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Enquanto a França faz os últimos preparativos para receber o maior evento esportivo do mundo, economistas calculam a repercussão financeira para Paris e traçam três cenários possíveis. Os Jogos Olímpicos e Paralímpicos Paris 2024 terão um impacto econômico entre 6,7 bilhões e 11,1 bilhões de euros (ou de R$ 37,2 bilhões a R$ 61,4 bilhões, na cotação atual) para a região de Île de France, onde fica a capital e estão concentrados vários locais de competição.
Maria Paula Carvalho, da RFI
O cenário mais provável, segundo um estudo encomendado pelo Comitê Olímpico Internacional e o Comitê Organizador dos Jogos, é de um impacto econômico de € 8.9 bilhões na economia local (cerca de R$ 50 bilhões).
O Centro de Direito e Economia do Esporte (CDES) atualizou as cifras de um estudo realizado em 2016, época da candidatura da França como país-sede, revisando para cima a geração de receitas econômicas que antes estavam entre € 5,3 bilhões e € 10,7 bilhões (R$ 29,4 bilhões a R$ 59,4 bilhões) para a região de Paris.
Porém, medir a repercussão de grandes eventos esportivos é algo complexo e os autores do estudo pedem cautela na interpretação dos resultados.
Christophe Petit, responsável pelos estudos econômicos do CDES, explica que não se trata de medir a "rentabilidade" dos Jogos, que poderá ser avaliada em pesquisa posterior. O impacto econômico de um evento esportivo é um indicador. "Esse valor de 9 bilhões mede o crescimento da atividade econômica gerado pela organização e o acolhimento dos Jogos no território da Île de France e que não teria acontecido se os Jogos não fossem em Paris", analisa. "Porém, não é um estudo sobre a rentabilidade econômica dos Jogos e por isso nós não comparamos o custo dos Jogos, ou de qualquer evento, com o impacto econômico. Se quisermos fazer um estudo de rentabilidade, precisaríamos integrar o impacto econômico, mas também elementos de mais longo prazo, como a transformação de bairros inteiros, o que não foi feito, e analisar os benefícios e custos do ponto de vista social, ambiental inerente aos Jogos", acrescenta.
O estudo faz uma projeção de 17 anos. “Nós analisamos três fases: a preparação de 2018 a 2023, essencialmente marcada pelos investimentos relativos à construção e renovação de infraestruturas; a fase de desenvolvimento, que é marcada pelas despesas operacionais da realização dos Jogos, para acolher os atletas, fornecer os serviços necessários para os que virão trabalhar ou participar dos Jogos, e a fase de legado, de 10 anos após os Jogos, de 2024 a 2034", observa Christophe Petit. "É importante dizer que os dados utilizados são os mais atualizados sobre a preparação e realização dos Jogos, e para a fase de legado usamos hipóteses do estudo anterior, mas corrigimos elementos macroeconômicos, como a inflação”, afirma.
Os setores mais beneficiados são a organização de eventos (€ 3,8 bilhões), seguido da construção civil (€ 2,5 bilhões) e do turismo (€ 2,6 bilhões).
A maior parte dos investimentos estão concentrados na fase de preparação (2018-2023) e realização dos Jogos (2024).
Somente 8% do impacto econômico é previsto na fase de legado (de 2025 a 2034) num cenário pouco otimista, passando a 16% e 17%, respectivamente, num cenário intermediário e alto.
Orçamento de € 4 biOs dados atualizados apontam que o orçamento do Comitê Organizador dos Jogos Olímpicos Paris 2024 é de quase € 4,4 bilhões. Um valor 18% superior ao anunciado no momento da candidatura, devido a atualizações do projeto olímpico e à inflação gerada pela instabilidade geopolítica.
"Esse orçamento é principalmente financiado por dinheiro privado. No caso dos Jogos Olímpicos, 100% dos custos da organização são pagos por dinheiro privado e há uma contribuição de dinheiro público de € 171 milhões para ajudar a pagar a organização dos Jogos Paralímpicos, cujo modelo econômico ainda não proporciona um orçamento equilibrado", diz Tony Estanguet, presidente do Comitê Organizador.
Estanguet ainda explica que os valores gastos em infraestruturas necessárias para a realização dos Jogos Paris 2024 ficaram a cargo da Solideo – empresa responsável pelas obras olímpicas. "E você tem o orçamento da Solideo, que é dos investimentos na construção de infraestruturas que serão utilizadas para os Jogos Olímpicos e que nós seremos os primeiros locatários. São € 4,5 bilhões, na maior parte também de dinheiro privado, mesmo que haja € 1,7 bilhão de recursos públicos no orçamento da Solideo para estas 70 obras, incluindo alojamentos, equipamentos esportivos, escolas, creches. Ficamos felizes que os Jogos possam ser um acelerador de investimentos no nosso território, principalmente em Seine Saint-Denis", conclui.
Ainda que o estudo não seja capaz de medir a transformação gerada a longo prazo (superior a dez anos) em bairros que foram totalmente projetados para o evento, como a nova Vila Olímpica que será explorada futuramente pelo mercado imobiliário, os pesquisadores chegaram à conclusão de que "para cada € 1 investido de dinheiro público nos Jogos Olímpicos Paris 2024, o impacto gerado é de € 3 na economia", segundo Christophe Petit.
Pela primeira vez, a metodologia utilizada para o estudo foi recomendada diretamente pelo Comitê Olímpico Internacional (COI) e será sempre a mesma, a fim de fazer comparações mais confiáveis com as futuras edições dos Jogos.
A cada mês, uma nova fabricante europeia de painéis solares fecha as portas ou decide se mudar para o exterior – e isso em plena transição “verde” nas economias do bloco. A indústria do continente demorou para perceber a revolução que estava por vir, enquanto a China não perdeu tempo. Resultado: o setor de energias renováveis na Europa foi dizimado pela concorrência chinesa, que hoje domina 95% do mercado.
