de 70% do brilho dela.

    SAMUEL: Foi em fevereiro que ela chegou a esse mínimo e então… voltou a se recuperar e chegou até a passar os 100% do brilho dela. 

    GEISA: Já se recuperou, está novinha em folha.

    OSCAR: Mas isso não acaba a história porque astrônomos que estudam Betelgeuse levantaram hipóteses sobre o que estava acontecendo com ela. É aí que entra um artigo de Emily Levesque e Philip Massey. 

    SAMUEL: A ideia deles era medir a temperatura de Betelgeuse para ver se batia com a redução de brilho que era observado. Essa medição é feita pela técnica da espectroscopia.

    VLADIMIR: Quando a gente fala de todos esses parâmetros das estrelas que temperatura, a composição, tudo que a gente sabe sobre as estrelas, a gente conta com um elemento importante e é o efeito da atmosfera da própria estrela na radiação da estrela.

    SAMUEL: A luz emitida passa pela atmosfera da própria estrela e o que compõe essa atmosfera acaba absorvendo parte dessa luz

    VLADIMIR: As estrelas em sua atmosfera acontece a absorção da radiação emitida de uma maneira particular dependendo da espécie química que se trata. Eles vão absorver a radiação de uma maneira diferente. Através do espectroscópio a gente separa, a gente consegue identificar os componentes da energia que está emitindo a estrela. E resulta que esses componentes apresentam uma riscas, apresentam umas evidências que parte da energia se perdeu.

    OSCAR: O que o espectroscópio faz é dividir essa luz em seus diferentes comprimentos de onda.

    OSCAR: E vendo onde a luz é absorvida

    OSCAR: É possível identificar quais são os elementos que formam a atmosfera da estrela.

    VLADIMIR: A gente consegue, dessa maneira, identificar se a estrela tem cálcio, se a estrela tem sódio, se a estrela tem oxigênio e tal. Então a gente em laboratórios aqui na Terra consegue reproduzir esse processo. Você tem uma lâmpada de sódio, por exemplo. A luz de sódio que é tão comum na iluminação pública. Então, a luz de sódio ela é gerada pela excitação dos átomos de sódio com uma corrente elétrica e tal. Essa luz de sódio emite uma luz que, se você colocar essa lâmpada para ver através de um espectroscópio, você consegue identificar que a luz de sódio apresentam uma certa digital, uma marca própria dela que se chama espectro. No caso das estrelas, o problema é o mesmo só que invertido. A gente não vê diretamente a luz emitida pela estrela através do espectroscópio, senão as marcas que deixam a absorção da luz a atmosfera da estrela.

    GEISA: A gente está falando de super gigantes vermelhas, nessa parte externa da atmosfera dela, elas já tem temperaturas bem baixas se a gente está comparando com o Sol. Quando a gente tem uma atmosfera bem mais fria como Betelgeuse a gente consegue detectar no espectro que você tira da estrela já sinais bem claros de algumas moléculas que é o caso do monóxido de titânio.

    OSCAR: O monóxido de titânio é um ótimo marcador para temperatura porque deixa marcas bem delimitadas em certas partes do espectro. E quanto menor a temperatura, maior a concentração da molécula e mais marcado é a absorção da luz.

    SAMUEL: Quando a gente olha o espectro procurando os comprimentos de onda que a molécula absorve

    SAMUEL: Quanto menor a temperatura, menos intensidade vai ter

    GEISA: Isso, você vê tanto em intensidade de queda, você vê que cai mais e também largura. Essa queda tem uma largura maior, uma absorção maior.

    SAMUEL: Então é possível comparar com modelos teóricos

    GEISA: Ou outras estrelas que já são bem conhecidas que você já calculou a temperatura, você sobrepõe essas bandas, essas transições específicas, você consegue calcular a temperatura delas.

    OSCAR: No caso desse estudo, eles compararam também com o espectro que já tinham de Betelgeuse de 2004. E o que acharam é que apesar de Betelgeuse estar menos brilhante, quando sobrepõe o espectro mais antigo com o de agora, a diferença não é tão grande.

    GEISA: Ela teria perdido no máximo, usando a maior barra de erros deles, 100 Kelvin.

    VLADIMIR: Essa diminuição de temperatura não bate bem com a grande diminuição de brilho da estrela. Então os autores propõe algo que é razoável, que a estrela pode ter experimentado uma dessas fases de instabilidade na qual ela perdeu parte da sua envoltória externa, parte das suas camadas externas e essas camadas se converteram em uma atmosfera densa.

    GEISA: Poderia ser realmente material ejetado, uma nuvem de poeira. Como se a estrela tivesse dado um arroto, jogou uma matéria para fora e isso poderia ser justificado pela absorção em certas faixas do espectro. E essa nuvem de poeira se desfaz com o tempo. Aquilo vai se desfazendo e a luz volta a conseguir atravessar o meio como era antes.

    SAMUEL: E isso faz sentido com uma estrela em fim de vida

    GEISA: Sim, sim ela vai ejetando matéria. Ela já está em uma situação de evolução da vida dela que ela já não consegue manter tão bem aquele equilíbrio entre a pressão de radiação e a gravidade. Então, é uma estrela que pulsa, a gente já sabe que ela é uma estrela variável, ela é reconhecidamente uma estrela que varia o brilho dela. Então a gente já sabe que essa é uma estrela muito instável pela idade avançada dela. Isso é uma coisa que não é só ela que faz, outras estrelas também que tão nessa fase final de vida, elas também demonstram esse tipo de comportamento de começar a expulsar material. E isso é bem reconhecido, é bem estudado.

    SAMUEL: Então a queda no brilho é realmente um sinal do fim de Betelgeuse. Mas não como algumas pessoas esperavam.

    GEISA: Então quando a gente fala que é realmente a qualquer momento que ela pode explodir a gente tem que levar em consideração que isso é em uma escala de tempo astronômica. Então assim, dependo da massa podem viver de milhões a bilhões de anos. Uma estrela muito massiva como Betelgeuse ela vive só em uma escala de milhões de anos, ela consome aquele combustível muito rápido. Então ela vive muito menos, mas ainda assim são milhões de anos. E quando a gente fala de a qualquer momento explodir, a gente está falando de agora a 100 mil anos. 100 mil para a gente na escala de vida humana é muito, mas para uma estrela é nada é a qualquer momento, realmente. Pode acontecer agora, pode já ter acontecido há talvez, sei lá, vamos supor 300 anos atrás ela já pode ter explodido, mas a gente não tem ainda acesso a informação, porque ainda vai levar 350 anos para essa informação chegar até aqui. Ela já pode ter explodido. Se ela explodiu há 600 anos atrás, a gente ainda não sabe. Então isso já pode ter acontecido ou pode levar mais 100 mil anos para acontecer.

    GEISA: É porque a gente trabalha com barras de erro, a gente trabalha com probabilidade.Tudo em ciência a gente usa probabilidade. A gente está sujeito a questões observacionais, limitações do instrumentos, limitações de modelos, de cálculo. Então, tudo a gente tem barra de erro. A gente tem que ter um intervalo de segurança para a gente afirmar alguma coisa. Por isso, também a gente não tem nunca como dizer exatamente quando ela vai explodir ou se já explodiu. Só quando realmente a gente tiver essa informação concreta chegando aqui que seria os neutrinos e logo em seguida a luz da explosão em si que a gente via ter certeza.

    VLADIMIR: As pessoas querem ver de fato o capítulo final, né? Como quando você compra o livro, você começa e vê que o livro é emocionante, mas tem muito personagem que não é necessário, você vai diretamente para o final porque você quer saber se o casal fica junto ou não. Não é o caso, né? A estrela vai experimentar e a gente está vendo isso, vai experimentar diferentes processos violentos, a gente vai acompanhar essa agonia e a gente vai aprender muita coisa sobre as fases finais das estrelas.

    GEISA: Quem realmente estava analisando, vendo essa questão de comportamento da estrela mais de perto, usando dados observacionais e tudo mais. As pessoas tinham bastante cautela para afirmar essa questão de vai explodir, não vai explodir. E, principalmente, o que a gente estava buscando, a gente que é astrônomo profissional mesmo, a gente olha muito mais com curiosidade. Lógico que tem aquela esperança interna de será que eu vou ter a sorte de testemunhar uma supernova? Porque é um evento muito raro, ainda mais na nossa galáxia e há uma distância que é biologicamente segura, mas que daria um espetáculo gigantesco no céu de semanas há meses, né?

    SAMUEL: Os astrônomos vão continuar acompanhando e aprendendo sobre o fim de vida das estrelas. Já para a gente só resta torcer que a Geisa não precise ficar 100 mil anos postando “não” no Twitter.

    OSCAR: Vamos torcer que ela já tenha explodido e os neutrinos e a luz da explosão estejam a caminho e que a gente tenha a sorte de ver essa supernova.

    OSCAR: O episódio foi apresentado por mim, Oscar Freitas Neto, e por Samuel Ribeiro. A produção deste episódio foi feita por mim.

    OSCAR: As trilhas são do site Blue Dot Sessions e também feitas por mim. A coordenação é da professora Simone Pallone, do Labjor.

    OSCAR: E se você gosta do Guia dos Mochileiros das Galáxias, o livro de Douglas Adams citado no início deste podcast, não deixe de ouvir o nosso episódio 42 que tratou do livro e da relação do autor com a ficção científica.

    SAMUEL: Você pode nos acompanhar nas redes sociais. Estamos no Facebook, no Instagram e no Twitter. É só procurar por Oxigênio Podcast.

    OSCAR: E você também pode deixar a sua opinião sobre este episódio e sugerir temas para os próximos programas. Basta deixar o seu comentário na plataforma de streaming que utiliza. Até a próxima!

     

    ______________________________________

     

    Músicas

    “VK Talis – Minimal no Effects” por Blue Dot Sessions

    “Keffel” por Blue Dot Sessions

    “Haena” por Blue Dot Sessions

    “Supernova” por Oscar Freitas Neto

    “The Consulate” por Blue Dot Sessions

    “The Bus at Dawn” por Blue Dot Sessions

    “Undying” por Blue Dot Sessions

    “Villano” por Blue Dot Sessions

    28 min
  • #93 Série Corpo, episódio 4 – Outra quadra

    Daniel é um professor de inglês e atleta de esgrima em cadeira de rodas. Maria Luiza Tanure Alves é professora da Faculdade de Educação Física da Unicamp e estuda formas de ensinar o esporte paralímpico na escola para promover a inclusão. Em “Outra quadra”, contamos as histórias dos dois e falamos de suas memórias com as aulas de Educação Física. A série Corpo faz parte do projeto “Histórias para pensar o corpo na ciência”, que é financiado pela FAPESP (2019/18823-0) e coordenado pelo professor Bruno Rodrigues (FEF/Unicamp).

    SAMUEL RIBEIRO

    Oi. Este é o quarto episódio do Corpo, podcast que fala de pessoas e de movimento e é produzido aqui na Unicamp. Eu sou Samuel Ribeiro, e hoje… a gente começa com a história do Daniel.

    SAMUEL

    Parte 1: o esgrimista em quarentena.

    SAMUEL

    E pra você assim, que fazia tanta coisa, e tinha uma rotina de treino, de sair, de dirigir, de ir pra Unicamp, como que tá sendo agora esse período do isolamento?

    DANIEL TIBIRIÇÁ

    Ah tá sendo um baque, cara, tá sendo um baque. Eu tô fazendo o possível pra não me perder de… o foco né, o momentum.

    SAMUEL

    Esse é o Dani, um amigo meu. A gente trabalhou junto em 2012 numa empresa de tecnologia aqui da região de Campinas.

    DANIEL

    Bom meu nome é Daniel Tibiriçá. Eu sou atleta de esporte paralímpico…

    SAMUEL

    Além de atleta ele é professor de inglês e assim como eu tá trabalhando de casa agora durante a pandemia.

    DANIEL

    Eu pratico esgrima em cadeira de rodas principalmente, mas eu também já me envolvi com o basquete em cadeira de rodas, parabadminton e também tô trabalhando com o Wushu adaptado.

    SAMUEL

    A locomoção do Dani é prejudicada desde que ele era pequeno, porque ele nasceu com uma malformação na coluna chamada lipomielomeningocele.


    DANIEL

    Eu andava mas eu… eu… eu cambaleava, eu jogava as pernas pro lado pra fazer a marcha, né. Então precisei fazer fisioterapia né, pra que não acontecesse nenhum tipo de desvio no desenvolvimento da minha marcha, né. Então eu fazia fisioterapia, eu intermitentemente eu usava órteses, né, quando eu era criança, eu usava órteses durante o período, depois eu não precisava mais. Depois piorava a minha marcha eu tinha que voltar a usar órteses.

    SAMUEL

    Na adolescência ele treinava Wushu, que a gente também chama de kung fu, só que conforme ele foi crescendo o problema na locomoção foi piorando. Primeiro ele passou a usar bengala, e aí ele pensou…

    DANIEL

    … bom o Wushu já acabou, não tem o que fazer.

    SAMUEL

    Depois foi pra cadeira de rodas, e isso foi mais ou menos na época da Copa.

    DANIEL

    … a Copa do Mundo de 2014 fez eu começar a pensar no esporte novamente e aí 2016 estava vindo né, tava no horizonte, e aí eu comecei a contemplar o esporte paralímpico né, porque Olimpíada também, fiquei sabendo da Paralimpíada, e aí comecei a pensar no esporte paralímpico.

    SAMUEL

    Bom, e o primeiro passo pra pensar em praticar um esporte era trocar a cadeira de rodas…

    DANIEL

    … porque assim, a cadeira que eu tinha antes era um trambolhão né. Não era uma cadeira muito dinâmica. Aí essa cadeira nova que eu fui comprar era uma cadeira um pouco menor, um pouco mais leve, um pouco mais ágil. Aí normalmente o que acontece? Quando as pessoas sentam, mudam de uma cadeira grandona trambolho pra uma cadeira pequena e mais leve, ela tem um pouco de dificuldade, ela se sente meio assim sem muito equilíbrio. É um pouco estranho, as pessoas costumam estranhar. Só que eu sentei e eu não tive nenhum problema. Eu comecei a dar volta pela loja, a loja tinha os corredores lá, eu comecei a fazer ziguezague em volta da loja o cara falou tipo assim “oh, você leva jeito para jogar basquete, você já pensou em jogar basquete?”.

