Oxigênio Podcast
Download on the App Store

Oxigênio Podcast episodes

  • #148 – Como você se desloca na sua cidade?

    O deslocamento das pessoas pelos centros urbanos é sempre uma preocupação, não só para os cidadãos, mas para o poder público, que deve fornecer o melhor tipo de transporte para a população, sejam os ônibus, trens, metrô. Neste último episódio da série Cidades, o Oxigênio mostra algumas das opções de transporte coletivo, e como é o sistema em Campinas. Os entrevistados foram o Fernando Ribeiro, que é mestre em Sistemas de Infraestrutura Urbana pela Puc Campinas e a Renata Pereira, mestra em sustentabilidade e estudou justamente a mobilidade urbana sustentável em Campinas. Quem produziu esse podcast foram a Bianca Bosso, o Luís Botaro e a Mariana Meira, estudantes do curso de Especialização em Jornalismo Científico do Laboratório de Estudos Avançados em Jornalismo, da Unicamp.

    __________________________________________________

    Roteiro

    Bianca Bosso: Quanto tempo você gasta no trânsito diariamente?

    Essa resposta pode variar bastante dependendo da sua cidade, do tipo de transporte que você usa e da distância entre sua casa e os locais onde você trabalha, estuda e se diverte.
    E pra entender quais são os fatores que influenciam essa resposta, nós entrevistamos especialistas e pesquisadores que vão falar um pouco sobre mobilidade urbana, mais especificamente na cidade de Campinas, no interior de São Paulo.
    Eu sou a Bianca, e esse é um episódio especial da série “Cidades” pro podcast Oxigênio. É com você, Luis!

    Luís Botaro: Pra começar nossa discussão sobre mobilidade urbana em Campinas a gente decidiu trazer alguns dados disponibilizados pela plataforma Moovit.

    Esse serviço atua na cidade oferecendo informações que ajudam os usuários do transporte público a descobrir os horários e as rotas dos ônibus e também o tempo de espera.

    Em média, as pessoas levam 49 minutos para completar uma viagem de ônibus. E nessa conta, a gente ainda pode adicionar o tempo de espera pelo ônibus, que é de cerca de 26 minutos.

    Somando isso tudo, desde o momento em que a pessoa sai de um ponto até o momento em que ela chega no destino, ela leva em média 1 hora e 15 minutos. E se a gente considerar que ainda tem a volta, são pelo menos 2 horas e meia de transporte por dia. Bastante tempo, né, Mariana?

    Mariana Meira: Pois é, Luís! Mas olha, esses números são um pouco diferentes dos dados apresentados pela EMDEC, Empresa Municipal de Desenvolvimento de Campinas. Ela é quem atua em parceria com a Secretaria Municipal de Transportes e quem tem a concessão dos ônibus coletivos municipais. E segundo um relatório que ela publicou em 2019, esse tempo de viagem seria 9 minutos mais curto: ou seja, levaria 40 minutos no total.

    Só que esses dados do relatório são baseados em uma pesquisa de 2011 – 11 anos atrás – e por isso não refletem com exatidão a situação atual em uma metrópole que já mudou muito.

    Bianca: A boa notícia é que esse tempo pode mudar bastante com a implantação do BRT, uma sigla que quer dizer Ônibus de Trânsito Rápido. Esse projeto está sendo implantado em Campinas desde 2016, e a expectativa pra conclusão da obra não para de crescer na cidade, já que a previsão inicial era o final de 2020.

    Só que antes de falar sobre prazos, me fala, você sabe exatamente o que é o BRT?

    Luís: Para entender do que se trata esse projeto, a gente chamou o Fernando Ribeiro, que é mestre em Sistemas de Infraestrutura Urbana pela Puc Campinas. Na primeira resposta, ele explicou o que é o BRT e como ele vai funcionar na cidade. Vamos ouvir o que ele disse:

    Fernando Ribeiro: O BRT, atualmente em obras, será constituído de dois corredores principais, Ouro Verde e Campo Grande, que farão a ligação dos respectivos distritos ao Terminal Central, e também será constituído do Corredor Perimetral, que ligará os dois corredores principais.

    O BRT, ele está localizado nesta região específica de Campinas para atender dois dos maiores fluxos de transporte coletivo da cidade, que conectam os distritos ao centro e vice-versa. Então, ele tem o potencial de suprir as necessidades dessas regiões, mas não de Campinas como um todo, porque ele está localizado numa região específica da cidade.

    Porém, é esperado que, uma vez que haja um aumento da eficiência na região desses corredores, as linhas convencionais que alimentam e são alimentadas por esses fluxos também serão beneficiadas pelo aumento da eficiência. Então, vai existir um raio de influência desses corredores, por mais que não vai influenciar a cidade como um todo.

    Mariana: O Fernando explicou também por que é tão importante criar um sistema de ônibus que conecta os bairros mais distantes à região central de Campinas:

    Fernando: A configuração espacial da cidade de Campinas é caracterizada pela concentração da oferta de serviços e empregos, exigindo mais deslocamentos das áreas periféricas para as centrais.

    Bianca: Gente, é bem interessante perceber que os corredores do BRT foram projetados pensando especificamente na organização urbana de Campinas, né?

    Luís: Sim, Bianca, esse projeto de BRT foi pensado para atender principalmente quem precisa fazer longos deslocamentos devido a essa concentração de serviços e postos de trabalho nas regiões centrais.

    Mariana: E pra entrar mais a fundo nesse tema, nós também conversamos com a Renata Pereira, que é mestra em sustentabilidade e estudou justamente a mobilidade urbana sustentável em Campinas.

    A gente começou perguntando para a Renata sobre as distâncias físicas que envolvem o acesso a serviços de saúde e educação e também ao trabalho e ao lazer, especialmente numa cidade como Campinas, que teve uma expansão urbana muito acelerada para regiões afastadas do centro.

    Renata Pereira: Os desafios da expansão das cidades brasileiras é intenso, principalmente no quesito da acessibilidade da população periférica – que geralmente é a mais afetada pelo crescimento desordenado das cidades (já que tem a renda mais baixa, claro).

    Os longos deslocamentos afetam não só economicamente, mas também socialmente, limitando o acesso a lazer, saúde e oportunidades em geral, diminuindo a qualidade de vida do cidadão.

    Bianca: Essa questão do tempo de deslocamento e como ele interfere na qualidade de vida não é um problema recente, viu?

    Antes do BRT, Campinas já passou por outros projetos dedicados ao transporte público, como o VLT, que são os Veículos Leves Sobre Trilhos e o VLP, que são os Veículos Leves Sobre Pneus.

    E como todos esses sistemas acabaram sendo desativados depois de um tempo, a gente perguntou pra Renata quais seriam as vantagens do BRT em relação a esses modelos e porque ele foi escolhido.

    Renata: O diferencial do BRT a outros tipos de soluções, como o VLT e o metrô, são principalmente focados em relação ao custo de implantação e manutenção e o tempo gasto pra implantação dos sistemas. Lembrando aqui que o BRT ainda não está cem por cento completo em Campinas, entrando no quinto ano da construção. Pra que no quesito velocidade de implantação fosse mais viável o BRT do que um VLT, por exemplo, ele deveria ser completado em torno de dois anos e meio – restou então a questão aí do custo de implantação pra que ele fosse escolhido em relação ao VLT, por exemplo.

    Luís: Bom, agora que a gente já entendeu melhor como o BRT funciona e porque ele foi escolhido, a Renata vai explicar pra gente um outro lado do projeto.

    Será que o BRT pode deixar de atender alguma necessidade de Campinas?

    Renata: A maior necessidade não contemplada é a facilidade de acesso ao usuário em torno dos corredores. Isso pode trazer um desafio a mais pro comércio e pros serviços do local, pois isola os passageiros dentro do sistema. O que pode ser facilmente resolvido também com um sistema de saída, por exemplo, das plataformas, sem custo, com uma restrição de vinte minutos, por exemplo, pra entrar e sair na mesma plataforma.

    Mariana: O interessante disso que ela falou é que, de fato, o BRT afeta não só a vida dos usuários, mas todo o entorno de comércio e pessoas que circulam perto da estrutura dele.

    Bianca: É isso mesmo. E, aproveitando esse gancho, além de entender como o projeto afeta a cidade, também é importante a gente saber como ele vai se comportar ao longo dos anos, porque o crescimento urbano não deve parar, né?

    Luís: Então, para finalizar a conversa com a Renata, a gente perguntou se dá para prever o ritmo de crescimento urbano em Campinas e como o BRT vai dar conta de garantir um serviço de transporte eficaz e sustentável depois que ele for implementado.

    Renata: É possível estatisticamente prever o ritmo de crescimento, sim. Lembrando que modelos estatísticos não levam em conta, né, mudanças estruturais drásticas, por exemplo a pandemia como foi.

    Pra avaliar se o BRT sustentará a demanda e por quanto tempo isso vai acontecer, seriam necessários mais estudos, com certeza. Mas, na minha opinião, é sempre importante investir em novos modais de transporte, especialmente os coletivos e os não motorizados, como as bicicletas e a caminhada, além de investir no planejamento urbano ordenado, preferencialmente de zoneamento misto, que permite que a população não precise se deslocar pra tão longe das suas casas todos os dias.

    Mariana: A Renata enfatizou dois pontos importantes: primeiro, que os estudos ainda não são suficientes pra saber por quanto tempo o BRT vai ser “útil” para a cidade, e, segundo, que é preciso investir em outros modais de transporte.

    A gente também quis entender qual é a visão do Fernando sobre isso, e na opinião dele, as soluções teriam que envolver uma mudança estrutural mais complexa da cidade. Vamos ouvir o que ele disse:

    Fernando: Enquanto os destinos forem concentrados, e distantes dos pontos de origem, o sistema de transporte ficará sobrecarregado. Enquanto houver muita gente indo pra um mesmo lugar, o sistema vai ficar sobrecarregado. Você pode tentar amenizar isso com uma oferta maior de transporte público, mais frotas, mais horários de circulação, restrição ao transporte privado pra liberar espaço pro transporte público, ou você tirar o transporte da superfície e colocar o subterrâneo, os metrôs, o que é uma opção muito cara.

    Porém, somente uma reconfiguração do tecido urbano, favorecendo a centralidade de bairros, encurtará as distâncias entre os pontos de origem e destino, tornando o uso do transporte público coletivo e até mesmo de modos não-motorizados mais atraentes e possíveis.

    Bianca: Bom, as falas da Renata e do Fernando foram bem legais pra gente entender as promessas do BRT pra população que vive e se locomove em Campinas. Mas é importante a gente destacar que o projeto ainda não está concluído, apesar de quase 2 anos já terem passado após a data prevista pra conclusão.

    Nós conversamos com o Secretário de Infraestrutura de Campinas, o Carlos José Barrero, pra ele explicar alguns dos motivos que levaram a esse atraso.

    Luís: Segundo Barrero, a pandemia da Covid-19 foi a principal causa para o atraso nas obras do BRT.

    Em entrevista à rádio CBN, ele explicou ainda que muitos contratos e licitações ficaram parados nesse período, atrasando questões burocráticas relativas à obra.

    Mariana: Ao nosso podcast, ele afirmou que a previsão é de que em 2023 essas obras estejam 100% finalizadas e já funcionando para a população.

    Bianca: Bom, depois de ouvir os especialistas e o gestor público, deu pra entender que uma obra como o BRT envolve transformações importantes na infraestrutura da cidade, além de mexer na rotina tanto dos moradores quanto do comércio e das empresas.

    Por isso, falar do BRT Campinas não é falar só de mobilidade urbana de uma grande metrópole, mas também de desenvolvimento econômico e de inclusão, porque mais pessoas vão poder circular e, assim, fazer o capital na cidade girar.

    Luís: Bom, esse foi o episódio especial da série cidades do podcast Oxigênio. Essa é uma produção da Oficina de Multimeios ministrada pela professora Simone Pallone no Labjor da Unicamp.

    Mariana: Esse podcast foi produzido e apresentado por Bianca Bosso, Luís Botaro, e por mim, Mariana Meira.

    13 min
  • #147 – Veredas do Tietê

    Veredas do Tietê foi o nome escolhido por Maíra Torres, Fernanda Pardini e Alexandre Hilsdorf, para esse podcast que compõe a série Cidades, que está sendo produzida pelos estudantes do curso de Especialização em Jornalismo Científico do Labjor. Com a ajuda do professor Janes Jorge, do departamento de história da Universidade Federal de São Paulo, o grupo conta histórias e curiosidades do Tietê, esse importante rio que corta praticamente todo o estado de São Paulo e que tem uma presença marcante na capital paulista. Um rio que já serviu para nado, competições de remo, pesca, navegação, extração de pedras e areia para construção, esgoto, que é muito lembrado pela poluição, mas que em determinados trechos é limpo e ainda tem uso recreativo.

    _______________________

    Roteiro

    Alexandre Hilsdorf: 

    Água do meu Tietê,

    Onde me queres levar?
    – Rio que entras pela terra
    E que me afastas do mar…
    É noite. E tudo é noite. Debaixo do arco admirável
    Da Ponte das Bandeiras o rio
    Murmura num banzeiro de água pesada e oleosa.
    É noite e tudo é noite. Uma ronda de sombras,
    Soturnas sombras, enchem de noite de tão vasta

    Da Ponte das Bandeiras, morta, dissoluta, fraca,

    Uma lágrima apenas, uma lágrima,
    Eu sigo alga escusa nas águas do meu Tietê.

    [Vinheta Veredas do Tietê] 

    Maíra Torres: Oi pessoal! Eu sou a Maíra Torres e estou aqui com meus colegas do curso de especialização de jornalismo científico da Unicamp, em Campinas, no interior de São Paulo. Comigo está a Fernanda Pardini.

    Fernanda Pardini: Oi, pessoal!

    Maíra: E o Alexandre Hilsdorf, dono da voz que você ouviu recitar a poesia “A Meditação sobre o Tietê”.

    Alexandre: E aí, pessoal, tudo bom?

    Maíra: Essa é uma série de podcasts de seis episódios em que vamos discutir a importância do rio Tietê, suas origens e como a relação das pessoas com o rio e modo como o usam mudou ao longo dos anos, principalmente em seu trecho mais urbano.

    Bom, começamos aqui com uma poesia do Mario de Andrade, feita em 1945, pouco antes dele morrer. Na época ele aproveitou para discutir outros temas da modernidade que o incomodavam, e o rio, já super poluído, para ele, era um reflexo das consequências negativas dessas mudanças sociais, da forma como as pessoas passaram a usar o rio em si.

    A Fernanda, aqui do grupo, já trabalhou numa ONG que tinha um projeto de educação ambiental que navegava no Tietê na cidade de São Paulo lá em meados de 2007. Apesar de já fazer um tempinho, né, Fernanda, é uma experiência que você não esquece, né? 

    Fernanda: Hahaha Pois é. 

    Maíra: Qual a impressão que você teve sobre a percepção das pessoas em relação ao Tietê, durante o projeto?

    Fernanda: Então, Maíra, para quem mora na Cidade de São Paulo, em geral, as pessoas nem acham que dá para navegar no rio Tietê. As pessoas acham, tem gente que tem a experiência de ter navegado no interior, ir lá em Barra Bonita, passar pela eclusa. Mas, em São Paulo, a imagem do tietê é que ele é um esgoto. Mas, quando a gente embarcava o pessoal, lá na ponte do Limão ou no cebolão, quando eles chegavam dentro do rio, na verdade, eles achavam que era menos fedido do que fora, sabe?

    Maíra: Ai, que bom.

    Fernanda: E, assim, eles achavam que era mais interessante do que o que eles esperavam. Sabe? Porque dava para ver, às vezes, até uma capivara, uma coisa diferente.

    Alexandre: Sabe, Fernanda. Na verdade, parece que o rio Tietê são muitos rios em um só. Ele nasce limpinho, no meio de uma floresta, parece um corguinho, lá perto de Salesópolis, que é uma cidade que fica ali na divisa  com Caraguatatuba, com São Sebastião e Paraibuna. Mas, o interessante é que a maioria dos rios normalmente, quando nasce, vai para o mar. Esse é o curso da maioria dos rios. O Tietê, não, O Tietê, ao invés de ir para o mar, ele vai para o interior de São Paulo. 

    Nesse caminho, conforme ele vai ficando mais volumoso, ele vai passando por áreas bem urbanizadas e industrializadas, que é o caso da Região Metropolitana de São Paulo, e inclui cidades como Mogi das Cruzes, Itaquaquecetuba, Guarulhos e a própria São Paulo. 

    Esse trecho, todo esse trecho, a gente conhece como alto Tietê, e é onde nós vamos concentrar nossa discussão dentro desse podcast. 

    Mas, para entender a importância do Rio, a gente precisa falar um pouquinho dos outros trechos também. Depois do Alto Tietê, o rio vai seguindo, daí ele passa o médio Tietê, até o  baixo Tietê, que é lá no rio Paraná, na divisa de São Paulo com o Mato Grosso do Sul. Ele deságua no rio Paraná. E, nesse caminho, o rio apresenta diversas cachoeiras e muitas barragens. Na verdade, o rio é bem interrompido por barragens para a geração de energia hidrelétrica. 

    Maíra: E essa característica que você estava comentando do Tietê, de correr da Serra do Mar para o interior, foi o que deu para ele uma importância histórica. 

    O rio Tietê, aliás, pra fazer um adendo, ele era antes conhecido como Anhembi ou rio das anhumas, uma ave típica da região, foi ganhar destaque com os Bandeirantes, que perceberam o potencial que o Tietê tinha. Mas o nome tietê, em si, também já era utilizado pelo povo indígena da região, justamente porque ti em tupi é rio e ete é grande, fundo, volumoso que corre para baixo. 

    Além desse papel na colonização do estado, o rio Tietê também foi importante para a cidade de São Paulo em um passado não tão longínquo assim, né Fernanda?

    Fernanda: Verdade, Maíra. No fim do século 19, começo do século 20, o Tietê era muito importante para a cidade, e principalmente seus moradores. Quem conversou comigo sobre isso foi o Janes Jorge, ele é professor do departamento de história da escola de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade Federal de São Paulo. Então, agora, vamos ouvir um pouco da nossa entrevista.

    Janes Jorge: Porque o Rio Tietê foi importante para São Paulo ao longo da sua história e em especial no século 20. 

    Em primeiro lugar, ele era um recurso natural, né? A cidade estava tendo aí um crescimento demográfico grande, a mancha urbana se espalhava pela bacia do alto Tietê, e a cidade começava a ensaiar a industrialização, que irá se acelerar aí nos anos 30.

    Portanto a cidade precisava de areia e pedregulho, que eram extraídos do leito do rio ou em suas várzeas para a construção civil. Precisava de telhas e tijolos que existiam nas Olarias, que também se localizavam em grande número ao longo do Rio Tietê.

    A cidade precisava de produtos agropastoris, muitos deles cultivados em chácaras que existiam ao longo do Rio Tietê.

    A cidade precisava de água para o abastecimento, e o Tietê chegou a ser utilizado ainda que tardiamente no próprio abastecimento de água. A cidade também precisava de energia elétrica, e o Rio Tietê ajudou a produzir energia elétrica. 

    O rio Tietê serviu como via de navegação, e a navegação foi muito importante na São Paulo da primeira metade do século 20, muito importante. Foi tão importante que o próprio projeto de retificação do rio Tietê previu a navegação nele. A navegação, enquanto uma opção viável de transporte na metrópole, foi abandonada a partir , daí, de meados do século. Ela era vista como algo importante, fundamental. Então havia também a navegação, e havia o uso recreativo do rio Tietê.

    Ao longo do rio Tietê você tinha clubes, você tinha campos de várzea e competições de remo e de nado. 

    E por fim, para a população trabalhadora pobre, que era a grande maioria da população de São Paulo, os moradores de São Paulo, que vivia aí o projeto muito, muito tumultuado, tenso, o rio Tietê era um local aonde você podia conseguir extrair da natureza aquilo que você não podia comprar. E isso ajudava os moradores de São Paulo a atravessarem, aí uma realidade social e econômica muito difícil. 

    Além disso, os rios de São Paulo, e o próprio rio Tietê, ele serviu como repositório do esgoto da cidade, né? Esgoto industrial, mais o esgoto doméstico. Esse papel, ele ainda tem até hoje, né?

    Fernanda: No seu livro você fala que o Tietê é o rio que a cidade perdeu. Por que que a cidade perdeu o rio Tietê? O que aconteceu?

    Janes Jorge: Aqui, eu estou usando a palavra cidade, no sentido de pensar os moradores da cidade. Então, evidentemente o rio Tietê, hoje é muito importante. Como eu falei agora pouco, ele afasta o esgoto de São Paulo, que é muito importante. As margens do Tietê são utilizadas pelas vias marginais, no transporte. Então, ele é um rio importante para a cidade, né? 

    Mas quando a gente pensa nessa cidade não do ponto de vista dos processos produtivos e da acumulação de capital, quando a gente pensa na cidade do ponto de vista do morador, aí o Rio Tietê, ele ficou apartado da cidade. A poluição excessiva do rio Tietê fez com que aquelas atividades que ocorriam de maneira cotidiana no Rio. O nado, as competições de remo, a pesca. A própria navegação, né? Fossem muito muito prejudicadas, até que se inviabilizassem. Isso foi ocorrendo paulatinamente a partir do século 20.

    Então, você tem ali na confluência do Tietê com o Tamanduateí. Como o Tamanduateí recolhia o esgoto industrial e residencial em uma zona populosa importante, né. Ele, ali no encontro do Tietê com o Tamanduateí, já era chamado de cagão, tamanha sujeira que era jogada. 

    Então, os esportistas usavam o rio antes da confluência com Tamanduateí, mas esse essa poluição das águas, ela vai se estendendo por todo o leito do alto Tietê, praticamente, a medida em que a industrialização avança, à medida que a população cresce, e a medida que São Paulo não consegue instalar uma rede de coleta e tratamento de esgoto universal, né? 

    Mas, à medida que São Paulo se transformou em uma das maiores metrópoles do mundo, né? Passou aí de dezenas de milhares, para casa de milhões de pessoas. Então, a degradação do rio Tietê foi muito intensa. 

    Então, por que a cidade perdeu o rio? Se a gente pensar, eu moro aqui num bairro que se chama Vila Anastácio, ele fica na beira do rio Tietê na altura da ponte da Anhanguera. Perto da Lapa, Zona Oeste. Eu moro, por volta de 100 metros do rio Tietê. A rua que eu moro termina na Marginal Tietê. Eu não conseguiria, por exemplo, caminhar até a beira do rio Tietê para fazer essa atividade que nós estamos fazendo, se eu quisesse fazer uma live ali na beira do rio de Tietê. Eu estou tão próximo do rio, mas não tenho acesso a ele, né? Você tem ali, nove pistas de automóveis me separando da beirada do Rio. Mesmo que a água fosse limpíssima, eu não teria nem como chegar na beira do rio, né? 

    Então você veja como se apartou. Evidentemente as marginais, que são vias importantes do transportes, são importantes. Transportes, caminhões, ônibus, os carros, as pessoas vão trabalhar com ela, as mercadorias circulam. Isso tudo é verdadeiro, né? Mas veja, isso tudo provocou uma mudança enorme no cotidiano, né? Então, o morador da Vila Anastácio a 80 anos atrás, ele caminhava e estava na beira do rio Tietê. 