A disseminação de painéis fotovoltaicos pelo campo e pelas cidades europeias é uma transformação recente. Foi acelerada nos últimos 10 anos, depois que o bloco adotou uma série de medidas para implementar, de fato, a transição energética para uma economia de baixo carbono.
Mas diferentemente do que se poderia imaginar, não foram as indústrias europeias que se beneficiaram deste movimento – ao contrário, as fábricas pioneiras de renováveis, abertas há 30 anos, agora não resistem à avalanche dos produtos chineses que inundam o setor, com preços quatro vezes mais baixos.
Em abril, foi a vez de uma das últimas empresas francesas fechar as portas. A Systovi, no oeste do país, deixa para trás 87 funcionários.
Gaëtan Masson, co-presidente do Conselho Europeu de Fabricantes de Solares (ESMC, na sigla em inglês), não se surpreende. A entidade reúne cerca de 80 empresas do setor.
“O caso da Systovi é típico na Europa hoje: um ator pequeno confrontado a gigantes chineses. Um dos principais problemas que atingem os europeus é a ausência de uma economia em escala, na comparação com os chineses. Produzimos mais ou menos as mesmas quantidades de 10 ou 15 anos atrás, mas o mercado mundial foi multiplicado por 50”, explica.
China adotou plano estratégico para liderar produção mundialNo começo dos anos 2010, o governo do país asiático adotou um plano estratégico de desenvolvimento do setor, fortemente subsidiado e que beneficia toda a cadeia de renováveis: eólicas, veículos elétricos, baterias e eletrolisadores. A demanda, entretanto, levou mais tempo para acompanhar a explosão da oferta, o que explica os valores tão baixos praticados hoje.
“Atores de nicho que sobreviviam na Europa se encontram em uma situação em que simplesmente não conseguem mais vender seus produtores a tarifas que os possibilitem continuam funcionando. Podemos esperar novas falências na Europa nos próximos meses e anos, principalmente das pequenas e médias empresas”, lamenta Masson.
A concorrência de Pequim não é a única a ameaçar as indústrias europeias. Os subsídios bilionários do governo americano para o setor também têm atraído empresas do bloco, a exemplo da maior fabricante na Alemanha de fotovoltaicos, a suíça Meyer Burger, que transferiu as linhas de produção para os Estados Unidos em março. Quinhentos empregos foram suprimidos na Alemanha – país que, até a ascensão chinesa, era líder mundial de fotovoltaicos.
Salvar o setor não será fácil. A reação europeia a esta conjuntura está curso, mas será de médio prazo. A nova Lei da Indústria com Emissão Zero, aprovada em fevereiro, visa restringir pelo menos uma parte do mercado europeu às importações, como nos contratos públicos e nas licitações. A regulamentação beneficia 19 tecnologias – além das ligadas às energias solar e eólica, também a nuclear, a captura e o estoque de carbono e biotecnologias, entre outras.
Reação europeia veio tarde e será lentaA expectativa é que, até 2030, 40% dos painéis fotovoltaicos vendidos na União Europeia tenham sido fabricados no bloco. Para atingir este objetivo, será necessário privilegiar as grandes indústrias, capazes de produzir em massa, esclarece Gaëtan Masson.
“Uma vez que um certo número de atores conseguirão se desenvolver, poderemos ter um diferencial de competitividade em relação aos chineses. Levará alguns anos para eles crescerem – não conseguiremos chegar a usinas de 5 gigawatts de um dia para outro”, salienta o representante do setor. “Mas o direcionamento está bom, parecemos contar com a vontade política em muitos países e com um apoio de peso da Comissão Europeia.”
Analistas têm alertado que, mesmo assim, os europeus não conseguirão chegar aos pés dos volumes produzidos nos Estados Unidos ou na China – ainda mais se Pequim concretizar o plano de fabricar o dobro do que o mundo inteiro instala atualmente.
Além disso, dentro da própria Europa não há consenso sobre até que ponto esta indústria deveria ser resgatada. No dilema entre manter o ritmo da expansão da transição energética graças aos produtos chineses ou salvar as fabricantes europeias, muitas empreiteiras, além de países como a Suécia, têm preferido a primeira opção.
Na busca por um terceiro mandato, o primeiro-ministro da Índia, Narendra Modi, repete que o país se tornará a terceira maior economia nos próximos três anos e, em duas décadas, será uma nação desenvolvida. O crescimento espetacular da economia indiana nos últimos 10 anos deu um peso inédito ao país na geopolítica internacional – mas, apesar dos avanços, Nova Déli ainda enfrenta desafios profundos para se tornar a superpotência que almeja.
O PIB indiano passou de US$ 3,7 trilhões em 2023, ou a quinta maior economia global, conforme o Fundo Monetário Internacional (FMI). Apoiada em uma força de trabalho excepcional, com uma população jovem de 1,4 bilhão de habitantes, o país registra há vários anos um crescimento superior ao chinês. Nesse ritmo, a economia indiana deve ultrapassar a japonesa e a alemã até 2027, e se posicionar atrás de China e Estados Unidos.
Entretanto, o PIB por habitante segue um dos mais baixos do mundo: a Índia abriga a metade dos pobres do planeta, salienta o pesquisador francês Jean-Joseph Boillot, especialista nas economistas emergentes do Instituto de Pesquisas em Relações Internacionais e Estratégicas (Iris), em Paris.
“Não é porque você tem uma massa econômica considerável que a sua economia, do ponto de vista qualitativo, tem um bom nível. No caso indiano, como o país não consegue gerar empregos suficientes de qualidade e a taxa de subemprego chega a cerca da metade da população jovem – o que conduz a uma forte emigração –, o crescimento de mais de 6% em média nos últimos 10 anos não basta para reduzir a pobreza em massa”, afirma o autor de livros como A Economia da Índia e Chindiafrique. Para ele, o país sequer está em vias de desenvolvimento, uma vez que a metade da população indiana vive em favelas e apenas um terço têm acesso à água potável.
