Radar econômico

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By RFI Brasil
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  • Fórum de Davos contrapõe guinada protecionista de Trump a neoliberalismo em transformação

    O Fórum Econômico Mundial acontece este ano em Davos em pleno processo de transformação da globalização e do neoliberalismo, corrente dominante no encontro das maiores fortunas globais no pequeno vilarejo suíço. Este ano, o evento ocorre na estreia do novo governo do presidente Donald Trump nos Estados Unidos, com a promessa de uma virada ainda mais protecionista e nacionalista da maior economia do planeta.

    A 55ª edição do fórum começou, ironicamente, no dia da posse do líder republicano em Washington. Enquanto a cúpula econômica mundial em Davos discute a “colaboração na era da inteligência artificial” e à luz da crise climática, Trump exaltava o Make America Great Again e decretava o aumento das tarifas de importação no seu país e a retirada dos americanos do Acordo de Paris sobre o Clima.

    A última vez que ele participou do fórum foi em 2020. Neste edição, o republicano vai se pronunciar à distância nesta quinta-feira (23), por videoconferência. É o discurso mais aguardado dos cinco dias do evento.

    “Para os outros países, os capitais não americanos, é um momento de dúvida muito grande para ver o que acontece. Não acho que há muito o que fazer ou que discutir com qualquer consequência no fórum desse ano”, avalia Alfredo Saad Filho, professor de economia politica internacional na Queen's University Belfast, do Reino Unido.

    "Ficou completamente esvaziado: grandes lideranças que normalmente seriam importantes no fórum foram para a posse de Trump, prestando atenção no que realmente importa nesse momento. Então não é que o fórum seja completamente irrelevante, mas ele está em compasso de espera", diz.

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    Saad Filho salienta que Trump carrega contradições importantes – se, por um lado, se mostra contrário à globalização ao impor barreiras ao comércio global, por outro defende a retomada da ideia de um "imperialismo americano", ao mencionar a anexação da Groenlândia, do Canadá e do Canal do Panamá.

    O magnata nunca escondeu o certo desprezo pelo Fórum de Davos – que, apesar de ser denunciado pela esquerda mundial como um símbolo de poder dos ultrarricos sob o mantra do livre-comércio, é considerado por Trump como uma cúpula com viés alinhado aos democratas.

    Extrema direita triunfou em meio a efeitos do neoliberalismo

    O professor observa que a volta do líder republicano ao poder reflete mais uma etapa do longo processo de transformações do neoliberalismo, iniciadas com a crise financeira global de 2008 – e em um mundo cada vez mais fragmentado.

    "De repente, se percebe de uma maneira muito clara que o neoliberalismo gera instabilidade, gera crise, austeridade e a piora das condições de vida para grande parte da população. Isso terminou por levar ao surgimento do que eu gosto de chamar de lideranças políticas autoritárias, espetaculares, o Donald Trump sendo um exemplo disso”, explica o professor, referindo-se ao surgimento de lideranças de extrema direita de fora do sistema político tradicional.

    “Eles vêm com promessas de resolver as crises interligadas do neoliberalismo, de emprego, de renda, num contexto em que as forças políticas de esquerda, os social-democratas, tinham sido deslegitimadas e, em grande medida, devastadas anteriormente”, complementa Saad Filho.

    'Oligarquias' americanas

    O processo ganhou um novo impulso após a pandemia de Covid-19 e a consolidação de um núcleo em torno das indústrias de tecnologia, energia e defesa, aliadas ao setor financeiro. Os dirigentes de algumas das principais gigantes de tech americanas preferiram participar da posse de Trump do que das reuniões em Davos – foi o caso de Mark Zuckerberg (Meta), Jeff Bezos (Amazon) Sundar Pichai (Google) e Tim Cook (Apple), além de Elon Musk, que integra o novo governo em Washington.

    “A volta de Trump marcou o que Joe Biden definiu, na semana passada, como o surgimento das oligarquias nos Estados Unidos”, relembra o pesquisador da Queen's University Belfast.

    Os quase 300 painéis do Fórum Econômico Mundial abordarão cinco temas principais: novas fontes de crescimento econômico, as empresas na era da inteligência artificial, como investir no capital humano, impulsionar o enfrentamento da crise climática e reconstruir a confiança global.