    E se aproximar do rio era algo positivo. As pessoas gostavam de se aproximar do rio. O rio era uma referência positiva, né? Evidentemente tinha um momento de tensão. Quando ocorriam enchentes, mas a referência ao rio era uma referência positiva, né? Algumas pessoas quando estavam com a mente muito cansada ou muito confusa, atribulada, às vezes ela se dirigiam à beira do rio, a beira de uma ponte do rio Tietê e ficavam ali observando as águas, como que dessa forma se acalmando, organizando os pensamentos, né?

    Claro que, como a cidade de São Paulo mudou, se transformou numa Metrópole, o rio Tietê também ia ter que mudar. O Tietê, e Tamanduateí, todos os córregos, né? A mudança era inexorável, né? Mas essa, esse esquecimento que se fez, do Tietê, do ponto de vista do morador. Isso aí poderia ter sido amenizado,né? 

    Fernanda: Janes, falando nisso, então, conta um pouquinho para gente de como foi esse processo de retificação, né? Acho que nem todo mundo entende, o que que é a retificação. 

    Janes Jorge: Bom, o rio, aqui na cidade de São Paulo, né? Nós estamos no planalto, então os rios correm muito lentamente formando os meados e coroas, né? que são essas, uma série de curvas, à medida em que eles avançam aí para o interior paulista. Então, como o rio corre lentamente, ele vai formando curvas meandros. E, evidentemente, a medida da cidade começou a crescer. A ideia de se retificar os rios vai ganhando força. Por que? Porque, com a retificação você ganhava terrenos nas margens, com a retificação acreditava-se que você poderia diminuir as enchentes e também melhorar a própria navegação, né? Então houve vários processos de retificação. Vários, né? 

    Um, bem famoso, do Saturnino de Brito, exatamente em volta de 100 anos atrás, né de 26, um projeto muito importante porque o Saturnino de Brito era um grande especialista em um assunto das águas, do saneamento, né? No Brasil todo ele era reconhecido e ele fez ali um projeto de retificação que tentou preservar o uso múltiplo das águas do Tietê. Então, ele fez o projeto tentando adaptar o Tietê à metrópole nascente, e o princípio foi, ele tentou garantir que os usos sociais que o Tietê fornecia continuasse a existir no rio Tietê retificado, né? Ele previu o uso do Tietê para o abastecimento de água. 

    Ele imaginou dois grandes lagos na altura da ponte das bandeiras atual, da ponte grande, seriam usados, ai, para a realização de esportes, né? E, na medida do possível, também, ele pensou até em áreas verdes, e o combate das enchentes.  

    Mas, como eu falei, esses projetos de retificação, eles eram, apareciam como uma necessidade, num momento em que a cidade estava crescendo e precisaria pensar uma forma de lidar com seus rios no âmbito de uma grande metrópole que estava já nascendo, né?

    O projeto começa a ser implementado nos anos 30, mas os anos 30 foi uma época muito conturbada também, né? E o processo de retificação foi lento, né? Porque era uma obra gigantesca, né? E, ao longo desse processo, o Tietê foi digamos assim. O processo de retificação acabou priorizando aqueles uso sociais que eram imprescindíveis para a industrialização e para acumulação de capital, né? Então, as águas do Tietê começaram a receber cada vez mais e mais poluição, né, o esgoto especialmente. 

    Então, quando foi feita a retificação, a prioridade foi dada para quê? Para o transporte com as marginais, que praticamente, então se excluiu das margens qualquer área de lazer recreativa e as águas do Tietê, sem tratamento de esgoto, foram utilizadas prioritariamente para você afastar o esgoto e para produzir energia elétrica, né? Porque as águas do Tietê, do Tamanduateí, do Pinheiros e de toda a bacia hidrográfica do Alto Tietê, ela produzia energia elétrica. São Paulo se industrializou com base na energia elétrica, na hidrelétrica de Cubatão. Para produzir energia elétrica, não é preciso água limpa, então, a água do Tietê, mesmo poluída como a do Tamanduateí, depois do Pinheiros, elas produziam energia elétrica.

    Então você veja, que o rio foi muito importante, ele vai ser usado assim exaustivamente, né? Exaustivamente. Somente que o uso que se deu ao rio foi esse, o uso que era imprescindível aos processos produtivos e a acumulação do capital, no âmbito aí do morador, o processo de degradação e de afastamento do morador da beira do rio foi se processando, né, ao longo de décadas e chegou na situação aí no final do século 20, que era terrível, né? 

    Alexandre: Puxa, uma pena essa transformação da relação dos moradores da cidade com o rio, né? De toda a nossa conversa e das entrevistas que trouxemos, acho que fica somente uma pergunta: será possível reverter essa situação? Caramba, qual o futuro que a gente pode esperar pro Tietê?

    Maíra: É, exatamente. Eu acho que eu me faço essa pergunta. Eu acho, não, eu tenho certeza. Eu me faço essa pergunta, e imagino que para quem ouve, também deva se perguntar a mesma coisa.   

    E para saber mais sobre qual a situação atual do rio Tietê, você pode ouvir os próximos episódios. Nós vamos falar sobre os peixes que vivem no rio, os aspectos urbanísticos e ambientais, e seus usos e planos para o futuro.

    E até a próxima, então. 

    Fernanda: Tchau pessoal. Até a próxima. Vem ouvir os outros episódios, que estão bem legais. 

    Alexandre: Forte abraço, tudo de bom. 

    Maíra: Esse episódio do Oxigênio foi produzido e apresentado por mim, Maíra Torres, pela Fernanda Pardini e pelo Alexandre Hilsdorf. Eu fiz também a edição. Este episódio faz parte da série Cidades, uma atividade da disciplina Oficina de Multimeios, do curso de Especialização em Jornalismo Científico do Labjor. A coordenação do podcast é da professora Simone Pallone. Embora a gente fale de continuação do podcast, vamos precisar de alguns estímulos. Então, se você gostou e quiser ouvir mais histórias sobre o rio Tietê, escreva pra gente pelos canais do Oxigênio. 

    Estamos no Instagram e no Twitter também, é só procurar por “Oxigênio Podcast”. E no Facebook estamos como Podcast Oxigênio. 

    19 min
  • # 146 – Sotaques variados dão o tom da língua brasileira

    A forma de falar o português em algumas cidades do interior de São Paulo e Minas Gerais, com o erre forçado, o caipirês, está perdendo espaço mesmo nessas localidades, segundo a pesquisa de Lívia Carolina Baenas. O aumento da escolaridade das pessoas, o avanço da tecnologia e da internet contribuíram com esse processo. No Brasil, assim como em outros países, as diferentes regiões adotam diferentes dialetos e com a migração pelos estados, ocorre tanto o estranhamento como a incorporação de novas palavras ou modos de falar, ou seja a língua é viva, sofre mudanças ao longo do tempo, e para as pessoas que vivem nas cidades, é preciso se adaptar aos diferentes sotaques. É disso que trata esse episódio, o terceiro da série Cidades, uma atividade da Oficina de Multimeios, do curso de Especialização em Jornalismo Científico do Labjor. A produção do episódio é de Fernanda Cruz, Luciene Telli e Patrícia Bellas, alunas do curso. A edição foi feita por Rafael Oliveira, bolsista do Programa PAPI, do Serviço de Apoio ao Estudante.

    31 min
  • #145 – Ocupação da cidade para o bem-estar

    Ocupar os espaços públicos é importante para garantir sua manutenção, segurança e melhorias. Fazer atividade física é fundamental para manter a saúde. Para algumas condições crônicas, como o diabetes, a prática de exercícios é ainda mais relevante. Então, juntar as duas coisas, ou seja, praticar atividade física visando a prevenção ou o tratamento do diabetes ao mesmo tempo em que se ocupa a cidade é o que fazem os entrevistados deste episódio. As jornalistas Ludimila Honorato e Letícia Naísa, alunas do curso de Especialização em Jornalismo Científico do Laboratório de Estudos Avançados em Jornalismo da Unicamp , apresentam o episódio, que foi produzido por elas e editado por Richard Paião, aluno bolsista do Serviço de Apoio ao Estudante (SAE).

    Roteiro

    Emerson Bisan: A Cidade Universitária é uma carta na manga e, para quem pratica esporte, aqui é a nossa praia.

    Letícia Naísa: Esse é o Emerson Bisan, maratonista e preparador físico. Ele tá meio ofegante porque, enquanto ele falava comigo, ele corria pelas ruas da Universidade de São Paulo, a USP. É por isso que você vai ouvir, ao longo desse episódio, barulhos de carros e de pessoas conversando. E claro que, pra gravar essa conversa com o Emerson, eu precisei correr com ele.

    Ludimila Honorato: Opa! Pera aí! Correr não é bem a palavra certa, né, Le? Acho que você e eu estávamos mais para caminhar rápido [risos].

    Letícia: Tá bom, Ludi, concordo, vai!

    Bruno Helman: Tem essa dinâmica que é justamente a ideia de uma forma orgânica criar uma comunidade que utilize a atividade física, que utilize a ocupação do espaço público para uma vida mais ativa e mais saudável.

    Ludimila: Esse é o Bruno Helman. Ele e o Emerson fazem parte do Instituto Correndo pelo Diabetes, que foi fundado pelo Bruno. O Instituto reúne uma comunidade de pessoas com diabetes que usa o espaço público para correr e caminhar, que são atividades que ajudam no tratamento da doença.

    Letícia: No dia que a gente se conheceu, eles estavam organizando uma corrida na cidade universitária. Eram 8 horas da manhã de um sábado e o pessoal lá já tava animado, pronto pra correr. E a gente foi lá pra entender um pouco mais sobre essa ocupação do espaço público como um recurso pra saúde e pro bem-estar.

    Eu sou Letícia Naísa.

    Ludimila: E eu sou Ludimila Honorato. E você está ouvindo a estreia do Vida Com Saúde, um podcast desenvolvido para o curso de pós-graduação em Jornalismo Científico do Labjor, da Unicamp.

    Letícia: A estrutura das cidades pode favorecer ou dificultar a promoção da saúde das pessoas que vivem nelas. Por exemplo: morar perto de um parque pode reduzir o risco de infarto do miocárdio, mas se expor constantemente à poluição do ar pode aumentar esse risco.

    Um estudo feito por pesquisadores da USP analisou as relações entre o ambiente construído e a saúde coletiva. Eles avaliaram tópicos como: mobilidade e atividade física, ilhas urbanas de calor, conforto térmico e saneamento.

    Todos eles são importantes e estão relacionados entre si, mas a gente vai citar aqui só alguns pontos que têm mais a ver com nossa discussão. Os pesquisadores mostram que, do ponto de vista da saúde, os carros são prejudiciais. Isso porque eles diminuem a atividade física, contribuem para o isolamento social e causam estresse pelas longas horas perdidas no trânsito. Além disso, acabam poluindo o ar e geram uma barulheira insana!

    Ludimila: Ah, isso é verdade! Eu moro de frente pra uma avenida super movimentada [sons de carro em avenida] e é o dia todo com barulho de carros, motos, caminhões passando, buzinas, sirenes… Nossa, incomoda demais! E assim como os autores do estudo da USP contam, eu também sinto os efeitos de tudo isso: olhos ardendo, alergias, dor de cabeça. Sem contar que outros estudos indicam que se expor a altos níveis de poluentes, mesmo que por pouco tempo, aumenta a internação por doenças cardiovasculares e respiratórias.

    Letícia: Cara, é muito problema, né?! Será que toda cidade é assim? Como que faz atividade física nessas condições?

    Priscila Bezerra Gonçalves: Existem dois pontos principais a serem considerados pra que as pessoas usem mais o espaço público pra praticar atividade física.

    Ludimila: Essa é Priscila Bezerra Gonçalves, professora de Educação Física e pesquisadora do Grupo de Pesquisa em Atividade Física e Qualidade de Vida da Pontifícia Universidade Católica do Paraná, a PUC PR.

    Priscila Bezerra Gonçalves: Primeiro seria ter espaços adequados, e aqui incluo não só a existência de um parque ou praça na cidade. O fato de uma cidade não ter calçada, ou esta estar sem condições de uso já dificulta, por exemplo, o deslocamento das pessoas até um mercado, padaria, escola. E o segundo é a segurança. Não basta ter o espaço e a estrutura em si. Se as pessoas não se sentem seguras, elas não utilizarão aquele espaço.

    Ludimila: Em 2018, a Priscila e outros dois pesquisadores da PUC PR publicaram o Ranking das Capitais Brasileiras Amigas da Atividade Física.

    Priscila: A cidade amiga da atividade física possui uma estrutura que oportuniza as pessoas a serem mais ativas fisicamente. Isso inclui aspectos como um transporte público de qualidade, acessível, estrutura de lazer como parques, praças e também oferece um ambiente seguro pras pessoas saírem de suas casas, seja pra praticar uma atividade física ou pra se deslocar até um comércio próximo, caminhando ou pedalando. 

    Ludimila: Os pesquisadores coletaram dados diversos e estabeleceram cinco indicadores para avaliar o quanto as cidades favorecem a prática de atividade física. São eles: acesso a espaços de lazer, acesso ao transporte público, desenho urbano, estrutura viária para atividade física e trânsito e criminalidade.

    A Priscila conta que o estudo teve algumas limitações, sendo que a principal foi a indisponibilidade de dados para compor o ranking.

    Priscila: Inicialmente, nós havíamos selecionado 23 indicadores, porém, foi possível incluir apenas 12. Os demais não foram incluídos por não estarem disponíveis pra todas as capitais ou não eram oriundos da mesma base de informação, o que permite ter uma comparabilidade dos métodos e dos resultados. Um exemplo é o IBGE que utiliza a mesma metodologia pra coletar as informações em todas as cidades no Brasil.

    Ludimila: Mas com o que foi possível coletar de dados, os pesquisadores criaram uma pontuação para classificar as cidades. A capital mais amiga da atividade física foi São Paulo, seguida de Belo Horizonte, Vitória, Curitiba e Rio de Janeiro. Porém… São Paulo foi a cidade em que menos se pratica atividade física no lazer.

    Letícia: Bom, em partes, faz sentido, né. A cidade de São Paulo não liderou todos aqueles cinco indicadores que você falou, então não adianta ter parques e ruas fechadas para uso dos pedestres se as pessoas têm medo de serem assaltadas ou não têm como chegar a esses lugares. O ideal é que houvesse políticas públicas em diferentes áreas para que as pessoas pudessem realmente usar os espaços públicos a favor do bem-estar.

    Mas, apesar disso, ainda tem gente que encontra benefícios no espaço público.

    É o caso do Emerson e do Bruno, que a gente conheceu no começo desse episódio, e também da Flávia Pisano.

    Flávia Pisano: Durante a semana, por causa do trabalho, existe uma pracinha perto da minha casa, eu moro em frente ao metrô Conceição, tem uma pracinha, tem uma pista de 500 metros. É ali que eu corro.

    Letícia: A Flávia foi diagnosticada com diabetes por volta dos quatro, cinco anos de idade. Hoje, aos 41 anos, ela caminha e corre em espaços públicos, e essa é uma das formas dela tratar a doença.

    Flávia Pisano: E de final de semana, eu vou para o Ibirapuera ou venho aqui pro Bisan observar, ver o que que tem de errado, a minha pisada, como que é, se tá certo, se não tá, que agora a gente, o próximo desafio é meia maratona.

    Letícia: Quando ela diz “venho aqui”, o “aqui” é a Cidade Universitária, onde ela se reuniu com uma turma do Instituto Correndo pelo Diabetes no mesmo dia que eu e a Ludi fomos conhecer o movimento. Era o primeiro encontro presencial deles depois que a pandemia ficou mais branda.

    Flávia Pisano: Sempre na minha vida, durante muitos anos, eu incluí atividade física. No período de faculdade até a fase de adulta, vamos dizer assim, de começar a trabalhar, eu dei uma falhada e parei com a atividade física, mas aí eu retomei um pouquinho antes do Correndo. Eu descobri o Correndo na internet, comecei a seguir o Bruno e num evento eu acabei encontrando o Bruno. E aí eu falei para ele, cara, eu sou muito seu fã, eu queria muito participar do Correndo, eu não corro, eu não corria nem 100 metros, mas eu caminhava, aí eu falei para ele: eu quero participar, quero participar. Aí ele falou assim: tá, vamos ver isso, não sei o quê. Aí surgiu o projeto piloto, eu me inscrevi, ele insistiu muito. Eu falava não, não corro, não vou. Ele: não, se inscreve, se inscreve. E foi a melhor coisa que eu fiz.

    Ludimila: E foi a melhor coisa mesmo! A Flávia contou que está junto ao Instituto Correndo pelo Diabetes desde setembro de 2020 e, há quase dois anos, o exame de hemoglobina glicada dela está ótimo! Esse exame mede o nível de açúcar no sangue e, para quem tem diabetes como ela, é arriscado demais manter um nível alto. Quem explica melhor sobre diabetes é o Vitor Painelli, mestre e doutor em Ciências pela USP e pesquisador nas áreas de treinamento físico, saúde e nutrição esportiva.

    Vitor Painelli: De maneira geral o diabetes, ele é uma doença caracterizada pela hiperglicemia, né, uma condição em que você tem níveis de glicose ou açúcar no sangue acima dos padrões, acima dos níveis desejados ou almejados e isso gera uma série de repercussões possivelmente negativas no corpo, né. A depender do nível que se atinge, desde lesões em tecidos renais, na própria retina, cerebral e pode levar a convulsão e até morte.

    Letícia: Nossa, é uma doença séria mesmo e pode levar a danos muito graves! Mas, quanto antes o diabetes for descoberto e quanto antes começar o tratamento adequado, melhor será a vida da pessoa. E a atividade física está muito relacionada a esse tratamento.

    Vitor Painelli: A atividade física, a contração muscular resultante da atividade física é o tratamento de melhor custo-benefício desse público. Fisiologicamente falando, o que se sabe é que uma sessão de exercício físico consegue manter essa melhor captação de glicose pelos tecidos, em específico pelo músculo, por até 72 horas pós sessão. Então, você imagina, é como se fosse um remédio mesmo, o pessoal vai lá, faz a bateria de exercício hoje e por 48 a 72 horas depois, essa captação, essa regulação glicêmica, ela tá melhorada, ela tá otimizada. Por isso que hoje a recomendação de exercício físico para quem é diabético é que ele faça pelo menos umas três a quatro sessões de exercício na semana.

    Ludimila: É isso que permite que a Flávia, mesmo com diabetes, tenha uma vida com mais saúde.

    Flávia Pisano Foi dentro do Correndo que eu aprendi isso, a relação atividade física, insulina e alimentação.

    Ludimila: A insulina é um hormônio produzido pelo pâncreas e tem a função de levar a glicose, comumente chamada de açúcar, do sangue para dentro das células. A glicose é obtida por meio da alimentação e serve como fonte de energia para as células.

    Flávia Pisano: O que faz eu estar quase dois anos vai com uma glicada maravilhosa e com o controle perdão com controle maravilhoso é atividade física. Muita gente diz que: ah não, o tratamento do diabetes não tá diretamente ligado à atividade física. Mas tá, no meu caso sim, e é a atividade física que faz eu ter os resultados que eu tenho, não só no diabetes, no geral.

    Letícia: O mecanismo de ação da atividade física para quem tem diabete é incrível! O Vitor me explicou que, quando a insulina se liga às células do corpo, levando a glicose, faz com que um transportador que está dentro da fibra muscular vá para a membrana, ou seja, para a superfície, e pegue essa glicose. Mas como quem tem diabete sofre de ausência ou resistência à insulina, esse mecanismo não vai funcionar bem. Com isso, há um excesso de açúcar no sangue. Com o exercício físico, a contração muscular ativa esse transportador, sem necessidade de insulina, e todo o processo ocorre normalmente. Fantástico, né!

    Ludimila: Uau! O corpo humano é muito inteligente, hein!

    Letícia: É sim! Mas é bom lembrar que, por mais que a atividade física traga esse benefício, ela não é a única forma de tratamento. Cada pessoa com diabetes tem de avaliar junto ao seu médico qual o tratamento mais adequado, que pode incluir medicações e aplicação de insulina, por exemplo. Mexer o corpo vai potencializar os efeitos do que o médico recomendar! E outros benefícios gerais do exercício físico, que o Vitor comentou, são: reduzir a pressão arterial, o que pode ajudar na prevenção e no tratamento de hipertensão, aumentar os músculos, que contribui para quem tem problemas nas articulações, e ajudar no tratamento de quem sofre com ansiedade e depressão.

    Ludimila: Nossa, com tanto benefício assim, vou sair fazendo um monte de exercício, incrementar minha rotina que já inclui academia, muay thai…

    Letícia: Melhor ir com calma, Ludi. O Vitor disse que não é qualquer atividade física que traz benefícios para todas as condições de saúde. Exercícios de impacto, como corrida, não são recomendados para pessoas com problemas articulares, por exemplo, como nos joelhos ou na coluna. E você já me disse que sente dores na lombar quando faz alguma atividade, né. Olha só o que o Vitor falou.

    Vitor Painelli: Para cada condição, você tem que ter um olhar específico e prescrever com base nas limitações da doença, nas características da doença e do indivíduo também, porque por vezes não vem só com a doença, ele vem com uma, duas, três, quatro condições juntas, né?

    Ludimila: A Flávia está seguindo bem as orientações do treinador dela e tem praticado bastante. No final de março deste ano, além de completar 41 anos de idade, ela completou uma corrida de 14 quilômetros na primeira prova oficial dela. Uma vitória! E tudo isso é possível porque, felizmente, ela tem acesso a bons lugares públicos para praticar.

    Flávia Pisano: A pracinha que eu corro, eles super mantêm, é excelente, tem muitos idosos, tem de tudo ali, e no Ibirapuera, né, gente?

    Eu prefiro a rua porque eu não gosto de me sentir presa dentro de uma academia. Eu gosto de sentir o ar na cara, de ver as pessoas, de me sentir livre.

    Letícia: Ah… Isso é bom demais mesmo. Mas, infelizmente, nem todo mundo tem esse privilégio e nem todo espaço público é adequado para fazer atividade física. Na própria cidade universitária da USP, onde fomos acompanhar a turma do Correndo pelo Diabetes, tinha umas calçadas irregulares, rachaduras no asfalto e uma disputa de espaço entre ciclistas, pedestres e corredores.

    Emerson Bisan: Bike! Opa, desculpe. Nada…

    Letícia: Nesse momento, o Emerson Bisan, que também é diretor de exercício físico do instituto, estava falando pra gente sobre as vantagens e desvantagens de correr em espaços públicos.

    Emerson Bisan: A gente tem pouco espaço fechado para correr, para falar a verdade. A gente não tem disponibilidade de espaço.

    Letícia: Ele diz que começou a correr em Mogi das Cruzes, onde morava, a cerca de 60 quilômetros da capital paulista, e que as condições de lá não são muito diferentes das que a gente encontra aqui na cidade de São Paulo.

