Radar econômico

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By RFI Brasil
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  • Vendas de champanhe francês sofrem com inflação e concorrência de outros espumantes

    A inflação alta não poupou as vendas de champanhe em 2023, inclusive dentro da própria França, país que produz e exporta a bebida para o resto do mundo. O balanço revelado pelo Comitê Interprofissional do Vinho de Champagne apontou uma queda de 8,2% das vendas no ano passado, impactadas também pelo aumento do consumo de outros tipos de espumantes, fabricados no país ou em vizinhos europeus.

    O espumante mais famoso do planeta, associado a momentos festivos e comemorações, ainda enfrenta os contratempos gerados pela pandemia de Covid-19. Em 2020, o lockdown levou as vendas a despencarem 18%, mas retomaram com uma força igualmente anormal nos dois anos seguintes, com alta de 25% em 2021 e o recorde de 326 milhões de garrafas vendidas em 2022.

    Após esses dois picos, o contexto inflacionário gerado pela guerra na Ucrânia levava o setor a já esperar um recuo na desempenho em 2023. O diagnóstico apontou para uma queda ainda maior que a projetada, conforme a nota divulgada pela principal entidade representante do setor. Foram 299 milhões de garrafas vendidas.

    “Depois de três anos anormais, o champanhe volta ao nível de vendas de antes da crise sanitária. O mercado nacional sofre mais do que os mercados de exportação com os efeitos da inflação, que pressionaram o orçamento das famílias durante todo o ano”, diz o comunicado. “A exportação de 172 milhões de garrafas ultrapassou o seu nível de 2019 (156 milhões de garrafas) e agora garante 57% do total de vendas, contra 45% há 10 anos.”

    Por que o champanhe é mais caro?

    O setor festeja, entretanto, que o faturamento tenha se mantido estável, acima de  € 6 bilhões – um efeito do aumento do preço das garrafas, que passaram de uma média de € 20 a unidade para € 23.

    “O champanhe tem custos de produção que são bastante elevados. Tem vários fatores que explicam, inclusive o preço do hectare de terra em Champagne, que é muito cara: 1 hectare de vinhedos custa cerca de 1 milhão de euros, enquanto que no sul da França, em Languedoc, por exemplo, custa entre 20 e 30 mil euros”, explica a sommelière brasileira Ana Carolina Dani, que atua na França e integra a Associação de Sommeliers de Paris. “A colheita precisa ser obrigatoriamente manual, o que aumenta mais o custo. E neste contexto de alta dos preços, é um vinho que foi particularmente afetado: o processo de vinificação do champanhe é complexo e o uso de energia para resfriar as cubas de fermentação, por exemplo, é muito intenso – e a energia aumentou muito na França”, complementa.

    O preço ainda maior levou os consumidores mais atingidos pela inflação a experimentar alternativas ao champanhe, inclusive em momentos emblemáticos como o Natal. Assim, espumantes como o crémant de Alsácia ou da Borgonha, considerados os “primos pobres” do champanhe, ganharam um espaço de mercado francês.

    Prosecco ganha espaço

    Da mesma forma, o prosecco italiano – na esteira do sucesso do coquetel Spritz, que leva a bebida – e a cava espanhola também seduzem os consumidores, com seus preços no mínimo três vezes inferiores aos do champanhe.

    “A diferença é muito alta. Para uma família de classe média francesa, num contexto de alta geral de preços, foi preciso apertar os cintos e optar por produtos mais essenciais. O consumidor acabou indo procurar opções mais baratas”, salienta Dani. “A Itália conseguiu fazer um marketing mundial do prosecco graças ao Spritz e o hoje este espumante está muito mais presente na mesa dos franceses do que há um ou dois anos atrás. E os espumantes nacionais também têm ganhado muito espaço. Muita gente hoje prefere beber um bom espumante do que um champanhe ruim.”

    As vendas de crémant da Alsácia registravam alta de 4,2% no período de um ano encerrado em outubro – e apesar do aumento do preço das garrafas nas prateleiras de supermercados e adegas.

    Os dados de exportação do champanhe devem ser divulgados em março. Com pouco mais de 700 mil garrafas compradas em 2022, o Brasil não é um mercado importante para o setor, embora registre crescimento na última década. Na América latina, é o México que mais importa a bebida, com 3 milhões de garrafas.  

    No topo da lista mundial de importadores estão Estados Unidos, Inglaterra, Japão, Alemanha e Itália.

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  • Novo imposto mínimo mundial sobre lucros de multinacionais terá implementação progressiva até 2025

    Um novo e inédito mecanismo internacional contra os paraísos fiscais e a concorrência tributária entre os países entra em vigor neste mês de janeiro de 2024. Um “imposto mundial mínimo” de 15% sobre os lucros das multinacionais começa a ser cobrado pelos 140 signatários.

    Lúcia Müzell, da RFI

    O imposto representa um avanço ao acabar com a exoneração praticada nos paraísos fiscais e elevar o índice praticado em lugares como a Irlanda, destino preferencial das companhias digitais na Europa, ao aplicar apenas 12,5% em impostos. 

    A taxa mínima será cobrada inclusive das empresas que não estão fisicamente implantadas no seu território, mas onde registram receitas. No alvo, estão as companhias que faturam mais de € 750 milhões – ou menos de 10 mil empresas no mundo.

    Esta foi uma maneira de aumentar a arrecadação das grandes companhias de tecnologia. Uma empresa alemã domiciliada nas Bahamas, onde é isenta de impostos, passa a pagar o mínimo de 15% nas operações realizadas na Alemanha, signatária do acordo.

    O texto foi costurado por mais de uma década pela OCDE e adotado no âmbito do BEPS (sigla em inglês para Erosão da Base Tributária e Transferência de Lucros), iniciativa conjunta com o G20, em outubro passado.

    “É um acordo definido pelos próprios países. Será um conjunto de regras nacionais, que têm os mesmos princípios de cálculos, e ele depende também da adoção das regras pelos demais países, ou seja, todos terão interesse em verificar se os outros estão fazendo conforme os modelos das regras. Essa colaboração é essencial para o projeto”, aponta Felicie Bonnet, chefe interina da divisão de fiscalidade internacional da organização, com sede em Paris.

    “Nós observaremos se a implementação vai acontecer como previsto e que a coordenação prevista entre eles, sobre as regras, funcionará na prática”, indica.

    EUA e China de fora

    Entre os signatários, estão União Europeia – incluindo Luxemburgo e também a Suíça, apontados como paraísos fiscais na Europa ao lado da Irlanda –, Reino Unido, Canadá, Japão, Austrália, Malásia e Coreia do Sul, de um total de 50 que já passaram a aplicar o texto no âmbito nacional. No entanto, as duas maiores economias do mundo, Estados Unidos e China, por enquanto estão de fora.