    CEOs de mais de 900 grandes empresas estão presentes, além de cerca de 60 lideranças políticas como a presidente da Comissão Europeia, Ursula Van der Leyen, o vice-primeiro-ministro chinês, Ding Xuexiang, e o presidente argentino, Javier Milei.

    Focado na política nacional, o governo brasileiro não enviou autoridades do primeiro escalão. O ministro das Minas e Energia, Alexandre Silveira, representará Brasília no fórum, onde buscará investimentos em transição energética, aproveitando-se da lacuna criada por Trump nos Estados Unidos nesta área.

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  • UE agiliza pagamentos instantâneos, mas modelo como o PIX tende a jamais sair

    Desde 9 de janeiro, todos os estabelecimentos bancários da União Europeia são obrigados a receber e enviar transferências instantâneas de seus usuários – em mais um capítulo da modernização dos sistemas de pagamentos no bloco. Um modelo como o PIX brasileiro, entretanto, está longe de ser concretizado na Europa.

    Nos países europeus, a maioria das transferências entre contas ainda são feitas por meio dos bancos ou aplicativos – devido, em grande parte, à resistência do sistema bancário a abrir mão dos custos destes serviços. A chegada dos bancos digitais obrigou os tradicionais a derrubar os valores cobrados e a agilizar os serviços, mas a oferta de pagamentos instantâneos operados por uma chave, como no Brasil, parece distante no continente europeu.

    “Isso vai facilitar um pouco, mas não vai resolver o problema da chave. As transferências SEPA, por IBAN, servem como plataforma de pagamentos entre contas, e não entre pessoas físicas e contas, para pagar comerciantes”, explica Abdallah Hitti, administrador da Brapago Payments do Brasil. “O PIX tradicional, ou seja, um banco europeu oferecer uma conta com chaves, não vai ter.”

    Demanda menor na UE

    Outra dificuldade são as regulamentações europeias de proteção da privacidade: os clientes do bloco são avessos a comunicar dados confidenciais na hora de fazer uma transação financeira ou comercial, salienta Victor Warhem, macroeconomista especialista em finanças digitais e sênior fellow do Joint European Disruptive Initiative.

    “Tem outros fatores de bloqueio. Não esqueçamos que o PIX foi adotado num país onde as pessoas tinham pouco acesso ao sistema bancário e os pagamentos com cartão não eram generalizados como aqui. Ou seja, havia demanda para uma solução que a Europa não necessariamente precisa”, nota. “Quando você pergunta para os consumidores europeus se eles estão satisfeitos com seus pagamentos atuais, a imensa maioria diz sim”, afirma o pesquisador.

    A integração financeira europeia também teve avanços em 2024: 16 dos maiores bancos do bloco aderiram ao Wero, que reagrupa serviços nacionais de pagamentos instantâneos. Ficou mais fácil transferir e pagar usuários de diferentes países, embora uma integração generalizada não esteja no horizonte, afirma Abdallah Hitti. Ele dirige o serviço VoucherPay, focado no público brasileiro que deseja poder pagar com PIX na Europa, Asia e Oceania.

    “Hoje temos na Suécia um sistema similar ao PIX, o Swish, que permite fazer pagamentos instantâneos entre celulares. Funciona muito bem, mas não foi ampliado para fora da Suécia por causa desse problema de confiança das pessoas em terem no celular uma chave conectada à conta”, indica Hitti.

    Prioridade da UE é euro digital

    Para o Banco Central Europeu (BCE), a prioridade é outra: viabilizar o euro digital até 2027. Três projetos estão sobre a mesa, desenvolvidos pelo Bundesbank alemão, a Banca d’Italia e a Banque de France.

    “Contrariamente ao Brasil, onde o PIX foi elaborado em conjunto com o Banco Central, aqui a ideia do euro digital vai ser ter uma moeda de Banco Central para compras correntes – e acho que isso é um freio enorme para um projeto de pagamentos instantâneos aqui. As coisas devem avançar rapidamente para o euro digital”, destaca o pesquisador francês.

    “O BCE vai fornecer aos bancos europeus e aos serviços de pagamentos uma infraestrutura de pagamentos de grandes volumes tokenizados. Depois, vai permitir que eles criem produtos tokenizados, entregues diretamente aos consumidores finais”, indica.