    Emerson Bisan: A gente não tem uma calçada boa para correr. Então, a gente disputa o espaço com os carros e isso é em qualquer lugar. Então, agora se tem valorizado ciclofaixa, se tem valorizado o espaço do corredor. A Cidade Universitária é uma carta na manga e para quem pratica esporte, aqui é a nossa praia.

    Eu tenho visto uma melhora. Já tem valorização da adequação dos espaços, calçada com acessibilidade. Mas aí o que você falou: ainda falta muito para a gente ter um local seguro, onde a gente não dispute o espaço com os carros, um lugar sem riscos de cair. Quando a gente corre no parque, eles têm adequado, agora dentro do parque, a trilha para ficar mais segura, plana… muita gente caía de tropeçar em galho, em raiz de árvore.

    Letícia: E o quanto o acesso ao espaço público facilita ou dificulta o acesso à corrida?

    Emerson Bizan: Acho que é bem claro. Por exemplo, o Rio de Janeiro, que tem nas regiões que é próximo da praia, você consegue entender e vê uma população muito mais ativa. E quando você tem isso na porta da sua casa, é quase que parte da sua rotina você sair para sair, para fazer atividade. Então, quanto mais espaço tiver, quanto mais ações para ter incentivo, melhor.

    Ludimila: Por vezes, essas ações de incentivo podem partir da própria sociedade, de grupos como o do Instituto Correndo pelo Diabetes. Aqui, voltamos a conversar com o Bruno Helman, que fundou o instituto. Na verdade, primeiro ele criou um projeto nas redes sociais que reunia pessoas com diabetes para participar de corridas de rua. 

    Bruno Helman: Eu criei o Correndo pelo diabetes a partir da necessidade de promover um ambiente de inclusão e para mostrar para outras pessoas que vivem com diabetes como eu que não seria um diagnóstico que limitaria a vida delas.

    Ludimila: Ele escolheu a corrida por incentivo do pai, que já era maratonista quando ele, o Bruno, recebeu o diagnóstico de diabetes aos 18 anos de idade. Com o tempo, o projeto cresceu.

    Bruno Helman: E à medida que o projeto foi ganhando robustez, ganhando maturidade, a gente entendeu que era o momento de tornar o projeto numa organização da sociedade civil, sem fins lucrativos, com o objetivo de agregar cada vez mais pessoas e poder também chegar pra outras regiões além de São Paulo.

    Ludimila: Isso de chegar a regiões além de São Paulo tem a ver com ocupar mais os espaços públicos, e é assim que o Bruno define a importância de estar em ruas e parques, praticando uma atividade que ajuda no tratamento dele e de tantas outras pessoas.

    Bruno Helman: A ocupação do espaço público é fundamental pra gente garantir não só a sua manutenção, mas também a sua melhoria. A partir do momento que as pessoas se propõem a realizar uma atividade física em prol da saúde, mobilizando, conscientizando acerca de uma condição crônica que afeta milhões de brasileiros, a gente também tá mostrando que a gente existe, a gente também tá mostrando a relevância não só para falar sobre a condição, mas também da atividade física como prevenção e tratamento do diabetes. Então, ocupar esses espaços públicos é muito importante e o nosso grande sonho é que a gente consiga trazer capilaridade e ocupar esses espaços no maior número de municípios brasileiros e nas grandes capitais também, saindo dos grandes centros urbanos e chegando nas periferias.

    Letícia: É incrível como os espaços públicos podem ser usados dessas formas, para engajar uma comunidade e servir de ambiente para a prática de atividade física. E também como a própria ocupação acaba chamando atenção para os problemas e servindo de manifestação em busca de melhorias.

    Ludimila: Verdade! Mas a gente sabe que políticas públicas demoram a ser concretizadas, né! Mas também não dá pra esperar. Enquanto elas não existem, precisamos seguir usando e ocupando as ruas, os parques… Só tem que tomar cuidado com as vias irregulares, os buracos, porque qualquer tropeção pode ser grave!

    Letícia: Sim, tem de tomar muito cuidado! E para quem vai praticar atividade física nos espaços públicos, o pesquisador Vitor Painelli tem algumas dicas. Além de verificar as condições do trajeto que a pessoa vai percorrer, como segurança, sinalização e infraestrutura, tem alguns cuidados para evitar uma piora do quadro de saúde da pessoa.

    Vitor Painelli: Antes dela sair pra fazer uma atividade física, o que é interessantíssimo é que ela busque auxílio profissional primeiro, desde o médico até da área de educação física para checar de fato o que que ela pode fazer, se é que ela pode fazer. Eu sei que a busca por espaços públicos representa uma forma barata de atividade para muitas pessoas que ou não gostam de locais fechados, internos ou que não têm condições de pagar, custear esses lugares fechados. Mas ela tem que entender que precisa existir o investimento de tempo e até mesmo financeiro para saber a condição inicial dela, me refiro a uma avaliação médica para que esse indivíduo saiba exatamente o tipo de atividade que ele pode fazer.

    Letícia: E essa busca por instrução médica pode ajudar a prevenir outras complicações.

    Vitor Painelli: O médico é interessante porque na rua muitas vezes as pessoas buscam atividades de natureza aeróbia e pouca gente sabe a sua condição cardiovascular, né?

    Essa falta de mapeamento das condições de saúde cardiovascular representa uma das maiores causas da morte súbita durante o exercício, só que esses indivíduos, os famosos corredores de fins de semana, eles não fazem nada a semana inteira, chega no sábado, eles querem exercitar pela semana e acabam se utilizando de intensidades de exercícios muito elevadas e o que vai acontecer com o coração nessa condição? Ele vai bombear e vai atuar de maneira extravagante, por assim dizer, que se a pessoa tem uma isquemia, que é um problema no fluxo sanguíneo, e uma arritmia, que é um problema na atividade elétrica do coração, ela tem um risco grande de sofrer uma morte súbita no momento da atividade.

    Letícia: E na hora de, finalmente, ir pra rua, vale cuidar dos aparelhos e vestimentas que você está usando.

    Vitor Painelli: Se a pessoa for pedalar, não sair comprando qualquer bicicleta. Que ela busque também um aconselhamento para o ciclo ergonômetro que ela vai utilizar.

    Isso vale também para o calçado que você vai utilizar, não dá para sair correndo com qualquer calçado. Um calçado adequado também se faz importante para um bom amortecimento a cada passada da caminhada ou da corrida por vistas de amenizar essa carga externa que vai incidir sobre o aparelho locomotor.

    Ludimila: Estamos chegando ao fim do primeiro episódio do Vida Com Saúde, um podcast feito para o curso de pós-graduação em Jornalismo Científico do Labjor, da Unicamp. Se você conhece uma pessoa que pode se interessar pelo tema que falamos hoje, compartilhe com ela!

    Letícia: Eu, Letícia Naísa, e Ludimila Honorato fizemos a produção, reportagem, roteiro e apresentação desse episódio. A edição ficou por conta de Richard Paião. Até a próxima!

    22 min
  • #144 – Série cidades – Astrocity: Os efeitos da poluição luminosa para a astronomia

    O primeiro episódio da série Cidades trata do tema da Poluição Luminosa, fenômeno causado pelo excesso de luzes acesas nas casas, edifícios, ruas ou escape de iluminação e que impede que se veja o céu noturno e os astros. A poluição luminosa pode afetar a saúde humana, colocar em risco a biodiversidade e ainda gera custos desnecessários para as cidades.

    Este é o primeiro episódio do Astrocity, um podcast que está sendo criado por alunas do curso de Especialização em Jornalismo Científico, do Labjor/Unicamp, associado ao Oxigênio.

    Tânia Dominici: Tem um fato que aconteceu, um blackout na Califórnia em 1954 e aí os telefones de emergência começaram a ser invadidos pelas pessoas ligando que tinha uma coisa no céu, que tinha um negócio no céu. E era a Via Láctea, né? As luzes da cidade tinham apagado por causa do blackout e as pessoas estavam vendo ali o centro da nossa galáxia, que é onde tem um adensamento maior de estrelas e regiões de gás, de poeira. As pessoas nunca tinham visto e acharam que aquilo era um óvni, um efeito perigoso. A gente perdeu a conexão com o céu noturno que foi base do nosso desenvolvimento tecnológico: contar o tempo, se localizar, começar a pensar ambientes com processos físicos que não são reprodutíveis no planeta pra entender melhor a física do universo. E a gente tá se desconectando disso.

    Dimítria Coutinho: Uma das grandes culpadas por essa nossa desconexão com o céu noturno é a poluição. Mas não é o tipo de poluição que a gente está mais acostumado a ouvir, como das águas, do ar ou até a visual. Aqui, estamos falando da poluição luminosa. Você já ouviu esse termo? É difícil pensar que a luz pode ser um poluente, né?

    Greta Garcia : É difícil mesmo… mas na prática você, que mora em uma metrópole, já olhou pro céu à noite e só viu escuridão? E quando viajou para alguma cidade no interior do seu estado, conseguiu observar o céu estrelado?

    Dimitria: E você, que vive em cidades menores e afastadas de grandes centros urbanos, que está acostumado a observar o céu iluminado pelos astros todas as noites: já viajou para alguma metrópole e, quando olhou para cima, não enxergou nada além de escuridão?

    Tânia Dominici: A poluição Luminosa é toda luz utilizada para além do seu objetivo. Então se você vai iluminar um local, mas essa luz escapa para outras para as redondezas ou se essa luz é excessiva para sua aplicação, você provoca a poluição Luminosa. Em particular, a gente na Astronomia se preocupa com a luz que é emitida acima da Linha do Horizonte. Então aquela luz artificial que vai na direção do céu, que não tem utilidade nenhuma para vida humana, mas que apaga as estrelas, apaga a visão do céu noturno.

    Dimítria: Eu sou Dimítria Coutinho.

    Greta: E eu Greta Garcia.

    Dimitria: Você está ouvindo o primeiro episódio do Astrocity, um podcast sobre a astronomia nas cidades. Bem-vindo!

    Greta: No episódio de hoje você vai entender porque a poluição luminosa é um problema para a observação do céu noturno.

    Dimitria: Como você ouviu agora na fala da Tânia Dominici, astrofísica e pesquisadora do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais, o INPE, o uso incorreto de iluminação artificial nas cidades interfere na observação do céu noturno e, consequentemente, no estudo dos astros.

    Thiago Gonçalves: Eu acho que, de uma forma geral, em termos de tipos de ciência, todas as áreas da astronomia são afetadas, porque você tá apagando tudo que tá fora da atmosfera, que é justamente o objeto de estudo da astronomia.

    Greta: Quem acabou de falar é o Thiago Gonçalves, astrofísico da Sociedade Astrológica Brasileira. Esse impacto que ele mencionou aparece também num estudo publicado na revista Science em 2016, que estimou que o excesso de luz artificial durante a noite impede um terço da população mundial de enxergar a Via Láctea. Mas ter céus menos estrelados é apenas um dos prejuízos causados pela poluição luminosa.

    Dimítria: Para a sociedade, a poluição luminosa afeta a saúde humana porque a iluminação artificial interfere na produção de melatonina, hormônio que ajuda a promover uma boa noite de sono; além de trazer prejuízos econômicos na administração pública, uma vez que grande parte da energia utilizada para iluminar os ambientes externos é desperdiçada por ser direcionada incorretamente.

    Para o meio ambiente, coloca em risco a biodiversidade, por alterar o ciclo natural de vida das plantas e animais. Estudos, como uma pesquisa de 2020 da Universidade Tufts [tãfitis], nos Estados Unidos, mostram que milhares de espécies de vagalumes, por exemplo, estão mais próximas da extinção por conta da iluminação artificial, que atrapalha seus rituais de acasalamento.

    Greta: Esse é um tema bastante abrangente, porque se conecta com diversas áreas da nossa vida. Mas o nosso foco hoje é entender como a poluição luminosa prejudica os estudos de astronomia.

    Thiago Gonçalves: Mas a gente pode pensar também do ponto de vista do tipo de observação que se faz, de qual região do espectro eletromagnético você tá observando. Quer dizer, se você tá fazendo observações com luz visível, o tipo de luz que nosso olho consegue enxergar, em geral essas observações vão ser as mais afetadas pela poluição Luminosa, justamente porque esse problema com iluminação pública. Essa iluminação vai competir com aquela luz fraquinha que tá chegando da galáxia, da estrela.

    É como se você tivesse vendo, digamos, um vagalume no céu escuro ou um vagalume na frente de uma televisão de LED.

    Greta: O Thiago também explicou pra gente que existe uma escala, chamada Escala de Bortle (Bortol), que é usada para que os astrônomos consigam quantificar a qualidade do céu para observação em um lugar específico. Ela vai de 1 a 9, sendo 1 um céu excelente, bem escuro, onde é possível enxergar as estrelas mais distantes; isso acontece por conta do contraste que se torna mais acentuado; e 9 sendo o pior lugar possível para você colocar um Telescópio – como o centro de Tóquio ou a cidade de Nova York, por exemplo.

    Dimítria: Essa escala foi criada e publicada pelo astrônomo amador John Bortle em 2001, justamente para auxiliar seus colegas de observação, já que muitos dos astrônomos amadores moram em cidades grandes e se locomovem, na medida do possível, para lugares onde o céu é mais escuro. Hoje em dia, existem alguns aplicativos, como o Dark Sky Meter e o Loss of the Night, que permitem que qualquer usuário com um smartphone possa mensurar o nível de brilho no céu e compartilhar com cientistas.

    Greta: Outra medida que ajuda a mensurar o impacto e nível da poluição luminosa é o Sky Quality Meter, um programa que permite que cientistas mapeiem cidades em diferentes lugares para identificar pontos de escuridão e medir as alterações desses pontos com o tempo.

    Dimítria: É com base nessas informações que se definem também onde novos observatórios serão instalados. Por isso, eles quase sempre são construídos em locais afastados de centros urbanos, muitas vezes inóspitos, contando que a separação geográfica poderia barrar a poluição luminosa.

    Greta: Então dá pra dizer que tudo o que resta pros astrônomos, amadores e profissionais, é simplesmente fugir das grandes cidades?

    Dimítria: Ou utilizar os bancos de imagens de satélite para realizar seus estudos, Fulana 2. Existe um banco de dados enorme com imagens digitalizadas que pode ser usado profissionalmente, mas mesmo essa opção ainda não resolve o problema. E é por isso que os astrônomos e os cientistas continuam investindo na construção de observatórios cada vez mais avançados e mais distantes das áreas muito iluminadas. E nesses observatórios dá para ver constelações que eram invisíveis há 10 anos.

    Mas essas saídas não resolvem a questão da poluição luminosa nas cidades. Para isso o mais importante é o avanço de medidas tomadas a nível governamental e também individual. No Brasil, a legislação sobre o tema ainda é escassa se comparada com outros assuntos ambientais já regulamentados. Mas já existem iniciativas. Em Campinas, por exemplo, a lei municipal 10.850 de 2001, criou uma Área de Proteção Ambiental onde se localiza o Observatório Municipal de Campinas e o Museu Aberto de Astronomia, no intuito de garantir condições de visibilidade através da norma municipal.

    Thiago Gonçalves: No Havaí existe uma regulamentação sobre a iluminação pública, porque ainda que você esteja no topo da montanha, você ainda tá numa ilha habitada. É uma das ilhas menos habitadas do arquipélago, mas ainda assim você consegue ver alguma iluminação do alto da montanha. E existe uma regulamentação na ilha para que se use apenas lâmpadas de sódio, que são lâmpadas que protegem um pouco mais, elas não contaminam tanto, elas não produzem tanta poluição Luminosa e isso ajuda muito. Uma parceria do governo local com os observatórios que impede um pouco essa poluição Luminosa, que isso cresça de uma maneira muito grave e que permita a continuação dessas observações.

    Greta: A legislação é necessária para direcionar ações porque, mesmo que haja uma conscientização para que se utilize a luz artificial de forma estratégica e sustentável, é através da regulamentação que a população pode ser orientada sobre as melhores possibilidades. No Brasil, apesar de lenta, essa discussão também acontece a nível federal.

    Tânia Dominici: Hoje a gente tem no país duas propostas de projeto de lei tramitando na Câmara dos Deputados que são importantes nesse sentido. Uma que propõe a criação de uma certificação de áreas dos Céus escuros, própria para o Brasil, existem algumas internacionais, mas essa legislação ela propõe alguma coisa mais simples dentro do contexto Nacional.  Existe um outro projeto de lei mais complexo que coloca a poluição Luminosa, como crime ambiental a legislação ela é fundamental.

    Dimítria: Essa discussão é algo recente. A preocupação com os céus e a conservação da visão noturna a nível governamental e estadual ainda precisa se desenvolver mais, algo que só será alcançado com mais conscientização social sobre o problema.

    Thiago Gonçalves: Eu acho que esse é o problema mais grave justamente, porque quando você sai da terra você não tem mais nenhum tipo de controle governamental. E você tem um algo análogo ao velho oeste nos Estados Unidos no século 19, onde quem chegar lá primeiro ganha. E isso é muito prejudicial, porque não tem sem esse controle, você não tem nem como regulamentar isso. Se alguém quiser colocar um outdoor no espaço, se tiver o dinheiro para isso ele vai conseguir. A tecnologia de telecomunicações e a tecnologia de digamos aeroespacial, ela tá avançando muito rapidamente, muito mais rapidamente do que as regulamentações que poderiam controlar esse tipo de atividade.

    Dimítria: Apesar deste vazio ao redor da legislação sobre a proteção e conservação da visão noturna, temos meios de aplicar mudanças aqui na Terra que teriam um grande efeito no caminho para solucionar esta poluição. Uma das mais simples seria a aplicação de uma proteção nos postes de luz de modo a evitar que a luz escape para cima, fazendo com que só fosse visível a porção de luz direcionada ao solo, enquanto a fonte seria protegida por uma cobertura, como um holofote de teatro.

    Thiago Gonçalves: Isso é muito importante, você tem que jogar a luz sempre para baixo, porque se você passa do Horizonte, digamos que você tá jogando a luz para cima e não para baixo, você não tá mais iluminando nada de uma maneira que seja eficiente. Você tá simplesmente desperdiçando essa energia que você tá produzindo e ao mesmo tempo, você tá produzindo muito mais informação Luminosa, porque essa luz jogada para cima vai ser espalhada pela atmosfera contaminando as observações astronômicas.

    Dimítria: Outra preocupação em relação à iluminação artificial é o crescente uso de lâmpadas de LED. Apesar de ser melhor para o ambiente por economizar energia, ter uma vida útil maior do que as amarelas de tungstênio e não usar metais pesados em sua composição, a luz azul emitida por essas lâmpadas funciona como um esteróide para a poluição luminosa.

    Greta: Ainda sobre as lâmpadas de LED, um estudo da Universidade de Exeter, na Inglaterra, estima que, entre os anos de 1997 e 2017, a poluição luminosa cresceu ao menos 49% em todo o mundo. E os pesquisadores temem que essa estimativa ainda esteja otimista demais. Isso porque os sensores de satélite que são usados para o estudo, não conseguem captar a tal da luz azul, que é emitida em maior quantidade pelo LED do que pelas tecnologias de iluminação mais antigas.

    Thiago Gonçalves: Eles são muito brancos, muito azuis e isso é uma coisa que contribui muito. Esse tipo de luz. Eles se espalham muito mais e produzem muito mais poluição.

    Dimítria: Para um uso mais adequado da iluminação, a União Astronômica Internacional recomenda usar luz âmbar ao invés da branca, reduzir a potência das lâmpadas, diminuir a luz dirigida para cima e plantar árvores entre os postes de iluminação pública, criando obstáculos à dispersão da luz.

    Greta: Esta poluição luminosa também se relaciona bastante com a lógica do sistema político atual, né, que incentiva a produtividade ininterrupta e faz com que o período da noite seja também um período possível para a jornada de trabalho. Nesse sistema, a escuridão é vista como um obstáculo e é combatida por meio da iluminação artificial, que acaba promovendo o aumento das instalações de luzes em ambientes externos e internos.

    Tânia Dominici: A gente tá negando a noite, nós estamos nos acostumando a ter a todo momento uma iluminação. Ambientes iluminados tentando mimetizar a luz do sol, a luz do ambiente diurno. Isso vem por conta dessas demandas de produzir e consumir 24 horas por dia. Existe um sistema cobrando da gente produção e consumo 24 horas por dia. E nisso as pessoas elas acabam naturalizando esse excesso de iluminação. Precisamos reconstruir essa relação com a noite, né? Tentar reverter esse processo de negação social mesmo do ambiente noturno e mostrar [e] convencer às pessoas de que a boa iluminação é uma iluminação com contrastes, não é aquela iluminação super ofuscante com luzes muito fortes.

    Dimítria:  Bom, a gente tá quase chegando ao final do episódio, mas é importante ressaltar que o céu escuro é um recurso científico crucial para entender os mistérios do universo e uma parte importante do patrimônio cultural e natural de todas as civilizações.

    Thiago Gonçalves: Eu torço para que as pessoas que estão escutando esse podcast agora possam aproveitar os céus mais escuros porque os céus mais os mais escuros são os mais bonitos. Eu acho que essa é uma experiência, inclusive que como alguém que trabalha com astronomia é uma experiência que aproxima muito a gente dos astros, é muito legal, então a gente pode principalmente aqui do Brasil a gente consegue ver as galáxias, as nuvens Magalhães que são galáxias próximas que aparece como nebulosidades. Isso é absolutamente impossível se você mora em São Paulo ou Rio de Janeiro, você nunca vai conseguir ver isso, mas se você se afastar, se você for para um lugar de praia, sem muita poluição Luminosa, se você for para um parque você vai conseguir ver a Via Láctea como uma grande listra branca no céu e é mais ao sul da Via Láctea.

    Greta: Sem os céus escuros, a observação de corpos celestes se torna ainda mais difícil. Com o avanço rápido e inconsequente do uso de iluminação artificial nas cidades, até mesmo os observatórios que estão nos lugares mais remotos, estão sendo ameaçados pela luz que escapa das metrópoles e vilas. Mas, além da luz que vem da Terra, existem outros vilões que ameaçam a observação do céu noturno.

    Dimítria: Como os satélites Starlink, da SpaceX. Com mais de 1800 unidades em órbita, os satélites deixaram mais de cinco mil rastros luminosos em imagens captadas por instrumentos no Observatório Palomar, localizado em San Diego, na Califórnia.

    Greta: E você já imaginou que os satélites poderiam prejudicar, de alguma forma, a astronomia? Para entender melhor como isso acontece, fica ligado no próximo episódio do Astrocity! Tchauzinho, e até breve! 🙂

    Dimítria: Esse episódio foi apresentado por mim, Dimítria Coutinho, e pela Greta Garcia. A revisão do roteiro foi feita por nós, pela Bárbara Fernandes, Juliana Stern, Bárbara Paro, e pela coordenadora do Oxigênio, Simone Pallone, do Labjor/Unicamp. A edição é minha e as entrevistas foram realizadas pela Bárbara Fernandes e pela Bárbara Paro. A trilha sonora é do repositório Purple Planet.

    Greta: Você também pode nos acompanhar nas redes sociais. Estamos no Facebook, no facebook.com/oxigenionoticias – tudo junto e sem acento, e no Instagram e no Twitter, é só procurar por “Oxigênio Podcast”.