    “O acordo tem impacto mesmo se todos os países não o aplicam. Basta que uma massa crítica de países o faça e ele se torna efetivo, e hoje temos essa massa”, afirma o economista Pascal Saint-Amans, que acaba de deixar a direção do Centro de Política Fiscal da OCDE. “Os mecanismos do acordo são bem diabólicos, ao preverem que, até se países importantes como a China e os Estados Unidos não o adotam, as multinacionais deles serão submetidas ao imposto mínimo mundial. A única questão em jogo será quem vai arrecadar este imposto: se não for os americanos, poderão ser os europeus no lugar deles”, afirma.

    A expectativa da OCDE é que a medida leve à arrecadação de US$ 220 bilhões por ano em benefício dos Estados. A organização espera que a adoção do novo imposto ocorrerá progressivamente entre 2024 e 2025, com prazo mais lento principalmente nos países em desenvolvimento.

    “Os países em desenvolvimento têm interesse em colocá-lo em prática por diversas razões. Eles podem ter, por exemplo, índices de imposto que já são, em tese, superiores a 15%, mas que na prática são menores devido a isenções e benefícios fiscais oferecidos às multinacionais, de modo que elas não pagam impostos”, observa Bonnet.

    Brasil se prepara para implementar

    Em novembro, o Ministério da Fazenda do Brasil indicou que a Receita Federal estava “se organizando” para implementar o acordo. José Sarquis, embaixador da missão do Brasil junto à OCDE, explica que o país está na fase de “considerações” e vê o processo “de modo muito construtivo”.

    “Tradicionalmente, havia uma diferença de abordagem no direito tributário doméstico e no internacional, entre as práticas de países mais desenvolvidos e os em desenvolvimento. Com o tempo, essas práticas estão se aproximando e convergindo. As perspectivas dos países em desenvolvimento passam a ser melhor incorporadas na agenda internacional e nas discussões da OCDE e do G20, até porque muitas delas caminham juntas”, salienta.

    “Na frente da transparência e da troca de informações tributárias entre as autoridades, o Brasil tem sido um dos maiores ganhadores dessa iniciativa pioneira. Ela permite que o Brasil traga para a sua base de arrecadação bilhões de dólares, ao coibir práticas de sonegação que levam à erosão e a evasão fiscal”, aponta Sarquis.  

    Guerra fiscal e de subsídios entre os países

    Observadores advertem que a concorrência fiscal entre os países pode continuar, com o novo imposto sendo compensado com isenções fiscais ou subsídios para as empresas. Mas para Saint-Amans, essa alternativa nunca é simples, do ponto de vista político.

    “Dar subvenções a uma empresa que lucra centenas de milhões num país onde ela sequer tem muita presença física não seria muito bem-visto pelas empresas locais. Ou seja, as atenuações ao imposto mundial existem, mas na realidade elas são pouco significantes”, explica.

    O embaixador Sarquis salienta que o G20, do qual o Brasil exerce a presidência rotativa este ano, desempenha um papel “fundamental” para coibir desequilíbrios e “distorções” entre os países, conforme o grau de desenvolvimento – sobretudo num momento de tensões geopolíticas como o atual. Os países ricos, detentores da maioria das grandes corporações e em especial as digitais, insistem a manter a tributação a partir da origem do capital – e não onde ocorre o consumo dos seus produtos.

    “Nós vivemos hoje num contexto em que há tendências protecionistas que reemergem de diferentes formas – uma delas são os subsídios. Mas eu acho que o risco existe com ou sem o entendimento internacional sobre uma tributação mínima”, avalia o diplomata. “Encontrar o equilíbrio internacional que permita fazer a transição de regras que eram muito favoráveis aos países mais desenvolvidos para regras que sejam equilibradas não é fácil.”

    Desde os anos 1980, a guerra fiscal entre os países para atrair as empresas fez a tributação mundial cair pela metade. Estimativas apontam que as multinacionais – em especial as americanas – direcionam até 40% dos seus lucros para países onde os tributos são menores, o que representa um buraco de US$ 500 bilhões de impostos não recolhidos no mundo.

    7 min
  • Juros altos, inflação, guerras, Brics ampliado: o que marcou 2023 na economia

    O ano de 2023 chega ao fim com um princípio de luz de fim do túnel na sequência de alta dos juros que marcou o período e atrasou uma retomada econômica mais robusta, em meio à inflação que permaneceu elevada em boa parte do mundo. As incertezas geopolíticas, com o conflito na Ucrânia e a guerra em Gaza, não ajudaram a economia mundial a decolar.

    O coquetel de juros altos e crescimento baixo, somado à desaceleração da China, foi ainda mais perigoso para os países mais vulneráveis, em especial os africanos.  

    “Nas economias avançadas, vemos que claramente as taxas vão ficar altas durante muito tempo, durante toda a primeira parte do ano 2024, e agora produzem impacto na atividade. Em geral, temos 12 meses de atraso entre o momento em que os bancos centrais sobem as taxas de juros e o momento em que realmente essas taxas afetam a atividade – e elas foram elevadas há pouco mais de um ano”, explicou à RFI Bruno de Moura Fernandes, chefe de macroeconomia da seguradora francesa Coface, presente em mais de 100 países. “Então vamos sentir mais, nos próximos trimestres, o impacto para as empresas, para as famílias”, disse, em entrevista realiza em agosto. 

    A Unctad, Conferência das Nações Unidas sobre Comércio e Desenvolvimento, previu em abril que o ciclo de aumento de juros vai custar mais de US$ 800 bilhões em perda de renda nos países em desenvolvimento, nos próximos três anos. Além da depreciação cambial, as consequências imediatas nas economias mais vulneráveis – como Zâmbia, Chade, Sri Lanka ou Argentina – foram a explosão das dívidas, a dificuldade de acesso ao crédito e risco de crise monetária, podendo resultar em crise de dívida soberana.

    Na Ásia, a crise imobiliária chinesa, o crescimento baixo, de 5%, e o alto desemprego dos jovens na segunda maior economia mundial acenderam o alerta para uma piora da conjuntura. “Já vemos que claramente as exportações chinesas estão caindo pela pouca procura por parte dos Estados Unidos e da Europa, e que o consumo das famílias chinesas também é uma grande decepção, porque, afinal, não tem confiança. Por enquanto, não vemos como a recuperação pode acelerar nos próximos meses”, advertiu Fernandes. 

    Esse contexto internacional abalou o mercado mundial de commodities e repercutiu imediatamente no Brasil. Cerca de 30% das exportações brasileiras, essencialmente de matérias-primas, vão para a gigante asiática.