    SAMUEL

    Aí o Dani falou…

    DANIEL

    … “olha eu estava pensando justamente em fazer algum esporte paralímpico mas eu não fazia, eu não faço a menor ideia onde procurar”. Aí ele falou que eles tinham contato e aí foi assim que eu comecei.

    SAMUEL

    Então ele treinou basquete por um tempo e depois foi se envolvendo com outras atividades. A uns anos atrás ele conheceu um projeto de esgrima paralímpica desenvolvido na Faculdade de Educação Física da Unicamp. Aí ele apareceu lá, fez uma aula experimental…

    DANIEL

    E foi bem natural depois disso, eles perceberam que eu levava jeito, porque era uma coisa que eu sempre gostava, né, tipo assim…

    SAMUEL

    O Dani entrou de cabeça na esgrima e desde então tem se dedicado a treinar e participar de campeonatos com a equipe da Unicamp.

    DANIEL

    … desde criança meu brinquedo favorito era espada, né, então [RISOS]…

    SAMUEL

    E é curioso pensar que só depois de adulto que ele foi ter contato com um esporte especificamente voltado para pessoas com deficiência. Na época da Educação Física na escola ele não teve esse tipo de conteúdo e participava do jeito que dava. A lógica do Dani era assim:

    DANIEL

    Tá, onde que eu posso me inserir melhor né? Era um raciocínio que eu mesmo fazia. Onde que eu posso contribuir melhor? Eu tentei várias vezes jogar no ataque e eu percebi que eu não conseguia né, porque eu não conseguia dominar a bola, eu não tinha o controle das pernas suficiente pra dominar a bola, fazer os dribles, fazer tudo que a molecada fazia, então eu falei “meu, o que eu consigo fazer é tipo assim, dar carrinho” [RISOS]. Eu conseguia dar carrinho na bola, então eu jogava ou na zaga ou no gol.

    SAMUEL

    Então ele mesmo bolava estratégias pra participar dos jogos com os colegas.

    DANIEL

    … no geral eu sempre fiz um esforço pra não ser diferente, né, eu não queria… eu não queria passar por essa situação de tipo assim “ah o professor tem que fazer alguma coisa especialzinha só pra mim”. Eu tentava me inserir. E tipo assim, era uma coisa que agora eu considero tipo assim, mentalidade da época. Eu não queria lidar com o fato da minha deficiência, ou queria lidar com ela da forma que fosse menos, assim, que tratasse de uma forma menos explícita.

    DANIEL

    … eu falei com alguns amigos meus do basquete, né, e tipo assim, uma menina por exemplo falou pra mim que ela… ela não fazia, né… ela ficava lendo durante a aula de Educação Física né. Então eu fico imaginando que talvez, se eu tivesse numa realidade onde eu tava na cadeira de rodas e não tivesse toda uma estrutura pra inserir o meu quadro na atividade esportiva, provavelmente eu teria feito a mesma coisa. Teria acabado lendo sozinho, né, ou buscado fazer qualquer outra coisa durante a aula de Educação Física.

    SAMUEL

    Parte 2: a professora de Educação Física que não gostava de Educação Física.

    SAMUEL

    Que tipo de aluna que você era nas aulas?

    MARIA LUIZA TANURE ALVES (MALU)

    Péssima! Eu não gostava de fazer Educação Física! É… a Educação Física pra mim ela nunca foi atrativa, a Educação Física da escola. Hoje eu consigo entender porque que ela era daquele jeito, e porque que eu tinha o meu comportamento daquele jeito, mas eu raramente participava… conseguia participar da aula de Educação Física…

    SAMUEL

    Essa é a Malu.

    MALU

    E eu vim pra Unicamp fazer faculdade de Educação Física, minha família tomou um choque, assim, como? Se a pessoa nunca gostou de esporte, nunca praticou nada, ela vai fazer Educação Física? Justo isso, né? Não tinha nada? Enfim.

    SAMUEL

    Depois que eu conversei com o Dani eu quis conversar com ela, porque ela entende tudo sobre inclusão.

    MALU

    … meu nome é Maria Luiza Tanure Alves, né, vamo… acho que é melhor… cê quer o nome todo, desculpa, já comecei fazendo tudo errado! Cê quer o nome todo? É que todo mundo só fala Malu, né, então fica difícil.

    SAMUEL

    … a Malu é aqui da Faculdade de Educação Física da Unicamp. Ela é do Departamento de Estudos da Atividade Física Adaptada e pesquisa o tema da Educação Física para crianças e jovens com deficiência.

    SAMUEL

    Antes de fazer pesquisa ela deu aula de Educação Física na rede estadual, na periferia de Campinas. Ela já tinha estudado um pouco a questão da deficiência na Educação Física durante a graduação, mas…

    MALU

    … quando eu cheguei na escola, eu vi a realidade desse aluno com deficiência, que ele chegou pra mim. E até o momento que ele chegou pra mim ele não participava da aula de Educação Física, ele ficava sentado num canto. E essa é a história mais comum que a gente encontra: o aluno com deficiência na aula de Educação Física ele fica sentado num canto, e ele já se acostumou a ficar sentado ali. Ele já se acostumou, ele admite que o problema dele não participar na aula de Educação Física é dele.

    SAMUEL

    E pra entender melhor esse contexto do aluno sentado num canto, a Malu foi fazer pesquisa. Ela começou estudando as relações sociais dos alunos com deficiência na escola, e logo depois, no doutorado…

    MALU

    … eu já parti pra um outro viés, assim, porque as pesquisas na área de inclusão elas sempre procuram saber opinião do professor, opinião do diretor, opinião dos pais, mas dificilmente elas pegam opinião da criança, do jovem, ou do atleta com deficiência.

    MALU

    E aí foi um desafio muito grande, porque eu comecei a perceber que é muito difícil criança com deficiência verbalizar. Você pegando agora um atleta, que já tem memórias, que já tá incluído num contexto esportivo, que já é valorizado… é muito diferente quando você pega uma criança que tá marginalizada todo dia. Ela não se sente no direito de falar, ela tem uma dificuldade muito grande de se expressar, em colocar.

    SAMUEL

    O que ela percebeu ali foi um cenário de exclusão. A escola não tinha estrutura adequada, os professores relatavam não saber o que fazer com aqueles alunos…

    MALU

    E aí vieram relatos muito fortes, assim, de… do aluno com deficiência falando assim, de criança falando, é… mesmo no frio eu fico lá sentado esperando a aula acabar e vendo meus colegas jogarem. Então assim, cê começa a ver uma realidade que cê não fazia ideia, né, de que você… uma coisa que cê não tinha pensando. A pessoa tá ali, jogada, sentada no canto.

    MALU

    Parece que é um ser invisível ali, né, que tá só colocado ali pra… pra entender esses pré-requisitos de estar incluído, mas a inclusão realmente ainda não chegou dentro da escola. As pessoas ainda não entendem muito o que que é inclusão.

    SAMUEL

    A Malu depois que entrou como professora na Unicamp fez uma pesquisa na qual acompanhou alunos com deficiência e professoras nas aulas de Educação Física durante um ano. E um dos dados que ela obteve foi que alguns professores ainda tinham uma ideia de inclusão que era desatualizada, lá dos anos 90, então no final do processo a coisa não funcionava tão bem e os alunos ainda relatavam não conseguir participar da aula.

    MALU

    Falar de uma forma muito simples, é isso que eles entendem: que se o aluno com deficiência não tiver fazendo a mesma coisa que os outros alunos na aula de Educação Física, ele não tá incluído. Só que não. Esse pensamento já evoluiu! Isso era o início do processo, quando começaram a pensar em inclusão, foi dessa forma que ela foi entregue.

    MALU

    E aí foram escutar as crianças, os alunos, os jovens com deficiência, e eles falaram “não, não tô me sentindo incluído”. Aí os estudos começaram a falar “mas pera aí, se você não tá se sentindo incluído, você não tá incluído”. Né, não adianta a gente ficar dando murro em ponta de faca.

    SAMUEL

    Sabe aquele brinquedo de criança, das formas e dos buracos? É como se o professor estivesse tentando fazer um quadrado passar no triângulo, ou vice-versa. Ele não tá entendendo que as peças são diferentes. Então a ideia de inclusão que os estudos propõem hoje já não é mais essa de todo mundo fazendo a mesma coisa.

    MALU

    Hoje a gente tá mais pautado no conceito de equidade. E o que que é equidade? São oportunidades diferenciadas de acordo com a necessidade de cada um.

    MALU

    Então ao mesmo tempo que eu tenho alunos que devam aprender o futebol, o basquete, o vôlei e tantas outras modalidades esportivas, eu também tenho o aluno com deficiência que deve aprender sobre esporte paralímpico. A aula de Educação Física é o local onde essa criança vai aprender de forma sistematizada sobre o que que é o esporte, então não é certo e não é justo uma criança passar por um processo de escolarização aí de vários anos sem saber quais são os esportes que ela pode praticar fora da escola.

    SAMUEL

    E aí a gente entra num ponto chave da pesquisa atual da Malu: a questão da inclusão acaba sendo também um problema de currículo. As modalidades paralímpicas não aparecem nas aulas de Educação Física.


    MALU

    Então a gente tem lá todo um rol de conteúdos que tá lá no nosso PCN, tá lá no nosso currículo, baseado nas manifestações da cultura corporal. Só que de que corpo é esse que a gente tá falando? Manifestação de que corpo? Obviamente, pelo que você coloca de currículo, a gente tem um corpo hábil, um corpo capaz, um corpo forte. Quem não atende essas demandas, essa visão de corpo, não atende o que se espera na aula de Educação Física e não é valorizado. Como é que você coloca um aluno com deficiência, que não tem esse corpo desejado, pra atender esse currículo? Então mais uma vez entra o nosso questionamento de por que que o esporte paralímpico ainda não está no currículo escolar de uma forma pedagógica, como estão as outras modalidades, entendeu?

    SAMUEL

    As vezes o esporte paralímpico até aparece em alguns currículos…

    MALU

    Mas ele aparece só na parte de uma vivência. Então o professor vai lá e faz um joguinho pra esse aluno e esse aluno vivencia um joguinho só, uma modalidade só, um goalball, um vôlei sentado e acabou.

    SAMUEL

    Pra comparar, é só pensar quantas vezes você jogou futebol durante a sua Educação Física. Ou basquete, ou handebol, ou alguma dessas modalidades convencionais que a gente tá mais acostumado. Eu mesmo só fui saber da existência de esporte paralímpico depois de adulto…

    MALU

    Então a gente não tem modalidades que possam ser praticadas pelo aluno com deficiência no currículo. E de uma forma que consiga aprender o esporte, não só vivenciar o esporte, que ele possa se interessar e falar “nossa, esse é um esporte que eu posso praticar fora da escola”.

    SAMUEL

    Com base nisso, a ideia da Malu nessa pesquisa que ela tá começando é fazer intervenções em escolas pra capacitar professores a trabalhar o conteúdo do esporte paralímpico, pra depois observar os efeitos disso junto aos alunos, com deficiência e sem deficiência.

    SAMUEL

    Por enquanto a pesquisa tá parada por conta da pandemia, mas ela me contou um pouco do que rolou no estudo piloto do projeto que foi feito numa escola ano passado, com uma turma de ensino médio.

    MALU

    E tinha um menino cadeirante. E foi super legal, porque quando a gente começou, a professora falou assim “as meninas não fazem aula, cê pode esquecer, porque elas ficam se maquiando, elas ficam mexendo no celular, mas elas não fazem a aula”. Além do menino com deficiência física, né, então a gente tinha dois grupos ali que não participavam da aula de Educação Física. E aí quando eu montei as aulas, todas fizeram. Não teve um aluno que não participou. Então tinha aluno obeso, que tinha uma dificuldade de correr, né, tinha um aluno com deficiência física, e tinha as meninas, que tinham outras coisas na cabeça, elas tavam preocupadas com outras coisas. E todos conseguiram participar, e eu trabalhei esporte. Eu não trabalhei pega pega, brincadeirinha… eu trabalhei o esporte, só que de outra forma, entendeu? Com jogos, com brincadeiras, de formas que eles não tavam se sentindo cobrados em desempenhar aquele papel do corpo ideal. Foi bem legal, sabe? Eu fiquei bem feliz com essa coleta.

    SAMUEL

    Pra mim, pensando agora, a trajetória da Malu faz todo o sentido, porque eu também não gostava de Educação Física e encafifei de me formar na área. É como se fosse um reencontro da gente com a gente mesmo.

    MALU

    Então… eu acho que eu faço hoje a Educação Física que eu queria ter recebido na escola, isso… eu tenho essa consciência, assim, porque eu conseguiria fazer a aula de Educação Física que eu proponho.

    SAMUEL

    O episódio fica por aqui. O Corpo é uma produção do podcast Oxigênio, do Labjor/Unicamp, e faz parte do projeto “Histórias para pensar o corpo na ciência”, que é feito na Faculdade de Educação Física e tem financiamento da FAPESP.

    SAMUEL

    A idealização, produção, entrevistas, roteiro e edição desse programa foram feitas por mim, Samuel Ribeiro. O projeto é coordenado pelo professor Bruno Rodrigues da FEF e supervisionado pela Marina Gomes do Labjor. Quem coordena o Oxigênio é a professora Simone Palone, também do Labjor.

    SAMUEL

    E se você gostou do episódio, dá um alô pra gente nas redes sociais. A gente tá no Facebook, Instagram e Twitter, é só procurar por Corpo Podcast.

    SAMUEL

    Um agradecimento especial para os professores de Educação Física que me mandaram relatos e perguntas sobre inclusão e me ajudaram a pensar o tema. Muito obrigado à Bruna, ao Bruno, ao Gustavo, à Marina e à Nara! Até a próxima.

    Músicas

    “Are We Lost Yet” by Bodytonics.