Indústria barata e mão de obra pouco qualificadaCom mão de obra barata e abundante, investimentos pesados em infraestruturas e na chamada indústria do offshore digital, Nova Déli sonha em destronar a vizinha China do posto de locomotiva industrial mundial. Essa economia, acelerada com incentivos fiscais a companhias estrangeiras como Apple e Samsung na periferia de cidades como Bangalore e a capital, movimentou US$ 250 bilhões no ano passado.
Entretanto, faltou ao país a estratégia de base de qualificar os trabalhadores para atenderem a demandas mais complexas e impulsionar a classe média – ao contrário do que promoveu Pequim a partir dos anos 1960, aponta Boillot.
“Esta fábula – porque é realmente uma fábula que está sendo vendida nos mercados, sob impulso do regime indiano – diz que agora existe uma alternativa à China e que a indústria manufatureira indiana poderá substituir a chinesa. Essa é evidentemente uma história construída do início ao fim: a manufatura indiana representa cerca de um vigésimo da chinesa hoje”, ressalta o especialista francês. “Não há, na Índia, grandes polos industriais como os que a China conseguiu fazer, baseada nos modelos coreanos e japoneses.”
Reequilíbrio de forçasAssim, a China continua a concentrar 50% do PIB asiático, bem à frente da Índia, com 10%. Mas apesar dessas diferenças estruturais, a ascensão indiana trouxe um reequilíbrio de forças na geopolítica internacional. O Ocidente busca se aproximar de Nova Déli para contrapor a expansão e a influência chinesas no mundo.
“É a razão pela qual temos visto a China avançar na direção da América Latina, por exemplo, para se blindar desta nova configuração, e também por quê, no contexto do Brics, temos visto Pequim pressionar para ampliar o grupo e assim diluir o peso da Índia”, explica.
“Troco mesinha de centro por pack de leite integral”. “Doo brincos em troca de pacote de biscoitos ou purê de frutas”. “Veja abaixo a lista de objetos que eu troco por qualquer produto alimentar”. Os anúncios, publicados em grupos no Facebook por mães solo, ilustram uma das faces mais visíveis do aumento da pobreza na França, em alta regular desde os anos 2000.
As mães solteiras estão na linha de frente face ao aumento generalizado dos preços, depois que a inflação na Europa atingiu picos não vistos havia décadas. Nos diversos relatórios sobre a pobreza publicados por instituições francesas, elas estão hiper-representadas na comparação com outras populações, inclusive as mais vulneráveis, como os desempregados.
Com a expansão da economia circular e do comércio de produtos de segunda mão, afloraram diversos grupos na internet para facilitar a troca de produtos entre pessoas. A surpresa foi ver que, em vez de buscar por boas oportunidades, muitas mães recorrem a estes espaços para conseguir trazer comida à mesa dos filhos, oferecendo o que dispõem em casa contra produtos alimentares básicos, como leite e farinha.
Dorotée, 43 anos, moradora da região parisiense, conta que não precisa mais comprar roupas para os dois filhos – consegue o que precisa com trocas na internet. Mas também se acostumou a ajudar outras mães em situação financeira mais delicada que a dela.
“Tem claramente pessoas necessitadas, que buscam coisas específicas e não têm dinheiro para comprar. Vejo inclusive algumas que estão grávidas e já se preocupam como vão fazer no nascimento da criança”, relata. “Vejo cada vez mais perfis assim.”
Mais atingidas do que a médiaO economista Pierre Concialdi, pesquisador sobre o combate à pobreza no Instituto de Pesquisas Econômicas e Sociais (Ires), afirma que pouco menos de um terço das famílias monoparentais estão em situação de pobreza no país. “Isso é 2,5 vezes a mais do que a média das famílias, e é algo que acontece há muito tempo”, salienta o especialista.
“Sabemos que quando só tem um salário na casa e ainda há despesas com filhos, é quase impossível conseguir pagar todas as contas no fim do mês. Então elas estão, sim, na linha de frente deste problema, ao lado de populações como os desempregados, pessoas com empregos precários ou que estão afastadas do mercado por invalidez”, aponta o pesquisador.
A “invasão” dessas mães nos grupos de troca no Facebook nem sempre é bem-recebida pelos administradores das páginas. Alguns moderadores preferem relembrar que o objetivo dos grupos não é substituir as instituições de assistência social – que nos últimos anos, vêm alertando sobre o aumento constante da demanda por ajuda.
De acordo com os últimos dados oficiais do Insee (Instituto Nacional de Estatísticas e Estudos Econômicos), relativos a 2021, 14,5% da população francesa está abaixo da linha pobreza.
“O nível está historicamente elevado. Precisamos voltar 40 anos no tempo para encontrar um índice tão alto”, frisa Concialdi. “Embora a inflação tenha restringido os gastos das famílias, esse fenômeno não é conjuntural. Ele não ocorre por causa da alta dos preços: a pobreza e a precariedade se instalaram ao longo do tempo, na França, há alguns anos.”
Salário-mínimo pressionadoA expectativa é que o quadro tenha piorado no ano passado, devido ao impacto duradouro da inflação no orçamento das famílias mais modestas, já que os salários não subiram no mesmo ritmo. Essa dinâmica favorece ao que está sendo apelidado de “salário-minimização” do mercado de trabalho no país: em dois anos, o número de pessoas que recebem um salário mínimo subiu quase 50%, passando de 12% para 17,3% dos trabalhadores, no período de três anos.
“Isso não seria um problema se o nível do salário mínimo fosse satisfatório, mas um certo número de indicadores nos mostram que não é o caso. Nossas pesquisas mostram que nem um casal remunerado com o salário mínimo e sem filhos consegue ter um nível de vida mínimo decente. Uma pessoa sozinha não consegue e, ainda menos, uma mãe sozinha”, explica o economista.