    Governo sob pressão desde o primeiro dia

    No Brasil, o ano começou turbulento, com os ataques aos Três Poderes na posse do presidente Luiz Inácio Lula da Silva já em 8 de janeiro. A crise política aberta logo na primeira semana do mandato aumentou ainda mais a pressão sobre a agenda econômica do presidente petista, em especial pelo ajuste fiscal, e na contramão da política econômica mais expansionista desejada pelo presidente. 

    “A economia internacional vai desacelerar e, com isso, os preços das commodities não vão continuar altos como estavam. Essa situação reduz a margem de manobra para adotar políticas mais expansionistas”, previu Daniela Magalhães Prates, economista sênior da Unctad, em janeiro. “O embate com o mercado vai ser um problema. A incerteza política pode ser usada para isso: reduzir a margem na política fiscal e monetária”, antecipou.  

    Com o país ainda marcado pela polarização no plano interno, o presidente não demorou para iniciar giros internacionais – a começar pela China. Apesar de ser a maior parceira comercial do Brasil, Pequim vinha sendo desprezada pelo governo de Jair Bolsonaro. 

    "Por uma escolha de Estado, nós saímos da mesa. Essa escolha teve custos, e agora estamos voltando à mesa e isso é extremamente importante, na minha opinião”, disse o pesquisador associado do FGV-Ibre Livio Ribeiro, especializado em economias emergentes e em particular a chinesa. “Tradicionalmente na China, os ritos importam muito – até mais para os chineses do que para a gente. Assim sendo, a presença do presidente muda o nível da discussão e faz toda a diferença.”

    A viagem oficial de quatro dias se encerrou com a assinatura de 20 acordos comerciais entre as duas potências emergentes. 

    Acordo UE-Mercosul travado

    Dias depois, ainda em abril, Lula retornou à Europa pelo solo português. Em Lisboa e, na sequência, em Madri, o presidente demonstrou determinação em acelerar a finalização do acordo entre a União Europeia e o Mercosul. As negociações do tratado se arrastaram por 20 anos até serem concluídas em 2019, mas o texto ainda precisa ser ratificado pelos 27 países que compõem a União Europeia e os quatro integrantes do Mercosul.

    Entretanto, apesar da troca de governo no Brasil, o acordo tomou um balde de água fria logo depois da viagem de Lula a Portugal e Espanha, com os europeus fazendo uma série de novas exigências ambientais dos parceiros sul-americanos. Desde então, diversas séries de rodadas de negociações foram realizadas entre os dois blocos, mas sem conclusão favorável. 

    Na contraproposta do Mercosul, Brasil e Argentina apresentam pontos que significam a reabertura das negociações do texto assinado há quatro anos, assinalou Andrés Malamud, pesquisador da Universidade de Lisboa e especialista em integração regional na América Latina.

    "Se esse acordo se reabre, nunca mais se fecha. Portanto, com as atuais posições, o acordo é impossível. Não vai acontecer – só aconteceria se aceitassem o que está escrito e assinado em 2019, mas ninguém quer, porque os dois lados são protecionistas: a Europa com o seu mercado agrícola e o Mercosul com sua indústria e compras governamentais”, resumiu o pesquisador argentino. 

    Em dezembro, logo depois de se reunir com Lula na COP28 em Dubai, o presidente francês, Emmanuel Macron, externalizou as divergências, apesar do bom entendimento com o líder brasileiro. Macron não hesitou em considerar o tratado de “antiquado” e “mal remendado”. 

    "Esse acordo não funciona e é por culpa da Europa, porque a França é protecionista e tem mais nove amigos que são igualmente protecionistas”, sintetizou Andrés Malamud.

    Brics terá seis novos membros

    Por outro lado, as alianças entre os emergentes prosperaram em 2023. Na Cúpula dos Brics, em Joanesbursgo, em agosto, os líderes do bloco formado por Brasil, Rússia, Índia, China e Africa do Sul decidiram ampliar o grupo, formado há 15 anos. Seis novos membros foram convidados, na expectativa de fortalecer um bloco do Sul global: Argentina, Etiópia, Egito, Irã, Arábia Saudita e Emirados Árabes Unidos passarão a fazer parte do Brics a partir de janeiro. 

    Um dos focos da agenda do bloco foi o uso das moedas nacionais nas transações entre os países integrantes, no lugar do dólar. O Novo Banco de Desenvolvimento (NDB), mais conhecido como Banco do Brics, tem papel protagonista neste projeto, ao acelerar os empréstimos nas moedas dos cinco membros fundadores. 

    O sonho antigo dos países em desenvolvimento ganhou força desde que os juros americanos se estabilizaram em um patamar elevado. O presidente do Instituto Brasil-África, João Bosco Monte, acompanhou em Joanesburgo o andamento das negociações de um projeto “complicado”, segundo ele, para sair completamente do papel.

    “Brigar com os Estados Unidos e o sistema financeiro mundial não é fácil. Mas o fato de o Banco do Brics trazer essa agenda e puxar essa discussão favorece para que, eventualmente, as transações comerciais entre os países possam usar outras moedas”, salientou. 

    Gaza e o temor de um novo choque de petróleo 

    A reta final de 2023 ainda reservaria mais uma surpresa: a eclosão do conflito na Faixa de Gaza, entre Israel e o grupo extremista Hamas. Depois da Ucrânia, mais uma guerra voltou a elevar os preços do petróleo: o risco de expansão para um conflito regional poderia resultar em um novo choque do petróleo, semelhante ao da década de 1970, advertiram analistas. 

    Com parcerias comerciais importantes no Oriente Médio, incluindo uma agenda em ascensão com Israel nos últimos anos, o Brasil fez malabarismos diplomáticos para que a guerra não abalasse os seus negócios com a região. 

    “Não dá para escolher um lado. A população desses países é grande: a do Irã é de 88 milhões de habitantes. A da Arábia Saudita, que as pessoas pensam que é um grande vazio, tem quase 40 milhões de habitantes”, analisou Paulo Ferracioli, professor de políticas de comércio exterior e de economia no FGV Management. 

    “E não é de forma alguma do interesse do Brasil se afastar de Israel, com quem nós estamos fazendo bons negócios na área de agroindústria, mas há muito mais do que isso. Todos os países querem investimentos de Israel em produtos altamente tecnológicos”, destacou.

    O Oriente Médio respondeu por 5,1% das exportações brasileiras em 2022, num total de US$ 17,2 bilhões, com balança comercial favorável a Brasília.

    “A partir do momento em que há instabilidade na economia internacional, os investidores se retraem e o comércio é dificultado. Qualquer retração no comércio e nos investimentos internacionais vai ser muito inconveniente para o Brasil”, disse Ferracioli. 

    Em outubro, o Fundo Monetário Internacional (FMI) manteve inalterada a sua previsão de 3% de crescimento do PIB real mundial neste ano, e revisou para baixo as previsões de 2024. A instituição espera que o mundo vá crescer 2,9% no ano que vem. 