    Blue Dot Sessions (https://www.sessions.blue).

    “Our Quiet Company” by Marisala.

    Blue Dot Sessions (https://www.sessions.blue).

    17 min
  • #92 – Quarentena – OK, computador

    Você sabia que seu computador pode ajudar na luta ao novo coronavírus? Nesse segundo episódio do QUARENTENA, falamos sobre um jeito de ajudar no combate a COVID-19 sem sair de casa – como recomendam as autoridades sanitárias do mundo todo. É isso mesmo, tratam-se de projetos que envolvem a computação distribuída/paralela, como o Folding@Home, Rosetta@Home e o Open Pandemics da IBM. Quem falou sobre isso foram: Sarita Bruschi, cientista da computação e professora da USP, e Benilton de Sá Carvalho, – estatístico e professor da UNICAMP. 

    O Quarentena é um projeto ligado ao curso de Especialização em Jornalismo Científico do Labjor/Nudecri/Unicamp e ao Lab 19, proposta de cobertura da Covid-19, dos alunos do curso. Mais informações sobre o Lab-19 em: http://www.comciencia.br/especial-sobre-a-pandemia-da-covid-19/

    Esperamos que você goste do programa e compartilhe com seus amigos. Se quiser,  comente nas nossas redes sociais – Twitter (twitter.com/castquarentena), Instagram (https://www.instagram.com/castquarentena/) e Facebook (https://www.facebook.com/quarentenapodcast/) e nas redes sociais do Oxigênio (@oxigenio_news), Instagram (@oxigeniopodcast) e Facebook (/oxigenionoticias) ou escreva para [email protected].

     

    E aqui vai o conteúdo completo do EPISÓDIO 02 – OK, COMPUTADOR

    Carol: Ok, Google.

    Google: Olá, como posso ajudar?

    Carol: Play Quarentena Podcast.

    Google: Tocando Quarentena Podcast.

    Carol: No passado, muitas pessoas se dedicaram a imaginar um futuro para a humanidade. Nas telonas, a mensagem era muito clara: carros voadores, hologramas e até mesmo um mundo formado apenas por droids, os robôs inteligentes. Embora essa seja uma visão deturpada da realidade que conhecemos, não podemos negar o fato de que as máquinas têm evoluído e colaborado na construção de um presente repleto de facilidades. No atual cenário de pandemia, os computadores já ocupam um local de destaque. A vida em rede tem permitido que cientistas desenvolvam novos conhecimentos na batalha contra o novo coronavírus. Assim, nossos próprios computadores podem ser utilizados nas pesquisas sobre a COVID-19.

    Carol: Você está ouvindo o QUARENTENA. Eu sou a Carol e no episódio de hoje falaremos sobre a tecnologia como aliada no combate ao novo coronavírus.

    Carol: O conhecido autor de ficção científica, Isaac Asimov, estabelecia três leis para a robótica em seu livro “Eu, robô”, um retrato da relação tênue entre homem e máquina. A primeira falaria justamente sobre essa relação.

    Google: “Primeira lei: um robô não pode ferir um ser humano ou, por omissão, permitir que um ser humano sofra algum mal”

    Carol: Em um paralelo com a realidade, temos tentado cumprir a lei. No atual cenário da pandemia, o que buscamos é justamente remediar ou extinguir a doença que nos tem causado mal, usando, entre outras coisas, a computação a nosso favor. No entanto, a tecnologia precisou evoluir para chegar onde estamos hoje. Se hoje buscamos por respostas de forma mais rápida, é porque antes criamos ferramentas para isso. Sobre esse desenvolvimento da tecnologia, a cientista da computação e professora da USP, Sarita Bruschi, tem algo a nos dizer.

    Sarita: Realmente são vários episódios que, ao logo da história na evolução da tecnologia, merecem um grande destaque. Eu vou destacar aqui dois que foram particularmente importantes pra evolução da área de computação distribuída, que são: as redes de computadores e a miniaturização dos componentes eletrônicos. Sem a comunicação permitida pelas redes, não seria possível transmitir os dados entre os computadores da maneira rápida, confiável e segura que temos hoje. Também sem o advento dessas redes de computadores, a gente não teria hoje essa grande rede mundial que é a Internet.

    Carol: A Internet, pela qual estamos conectados agora.

    Sarita: O outro advento que eu considero muito importante é em relação ao processo de fabricação do principal componente dos circuitos eletrônicos, que é o transistor.

    Carol: Os transistors são uma das unidades mais básicas da eletrônica. Eles são semicondutores com duas funções principais: amplificar a corrente elétrica – como acontece com os microfones – ou funcionar como um interruptor, barrando ou liberando a passagem dessa corrente.

    Sarita: Com a evolução do processo de fabricação, foi possível diminuir os componentes eletrônicos e, consequentemente, aumentar o poder de processamento, colocando mais transistors em um determinado espaço. Hoje é possível que um circuito eletrônico de milímetros quadrados forneça uma capacidade de processamento muito grande.

    Carol: Ou seja, a tecnologia como conhecemos hoje nos deu um maior poder computacional. Conseguimos colocar cada vez mais dispositivos eletrônicos em espaços cada vez menores.

    Sarita: Esses dois episódios juntos são, pra mim, a base do que se tem hoje na computação distribuída, que é o poder computacional e a comunicação. 

    Carol: Estabelecidos nesse presente, comandamos as máquinas. Programamos e instruímos essas ferramentas para executar as tarefas que desejamos.

    Google: “Segunda lei: um robô deve obedecer às ordens que lhe sejam dadas por seres humanos, exceto nos casos em que tais ordens contrariem a Primeira Lei”

    Carol: A ordem da vez tem sido empregar o computador no combate à determinadas doenças. Projetos como o Folding@Home e o Rosetta@Home, por exemplo, permitem que qualquer pessoa do mundo ofereça seu computador para determinar estruturas de proteínas. Esse tipo de trabalho tem um valor enorme: pode ajudar na cura de várias doenças. Para participar, basta instalar um programa específico e pronto! Enquanto você navega, seu PC colabora com o projeto. Outra iniciativa similar é a Open Pandemics da IBM, na qual os computadores podem ser usados para executar experimentos virtuais. Esses experimentos buscam por compostos químicos que ajudem no tratamento da COVID-19. Em todos os projetos, há uma mesma lógica: vários computadores juntos formando um supercomputador.  

    Sarita: A computação distribuída é uma área da computação que estuda os sistemas distribuídos. Um sistema distribuído é composto por vários componentes que estão localizados em computadores diferentes e têm a capacidade de se comunicar e coordenar suas ações com o objetivo de dar impressão ao usuário de que ele é um sistema único, ou seja, apesar do usuário achar que é um sistema único, na verdade o processamento de alguma requisição pode estar sendo executado em um outro computador que o usuário nem sabe que existe.

    Carol: São tarefas distribuídas entre vários computadores, mas que dão a impressão de serem executadas por um só.

    Sarita: Existem duas maneiras que os sistemas distribuídos podem funcionar: na primeira delas, todos os computadores trabalham pra atingir um objetivo comum, e o usuário final vê esse resultado.

    Carol: Que é o que acontece com projetos que tentam resolver problemas relacionados à estrutura molecular de proteínas, genoma humano ou até mesmo a previsão do tempo.

    Sarita: No primeiro caso, a gente tem o que pode chamar de computação paralela, onde uma grande quantidade de processamento é necessária pra resolução de um único problema. Esse problema é então divido em partes, que são executadas paralelamente pelo sistema de maneira coordenada, e o usuário vê esse resultado final desse processamento. 

    Carol: No caso dos projetos como o Folding ou o Rosetta@Home, a gente trabalha nas estruturas das proteínas com os nossos computadores dentro de casa. Mas quem tem o resultado final é o pesquisador que conduz o estudo. 

    Sarita: Na segunda, cada computador tem seu próprio usuário final e o sistema distribuído ele vai facilitar algum tipo de compartilhamento de recursos ou algum outro serviço como, por exemplo, o serviço de comunicação. No segundo caso, a gente tem o que a gente chama de computação distribuída propriamente dita, onde a principal característica é o compartilhamento de recursos, que pode ser tanto o software como o hardware.

    Carol: Lembrando que o hardware é o conjunto de peças que compõe o computador, ou seja, a parte física. Já os softwares são os programas da máquina, como os aplicativos e o sistema operacional. Em um exemplo simples, é como se o hardware fosse o seu cérebro, e o software os seus pensamentos.

    Sarita: Exemplo desse caso é a computação em nuvem e o oferecimento de serviços. Algumas empresas fornecem softwares como serviços – como o DropBox, Google Drive, Netflix – e outras empresas fornecem infraestrutura como serviço – como a Amazon, Web services e a Microsoft Azure.

    Carol: A verdade é que um sistema distribuído não é fácil de ser implementado e gerenciado. Mas ele tem uma grande vantagem…

    Sarita: E é possível também ter o que se chama de “escalabilidade horizontal”, que é a possibilidade de aumentar o sistema através da adição de novos computadores.

    Carol: Com a COVID-19 projetos que envolvem a computação distribuída têm tomado as páginas dos jornais. Mas será que essa ideia é mesmo nova?

    Sarita: Antes de se ouvir falar dos sistemas que têm sido discutidos recentemente, a computação distribuída já era utilizada em outros problemas parecidos. O primeiro sistema na linha do Rosetta@Home foi o SETI@Home, um projeto da Universidade de Berkeley nos Estados Unidos, que utilizava o poder computacional dos computadores pessoais conectados através da Internet pra fazer cálculos de busca por vida extraterrestre. Bastava o usuário fazer o download de um programa no seu computador pessoal e executar, pra depois receber os dados dos telescópios e fazer análise em busca de algum indicativo de vida extraterrestre. A primeira versão desse programa foi lançada em 1997 e até hoje está ativo.

    Carol: Mas pra quem não tá a fim de achar vida alienígena, o Folding e o Rosetta@Home são projetos que se destacam na busca por curas para algumas doenças.

    Sarita: Em 2007 eles entraram pro livro dos Records como a rede de computação distribuída mais poderosa do mundo. Atualmente eles possuem vários projetos que os usuários podem auxiliar na computação, mas eles estão priorizando as pesquisas relacionadas à COVID-19. A página inicial do Folding@Home apresenta a frase “I am one in a million”, pra incentivar que a plataforma chegue no objetivo de ter um milhão de colaboradores. 

    Carol: Eu sou uma em um milhão. E você?

    Carol: Agora que sabemos que existem formas de ajudar no combate à COVID-19 usando o computador em casa, outra pergunta surge: como configurar esses programas? Quem explica pra gente é o Benilton de Sá Carvalho, estatístico e professor da UNICAMP.

    Benilton: Iniciativas como o Folding@Home utilizam soluções de software que permitem o uso do seu computador pessoal, por exemplo, pra execução de tarefas bastante específicas. Então você vai até o site do projeto, faz o download dessa ferramenta, instala no computador e, ao instalar, você precisa informar ao software quais são as condições de uso que você permitiria que acontecessem no seu computador. Então, por exemplo, você pode dizer que o software pode utilizar seu computador a qualquer momento, ou, por exemplo, restringir o uso pra quando você não estiver fazendo nada no computador. E uma outra pergunta bastante clara nessa configuração é que tipo de “força”, vamos colocar assim, ou intensidade você quer que seu computador utilize: se é um processamento mais leve, um processamento mais pesado, ou um processamento mediano, vamos assim dizer.

    Carol: Mas como será que o computador faz pra executar esses experimentos virtuais?

    Uma vez configurado isso seu computador se conecta à rede de computação distribuída, por exemplo, da Folding@Home, e fica aguardando instruções. Essas instruções são, habitualmente, simulações. Então vamos pensar num cenário de pandemia, como a gente tem nesse momento, que pesquisadores estejam interessados em simular o que é a dinâmica da doença dentro de uma certa comunidade. E esses pesquisadores podem escrever um programa de computador que essencialmente venha a simular as ações de cada pessoa. Então ele pode escrever esse programa que pode simular como um indivíduo pode agir. Seja por interação social, seja colocar coisas como ir ao supermercado e voltar, ir ao trabalho e voltar, para que fosse possível realizar alguma inferência a respeito da doença.

    Carol: Mas com muitos computadores trabalhando juntos, o resultado pode vir bem mais rápido.

    Benilton: Então vou dar um exemplo, infantil até, mas existem cenários de simulação, mesmo num ambiente de epidemia, e em um único computador, isso poderia levar coisa de 500 anos, por exemplo, de simulação contínua, sem parar. Suponhamos que nessa rede de computador, 1000 voluntários disponibilizem os seus computadores, e essa rede conta então com esses 1000 computadores. O que a gente tem no final é a possibilidade de executar essa pesquisa que inicialmente duraria 500 anos de processamento, ela acaba sendo executada em metade de um ano. Você teria aí 5, 6 meses nessa execução.

    Carol: Com essa situação inédita acontecendo, muitas pessoas têm monitorado as informações pela Internet. Mas é preciso ficar atento sobre quais delas são realmente confiáveis. Como será que essa necessidade de informação vai mudar a nossa realidade daqui pra frente?

    Benilton: Esse cenário de pandemia em que a gente se encontra no momento, ele está sendo um redefinidor de paradigmas, a gente vai sair disso, e vai ter um novo período de adaptação a um novo normal. E uma das coisas que tá muito clara nesse período, é que esse novo normal vai depender fortemente de acesso contínuo e transparente a dados, o que tá acontecendo, quais são as previsões, quais são as ações que podem ser tomadas a partir desses dados vão ser perguntas comuns nessa nova realidade em que a gente vai estar.

    Carol: E o acesso a esses dados, como será que vai ficar?

    Benilton: Isso vai trazer também a necessidade de uma democratização, vamos assim chamar, da análise de dados. Como que a gente extrai a informação a partir disso tudo, definitivamente é algo que não é de conhecimento comum.