Atualmente, o governo avalia promover compensações fiscais para estimular o aumento dos salários. Mas o especialista observa que, desde a eleição de Emmanuel Macron, em 2017, cortes nas políticas sociais ajudam a explicar o aumento da pobreza no país. A mais recente visa restringir, pela terceira vez, o acesso ao seguro-desemprego.
“Para dar uma ordem de grandeza, hoje a média de benefícios sociais recebidos por pessoa beneficiada é € 800 menor por ano, em relação a 2017”, salienta Concialdi. “Isso é muito importante porque, no sistema francês, a ajuda para a moradia é o fator que mais contribui para o combate à pobreza. Sem ela, as famílias vulneráveis entram em situação de estrangulamento financeiro, ao gastar mais de 40% da sua renda só para a habitação.”
As contas públicas da França estão em pior situação do que o governo esperava: o déficit em 2023 chegou a 5,5% do Produto Interno Bruto, 0,6% a mais do que o previsto. Além disso, a França ainda é um dos únicos seis países da União Europeia com endividamento público superior a 100% do PIB nacional (111,6%). Os resultados colocam Paris nas últimas posições no ranking do equilíbrio fiscal no bloco e levam o país a mexer em um de seus tabus: o corte de gastos sociais e de saúde.
Na escolha entre aumentar as receitas ou diminuir as despesas, o governo tem optado pela segunda opção. Os franceses se beneficiam de um dos sistemas sociais mais generosos do mundo, mas restrições ao acesso universal à saúde vêm sendo impostas progressivamente. Assim, desde o último 31 de março, a contribuição financeira dos pacientes para cada consulta paramédica – como fisioterapeutas ou enfermeiros – ou na compra de uma caixa de medicamentos passou de € 0,50 para € 1. Já a subvenção dos transportes sanitários, que permitem a doentes terem acesso a táxis, caiu pela metade.
Graças às mudanças, o governo espera uma economia de € 360 milhões ao ano. Em uma entrevista à emissora francesa RMC, o ministro da Economia e das Finanças, Bruno Le Maire, disse que a compra de medicamentos "não pode ser um open bar”.
Sinalização para investidoresO analista Bruno de Moura Fernandes, head de macroeconomia da seguradora Coface, lembra que o país teria margem para cortes, já que está no topo da lista dos gastos públicos na Europa. Ele avalia que as decisões recentes visam enviar uma mensagem para os mercados financeiros.
“Acho que são anúncios mais para as agências [de avaliação de crédito], para dizer que ‘nós estamos dispostos a tocar no nosso sistema social’”, afirma. “O problema é que estamos numa fase em que vai ser muito difícil reduzir as despesas de investimentos na transição ecológica, de defesa, por causa da guerra na Ucrânia, e no digital, ao mesmo tempo em que precisamos diminuir o déficit. O governo está frente a uma equação difícil, por isso já anuncia que vai reduzir algumas despesas sociais.”
Em março, Paris já havia promovido uma nova reforma das regras de acesso ao seguro-desemprego, cuja duração passou a ser indexada ao índice oficial de desemprego no país. Na prática, isso significa que o limite máximo para o recebimento do benefício passa de 24 para 18 meses. Foi a terceiro aperto das regras em quatro anos.
A França é o país europeu que mais gasta com benefícios sociais, num total de € 849 bilhões em 2022, ou 32% do seu PIB. O valor destinado à saúde também é o maior no bloco, ao consumir 10% do total de riquezas francesas.
Impacto da Covid-19A degradação das contas públicas se aprofundou na sequência da crise da Covid-19, quando o país adotou a política arriscada de manter a economia funcionando “custe o que custar”. Ao final de três anos, o montante para enfrentar o choque da pandemia chegou a € 170 bilhões.
Só que, nos anos seguintes, a economia não cresceu como esperado. A arrecadação caiu, em vez de subir para compensar o rombo da Covid. O cenário atual é visto como preocupante e a redução da nota de crédito da França não está descartada, observa Moura Fernandes.
“É muito possível”, indica. “A dívida é sustentável enquanto os investidores acreditam que ela é. Se as taxas de juros começam a subir muito, as despesas com os juros também sobem e a dívida fica ainda mais difícil, como foi o caso da Itália.”
Queda de impostos é ‘dogma’ de MacronO Ministério da Economia e das Finanças mantém a determinação de reduzir o déficit a 3% até 2027, e assim se adequar à determinação europeia, mas descarta mexer na carga tributária para aumentar as receitas. A redução dos impostos é um dogma do presidente Emmanuel Macron desde a sua eleição, em 2017.
O economista Henri Sterdyniak, do Observatório Francês de Conjuntura Econômica, ressalta que os cortes de impostos daquele ano até 2020 tiveram um impacto de € 70 bilhões no orçamento – justamente o valor estimado para a França atingir a meta de 3% estabelecida por Bruxelas.
“Vai ser extremamente difícil encontrar esse dinheiro, uma vez que o governo se recusa a voltar atrás sobre essas diminuições de impostos, a taxar mais os ricos ou as empresas que registram altos lucros”, salienta. “Também poderíamos esperar mais crescimento, o que geraria mais arrecadação e diminuiria, relativamente, o peso do déficit. Só que não estamos nesta trajetória. Então vai ser muito, muito difícil”, avalia Sterdyniak.
Os planos de cortes de gastos já revelados chegam a € 20 bilhões. Em paralelo, em março, o governo francês anunciou que um programa para identificar fraudes fiscais e sociais resultou em € 15 bilhões de receitas suplementares em 2023.
Mais de 10 anos depois da última visita oficial de um presidente francês ao Brasil, Emmanuel Macron desembarca na próxima terça-feira (26) em Belém, onde será recebido pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Nos três dias de viagem, França e Brasil esperam um impulso das parcerias bilaterais, com a expectativa de assinatura de pelo menos 10 contratos em áreas como energia, tecnologia e segurança.