    Victor Warhem lembra ainda que a ameaça de moedas alternativas como stablecoins, cotadas em dólar, leva a União Europeia a querer proteger o euro de qualquer instrumentalização dos sistemas de pagamentos pelos Estados Unidos. “Na Europa, não podemos esquecer que tem uma questão de soberania e de proteção do próprio euro e, no fundo, é o que mais motiva o Banco Central Europeu, embora ele não fale claramente disso”, observa o especialista.

    7 min
  • Economia mundial entrará em 2025 em suspenso à espera do “imprevisível” Trump

    O ano de 2025 chega recheado de incertezas na economia global, pontuadas pela guinada protecionista prometida por Donald Trump nos Estados Unidos, a partir de janeiro. No Brasil, a expectativa é se o governo vai conseguir convencer os agentes econômicos sobre a solidez fiscal do país, em meio a uma disparada dos juros ao patamar mais alto em uma década.

    Instituições como o Fundo Monetário Internacional (FMI) e a OCDE preveem que o crescimento do PIB mundial permanecerá estável, acima de 3%. O economista Renato Baumann, do Instituto de Pesquisas Econômicas Aplicadas (Ipea), resume o quadro para o começo do ano: com a volta de Trump, a única certeza é um conjunto de incertezas.

    “A questão é que ele é imprevisível. Muito provavelmente a gente vai ver, nos primeiros meses, uma proatividade de mandar imigrantes ilegais de volta para os seus países e um discurso contra o multilateralismo, mas eu não afastaria a possibilidade de uma acomodação a médio prazo”, pondera o pesquisador. “Os custos de adotar tarifas, como ele fala, são custos que não serão menores”, salienta.

    O futuro presidente americano promete importar menos da China, e o país asiático deve crescer menos em 2025. Pequim já planejou a sua reação e vai se voltar para dentro: o governo chinês anunciou um ambicioso plano de estímulos para aquecer o consumo, aumentar os investimentos e enfrentar a crise imobiliária crônica.

    Este cenário tem tudo para afetar as importações do Brasil, uma vítima colateral da retomada da provável guerra comercial entre as duas maiores potências globais. Mas também pode representar uma oportunidade para as vendas de minério de ferro, que hoje respondem por cerca de um quarto da pauta de exportações brasileiras para o país.

    Leia tambémOs setores na França que não veem a hora de o acordo comercial com o Mercosul sair

    Dólar alto vai continuar

    Reginaldo Nogueira, economista e diretor nacional do Ibmec, ressalta ainda que a volta de Trump favorece a moeda americana e a China pode buscar fortalecer o yuan em contrapartida. Resultado: a cotação do dólar não deve baixar tão cedo em relação ao real.

    “Teremos um período em que o dólar vai continuar forte, e os países vulneráveis, entre eles o Brasil aparece disparado em 2025, serão aqueles que vão sofrer mais”, observa. “A pressão cambial sobre o Brasil vai continuar porque nós estamos com a jugular exposta, com déficit fiscal e déficit externo, simultaneamente. Isso deixa o país como um alvo muito claro para pressões cambiais.”

    No cenário interno, 2025 começa com desconfiança sobre os rumos da política fiscal, depois que o governo anunciou um pacote de ajuste considerado tímido demais, ao prever R$ 70 bilhões de economias em dois anos. Nogueira vê sinais de uma economia superaquecida pelo consumo, que têm levado o país a se afastar cada vez mais da meta de inflação, de 3%.

    Choque de juros

    Para frear esse ciclo, o Banco Central antecipou que a subida da taxa básica de juros não deve parar tão cedo. O atual índice em dezembro, de 12,25%, alça o Brasil ao país à posição de segundo maior juro real do mundo, atrás apenas da Turquia, e à frente da Rússia.

    “Acho que a pergunta que fica para 25 é o quão alto os juros precisarão chegar para que a gente tenha um cenário de inflação mais estável. Isso vai depender fundamentalmente da política fiscal”, afirma o diretor do Ibmec. “Se o governo seguir com um ajuste de 30 bilhões em 2025, provavelmente os juros terão que ir para perto de 15%, isso vai despencar o investimento privado e a gente vai ter uma situação, em termos de crescimento, muito mais complicada – não só em 25, mas também em 26”, antecipa.