    Carol: E os meios pra fazer isso já começam a surgir…

    Benilton: A gente vai ver um aumento bastante acelerado de ferramentas, de recursos e tudo mais, que façam esse tipo de interpretação dos dados pra comunicação como um todo. Não há dúvida que uma análise apropriadamente feita traga bastante benefícios, mas me preocupa também o risco em que nós podemos estar expostos se essas análises são realizadas de maneira inapropriada. Mas definitivamente a gente deve ver, num futuro bastante próximo, um aumento incrível no número de recursos, sites, dashboards, podcasts, canais de mídias sociais e tudo mais que venham discutir de maneira rotineira a análise de dados e também apresentar o que são as consequências.

    Carol: É válido lembrar que os programas são os mais seguros possíveis e os dados são direcionados às empresas e universidades responsáveis.

    Carol: Com a pandemia, assim como em outros momentos da história, temos desafiado o conhecimento humano e, consequentemente, aprimorado a tecnologia para isso. Estamos todos imersos num esforço coletivo para proteger a nossa tão frágil existência.

    Google: “Terceira lei: um robô deve proteger sua própria existência, desde que tal proteção não entre em conflito com a Primeira e a Segunda Leis”

    Carol: Ok, Google! Vocês também.

    Carol: Ficção à parte, o avanço da tecnologia nos permitiu chegar à um cenário no qual, mesmo dentro de casa, podemos colaborar com esse esforço coletivo que busca por soluções para a atual pandemia. Mas somente a união de nossos esforços é que pode nos levar à um amanhã melhor do que o hoje. 

    Carol: Apesar da distância física, espero que a mensagem chegue até você nessa grande rede digital. Estamos juntos, mesmo cada um na sua casa. Nesse pacto coletivo, em um abraço virtual.

    Carol: Eu sou a Carol e esse foi o QUARENTENA.

    *Um agradecimento especial ao Octávio Augusto, da rádio Unicamp, que propôs a pauta do episódio, e ao Matheus Populim (ICMC/USP), que colaborou na revisão técnica do assunto.

    Músicas e efeitos sonoros:

    Secret Pocket by Holyoke – Blue Dot Sessions

    Robot Code – Youtube Audio Library

    Poliphonic Congas by Unicorn Heads – Youtube Audio Library

    Oriel by Architect – Blue Dot Sessions

    Noe noe by Castro – Blue Dot Sessions

    Messenger Notification Sounds by zzwerty – Freesound

    Calculating by freedomfightervictor – Freesound

    Mouse click by deleted user 4772965 – Freesound 

    Disponíveis em:

    <https://www.youtube.com/audiolibrary/music?nv=1>

    <https://www.sessions.blue/>

    <https://freesound.org/>

    20 min
  • #91 Oxilab: Ciência nas crônicas de Machado

    Em “Ciência nas crônicas de Machado”, falamos sobre como o escritor Machado de Assis abordou a ciência em suas crônicas, de forma bem humorada e também crítica. A nossa entrevistada foi a Ana Flávia Cernic Ramos, que hoje é professora do Instituto de História da Universidade Federal de Uberlândia e fez seu doutorado em História Social da Cultura na Unicamp, sobre a participação do Machado na série de crônicas “Balas de Estalo”.

    OSCAR XAVIER: Aos quarenta anos casou com Dona Evarista, senhora de vinte e cinco anos, viúva de um juiz de fora, e não bonita nem simpática. Um dos tios dele admirou-se de semelhante escolha e disse-lhe. Simão Bacamarte explicou-lhe que Dona Evarista reunia condições fisiológicas e anatômicas de primeira ordem, digeria com facilidade, dormia regularmente, tinha bom pulso, e excelente vista; estava assim apta para dar-lhe filhos robustos, sãos e inteligentes. Se além dessas prendas, – únicas dignas de preocupação de um sábio, Dona Evarista era mal composta de feições, longe de lastimá-lo, agradecia-o a Deus, porquanto não corria o risco de preterir os interesses da ciência na contemplação exclusiva, miúda e vulgar da consorte.

    LAÍS TOLEDO: Esse é um trecho de “O alienista”, do Machado de Assis. Esse conto foi publicado, aos poucos, entre 1881 e 1882, em um jornal carioca.

    THAIS OLIVEIRA: O conto narra a história de Simão Bacamarte, um médico que era interessado pelos mistérios da mente humana. Naquela época, esse tipo de médico era chamado de alienista, daí o título do conto.

    LAÍS: O doutor Bacamarte vivia em função da ciência e construiu uma espécie de hospício. Lá, ele abrigava quem ele achava que era louco, para poder estudar essas pessoas. Só que chegou uma hora que quase todo mundo da cidade acabou internado. Então, o doutor Bacamarte teve que rever sua teoria sobre a loucura…

    THAIS: O Machado usava muitas vezes o absurdo e o riso para provocar indagações. Isso acontece em “O Alienista”, que mostra, por exemplo, que o limite entre uma pessoa “louca” e uma “normal” não é tão claro assim. Com isso, o Machado mostra também que a ciência não é nem objetiva nem inquestionável. E essa forma crítica de retratar a ciência pode ser encontrada em seus contos, romances e também em crônicas.

    LAÍS: Esse episódio do Oxigênio é sobre como o Machado de Assis tratou a ciência em suas crônicas, uma parte menos conhecida de sua obra. Para falar desse tema, entrevistamos a Ana Flávia Cernic Ramos, professora da Universidade Federal de Uberlândia.

    THAIS: Ao longo de quase meio século, o Machado escreveu, sozinho ou com outras pessoas, algumas séries de crônicas. Uma delas se chamava “Balas de Estalo”. E a Ana Flávia pesquisou no seu doutorado a participação do Machado nessa série.

    ANA FLÁVIA CERNIC RAMOS: Essa série foi publicada num dos maiores jornais do Rio de Janeiro, no final do século XIX. O Machado de Assis escrevia junto a outros jornalistas e literatos, e o Machado usava o pseudônimo Lélio nessa série de crônicas, que eram publicadas quase diariamente nesse jornal do Rio de Janeiro. E essa série era humorística. O Machado de Assis escolhe um personagem que explicita esse caráter humorístico, que é o Lélio, que é uma personagem tirada do teatro italiano, da Commedia dell’arte, no qual você comenta e critica e observa o mundo a partir de um viés humorístico. Rindo você critica ou aponta possíveis transformações ou reformas da sociedade.

    LAÍS: Depois, a pesquisa da Ana Flávia deu origem ao livro As máscaras de Lélio – Política e humor nas crônicas de Machado de Assis (1883-1886), publicado pela Editora da Unicamp. Hoje, a nossa conversa vai ser sobre um Machado de Assis que talvez você ainda não conheça. Eu sou a Laís Toledo…

    THAIS: … eu sou Thais Oliveira. E esse é o Oxilab “Machado de Assis: jornalismo, ciência e outras cousas mais…”.

    THAIS: Joaquim Maria Machado de Assis nasceu em 1839 no Morro do Livramento, próximo ao centro do Rio de Janeiro. Seu pai era neto de escravos e sua mãe era portuguesa. Com 15 anos, o jovem publicou a sua primeira poesia em um jornal. E foi aí que começou sua relação com a imprensa, que durou quase até o fim da sua vida.

    LAÍS: Antes de falar mais sobre os textos do Machado, é interessante ver um pouco essa imprensa. Ou melhor, como a ciência aparecia nos jornais brasileiros do século XIX. Ao longo desse século, os cientistas ganharam autonomia, prestígio e poder. O período foi marcado por uma grande euforia e por uma aposta na ciência.

    THAIS: As novas teorias científicas levaram as pessoas a acreditar que todos os mistérios da natureza podiam ser resolvidos. Mas como as pessoas, além dos cientistas, sabiam sobre o que estava acontecendo no mundo da ciência?

    LAÍS: Bom, na maioria dos países, a comunicação sobre ciência acontecia nos jornais diários. E no Brasil não foi diferente. Nosso primeiro jornal, a Gazeta do Rio de Janeiro, é de 1808. Desde o seu início, o jornal assumiu a missão de divulgar assuntos relacionados à ciência.

    THAIS: Ah, vale comentar que, até 1808, era proibido imprimir qualquer coisa no Brasil. Aqui, a imprensa só foi liberada com a mudança da família real portuguesa para o Rio de Janeiro. Os jornais dessa época tinham textos de “homens ligados à ciência”, como médicos e engenheiros, que davam destaque para as aplicações práticas de seus estudos. Aqui no Brasil, as áreas mais exploradas eram agricultura e saúde. E não era difícil encontrar textos que relacionam a ciência a termos como “progresso”, “luzes”, “desenvolvimento”, “interesses do Brasil” e “felicidade pública”.

    LAÍS: Nessa época, os jornais eram menores que os de hoje e publicavam textos científicos ao lado de peças literárias e notícias. Estava tudo no mesmo pacote.

    THAIS: Um tipo de texto que começou a se popularizar nesses jornais brasileiros e que representa bem a diversidade das publicações é a crônica. Ela tem um pé no jornalismo e outro na literatura. Geralmente é leve e livre e não tem compromisso de chegar a uma conclusão.

    LAÍS: A palavra “crônica” vem do grego kronos, que significa tempo, e diz respeito ao relato de acontecimentos em ordem cronológica. Mas, hoje em dia, ao falar de crônica aqui no Brasil, a gente não pensa mais em crônica histórica. A gente pensa em um comentário despretensioso sobre uma notícia do jornal ou até sobre um fato do dia-a-dia.

    THAIS: Dois autores que faziam isso muito bem eram Carlos Drummond de Andrade e Clarice Lispector. Com certeza, você deve conhecer alguma crônica que eles escreveram. Quem também é fã do gênero é o Antônio Prata, um escritor do nosso tempo.

    LAÍS: Mas não se engane. Mesmo que a crônica trate de temas despretensiosos e, muitas vezes, de forma engraçada, não são poucas as crônicas que abordam assuntos sérios. Muitos cronistas enxergavam esse texto como uma forma de comentar os acontecimentos e mudar a realidade do seu tempo.

    THAIS: Foi nesse contexto que o Machado de Assis (Ufa! Ele voltou!) escreveu centenas de crônicas, desde os seus 20 anos até quase o fim da vida. E como a gente já disse, o Machado participou de uma série coletiva de crônicas chamada “Balas de Estalo”. Nessa série, ele abordou vários temas, e um deles foi justamente a ciência.

    LAÍS: A gente pediu pra Ana Flávia, a nossa entrevistada, falar sobre a relação do Machado de Assis com a ciência nessa série de crônicas, um dos assuntos que ela pesquisou no doutorado.

    ANA FLÁVIA: A gente pode dizer que o Lélio está atento ao discurso científico no final do século XIX, especialmente quando esse discurso científico ele é tido de forma bastante totalizante mesmo, como se fossem falas unânimes e sem contradição. Na verdade, ele não vai duvidar da ciência em si, mas ele vai mostrar como a ciência também era fruto de disputa, como ela também tinha o seu quinhão de subjetividade, de ponto de vista, de escolhas, de recorte. Então, nessa tentativa de problematizar um pouco os discursos científicos. Não abrindo mão deles, não desacreditando totalmente a ciência, mas trazendo a ciência pra dentro da sociedade, vendo a ciência como parte de um construto social, com seu quê de subjetividade. Com as suas contradições também. Então tirando um pouco esse caráter excessivamente positivista, que é uma marca do século XIX. Que é uma visão da ciência de forma muito totalizante mesmo. De uma objetividade excessiva, de uma neutralidade absoluta. Como se o discurso científico estivesse completamente imune aos efeitos das disputas sociais. Nos quais a ciência também estava inserida. Então, essa é uma das preocupações do Machado.

    THAIS: O escritor acreditava que as teorias precisavam ser discutidas. E que o discurso científico, como qualquer discurso, não era imutável. Além disso, muitas vezes, ele tinha lacunas, contradições e até a intenção de atender a interesses particulares.

    LAÍS: Por exemplo, algumas teorias estrangeiras eram usadas no Brasil para justificar desigualdades consideradas “naturais” entre os seres humanos. Assim, essas teorias serviam para legitimar a manutenção da escravidão por aqui.

    ANA FLÁVIA: Vale lembrar que as últimas décadas do Império, especialmente na década de 1880, que é quando o Lélio está escrevendo “Balas de estalo” há um processo em curso, e bastante disputado, que é o da abolição da escravidão. Onde você tem uma sociedade dividida entre aqueles que são escravos e aqueles que são livres. E, uma vez tendo no horizonte que essa divisão será rompida, com o fim da escravidão, há uma insistente tentativa de hierarquizar as pessoas por outras medidas que não mais essa da fronteira entre a liberdade e a escravidão. Se precisa criar outras formas de hierarquizar aquele mundo. Então, o Machado vai ficar bastante atento a esse processo de criação de outros discursos que legitimem desigualdades.

    THAIS: A Ana Flávia comentou que o Machado se incomodava especialmente quando ideias de Charles Darwin eram usadas a partir de um ponto de vista social. Ou seja, ele criticava quando ideias do Darwin, como seleção do mais adaptado, competição e evolução, não eram usadas pra explicar a evolução das espécies, mas sim pra explicar o funcionamento da sociedade e, com isso, justificar desigualdades.

    LAÍS: Essa forma de usar a teoria do Darwin é o que conhecemos hoje como darwinismo social, e é um exemplo de racismo científico. De acordo com a pesquisadora entrevistada, além de questionar esse uso do discurso científico, o Machado também escrevia pra interferir na sua realidade.

    ANA FLÁVIA: O Machado, alguém que lutou, como a gente pode observar por algumas crônicas da série, que estava bastante atento ao processo de abolição, um Machado que lutou e que interveio através de seus escritos literários pela liberdade no Brasil, um Machado de Assis defensor da abolição, também como seus colegas de série, esperando que a escravidão finalmente fosse finalizada, que ela se extinguisse no Brasil, preocupado com a integração desses muitos homens e mulheres, que finalmente conseguiriam sair do mundo da escravidão. Como é que eles seriam efetivamente inseridos, incluídos, num novo mundo. Já que havia também toda uma preocupação de conquista de cidadania, de ampliação de direitos. Então, como isso poderia ser obstruído de alguma forma por discursos ou teorias que criassem diferenciações outras para manter a hierarquização social.