    12 min
  • Franceses planejam Natal mais econômico, com ceias menos sofisticadas e presentes de segunda-mão

    Por aqui, o peru de Natal e as tradicionais rabanadas não costumam fazer parte da ceia dos franceses, que preferem os frutos do mar e o típico foie gras, uma iguaria à base de fígado de pato ou ganso. Entretanto, neste ano de 2023, muitas famílias vão ter que adaptar a refeição tradicional para fazer com que ela caiba no orçamento, afetado pela inflação e pela queda no poder de compra.

    Com fatores geopolíticos afetando diretamente a economia, em recuperação lenta após a pandemia de Covid-19, a França deve fechar 2023 com uma inflação média de 5,8%, segundo o Banque de France (Banco Central da França), ultrapassando ligeiramente o índice de 2022, que ficou em 5,2%.

    Simone de Albuquerque, uma brasileira que mora na França há 33 anos, conta que o Natal desse ano vai ser entre familiares e amigos, reunindo irmãos, netos, vizinhos, mas que a ceia vai ter que ser mais comedida, já que os preços este ano estão muito altos.

    “Esse ano pretendemos fazer o mesmo que no ano passado, mas com preços mais em conta. Os lugares em que comprávamos antes, não vamos mais. Buscamos outros com produtos quase iguais, mas com preços bem mais próximos da realidade”, disse.

    De acordo com o Instituto Nacional de Estatística e de Estudos Econômicos (Insee) entre 2021 e 2022, os preços dos bens e serviços aumentaram historicamente no país, mas em 2023 os índices estão em desaceleração. Ainda assim, segundo a instituição, os aumentos nos preços pesam duas vezes mais sobre os mais pobres do que sobre os mais ricos.

    A aposentada Françoise Gervez acredita que este Natal será de privações para muitas famílias.

    “Tudo aumentou muito e eu penso que para algumas famílias vai ser muito difícil. Não tanto em termos de brinquedos e presentes, porque há sempre coisas bonitas em lojas com preços mais moderados, onde os pais podem fazer escolhas mais razoáveis. Em contrapartida, em relação à comida, as pessoas vão ter mais dificuldade em conseguir uma qualidade igual aos anos anteriores”, destaca.

    Produtos para a ceia em promoção

    Nos meios de comunicação, não faltam por aqui reportagens para ajudar o consumidor a economizar na compra dos produtos para a ceia de Natal. A BFMTV, por exemplo, divulgou supermercados que estão promovendo grandes promoções como o famoso foie gras com € 5 de desconto, o segundo pacote de chocolate saindo pela metade do preço e 30% a menos no salmão defumado, destacando que essas “pechinchas” só costumam aparecem a partir do dia 26 de dezembro, mas que neste ano tomaram conta das gôndolas para dar uma forcinha para os orçamentos mais restritos.

    Françoise Gervez concorda, acrescentando que em alguns estabelecimentos ainda é possível encontrar preços que permanecem mais viáveis e com boa qualidade.

    “Por outro lado, os produtos de marcas mais tradicionais permanecem inacessíveis”, diz ela, que se organizou com dois meses de antecedência para não ter que abrir mão das tradições natalinas partilhadas em família.

    “Eu não mudo os meus hábitos, mas sei que muitas pessoas são obrigadas a mudar. É triste, há muita miséria”, lamenta.

    “Lembrancinhas”

    Um estudo da empresa de pesquisas Kantar aponta que os franceses pretendem gastar menos com os presentes de Natal deste ano: uma média de € 223 no total (quase R$ 1.200,00), 8% a menos do que no ano passado.

    Simone de Albuquerque explica que na família dela, só as crianças vão ganhar presente este ano. Para os adultos, será a tradicional “lembrancinha”.

    “Cada criança vai ganhar o seu presente, mas para nós adultos, não precisa tanto. Mas com certeza vai ter uma lembrancinha. Uma lembrancinha é obrigação”, brinca ela.

    Lojas cheias, sacolas nem tanto

    Na capital, com os preços altos, muitos franceses e visitantes não têm se deixado levar pelas belas decorações de Natal que tornam Paris ainda mais bonita nesta época do ano. As lojas estão cheias, mas as sacolas, nem tanto.

    Além disso, muitos estão aguardando as ofertas das grandes promoções de inverno, que começam em janeiro, para encontrar opções com melhor custo-benefício.

    Os produtos de segunda-mão, também bastante comuns por aqui por questões ecológicas e financeiras, também devem ser uma opção mais frequente no Natal de 2023 dos franceses. Uma em cada duas pessoas planeja dar presentes comprados em brechós ou sites de venda de produtos usados.

    Apesar das ceias menos requintadas e dos presentes mais simples, qualquer esforço é válido para festejar entre as pessoas queridas e encerrar o ano com a expectativa de índices melhores e mais dinheiro no bolso em 2024, além, é claro, de saúde para dar e vender.

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  • Brasil aposta em recuperação de áreas degradadas para dobrar a produção do agro sem desmatar

    Não apenas de ambientalistas, diplomatas e governantes é feita a Conferência do Clima das Nações Unidas (COP28), que começa nesta quinta-feira (30) em Dubai, nos Emirados Árabes Unidos. O evento é um ponto de encontro de empresários e lobistas dos mais diversos setores da economia. Na delegação brasileira, o agronegócio comparece em peso para tentar dar uma nova imagem à produção agrícola do país – associada, nos últimos anos, ao desmatamento e à devastação do patrimônio natural.

    Esse impulso virá do próprio presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que deixou para anunciar na COP os detalhes de um plano recém lançado pelo Ministério da Agricultura e Pecuária para recuperar áreas degradadas e improdutivas. Tratam-se de 40 milhões de hectares de terras utilizadas para pastagens, pela pecuária, e que possuem “alta aptidão para a agricultura” se fossem reabilitadas para o plantio.

    O objetivo se inscreve na promessa do governo de aumentar a produtividade brasileira sem derrubar mais florestas – principal calcanhar de Aquiles do Brasil na área ambiental.

    Conforme estimativas do ministério, o país tem cerca de 150 milhões de hectares de áreas degradadas que servem a pastagens – ou mais de duas vezes o território de um país como a França. A maior parte delas, cerca de 60%, ficam no Cerrado.

    “Não pode ter apenas uma cabeça de gado por hectare. Com tecnologia, assistência técnica, financiamento correto, poderá se ter três ou duas cabeças”, disse a ministra do Meio Ambiente, Marina Silva, ao depor a uma comissão no Senado nesta segunda-feira, antes de viajar a Dubai. “Não precisa nem ser um sistema intensivo, basta ser semi-intensivo e a gente dobra a produção sem precisar avançar sobre os ativos ambientais do nosso país”, argumentou.