    A previsão atual de crescimento brasileiro no próximo ano gira em torno de 2%, bem abaixo dos 3,3% projetados para 2024. Alguns economistas, como na Fundação Dom Cabral, avaliam que um quadro de estagflação pode estar se desenhando – ou seja, crescimento fraco, inflação elevada e desemprego em alta. Mas Renato Baumann, do Ipea, prefere olhar o futuro com mais otimismo.

    “Eu não sei se chega a estagflação. A expectativa é de um desempenho da economia brasileira menos brilhante, se é que esse ano foi brilhante. Mas nos últimos dois anos, sempre houve uma superação de expectativas para o lado positivo”, ressalta. “Há quem diga que isso foi inflado por um excesso de transferências de renda que não é sustentável, mas está por ver-se como vai ser. A economia brasileira é muito diversificada e sempre surpreende – para cima ou para baixo.”

    8 min
  • Os setores na França que não veem a hora de o acordo comercial com o Mercosul sair

    A assinatura do acordo de livre comércio entre os países do Mercosul e da União Europeia causa, oficialmente, reações negativas da França, mas também leva diversos setores econômicos do país a celebrar. Industriais em variadas áreas e fabricantes de produtos agroalimentares, como vinhos e queijos, não veem a hora de o tratado entrar em vigor. 

    Lúcia Müzell, da RFI em Paris

    O barulho dos agricultores franceses, que prometem continuar a bloquear a ratificação do acordo, abafa o entusiasmo dos produtores de vinho – ansiosos pela ampliação dos mercados de exportação para países onde o consumo está em plena ascensão, como na América Latina. Jean-Marie Fabre, presidente do Vignerons Indépendants de France, federação sindical que representa 60% da produção francesa e 65% das receitas, ressalta que, enquanto a União Europeia reluta, países produtores como a Austrália, os Estados Unidos e a África do Sul aceleram os acordos comerciais para diminuir os impostos sobre os vinhos exportados.  

    "Eu peço que a gente assine este acordo, porque o dia em que conseguirmos baixar a zero as tarifas alfandegárias, que hoje são de 27% para os nossos produtos, nós ganharemos com certeza uma grande participação de mercado. Poderemos melhorar o desempenho econômico do nosso setor, mas também da França”, avalia. 

    A Vignerons Indépendants reúne pequenos, médios e grandes produtores, para os quais as exportações representam cerca de 35% das vendas. Noventa por cento deles vendem para outros países da União Europeia e 81% para mercados externos ao bloco.  

    Fabre cita o exemplo do acordo em vigor com o Japão, que permitiu aos viticultores franceses aumentarem 10% do volume de exportações ao país asiático. A expectativa é ainda mais favorável com os latino-americanos e, em especial, o Brasil.

    “O Brasil é um país onde o consumo avança a um ritmo de dois dígitos, de 12%, 15%. O Paraguai e o Uruguai estão bem mais atrás. Eu acho que, num primeiro momento, o impulso vai ser relativamente fraco em termos de volume, mas nos próximos 10 a 15 anos, será uma zona do mundo importante de consumo de vinhos e destilados”, espera. "Nós percebemos que é nestes mercados emergentes que a França não deve perder mais tempo e ficar atrasada ou prejudicada por regras de comércio diferentes dos seus concorrentes.”

    Vinho, carro-chefe do setor agrícola francês

    O setor vinícola é o que apresenta, de longe, o melhor desempenho da agricultura francesa. O vinho tem um peso importante no comércio exterior do país: situa-se logo atrás do setor aeronáutico e em pé de igualdade com o luxo, duas atividades que também festejam a assinatura do acordo comercial com o Mercosul, assim como as indústrias química, automotiva, farmacêutica e cosmética. 

    Leia tambémCríticas de CEO do Carrefour à carne brasileira ilustram ‘falta de visão’, em meio a crise do varejo na França

    No ramo alimentar, os fabricantes de produtos transformados e laticínios se somam à lista, mas a rusga dos pecuaristas contra a carne latino-americana leva os produtores de derivados do leite a serem mais discretos quanto à aprovação do acordo. Quarenta mil toneladas de queijo e 10 mil de leite em pó passarão a entrar no Mercosul com imposto zero, dez anos após a entrada em vigor do tratado.  