Apesar das afinidades entre os dois líderes, divergências importantes mancharam a reaproximação de ambos os países desde a eleição de Lula. Os quatro anos de mandato de Jair Bolsonaro, na sequência do mandato-tampão de Michel Temer, marcaram um resfriamento inédito desta relação de mais de 200 anos de amizade, alçada ao nível de parceria estratégica desde 2006.
Macron, no poder desde 2017, demonstrou interesse limitado pela América Latina no seu conjunto: ele é o único presidente francês a não ter realizado nenhuma visita oficial aos países da região, jejum que agora será rompido no Brasil.
“Antes tarde do que nunca. Eu diria que é uma visita necessária, em que ele estará acompanhado de uma delegação de empresas francesas, organizada pelo movimento das empresas da França em parceria com a CNI, afinal tem um aspecto econômico bilateral muito importante nesta viagem: o Brasil é o principal mercado de investimentos diretos da França em países emergentes”, frisa Stéphane Witkowski, presidente do Bale Conseil e respeitado consultor sobre o Brasil ao meio empresarial francês.
Se, por um lado, a volta ao poder de Lula em 2023 foi celebrada por Paris, desde então o posicionamento antagônico entre o petista e Macron sobre o acordo comercial entre a União Europeia e o Mercosul, além de outros temas da geopolítica internacional como a guerra na Ucrânia, não favoreceram uma retomada tão frutuosa quanto a imaginada. Em janeiro, a presidência francesa chegou a anunciar o encerramento das negociações do tratado com o Mercosul – bloqueadas, em grande parte, pela oposição aberta de Paris.
Oposição francesa ao acordo com o MercosulWitkowski, que também preside o Conselho de Orientação Estratégica do Instituto de Altos Estudos da América Latina (IHEAL-Paris), afirma que ao contrário do meio agrícola, os industriais franceses não veem a hora de o texto ser ratificado.
“Eu tenho a convicção de que os dois presidentes são inteligentes e entendem as preocupações de cada lado. Macron hoje diz que se opõe ao acordo da maneira como ele está colocado, mas quando ele foi eleito, estava totalmente a favor deste tratado”, ressalta. "Do ponto de vista dos interesses da França a longo prazo, o acordo é importante. Muitas empresas querem que ele aconteça, pelas oportunidades que abre em infraestrutura, comércio, energia, indústria – na França como em outros países, como Espanha, Alemanha ou Portugal”, aponta.
As recentes manifestações de agricultores europeus contra o acordo somadas à proximidade das eleições parlamentares europeias, em junho, fazem que com que “não tenha clima” para o presidente francês voltar a se pronunciar em favor do texto, reconhece uma fonte da diplomacia brasileira, garantindo que esse imbróglio “não azeda” as relações entre os dois líderes.
Embora os franceses estejam entre os maiores empregadores estrangeiros no Brasil, com mais de 1,1 mil empresas francesas instaladas no país, a balança comercial bilateral é baixa e relativamente estável há vários anos. Foram € 8,4 bilhões em 2023, o que coloca o Brasil no 34º lugar na lista de parceiros comerciais da França. No sentido inverso, os franceses são ocupam a 27ª posição entre os fornecedores do Brasil.
Potencial na economia verdeAtualmente, os franceses são os quartos maiores investidores estrangeiros diretos no Brasil, de perfil diversificado. O potencial de ampliação é grande, em especial nos setores ligados à economia verde, com conversas sobre projetos de produção de hidrogênio e em energias renováveis, além de gás e até nuclear.
A França é um player mundial importante, mas a concorrência internacional é cada vez maior – com destaque para o avanço da China, maior parceira comercial do Brasil, na economia da sustentabilidade. “Faltava um impulso político, e espero que não seja apenas uma visita e seja uma ação mais estruturada, com um programa bilateral ativo, a participação de ministros e instituições – inclusive porque a estratégia chinesa na América Latina deveria ser um argumento suplementar para a França querer fechar o acordo com o Mercosul”, observa Witkowski. “Se ele não for concluído positivamente, os chineses vão ocupar ainda mais esse espaço.”
Está no radar a assinatura de um contrato entre a Origem Energia e a gigante francesa Engie, para viabilizar a estocagem subterrânea de gás natural na bacia de Sergipe. Atualmente, o gás é reinjetado no subsolo devido à falta de infraestruturas para escoá-lo.
Agenda no BrasilDepois de Belém, sede da COP30 em 2025, Lula acompanhará Macron em visita à base naval de Itaguaí, no Rio de Janeiro, onde são finalizados dois submarinos da Marinha em cooperação técnica com a Naval Group francesa, além de um terceiro a propulsão nuclear. Outros dois submarinos convencionais já foram entregues.
Em seguida, o líder francês viaja para São Paulo, onde participa de um fórum empresarial na Fiesp, com cerca de 300 empresários dos dois países, e encerrará a viagem com uma visita de Estado à capital federal. Em Brasília, Macron será recebido com honras por Lula e visitará o Senado.
A viagem acontece no ano em que o Brasil exerce a presidência rotativa do G20. Paris apoia as prioridades da agenda brasileira: combate à pobreza e à fome e aumento dos investimentos na transição ecológica. O último presidente francês que esteve no Brasil foi o socialista François Hollande, em dezembro de 2013.
Apesar da inflação alta, que corroeu o poder de compra dos franceses nos últimos três anos, uma nova lei acaba de limitar o direito dos supermercados de promoverem grandes promoções nos produtos de higiene e limpeza. A partir de 1º de março, o varejo não pode mais oferecer produtos com mais de 34% de desconto nestas categorias – uma medida que levou os consumidores a fazerem estoques preventivos, antes da entrada em vigor da polêmica legislação.
O objetivo é proteger os fabricantes franceses da pressão por preços cada vez mais baixos, exercida por grandes varejistas como Carrefour e Leclerc. No contexto inflacionário, para poderem vender mais barato, os hipermercados têm exigido cortes nos valores praticados pelos produtores – uma das razões que motivaram os recentes protestos de agricultores na França.