    Dimítria: Você pode deixar a sua opinião sobre este programa comentando na plataforma de streaming de sua escolha. Até o próximo episódio!

    21 min
  • # 143 – Aporofobia: Rechaço, preconceito e hostilidade ao pobre
    Neste episódio a Fabíola Junqueira e a Fernanda Capuvilla falam sobre o significado da palavra Aporofobia na vida cotidiana de pessoas em situação de rua no espaço urbano. 

    Elas conversaram com o padre Julio Lancelotti que constantemente denuncia espaços hostis, com o professor Raimundo Ferreira Rodrigues que já esteve em situação de rua e hoje é doutorando em educação pela Universidade Federal do Tocantins e com a arquiteta Débora Faria que pesquisou sobre arquitetura hostil em seu projeto de mestrado.

    #aporofobia #padrejuliolancellotti #oxigêniopodcast 

    _________________________________________________________________________

    Roteiro

    Prof. Raimundo: A maioria do tempo na rua, dormia na rua. A minha situação de rua era essa, em busca de alimento, em busca de sobrevivência. E aí quando eu conseguia alguma coisa, a mais do que eu poderia comer, eu levava para minha mãe. Sofri bastante, tive muitas dificuldades, muitos impedimentos, mas nada disso me tirou a ideia da cabeça de um dia ter uma vida melhor e busquei correr atrás do meu sonho, que era ser professor.

    Fabíola: Olá! Eu sou Fabíola Junqueira e este que você acabou de ouvir é o Raimundo Ferreira Rodrigues, doutorando em educação pela Universidade Federal do Tocantins. Ele também é professor do ensino fundamental em Palmas. Hoje vamos falar sobre aporofobia e as dificuldades enfrentadas pela população em situação de rua.

    Fernanda: E eu sou Fernanda Capuvilla. Para fazer este episódio também falamos com o Padre Júlio Lancelotti, responsável pela pastoral do povo da rua em São Paulo e com a arquiteta Débora Raquel Faria. 

    [vinheta Oxigênio]

    Fernanda: A história de vida do professor Raimundo é repleta de momentos de dificuldades para atender necessidades básicas de qualquer ser humano como se alimentar, ter um local seguro para dormir, ter acesso à educação e cuidados de saúde. Ele nos contou sobre sua infância em Varjota, no interior do Ceará.

    Prof. Raimundo: Passamos muitas necessidades, muita fome. Cheguei a desmaiar várias vezes de fome. E em um período também passamos sede porque faltava água na cidade e como não tínhamos casa, nem água encanada, morávamos de favor. A partir dos 7 anos eu comecei a entender um pouco mais as coisas e passei a andar na rua em busca de alimento como pedinte, pedia alimentos. Pedia de porta em porta na rua, nas casas, nas feiras…

    Fabíola: E no meio de tantas dificuldades, alguns encontros foram importantes para mudar o rumo da história de Raimundo. Certo dia ele entrou escondido em uma escola, onde costumava acompanhar algumas aulas pela janela do lado de fora, e pediu à secretária que o matriculasse. Ela, sensibilizada pelo pedido do menino, o matriculou.

    Prof. Raimundo: Tinha só o primeiro ano nessa escola. Daí eu frequentei o primeiro ano lá e nesse mesmo período eu continuei na rua, eu não tinha onde comer. E aí um dia eu parei em frente uma casa, tinha um pé de goiaba com muita goiaba. Subi, estava comendo as goiabas lá no pé, tinha só uma muretinha baixinha, e eu com fome … 

    Fabíola: E nesse momento, enquanto Raimundo estava alí, entre os galhos da goiabeira, aconteceu um segundo encontro importante na vida do menino. Desta vez com uma senhora que morava na casa em frente à árvore. 

    Prof. Raimundo: … eu subi nesse pé de goiaba, já tinha comido umas quatro goiabas. E aí a dona da casa saiu lá fora e me viu lá em cima desse pé de goiaba. Falou: “Oi, meu filho, tudo bem? Então, lhe vejo aqui sempre passando na rua. Vejo você pedindo comida. Você quer me ajudar aqui no meu jardim? Se você me ajudar, eu eu te dou comida todo dia e te dou mais um dinheiro.” Foi o que eu queria, né? Eu: “Sim, quero sim a ajuda da senhora.” Daí eu fiz um jardim para ela e ela me convidou para continuar fazendo a manutenção desse jardim. Foi quando eu disse que eu estudava nessa escola e ela conseguiu uma vaga numa escola que tinha até a quarta série, para estudar à noite. Eu passei a estudar à noite, cuidava do jardim dela e fiquei nessa um ano. Eu passei a viver melhor. Foi a minha chance. Eu agarrei com unhas e dentes. De lá para cá, até agora, nunca mais parei de estudar.

    Fernanda: Publicado no Brasil em 2020 pela editora Contra Corrente, o livro “Aporofobia, a aversão ao pobre: Um desafio para a democracia” foi escrito por Adela Cortina, uma filósofa espanhola. O termo dá nome a um fenômeno social antigo de aversão à pobreza tendo o pobre como alvo de ações hostis da sociedade e invisibilização nas políticas públicas. 

    Pe. Júlio Lancellotti: A aporofobia é um termo cunhado pela filósofa espanhola Adela Cortina, que tem um livro chamado Aporofobia, que justamente busca nominar um fenômeno que é antigo, que não é novo, e ela até coloca que a Espanha recebe milhões de turistas, todos são bem-vindos desde que não sejam refugiados africanos, desde que não sejam etíopes, moçambicanos… Nos Estados Unidos, todo mundo é bem-vindo desde que não sejam refugiados de El Salvador, da Nicarágua, da Guatemala… Então, a aporofobia é um rechaço ao pobre, rechaço à pobreza.

    Fabíola: Este é o Padre Júlio Lancelotti, pároco da Paróquia de São Miguel Arcanjo, localizada na Mooca, em São Paulo. Desde 1986 o padre Júlio realiza trabalhos voltados à proteção e cuidados à população de rua. 

    Pe. Júlio Lancellotti: Nem todo negro é rejeitado, mas se ele for pobre … O Pelé não é rejeitado em lugar nenhum porque ele tem dinheiro. Então a aporofobia é uma … não é uma determinação biológica, ela não é escolhida. E não é também uma uma coisa determinante, por exemplo, se a pessoa é indígena, se a pessoa é negra… mas se a pessoa é pobre. E também, a aporofobia tem a marca da pessoa que não te dá retribuição. Se ele é um moçambicano rico, ele vai ser bem-vindo, mas se ele é pobre, não.

    Fernanda: Em decorrência da crise socioeconômica e do aumento da desigualdade social deflagrada pela pandemia da COVID-19, a quantidade de pessoas compartilhando abrigos, barracas e calçadas na cidade de São Paulo aumentou consideravelmente nos últimos anos. De acordo com o Censo da População em Situação de Rua feito pela Secretaria Municipal de Assistência e Desenvolvimento Social da prefeitura, no final de 2021 a cidade contava com 31.884 pessoas sobrevivendo nestas condições. Este número pode estar subnotificado considerando as dificuldades de realização da pesquisa. 

    Fabíola: Para entrevistar o Padre Júlio Lancelotti fui até sua paróquia na manhã de uma terça-feira de março. Todos os dias ele celebra missa às sete horas da manhã e em seguida caminha, acompanhado por voluntários, empurrando seu carrinho abastecido de pães e outros alimentos, pelas ruas da Mooca até o Centro Social Nossa Senhora do Bom Parto, onde acontece diariamente a distribuição do café da manhã. No dia em que estive lá, foram atendidas mais de 500 pessoas que receberam pães, bolos, máscaras e itens de higiene pessoal. Enquanto caminhava pelas ruas, o padre foi abordado diversas vezes por homens e mulheres que pediam a bênção, pediam ajuda para alguma situação específica ou agradeciam pela solução de alguma questão.  

    [Trecho do livro Aporofobia de Adela Cortina]

    Thiago Ribeiro: O livro de Adela Cortina sobre a “aporofobia”, ou seja, a fobia ou o ódio aos pobres, não poderia ser mais tempestivo. Vivemos num mundo que produz cada vez mais pobres em uma velocidade inaudita. O tipo de pobre que preocupa Adela é o pobre sem vínculos com a sociedade, o excluído, o “sem-lugar”, aquele que não tem nada a oferecer na sociedade de troca em que vivemos. O pobre excluído e marginalizado que é tornado invisível e estigmatizado pelos outros. De onde vem este estigma?

    Fernanda: O que ouvimos agora é o trecho inicial do prefácio, escrito pelo sociólogo Jessé Souza. Perguntamos ao padre sobre como surgiu a aporofobia e como reconhecê-la. 

    Pe. Júlio Lancellotti: Ela sempre existiu é que ela não é nominada, ela faz parte da nossa estrutura. A Adela Cortina até coloca que é um comportamento natural nosso, faz parte da nossa da nossa estrutura cerebral. Nós somos aporofóbicos. A gente tem que desconstruir essa aporofobia. Eu acho que foi importante a obra da Adela Cortina, porque pelo trabalho dela a gente pode ter isso mais claro, mais nominado. Quer dizer, não tinha uma bibliografia sobre isso, não tinham pesquisas sobre isso. Então isso está cada vez mais presente e agravado pela desigualdade. A desigualdade social explicita ainda mais e à medida que a população de rua cresce na mesma medida cresce a rejeição. Ela propõe dentro de um processo educativo, pedagógico, político… Ela propõe sair da hostilidade para a hospitalidade. Então é você perceber todo o comportamento que é hostil… Caco de vidro, pedras pontiagudas, lanças, obstáculos que dificultam. A questão é que essa hostilidade é um sinal de que não há naquela cidade, naquele local, hospitalidade.

    Fabíola: Diariamente o padre utiliza as redes sociais para denunciar ações e construções que revelam a aporofobia. Ele recebe fotos e comunicados vindos de diversas pessoas em diversas cidades do Brasil que compartilham o olhar de cuidado à esta população vulnerabilizada.

    Pe. Júlio Lancellotti: Me mandaram agora… Um vereador que está propondo pôr grades. Isso já se faz aqui em São Paulo. Gradeia tudo, embaixo de todos os viadutos. Para quê se faz esse gradeamento? Para que as pessoas não fiquem lá. Nós não queremos que eles fiquem também, mas nós queremos que tenha políticas públicas de moradia, de acolhimento, de repúblicas, de locação social. Outras formas que não seja simplesmente rejeitá-los, hostilizá-los. A grande questão é que nós vivemos na hostilidade e essa hostilidade é que marca as intervenções arquitetônicas nas cidades, elas estão presentes em muitos lugares. E por exemplo, esse vereador aqui ele está fazendo…. Um vereador de Franca. Então isso é aporofobia. Ele quer cercar os viadutos para quê? Para afastar moradores de rua. Ele podia ter feito uma outra proposta: vamos construir moradias, vamos fazer locação social, vamos conseguir espaço nos hotéis, vamos ajudar quem é de outra cidade ir para a outra cidade… Mas ele propõe que se cerque. Isso é a aporofobia. 

    Fernanda: Fica claro na história de Raimundo que as oportunidades de trabalho, cuidado e educação surgiram por meio de ações individuais, de pessoas comuns sensibilizadas com sua precária situação. Se aquela senhora que morava em frente à goiabeira ou a funcionária da escola que o matriculou, tivessem apenas o afastado dali, ameaçado, ou simplesmente ignorado o menino, será que a vida deste professor seria a mesma?

    Fabíola: Educação, saúde, alimentação, trabalho, moradia, segurança e assistência aos desamparados são alguns dos direitos sociais do artigo sexto da Constituição Brasileira, que vale para todos os cidadãos, sejam eles pobres ou não. Na vida história de Raimundo alguns destes direitos foram possíveis por sorte ou ação do acaso e não por meio de políticas públicas que deveriam garantir tais direitos. 

    Fernanda: Parece que a rejeição aos pobres acaba afastando essas pessoas de uma vida digna e com a possibilidade de se reconhecerem como cidadãos.

    Prof. Raimundo: A maioria das políticas públicas são ínfimas. São políticas que não se efetivam e se se efetivam dificultam o acesso das pessoas, elas facilitam pouco. As vantagens para a pessoa que precisa são poucas e não abrange todos, como era para ser, como a constituição manda. Quando eu vivia nas ruas o que eu mais queria era uma chance de estudar e de trabalhar. Eu não queria só ganhar das pessoas. Eu não queria ganhar só um prato de comida ou um dinheiro para eu comprar comida. Eu queria uma oportunidade para estudar, uma oportunidade para trabalhar. Muito tempo depois foi que eu consegui, mas com muita dificuldade. Alguns programas sociais são muito importantes, como o bolsa família era, agora esse novo que substituiu o bolsa família, mas isso aí é coisa rápida, paliativa, o governo tinha que oferecer linhas de trabalho, oferecer incentivo às empresas para contratar pessoas em situação de rua. Isso sim seria o ideal. Então eu tenho buscado entender para poder atuar nessa área. Por isso minha carreira está sendo marcada, mais voltada para políticas públicas. Agora eu consegui encaixar melhor no doutorado a área de educação e pretendo futuramente trabalhar com formação de professores.

    Pe. Júlio Lancellotti: A cidade não é democrática, não é para todos.

    Fabíola: Aqui o padre Júlio novamente, destacando a aporofobia retratada na arquitetura do ambiente urbano. 

    Pe. Júlio Lancellotti: São as intervenções hostis, principalmente na arquitetura. A cidade não é feita para todos a cidade é feita para quem consome. É um comportamento que está muito arraigado. Você pode ter gestos. Então, por exemplo, várias das fotos que eu coloco, tem vários bancos que tiraram, várias casas comerciais que tinham, a gente põe a foto, eles tiram. Então tem vários lugares que… a Kopenhagen mandou tirar, uma livraria católica que tinha mandou tirar, o banco Itaú mandou tirar, a Caixa Econômica mandou tirar, então tem muitos que quando a gente denuncia e põe publicamente eles tiram. 

    Débora Faria: Esse tipo de elemento, que é instalado no espaço público, e muitas vezes naquele limite entre o espaço público e privado, muitas vezes nas fachadas, varia muito de lugar para lugar. 

    Fernanda: Para entender um pouco mais sobre a arquitetura hostil conversamos com a Débora Faria, arquiteta urbanista, que desenvolveu um trabalho no mestrado em planejamento urbano, com foco na arquitetura hostil em Curitiba. Na pesquisa ela mostrou como esse fenômeno atua sobre o espaço e quais as consequências disso. A Débora identificou uma série de elementos que hostilizam o ambiente público.

    Débora Faria: Na realidade brasileira, eu vou falar mais especificamente do caso de Curitiba, que foi o que eu me aprofundei mais, aqui a gente tem diversos elementos, desde aqueles pinos ou lanças, espetos que colocam na soleira das das portas ou nas calçadas, nos bancos, até de fato gradear um espaço inteiro. Além de grades e espetos também inclinar superfícies para que as pessoas não se sentem. Pedras. Tem algumas que são extremamente violentas, que são exatamente esses espetos em uma quantidade muito grande, pregos, algumas espécies de plantas como a famosa coroa de cristo, que tem muito em muitos lugares e que aqui é bastante usada no alinhamento predial, para que as pessoas não subam e não sentem nesse alinhamento.

    Fabíola: Débora conta que as plantas também podem ser um elemento hostil e que muitas vezes maquiam o objetivo de que as pessoas não usem o lugar, que fiquem longe daquela edificação.

    Mas o que é exatamente um espaço público?

    Débora Faria: O espaço público é um espaço com uma natureza dual. Ele é esse espaço aberto, esse espaço livre da cidade, onde todos têm acesso a ele. Mas é também um espaço de apropriação, então ele tem essa base física e tem também a questão de como as pessoas se apropriam dele. Então, quanto mais esse espaço é apropriado, quanto mais gente usa esse espaço, mais democrático ele é, mais público, digamos assim, a gente pode considerar esse espaço.

    Fernanda: Então podemos dizer que elementos hostis na arquitetura interferem nessa apropriação do espaço público? 

    Débora Faria: Sobre a arquitetura hostil, o que acontece… tira um pouco esse caráter de apropriação do espaço. Tira um pouco essa questão social do espaço e ele passa a ser só um espaço físico mesmo. O espaço público pode ser considerado tudo que é de acesso público, principalmente calçada, qualquer largo, qualquer ilha que tem entre uma rua e outra… Então o espaço público é quase tudo que está entre os prédios.

    Fabíola: Débora, você também pesquisou a motivação da instalação destes elementos e as consequências além do objetivo inicial, certo? 

    Débora Faria: Então a mira quando se coloca arquitetura hostil é de fato em alguns grupos sociais, principalmente população em situação de rua e também um pouco focada em jovens adolescentes, que gostam de ficar na rua, ali bebendo… O alvo é um mas atinge todo mundo. Então acaba que … eu sempre dou o exemplo de uma mãe, com o filho. Então ela está tá andando com sacola, está andando com criança, ela não tem nem mais um espaço para sentar ou apoiar uma sacola porque tudo tem um pino, tudo tem espeto, tudo tem algum vidro que colocaram, alguma coisa que impede que a pessoa sente, ou apoie qualquer coisa que esteja carregando. Então todo mundo acaba sofrendo e mesmo quem trabalha no centro da cidade. Quem trabalha em edifícios ou mesmo quem trabalha no espaço público mesmo, camelô ou outros vendedores, também ficam com uma infraestrutura pior para o trabalho deles. 

    Fernanda: A violência e insegurança urbana podem servir de argumento para a instalação de elementos hostis. Mas será que faz sentido?

    Débora Faria: Na verdade tem muito menos a ver com uma questão de segurança urbana e muito mais a ver com a aporofobia, digamos assim. Porque a pessoa dormir ou beber na sua soleira, ou beber próximo à sua residência não quer dizer que, exatamente, ela esteja praticando algum crime. Essa pessoa dorme na rua, não exatamente se prova uma relação de que essas pessoas oferecem alguma ameaça urbana relacionada a furto, a roubos… ou que é a população de rua que cometa mais esses crimes nas regiões centrais. Então tem muito mais a ver com realmente não ter essas pessoas ali. 

    Fernanda: O fato de não querer essas pessoas por perto, na soleira da porta, na calçada da casa. Tem também uma relação  com sujeira, com urinar em espaço público, deixar lixo jogado, mas… às vezes se usa justificativa da segurança pública e da violência.

    Débora Faria: Mas isso não se justifica, tem muito mais uma relação com o tipo de pessoa que está mais no espaço público, e que no centro da cidade são mais as pessoas pobres que dormem no espaço público. Então tem muito mais a ver com a classe social, com essas classes mais vulnerabilizadas, do que exatamente com segurança. E aí que a gente vê essa cultura do medo dos pobres, do medo dos desfavorecidos acontecendo.

    Fabíola: Para a pesquisadora, um caminho possível para reverter a hostilização dos ambientes urbanos é o diálogo.

    Débora Faria: Então na minha opinião, é exatamente o diálogo que tem que acontecer, com várias partes da sociedade civil e com o poder público para que primeiro os entes privados não fiquem responsáveis por resolver um problema público, até porque eles não conseguem, você expulsa uma uma pessoa em situação de rua de um lugar, ela vai para o outro, ela não vai evaporar, esse problema continua acontecendo. Então tem que ter políticas públicas de habitação e de geração de renda para essas pessoas que dormem na rua. E tem que existir um diálogo também para que as pessoas que acham que o melhor caminho é colocar a arquitetura hostil participem mais de um diálogo, de um debate e que se envolvam com outras alternativas de resolver o problema.

    Fabíola: E como este podcast se propõe a falar de ciência perguntei ao padre Júlio qual é a relação entre a aporofobia e os estudos científicos.

    Pe. Júlio Lancellotti: Todos os saberes podem ajudar a ter metodologia, propostas, propostas de habitação sustentável, propostas de novas formas de moradia, propostas de processos pedagógicos de superação da aporofobia… Tudo isso pode ser feito. 

    Fernanda: O professor Raimundo também destaca a educação como um elemento importante no combate à aporofobia.

    Prof. Raimundo: Adela Cortina tem propriedade para falar, ela entende. Eu acredito também que a educação emancipa as pessoas, ajuda muito. No meu caso, quando eu vivia em situação de rua, a educação me ajudou a galgar novos níveis na escolaridade e melhores condições de vida. Para quem desmaiava de fome, passava fome, passava tanta necessidade, privações, até sede por não ter água, privações de roupas, calçados, alimentos. E de repente ela consegue uma formação, pouca mas que já lhe dá condições de trabalhar, isso já é um amparo grande para a pessoa. A educação emancipa sim. E emancipa intelectualmente, espiritualmente porque a pessoa vai buscar a espiritualidade quando ela começa a entender as coisas. Começa a entender que ela precisa saber, agir e conhecer o outro, conhecer as dificuldades do outro

    Fabíola: Esse episódio foi escrito e apresentado por mim, Fabíola Junqueira e pela Fernanda Capuvilla. 

    Fernanda: Você também pode nos acompanhar nas redes sociais, estamos no Instagram e no Twitter, basta procurar por “Oxigênio Podcast”.

    Fabíola: A revisão do roteiro foi feita pela coordenadora do Oxigênio, a Simone Pallone, do Labjor/Unicamp. Os trabalhos técnicos são do Richard Paião, bolsista do Serviço de Apoio ao Estudante e do Octávio Augusto Fonseca da rádio Unicamp. Você pode acessar o roteiro deste episódio e outras referências mencionadas hoje no nosso site. Deixe seus comentários em nossas redes sociais e obrigada por ouvir.  Até o próximo episódio!

    Referências:

    https://www.capital.sp.gov.br/noticia/censo-antecipado-pela-prefeitura-de-sao-paulo-revela-que-populacao-em-situacao-de-rua-cresceu-31-nos-ultimos-dois-anos

     

    https://bompar.org.br/

    Professor Raimundo Ferreira Rodrigues http://lattes.cnpq.br/9546320460045404

    29 min
  • # 142 – Por trás da conta de luz: o futuro do setor elétrico – parte 2

    A energia elétrica no Brasil é cara e estava mais cara ainda nos últimos tempos. A crise hídrica pode ser apontada como uma grande responsável, que levou o país a usar a energia produzida nas usinas termelétricas, até a semana passada. Mas outra razão é a falta de estímulo à modernização do sistema elétrico nacional, o que inclui inovação tecnológica, investimento em energias renováveis e expansão das linhas de transmissão. Quem faz essa análise sobre o futuro do setor elétrico brasileiro, é a Alessandra Amaral, meteorologista e co-criadora da empresa Solver Energia. Ela atua há mais de 10 anos no ramo da energia elétrica no Brasil. Esta é a segunda e última parte do episódio Por trás da conta de luz, produzido pelo Thiago Ribeiro, e apresentado por ele e pela Fabíola Junqueira. 