    “O princípio de um acordo é que seja olhado em uma escala global. Não podemos olhar uma corporação em particular, senão nunca vamos assinar nada, e estou bastante persuadido que, no fundo, o governo francês sabe que este tratado seria benéfico para França”, indica o economista especialista em comércio internacional Jean-Marie Cardebat, professor da Universidade de Bordeaux. "Neste momento, a política francesa está bastante lamentável e por razões de cálculos eleitorais mesquinhos, vamos derrubar um acordo que é extremamente importante para a economia francesa”, lamenta.

    Acordo é equilibrado e favorece os dois lados, diz professor

    A volta de Donald Trump ao poder nos Estados Unidos, trazendo com ele o aumento das tarifas de importação no país, são uma razão a mais para a França não menosprezar os benefícios do tratado com o Mercosul, avalia o economista.

    “Este acordo tem uma dupla importância, e muito além do setor dos vinhos. Primeiro, a importância simbólica, em um mundo cada vez mais protecionista, ele é um ato de abertura de mercados que me parece importante e enviaremos uma mensagem para o resto do mundo: a Europa e o Mercosul vão continuar no jogo do comércio mundial”, considera Cardebat. "E segundo, do ponto de vista econômico, todos os modelos, tanto no Brasil, quanto na Europa, indicaram que é um acordo ganha-ganha, sem assimetrias ou desequilíbrios."  

    O caminho até a ratificação do acordo assinado no dia 6 de dezembro promete ser longo. Na Europa, o texto precisa ser aprovado pelo Parlamento Europeu e o Conselho da União Europeia, os órgãos decisórios da UE. Por enquanto, não há prazo para a sua entrada em vigor.  

    A redução das tarifas prevista no texto poderá ser imediata ou gradual, de quatro a até 15 anos, conforme o setor. A termo, mais de 90% das exportações europeias para o Mercosul serão beneficiadas, no que será uma das maiores áreas de livre comércio do mundo. 

    O bloco formado por Brasil, Argentina, Paraguai e Uruguai representa um mercado de 270 milhões de consumidores – 80% deles estão no Brasil. Atualmente, o país é 27º destino das exportações francesas.  

    7 min
  • Políticas de igualdade de gênero são chave para frear queda da fecundidade no mundo

    Em dois terços do planeta, a renovação de geração não está garantida – a queda da natalidade não é mais um problema apenas nos países ricos, mas se generaliza pelo mundo e atinge até os países em desenvolvimento. Especialistas alertam: a aceleração das políticas de igualdade de gêneros é uma das chaves para combater essa tendência e evitar que o envelhecimento das populações esvazie a força de trabalho ativa e vire uma bomba nos orçamentos públicos.

    Há dois séculos, a queda da mortalidade levou à diminuição da fecundidade nos países do norte – uma evolução que agora se replica em todos os lugares do planeta.

    “É um movimento generalizado, que leva a humanidade a mudar o seu regime demográfico. Os casais desejam ter menos filhos para garantir a eles uma vida melhor do que a que eles próprios tiveram, uma vida de qualidade”, explicou o especialista francês Gilles Pison, conselheiro da direção do Instituto Nacional de Estudos Demográficos da França e autor de Atlas da População Mundial (tradução livre). “Em lugar nenhum do mundo é mais possível ter seis ou sete filhos e que todos possam frequentar boas escolas, tenham diplomas e uma boa profissão”, esclareceu, ao programa Débat du Jour, da RFI. 

    Atualmente, quase 70% da população mundial vive em um país onde a taxa de fecundidade por mulher é inferior a 2,1 crianças, segundo a ONU. A média mundial é um pouco acima, de 2,25, puxada pelos índices ainda elevados em regiões da África, Oceania e Ásia. Mas também nestes lugares, assim como nas Américas, a tendência é de queda até o fim do século, depois que a população global atingir o seu pico em 2080.

    O economista David Duhamel, professor-associado da Sciences Po Paris, salienta que o processo de transição demográfica acompanha o desenvolvimento econômico de um país. “Depende da urbanização – na cidade, fazemos menos filhos do que no campo – e da educação – as adolescentes não pensam muito em filhos quando elas estão no ensino médio, e ainda menos quando chegam à universidade. O que é interessante, nos últimos anos, é que o desenvolvimento demográfico está andando muito mais rápido do que o desenvolvimento econômico”, indicou. “Estamos vemos países que ainda são emergentes, como a Tailândia, terem índices demográficos semelhantes aos de um país como a Alemanha”, afirmou.