Entretanto, a alimentação ficou de fora da nova norma. A lei visou apenas os produtos industriais de higiene e limpeza – prateleiras onde são comuns grandes promoções para compras em volume, do tipo “pague um e leve três”.
Na imprensa, a limitação dos descontos a no máximo 34% de redução foi criticada. Na emissora francesa TF1, a principal do país, o economista e editorialista François Lenglet denunciou o “exagero” de novas leis para regulamentar a economia do país – com efeitos nem sempre bem-vindos, segundo ele.
“Para que um golpe como este no poder aquisitivo dos franceses? Os deputados querem proteger os lucros dos pequenos industriais franceses, mas o problema é que este mercado é dominado pelas multinacionais americanas ou britânicas, como a Unilever”, alegou. “São os acionistas delas que vão agradecer aos nossos parlamentares. Essa lei protege, na realidade, os lucros das grandes empresas.”
Competição pelos maiores descontosDias antes da entrada em vigor da nova regulamentação, as grandes redes do país se lançaram numa corrida de qual faria a maior promoção, chegando a descontos de 80%. Mensagens como “compre antes que a promoção seja proibida” acompanharam os cartazes em letras garrafais.
No sul da França, a consumidora Sylvie P. decidiu fazer estoque quando soube da mudança iminente. “Estou com quantidades industriais agora. Ouvi dizer que os preços iriam subir, já que não teremos mais direito a promoções, então comprei pasta de dentes, sabão para a roupa, produtos de limpeza, tudo que eu pude. Encontrei coisas realmente interessantes, a -70%”, disse.
Sylvie conta que sequer tem o hábito de buscar o melhor desconto, mas vai procurar ficar mais atenta a partir de agora. “Vamos ter que olhar melhor nas lojas e procurar onde está mais barato, porque 30% é pouco”, lamenta.
Negociações de preçosA lei “para reforçar o equilíbrio entre os fornecedores e os distribuidores” é um projeto do deputado centrista Frédéric Descozaille, do partido do presidente Emmanuel Macron. Ao defender o texto, o deputado afirmou que a limitação das promoções “protege empregos” e argumentou que a corrida por preços baixos ameaça a sobrevivência de indústrias locais, inclusive as filiais francesas de marcas internacionais.
A nova lei também favorece os fabricantes no momento das negociações anuais de preços com o varejo: se ambos não chegam a um acordo, os supermercados não poderão mais continuar aplicando as tarifas anteriores e os produtores poderão decidir suspender as entregas.
Em um contexto de profundas divisões na geopolítica internacional, o Brasil deve deixar de lado os conflitos que abalam o mundo e tentar emplacar o combate às desigualdades e a reforma das instituições multilaterais como pauta prioritária na agenda do G20 em 2024. O ministro da Fazenda, Fernando Haddad, e o presidente do Banco Central, Roberto Campos Neto, lideram a primeira reunião dos ministros das Finanças e presidentes dos Bancos Centrais do grupo, em dois dias de encontros em São Paulo nesta quarta (28) e quinta-feiras (29).
Os diálogos balizarão a sequência de encontros que ocorrerão ao longo do ano, até a cúpula de chefes de Estado e de Governo, em novembro, no Rio de Janeiro. O G20 reúne as 19 maiores economias do planeta mais a União Europeia e a União Africana, recém ingressa no clube.
"Temos que lembrar que o G20 não é uma instância deliberativa, ou seja, só pode fazer propostas sobre os grandes temas da atualidade. Acho que os países até endossam a ideia de que é preciso fazer reformas no sistema multilateral, no Fundo Monetário Internacional ou na OMC, o problema é conseguir que isso aconteça – e a gente sabe que esses organismos refletem muito a correlação de força que existe entre os países”, salienta a professora de Economia Internacional Lia Valls Pereira, da Universidade Estadual do Rio de Janeiro (UERJ).
"Para fazer qualquer reforma, os grandes países têm que querer. Sem a anuência de Estados Unidos, União Europeia, China, Japão ou Rússia, nada acontece”, diz Pereira, também membro do Centro Brasileiro de Relações Internacionais (Cebri).
Focos de tensão devem ser minimizadosAs guerras na Ucrânia e em Gaza, que cristalizam diferenças que já vinham afastando os membros do grupo nos últimos anos, podem ter apenas uma breve menção na declaração final do evento.
Já o enfrentamento das desigualdades interliga os quatro focos da rodada de reuniões: política econômica, diagnóstico da economia global com ênfase na geração de crescimento, tributação internacional e dívidas nacionais e impactos para o financiamento do desenvolvimento sustentável.
"Nós esperamos que essas discussões que ocorrerão em nível ministerial nos deem oportunidade para a troca de ideias mas também para avançar concretamente na formação de consensos que propiciem a mobilização maciça de recursos domésticos e internacionais, para um crescimento sustentável, equilibrado e inclusivo”, explicou a secretária de Assuntos Internacionais do ministério brasileiro e coordenadora da Trilha de Finanças do G20, Tatiana Rosito, em um briefing à imprensa.
Taxação de super-ricosO economista francês Gabriel Zucman, cofundador do European Tax Observer e especialista em evasão fiscal, avalia que a presidência brasileira do G20, sob Lula, representa uma “oportunidade histórica” de os países avançarem em um acordo global para aumentar a tributação das riquezas.
No ano passado, a entidade revelou que artifícios como evasão fiscal, ocultação de patrimônio e uso de paraísos fiscais fazem com que, em média, os mais ricos sejam submetidos a no máximo 0,5% de alíquota de impostos. Por outro lado, os impostos elevados sobre o consumo corroem o poder de compra dos mais pobres.
A maior tributação de ricos, mas também de multinacionais, pode encontrar eco junto aos parceiros do G20 em um momento de desaceleração do crescimento mundial, pressões de dívidas nas alturas e inflação que também segue persistente. O ministro Haddad já antecipou que o Brasil proporia uma regulamentação sobre o tema.