    Thiago Ribeiro: Como o Brasil pode caminhar para se tornar menos dependente da energia que vem das usinas termelétricas, sobretudo em épocas de estiagem mais severa? Qual o futuro do setor energético brasileiro diante das mudanças climáticas? Como isso afeta o nosso bolso? Eu sou o Thiago Ribeiro e este é o segundo episódio sobre o mercado de energia elétrica brasileiro

    Fabíola Junqueira: Eu sou Fabíola Junqueira e nesse segundo programa vamos continuar nosso papo com a Alessandra Amaral que vai nos explicar melhor a dinâmica atmosférica, gestão elétrica e sustentabilidade. Lembrando que a Alessandra é  meteorologista e co-criadora da empresa Solver Energia. Ela atua há mais de 10 anos no ramo da energia elétrica no Brasil

    [Vinheta Oxigênio]

    Thiago: Como dissemos no primeiro episódio, os leilões de energia têm sido a principal forma de expansão da oferta de energia elétrica no Brasil. Esse modelo dos leilões de geração e transmissão foram implementados em 2004, junto com o ‘novo modelo do setor elétrico’, visando sua modernização.

    Fabíola: Além da garantia de viabilidade dos projetos, a competitividade e a inovação, dentre esses objetivos também se propõe a inserção de novas tecnologias, tendo como base a neutralidade tecnológica. Isso significa que o Estado não deve impor preferências a favor ou contra tipos específicos de tecnologia.

    Thiago: Apesar desse novo modelo estimular a competitividade e a inovação, a Alessandra destacou que, durante o período de 2012 a 2016, mais de 60% do investimento em energia no Brasil foi destinado para a instalação de parques eólicos. Porém, esse crescimento não foi acompanhado da expansão das linhas de transmissão.

    Alessandra Amaral: Ou seja, o que adianta você ter toda a energia sendo gerada no Nordeste, sendo que lá não se consome toda essa energia? Você vai precisar, obrigatoriamente, transferir pra cá. Então, se você constrói parque eólico e você não constrói linha de transmissão, esquece. E, basicamente, durante anos, só a eólica foi vencedora desses leilões como um todo, e ocasionou um desbalanço na nossa matriz energética.

    Fabíola: Vale lembrar que os leilões de transmissão de energia elétrica seguem, praticamente, o mesmo processo dos leilões de geração. No entanto, a Empresa de Pesquisa Energética deve realizar um estudo prévio, contendo um planejamento de médio e longo prazo, que precisa ser outorgado pelo Ministério de Minas e Energia antes de ser submetido à consulta pública. 

    Thiago: Outra diferença é que, após a consulta pública, o edital deve ser avaliado pelo Tribunal de Contas da União – o TCU, antes de ter sua versão definitiva publicada. É o TCU quem avalia o valor a ser oferecido nos leilões de transmissão de energia elétrica para que este seja competitivo no mercado.

    Fabíola: Esse mecanismo de regulação,leva em conta os principais determinantes na precificação dos leilões, como por exemplo o risco de investimento no país, buscando garantir a segurança energética e uma tarifa acessível ao consumidor.

    Thiago: O resultado dessa equação nos revelou, no final de 2021, o nível de incerteza dos investidores no mercado brasileiro e o risco à segurança energética que estamos passando. Os leilões de transmissão tiveram uma desvalorização de mais de 200 milhões de reais sobre os 902 quilômetros de redes de transmissão instaladas, além de três subestações de energia.

    Fabíola: Mas, Alessandra, voltando para a questão da geração de energia. Depois da expansão dos parques eólicos, temos visto muitas iniciativas impulsionando as usinas solares. Me parece que elas têm ganhado mais espaço nessa matriz. É isso mesmo?

    Alessandra: Agora a gente está vivendo um movimento da solar. Mas também tem aí seus desafios como fonte. A diferença da solar para a eólica é que sol, você tem em todo o lugar. Então você consegue colocar a solar ali, também muito próxima dos centros de consumo. O que também é muito bom. Você evita um custo de perdas porque você não tem tanta energia percorrendo tanta distância.

    Thiago: Ou seja, ela pode ser produzida mais próxima do local onde vai ser consumida, evitando, não só a perda de energia durante a transmissão, mas também reduzindo o custo desse quilowatt/hora. Poderíamos dizer então que esse talvez seja o futuro da geração de energia elétrica no Brasil?

    Alessandra: Não adianta a gente, como um país, focar em uma fonte só. Porque, por exemplo: vento, a gente não controla, bem como chuva, bem como o sol. Não está sob nosso controle, está sob controle da natureza. Então, toda vez que falta, em um mesmo local, um recurso. Todo mundo fica sem energia! Então, quando a gente vai planejar uma matriz energética, a gente não pode focar em uma fonte só. A gente tem que diversificar. 15:50

    Fabíola: Pensando nessas possibilidades: da energia eólica e, mais recentemente a solar, teria como o Brasil ter diversificado e ampliado essa matriz de renováveis ao invés de precisar ligar usinas termelétricas, que acabam onerando o consumidor, contribuindo pro aquecimento global, indo na contramão do compromisso assumido pela maior parte dos países nas últimas conferências do clima?

    Alessandra: Eu acho que tem alguns limites. Eu acho que a solar é uma tecnologia que ficou mais barata agora e, mesmo assim, ela ainda é mais cara que as demais. Com o subsídio, ela fica competitiva. Então, nos últimos anos, não era possível ter, na realidade econômica do nosso país, ter explodido isso da matriz. No Brasil, no geral, é muito difícil as coisas acontecerem na escala que acontece na China e etc. 

    Thiago: Mas nesse caso, o que dificulta ou impede esses investimentos? Podemos dizer que falta incentivo por parte do governo? Por que as matrizes energéticas mais sustentáveis não alavancam como deveriam, ou como poderiam?

    Alessandra: Porque aqui é um ambiente de negócios que não favorece ao cara investir com tranquilidade. Você sempre tem medo de uma mudança de regra no meio do caminho. Você vai recorrer a quem se você também não tem uma justiça que funciona? Então, não foi por falta de incentivo do governo, tá. Eu acho que essa questão das térmicas é uma questão polêmica por que? Eu realmente acho que dá pra gente, através das renováveis, usar o menos térmica possível. Mas na minha visão técnica, não dá hoje pra gente ficar sem térmica nenhuma. 

    Fabíola: Apesar do PIB brasileiro ter aberto a última década com um crescimento de 7,5%, as fortes quedas entre 2015 e 2016, por conta da crise política que culminou com o impeachment da ex-presidenta Dilma Rousseff e, o mais recente de 2020, por conta da crise sanitária e humanitária da CoViD-19, tiraram nosso país da sétima colocação como maior economia em 2010 para a 13°em 2021.

    Thiago: É desse tipo de cenário que a Alessandra cita que desanima os investidores. Essas incertezas se refletem, por exemplo, no atual processo de desindustrialização. Entre 2015 e 2020, foram fechadas por dia, uma média de 17 fábricas. A saída de gigantes multinacionais como a norte-americana Ford, a alemã Mercedes-Benz e o fechamento da japonesa Sony em Manaus, ganharam os noticiários do ano passado. 

    Fabíola: Existe uma estreita relação entre o consumo de energia elétrica com a evolução do PIB. E quanto maior for o segmento industrial, essa relação tende a ser mais forte tanto na economia quanto no consumo de eletricidade.

    Thiago: A queda de 4% no PIB brasileiro em 2020, com a redução de 1,5% no consumo de energia elétrica, pode ter adiado nossa atual crise energética. Em 2019 pesquisas já sinalizavam uma possível crise hídrica como consequência da redução no volume de chuvas e problemas de operação em algumas usinas térmicas e na Usina Hidrelétrica de Belo Monte.

    Fabíola: Sobre esse assunto, deixamos o convite para você ouvir o episódio #141 do Oxigênio – Impactos das hidrelétricas na Amazônia, que trata das potencialidades hídricas dessa região e das consequências da implementação dessas barragens para o meio ambiente e para as populações indígenas e ribeirinhas.

    Thiago: Com a tímida retomada econômica em 2021, tivemos o aumento da demanda por energia ao mesmo tempo em que as chuvas não têm sido suficientes para reabastecer as hidrelétricas. Com um cenário à beira do apagão que remonta ao que o país viveu em 2001.

    [notícias do apagão 2001]

    Alessandra: E boa parte do problema que a gente está vivendo é porque a gente não tem, hoje nossos reservatórios, eles não crescem desde 2001 e a gente também não tem uma boa base de térmicas. Precisou economizar 1 Giga a mais de água porque pode ser que falte energia lá na frente, você automaticamente passa para uma térmica a diesel, uma térmica a gás, uma térmica… entendeu? Assim, o negócio só piora. 

    Fabíola: Mas Alessandra, e não existe alguma forma de nos prepararmos para esses momentos de escassez armazenando energia ou algo nesse sentido?  

    Alessandra: Se eu tivesse ao menos tecnologia de bateria em grande escala, aí tudo bem. Porque a bateria, na hora que falta energia, porque não ventou, não teve sol e não teve chuva no mesmo dia, sabe assim? Se a bateria tem energia suficiente armazenada para suprir o consumo de um local e manter a estabilidade, beleza. Se não, quem supre esse papel é a térmica ou as hidrelétricas com reservatórios. 

    Thiago: Eu só fico me perguntando o seguinte: não é a primeira vez, e provavelmente não será a última, que enfrentamos o fato dos reservatórios das hidrelétricas estarem vazios. Tivemos o apagão de 2001, a crise hídrica de 2014 e essa, de 2020/2021. Por que essa conta chega tão cara para o consumidor?

    Alessandra: Qual que é o problema? A gente cresceu a eólica, crescemos a solar – ainda é um pedaço pequeno – mas assim, basicamente cresceu nos últimos anos foi a eólica e hidrelétricas a fio d’água e, a hora que não choveu, não teve quem salvasse o Brasil. Entendeu? Eu não tinha a quem recorrer. Então o que o governo fez, queima o que tiver. O que tiver de térmica está autorizado a ligar. E aí, eu estou falando de térmica que custa 20, 30 vezes mais do que a energia, por exemplo, de uma hidrelétrica. Tá? É um absurdo isso! 

    Fabíola: Mas esse custo é repassado apenas para nós, consumidores e baixa tensão, ou também caem sobre os consumidores do mercado livre de energia?

    Alessandra: Quem está no mercado livre de energia está pagando um encargo absurdo para suprir a energia destas térmicas que são…tão sendo acionadas a qualquer custo. Porque o pior custo é o custo de não ter energia. Então, queima o que tiver. Sabe assim? Não sei se deu pra transmitir a mensagem mas a mensagem é: Sim, temos que potencializar muito as renováveis mas a gente não vai poder deixar de ter uma matriz diversificada.

    Thiago: A Alessandra também comentou que essa situação, onde as térmicas foram massivamente ligadas para atender a demanda por energia elétrica, já foram vivenciadas antes porém sem muita atenção dos noticiários. No entanto, a situação atual é muito grave pois, mesmo com o início do período de chuvas, até novembro, nenhuma térmica havia sido desligada.

    Alessandra: Como a crise se deu de uma forma tão extensa, tão noticiada e, a gente também está em um ano pré eleição, o governo não quer correr nenhum risco de ficar sem energia. Você entendeu? Então, ele está queimando tudo a qualquer custo. E sabe lá quem é o dono de cada usina também, que é outra discussão e, também, enfim, estamos aí pagando essa conta. Todos nós. Todos. Sem exceção. 

    Fabíola: Pensando em tudo isso que a gente tem discutido, Alessandra. Nós podemos continuar dependendo tanto das hidrelétricas? Ou, em outras palavras, a gente pode esperar que esse período mais seco passe e volte a chover?

    Alessandra: Olha, eu, como meteorologista, acredito muito na mudança climática. É, principalmente, é, não só pela questão da emissão do gás carbônico, mas pra mim, o que é mais claro, o que eu acho que qualquer um pode sentir isso é da mudança de solo. E essa é uma discussão que é importante porque a gente vem, ano após ano, não só desmatando a Amazônia, né? Óbvio. Mas o pior também é a própria região Sudeste e Centro-Oeste. Virou só fazenda e você muda a capacidade de armazenamento de água no solo. Você muda o balanço de radiação. Você muda tudo. Então, o que a gente vem observando aí no setor e, eu que estou há muitos anos, sinto isso na pele, é que ano após ano, tem chovido menos, né. Então, a gente, por mais que a hídrica tenha feito um papel fundamental no país, é uma fonte que, com certeza, vai começar a representar cada vez menos. No Sudeste, principalmente.

    Thiago: Acompanhando as tentativas de solucionar, ou quem sabe minimizar, o problema do fornecimento de energia elétrica me parece que o governo tem sinalizado em duas direções: a retomada dos projetos com geração a partir das usinas nucleares, com a retomada da construção da usina de Angra 3 e, incentivos para a expansão da energia solar. Será que a Alessandra, considera esse um bom caminho?

    Alessandra: Angra 3 era pra estar pronta há anos. Era pra estar pronta antes de 2018, depois foi postergada para 2018 e agora estão reativando o começo da construção. Sei lá, isso demora mais uns 10 anos para fazer e vai sair uma nota. A energia nuclear é outro assunto que também é polêmico porque na teoria, o impacto ambiental é mais a questão do aquecimento da água ali pra resfriar, enfim, a usina, né, do oceano. Porém, qual é a questão das nucleares? Quando dá ruim, dá muito ruim. É um risco que ninguém quer nunca correr. Hoje você fala “tudo bem”, a nuclear é uma energia constante, uma energia estável, né. Enfim, não estou emitindo gás carbônico. Mas aí, você para pra pensar na possibilidade, aquele um por um milhão que pode acontecer. Se acontecer, é uma perda inestimável. 

    Fabíola: Pois é. Mas deixando de lado o projeto nuclear brasileiro, qual seria uma alternativa melhor, dentro do nosso contexto atual, para dar conta dessa demanda por eletricidade? Vamos ver qual é a visão da nossa entrevistada sobre isso.

    Alessandra: Eu acho que a gente, como um país que tem tanta possibilidade, eu não deixaria de olhar para térmicas ou para a possibilidade de térmicas. Principalmente, de biomassa que talvez seja de projetos de co-geração. Ou seja, o cara já está usando, já está com aquele bagaço ali. É o resto do que já foi usado para um aproveitamento energético. Poxa, eu sou super a favor. Acho que a gente poderia pensar nessa linha.

    Thiago: Bom, a essa altura muitos de nós já devemos estar nos perguntando: Qual o futuro da geração de energia elétrica no Brasil, Alessandra?

    Alessandra: eu vejo muito no Brasil, nos próximos anos, a solar, né, fotovoltaica. Essa questão da termossolar ainda é embrionária. No mundo, a gente tem poucas usinas. Uma das maiores é aquela que tem perto de Las Vegas, nos Estados Unidos. Mesmo ela, você vê que a eficiência dela é baixa. Tem muitas questões ali que ainda estão em estudo. Parece até que ela ficou desativada mais de um ano porque teve um vazamento dos sais que aquecem com a luz do sol. E é isso. Eu acho que a receita do bolo continua sendo a diversificação. Eólica, solar, torcer para as baterias também ganharem escala. Senão vamos precisar das térmicas sim. Um pouquinho, mas vamos. 

    Fabíola: Então a receita seria essa? Continuar diversificando as fontes alternativas como as eólicas e solares? Você incluiria algum outro ingrediente a essa receita?

    Alessandra: Eu acho que a receita é todo mundo ter uma consciência de eficiência energética. Usar o menos possível. Acho que esse é o segredo e ter seriedade na discussão porque não adianta falar: “Não, só solar presta” ou “Só eólica presta”. Não é assim! A gente precisa! Eu, você, todo mundo precisa e consome energia o tempo todo. Então, desde o fone que a gente está aqui usando o computador, a cama que a gente deita, a cadeira que a gente senta. Tudo. Tudo que a gente faz usa energia elétrica. E, quando falta energia elétrica, afeta nossa vida de formas diferentes. 

    Thiago: A Alessandra tocou em um ponto muito importante. Eu já vi algumas estimativas do percentual de desperdício na cadeia de produção de alimentos e para o abastecimento de água. Essa questão é bem complexa para o setor elétrico, mas entre a geração e consumo há uma estimativa de perda de 6%, um valor alto.

    Fabíola: E não podemos deixar de mencionar o desperdício que acontece do poste para dentro das propriedades. Ou seja, a nossa responsabilidade enquanto consumidores na busca do uso eficiente da eletricidade, da redução de consumo, de atitudes simples como desligar a luz quando sai do ambiente, passar a roupa toda de uma vez para ligar menos o ferro, adquirir eletrodomésticos e lâmpadas que tenham melhor eficiência energética, são várias as medidas que podem ser adotadas.

    Alessandra: É óbvio que a gente não tem dinheiro para ficar investindo o tempo todo. Mas, dependendo do ponto, às vezes é uma lâmpada que você troca que economiza um monte. Então, se a gente fosse fazer um estudo de eficiência energética, por pessoa, eu diria que você acha de 10% a 15% de formas de reduzir energia fácil.

    Thiago: Esse episódio foi escrito e apresentado por mim Thiago Ribeiro e por Fabíola Junqueira. A revisão do roteiro foi feita pela coordenadora do Oxigênio, a Simone Pallone, do Labjor/Unicamp. Os trabalhos técnicos são do Richard Paião, bolsista do Serviço de Apoio ao Estudante e do Octávio Augusto Fonseca, da rádio Unicamp. E a ilustração da capa é de Matheus ‘Vareja’  (@matheus_art).

    As reportagens são do programa Roda Viva e do Fantástico. E a trilha sonora é da biblioteca de áudio do Youtube.

    Fabíola: Você também pode nos acompanhar nas redes sociais. Estamos no Instagram e no Twitter, basta procurar por “Oxigênio Podcast”.

    Thiago: Você pode deixar a sua opinião sobre este programa comentando na plataforma de streaming que utiliza. Obrigado por ouvir e até o próximo episódio!

    22 min
  • #141 – Os impactos das hidrelétricas na Amazônia

    Você sabe quais podem ser os impactos da construção de uma usina hidrelétrica na região da Amazônia? Pois é, não são poucos e para esclarecer sobre esse tema, nós conversamos com alguns especialistas que nos mostraram como essa questão envolve estudos e análises de diferentes áreas das ciências e como está relacionada com o dia a dia de todos nós e com a vida de futuras gerações. Os entrevistados deste episódio foram o Nathan Barros, que biólogo e professor da Universidade Federal de Juiz de Fora, a mestranda Luciana Guarreschi, do Instituto de Psicologia Clínica da USP e participante do projeto “Clínica do Cuidado” e o Marcelo Laterman, porta-voz da campanha de Clima e Justiça do Greenpeace e especialista em transição energética e justiça socioambiental.

    Roteiro

    Juliana Stern– Em relação ao mundo, o Brasil desponta como um dos países que mais utilizam fontes de energia consideradas renováveis. A grande capacidade dos rios brasileiros para a geração de energia é um dos principais fatores. Atualmente, cerca de sessenta e três por cento da capacidade instalada do Sistema Interligado Nacional são usinas hidrelétricas distribuídas em dezesseis bacias hidrográficas pelo país. Em dois mil e vinte, mais de setenta por cento da energia elétrica do país veio da força hídrica. Dos cinco empreendimentos hidrelétricos com maior potência instalada do país em funcionamento, quatro se localizam na Amazônia. São as usinas de Belo Monte, Tucuruí, Jirau e Santo Antônio. Além disso, estudos da Empresa Brasileira de Energia Elétrica apontam que a Bacia do Amazonas concentra quarenta e dois por cento do potencial hidrelétrico do país, dos quais setenta por cento já foram inventariados. Apesar da existência de todo esse potencial energético, é justificável continuar investindo em hidrelétricas na região amazônica? Nesse episódio, discutiremos os impactos social, ambiental, político e econômico das usinas hidrelétricas na região.

    (Áudio – Reportagens externas)

    Juliana – Além da grande capacidade de geração de energia, as hidrelétricas também provêm uma série de serviços auxiliares. Os reservatórios das usinas, por exemplo, auxiliam no controle de cheias, irrigação, processamento industrial, suprimento de água para consumo humano, recreação e serviços de navegação. Mas, todos esses serviços e a energia gerada dependem de um recurso que está ficando cada vez mais escasso: a água.

    (Áudio – Reportagens externas)

    Patrícia Bellas – Segundo o ONS, que é o Operador Nacional do Sistema Elétrico, estamos atravessando um cenário hidrológico crítico, com as menores vazões desde 1930. Essa escassez de água é resultado, entre outros fatores, da intensificação do El Niño – fenômeno de aquecimento anormal das águas superficiais do Oceano Pacífico Equatorial e das mudanças climáticas que alteram os níveis e ciclo das chuvas no país, impactando na vazão dos rios. Segundo estudo publicado na revista científica Global Environmental Change, essas mudanças no clima podem inviabilizar a geração de energia hidrelétrica em usinas na Amazônia. A pesquisa analisou 351 hidrelétricas planejadas para a região amazônica, sendo que 60% delas são previstas para construção em território brasileiro. Com a baixa da vazão dos rios, em especial no sul da Amazônia, onde a vazão pode cair até quarenta por cento, os custos das hidrelétricas propostas podem mais que dobrar, tornando-as menos competitivas que outras fontes renováveis, como solar e eólica. Nathan Barros, professor adjunto da Universidade Federal de Juiz de Fora, biólogo, mestre e doutor em ecologia, explica o porquê.

    Nathan Barros: Existem, basicamente, dois tipos de reservatórios na Amazônia. Existem os reservatórios de acumulação, que são aqueles reservatórios antigos, que tem uma uma barragem e um grande lago, e existem os reservatórios a fio d’ água. Até pouco tempo atrás, privilegiava-se a construção de reservatórios de acumulação, porque eles garantem água em períodos de menor nível do rio. Então, eles aumentam a segurança na produção de energia em períodos de seca. E mais recentemente, decidiu-se investir em reservatórios a fio d’ água, que é o caso dos reservatórios do Rio Madeira, o caso de Belo Monte. Esses reservatórios não geram energia pela gravidade, eles geram uma energia pelo fluxo da água, pela vazão, e por isso eles têm uma necessidade de inundar uma área bem menor do que os reservatórios de acumulação.

    Patrícia: Contando com cenários futuros de cada vez mais escassez hídrica, os reservatórios a fio d’água deixarão de ser o melhor tipo de investimento quando tratamos de hidrelétricas. A solução, então, seria voltar a investir em reservatórios por acumulação?

    Nathan Barros: Esses reservatórios de acumulação são terríveis em relação a emissão de gases de efeito estufa, porque eles alagam uma área muito grande. Na Amazônia, alagar uma área muito grande significa alagar uma biomassa e uma quantidade de matéria orgânica muito grande. Então, existe uma área alagada muito grande e, na maioria das vezes, uma quantidade de energia gerada muito pequena. Então o que a gente tem por exemplo, para Balbina, para Samuel, para Curuá-Una e outros reservatórios de acumulação da Amazônia, é, uma quantidade de emissão muito grande para gerar pouca energia

    Camila Carvalho – Um estudo publicado na revista Science Advances por um grupo internacional de pesquisadores em junho de dois mil e vinte e um, mostrou que triplicaram as emissões de gases de efeito estufa no local em que hoje se encontra o reservatório usina hidrelétrica de Belo Monte, que é do tipo fio d’água. Hoje, a emissão equivalente fica entre quinze e cinquenta e cinco quilos de dióxido de carbono por megawatt-hora produzido. Essa quantidade ainda não é tão grande quanto as emissões de uma termelétrica, por exemplo, mas coloca em xeque o argumento de que as hidrelétricas geram energia com baixas emissões e a um custo menor do que outras fontes renováveis.