    Contribuição do Brasil conta com recuperação de áreas degradadas

    No âmbito do Acordo de Paris sobre o Clima, o país se comprometeu a recuperar 15 milhões de hectares de pastagens degradadas até 2030 – o que permite evitar mais desmatamento. A meta faz parte da Contribuição Nacionalmente Determinada (NDC, na sigla em inglês) do Brasil, as ações que cada país apresenta para limitar as suas emissões de gases de efeito estufa, que provocam o aquecimento do planeta.

    O Plano Setorial para Adaptação à Mudança do Clima e Baixa Emissão de Carbono na Agropecuária 2020-2030, adotado em 2021, visa dobrar esse objetivo, chegando a 30 milhões de hectares.

    “Uma pastagem bem manejada, recuperada, com alto vigor produtivo, sequestra carbono, em vez de emitir. Então é uma grande oportunidade para toda a agenda climática do Brasil e tendo o setor agropecuário como um protagonista”, disse à RFI Leila Harfuch, economista especialista em sustentabilidade no agronegócio e sócia-gerente da Agrícone.

    Ela lembra que o Plano Safra já direciona recursos para práticas de menor impacto ambiental, via Plano ABC (Agricultura de Baixo Carbono). A demanda por linhas de crédito como o Renovagro, de R$ 7 bilhões, é crescente. “Isso pode ser revolucionário para o Brasil. É algo bastante interessante.”

    Investimento é alto

    Num prazo de 10 a 15 anos, o governo pretende investir US$ 120 bilhões (cerca de R$ 587 bilhões) no projeto e expandir a área agrícola brasileira de 65 para 105 milhões de hectares, sem desmatar. Linhas de financiamento do BNDES, do Fundo Soberano Brasileiro e do Banco do Brasil devem ser alocadas para os produtores interessados em comprar ou arrendar terras improdutivas e melhorar a gestão da produção, com insumos menos agressivos, técnicas mais sustentáveis de plantio e aumento da rastreabilidade da cadeia, uma exigência do mercado europeu.

    “É caro tanto recuperar quanto converter essas pastagens para a agricultura. É uma série de operações agrícolas que precisam acontecer para recuperar o vigor e a fertilidade do solo, e o processo de maturação é longo, de em média cinco anos para o investimento retornar para o produtor”, ressalta Harfuch.

    “E também tem uma questão de escala produtiva: uma coisa é o produtor exportador fazer essa conversão, e outra é o pequeno produtor, que vai precisar avaliar bem o investimento, porque nem sempre é viável. Ele teria que ter alternativas como diversificação de produção, por exemplo”, assinala.

    No plano do governo, que Lula deverá apresentar para o mundo na COP28, investidores privados externos também poderiam contribuir para o futuro fundo. O ministro da Agricultura, Carlos Fávaro, está entre os 12 ministros que participarão do evento – um recorde.

    A participação brasileira promete ser a maior da COP – com 2,4 mil pedidos de credenciamento, entre governo, sociedade civil, pesquisadores e setor privado.

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  • Rumo à eletrificação da economia, Europa acelera abertura de minas de lítio

    Num contexto em que quase metade do lítio mundial é produzido em minas australianas, um terço vem de lagos salgados do Chile e 15% tem origem chinesa, a Europa busca garantir a sua soberania no abastecimento do metal. Enquanto o mundo começa a discutir o fim da era do ouro negro – o petróleo –, agora é o ouro branco, como vem sendo apelidado o lítio, que atiça o apetite dos industriais.

    Leve, altamente condutor de eletricidade, a commodity é essencial para a fabricação de carros elétricos, em plena transição energética. Estima-se que Portugal tenha as maiores reservas europeias. A França também se posiciona nessa corrida: uma das maiores minas da Europa deve sair do solo na região de Allier, no centro do país.

    O geólogo Benjamin Barré, da mineradora francesa Imerys, recebeu a reportagem da RFI. “Estamos na fase da galeria piloto, que nos permitirá alimentar a usina piloto para terminarmos os nossos testes em escala semi-industrial”, explicou, à repórter Justine Fontaine.

    Por enquanto, a poucas centenas de metros do pequeno vilarejo de Echassières, o que se vê é uma grande cratera de onde se extrai caulim, uma rocha quebradiça usada para fabricar porcelana. Mas as obras para a extração do lítio sob a pedreira estão em andamento. O investimento previsto até 2028 é de mais de €1 bilhão, incluindo a extração, a trituração e o refino.

    “Na França, acho não houve abertura de uma mina nos últimos 50 anos. Faz muito tempo que não descobrimos uma reserva como esta que nós temos aqui. Podemos dizer que tivemos sorte de chegar a ela, que se encontra embaixo de um local já conhecido e que deve nos permitir, de acordo com o que sabemos até agora, produzir 34 mil toneladas de hidróxido de lítio por ano, durante pelo menos 25 anos”, complementa Vincent Gouley, diretor de Comunicação e Desenvolvimento Sustentável para projetos de lítio da Imerys.

    “Isto corresponde às necessidades de lítio de 700 mil veículos elétricos por ano, ou seja, metade da produção francesa atualmente. Ou seja, é um depósito significativo em nível francês e europeu”, diz ele.

    Explosão da demanda

    A Agência Internacional de Energia (AIE) avalia que a procura por lítio vai crescer 25 vezes até meados do século, estimulada por medidas como a proibição dos carros com motores térmicos na Europa, a partir de 2035. Mais de 30 usinas de fabricação de baterias elétricas estão sendo construídas no bloco e para atender à demanda por lítio, os projetos de minas existentes hoje já serão insuficientes para chegar até 2030, antecipa a agência.

    É por isso, para além das reservas, os países europeus também buscam se aperfeiçoar em toda a cadeia de produção. Em Lauterbourg, na fronteira franco-alemã, a start-up Viridian pretende realizar uma das etapas intermédias entre as minas e as fabricantes de baterias eléctricas – o refino. O projeto obteve €12 milhões em subsídios públicos, revela um dos seus cofundadores, Rémy Welschinge.

    “O processo começa com o produtor de lítio, que extrai o metal do solo ou da rocha, como vemos muito na Austrália, ou da salmoura, no caso chileno. Depois é preciso refinar. Alguns produtores fazem isso sozinhos, outros preferem enviá-lo para refinarias independentes, para processá-lo ou purificá-lo ainda mais”, aponta Welschinge. “É esse lítio que é fornecido aos fabricantes de eletrodos, para a construção das células de bateria que serão colocadas em veículos elétricos.”

    Em 2022, a Comissão Europeia lançou uma nova legislação sobre matérias-primas críticas para facilitar a busca pela soberania no metal e em outros minerais essenciais para a transição energética – baseada, em grande parte, na eletrificação da economia. De quebra, também visa a menor dependência do petróleo e gás da Rússia, no contexto da guerra contra a Ucrânia, e das baterias chinesas.