    Como relançar a fecundidade? 

    Duhamel sublinha que o mundo em envelhecimento demanda um novo olhar sobre as pessoas com mais de 60 anos, que devem ser cada vez mais ser vistas como um recurso para a economia, e não um fardo, e sobre as minorias em idade economicamente ativa, incluindo os imigrantes.

    Já as pistas para relançar a fecundidade passam pela diminuição das desigualdades e por políticas de habitação que viabilizem o projeto de ter filhos de jovens casais nas zonas urbanas, menciona o economista.

    A velocidade com que países emergentes e em desenvolvimento começaram a ver os seus índices de natalidade cair surpreendeu especialistas – um fenômeno diretamente ligado ao ingresso e à ascensão das mulheres no mercado de trabalho, frisou Duhamel.

    “A escolha de ter um filho sempre foi uma escolha econômica, só que antes as mulheres pagavam exclusivamente por essa escolha, em silêncio. Elas não aceitam mais isso, não aceitam mais não compartilhar essa conta, no trabalho como em casa”, salientou. “Hoje elas têm mais escolhas – e isso é formidável: podem escolher dizer não, escolher ter uma carreira ou se retirar dessa divisão desigual sobre a maternidade. O caminho para reencontrarmos a fecundidade é pelo compartilhamento mais igualitário possível do preço de ter um filho”, avalia. 

    Maior equilíbrio também em casa

    Assim, alguns países como a Coreia do Sul, que não aceleraram as políticas de apoio à carreira das jovens mães, veem sua natalidade despencar ao índice crítico de 0,6 criança por mulher. Isso significa que, estatisticamente, seis pessoas são substituídas por apenas uma criança sul-coreana atualmente.

    Não à toa, as nações europeias com maior taxa de fecundidade são os que promovem medidas para permitir as mães de seguirem uma carreira, tornar o mercado de trabalho mais justo para elas e estimular também o melhor equilíbrio nas tarefas domésticas, ressaltou o demógrafo Gilles Pison.

    “As italianas hesitam em namorar e se casar porque elas sabem que é uma engrenagem que vai levá-las a ter um filho e, se elas tiverem um, haverá a pressão da família e da sociedade para que elas parem de trabalhar para cuidar da criança. E elas não querem uma vida como a da mãe e da avó delas”, constatou. “A situação é a mesma no leste asiático e até na China”, comparou.

    Leia tambémFrança tem menor número de nascimentos desde 2ª Guerra Mundial

    Na Índia, país mais populoso do mundo, a taxa de fecundidade já está inferior a duas crianças por mulher. Os Estados Unidos vivem a baixa histórica de 1,64. Um estudo da revista científica The Lancet antecipa que, em 2100, 70% das crianças nascerão em um país pobre.

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  • Críticas de CEO do Carrefour à carne brasileira ilustram ‘falta de visão’, em meio a crise do varejo na França

    O impacto negativo dos comentários do CEO do Carrefour, Alexandre Bompard, sobre a carne produzida no Mercosul pode custar caro para o grupo, que tem no Brasil o seu maior mercado fora da Europa. Há dois anos, ao celebrar a compra do concorrente BIG e quase dobrar a presença no país, Bompard dizia que “o futuro do grupo será escrito, em grande parte, no Brasil e na América Latina”.

    Lúcia Müzell, da RFI em Paris

    A escolha estratégica de apostar as fichas no país emergente se deu em um momento em que o modelo de hipermercados entrou em crise na França. “O Brasil está, mais do que nunca, no coração do grupo”, disse o CEO em junho de 2022. A aquisição do BIG do Walmart levou o Carrefour a se tornar o maior empregador privado no Brasil, com 130 mil funcionários.

    "Globalmente, o Brasil é extremamente importante para o Carrefour, principalmente num momento em que ele enfrenta questionamentos sobre o modelo dos hipermercados no mercado francês, e que funcionam bem no Brasil. O país é um elemento essencial para o desenvolvimento da empresa, ainda mais que o grupo perdeu mercados no exterior nos últimos anos", afirma o pesquisador Jean-François Notebaert, professor de gestão da Escola de Administração da Universidade da Borgonha. "Acho que Bompard quis confortar os agricultores franceses, mas não teve uma visão internacional do grupo", avalia. 