    Nathan Barros: Diferente do que se, do que se prega, as hidrelétricas não são fontes limpas em relação à emissão de carbono. Elas não são fontes limpas de energia porque causam impactos ambientais, mas quando se fala de limpa em relação às emissões carbono, essa é uma outra grande mentira, as hidrelétricas emitem, muita quantidade de gás de efeito estufa, principalmente de CO2 e metano. Metano é um grande contribuidor pro efeito estufa e emite também uma parte de óxido nitroso, que também é emitido em pequenas quantidades mas tem um efeito muito maior do que o efeito do CO2 e do metano.

    Camila: Não só as hidrelétricas na Amazônia se mostraram como emissoras de gases de efeito estufa ao longo dos anos, como despontaram como as que mais emitem em relação a outras hidrelétricas pelo país.

    Nathan Barros: Na Amazônia existe muito carbono para ser decomposto, então existe uma disponibilidade de matéria orgânica muito grande, e existe temperatura ideal para degradação microbiana, então acaba produzindo muito CO2 e muito metano. Além disso, os reservatórios na Amazônia, aqueles antigos, eles eram sistemas mais profundos e que causavam muita anoxia, então esse é um ambiente propício para a produção de metano. E isso faz com que os reservatórios da Amazônia eles emitem, emitam mais quantidade de CO2 e de metano do que reservatórios localizados em outras partes do Brasil e em outras partes do mundo.

    Camila: Porém, o potencial emissor de gases estufa pelas hidrelétricas nem sempre foi consenso entre os pesquisadores. O relatório especial sobre fontes de energias renováveis e mitigação de mudanças climáticas, lançado em 2011, pelo IPCC, o Painel Intergovernamental sobre Mudança do Clima, apontava as hidrelétricas como uma possível alternativa para reduzir a emissão de gases estufa. Em 2019, foi publicado na revista Nature um comentário que afirmava que hidrelétricas poderiam auxiliar na mitigação dos impactos do aquecimento global em áreas alagadas. Essa colocação foi rebatida pelo pesquisador do Instituto Nacional de Pesquisa da Amazônia, Philip Fearnside, sob o argumento que os dados de emissão para zonas temperadas são muito diferentes quando comparados com hidrelétricas na Amazônia, por exemplo. Nos últimos anos, pesquisas realizadas em ambientes tropicais auxiliaram na mudança de protocolos para estimativa de gases estufa do IPCC que, agora, incluem as emissões provenientes de áreas alagadas pela ação humana. Além disso, os países participantes do Acordo de Paris também passaram a ter que contabilizar essas emissões provenientes de hidrelétricas.

    Nathan Barros: Nesse relatório de 2019, as hidrelétricas assim como todas as áreas alagadas e que foram alagadas devido à atividade humana, estão incluídas no contexto de emissões antropogênicas de gases de efeito estufa, o que que isso quer dizer? Todos os países que assinam o Acordo de Paris, eles precisam inventariar as emissões de gases de efeito estufa a cada dois anos, até pouco tempo atrás nesses inventários as emissões com reservatórios de hidrelétrica não entravam.

    Fabíola: Além de contribuir para o efeito estufa, a construção de usinas na Amazônia também gera uma série de impactos para a biodiversidade da região. Por conta das barragens, os rios perdem várias das suas funções essenciais para o equilíbrio do ambiente amazônico. Por exemplo, a capacidade de transportar componentes sólidos que são a principal fonte de nutrientes para a vida aquática e do solo. Outro impacto é a perda da conectividade entre os rios da bacia Amazônica e seus afluentes.

    Nathan Barros: Os rios Amazônicos, eles são assim como outros Rios, eles são bastante conectados, né? E essa conexão permite, por exemplo, migração de espécies, permite a troca no momento de cheia ou a troca de componentes entre os rios, então essa conectividade ela é importante para manter aquela biodiversidade enorme que existe lá na Amazônia, então por exemplo quando você barra um rio, você perde a conectividade daquele rio barrado com o restante da bacia e uma espécie migradora, por exemplo, ela deixa de migrar e isso então de novo colabora para a diminuição da biodiversidade.

    Fabíola: As consequências das hidrelétricas na região amazônica não se limitam aos impactos ao meio ambiente. O alagamento de grandes áreas para a construção das barragens também afeta a vida das populações indígenas e ribeirinhas, que precisam ser realocadas, muitas vezes perdendo seus meios de sustento e deixando terras em que viviam por gerações. Para entender melhor esse lado, conversamos com a psicanalista Luciana Guarreschi, mestranda do Instituto de Psicologia Clínica da USP e participante do projeto “Clínica do Cuidado”. O projeto acompanhou uma população ribeirinha do Rio Xingu depois da instalação da barragem de Belo Monte entre os anos de dois mil e onze e dois mil e dezesseis, que mudou drasticamente o modo de vida de aproximadamente vinte mil pessoas.

    Luciana Guarreschi: Estive junto com uma equipe de psicanalistas e psicólogos em 2017, na região de Altamira, para ouvir os ribeirinhos que estavam adoecidos em função do impacto que a construção da hidrelétrica de Belo Monte teve na vida dessas pessoas . Quando eu falo que estavam adoecidos, eles estavam em sofrimento em função das diversas mudanças que ocorreram na sua forma de vida. A gente vai entender a forma, de maneira bem ampla, tudo que está em volta e que serve a uma vida para que ela possa existir. Os laços de amizade, não só então o rio e as condições materiais, por exemplo, que também foi muito afetado, mas os laços de amizade, os laços sociais mesmo, que compõem a tecitura daquele lugar, daquelas pessoas. Tudo isso se viu fortemente ameaçado, com a construção da hidrelétrica de Belo Monte. Não só ameaçado, mas destruído, foi realmente destruído.

    Fabíola: As observações do projeto identificaram as mudanças no estilo de vida impostas aos moradores locais pela construção da barragem como as causas para diversos casos de doenças mentais.

    Luciana Guarreschi: Isso aparece no aumento de casos na região, nos aparelhos de saúde pública, aumento de pressão alta, de AVC, insônias, dificuldades diversas de locomoção.

    Fabíola: Segundo a psicanalista, esse impacto na saúde se deve, principalmente, a retirada violenta dos ribeirinhos de suas casas, a perda de seus meios de sustento e a separação da comunidade.

    Luciana Guarreschi: Eles moravam nas Ilhas. O Xingu era um rio que tinha ilhas. Tinham a sua roça e também uma atividade de extração da floresta que geralmente ficava do lado, atrás da margem onde eles geralmente fazem as suas casas. Então, tinha essa atividade extrativista, a atividade de pesca e a atividade de plantio. Fora isso, como tudo ali é muito distante e dependia do barco, tinham um tipo de relação muito específica com com os seus vizinhos e com a sua família. O vizinho é uma família estendida.

    Luciana Guarreschi: Não é simplesmente que eles perderam a casa onde eles viviam, eles perderam um lar que é algo um pouco mais amplo que uma casa. Então, não é só que a casa foi alagada, com a construção do reservatório, é toda uma maneira de viver que foi alagada junto. E a maneira de viver constitui o que a gente é. Isso não estava nos cálculos, digamos assim, nunca entrou nos cálculos da Norte Energia, a empresa responsável pela implementação de Belo Monte.

    Fabíola: Outro ponto levantado pela psicanalista é a falsa promessa de progresso dado aos moradores para justificar a construção das hidrelétricas.

    Luciana Guarreschi: Num primeiro momento tem até uma crença dessas pessoas que com a chegada de uma de uma elétrica, que com a chegada de uma mineradora, as coisas vão melhorar porque é bom, é mais gente que vai estar lá, é o comércio vai se ampliar, então vai ter mais empregos, esse tipo de coisa que na verdade não se efetiva. Não se efetiva dessa maneira. O progresso continua sendo para alguns. O que resta desse momento de boom que tem na cidade, uma cidade que tinha 80 mil habitantes e que de repente vai para 150 mil habitantes muito rapidamente, ela vira um caos, não tem progresso ali.

    Luciana Guarreschi: Eu acho que é isso que eles gostariam de acreditar, que iria ter um impacto positivo, acho que alguns acreditaram nisso. Foram a favor da construção da usina, para logo em seguida descobrir que era um impacto positivo momentâneo e que deixa muito mais rastros de destruição, para usar uma expressão que uma ribeirinha falou pra mim, do que benefícios.

    Fernanda Pardini: Apesar dos lados negativos das hidrelétricas, o plano energético do Brasil ainda falha em considerar fontes de energias mais sustentáveis.Hoje, sem considerar a energia hidráulica como uma fonte limpa, a porcentagem de fontes de energia sustentáveis ainda é muito pequena na matriz energética brasileira. Segundo o ONS, em dois mil e vinte, cerca de dez por cento da energia gerada no Brasil foi de origem eólica. E apenas um por cento solar. Segundo o porta-voz da campanha de Clima e Justiça do Greenpeace, Marcelo Laterman, especialista em transição energética e justiça socioambiental, ao mesmo tempo que as hidrelétricas contribuem para o agravamento das mudanças climáticas, elas também são impactadas por elas, sendo essa uma das razões para se fazer um planejamento energético mais eficiente no país.

    Marcelo Laterman: A gente fala que esse sistema hidrotérmico é muito limitado, e não tá adaptado porque para o mundo que tá aí, né. Por isso que a gente vem defendendo, e assim, lutando bastante por essa diversificação e por um crescimento das energias renováveis, até de forma redundante. É muito grave, a gente vê um país hoje empobrecido, né, a volta da fome, sabe, é grave. E o aumento da energia, nesse momento, né, porque, enfim, a termelétrica é a energia mais cara que tem, chega a mil reais o megawatts-hora, enquanto, solar por exemplo, foi comprada a 86 reais. Isso reverbera no bolso do brasileiro que já está tão pressionado, impacta as comunidades em situação de maior vulnerabilidade. É muito injusto, sabe? É uma injustiça energética e muito em nome de continuar, enfim, são pressões o setor hidrelétrico e termelétrico são consolidados, são hegemônicos, são setores econômicos muito fortes. Infelizmente ainda tem muita incidência, a gente vê até novos estímulos para o carvão no Brasil.

    (Áudio – Reportagens externas)

    Fernanda: Considerando tudo isso, seria mais sustentável e economicamente viável que o Brasil diversificasse sua matriz energética, com mais investimentos em energias limpas, como a solar e a eólica. Mas, segundo o Plano Nacional de Energia dois mil e cinquenta, que traça as estratégias de longo prazo para o setor energético brasileiro, o potencial hidrelétrico não explorado da Amazônia é algo ainda a ser considerado. O documento também coloca as questões socioambientais da região como um desafio para o setor energético, alertando que é importante avaliar os diferentes cenários para o desenvolvimento do parque hidrelétrico nacional, de modo a compreender os benefícios e os impactos para o Sistema Interligado Nacional e o meio ambiente.

    Juliana: Atualmente, o governo brasileiro estuda a implementação de mais uma grande barragem na região Amazônica: a Usina Hidrelétrica Bem Querer. Planejada para barrar o Rio Branco, em Roraima. A hidrelétrica teria capacidade instalada para seiscentos e cinquenta megawatts. Segundo a Empresa de Pesquisa Energética, responsável pelos estudos de viabilidade de novas usinas no país, a Bem Querer seria o maior dos quatro aproveitamentos identificados nos Estudos de Inventário Hidrelétrico da Bacia do Rio Branco. Localizada na margem esquerda do Rio Amazonas, a bacia do Rio Branco possui regime de vazões diferenciado em relação aos afluentes da margem direita do rio. Essa característica significa que, o período em que ocorrem as maiores vazões do Rio Branco coincide com o período de vazões baixas nos rios da margem direita do Amazonas.

    Ou seja, o maior potencial de produção de energia pela Usina de Bem Querer ocorreria justamente quando as demais barragens da região estão trabalhando em capacidade mínima por conta do fluxo de água reduzido. A construção da usina inundaria um trecho de 130 km do Rio Branco, pegando áreas de três unidades de conservação: o Parque Nacional do Viruá, a Estação Ecológica de Niquiá e a Estação Ecológica de Caracaraí.

    Patrícia: Pensando no futuro da geração de energia no Brasil, devemos considerar que o grande consumidor de energia do país é o setor industrial, em sua grande parte localizado na região sudeste do Brasil. Sendo assim, a construção de uma nova hidrelétrica na Amazônia não necessariamente significaria que a energia produzida atenderia a região.A energia seguiria para o sudeste, enquanto os impactos sociais e ambientais ficam na Amazônia. Para o especialista, isso pode ser considerado uma injustiça energética

    Marcelo Laterman: Os impactos ficam lá, e os benefícios vão para mão de alguns, né, financeiros vão para a mão de bem pouquinhos. E mesmo os benefícios da energia que é gerada também é escoada para outras regiões. E ali ficam os impactos, inclusive muita falta de energia para os processos produtivos. Tem que ver para quem que é, né? Vai enriquecer a quem, né?  As comunidades? A gente viu, a gente tem exemplo, né, Belo Monte infelizmente aconteceu. E é um problema, é um problema grave, assim, a olhos vistos. E sim, foi muito dinheiro para lá. Mas… tá, tá muito longe de trazer melhora na na condição de vida ali das populações que habitavam. O que levou foi pressão, violência, morte, e perda também dos dos meios de vida, né?

    Fabíola: Esse episódio é resultado de um trabalho feito na disciplina Teorias e Métodos da Ciência, ministrada pelas professoras Flávia Consoni e Janaina da Costa, no Curso de Especialização em Jornalismo Científico, do Labjor Unicamp. A pesquisa, roteiro, entrevistas e apresentação foram feitos por mim, Fabíola Junqueira, pela Camila Carvalho, Fernanda Pardini, Juliana Stern e pela Patrícia Bellas. Tivemos a colaboração do Octávio Augusto, da Rádio Unicamp e da Simone Pallone que coordena este podcast. Este episódio faz parte de uma série de três edições sobre energia. Ouça também o episódio número 140 que fala sobre compra e venda de energia e os impactos na nossa conta de luz e o episódio número 142 que estará disponível nos próximos dias. Você também pode encontrar com a gente pelas redes sociais, pelo Instagram e pelo Twitter, é só procurar por “Oxigênio Podcast”. Deixa um comentário e compartilha esse episódio com quem você acha que vai se interessar pelo tema.”

    Para a realização do episódio entramos em contato com a EPE (Empresa de Pesquisa Energética) mas não foi possível realizar uma entrevista.

    0 min
  • #140 – Por trás da conta de luz: compra e venda de energia

    Você sabe quais são os principais desafios do aumento inevitável do consumo de energia elétrica? O que é e como funciona o mercado de energia brasileiro? Qual a relação entre crescimento econômico, consumo de energia elétrica e custo energético?

    O Thiago Ribeiro e a Fernanda Capuvilla entrevistaram a Alessandra Amaral, meteorologista que atua há mais de 10 anos, no ramo da energia elétrica no Brasil pra contar pra gente como funciona esse mercado, que inclui não apenas a produção ou geração de energia, mas também a sua compra e venda.

    Thiago Ribeiro: Dois mil e duzentos e cinquenta e quatro (2.254)  quilowatt-hora (kWh). De acordo com a Empresa de Pesquisa Energética, que presta serviços ao Ministério de Minas e Energia, esse foi o consumo médio de eletricidade por cada brasileiro em 2019. Desde o início do século, esse consumo cresceu cerca de 70%.

    Fernanda Capuvilla: E aí eu pergunto: você sabe quais são os principais desafios do aumento inevitável do consumo de energia elétrica? O que é e como funciona o mercado de energia brasileiro? Qual a relação entre crescimento econômico, consumo de energia elétrica e custo energético?

    Thiago: Olá! Meu nome é Thiago

    Fernanda: E eu sou Fernanda e hoje, vamos juntos, clarear essas e outras questões sobre a matriz elétrica brasileira e ouvir um pouco sobre como funciona esse mercado.

    [vinheta Oxigênio]

    Thiago: Antes de tudo, é importante destacar que a matriz energética é a soma de toda a energia disponibilizada para ser transformada, distribuída e consumida nos processos produtivos. Em outras palavras, a matriz energética representa a quantidade de energia oferecida por um país ou por uma região. Essa energia pode ter origem em fontes renováveis como a biomassa, a lenha e a hidráulica, ou origem em fontes não renováveis como derivados de petróleo e gás natural.

    Fernanda: Sobre esse assunto, deixamos um convite para você ouvir o episódio #85 OxiLab: Nexus – Energia, que fala sobre a crescente escassez desses recursos e a necessidade de buscar fontes alternativas e mais sustentáveis.

    Thiago: Mas, voltando para o tema do episódio, a matriz elétrica representa uma parte da matriz energética de um país.  É o conjunto de fontes energéticas destinadas à geração de energia elétrica. Por exemplo, no Brasil, cerca de 64% do total de energia elétrica gerada vem de usinas hidrelétricas. O restante vem, principalmente, de usinas termelétricas, eólicas e solares.

    Fernanda: E não é para menos, o Brasil é o país que detém a maior reserva de água doce do planeta. Cerca de 12% de toda a água doce disponível está aqui!

    Thiago: De fato! Isso explica, ao menos em parte, o porquê do nosso país ter investido tanto na geração de energia elétrica a partir da energia hidráulica.  Desde a década de 70, esta foi uma das medidas que o governo brasileiro tomou para reduzir a dependência de combustíveis fósseis na geração de energia elétrica. Durante esse período, houve um grande aumento no preço do barril de petróleo que motivou a busca por fontes alternativas através de incentivos do governo.

    Fernanda: A mesma postura foi adotada por diversos países, sempre buscando fontes alternativas ao petróleo, de acordo com a disponibilidade de recursos naturais em seus territórios e também das suas respectivas realidades econômicas e tecnológicas.

    Thiago Ribeiro: Dos anos 70 pra cá, nossa matriz vem se diversificando. O Brasil tem buscado ampliar o leque de fontes para a geração de eletricidade. Atualmente, nossa matriz também gera energia elétrica a partir de outros recursos. Além das hidrelétricas, em ordem de importância, temos as termelétricas, que produzem cerca de 20% do total gerado. Nelas a energia é produzida através da queima de combustíveis como biomassa, carvão e derivados de petróleo. Cerca de 10% da geração é obtida através dos ventos, energia que é captada nos parques eólicos. Por último,  uma pequena fatia de 6% se divide entre energia solar, nuclear e outras fontes.

    [Notícias sobre escassez hídrica]

    Fernanda: Bom, se no passado a decisão de investir na energia hidráulica como alternativa ao petróleo trouxe vantagens como maior independência energética e o aproveitamento de um dos nossos recursos mais abundantes, hoje o cenário parece diferente. A essa altura, todo mundo já deve ter sentido no bolso o aumento da tarifa energética por conta da escassez de chuvas que vem afetando as regiões Sul e Sudeste do Brasil. De acordo com o último relatório anual da Empresa de Pesquisa Energética, essas são justamente as regiões que possuem a maior demanda por eletricidade.  Mas como esses reajustes tarifários são determinados?

    Alessandra Amaral: Uma característica do nosso preço de energia é que quando chove, o preço cai. Então, uma série de empresas como a minha, e empresas que fazem o que eu faço mas que também compram e vendem energia para esses consumidores… Através dessa gestão do consumidor é que a gente indica momentos para comprar energia: “Ah, choveu agora. Vamos comprar. Vamos fazer um contrato de três anos”. É como se fosse uma bolsa de valores de energia em que você faz um ‘Hedge’, que é um contrato de proteção futuro. Você garante um custo futuro ali para o consumidor.  

    Thiago Ribeiro: Essa é a Alessandra Amaral. Alessandra é Meteorologista formada pela USP e atua, há mais de 10 anos, no ramo da energia elétrica no Brasil, que inclui não apenas a produção ou geração de energia, mas também a sua compra e venda. A Alessandra também é co-criadora da empresa Solver Energia, que é focada, principalmente, na gestão de consumidores, mas também de usinas geradoras dentro do mercado de energia elétrica brasileiro.

    Alessandra Amaral: Quando eu estava na minha graduação, tive o privilégio de cair no mercado de energia elétrica. Me apaixonei por esse mercado e eu caí nesse mercado porque, sem saber, Meteorologia tinha tudo a ver com setor de energia no Brasil. Justamente porque a gente tem uma matriz muito dependente de energias renováveis. E aí, a Meteorologia estuda a chuva, estuda o vento, estuda radiação, e tudo isso é fonte de energia hoje, aqui para o nosso país.


    Fernanda: Isso é muito interessante! Que o regime de chuvas influencia a capacidade de geração de energia elétrica, nós já estamos familiarizados. Mas, particularmente, nunca tinha parado para pensar na existência de uma espécie de ‘bolsa de valores’ que analisa todas essas variáveis na hora de precificar a eletricidade.

    Thiago: Faz todo o sentido! Mas você poderia explicar melhor pra gente como esse mercado de energia funciona, Alessandra?

    Alessandra: Bom, muita gente não sabe, mas no mercado, no Brasil, no setor brasileiro, você tem dois ambientes de contratação de energia. Você tem o ambiente regulado, que somos, por exemplo nós, residenciais, que são consumidores que a gente chama de ‘baixa tensão’ e consumidores de ‘alta tensão’, que são consumidores que exigem mais da rede de distribuição, que tem mais motores, mais cargas. Esses consumidores, dependendo do tamanho deles, eles podem ir para o mercado livre de energia e comprar a própria energia.

    Fernanda: Esses grandes consumidores que a Alessandra citou são as empresas comerciais, industriais e de serviços com demanda superior a 500 kw de energia por mês, e que podem escolher por comprar no mercado livre de energia. Nesse mercado, empresas geradoras, comercializadoras e consumidores negociam a compra e a venda de energia elétrica.

    Thiago: Além da previsibilidade dos custos, através dos contratos futuros de proteção do investimento, comentados pela Alessandra, outra vantagem desse mercado de energia livre é a possibilidade de escolha do seu fornecedor de energia elétrica. Nós, consumidores do mercado regulado, somos submetidos aos contratos de concessão de energia assinados pela ANEEL.

    Fernanda: Nesses contratos, as empresas distribuidoras autorizadas atuam como intermediárias na comercialização de energia elétrica. Aqui no estado de São Paulo, por exemplo, o Grupo CPFL é uma dessas concessionárias. Mas tem, a ELEKTRO, a ENEL, a Energisa Sul-Sudeste, dentre outras. E é nesse mercado que a Alessandra atua, orientando o pequeno e o grande consumidor na compra e venda de energia e no seu uso mais eficiente.

    Alessandra: Então, nesse mercado, a atuação de uma empresa como a minha, por exemplo, é olhar para todos os aspectos da conta de luz de um consumidor e mostrar pra ele onde está o ponto ótimo. Qual é o mínimo que ele consegue gastar com energia para produzir, para enfim, ter seu escritório, manter um conforto térmico. Enfim, de diversas formas.