    Risco ambiental

    Nas fronteiras europeias, além de França e Portugal, Alemanha, Espanha e Finlândia também se mobilizam em busca de lítio, além do vizinho Reino Unido. Mas apesar do interesse econômico dos países na expansão do setor, os projetos nem sempre são bem-vindos, em especial os ambientalistas. Nas estradas ao redor da planta administrada pela Imerys em Echassières, por exemplo, membros de uma associação pintaram mensagens de oposição ao projeto. Xavier Thabarant evoca o impacto ambiental para a biodiversidade e o uso excessivo de água para a construção da mina: 2,5 milhões de metros cúbicos até a abertura da estrutura, o equivalente ao consumo de 50 mil franceses em um ano.

    “É verdade que temos lítio aqui, e talvez tenha alguns outros minérios raros. Mas para fazer uma bateria também precisamos de cobalto, manganês. O cobalto sabemos que é produzido no Congo, então temos, talvez, metade do que precisaremos. Com isso nunca teremos independência energética”, alega.

    Com impactos ambientais mais limitados, a extração de lítio por geotermia é outra pista explorada pelos europeus – 10 projetos já tomam formam no vale do Reno, entre a França e a Alemanha, em cujo subsolo foi descoberto o metal. O mais ambicioso deles, capitaneado pela startup australiana Vulcan, já levantou € 400 milhões de euros em investimentos, de um total de € 1,5 bilhão estimado. A meta é chegar 24 mil toneladas e lítio por ano, a partir de 2026.

    7 min
  • Em meio à guerra, como ficam as relações comerciais do Brasil com o Oriente Médio?

    Com parcerias comerciais importantes no Oriente Médio, incluindo uma agenda em ascensão com Israel nos últimos anos, o Brasil tem feito malabarismos diplomáticos para que o conflito na Faixa de Gaza não abale os negócios com a região. A esquerda tem pressionado o governo Lula a ser mais enfático nas críticas a Tel Aviv, mas o agronegócio pressiona no sentido contrário.

    O Oriente Médio respondeu por 5,1% das exportações brasileiras em 2022, num total de US$ 17,2 bilhões, com balança comercial favorável a Brasília.

    “Sem a menor dúvida, as relações comerciais pesam muito e a geopolítica tem uma grande importância no comércio exterior brasileiro. Não dá para escolher um lado”, aponta Paulo Ferracioli, professor de políticas de comércio exterior e de economia no FGV Management. “A população desses países é grande: a do Irã são 88 milhões de habitantes. A da Arábia Saudita, que as pessoas pensam que é um grande vazio, tem quase 40 milhões de habitantes. A entrada desses dois países no Brics vai facilitar muito os negócios do Brasil na região”, salienta.

    Nos primeiros cinco meses deste ano, as vendas para os 22 membros da Liga Árabe subiram 11%, em relação ao mesmo período do ano anterior, conforme dados do Mdic (Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio). A pauta inclui majoritariamente produtos agrícolas.

    Parceria comercial inédita com Israel

    Durante os anos do governo de Jair Bolsonaro, próximo do premiê israelense, Benjamin Netanyahu, as trocas com Israel atingiram níveis inéditos – o Brasil foi o principal fornecedor de petróleo do Estado hebreu, que foi também o sexto maior comprador da região de produtos agropecuários brasileiros.

    Sob a gestão Lula, essa dinâmica desacelerou, com queda de 68% das exportações. Mesmo assim, no fim de agosto – um mês antes da eclosão do conflito entre Israel e o grupo extremista Hamas –, os dois países formalizaram uma nova parceria comercial histórica. O Brasil se tornou o primeiro país a receber autorização para exportar carne de frango para Tel Aviv, sob os rigorosos padrões de produção kosher, as diretrizes alimentares que definem o que os judeus podem ou não consumir.

    Israel é um dos maiores consumidores de carne de frango do mundo, com 42 quilos por pessoa por ano, conforme dados do Ministério da Agricultura de Israel. Para o Brasil, este acordo representa uma oportunidade para dar um salto no setor, podendo superar, pela primeira vez, a marca de 5 milhões de toneladas de frango exportados para o resto do mundo, segundo projeções da Associação Brasileira de Proteína Animal.

    Antes da nova parceria, o Brasil já tinha vasta experiência na venda de alimentos com certificação halal, para os países muçulmanos.

    “Não é de forma alguma do interesse do Brasil se afastar de Israel, com o qual nós estamos fazendo bons negócios na área de agroindústria, mas há muito mais do que isso. A tecnologia de Israel interessa tanto ao Brasil quanto à Arábia Saudita. Todos os países querem investimentos de Israel em produtos altamente tecnológicos”, afirma Ferracioli.

    Preço do petróleo e impacto nos investimentos

    Para além da pauta de exportações, analistas têm apontado que o principal impacto da guerra na Faixa de Gaza tende a ser o aumento do preço do petróleo no mercado internacional – principalmente se o conflito se alastrar pela região. A entrada do Irã, apoiador do Hamas, poderia resultar no endurecimento das sanções a Teerã pelos Estados Unidos e seus aliados.

    “Se houver um aumento dos preços, os dos derivados de petróleo também subirão. O Brasil não vai quebrar por isso, mas vai sofrer uma alta de preços no mercado interno, que poderia impactar de forma bastante inconveniente a nossa inflação. Esse é um aspecto importante”, aponta o professor da FGV Management. “Eu não acredito que o Irã vá entrar no conflito, mas a incerteza é grande.”

    Desde o início da guerra, em 7 de outubro, o barril de Brent já acumula alta de 6%, a US$ 86. Na semana passada, o Banco Mundial alertou que, no pior cenário de embargos aos produtores árabes pelos países aliados de Israel, a queda no fornecimento global poderia resultar em um aumento de até 75% do valor, atingindo US$ 150. No cenário mais moderado, chegaria a US$ 102 – com efeitos nefastos para a economia mundial, que ainda briga para conter a inflação pós-pandemia.

    “A partir do momento em que há instabilidade na economia internacional, os investidores se retraem e o comércio é dificultado. Qualquer retração no comércio e nos investimentos internacionais vai ser muito inconveniente para o Brasil”, ressalta Ferracioli.  

    6 min
  • Por que, apesar de avanços, ricos e empresas continuam a sonegar bilhões de impostos pelo mundo

    Um trilhão de dólares, cerca da metade do PIB do Brasil, é o valor que multinacionais continuam a sonegar de impostos pelo mundo, graças a manobras fiscais que as permitem contornar as cobranças, como o registro dos lucros em paraísos fiscais.