    A atuação no Brasil representa um quinto do faturamento total do grupo francês, conforme balanço do terceiro trimestre. Marcos Gouvêa, um dos maiores especialistas da área do país, concorda que faltou visão para o executivo francês.

    "Nesse processo que nós temos vivido, de desglobalização do varejo físico, com o crescimento do varejo digital e a metaglobalização do varejo digital, a representatividade do mercado brasileiro mereceria, no mínimo, muito mais reflexão antes de uma manifestação como foi feita", comenta Gouvêa. "Fica fácil ver quem sai ganhando: são os concorrentes do Carrefour".

    O Brasil é o maior produtor mundial de carne e abastece também as unidades da rede francesa em outros países do mundo. Com os comentários, Bompard acabou preso na própria armadilha. 

    "A comunicação dele também causa problemas no sentido de que Bompard considera que esta carne não corresponde às normas do mercado francês, mas e os outros países europeus nos quais Carrefour está implantado, como Portugal, Espanha, Itália ou Polônia? Ele vai continuar vendendo esta carne que ele considera não corresponder às normas francesas?", questiona Jean-François Notebaert. 

    França quase não compra carne brasileira

    Nos últimos anos, o mercado europeu se tornou menos relevante para as vendas brasileiras de carnes, em detrimento do chinês. A União Europeia compra menos de 4% do volume exportado, e a França responde por uma quantidade insignificante, de 0,66% do total vendido para a UE.

    O bloco europeu permanece uma potência exportadora de proteína animal, e não o contrário. Na carne bovina, ainda mais: 85% do que é consumido na França tem origem no próprio bloco.

    Ou seja, as declarações de Bompard buscavam confortar um mercado nacional que praticamente já não consome carne brasileira. O CEO parece ter esquecido deste contexto quando prometeu que não venderá nos supermercados na França carne proveniente dos países do Mercosul – Brasil, Argentina, Uruguai e Paraguai –, mesmo se o acordo comercial entre a União Europeia e o bloco sul-americano for ratificado e baratear o custo destes produtos. Na sequência, outra grande rede varejista francesa, a Intermarché – que não atua no Brasil – também assumiu o mesmo compromisso.

    A tomada de posição de Bompard enfureceu produtores, frigoríficos, consumidores e até o governo brasileiro, em um movimento de união bastante raro em torno do setor. O ministro da Agricultura, Carlos Fávaro, disse que Brasília “não vai admitir” que a qualidade da carne brasileira seja questionada. O presidente da Câmara dos Deputados, Arthur Lira, acrescentou que espera “uma resposta clara” do Congresso, dos empresários e da população brasileira ao “protecionismo exagerado da França”.

    Leia tambémLe Parisien diz que o Brasil é "incapaz" de comprovar a qualidade da carne exportada para a UE

    Marcos Gouvêa, diretor-geral da Gouvêa Ecosystem, especializada em varejo, consumo e distribuição, lembra que algumas das principais redes que atuam no Brasil são francesas, em diversos segmentos – uma parceria fortalecida a partir dos anos 1990. "Tem muito mais presença relevante de varejo francês no Brasil do que de qualquer outro país, inclusive Estados Unidos. De alguma maneira, tudo isso, em uma visão míope, foi ignorado e se ateve, exclusivamente, a uma questão de ficar bem com o produtor francês", observa o analista e consultor. "Eu não diria que abala a confiança nesta parceria, mas cria uma consciência de que este jogo de proteção está acima do que se percebia, no dia a dia. Se tem uma virtude, pelo lado brasileiro, é que despertou uma consciência sobre a realidade desse jogo, que envolve proteções de mercado, acordos políticos e até sustentação de governo", opina.

    Desde a semana passada, vídeos nas redes sociais conclamavam os clientes a boicotarem as lojas do grupo, num movimento que ganhou força e levou à adesão dos principais frigoríficos, como JBS e Marfrig, que suspenderam as entregas a cerca de 150 lojas da rede francesa. Depois de negar desabastecimento de carnes e ressaltar que os comentários do CEO global referiam-se apenas ao mercado francês, o Grupo Carrefour Brasil reconheceu que o boicote “impacta os clientes”. Nesta terça-feira, Alexandre Bompart enviou um pedido de desculpas ao ministro Fávaro (leia abaixo). 