    Thiago: Além da Meteorologia, sua área de formação, quais outros profissionais são essenciais para compor uma equipe que presta esse tipo de serviço?

    Alessandra: Olha, nesse setor é muito importante um engenheiro eletricista no time. É muito importante um economista. Porque o economista também, essas variações malucas de PIB, essas coisas e tudo mais, altera totalmente o que a gente vai consumir no futuro. Se a gente fica vivendo crise econômica atrás de crise econômica, o país não cresce tanto no consumo. Então, isso também afeta na precificação de energia.

    Fernanda: Esse setor é muito dinâmico mesmo! Em 2014 a Companhia Paranaense de Energia [a COPEL] pediu à ANEEL um aumento de 32,4% na tarifa de energia. A COPEL é uma empresa estatal de economia mista responsável pela geração, transmissão e distribuição de energia elétrica para todo o estado do Paraná. Naquele ano, assim como nos últimos anos, o estado enfrentava um cenário de escassez hídrica e a empresa precisou apelar ao mercado livre de energia para atender a projeção de crescimento do consumo. Entretanto, o crescimento do setor industrial foi menor do que o esperado, baixando também o consumo de energia elétrica.

    Thiago: Justo no momento em que a economia está fragilizada e os consumidores tentam reduzir gastos, inclusive buscando a diminuição na conta de luz, ocorre que as distribuidoras precisam aumentar o preço da energia para compensar a perda que teriam pela falta de consumo. A conta a ser paga sempre fica para o consumidor, para o cidadão comum.

    Fernanda: Além da influência do próprio mercado financeiro e do consumo, a gente não pode deixar de considerar os efeitos das alterações climáticas. O que para o Brasil, que tem a água como principal fonte de geração de energia, é muito complicado.

    Alessandra: É importante ter gente que saiba programar e fazer modelos, e desenvolver modelos, enfim, de previsões, próprios. Tudo isso é muito importante. Porque esse é um setor que se atualiza e que está tudo mudando muito rápido. Então, há cinco anos atrás, o auge era eólica. Há trinta anos o auge era a hidráulica. Agora é solar. Todo mundo só fala de solar. Já passamos por biogás, biomassa… Então, você sempre tem que estar entendendo de tecnologia nova, entendendo o efeito regulatório de uma mudança. Enfim, tudo, tudo que acontece no setor. Todo ano é uma novidade.

    Thiago: Mas, Alessandra. Como que esses impulsos no setor elétrico ocorrem no Brasil? Quero dizer, de onde partem as iniciativas de investimento para a ampliação desta ou daquela fonte? Quem decide que o momento é propício para construir usinas hidrelétricas, solares, eólicas, ou implantar outro tipo de tecnologia?

    Alessandra: A década de 2010 aqui no Brasil. 2010 aqui até 2020, a gente pode dizer que quem dominou, assim, o crescimento, quem cresceu com força, foi, principalmente, no começo da década, a eólica, né. E foi um mix, né, de evolução tecnológica no mundo como um todo e o Brasil, por ter uma característica meteorológica muito favorável no Nordeste, que é a questão dos ventos alísios, né. E esses são ventos bem constantes. Isso favorece a eólica. Então, você juntou um momento global em que todo mundo já estava com essa tecnologia pronta, com um país que tem uma baita oportunidade, trouxe muito investimento pra cá. E começaram as grandes empresas a fazer o movimento da eólica no Brasil. 13:03

    Fernanda: Então a gente pode dizer que, no caso das eólicas, a iniciativa de expansão desse tipo de geração partiu da pressão de grandes empresas estrangeiras para entrar no mercado brasileiro? Como os governos da época negociaram com esse mercado?

    Alessandra: Tiveram vários subsídios, assim como tem hoje para a solar, ao longo dos anos. Então, tudo isso favoreceu com que a eólica se expandisse drasticamente. Então, foi uma iniciativa, uma pressão da iniciativa privada, momento global também em relação a esse olhar pro meio ambiente, que é um assunto cada vez mais latente (e a gente já tinha o protocolo de Kyoto e o governo também fez políticas para incentivar isso. Como? Através dos leilões de energia.

    [notícias sobre os últimos leilões] 

    Thiago: Leilões de energia? Pelo jeito vamos deixar essa questão ainda mais complexa, então vamos lá. A comercialização de energia elétrica no Brasil é regulada pela Agência Nacional de Energia Elétrica, a ANEEL. Ela estabelece as diretrizes para a liquidação das operações de compra e venda, controle dos contratos de comercialização de energia elétrica, garantias financeiras e a efetivação de registros de contratos.

    Fernanda: Por aqui, a principal forma de contratar a energia elétrica e expandir a matriz, tem sido realizada através dos leilões de geração e de transmissão. É competência da ANEEL promover leilões públicos para que as distribuidoras possam comprar, de forma regulada e transparente, a energia que irão oferecer para seus clientes.

    Thiago: Na prática, o leilão de geração funciona assim: O Ministério de Minas e Energia estabelece as condições nas quais o leilão deverá ser realizado. Por exemplo, a compra de energia elétrica para garantir a expansão do sistema ou um ajuste dos contratos já estabelecidos com as distribuidoras. Então, o Programa de Parcerias de Investimentos, o PPI – programa vinculado ao Ministério da Economia, articula para coordenar os esforços das instituições envolvidas, e a ANEEL apresenta a proposta do edital em uma consulta pública.

    Fernanda: A Empresa de Pesquisa Energética, citada lá no início do episódio, analisa a proposta e habilita a realização dos projetos que, posteriormente, são publicados pela ANEEL, em conjunto com a Câmara de Comercialização de Energia Elétrica. Os vencedores do leilão são homologados pela ANEEL e o Ministério de Minas de Energia outorga as concessões.

    Thiago: Como o Brasil pode caminhar para se tornar menos dependente das térmicas, sobretudo em épocas como essas de estiagens mais severas? Qual o futuro do setor energético brasileiro diante das mudanças climáticas? Como isso afeta o nosso bolso?

    Fernanda: Essas e outras questões serão discutidas em um próximo episódio. Nele, continuamos nosso papo com a Alessandra que vai nos explicar melhor a dinâmica atmosférica, gestão elétrica e sustentabilidade.

    Thiago: Esse episódio foi escrito e apresentado por mim Thiago Ribeiro e por Fernanda Capuvilla. A revisão do roteiro foi feita pela coordenadora do Oxigênio, a Simone Pallone, do Labjor/Unicamp. Os trabalhos técnicos são do Gustavo Campos e do Octávio Augusto Fonseca, da rádio Unicamp. E a  ilustração da capa é de Matheus ‘Vareja’[1]  (@matheus_vareja).

    Fernanda: Você também pode nos acompanhar nas redes sociais, estamos no Instagram e no Twitter, basta procurar por “Oxigênio Podcast”.

    Thiago: Você pode deixar a sua opinião sobre este programa comentando na plataforma de streaming que utiliza. Obrigado por ouvir e até o próximo episódio!

    20 min
  • #139 – Precisamos falar sobre a morte (com as crianças)

    A partir de uma conversa com a autora de um livro para crianças, que fala sobre a passagem do tempo e sobre a morte e com duas psicólogas sobre o uso de textos literários com a finalidade de ajudar uma pessoa a enfrentar uma dificuldade, as repórteres Laís Toledo e Mayra Trinca e o colaborador Diogo Ambiel Facini produziram este episódio sobre como e por que conversar com as crianças a respeito da morte. Márcia Abreu, Lucélia Elizabeth Paiva e Maria Júlia Kovács são as entrevistadas deste episódio, que trata de um assunto que pode ser difícil de encarar, mas que não deve ser ignorado.

    Roteiro:

    Laís: Um jabuti, um bicho que pode viver uns cem anos, encontra uma siriruia, também conhecida como aleluia, que é um inseto que vive apenas um dia…

    Lina:

    – Para que tanta pressa? O mundo não foi feito em um dia – respondeu o jabuti com a boca cheia de manga.
    – O meu, sim.
    O jabuti balançou a cabeça.
    – Sempre exagerada… – comentou incrédulo.
    – Eu só tenho um dia. Só hoje. Tanto tempo se passou e eu ainda não tenho um namorado.
    – Tanto tempo?! Você tem horas de vida! É muito jovem para namorar.
    – Ah, vocês, velhos. Sempre achando que a gente é muito nova…
    […]
    – Não sou tão velho assim. Fiz cem anos há pouco tempo.
    – Cem anos? – exclamou a siriruia arredondando ainda mais seus olhos pretos.
    – Eu fui ninfa por um ano e já não aguentava mais.
    O jabuti tinha a cara toda amarela e doce. Mastigava uma manga com calma, saboreando.
    – Com o tempo, você se acostuma – disse ele, erguendo a cabeça para ver quantas mangas ainda poderiam cair daquela árvore.

    Laís: Você acabou de ouvir um trechinho do livro “O jabuti e a siriruia: o ciclo da vida”, escrito pela Márcia Abreu e ilustrado pelo Bira Dantas. Apesar de terem várias diferenças, o jabuti e a siriruia viraram melhores amigos e viveram uma aventura juntos. A história desses animais é contada no livro, que foi publicado no ano passado, pelo Estraladabão, o selo de divulgação científica para crianças da Editora UFMG, da Universidade Federal de Minas Gerais.

    Nesse episódio do Oxigênio, a gente conversou com a Márcia Abreu sobre esse livro, que traz uma aventura emocionante, um monte de informações sobre os animais e também uma reflexão sobre a passagem do tempo e sobre a morte. A Márcia, além de escritora de livros para crianças e para jovens, é pesquisadora e professora de Literatura na Unicamp. Então, além de falar sobre “O jabuti e a siriruia”, a gente também conversou sobre como a literatura pode ajudar as crianças a lidarem com temas sensíveis, como a morte.

    Mayra: Também sobre esse assunto, a gente conversou com a Lucélia Elizabeth Paiva, que é psicóloga e contou um pouco sobre a biblioterapia, o uso de textos literários para ajudar uma pessoa a enfrentar uma dificuldade. Ela também falou sobre como os livros podem ajudar as crianças durante o processo do luto, assunto que ela pesquisou no doutorado dela. Além de atender na sua clínica, ela também é pesquisadora e professora no Centro Universitário São Camilo.

    Diogo: Nossa outra entrevistada, a Maria Júlia Kovács, falou sobre a relação das crianças com o tema da morte, sobre o tabu que envolve esse assunto. A Maria Júlia é pesquisadora e professora de psicologia da USP e ajudou a fundar o Laboratório de Estudos sobre a Morte, também da USP. Eu sou o Diogo Ambiel Facini.

    Mayra: Eu sou a Mayra Trinca.

    Laís: Eu sou a Laís Toledo, e este é mais um episódio do Oxigênio.

    Márcia: Eles são diferentes em tudo: ela é rápida, animada; ele é rabugento e lento, como todo jabuti, né?

    Laís: Essa é a Márcia Abreu, apresentando os personagens principais da história, a siriruia e o jabuti…

    Márcia: Em um único dia, ela precisa resolver um monte de problemas. Principalmente, porque ela nasceu com uma asa torta, e aí ela se perdeu do bando dela. Então, ela vai precisar da ajuda do jabuti para encontrar o bando, encontrar um namorado, acasalar, colocar seus ovos e, com isso, ela vai completar o ciclo da vida, que é o subtítulo do livro. O jabuti, pelo contrário, teve uma vida longa, mas cheia de desilusões. Então, essa experiência de ter uma amiga vai mudar a percepção dele sobre a vida.

    Laís: Como a gente comentou, esse é um livro de divulgação científica, e a Márcia contou que também fez bastante pesquisa para entender sobre a vida desses animais tão diferentes.

    Márcia: Eu tive que ler vários artigos científicos da área de biologia, porque a proposta da editora é trazer conhecimento científico junto com uma história. A pesquisa sobre o jabuti foi mais ou menos fácil, porque ele é considerado um bicho de estimação, e esse é um dos temas que eu abordo no livro, porque a grande tristeza do jabuti é ter sido rejeitado por várias gerações de crianças. Então, ele vive num sítio sem mais ninguém da espécie dele. Tanto que ele acha que ele é único, que não existe ninguém como ele no mundo. A pesquisa sobre a siriruia teve que ser mais ampla, porque a gente não costuma conviver com insetos, né? Ao menos não amistosamente. Então, eu tive que aprender quais são os estágios pelos quais esses bichinhos passam, desde quando eles são ninfa, que é quando eles estão dentro da água, até que eles consigam voar.

    Então, você vê que o livro trata de vários temas complicados, né? Velhice, solidão, abandono, isso, no caso do jabuti. E deficiência, acasalamento, procriação, morte, no caso da siriruia.

    Laís: Para a Márcia, a gente tem que falar desses temas complicados sem tratar a criança como se ela fosse boba, sem dar uma explicação simplista.

    Márcia: Eu acho que a gente deve tratar de temas difíceis, assim, como a morte, a deficiência, a velhice, com honestidade com as crianças. Ninguém sabe o que acontece quando a gente morre. Então, por que é que a gente vai dizer “ai, quem morre vai para um lugar melhor”, “quem morre vira estrela”? Isso não é honesto. Mas também não dá para deixar a criança desamparada diante da finitude da vida e do grande mistério que é isso, né? Então, eu tento tratar disso com honestidade e com leveza, até com um pouco de humor.

    Laís: Para abordar essas questões, a Márcia contou que usou um truque narrativo: ela criou um narrador que não é um personagem da história, um narrador em 3ª pessoa, mas que se cola na perspectiva do jabuti, no ponto de vista dele…

    Márcia: Então, ele só conta o que o jabuti está vendo e o que está acontecendo com ele ou perto dele. Esse artifício resolveu dois problemas da história, que era descrever o acasalamento e descrever a morte.

    Laís: Na hora do acasalamento, o jabuti se perde da siriruia, e, quando eles se reencontram, ela apresenta o seu marido, o que passa a ideia de que o acasalamento já tinha acontecido. Depois, na hora da morte, os dois amigos também se separam.

    Márcia: O jabuti está exausto, porque ele não é acostumado a passar um dia andando e se envolvendo em tantas aventuras como foi, né? Então, quando ela fala para ele que está na hora de ela colocar os ovos, ele fala isso “vai lá, que eu vou tirar um cochilo aqui, que eu estou exausto”. Só que ele dorme e, quando ele acorda no dia seguinte, ela já está morta. Então, com isso, eu não precisei descrever o processo de morte da siriruia.

    Laís: Outra maneira que a Márcia encontrou para lidar com o tema da morte foi fazer com que isso não fosse um problema para a siriruia.

    Márcia: Para ela, viver um dia só não é um problema. Ela diz isso o tempo todo e ela fala que as coisas são assim, que foi assim com as outras siriruias e que, para ela, o importante é aproveitar aquele dia. Para ela, a morte não é um peso, nem é um drama. O que ela quer é viver intensamente as horas de vida que ela tem.

    Laís: Mesmo que a siriruia levasse essa questão da morte numa boa e que o momento em que ela morreu não tenha sido mostrado com detalhes, a Márcia também não quis terminar o livro de um jeito muito aberto.

    Márcia: Eu achei que também não era bom deixar um final assim “aí ela morreu e acabou”. Por isso, eu criei uma última cena, em que o jabuti acorda, percebe que a amiga dele está morta, mas que na água tem milhares de ovos. Ele vai lá observar aqueles ovos e ele acha que um deles se parece com aquela siriruia, tem uma cara como a da amiga dele. Então, isso não deixa a criança desamparada diante da morte, mas é honesto ao mesmo tempo, né? A vida é assim, uns morrem e outros nascem o tempo inteiro. Isso que é o ciclo da vida.

    Lina: Na superfície da água havia milhares de ovos boiando. O jabuti piscou para segurar uma lágrima, enquanto os observava. Eram bem pequenos, mas ele achou que, em um deles, havia uma ninfa de sorriso maroto.

    – É só esperar uns meses – pensou, com um otimismo que era novo para ele –, logo mais a diversão vai recomeçar. Não vai durar mais do que um dia, mas vai valer cada instante.

    Laís: Essa e outras partes do livro emocionaram os leitores. A gente pediu para Márcia contar sobre algumas experiências que ela teve ao ler em público “O jabuti e a siriruia” para adultos; no caso, para professores.

    Márcia: É muito interessante observar a reação deles. É muito legal ver os momentos em que eles riem, os comentários que eles fazem, do tipo: “Ah, eu sou igualzinho a esse jabuti!”. E eles torcem para que as coisas deem certo no final. E eles se emocionam com a situação do jabuti, do fato de ele achar que ele é único, que não tem ninguém como ele no mundo. Muitas pessoas se identificam com isso e ficam emocionadas.

    Lina: Naquele dia, o jabuti saiu de baixo da pedra e deu dois passos na direção do riacho. No terceiro, avistou uma revoada de siriruias. Aquilo era um verdadeiro espetáculo. Milhares de insetos voando juntos sob o sol. Foi caminhando em direção à água.

    – Que coisa! – pensou. – Como é que pode haver tanto bicho igual?
    Ele sempre se admirava com a existência de animais semelhantes. Pássaros eram dezenas. Borboletas, centenas. Insetos, milhares. Só ele era sem par. Nunca tinha encontrado, em toda sua longa vida, um outro animal como ele.
    – Sou único – concluiu.
    Tinha uma vaga lembrança de outros iguais a ele, saindo de ovos e caminhando numa areia quente. Mas era uma recordação muito apagada e ele concluiu que tinha sonhado. Era único.

    Laís: E, fora dessa situação de leitura pública, a Márcia disse que os leitores adultos falaram para ela coisas muito variadas sobre o livro.

    Márcia: Alguns acham que ele é uma história filosófica para crianças; que ele é sobre a relatividade do tempo; que ele é sobre a cooperação entre seres diferentes…  E é verdade: o livro é sobre tudo isso; mas ele também é uma aventura.

    Laís: E foi justamente isso que mais atraiu as crianças.

    Márcia: Elas querem mais é saber da aventura: se a siriruia vai mesmo conseguir encontrar um namorado em tempo; se o gato vai dar uma unhada nela ou não vai; se ela vai ser comida pelo pássaro… E isso é uma das coisas mais bacanas em literatura. Duas pessoas leem uma história, e cada uma tem uma experiência diferente.

    Laís: A Márcia, além desse livro do jabuti e da siriruia, já escreveu mais quatro livros para crianças e para jovens. Depois, você pode ver direitinho os títulos dos livros na descrição deste episódio, no site do Oxigênio. Bom, e a última história que a Márcia escreveu para crianças, antes do livro do jabuti e da siriruia, se chama “Vovô gagá” e também trata de um tema sensível, o Alzheimer.

    Márcia: Eu tinha uma experiência pessoal com esse tema, porque o meu sogro tinha essa doença. Então, naquele momento, eu li bastante, não só sobre a doença, mas sobre como falar sobre a morte com as crianças.

    Laís: Então, a partir dessas experiências com a escrita para crianças e também das pesquisas que a Márcia faz, que incluem os temas da infância e da literatura para crianças, a gente pediu para ela comentar um pouco sobre como, na visão dela, um texto literário pode ajudar a entender a vida e a morte de um jeito diferente daquele de textos não literários…

    Márcia: Eu acho que os textos literários ajudam muito a lidar com grandes problemas e muitas vezes ajudam mais do que um texto teórico ou um texto descritivo. Basta a  gente pensar nos contos de fadas, que lidam com os temas mais difíceis que há. Por exemplo, no caso de “João e Maria”, o abandono pelos pais, duas vezes. E mesmo histórias assim atraem as crianças há séculos. Tem até um livro já antigo sobre isso, que se chama “A psicanálise dos contos de fadas”, do Bruno Bettelheim. A ideia dele é que os contos de fadas ajudam a criança a entender coisas complicadas e a lidar com conflitos interiores que elas não saberiam exteriorizar em palavras. As ideias dele se tornaram polêmicas hoje em dia. Mas eu acho que uma coisa é certa: quando a gente lê uma narrativa, a gente se identifica com os personagens. A gente se coloca no lugar deles. E isso permite que o leitor viva situações difíceis na pele de outra pessoa, o personagem.

    Laís: Para a Márcia, essa experiência pode ajudar a criança (e o adulto também) a entender situações complicadas, mantendo um certo distanciamento, já que as situações são vividas pelo personagem. Mas não é só isso…

    Márcia: Além disso, na literatura, tem o prazer da fabulação, né? O prazer de acompanhar uma história bem contada, de ficar pensando: “Nossa, o que será que vai acontecer com ela? Como é que ele vai resolver esse problema?”. Isso tem a ver com a ligação que a gente cria com o enredo e a identificação que a gente desenvolve com as personagens. Bom, mas tem também o prazer do texto, né? De achar graça na maneira como uma coisa foi dita; de ficar emocionado com o modo como aquilo foi dito; de ficar surpreso com a junção de palavras que não costumam andar juntas. Por isso, eu acho que o texto literário é muito superior aos outros tipos de texto, quando se trata de ajudar crianças, e adultos também, a pensar sobre a vida e a morte.

    Laís: E, da mesma forma que a Márcia acredita que a gente deve tratar os temas difíceis com honestidade, sem ser simplista, ela também acha que essa atitude deve acontecer com relação à linguagem, ao jeito como o texto é escrito.

    Márcia: Tem muita história infantil que toma a criança como tonta e trata de temas triviais, numa linguagem cheia de diminutivos, cheia de frase curta… Pensem nos grandes livros da literatura infantil: eles não são assim. Eu falei agora há pouco dos contos de fada, mas tem também obras como “Peter Pan”, por exemplo; a “Alice no País das Maravilhas”; ou as histórias do sítio, do Monteiro Lobato, o “Sítio do Picapau Amarelo”. Elas são complexas; escritas em linguagem diferente daquela que a gente fala no dia a dia. E elas atraem as crianças há muitas gerações.

    Laís: Sobre essa questão de não querer simplificar demais o texto para as crianças, a Márcia lembrou de uma fala do C. S. Lewis, que, entre outras coisas, foi o autor das “Crônicas de Nárnia”.

    Márcia: Ele disse mais ou menos assim: “Uma história infantil que é boa só para crianças não é uma boa história infantil”.

    Laís: Algumas dessas questões que a Márcia falou foram discutidas também pelo crítico literário Antonio Candido, em um texto famoso dele, de 1988, que se chama “O direito à literatura”. Nele, o Antonio Candido defendeu que a literatura é um direito humano que não pode ser negado para ninguém. Ele entende a literatura de uma forma bem ampla, como qualquer mergulho no universo da ficção ou da poesia, o que inclui até um devaneio amoroso no ônibus, um causo, uma moda de viola… E o Antonio Candido acha que a literatura é essencial, mas não porque ela transforma a gente, automaticamente, em pessoas melhores. Para ele, a literatura traz tanto o “bem” quanto o “mal”; ou seja, ela não edifica nem corrompe ninguém. Então, ela seria tão importante assim por ter um poder humanizador, o que inclui desenvolver a percepção de que o mundo e os seres são complexos e às vezes até contraditórios. E esse poder tem a ver também com a maneira como o texto literário se organiza, se constrói…

    Laís: Bom, a gente queria entender mais sobre esse poder que a literatura pode ter para ajudar a organizar a mente, em especial a mente das crianças que passam por uma situação de luto. Então, para conhecer esse assunto a partir de outra perspectiva, a gente foi conversar com duas pesquisadoras e profissionais que não são da área da literatura, mas sim da psicologia.