    A informação é de um relatório inédito realizado por uma vasta equipe de pesquisadores da Paris School of Economics, sob o comando do economista Gabriel Zucman, discípulo de Thomas Piketty. O relatório Evasão Fiscal Global 2024, divulgado nesta segunda-feira (23) pelo Observatório Fiscal Europeu, faz um balanço dos avanços que foram promovidos no tema desde a crise financeira de 2008, mas aponta que o caminho rumo à transparência continua nebuloso – inclusive dentro da Europa.

    “A evasão das empresas representa, hoje, cerca de US$ 1 trilhão de lucros que são registrados nos paraísos fiscais, mas que aconteceram na verdade na França, na Alemanha ou nos Estados Unidos. E o mais interessante é que essa evasão em massa não se passa em Macau ou no Panamá, mas sim na própria Europa”, explicou Zucman à emissora France Inter. “São a Microsoft ou a Apple que registram dezenas de bilhões de dólares de lucros na Irlanda, mas que na realidade foram realizados na França”, apontou, ressaltando que uma menor arrecadação significa menos investimentos dos Estados em saúde, educação ou no combate às desigualdades.

    O montante também faz falta num momento em que os países ao redor do mundo buscam cobrir a explosão dos gastos dos Estados com a pandemia de coronavírus – e que levou muitos a se endividarem em patamares perigosos, como a própria França.

    Imposto mínimo de 15% ainda tem falhas

    O economista salienta que, desde 2017, a cooperação internacional entre os organismos fiscais deu um salto, sob o impulso de decisões do G20 e da OCDE. A maior transparência permitiu dividir por três as riquezas detidas em paraísos fiscais. Em 2021, 140 países concordaram com a aplicação de uma taxa mínima de 15% sobre os lucros no exterior, algo inédito. Entretanto, as grandes empresas e o bilionários continuam encontrando novas fórmulas para escapar dos impostos.

    “Infelizmente, desde 2021, uma série de desonerações a essa regra foram introduzidas. A mais importante e a mais problemática é uma chamada de ‘desoneração por substância’, que significa que quanto mais uma empresa está implantada num paraíso fiscal, mais ela poderá excluir lucros da cobrança da taxa mínima de 15%”, assinala Zucman à France Inter. “Ou seja, é um convite para enviar ao máximo a atividade para os paraísos fiscais como Irlanda, Suíça ou Holanda.”

    Embora o fim do sigilo bancário e os impostos mínimos sobre as sociedades tenham encerrado décadas de concorrência entre países por menores taxas de impostos, alguns ativos ainda escapam da cobrança, sinaliza o relatório. O documento afirma que a alíquota média paga pelos bilionários oscila apenas entre 0 e 0,5% da fortuna, graças às manobras fiscais que, quase sempre, utilizam empresas de fachada.

    2% de imposto mundial para os 3 mil mais ricos

    “Não gosto de usar casos individuais, mas vou dar um exemplo só para explicar o fenômeno: o da família Arnault, que em 2023 ganhou € 3 bilhões em dividendos graças aos lucros da sociedade LVMH em 2022. Para um acionista normal, teria uma taxa de 30% que se aplicaria aos dividendos. Mas a família Arnault não pagou € 900 milhões em impostos”, afirma Zucman. “Pagou zero, ou quase isso, porque os dividendos são transferidos a holdings, que não são sujeitas ao imposto de renda de pessoas físicas.”

    O relatório Evasão Fiscal Global em 2024 propõe seis medidas para o combate ao problema, entre elas um imposto global de 2% sobre a fortuna dos bilionários. A cobrança recairia sobre menos de 3 mil pessoas no mundo, alegam os pesquisadores, e resultaria em US$ 250 bilhões a mais de arrecadação ao ano para os países.

    Se a proposta fosse estendida às multinacionais, o valor dobraria. “Para dar uma ideia das magnitudes envolvidas, estudos recentes estimam que os países em desenvolvimento precisam de US$ 500 bilhões adicionais por ano para enfrentar os desafios das mudanças climáticas”, salienta o documento.

    7 min
  • Apesar de avanços, ‘choque da maternidade’ ainda bloqueia espaço da mulher no mercado de trabalho

    Pela primeira vez, uma mulher ganhou sozinha um prêmio Nobel de Economia – um marco que, por si só, já reflete as barreiras para a ascensão profissional delas. A professora de Harvard Claudia Goldin foi recompensada pelos estudos sobre o espaço das mulheres no mercado de trabalho e a emancipação das americanas. A distinção reconhece os avanços promovidos nos últimos dois séculos, mas evidencia o quanto a igualdade de gêneros ainda é um objetivo distante, mesmo nos países mais desenvolvidos.

    “Elas se tornaram trabalhadoras, passaram a ter renda para elas e para as suas famílias. A vida delas mudou muito. Mas o mercado de trabalho e as políticas dos governos são, quase sempre, mais lentos para acompanhar isso”, disse Goldin ao ser entrevistada depois do anúncio do Nobel pela emissora Business Today.

    Nas suas pesquisas, apoiadas em documentos, estatísticas e dados empíricos, a economista retraçou a evolução da participação das mulheres no mercado de trabalho e concluiu que cada passo à frente ocorreu na sequência de algum grande evento histórico: guerras mundiais, surgimento dos anticoncepcionais ou, mais recentemente, a pandemia de Covid-19 e a expansão do trabalho remoto.  

    A francesa Dominique Meurs, economista associada do Instituto Nacional de Estudos Demográficos (Ined) e professora da universidade Paris-Nanterre, celebra a vitória do Nobel, mas ressalta que já poderia ter ocorrido há muito tempo.  

    “Faz mais ou menos 10 anos que eu digo que ela tinha que vencer esse prêmio Nobel. Então, ele chega meio tarde, eu acho, porque se trata não apenas de se interessar pelo mercado de mulheres, mas sim de ter uma outra visão do mercado de trabalho, com base em dados, apresentando hipóteses, pesquisando, e percebendo as grandes evoluções que foram acontecendo”, aponta, à RFI. “Hoje olhamos para o mercado de trabalho de uma maneira totalmente diferente. Ela mudou a nossa forma de trabalhar e olhar as coisas.” 

    Mulheres demitidas ao casarem

    Claudia Goldin despertou para o assunto quando descobriu que, nos anos 1920, as mulheres eram sistematicamente demitidas nos Estados Unidos assim que se casavam – fruto de uma lei determinando a prática e que só perdeu força mais de 20 anos depois.

    “Foi no pós-guerra. As empresas precisavam também das mulheres casadas e não podiam mais se dar ao luxo de demitir assistentes, secretárias, só porque elas se casavam. Foi, então, pela pressão da demanda de trabalho nas empresas que as legislações mudaram”, afirma Meurs.