“Esse é um exemplo do que depende muito da vontade dos países. Eu acho que vai ser muito difícil. Talvez seja do interesse dos países mais ricos, afinal evita evasão fiscal. Mas e todos aqueles que se aproveitam da evasão?”, afirma Lia Valls Pereira.
Integração de fluxos financeiros internacionaisNo âmbito dos Bancos Centrais, as discussões devem se focar na governança dos sistemas de pagamentos internacionais – o que contribui para combater a sonegação fiscal, mas também melhorar os fluxos financeiros, inclusive de financiamento, para os países em desenvolvimento. São esperados avanços na ampliação do acesso aos bancos de desenvolvimento, principalmente para subsidiar a transição ecológica.
No campo da cooperação financeira, que dialoga com o da inovação, a expansão das moedas digitais nacionais e a interligação de pagamentos instantâneos tipo Pix entre os países ainda enfrenta restrições das grandes economias.
"Qualquer cooperação internacional implica em você abrir um pouco a mão da sua autonomia, no sentido de que você não poderá mais decidir tudo unilateralmente. A tensão entre Estados Unidos e China torna mais difícil você desenvolver esses mecanismos, em algumas instâncias”, aponta a pesquisadora. "E não só esses dois: a Índia hoje é extremamente importante e na OMC, por exemplo, ela têm visões diferentes do Brasil. É muito mais protecionista na questão agrícola, resiste mais a fazer acordos”, ressalta.
O presidente brasileiro, Luiz Inácio Lula da Silva, realiza a partir desta quarta (14) a segunda visita à África em um intervalo de apenas seis meses, em busca de uma maior aproximação com o continente africano – uma cooperação que, apesar dos laços históricos que unem os dois lados, até hoje não decolou como poderia. As viagens ao Egito e à Etiópia têm foco mais político, mas também buscam ampliar parcerias comerciais com os dois novos membros do Brics e fomentar novas oportunidades com a União Africana.
O Egito, segunda maior economia do continente, é o principal parceiro comercial do Brasil na região. Já na Etiópia, Lula foi convidado a participar da cúpula do bloco africano, do qual fazem parte 54 nações e cuja sede fica em Adis Abeba, capital etíope. O grupo acaba de entrar no G20, do qual o Brasil exerce a presidência este ano.
Nos três dias em que estará no país, o presidente ainda terá uma série de reuniões bilaterais com outros líderes africanos – uma ocasião para promover novos acordos e parcerias.
“Isso é estratégico para o nosso país e para a liderança que Lula quer exercer no chamado Sul global. O continente africano é uma frente de expansão que vem sendo disputada por várias forças internacionais que tem oferecido, de modo prospectivo, uma ampla possibilidade de expansão de mercado”, ressalta o professor da Unicamp Kauê Lopes dos Santos, que também é pesquisador visitante na London School of Economics, da Inglaterra. “O Brasil consolidou há décadas uma agenda internacional de cooperação Sul-Sul. Ao longo dos governos Lula 1 e 2, o país fez uma série de acordos, principalmente nas áreas de agricultura e medicina tropical”, relembra.
‘Entra e sai’ na África abalou credibilidade do paísMas desde então, essa interação andou devagar. Ao retornar ao poder para o terceiro mandato, o petista ressaltou que promoveria a 'volta' do país ao continente, num contexto em que outras potências emergentes – como China, Índia, Rússia e Turquia – ampliaram como nunca as parcerias comerciais e investimentos diretos nos países africanos, na última década. Os chineses se transformaram nos maiores fornecedores de uma gama variada de produtos à África, de matérias-primas a bens industriais, além de financiarem uma série de projetos de infraestrutura nos países africanos.
Na comparação, as trocas com o Brasil são moderadas: apenas 3,8% das exportações brasileiras em 2022 foram para a região, ou US$ 12,8 bilhões. Esse índice se mantém praticamente estável desde o início dos anos 2010.
Gustavo de Carvalho, pesquisador sênior em Governança Africana e Diplomacia no Instituto Sul-Africano de Assuntos Internacionais (SAIIA) vive há mais de 15 anos no continente. Ele nota que, neste período, viu muitas promessas dos dirigentes brasileiros não se concretizarem.
“Teve um problema de continuidade que não começou no governo Bolsonaro, uma continuidade de um interesse muito mais reduzido no continente africano nos anos 2010, desde o governo Dilma. E também teve uma questão de narrativas: nos anos 2000, o Brasil desenvolveu uma narrativa de cooperação Sul-Sul sofisticada, que atraiu muito interesse. Mas muitas vezes os efeitos práticos foram mais limitados”, explica Carvalho.
“Esse entra e sai do Brasil, que parece uma montanha-russa nas relações entre o Brasil e a África, tira a credibilidade do país como um parceiro consistente. A mudança brusca, em relação aos anos 2000, e acentuada durante o governo Bolsonaro, não causou uma boa imagem do Brasil por aqui, neste sentido.”
Oportunidades em um continente dinâmicoCarvalho lembra que algumas das economias que mais crescem no mundo estão no continente, com seus 1,4 bilhões de habitantes. Além disso, a União Africana está em processo de implementação de uma zona de livre comércio entre os países-membros, que representa também novas oportunidades para parceiros externos como o Brasil,
“Se nós olharmos o crescimento de comércio entre a África e o Brasil, tem aumentado, obviamente, principalmente com países como Egito, África do Sul, Argélia e Marrocos. Mas também temos algumas expectativas certamente frustradas, desde a última visita do presidente Lula à África”, pondera o consultor. “Precisamos de anúncios mais claros, oportunidades de engajamento além dos que já existem, considerando que o Brasil não está entrando em um vácuo: existe uma certa competição geopolítica que tem os seus impactos geoeconômicos dentro do continente, com relação a investimentos e não só trocas comerciais, mas investimentos diretos, em que o Brasil diminuiu bastante a sua presença nos últimos 15 anos.”