    THAIS: Antes de terminar esse episódio, tem mais um assunto que a Ana Flávia falou que foi importante pro Machado: a relação entre ciência e literatura. Ou melhor, o incômodo do escritor também com a forma como a ciência era usada pelo discurso literário.

    ANA FLÁVIA: O Machado de Assis, além dos debates políticos e sociais, também está muito atento a um debate literário sobre quais são as relações possíveis entre ciência e literatura. O Machado está discutindo especialmente com autores que pretendem ou que versam sobre o Naturalismo na literatura, cujo expoente maior é o Émile Zola, na França. E é uma literatura que se pretendia moderna, científica, objetiva e que tinha entre as suas intenções estudar a sociedade ou as doenças sociais, que via muito o literato como aquele que quase reproduz fielmente, que copia o real, que espelha o real, diagnosticando os problemas daquela sociedade, os males sociais que atingem essas comunidades. E aí o Machado, de certa forma, também problematiza essa pretensão científica da literatura, de copiar o real tal qual, de diagnosticar o real como se o literato fosse alguém que estivesse fora daquela realidade, fora daquele mundo e que não tivesse ponto de vista, não tivesse a sua especificidade, o seu lugar social. Quem é o literato? De que lugar social ele fala? Qual é o seu ponto de vista?

    THAIS: Bom, a gente espera ter apresentado um pouco do que o Machado falou sobre ciência em suas crônicas, seja na sua relação com questões políticas e sociais, seja na sua relação com a literatura.

    LAÍS: Como a Ana Flávia disse, e vale a pena reforçar, o Machado não duvidava simplesmente da ciência em si. Ele acreditava que alguns usos de teorias científicas precisavam ser problematizados.

    THAIS: Isso porque, apesar dessas teorias parecerem neutras ou objetivas, elas faziam muito mais do que apenas explicar fenômenos naturais que regem o mundo. Essas teorias tinham suas contradições, seus interesses e elas propunham formas de organizar o mundo.

    LAÍS: Acho que essa visão do Machado continua muito relevante para os dias de hoje. Nós devemos ter um olhar cuidadoso para as intenções que podem não estar tão evidentes nos discursos. Principalmente, naqueles que querem parecer neutros, como o discurso científico.

    THAIS: Afinal, não custa sempre lembrar que a ciência é feita por seres humanos, que têm suas características próprias, cometem erros ou até têm intenções, muitas vezes duvidosas…

    LAÍS: Por isso, a gente não devia pensar como o doutor Simão Bacamarte, aquele lá do começo do episódio que achava que a ciência, com sua suposta objetividade, dava conta de todas as questões humanas. Desde explicar o limite entre loucura e razão, até explicar o porquê de um casamento por meio de características biológicas da noiva…

    THAIS: Então é isso. A gente espera que vocês tenham gostado de saber mais sobre esse assunto. O roteiro e a narração do episódio foram feitos por mim, Thais Oliveira…

    LAÍS: E por mim, Laís Toledo.

    THAIS: Essa é uma produção do curso de Jornalismo Científico do Labjor – Unicamp, com orientação das professoras Germana Barata e Simone Pallone.

    LAÍS: Os trabalhos técnicos foram feitos pelo Gustavo Campos e pelo Octávio Augusto, da rádio Unicamp.

    THAIS: Você pode nos acompanhar nas redes sociais. Estamos no Facebook, (facebook.com/oxigenionoticias – tudo junto e sem acento). E no Instagram e no Twitter também, basta procurar por “Oxigênio Podcast”.

    LAÍS: E você também pode deixar a sua opinião sobre este episódio e sugerir temas para os próximos programas. Basta deixar o seu comentário na plataforma de streaming que utiliza. Até a próxima!

    PARA SABER MAIS…

    …sobre as crônicas de Machado na série “Balas de Estalo”, confira o livro da Ana Flávia Cernic Ramos: As máscaras de Lélio: política e humor nas crônicas de Machado de Assis (1883-1886), publicado em 2016.

    … sobre a imprensa e a divulgação científica nos primeiros periódicos do Brasil, confira o artigo de Maria Helena de Almeida Freitas, “Considerações acerca dos primeiros periódicos científicos brasileiros”. Ele foi publicado na revista Ciência da Informação em 2006. Disponível em: http://revista.ibict.br/ciinf/article/view/1113/1244. E também o artigo de ldeu de Castro Moreira e Luisa Massarani, “Aspectos históricos da divulgação científica no Brasil”, que foi publicado no livro Ciência e público: caminhos da divulgação científica no Brasil, em 2002.

    Músicas

    “Corta-Jaca”, Chiquinha Gonzaga  https://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/c/cf/Corta_jaca_1912.ogg

    “Stetely Shadows”

    “Curiously and Curiously”

    Blue Dot Sessions – https://www.sessions.blue

    Imagem

    Divulgação da campanha “Machado de Assis Real” feita pela Faculdade Zumbi dos Palmares. Disponível em http://www.machadodeassisreal.com.br/

    Arte de: Helena Ansani Nogueira

    18 min
  • #90 Série Corpo, episódio 3 – Doze por oito

    Em “doze por oito”, terceiro episódio da série Corpo, abordamos os vários sentidos da pressão alta. Os entrevistados são o professor Bruno Rodrigues, da FEF/Unicamp, que estuda os efeitos do exercício físico em pacientes com hipertensão resistente, e a professora Soraya Fleischer, antropóloga da UnB que publicou uma etnografia sobre a população hipertensa de um bairro da Ceilândia. A série Corpo faz parte do projeto “Histórias para pensar o corpo na ciência”, que é financiado pela FAPESP (2019/18823-0) e coordenado pelo professor Bruno Rodrigues (FEF/Unicamp).

    SAMUEL RIBEIRO: Esses são relatos que eu recebi por Whatsapp agora durante a quarentena. Eu queria encontrar uma pessoa com hipertensão pra me contar um pouco da sua experiência com a doença, só que eu acabei encontrando muita gente.

    SAMUEL: Assim… toda família tem alguém com pressão alta. Aquela tia que passa mal nos aniversários, o avô que tá sempre com a caixinha de remédio do lado, prima, pai, mãe, enfim. A gente tá tão acostumado que nem para pra pensar na quantidade de gente no mundo que tem a mesma doença crônica.

    SAMUEL: Tem um dado do SUS que diz aqui no Brasil mais ou menos 1 a cada 4 mulheres e 1 a cada 5 homens têm hipertensão. E no caso das pessoas mais velhas, esse número aumenta muito: a hipertensão pega mais de 60% dos idosos. A gente tá falando de milhões de pessoas com o mesmo problema.

    SAMUEL: E já que afeta tanta gente, o que não falta é informação sobre o assunto. Pra controlar a pressão, além dos remédios e da alimentação correta, todo mundo sabe rezar a cartilha: exercício físico ajuda a prevenir a pressão alta! Quem tem pressão alta precisa fazer exercício físico! Exercício físico… exercício físico… exercício físico…

    SAMUEL: Tá. Vamos falar disso… Eu sou o Samuel Ribeiro, e esse é o Corpo, um podcast pra falar de pessoas e de movimento. E a gente começa…

    BRUNO RODRIGUES: … tá me ouvindo bem, tá sem barulho?

    SAMUEL: … com o Bruno.

    BRUNO: O meu nome é Bruno Rodrigues, eu sou professor da Faculdade de Educação Física da Unicamp. O meu foco maior é trabalhar pesquisando efeitos e benefícios e adaptações do exercício em portadores de doenças cardiovasculares.

    SAMUEL: Um parênteses. Além de ser o entrevistado, o Bruno me orienta na produção do podcast, e isso é até engraçado porque apesar da gente ter algumas coisas em comum, viemos de áreas bem diferentes: ele é pesquisador da área biológica e eu sou um cara super das ciências humanas.

    BRUNO: Samuel?

    SAMUEL: Por causa da pandemia, a gente teve que fazer uma entrevista à distância…

    BRUNO: Samuca?

    SAMUEL: … e mesmo a ligação caindo algumas vezes, deu pra gente conversar bastante coisa.

    BRUNO: O grande problema da hipertensão é que ela é uma doença silenciosa, normalmente. Então a gente, no meio da correria do dia a dia, a gente não percebe. Mas é, eu me lembro dos picos hipertensivos que minha mãe tinha, os picos de pressão alta que minha mãe tinha… ela passava mal, e a gente tinha que correr com ela, as poucas vezes que ela teve as crises fortes, assim, a gente tinha que correr com ela pro hospital porque realmente tava grave.

    SAMUEL: Lá no começo da carreira o Bruno se apaixonou pela fisiologia e por entender não só como o corpo funcionava, mas também quando e por quê não funcionava direito.

    BRUNO: Eu comecei a me interessar muito pela doença, né. Ao contrário de muitos que vão por conta da saúde. Aí eu comecei a estudar mais, entrei pra um laboratório de neurofisiologia. A gente estudava Parkinson em animais, e aquilo foi apaixonante!

    SAMUEL: Isso foi lá atrás, ainda na graduação. Logo em seguida ele se envolveu com uma pesquisa sobre exercício físico em pacientes com AIDS, e por causa dessa pesquisa ele foi procurar um professor em São Paulo que era especialista em HIV. O Bruno chegou lá querendo fazer pós-graduação…

    BRUNO: Mas ele disse pra mim, falou “não, Bruno, eu não tô mais estudando HIV, a minha parte é doença cardiovascular”. Eu falei “então é aqui que eu vou ficar”.

    SAMUEL: E aí, do doutorado pra frente, ele ficou nessa de estudar coração, problemas cardiovasculares e exercício. E hoje…

    BRUNO: Hoje eu tenho trabalhado com hipertensão. É… a hipertensão em humanos e também em animais. A gente tem feito algumas intervenções nos sujeitos hipertensos, e uma dessas intervenções é o exercício, né. O exercício físico.

    SAMUEL: O Bruno estuda um tipo específico de paciente hipertenso, e a gente já vai explicar melhor isso. Mas a ideia geral aqui é tentar entender por quais caminhos o exercício age no organismo e faz com que tenha uma redução na pressão.

    SAMUEL: Imagina assim: o coração tá lá, funcionando sem parar pra garantir que o sangue chegue em todos os tecidos do corpo. Do dedão do pé até o couro cabeludo. Os órgãos, o cérebro, tudo sendo irrigado com oxigênio e com nutrientes. Só que ao longo da vida e principalmente por causa daqueles maus hábitos que a gente já sabe…

    BRUNO: Fumar, comer gordura, comer muito sal, não dormir direito, tomar muito álcool…

    SAMUEL: Não fazer atividade física… Enfim, por causa dessas coisas vão aparecendo problemas no organismo, tipo mudanças nos vasos sanguíneos, por exemplo, que fazem o coração trabalhar mais e mais pra garantir que o sangue chegue onde tem que chegar. Ou mudanças nas áreas do cérebro que controlam o coração, fazendo ele trabalhar com muita força. E aí, claro… a pressão sobe.

    BRUNO: E aí, quando a gente mantém essa pressão aumentada do coração sobre os vasos, do sangue passando pelos nossos vasos sanguíneos com uma pressão aumentada, tudo vai ficando ainda mais prejudicado, né, os nossos vasos perdem as suas funções, o coração ele começa a aumentar a parede, né, de músculo desse coração, diminuindo a quantidade de sangue que chega ali pra ser bombeado, enfim. A gente tem uma série de alterações que fazem aumentar a pressão, e quando a pressão tá aumentada, isso vai se prejudicando cada vez mais.

    SAMUEL: Esse prejuízo atinge tanta gente no mundo que o tema da hipertensão acaba sendo um dos mais estudados na Educação Física. E já é consenso na área da saúde e do treinamento que o exercício, principalmente o aeróbico, tipo corrida, caminhada ou bicicleta, quando feito da maneira certa, é capaz de controlar a pressão.

    BRUNO: “Ah, mas quanto que abaixa a pressão arterial?” Uma média, né, de redução de pressão com exercício é em torno de 5 a 6 milímetros de mercúrio. Aí cê pode me perguntar assim “ah, isso é muito pouco Bruno!”.

    SAMUEL: Pra exemplificar: o sujeito que tá com uma pressão de, sei lá, 14,5 por 9,5, acaba caindo pra 14 por 9 depois de praticar exercício de um modo consistente por alguns meses.

    BRUNO: É muito pouco? Não é. Na verdade quando a gente olha pra essa queda de pressão, cê reduz ali em torno de 17% a chance de você ter um AVC. Você diminui em torno de 12% a chance de ter um ataque cardíaco. Então é bastante coisa, né.

    BRUNO: Eu costumo brincar com os alunos que só não descobriram efeito ainda do exercício na unha encravada, porque de resto a gente já tem muita evidência mostrando que realmente desde a menor porção da célula, até no indivíduo como um todo, no humor, na psique, enfim, o sujeito consegue se beneficiar dessa prática.

    SAMUEL: No caso da hipertensão, o Bruno tava explicando que o exercício ajuda porque acaba gerando uma cascata de mudanças positivas em várias partes do organismo, e não dá pra gente entender o corpo de forma isolada. Uma coisa sempre acaba afetando a outra.

    BRUNO: O exercício regular diminui pressão, maravilha. Mas como é que ele faz pra reduzir a pressão? Ele melhora nossos vasos sanguíneos, a função de dilatar e ficar mais constricto, ficar mais estreitinho os nossos vasos, então é uma forma de regular a passagem de sangue por essa região. Ele melhora o controle nervoso do coração, né, o controle do sistema nervoso central pro coração, fazendo com que a gente diminua a força de contração desse coração e diminua no final das contas a pressão arterial.

    SAMUEL: Isso sem contar os outros efeitos conhecidos, né, tipo a diminuição do estresse, que é um baita fator de risco pra hipertensão…

    BRUNO: Mais um ponto pro exercício…

    SAMUEL: Diminuição do peso. Melhora do colesterol. Redução da glicemia, que é importante quando a gente pensa que diabetes e hipertensão andam de mãos dadas…

    BRUNO: É um combo, exatamente, é um combo. Assim como é difícil a gente ter um… como a gente brinca em pesquisa, né, ter um hipertenso limpinho, que é aquele sujeito que só tem hipertensão. É muito difícil disso acontecer. Normalmente a hipertensão é o reflexo de uma série de outras coisas, né, então… de um sujeito que fumou a vida toda, de um sujeito obeso, é o reflexo de um sujeito diabético, de um sujeito mais velho… é, enfim, vem também com o combo todo.