    Mas, antes disso, só um recado: se você quiser conhecer mais livros infantis que falam sobre a morte, a gente deixou, na descrição do episódio, um texto com uma lista de sete livros infantis que falam sobre esse tema. O texto é do Marca Páginas, um blog que faz parte da rede de blogs de ciência da Unicamp. Eu fico por aqui. Quem vai acompanhar vocês agora é a Mayra.

    Lucélia: A biblioterapia é a utilização de um material literário, a utilização de livros ou histórias, com o objetivo de ajudar uma pessoa ou um grupo, para identificação, discernimento, de problemas pessoais e o enfrentamento de suas dificuldades. Então, eu utilizo histórias ou um material literário como um recurso terapêutico no enfrentamento às dificuldades.

    Mayra: Essa que você acabou de ouvir é a Lucélia Elizabeth Paiva. Nós conversamos com ela, que é psicóloga, para conhecer um pouco mais sobre a biblioterapia.

    Lucélia: Na contação da história ou na leitura de uma história, a gente vai se envolvendo, e aí, nesse envolvimento, conforme eu vou entrando na história, me envolvendo com a trama, eu vou me identificando. Eu posso me identificar com o personagem, eu posso me identificar com a trama, eu posso me identificar com o desafio, o conflito que existe naquela história. Isso vai promover uma emoção. Nesse envolvimento, eu vou estar mexendo, mobilizando emoções. E aí, a gente acaba tendo insights a partir do que aconteceu na história, a gente traz para a nossa vida, para as nossas necessidades, para aquilo que a gente está precisando trabalhar. Então, quando a gente percebe que aquilo que aconteceu na história a gente pode identificar e aplicar na nossa vida, a semelhança do problema da história traz uma aproximação, tornando acessível a solução de um conflito, a solução de uma questão pessoal. Então, a gente pode compreender que, por um problema, uma questão similar, a gente encontra esperança e possibilidades de enfrentamento para os nossos desafios, para os nossos conflitos.

    Mayra: A Lucélia contou que a biblioterapia é uma ferramenta, um recurso, que pode facilitar o crescimento emocional. E, na prática, a biblioterapia pode acontecer de diferentes formas e ser feita por diferentes pessoas.

    Lucélia: No processo da biblioterapia, eu posso ler um livro e eu mesma fazer reflexões a respeito. Então pode ser um movimento interno, muito pessoal. Outra forma que a gente pode usar a biblioterapia é, diante de outra pessoa – que pode ser meu filho, pode ser meu paciente, pode ser meu aluno –, eu utilizar uma história, para conversar a respeito depois, pensar, promover reflexões.

    Mayra: As reflexões provocadas pela história podem acontecer por meio de uma conversa, ou seja, da verbalização, mas elas também podem passar por outras formas de expressão…

    Lucélia: Eu percebo que nem sempre a pessoa quer falar, e talvez não seja nem o momento de falar, de expressar verbalmente, porque às vezes não se tem uma construção lógica imediata. Então, uma coisa que eu gosto muito é de poder expressar as emoções ou possibilidades a partir de atividades de expressão criativa. Por exemplo, desenho, modelagem, pintura e até mesmo a escrita.

    Mayra: Além disso, a escolha de um livro para ser usado como recurso terapêutico é diferente da escolha de um livro para se divertir. No caso da biblioterapia, a gente precisa ter alguns objetivos. O livro escolhido precisa ter alguma relação com as necessidades emocionais da pessoa ou do grupo envolvido.

    Lucélia: Por exemplo, o luto, eu vou selecionar uma história que tenha, de alguma forma, fatores que façam pensar, refletir sobre essa temática. Então, seja a personagem enfrentando uma situação, ou, para falar de alguma emoção ou algumas manifestações do processo de luto, ou um desafio qualquer, algo que atinja o meu objetivo.

    Mayra: Quando a gente for falar sobre a morte e sobre o luto com uma criança, a gente precisa mostrar para ela que existem várias formas de passar por esse processo e que ele é diferente para cada pessoa…

    Lucélia: É importante a gente utilizar uma história, por exemplo, que traga as possíveis manifestações do processo de luto. Então, poder mostrar que a criança pode ficar triste, mas que ela pode também rir, que ela pode ter vontade de ficar isolada, mas que ela pode ter vontade de brincar e se divertir, que ela pode ficar calada, mas que ela pode querer conversar com alguém. Então, é importante que a criança possa entender o que está acontecendo com ela, identificando que aquelas manifestações que aparecem ali naquela história, naquele livro, é algo que ela também sente, e que isso é natural, e que isso é esperado.

    Mayra: Outra coisa legal que a Lucélia comentou é que, para trabalhar esses sentimentos, a gente não precisa usar um livro que fale de uma situação exatamente igual àquela que criança está vivendo. Por exemplo, se a criança perdeu a avó, a história não precisa falar especificamente sobre morte de avó.

    Lucélia: A gente pode falar sobre a morte, sobre a vida, sobre despedida, sobre saudade, sobre tristeza. Depende do que eu estou querendo atingir naquele momento, precisa ver o que eu quero, qual é a necessidade que essa criança está me apresentando.

    De repente eu posso usar um livro que fale sobre enfrentamentos do novo, de uma coisa desconhecida. Eu posso utilizar um livro que fale sobre o medo, a ansiedade, a tristeza… sobre emoções que ela pode identificar nesse processo da elaboração de um luto.

    Mayra: Outra coisa importante na hora de escolher um livro que fale sobre luto é que as reações e os sentimentos dos personagens devem aparecer na narrativa, porque isso pode ajudar a criança a se sentir mais acolhida ao identificar que sente o mesmo que aquela personagem. Também precisamos prestar atenção para que o conflito da história seja resolvido de alguma forma.

    Lucélia: Não precisa ser o “viveram felizes para sempre”. Mas que haja uma solução, porque, quando existem problemas não solucionados, isso pode trazer uma confusão para a criança. Então, nas histórias sobre morte, por exemplo, é importante não que a saída, que a solução, seja que essa pessoa voltou, porque não vai voltar, mas que o personagem seja amparado, que o personagem consiga se reestruturar na vida, tenha proteção, não fique sozinho nessa solidão, que ele tenha um final, um desfecho, que seja acolhedor e verdadeiro.

    Mayra: Conversando com a Lucélia, a gente percebeu que o livro sozinho não basta. Antes de usar uma história como um recurso para trabalhar um assunto específico, é importante que o adulto conheça bem essa história, para acolher quaisquer falas, intervenções e dúvidas que as crianças possam trazer.

    Para além da escolha das histórias, tem um aspecto do luto que às vezes a gente nem se dá conta: que o luto não aparece apenas com a morte de uma pessoa querida, mas também com diversas outras perdas que acontecem nas nossas vidas, como reforçou a nossa entrevistada.

    E é importante a gente acolher a criança também quando ela passa por esses lutos simbólicos, esses lutos não relacionados com a morte. Agora, e quando a gente precisa dar uma notícia de morte para uma criança? Como começar a conversa e o que a gente pode fazer depois?

    Lucélia: Falar para uma criança que o vovô foi viajar, que o vovô partiu, isso não é legal. Por quê? Por que o vovô foi viajar e nunca mais voltou? Vovô partiu e não falou comigo? Não se despediu de mim? Não me levou junto e nunca mais vai voltar? Onde está meu avô? Por que é que ele saiu? Por que é que ele foi embora? Isso causa conflitos, confusões, na cabecinha da criança. E ela muitas vezes pode se sentir culpada pelo fato do sumiço desse avô, por exemplo. Então, é importante que a gente sempre fale a verdade de forma clara, de forma objetiva.

    Mayra: Falar de forma clara não quer dizer que essa conversa tem que ser fria ou distante. No momento da conversa, é papel do adulto criar um ambiente em que a criança se sinta acolhida, segura, sinta que ela vai continuar sendo protegida e sendo cuidada. Além disso, a gente tem que dar espaço para a criança expressar o que está sentindo, que, como a gente viu, não precisa ser só tristeza, né? Existem várias formas de vivenciar o luto. Outra coisa muito importante é que a criança se sinta confortável para tirar suas dúvidas, até porque entender a morte não é uma coisa simples…

    Lucélia: Para que a criança possa entender o que é a morte, é necessário que ela compreenda, assimile, três atributos básicos.

    Mayra: O primeiro deles é a universalidade ou inevitabilidade.

    Lucélia: A criança precisa entender que todo ser vivo vai morrer um dia. Seja a plantinha, seja o animalzinho de estimação, a vovó, o vovô, o papai, o amiguinho. E até ela mesma.

    Mayra: O segundo é a irreversibilidade.

    Lucélia: A criança precisa entender que quem morre não volta mais. Morreu, morreu. Não dá para morrer só um pouquinho. Não dá para desmorrer, né?

    Mayra: E o último é a não funcionalidade.

    Lucélia: Aquela pessoa que morreu, aquele corpo, para de funcionar; ou seja, a pessoa para de respirar, aquele coração para de bater, a pessoa que morreu não sente mais fome, nem frio, nem dor.

    Então, a criança precisa entender que todo mundo vai morrer um dia, isso é fato, que quem morre não volta mais e que, quando se morre, o corpo para de funcionar.

    Mayra: Pelo próprio processo do desenvolvimento infantil, a compreensão desses três aspectos e do próprio conceito de morte acontece por volta dos cinco, seis, sete anos… Mas isso não é uma coisa precisa, depende de vários aspectos cognitivos, emocionais e sociais.

    Por isso que é importante falar da morte de forma clara com as crianças. As dificuldades para a compreensão do que acontece, as confusões, podem até atrapalhar o processo de luto. A Lucélia defende, inclusive, que a morte seja um assunto presente no cotidiano das crianças, em diferentes contextos, na comunidade, na família, na saúde, nas escolas…

    Lucélia: A gente não precisa passar por uma perda por morte para falar sobre morte. Não precisa ser a partir de uma perda, pela tristeza. A gente pode trazer a morte no nosso cotidiano.

    Mayra: Ela pode ser tratada com humor, com amor, não só com tristeza…

    Lucélia: É que é um tema que os próprios adultos têm dificuldade de abordar, né? E por isso as crianças ficam sem esse respaldo, porque nós, adultos, não abordamos, pela nossa dificuldade. Só que agora, com a pandemia, parece que, assim, tudo mudou. A morte está escancarada, presente cotidianamente, assustando a todos, adultos e crianças. Então, ela passou a ser um assunto mais do que necessário. Sempre foi! Mas agora está escancarado, né?

    Mayra: É muito importante que, nas escolas, as crianças possam conversar sobre as perdas que tiveram durante a pandemia. Algumas sofreram perdas por mortes, mas todas perderam a liberdade, perderam a escola por um bom tempo, perderam o convívio com os colegas e com os professores… Então, isso pode e deve ser abordado no ambiente escolar.

    Mas não é só a partir dessa situação da pandemia que a morte deve estar presente na escola. Ela pode ser tratada em estudos sobre o funcionamento da vida como um todo. Se a gente faz experiências para acompanhar o nascimento e o crescimento de um feijãozinho, por exemplo, a gente também deveria acompanhar a sua morte, já que esse é um processo natural.

    Lucélia: É uma oportunidade de se falar sobre a morte. Por que, quando se fala sobre esse desenvolvimento todo, se aprimora os conhecimentos, não se fala sobre a morte? É importante que isso seja dito, de uma forma fluida, de uma forma natural, como algo que faz parte da vida, como algo que faz parte do ciclo do desenvolvimento humano.

    Mayra: A psicóloga salienta que um dos receios de se falar sobre esse assunto na escola é porque o tema pode acabar envolvendo religião, e cada família tem a sua crença, e cada crença um modo de lidar e tratar da morte.

    Não existe uma necessidade de falar da morte do ponto de vista religioso. Como a gente já viu, a morte envolve vários aspectos que podem ser tratados até do ponto de vista da ciência, mas é possível, sim, envolver questões relacionadas à religião na conversa…

    Lucélia: Por que não dizer sobre as várias ópticas de cada religião? Como cada religião vê a morte, como cada religião lida com esse momento, com esse processo, os rituais, né?

    Mayra: Inclusive, a Lucélia destacou a importância desses rituais, não só os rituais religiosos, mas os rituais de despedida de uma forma geral. Eles são eventos organizadores, que ajudam a gente a concretizar essa nova mensagem, de que aquele ser morreu. E é importante que a criança aprenda a ter responsabilidades e cuidados, inclusive afetivos, na hora da morte também. Por exemplo, na hora da morte de um bichinho de estimação, é importante que a criança possa se despedir dele, preparar um enterro, organizar um fim para o animalzinho.

    Também não é uma boa ideia querer substituir o animal…

    Lucélia: Substituir não é a melhor coisa. Por quê? Porque cada um é único, e o afeto é dirigido a cada ser. Então, é importante que se lide com a falta dessa figura de afeto também, que se possa se despedir.

    Se você substitui um animalzinho, você pode estar mostrando para a criança uma mensagem de que todo afeto pode ser substituído, e o afeto não é substituído. Você pode ter vários afetos, cada afeto é único.

    Mayra: Apesar de tudo que a gente viu até aqui, a gente sabe que pode ser difícil trazer esse assunto para as crianças. O Diogo conversou com a Maria Júlia Kovács para saber um pouco mais dos cuidados que a gente precisa ter ao lidar com o luto das crianças.

    Diogo: Como a morte pode ser um tema sensível até mesmo para os adultos, pode ficar a sensação de que, evitando esse assunto, a gente estaria, de alguma forma, protegendo as crianças de um momento difícil.

    Maria Júlia: Mas isso não é verdade, porque, se uma morte ocorre dentro do núcleo familiar, ela vai perceber que está tendo alterações, que as situações estão difíceis e não vai entender o que está acontecendo. Então, ao invés de poupar do sofrimento, a gente acaba aumentando, criando incerteza.

    Diogo: Essa é a Maria Júlia Kovács. Inclusive, ela foi a orientadora da Lucélia no doutorado dela. Bom, a Maria Júlia tem feito pesquisas na área da Tanatologia, os estudos da morte e do morrer. O nome dessa área vem de Thanatos, que, na mitologia grega, é o deus da morte. Dentro dessa área, a Maria Júlia tem pesquisas sobre temas variados, como educação para a morte, bioética e morte com dignidade. Aqui no episódio, a gente conversou com ela sobre o tabu relacionado ao tema da morte, principalmente com relação às crianças.

    Maria Júlia: Fato é que hoje isso talvez seja mais tabu do que em outros tempos.

    Diogo: Isso de afastar a criança quando alguém morre é uma coisa meio recente. Antes de os hospitais se popularizarem, era comum aguardar pelo momento da morte em casa, e as crianças participavam desse ritual junto com os adultos.

    Maria Júlia: Mortes que acontecem em casa ou de familiares que incluem as crianças nas atividades, quando uma pessoa adoece, ela visita, enfim, elas vão acompanhando o processo.

    Diogo: Essa conversa com a Maria Júlia foi gravada no ano passado, perto do dia de Finados, e ela reforçou a importância dessa data e também da participação da criança no ritual funerário.

    Maria Júlia: É um momento importante para informar, esclarecer para as crianças sobre por que existe um dia especial para venerar os mortos, o que isso significa, por que é que existem os cemitérios…

    Então que as crianças possam, sim, participar dos rituais funerários. Isso é muito importante, primeiro porque ela é um membro da família, porque os rituais ajudam a compreender o que está acontecendo, a encontrar apoio, acolhida.

    Diogo: Assim como a Lucélia, a Maria Júlia destacou o impacto da pandemia de COVID-19 na vida das crianças. Isso, de certa forma, aproximou a morte do cotidiano delas. Só no Brasil, a COVID deixou 113 mil crianças órfãs, segundo uma matéria publicada em setembro de 2021 pela revista “Pesquisa”, da Fapesp. E mesmo uma criança que não perdeu alguém próximo acabou tendo contato com a palavra “morte” quase todo dia, nem que fosse na TV ou no comentário de uma pessoa próxima a ela, por exemplo.

    Maria Júlia: Também nós tivemos agora, por conta dos períodos agudos da pandemia, muitas crianças que perderam pessoas queridas, sejam avós, sejam pai, mãe ou irmãos ou tios, né? Então elas talvez estejam vivendo as suas primeiras experiências de luto, e é muito importante falar sobre isso.

    Diogo: Então, é importante a gente incluir a criança nos rituais de despedida e também conversar com ela sobre as perdas. Além disso, é importante que o adulto possa ajudar a criança a entender que, mesmo que a pessoa que morreu não esteja mais presente fisicamente na vida dela, isso não quer dizer que o laço afetivo entre elas se rompeu completamente.

    Maria Júlia: O melhor é poder explicar para a criança, principalmente, assim, que ela não vai ver mais essa pessoa, mas ela não vai esquecer essa pessoa, principalmente se alguém muito próximo da família ou até um bicho de estimação. E dizer que não vai estar mais presente na vida, no cotidiano, mas vai ficar na alma, no coração, nas memórias.

    Diogo: Do mesmo jeito que o jabuti vai guardar sempre com ele a lembrança de uma siriruia de asa torta, a gente guarda uma pessoa especial na forma de memória, mesmo quando essa pessoa já morreu.

    Maria Júlia: O valor das lembranças é muito grande. Então, a gente pensa assim, quando ocorre a morte, quebra-se o vínculo presencial, mas não o vínculo afetivo, não a relação amorosa, que ela continua e agora vai encontrar outros caminhos, né? Os caminhos das memórias, das lembranças… Então, é muito importante a gente poder falar dessas lembranças, compartilhar essas lembranças. Elas ajudam, elas podem trazer sentimentos variados, tristeza, medo, raiva, amor. Boas lembranças, saudades, então tudo isso é importante. E que isso seja cultivado, porque é uma maneira de a gente ter a pessoa sempre próxima de nós.

    Diogo: Bom, nesse episódio, a gente conheceu o livro do jabuti e da siriruia, aprendeu um pouco sobre a biblioterapia e também sobre alguns aspectos importantes de como falar da morte com as crianças. A gente também conversou sobre a importância de não evitar esse assunto, mas sim falar dele de uma forma honesta e acolhedora.

    Aqui, a gente só começou uma conversa sobre esse tema. Se você quiser saber mais sobre esse assunto, tem a tese da Lucélia, que foi publicada no formato de um livro, que se chama “A arte de falar da morte para crianças: a literatura infantil como recurso para abordar a morte com crianças e educadores”. Além disso, tem o site do Laboratório de Estudos Sobre a Morte, do Instituto de Psicologia da USP. Como a gente viu, a Maria Júlia foi uma das pessoas responsáveis pela fundação desse laboratório. No site dele, tem muito material legal, como recomendações de leituras (inclusive de livros para crianças) e de filmes relacionados a esse tema. As referências de tudo que a gente mencionou nesse episódio estão na descrição dele no site do Oxigênio.
    O que você achou desse episódio? Deixa um comentário. A gente está no Instagram e no Twitter também, é só procurar por “Oxigênio Podcast”. E compartilha esse episódio com seus amigos, principalmente com aqueles que têm contato com crianças.
    O roteiro e a narração desse episódio foram feitos por mim, Diogo Ambiel Facini, pela Laís Toledo e pela Mayra Trinca. A leitura dos trechos do livro do jabuti e da siriruia foi feita pela Lina. Gustavo Campos fez os trabalhos técnicos do episódio, junto com o Octávio Augusto, da rádio Unicamp. A revisão do roteiro e a coordenação do Oxigênio são da professora Simone Pallone, do Labjor/Unicamp. Tchau!

    Referências:

    Livros escritos pela Márcia Abreu para crianças e jovens:

    “Amor, história e luta: antologia de folhetos de cordel”. Editora Moderna (2005).
    “Morrer amanhã”. FTD Educação, coleção “Meu amigo escritor” (2008).
    “Da cor da esperança”. Editora Moderna, coleção “Recontando a História” (2016).
    “Vovô Gagá”. Editora Moderna (2015).
    “O Jabuti e a Siriruia: o ciclo da vida”. Editora UFMG, selo Estraladabão (2021).

    “O direito à literatura”, do Antonio Candido (1988). Incluído no livro “Vários Escritos”, da editora Ouro sobre Azul.

    “Sete livros infantis que falam da morte”, blog Marca Páginas: https://www.blogs.unicamp.br/marcapaginas/2022/01/28/sete-livros-infantis-que-falam-da-morte/

    Site da Lucélia Elizabeth Paiva: https://www.luceliapaiva.com/home

    Livro da Lucélia: “A arte de falar da morte para crianças: a literatura infantil como recurso para abordar a morte com crianças e educadores”. Editora Ideias & Letras (2011).
    Site do Laboratório de Estudos sobre a Morte (LEM/IP-USP): http://www.lemipusp.com.br/

    Matéria “Desamparo disseminado”, da revista “Pesquisa”, da FAPESP: https://revistapesquisa.fapesp.br/desamparo-disseminado/

    Créditos de som:

    “Min”
    “Building the Sled”
    “Lemon and Melon”
    “Minutes”
    “Slimheart”
    “Tarte Tatin”
    “Zulia Conspiracy”
    “The Caspian Sea”
    “Two Pound”
    “Our Lament”
    “Palms Down”
    Todos do Blue Dot Studios (https://www.sessions.blue/)

    Agradecemos à Bruna Alves Schievano, que é psicóloga e contribuiu para o episódio com recomendações de leituras.

    46 min

About Oxigênio Podcast

From the publisher's feed

Podcast e programa de rádio sobre ciência, tecnologia e cultura produzido pelo Labjor-Unicamp em parceria com a Rádio Unicamp. Nosso conteúdo é jornalístico e de divulgação científica, com episódios…

More shows like Oxigênio Podcast

Braincast by B9

Braincast

106 Listeners

Xadrez Verbal by Central 3 Podcasts

Xadrez Verbal

166 Listeners

Naruhodo by Naruhodo, Ken Fujioka, Altay de Souza, B9

Naruhodo

120 Listeners

Petit Journal by Petit Journal

Petit Journal

77 Listeners

DrauzioCast by Portal Drauzio Varella

DrauzioCast

8 Listeners

Foro de Teresina by piauí

Foro de Teresina

230 Listeners

Escafandro by Rádio Escafandro

Escafandro

41 Listeners

História FM by Prof. Dr. Icles Rodrigues

História FM

34 Listeners

O Assunto by G1

O Assunto

168 Listeners

WW – William Waack by CNN Brasil

WW – William Waack

5 Listeners

Ciência Suja by Ciência Suja

Ciência Suja

19 Listeners

BBC Lê by BBC Brasil

BBC Lê

14 Listeners

Rádio Novelo Apresenta by Rádio Novelo

Rádio Novelo Apresenta

104 Listeners

A Hora by UOL

A Hora

14 Listeners

IA Sob Controle - Inteligência Artificial by Alura - Hipsters Network

IA Sob Controle - Inteligência Artificial

3 Listeners