Kauê dos Santos salienta que quase a totalidade dos países africanos tem apresentado melhoras significativas dos seus índices socioeconômicos, graças ao boom das commodities, mas também ao desenvolvimento das estruturas de governança, das forças produtivas e das políticas sociais nas principais economias. “Egito e Etiópia são países estratégicos dentro do continente – desde a posição geográfica que eles ocupam até o impacto econômico e político que eles têm dentro do continente. O Egito ainda tem a particularidade de além de ter uma identidade africana, também tem com o mundo árabe – ou seja, é uma frente importante da influência brasileira para essa outra região”, destaca Santos, autor de Africano: Uma introdução ao continente.
Neste sentido, os projetos já desenvolvidos pelo Brasil no passado têm uma vantagem: valorizam a formação de quadros locais, o que contribui para o desenvolvimento dos países onde acontecem os projetos. “Você não vai ter a construção de uma obra, a manutenção de uma ponte ou a reforma de um aeroporto feitos só com trabalhadores brasileiros. O Brasil se preocupa com a formação de quadros estratégicos e profissionalização dos trabalhadores também nesses lugares. Não é o que a China faz, por exemplo.”
Não há pandemia, guerra ou crise econômica que faça o setor do luxo desacelerar – que o diga francês Bernard Arnault, CEO do grupo LVMH, dono de marcas como Louis Vuitton, Dior ou Tiffany. O bilionário voltou destronar o americano Elon Musk no posto de homem mais rico do mundo graças aos resultados do conglomerado francês em 2023, que levaram a bolsa de Paris a bater um recorde absoluto na sessão da última sexta-feira (26), a 7.634 pontos.
A valorização do LVMH passou dos 12%, a maior capitalização já vista na França, após a empresa registrar alta de 9% das vendas e 8% dos lucros, “apesar do contexto perturbado” nos mercados internacionais, ressalta o comunicado do grupo. O único tropeço, a desaceleração da economia China no terceiro trimestre, não foi suficiente para o desempenho esfriar – algo que tem se repetido a cada nova crise que o resto do mundo enfrenta.
A solidez do mercado chinês, que levou o luxo a crescimentos estratosférico nos anos 2010, trouxe incertezas em 2023. Mesmo assim, as vendas no país seguiram em alta de no mínimo 3% ao longo do ano. É como se o luxo, e a clientela que o sustenta, vivessem num mundo à parte.
“O período de pós-pandemia foi de aumento das desigualdades, ou pelo menos de aumento da concentração de rende e de riquezas. Hoje temos dados mais concretos desse período que mostram que a renda no topo da pirâmide tem crescido consistentemente mais depressa do que na base”, aponta o economista Gedeão Locks, especialista em tributação e desigualdades e pesquisador do Instituto Alemão de Pesquisa Econômica, em Berlim. “Como são essas as pessoas que compram esse tipo de produtos, é normal que seja um setor pouco afetado pelo que acontece de ruim em volta.”
Resiliência às crisesO setor é vasto – engloba desde vestuário e cosméticos até a saúde, passando por imobiliário, automotivo, turismo ou serviços. A grande vantagem do luxo é a sua capacidade se resiliência: a inflação, por exemplo, também atingiu o segmento e levou os produtos a ficarem ainda mais caros. Entretanto, a elite segue disposta a pagar o preço.
"Os ricos têm conseguido se proteger da inflação, com mecanismos financeiros sofisticados, e a inflação foi o que corroeu o poder de compra da classe média e dos pobres. Como são os ultrarricos que podem comprar artigos de luxo, a demanda por esses bens permanece ou inclusive aumenta, já que há ainda mais gente nessa faixa de renda e de riqueza", salienta Locks.
Mercado brasileiro do luxoUma nota da consultoria Statista, publicada em 15 de janeiro, resume a conclusão: “o luxo não conhece a crise”, liderado pelas vendas nos Estados Unidos, China, Japão, França a Reino Unido, nesta ordem. O Brasil é um mercado ainda pouco significante, mas em expansão, principalmente na última década. O setor movimentou R$ 74 bilhões em 2022, conforme levantamento da Bain & Company, que projeta a cifra de R$ 133 bilhões até 2030.
Mas essa alta não só não é acompanhada de desenvolvimento, como simboliza o aumento ainda maior das desigualdades no país, assinala o pesquisador. "Nas sociedades onde a desigualdade é mais acentuada é também onde floresce um desejo maior de ostentação e diferenciação baseada nesse tipo de símbolo, que constituem as grandes marcas de luxo. No Brasil, saiu um estudo do Ipea que mostra que o topo de 1% mais ricos dobrou a sua renda desde 2017: as pessoas com rendimentos mensais de em torno de R$ 400 mil dobraram a sua renda", observa. "Então, não me surpreende que o Brasil suba nesses rankings, mas isso não guarda nenhuma relação com o desenvolvimento econômico em si."
Como essa riqueza poderia aumentar a contribuição para o avanço de um país? Uma parte dos ultrarricos, liderados por nomes como Bill Gates e Abigail Disney, faz campanha para que eles mesmos sejam submetidos a pagar mais impostos. No último Fórum Econômico Mundial, em Davos, o apelo voltou a ser feito por uma lista de 250 milionários – entre eles, apenas um brasileiro, o fundador do grupo de investimentos Gaia, João Paulo Pacifico.
Entretanto, para Gedeão Locks, a iniciativa permanece marginal e, muitas vezes, representa “uma hipocrisia”, já que as empresas pelas quais essas pessoas fazem fortuna acabam por encontram novas formas de se desviar das cobranças fiscais. "Os lobbies atuam justamente contra maior tributação e pela preservação de paraísos fiscais, que são mecanismos de sonegação", salienta.
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Entrevistas com economistas, analistas de mercado, investidores e políticos, para explicar e comentar questões econômicas internacionais. O papel do Brasil e dos países emergentes na economia…

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