    SAMUEL: Então o exercício acaba atuando sobre outros problemas e, por tabela, melhora a pressão. Tá, beleza. Já deu pra entender que a hipertensão é um problema grave que atinge muita gente, que ela envolve vários fatores e que o exercício físico ajuda bastante. Mas e a pesquisa do Bruno, onde é que ela entra nisso tudo?

    BRUNO: Mais especificamente a gente tá trabalhando com sujeitos que têm a pressão alta, só que aqueles sujeitos que tomam uma série de medicamentos e a pressão ainda não fica completamente regulada.

    SAMUEL: Que são os chamados hipertensos resistentes. A estimativa é que algo entre 7 a 13% dos hipertensos tenham essa característica genética, e no caso deles os riscos das complicações tipo derrame ou infarto acabam sendo maiores ainda, porque o tempo que o organismo passa com a pressão fora do normal tende a ser maior.

    BRUNO: É um sujeito bem complicado de se tratar…

    SAMUEL: E aí já que os remédios não funcionam tão bem nessas pessoas, as outras estratégias de tratamento, inclusive o exercício físico, ganham mais importância ainda. O que o Bruno tem feito na pesquisa dele é tentar entender melhor essas outras formas de tratar os hipertensos resistentes, e ele tem estudado não só os efeitos do exercício, mas também a combinação dele com uma outra técnica…

    BRUNO: … chamada estimulação transcraniana por corrente direta…

    SAMUEL: Que é um nome que assusta um pouco, tem um quê de cientista maluco, de Dr. Frankenstein, mas na realidade é algo bem simples e mais tranquilo do que parece.

    BRUNO: A gente coloca uns eletrodozinhos no couro cabeludo, fornece uma pequena corrente elétrica, que não dá pra sentir, não tem nenhuma sensação de desconforto, mas que ajuda a estimular áreas do cérebro que controlam a nossa pressão, os nossos níveis de pressão arterial. Então a gente tem tentado, além do exercício, também mostrar a eficácia, né, de uma nova ferramenta aí pra poder controlar a pressão desses sujeitos, que é tão difícil de ser controlada.

    SAMUEL: O legal dessa pesquisa é que ela pega várias áreas do conhecimento. Então parte dos experimentos do Bruno é feita com pacientes, em parceria com a Faculdade de Medicina, e outra parte ele estuda em modelo animal, com ratinhos hipertensos, no Instituto de Biologia.

    SAMUEL: O estudo ainda tá em andamento, mas já tá mostrando resultados promissores e pode no futuro ajudar a melhorar muito a saúde de quem é hipertenso resistente.

    BRUNO: Exatamente, exatamente.

    SAMUEL: Exatamente. E vale reforçar aqui que esses experimentos são todos feitos em ambiente controlado. Então um parênteses pra um momento responsabilidade no podcast: se a sua pressão é alta e você quer conversar sobre o seu tratamento, marca com o seu cardiologista, dá uma passada no centro de saúde… e antes de começar a fazer exercício, procura um professor de Educação Física qualificado que ele vai te orientar certinho e evitar qualquer tipo de problema, porque um exercício feito do jeito errado pode acabar sendo perigoso pra quem é hipertenso.

    SAMUEL: A gente faz uma pequena pausa pra ouvir um recado do pessoal do podcast Quarentena, da Unicamp. O episódio volta logo depois.

    SAMUEL: Voltando. Uma coisa que o Bruno falou é que a hipertensão, seja a comum ou a resistente, tem um fator hereditário importante. Tem toda a questão dos hábitos de vida, da alimentação, do sedentarismo… mas além disso, se você tem pai ou mãe hipertensos, as suas chances de desenvolver a doença aumentam bastante.

    ANA CAROLINA YAMAMOTO: É, eu sou de uma família de hipertensos né, e meu pai teve um AVC, né, um derrame com 40 anos, então a gente fica um pouco preocupado com isso…

    SAMUEL: Essa é um dos depoimentos que eu recebi no Whatsapp, da Ana Carolina.

    ANA CAROLINA: Meu nome é Ana Carolina Yamamoto, eu tenho 38 anos e me descobri hipertensa há uns 5 anos mais ou menos.

    SAMUEL: Alguns anos depois de descobrir a doença, a Ana engravidou e o sonho dela era ter um parto em casa… só que não rolou. Uma atrás da outra, as equipes médicas fugiam dela quando ela dizia que era hipertensa. No final ela conseguiu uma médica que topou fazer o parto natural no hospital. Bom, quando chegou o dia do bebê nascer, a Ana tava em casa se preparando…

    ANA CAROLINA: Eu já tava com a doula em casa, eu chamei a enfermeira pra ela ver se tava tudo bem, pra gente ver se era a hora de ir pro hospital ou ainda dava pra ficar mais um pouco em casa. A enfermeira chegou, sorridente, tranquila, mediu minha pressão e falou “olha, a gente precisa ir pro hospital agora”. Daí eu falei, “tá bom”. Comecei a juntar minhas coisas, a abraçar a mãe, a mãe tava lá, meu pai. Daí ela “não, para, a gente vai pro hospital agora!”. Minha pressão tava 17 por 11.

    SAMUEL: Ela já tinha perdido uma amiga por conta de eclampsia, então sabia que aquilo não era brincadeira. A Ana foi pro hospital, a equipe médica tomou todos os cuidados e o parto foi um sucesso. Só que agora ela era mãe, e a hipertensão ganhava outro peso.

    ANA CAROLINA: Lidar com a ideia de ser hipertensa é lidar com o conceito também de tudo que aconteceu com o meu pai e o medo que aconteça comigo, ainda mais agora que eu tenho filho. Mas aí eu tive um pico de pressão, fui parar no hospital de novo, com a cara formigando, foi horroroso. Aí eu resolvi começar a me cuidar, isso foi no final do ano passado. Toma remédio, vai no cardiologista, faz o checkup, tava começando a fazer atividade física… começou a pandemia. E quem é grupo de risco na pandemia? Hipertenso.

    ANA CAROLINA: Eu não sei. Essas coisas invisíveis são muito complicadas. Porque a gente depende de uma conscientização muito maior. Se eu tô sangrando eu sei que eu tenho que fazer logo até que aquilo estanque. Mas a hipertensão é como se fosse uma micro hemorragia, que vai levando a gente sem a gente perceber.

    BRUNO: Se todo mundo sabe, ou se grande parcela da população mundial sabe que faz bem, a informação chega, sabe que previne e trata doença… por que que 50% da população mundial é sedentária ainda? Eu acho que esse é o grande ponto.

    BRUNO: É… óbvio, população mais carente, que trabalha o dia todo, pega transporte público, enfim, acaba não tendo a possibilidade de praticar. Aí é uma outra história, mas eu acho que uma grande possibilidade de estudo seria pegar aquelas pessoas que sentem prazer, e que aderem muito bem a programas de atividade física, de exercício físico, e aquelas que não conseguem nem ver, que quando tem uma menor dificuldade ela desiste daquele determinado programa de atividade, ou desiste da academia, ou para de caminhar com os amigos, enfim. Por que que esse hábito é tão difícil de ser criado, né?

    SAMUEL: Essa é uma pergunta de ouro pra Educação Física e pra área da saúde como um todo, e tem sido a preocupação de vários profissionais e pesquisadores. Mas a gente sabe que a questão é complexa e envolve fatores sociais, culturais, econômicos…

    BRUNO: Acho que esse é um dos pontos mais cruciais aí pra gente descobrir nos próximos anos, ã… como é que a gente faz pras pessoas aderirem aos programas…

    SAMUEL: Foi pra falar um pouco desses outros fatores que eu liguei pra Soraya, que também pesquisou hipertensão, mas vem de uma área completamente diferente da do Bruno.

    SORAYA FLEISCHER: Bom, o meu nome é Soraya Fleischer, eu sou uma antropóloga que trabalha aqui no Departamento de Antropologia da Universidade de Brasília, e desde a minha graduação eu tenho a antropologia da saúde como um tema que me interessa, e também tem orientado as minhas pesquisas né. Então a saúde, a doença, os tratamentos, o SUS, o sofrimento, né, por conta de adoecimentos, são temáticas que me interessam de forma geral.

    SAMUEL: A Soraya já fez pesquisa sobre doenças dermatológicas, doenças pulmonares, sobre parto, sobre HIV… enfim, e ela é autora de um livro chamado “Descontrolada: uma etnografia dos problemas de pressão”, que foi uma pesquisa feita no bairro da Guariroba, na Ceilândia, lá no Distrito Federal.

    SAMUEL: Em 2008 a Universidade de Brasília abriu um campus novo ali na Guariroba e a Soraya fazia parte da equipe de professores que ia estruturar o curso de Saúde Coletiva. Ela queria conhecer o bairro, as pessoas e as relações delas com a saúde… e a primeira coisa que ela fez foi acompanhar os alunos que moravam ali pra que eles apresentassem a região pra ela.

    SORAYA: E aí eu comecei também a pedir pra eles me apresentarem pra família deles, pra os vizinhos, né, começar a me contar essa história. E aí eu fui conhecendo quem tava em casa durante o dia, não eram geralmente os pais dos meus alunos, eram geralmente os avós, os tios-avós, os vizinhos mais velhos, e tal.

    SAMUEL: E o que a Soraya queria saber era como que aquelas pessoas tavam vivendo a questão da saúde no dia a dia…

    SORAYA: E aí elas começaram a me mostrar, de uma forma muito interessante, sabe? Elas falaram assim “ah, Soraya, o melhor pra eu te mostrar sobre o que que eu tô vivendo aqui em termos de saúde, é te mostrar o que que eu tô tomando”. Aí elas se levantavam ali da varanda, elas iam lá pra dentro, e voltavam com uma caixinha de sapato, geralmente, cheia de remédio.

    SORAYA: Aí elas iam tirando assim de dentro da caixa de sapato, as cartelinhas de remédio, as caixas, as bulas. E elas iam me falando “esse aqui, esse aqui eu tomei por causa disso, esse aqui eu tô tomando, esse aqui é ótimo, esse aqui tem gosto de framboesa, esse aqui eu não tomo mais, enjoei, esse aqui minha vizinha me deu, esse aqui minha mãe me passou”, e por aí ia né. E eu fiquei muito impressionada com isso, com essa quantidade de medicamentos circulando, e uma recorrência de medicamentos pra diabetes e pra hipertensão arterial. E aí eu falei “bom, é aí, é aí que eu vou entrar, né, vou entrar a partir das caixinhas de sapato cheias de remédio, as farmacinhas domésticas, digamos”

    SAMUEL: Ela foi por esse caminho e decidiu que ia tentar entender a questão da hipertensão. Só que aconteceu uma coisa engraçada. Ela perguntava pros moradores se eles tinham hipertensão ou se conheciam alguém que tinha, e eles respondiam…

    SORAYA: “Não, eu não tenho”, “não, não conheço ninguém” e tal. E eu falei “gente, mas como é que pode? Porque eu tô vendo as caixinhas cheias de captopril, de enalapril, e ninguém tem hipertensão? E AS, e não sei o quê, afinador de sangue, não sei o quê? E aí as pessoas não têm hipertensão?”. E eu voltava pra casa intrigada com aquilo, né. Por que que ninguém tem hipertensão, se elas tão tomando esses remédios?

    SAMUEL: A Soraya tava fazendo a pergunta errada.

    SORAYA: E aí, um dia, eu vi uma senhora conversando com a vizinha dela, e ela mencionou alguma coisa do tipo “fulana, você viu a cicrana, tá com a pressão muito alta! passou mal ontem da pressão!”. Aí eu “ahá! Essa é a palavra!”. Aí eu comecei a perguntar então “a senhora tem problema de pressão?”. “Ah, eu tenho, meu marido tem, meu filho mais velho tem, a vizinha de lado tem, a minha irmã que mora duas ruas pra lá tem, o meu cunhado tem”. Pronto. Aí eu consegui a chave, né, pra poder conversar com as pessoas.

    SAMUEL: Então ela foi se aproximando, foi conhecendo um pouco mais daquele cotidiano, e começou a acompanhar os moradores nos diferentes grupos que eles frequentavam. Tinha o grupo da pressão, do programa hiperdia, que é um grupo de acompanhamento de hipertensos no centro de saúde. O grupo da oração, o grupo do forró, o grupo da ginástica… e aí ela foi ouvindo as pessoas e notando que a palavra pressão significava muito mais pra elas do que só a hipertensão arterial.

    SORAYA: A hipertensão, você consegue controlar tomando seu captopril, né. Mas… isso é hipertensão. Agora, a pressão alta, sobretudo a pressão emocional, ela não é resolvida plenamente com remédio da hipertensão. Então aí as pessoas tavam falando de um outro conjunto de sentidos que pressionava, né, que fazia uma série de emoções acontecerem naquela pessoa e ao redor dela, que não permitia que a saúde ficasse estável.

    SORAYA: Então, eu lembro de uma vez, né, de um senhor, que chegou… a gente tava na fila… na sala de espera esperando o grupo da pressão, e ele chegou, ele tava assim visivelmente transtornado, eu falei assim “mas o que que aconteceu hoje?”, ele falou assim “a minha filha mora comigo, ela tem três filhos, e eu ajudo ela então a cuidar dos meus netos, e a gente não consegue um dia sequer fazer com esses meninos estejam prontos a tempo de eu colocar eles no carro e levar pra escola, pra chegar na hora… é uma brigaiada com essas crianças, ela não tem pulso, eu não consigo fazer esse povo ficar pronto, eles chegam na escola atrasados, eu chego aqui com essa pressão destrambelhada pra ser medida, e aí toda vez que eu venho no posto então é isso, e eles sempre me vêem aí com meu 18 por 12, meu 20 por 16, então fica parecendo pro doutor que eu tô sempre o tempo inteiro sem cuidar da minha pressão”.