    De lá para cá, a participação das mulheres no mercado de trabalho só cresceu, mas apesar das aparências, elas continuam sem acesso à maioria dos cargos de liderança e ganham, em média, 14% a menos do que os homens em um posto equivalente, nos países da OCDE – ou seja, nas economias mais desenvolvidas do planeta. Nos últimos 10 anos, essa diferença praticamente não caiu, baixando apenas 2%.  

    “Nos países da OCDE, infelizmente, a explicação ainda é bem simples: é o choque das maternidades que leva a uma ruptura na carreira. Para explicar a diferença de salários entre homens e mulheres, não temos mais a diferença de educação, de experiência e nem de profissão, embora este ainda seja um aspecto a se considerar. É a chegada da maternidade e as consequências no ritmo de vida, e o fato de que as normas sociais impõem que as responsabilidades ainda sejam compartilhadas de forma desigual”, frisa a francesa.  

    Os mais disponíveis são os maios recompensados: os homens

    Claudia Goldin estudou particularmente os bloqueios para o reconhecimento das mulheres no mercado altamente qualificado, em que a competição com os pares masculinos se mostra mais cruel, sobretudo se elas têm filhos. São cargos que implicam maior disponibilidade para receber clientes, por exemplo, o que significa jornadas de trabalho mais longas. As empresas tendem a recompensar os funcionários mais disponíveis, que costumam ser os homens.

    Dominique Meurs frisa que a pandemia de Covid também marcou um freio na carreira de muitas mulheres: apesar de elas terem acesso ao trabalho remoto, que viabiliza um maior equilíbrio entre a vida profissional e a familiar, as desigualdades ficam evidentes quando marido e mulher trabalham de casa – com maior impacto na produtividade delas.

    “Homens e mulheres não tiveram e não têm o mesmo teletrabalho. Isso já foi constatado: os homens trabalham sozinhos em uma peça, enquanto as mulheres são multitarefas: se dividem entre a casa, fazem a comida, e o teletrabalho”, salienta.

    A especialista francesa avalia que os próximos passos para avanços devem ser iniciados pelas próprias empresas, a começar por uma maior transparência sobre salários e evolução profissional. Além disso, recomenda mudanças nas estruturas de trabalho, que favoreçam uma maior distribuição das atribuições – para que não sejam sempre os mais disponíveis os maiores beneficiados pelas promoções.

    7 min
  • Como a TV tradicional tem conseguido enfrentar o avanço do streaming

    A disseminação dos serviços de streaming e as mudanças nos hábitos de consumo dos usuários na última década levam a audiência da televisão tradicional a cair a cada ano, no Brasil, nos Estados Unidos ou na Europa. E quando grandes atores do mercado se reposicionam para se adaptar a essa revolução digital, a questão fundamental volta a emergir: a televisão linear está fadada a desaparecer?

    No cenário internacional, a última a mexer as peças no tabuleiro foi a Disney, que passa por um grande processo de reformulações desde que anunciou a intenção de ceder canais de peso como a emissora da TV aberta ABC e os canais a cabo National Geographic e FX. O grupo investiu pesado no streaming, em especial a Disney +, apostando na tendência antecipada por muitos analistas especializados.

    “Tem Disney+, Star+, a ESPN, o Hulu, que eles acabaram de adquirir o controle. O caso da Disney é bem particular: é muito agressivo o investimento que ela faz no streaming e, pelo que temos de informação, esse investimento ainda não teve o retorno esperado – até porque o mercado de streaming não está crescendo na velocidade que alguns analistas previam. Em cima dessas previsões irreais, muitos investimentos foram feitos e eles precisam tirar o dinheiro de algum lugar para cobrir o buraco”, explica Fernando Morgado, professor de cibercultura e inteligência de mercado na ESPM-Rio.

    Ele é um dos que acreditam que, apesar das profundas transformações por que passa o setor de mídia audiovisual, a televisão convencional ainda terá o seu lugar na casa dos telespectadores – mas não da mesma maneira que a consolidou.

    TV mais ao vivo

    Antes, uma parte importante do conteúdo era gravado ou vinha pronto do exterior – os famosos ‘enlatados’. Agora, as plataformas souberam ocupar esse espaço e sobrou para as televisões investirem nos programas ao vivo e locais, além dos de ‘infotainment’, programas que aliam entretenimento com informação.

    “Não vejo esse fim tão cedo. Eu vejo uma complementaridade e parto da ideia da adaptação que os negócios são obrigados a fazer”, avalia. “A TV convencional, como a gente conhecia até uns anos atrás, essa morreu. No lugar dela, surgiu uma nova: mais ao vivo, mais jornalística, e também com mais eventos. Os torneios de futebol estão com os direitos de transmissão nas alturas, com valores que nunca foram alcançados antes – e isso também ajuda a manter um modelo de televisão baseado em horários”, observa.

    Neste aspecto, o especialista observa que a programação ao vivo oferecida pelas emissoras encontra eco no fenômeno da segunda tela: ao mesmo tempo em que o telespectador assiste a um programa, usa o celular para comentar e repercutir com outros no mesmo momento, pelas redes sociais.

    “Isso tem ocupado espaço no mundo inteiro e é realmente um refúgio para os canais lineares, porque o ao vivo dá o senso de urgência, dá a emoção. Existem inclusive estudos que mostram que quando tem um programa de TV com o selo ao vivo, a audiência cresce, em comparação com conteúdo gravado”, salienta.

    YouTube: concorrente ou aliado?

    Quanto às redes sociais, não necessariamente elas devem ser vistas como concorrentes, mas sim como aliadas, ressalta Morgado. Emissoras com recursos mais limitados tem usado a plataforma YouTube para continuar a se desenvolver.

    No Brasil, o SBT se tornou um caso de sucesso mundial de migração dos telespectadores da telinha para a plataforma, sem necessidade de investimentos colossais em tecnologia, como fez a Globo com o Globoplay. Dados da Kantar Ibope Media, que tem feito a aferição da audiência de streaming, apontam que o YouTube já representa 15% da audiência de TV no Brasil.

    “Não precisa pagar e eu diria que é a nova TV aberta, dada a popularidade do conteúdo, a variedade, só que turbinada pela participação do usuário – em que ele também gera conteúdo e não depende apenas de quatro ou cinco redes de TV mais fortes”, complementa Morgado.

    Segundo um relatório da consultoria especializada americana Nielsen, a televisão linear hoje representa menos de 50% do consumo audiovisual nos Estados Unidos, enquanto o streaming – incluindo o YouTube – atinge 38,6% do uso de um aparelho de TV por família no país.

    9 min

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Entrevistas com economistas, analistas de mercado, investidores e políticos, para explicar e comentar questões econômicas internacionais. O papel do Brasil e dos países emergentes na economia…

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