    SAMUEL: Em volta da pressão alta, sempre tinha algum problema com a família, com a casa ou com o vizinho… sempre algum tipo de pressão que ia além do sangue, do coração e dos vasos. Até a pressão do próprio atendimento médico!

    SORAYA: E aí muitas vezes eles falavam de forma irônica “ah, hoje tem o grupo da pressão”. Eu falava “da pressão alta?”, “não, da pressão do doutor mesmo”. Né? E eu acho incrível, porque é isso. Como é que um programa, o hiperdia, que é um programa teoricamente muito interessante, porque você faz um acompanhamento… mais do que uma consulta curativa, a doença crônica precisa de acompanhamento, né, continuado, então… a ideia de encontros frequentes é excelente, mas não adianta se o encontro é pra puxar a orelha de todo mundo.

    SAMUEL: O que a Soraya foi percebendo é que, para aquelas pessoas, a hipertensão não tava separada das outras questões da vida. E a situação da saúde não era tão fácil de explicar, e nem tão simples de resolver.

    SORAYA: Então muitas senhoras falavam pra mim assim “Soraya, eu as vezes evito minha filha, de ligar a televisão, porque o que vem da televisão é a pressão da vida”. Então elas ficavam sabendo de enchente não sei aonde, de seca não sei aonde, de desvio de dinheiro, de gente que morre em fila de hospital, sabe? Notícias que vinham do mundo inteiro e que super, é… afetavam essas… essas senhoras e esses senhores, né.

    SORAYA: Então tinham várias maneiras de usar, tinham nuances diferentes que somavam pra poder entender porque que as vezes a pressão arterial ficava descontrolada. Ela era o efeito de um monte de outras pressões, né.

    SAMUEL: Então eram explicações complexas pra uma situação de saúde que também era complexa. E a Soraya foi me falando que não bastava pensar a hipertensão só por aquele tripé que todo mundo conhece, que é medicamento, exercício físico e mudança da alimentação.

    SORAYA: Tudo bem. Eu acho que é um começo, eu acho que é muito interessante, mas ele não pode ser apresentado somente como uma receita pra seguir a ferro e fogo. Não é fácil seguir essa receita por uma série de questões, né.

    SAMUEL: Ali na Guariroba, por exemplo, que é um bairro antigo, a maior parte da população era de migrantes do nordeste e de Minas Gerais que participaram da construção de Brasília. Então no caso da alimentação, tem toda uma questão de identidade e de trajetória envolvida.

    SORAYA: Bom, cê pega um senhor de 70 anos, migrante, nordestino, né. É, a pessoa que compra o ingrediente geralmente vai ser a nora dele, né. Então a pessoa mais jovem daquela escala, é… geracional daquela casa que faz esse trabalho de ir até a feira e comprar o ingrediente. Quem cozinha pode ser essa nora, como pode ser a esposa desse senhor, ou a filha dele. Então quem vai pilotar o fogão é as vezes uma outra pessoa, que vai fazer tempero, a quantidade de óleo, a receita, o prato, e tudo isso.

    SAMUEL: Parece simples, mas não é. Como que a gente pode pedir pra um cearense deixar de comer farinha? Ou pra um mineiro abrir mão do torresmo? Ou fala de moderação pra alguém que quando era jovem comia pouco, mas hoje depois de trabalhar a vida inteira pode comer muito?

    SORAYA: Eu conheci um senhor que ele falou assim “eu posso pagar hoje uma peça inteira de queijo, eu posso! E eu vou comer esse queijo num final de semana inteiro, sozinho, por que eu posso, né”.

    SAMUEL: O que a Soraya me explicou é que naquele cotidiano da Guariroba o corpo era algo muito mais coletivo do que individual. A questão da saúde, da alimentação, dos tratamentos, dos cuidados… tudo isso ia além dos indivíduos e envolvia a família toda, o entorno, a história daquelas pessoas… Então nem sempre era suficiente que o médico ou a enfermeira ficasse dando pito no idoso por causa da pressão descontrolada. E pro exercício físico a situação também não era tão simples.

    SORAYA: Como eu tinha te falado né, os homens 30, 40 anos, trabalhando com a construção civil, e as mulheres no trabalho doméstico. Então eles tinham usado o corpo a vida toda no trabalho deles, né, eles tinham exercido ocupações braçais. Carregado muito saco de cimento, passado muita roupa, carregado muita criança no colo. Então quando os médicos, as enfermeiras falavam “vocês precisam se exercitar”, era difícil aceitar isso, porque era assim “olha, eu já… eu já exercitei a vida toda. Agora eu tô aposentado, eu quero sossego. Eu mereço ficar tranquilo”.

    SAMUEL: O exercício físico acabava sendo associado com o mundo do cansaço, do trabalho braçal, da labuta, e isso aquelas pessoas já conheciam bem.

    SORAYA: Então era difícil conseguir adesão e conseguir convencê-los de que tinha que fazer polichinelo, corridinhas, ou alongamentos e pilates, sabe?

    SAMUEL: E aí foi até engraçado na entrevista, porque a Soraya, mesmo vindo por um caminho bem diferente, acabou chegando numa pergunta parecida com a do Bruno.

    SORAYA: Então eu acho que é preciso pensar nisso pra adaptar, no caso do hiperdia né, que o exercício físico é tão importante. Mas como é que você desenvolve coisas que sejam valorizadas por esses senhores e senhoras?

    BRUNO: Acho que esse é um dos pontos mais cruciais aí pra gente descobrir nos próximos anos, como é que a gente faz para as pessoas aderirem aos programas, né.

    SAMUEL: A minha conversa com o Bruno e com a Soraya foi longe, e deu pra ver que nada é tão simples quando a gente fala de pressão alta. Tem hipertenso que toma um monte de remédio e mesmo assim não consegue controlar… e tem remédio que melhora a hipertensão, mas não dá conta de reduzir as pressões da vida. Tem os benéficos do exercício físico, que são muitos, muita coisa sendo estudada e descoberta… mas tem também um desafio pra pensar em como democratizar esses benefícios no meio de tanta história, de tanta trajetória, de tanta desigualdade e de tanta diferença.

    SAMUEL: E no meio dessa pressão toda trazida pela pandemia de Covid-19, eu resolvi perguntar pros dois qual foi a maior pressão da vida deles. E aí, claro, as respostas foram bem de pesquisador mesmo.

    SORAYA: No nível profissional eu acho que escrever a tese de doutorado foi uma das grandes pressões, né. Não só a questão do tempo, isso não era exatamente o meu problema, mas era de produzir alguma coisa que estivesse à altura das expectativas que a minha orientadora tinha em relação a mim, que o programa de pós-graduação onde eu estava também tinha, que o meu financiador, né, assim, o CNPq que custeava a minha bolsa, o contribuinte que pagava tudo isso, enfim, eu me sentia um pouco… era forte essa pressão, que eu mesma botava em mim, né, assim, de uma responsabilização da produção científica.

    BRUNO: Foi o momento em que eu terminei minha faculdade, em Londrina, e fui pra São Paulo na loucura assim, sem nada certo, fui pra São Paulo pra tentar fazer o mestrado e o doutorado, enfim, minha pós-graduação. Esse foi o maior momento de tensão, principalmente porque não tinha grana, não tinha direito lugar pra ficar. Caí de paraquedas em São Paulo [RISOS]

    SAMUEL: E a sua pressão arterial, como é que tá?

    BRUNO: [RISOS] Minha pressão tá em ordem, embora eu tenha me sentido um pouco pressionado né, nesses últimos… em tempos de pandemia, mas… tá em ordem, tá em ordem sim. Doze por oito!

    SAMUEL: O episódio fica por aqui. O Corpo é uma produção do podcast Oxigênio, do Labjor/Unicamp, e faz parte do projeto “Histórias para pensar o corpo na ciência”, que é feito na Faculdade de Educação Física e tem financiamento da FAPESP.

    SAMUEL: A idealização, produção, entrevistas, roteiro e edição desse programa foram feitas por mim, Samuel Ribeiro. O projeto é coordenado pelo professor Bruno Rodrigues da FEF e pela professora Marina Gomes do Labjor. E quem coordena o Oxigênio é a professora Simone Palone, também do Labjor.

    SAMUEL: E se você gostou do episódio, dá um alô pra gente nas redes sociais. A gente tá no Facebook, Instagram e Twitter, é só procurar por Corpo Podcast.

    SAMUEL: Ah, deixo aqui o meu agradecimento especial a todo mundo que compartilhou suas histórias de hipertensão comigo. A Ana Carolina, a Ângela, a Arlete, a Cláudia, o Diego, a Edinalva, a Olívia, o Oscar, a Pâmela e a Selma. Até a próxima!

    Músicas

    “Balti” by K2.

    “Base Camp” by K2.
    “Our Fingers Cold” by K2.
    Blue Dot Sessions (https://www.sessions.blue).

    33 min
  • #89 Quarentena, episódio 1 – Mundo a distância

    Este é o primeiro episódio da série QUARENTENA, um podcast criado pela Carolina Sotério e pela Raquel Torres, para tratar de questões relacionadas ao período de isolamento social imposto à população brasileira, assim como em outras nações, devido à Covid-19. A ideia é mostrar como as pessoas estão lidando com a quarentena, com os cuidados para evitar contágio e disseminação da doença, com os medos, as incertezas e possibilidades de ocupar o tempo. Também vão mostrar como a tecnologia está auxiliando nesse período e o que os cientistas estão trazendo de descobertas e soluções, e outros assuntos relevantes para atravessarmos esse período estranho que estamos vivendo. A cada quinze dias a Carol e a Raquel vão trazer um novo episódio da série, que é parte do Trabalho de Conclusão do Curso das duas alunas no curso de Especialização em Jornalismo Científico do Labjor. 

    Esperamos que você goste do programa e compartilhe com seus amigos. Se quiser,  comente nas nossas redes sociais do Oxigênio: Twitter (@oxigenio_news), Instagram (@oxigeniopodcast) e Facebook (/oxigenionoticias) ou escreva para [email protected]. O Quarentena também tem página no Facebook. Entra lá pra conhecer: fb.com/quarentenapodcast. E se quiser falar com as autoras do podcast os contatos são: @casoterio e fb.com/raquel.montantorres.

    E se tiver um tempinho, colabore respondendo nossa pesquisa sobre podcasts. São apenas cinco minutinhos, e vai nos ajudar muito a conhecer nossos ouvinte. É só clicar aqui.

    E lembre-se de colaborar com o distanciamento social. A quarentena é importante para salvar vidas neste momento #Ficaemcasa!

    ********************

    Segue a transcrição completa do programa.

    Como diria Raul Seixas, “Foi assim no dia em que todas as pessoas do planeta inteiro resolveram que ninguém ia sair de casa”. A partir das recomendações da Organização Mundial da Saúde e órgãos competentes sobre a pandemia do novo Coronavírus, o isolamento social foi decretado. Todos foram orientados a permanecer em quarentena e adaptar suas rotinas ao home office. Assim, instaurou-se a QUARENTENA.

    No entanto, migrar para um mundo à distância exige uma série de medidas as quais não pudemos nos preparar anteriormente, desde questões materiais até questões que envolvem nossa própria mentalidade. É uma essa discussão que o Oxigênio traz à tona: Como está a real situação das famílias com seus trabalhos? E quem não possui ferramentas digitais para se adaptar à educação e/ou trabalho à distância? Estamos incluindo ou excluindo digitalmente as pessoas?

    Colaboram conosco neste episódio: Carolina Marangoni (estudante de arquitetura do IAU/USP que estava em intercâmbio na Itália durante a pandemia de Coronavírus), Nicole Flores (servidora do IBGE/MG, mãe e estudante da modalidade EaD), Bernardo Sorj (professor aposentado da UFRJ, sociólogo e autor de trabalhos sobre o impacto social das tecnologias) e Christian Dunker (professor da USP e psicanalista).

    O programa compõe a série QUARENTENA, idealizada e produzida por Carolina Sotério e Raquel Torres, sob orientação da professora Simone Pallone de Figueiredo, do Labjor/Unicamp. A narração é de Carolina Sotério. Este episódio integra a força-tarefa do LAB-19 na cobertura sobre o novo Coronavírus.

    Carol: Ainda ontem as ruas estavam cheias. Eram carros, ciclistas, pedestres e o mundo todo a milhão. De uma hora pra outra, acordamos num planeta vazio. Algo muito menor que nós mesmos foi ganhando forças e deu origem a um problema de ordem mundial. Reuniões canceladas, prateleiras vazias, indo de um extremo ao outro na questão da empatia.

    Agora somos todos internautas vivendo dentro de um telão. Muitos de nós sendo parte das estatísticas na televisão. Em meio a tantas questões, tudo ficou à distância. A COVID-19 trancou a porta de nossas casas e nos colocou em um momento de profunda reflexão. A Internet, que rompeu tantas fronteiras, hoje reforça a nossa distância. Como adaptar as nossas rotinas ao meio digital? Como lidar com a nossa mente nesse isolamento social às pressas e transição para a web? E como fica quem não tem acesso à informação?

    Carol: Você está ouvindo o QUARENTENA. Eu sou a Carol e no episódio de hoje falaremos desse “Mundo à distância”.

    Carol: Como diria Raul Seixas, “Foi assim/No dia em que todas as pessoas/Do planeta inteiro/Resolveram que ninguém ia sair de casa/ (…)/E o aluno não saiu para estudar/Pois sabia que o professor também não tava lá”

    De acordo com os últimos dados do INEP, o Brasil possui mais de 8 milhões e meio de estudantes matriculados em cursos de ensino superior. Uma parcela deles em situação de intercâmbio, ou seja, realizando estágios em universidades, empresas e institutos ao redor do mundo.

    Carol: Quem entende bastante dessa situação é a Carolina, estudante de arquitetura que estava na Itália, um dos epicentros da pandemia do novo coronavírus, quando tudo começou…

    Carolina: Tudo começou no dia 22 de fevereiro, que foi um sábado. E, assim, pra gente ter noção de como as coisas estavam normais, na sexta-feira eu tinha ido fazer uma viagem à Bergamo, que é uma outra cidade ali perto de Milão e que hoje está numa situação muito crítica. Então, aí eu lembro que a próxima semana foi um pouco mais tensa nesse sentido de que as coisas começaram a parecer mais sérias e que a gente via muitos guardas e muitas viaturas na rua mesmo e realmente controlando esse “não estar em casa da população”.

    Carol: Com o passar do tempo, as restrições foram ficando cada vez mais e mais rigorosas no mundo inteiro. Mas a Itália marcou as redes sociais pelas imagens que refletiam a vontade de estar junto em meio a falta de exatidão sobre o dia que viria pela frente.

    Carolina: Foi uma situação muito complicada que sentia um clima de tensão e de medo e de apreensão e de tristeza, sabe. E a gente olhando o pessoal na sacada. Então, às vezes, uma criança brincando na sacada sozinha, ou alguém conversando no telefone na sacada… A gente presenciou episódios dos italianos se juntarem nas sacadas em algum momento do dia e aplaudir o sistema de saúde ou, por exemplo, começar a cantar nas sacadas. Então que era uma forma de espantar um pouco esse medo né, e essa preocupação. Foram momentos muito emocionantes.

    Carol: Com o problema crescendo ao alcance dos olhos, as universidades tiveram que encontrar uma forma de dar continuidade às suas atividades em meio às medidas de isolamento…

    Carolina: E aí quando a gente recebeu o e-mail do Politécnico de Milão – acho que lá pelo dia 15/16 de março – falando que, por conta da situação atual, que muitos alunos estrangeiros também já tinham voltado pros seus países, o reitor e a comunidade acharam melhor manter as aulas a distância né, online por todo o semestre. Então, mais ou menos a cada algumas semanas alguns cursos iam entrando nessa modalidade.

    Carol: Pra Carolina, isso tudo foi novidade e uma grande adaptação. Mas pra Nicole, que cursa Ciências Contábeis na modalidade EaD, essa já uma realidade de longa data. As facilidades e dificuldades de conciliar estudos, maternidade e, agora, isolamento social, são comentadas por ela.

    Nicole: A gente brinca que EaD significa “Estresse à Distância”…

    Agora, nesse momento de quarentena, eu acredito que o que menos sofreu impacto foi o meu curso a distância, porque não mudou nada basicamente né, a gente só tá continuando a grade conforme estava planejado… O que mudou, na verdade, foi que a gente ia realizar a avaliação presencialmente, mas agora a gente vai realizar ela virtualmente, pelo menos a primeira avaliação. Só que tem essa diferença com relação ao sistema da faculdade a distância e os cursos presenciais. É que o sistema a distância já está preparado .

    Carol: Sem dúvidas, a gente percebeu…

    Nicole: Tanto que eu estou vendo muitos colegas – que fazem faculdade presencialmente – estão tendo muitas dificuldades. Tanto os professores em não saber lidar com plataformas a distância, ou se estão acostumados a gravar vídeo, talvez até roteirizar uma aula mesmo, né. E os alunos não estão acostumados, têm muitos cursos nem existem a distância. Se você for ver, por exemplo, o curso de direito né. Não existe curso de direito a distância no Brasil. E algumas faculdades mesmo não têm nem plataformas pra poder preparar de uma hora pra outra esse ambiente virtual pros alunos. E eu acho que seria interessante, a partir desse momento que a gente tá vivendo, quem sabe as faculdades se prepararem mais pra poder conseguir oferecer conteúdos virtuais pros alunos que eu acho que, na medida do possível. E eu não vejo, assim, problema em as faculdades, aos poucos, irem se adequando mesmo. E também irem se adequando à realidade dos alunos. Hoje em dia têm muitos alunos fazendo uma segunda graduação ou a terceira graduação ou uma pós-graduação. E eu acho que você usar diversas ferramentas abre mais as portas das faculdades pra diversas pessoas conseguirem uma formação melhor, né. Assim, as ferramentas que a gente tem hoje em dia ajudam muito, e-mails, inclusive grupos de whatsapp, a gente interage muito por grupos do whatsapp pra tentar diminuir essa distância.

    Carol: Mas será que estamos todos preparados pra lidar com as plataformas digitais assim, tão de repente? No Brasil, estima-se que cerca de 80% da população possua acesso à internet, de acordo com dados do IBGE. Afinal, falamos agora de uma inclusão ou exclusão digital? Sobre isso, Bernardo Sorj, sociólogo, professor aposentado da UFRJ e já consagrado “homem das ideias”, faz alguns apontamentos a respeito da EaD.

    Sorj: O conceito de inclusão digital como sabemos é muito amplo, né. Se estamos falando de pessoas que tem acesso a algum tipo de instrumento de comunicação digital, e hoje iphones são microcomputadores na realidade, o nível de inclusão digital, desse ponto de vista, é muito grande, muito amplo. O problema é que, como sabemos, inclusão digital não se refere somente a ter acesso à algum tipo de instrumento de comunicação eletrônico. Na verdade estamos falando da capacidade e na possibilidade de utilização desse instrumento como uma ferramenta de educação seja de trabalho. E, obviamente, aqui o cenário muda muito, pois depende muito obviamente do nível educacional, que como sabemos, no Brasil, ainda deixa muito a desejar, e depende do tipo de trabalho. Até, de fato, para certos trabalhos autônomos. Então, embora seja um instrumento importante no dia normal das pessoas – especialmente do setor informal – nesse contexto ele resolve pouco.

    A pergunta que se coloca é: vai ajudar essa ferramentas eletrônicas? Em boa medida sim, mas fundamentalmente para setores de serviços qualificados, para pessoas que normalmente já trabalham em frente ao computador, sendo essa atividade facilmente – ou com certa dificuldade – mas de certa forma transferida para o home office.

    Carol: E será que todos nós conseguimos nos conectar?

    Nicole: Ninguém perguntou pros funcionários se todo mundo tinha computador em casa, se todo mundo tinha acesso à Internet em casa. Então, assim, todo mundo parte da ideia de que todo mundo já tenha essas coisas. Eu acho que não está sendo flexível. Mas eu notei que houve uma compreensão por parte dos professores que prorrogaram basicamente todas as atividades, eles estão entendendo que os alunos estão tendo que trabalhar em casa. E sinto que há essa compreensão porque também há a nossa compreensão dos alunos em saber que o professor está trabalhando. Por mais que seja um professor que trabalhava à distância, ele contava com o apoio presencial né, um apoio presencial nos polos da faculdade a distância e agora tá todo mundo em casa. Então pra ele também muda, né. Se ele precisa de um apoio de informática, o suporte da informática não está mais lá presencialmente, né. Tá todo mundo em casa.

    Carol: Migrar para um mundo a distância mudou os nossos dias. Estamos em um outro contexto e nos adaptarmos a essa nova realidade é um esforço muito além do home office. O isolamento não começa e nem termina quando fechamos as portas de nossas casas.

    Nicole: Olha… eu acho que, não só pra mim, mas pra todo mundo tem sido um momento muito conturbado. Mudou, assim, totalmente minha rotina, eu acho até difícil falar que eu tenho uma rotina, né. Cada dia está sendo um dia diferente. Conforme eu tenho pensado, né: tentar viver um dia de cada vez e conseguir realizar minhas tarefas na medida do possível, né. Com relação à minha rotina mesmo, eu estava acostumada a acordar, deixar minha filha na escola de manhã, ir para o trabalho. Assim, de uma hora pra outra a gente até se vê sem rumo mesmo. E tentar manter mesmo porque eu acho que eu, dentro da minha casa, já me sinto muito estressada, mentalmente cansada, mesmo. Pra mim tem sido um momento bem apreensivo né, porque eu acho que a nossa saúde envolve, muito além da saúde física, nesse momento é uma saúde mental, que a gente tem que manter mesmo, né.

    Carol: Sem dúvidas, esse isolamento social e mudança repentina de nossas rotinas pode afetar o psicológico humano. Sobre isso, o psicanalista e professor da USP, Christian Dunker, tem algo a dizer:

    Dunker: O isolamento, ainda mais o isolamento que acontece de uma forma assim tão abrupta… Interessante que nós sabíamos que a quarentena iria chegar, que essa é uma medida sanitária usada por vários países, mas tem certas coisas que a gente só acredita quando realmente acontece. Isso dá a medida do traumático, daquilo que é novo, com relação qual a gente não tem muita experiência para comparação. Isso tocou, afetou nossa rotina – nosso conjunto diário de pré-decisões – que é mais ou menos assim que a gente pode definir uma rotina. Não tenho que pensar: escovo os dentes, entro no carro, chego trabalho, no trabalho tem ali as demandas que são locais. É como se tivesse uma armadura, né? Um conjunto de pré-decisões que já foram tomadas por você. Então, levantar e organizar um novo cotidiano dará um trabalho adicional, um trabalho grande. Muitas pessoas estão exaustas nessas primeiras semanas de quarentena, porque, sem se dar conta, estão tendo que levar adiante as demandas laborais e de estudo e, ao mesmo tempo, reerguer seu cotidiano, e isso implica decisões – como as coisas vão ser feitas, ponderações, experimentações, recuos, assistematicidades – uma série de dificuldades que eu acho que são nebulosas ou invisíveis.

    Carol: Na medida do possível, migramos para o virtual. Na música de Raul Seixas, empregados, patrões, guardas, padres e fiéis interrompiam suas rotinas pois não havia mais ninguém nas ruas. Nesse momento, vivemos algo similar e lidamos com a essência de muitos serviços.

    O movimento artístico-cultural, mais do que nunca, tem estado conosco nas mídias digitais. São indústrias do audiovisual liberando conteúdo para nossos computadores e televisões. São artistas independentes se apresentando nos telões. Os serviços de entrega representaram um reforço, trazendo até a nossa porta produtos do lado de fora. E desse outro lado estão profissionais que ajudam no combate à doença e mantêm o funcionamento das coisas. A famosa linha de frente está desde o gari que recolhe o lixo ao cientista que insistentemente estuda uma vacina. Mas como será quando pudermos retornar às ruas normalmente? Quem seremos depois desse episódio? Como se completa a canção de Raul Seixas quando a Terra voltar a girar?

    Dunker: Interessante como a nossa convivência com as telas já está se aprofundando muito, trazendo novos malefícios que a gente não sentia tão fortemente, quando isso era uma parte menor do nosso cotidiano. A redução, especialmente de telas muito pequenas, o celular, a temporalidade que a gente tem nesse tipo de troca, linguística, a temporalidade mais acelerada, a impessoalidade, que advém da relativa perda da corporeidade nessa comunicação. Tudo isso são elementos um pouco iatrogênicos desse método de conversação. Pelo que trazem uma redução da experiência, uma perda de aspectos importantes da experiência, inclusive os intervalos. Na linguagem digital a gente vai aprendendo a passar de uma coisa pra outra, muito rapidamente – em um clique, fecha a tela, abre outra, está no zoom, está no google teams, Skype – e vai passando de uma coisa pra outra, sem aquele intervalo tão benéfico para a restauração psíquica. Acho que precisamos, depois dessa experiência, reinventar, moderar talvez o nosso uso de telas, entender que não basta passar de um universo para outro, que isso gera uma expectativa de aumento de produtividade que não se realizará. Nossa produtividade cai quando você está num ambiente de tela – seja porque você perde a conexão, seja porque você perde informação, seja porque você perde detalhes de informação, seja porque você se cansa mais. Pode escolher um motivo, mas a vida não é a mesma quando a gente está especialmente em largas jornadas de trabalho pela via da linguagem digital.

    Dunker: Há muitas coisas interessantes pra aprender nessa situação. É possível que ela tire de nós o melhor e o pior; ela pode colocar certos afetos, como o desamparo e reposicionar certos discursos – como a relação entre populismo e a ação coordenada à fins. Penso que algum grupo vai sair mais ressentido e mais humilhado, vai sair se sentido mais abandonado, talvez percebendo certas realidades nos contratos sociais que nós propagávamos antes; e outra parte vai entender que esse é o momento de repactualização; que é possível inventar coisas novas, que é possível inventar novos tratos e, inclusive, que é possível se experimentar diferente. Dentro de casa, com a solidão, com a solitude, nessa nova experiência.

    Carol: O que precisamos ter em mente é que tudo vai passar. O mar bravo vai acalmar e o dia vai nascer de novo. O caos vai se tranquilizar na medida do possível e a gente vai ser diferente. Que, de algum jeito, possamos aprender com o agora pra não errar daqui pra frente. Se cada um fizer sua parte, podemos projetar um amanhã melhor do que o hoje. Precisamos pensar coletivamente, e uma rede de apoio agora pode ser crucial pra muita gente. É necessário empatia e compreensão, na medida em que for possível.

    Apesar da distância física, espero que a mensagem chegue até você nessa grande rede digital. Estamos juntos, mesmo cada um na sua casa. Nesse mundo à distância, em um abraço virtual.

    Carol: Eu sou a Carol e esse foi o QUARENTENA.

    Fontes:

    BRASIL – Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (INEP). Censo da Educação do Ensino Superior 2018 Notas Estatísticas.

    BRASIL – Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Síntese de Indicadores Sociais: uma análise das condições de vida da população brasileira 2019. Disponível em: https://biblioteca.ibge.gov.br/visualizacao/livros/liv101678.pdf. Acesso em: 30 Mar. 2020.

    Músicas:

    Bella Ciao Cover: https://www.youtube.com/watch?v=teLW4ebo5oA

    Cityscape at Bus Stop: https://freesound.org/people/Leossom/sounds/169634/

    Ghost Byzantine: https://www.sessions.blue/?fwp_energy=2&fwp_sort=date_desc

    Secret Pocketbook: https://www.sessions.blue/?fwp_search=secret&fwp_energy=2&fwp_sort=date_desc

    Louver: https://www.sessions.blue/?fwp_search=louver&fwp_energy=2&fwp_sort=date_desc

    Our only lark: https://www.sessions.blue/?fwp_search=our%20only%20lark&fwp_energy=2&fwp_sort=date_desc

    Cases to rest: https://www.sessions.blue/?fwp_search=case&fwp_sort=date_desc

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