    Incoerências nas prateleiras

    Mas para o professor Jean-François Notebaert, o episódio evidencia as incoerências da rede francesa na questão ambiental – um paradoxo que contribui para abalar a imagem dos hipermercados na França, aos olhos dos consumidores locais. Alguns dias antes de dizer que queria apoiar os agricultores, ao recusar a carne do Mercosul, o Carrefour francês vendia cordeiro importado da Nova Zelândia a €10 o quilo.

    "Fica difícil de compreender a lógica. Com este caso, percebemos toda a dificuldade do varejo de manter uma posição coerente. Em uma mesma prateleira, encontramos muitas ambiguidades. Afinal, qual é o modelo que os grandes grupos de varejo apoiam? Se é da produção intensiva, os rebanhos franceses são, em grande parte, alimentados pela soja brasileira, responsável por desmatamento da Amazônia", explica o pesquisador. "Então, até onde ele vai para defender uma agricultura de qualidade? Ou ele vai defender uma agricultura extensiva, mais sustentável, aqui também? O varejo não sabe como se posicionar diante desses desafios impostos ao setor agrícola e às orientações que ele deseja dar na França".

    8 min
  • Na Europa, nos EUA ou no Brasil, falta mão de obra para a transição energética

    Enquanto o mundo se mobiliza para promover a economia de baixo carbono, falta mão de obra qualificada para realizar o isolamento térmico dos prédios, fabricar veículos elétricos ou para desenvolver, instalar e manter painéis solares e parques eólicos. Apesar do futuro promissor, na Europa, nos Estados Unidos ou no Brasil a formação de profissionais ligados à transição energética ainda é insuficiente e não dá conta da demanda crescente.

    Em 2023, o setor gerou um recorde de 2,5 milhões de empregos no mundo, segundo a Agência Internacional de Energias Renováveis (Irena, na sigla em inglês) e a Organização Internacional do Trabalho (OIT). A alta representa 18% a mais de vagas em apenas um ano, chegando a 16,2 milhões de trabalhadores – principalmente na China, em plena disparada da indústria fotovoltaica para a energia solar, da qual é líder mundial.

    A Agência Internacional de Energia (AIE) antecipa que, até 2030, 30 milhões de vagas deverão ser preenchidas nestas indústrias em todo o planeta. Não é diferente no Brasil, onde a parte das fotovoltaicas quadruplicou e hoje responde por 20% da matriz elétrica brasileira. O setor gerou mais de 1,4 milhão de empregos desde 2012, de acordo com a Associação Brasileira de Energia Solar Fotovoltaica (Absolar).

    “A tendência é continuar crescendo. Algumas projeções indicam que a solar fotovoltaica vai representar 50% da nossa matriz elétrica. Mas a gente percebe uma escassez de mão de obra qualificada – não somente para cargos de gestão, como para a fábrica, para a instalação dos sistemas, por profissionais que sejam formados para isso”, afirma Bárbara Rubim, vice-presidente da entidade.

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    “Num cenário de médio prazo, o setor de energia vai demandar cada vez mais um profissional com um perfil plural, que consiga entender a parte técnica, mas também tenha uma visão mais ampla de desenvolvimento e de país – até para conseguir pensar melhor o futuro das empresas num setor, e também num país, que têm mudado tanto”, salienta.  

    Fuga de cérebros 

    Rubim reconhece que a escassez de profissionais desacelera o potencial de desenvolvimento das renováveis no país. Outro problema é a fuga de cérebros: num contexto em que sobram empregos na área nos países ricos, como nos Estados Unidos, o Brasil nem sempre têm conseguido segurar os seus talentos.

    “A fuga de cérebros se torna um problema sobretudo quando a gente olha a pesquisa e desenvolvimento, que já é uma dor crônica do nosso país. Sem dúvida alguma, a reindustrialização verde também perde um pouco de força”, indica a vice-presidente da Absolar.

    Na Alemanha ou na França, potências europeias, as empresas buscam, ainda nas universidades e em cursos técnicos, os formandos nestas áreas. Raphael Ameslant, funcionário de uma multinacional de parques eólicos offshore, também dá aulas no Instituto Universitário de Tecnologia de Saint Nazaire, na Bretanha, onde aproveita para recrutar futuros funcionários.

    “Sempre precisei de técnicos em manutenção e agora está complicado de encontrar bons. Tenho buscado me envolver nos cursos para poder, ao mesmo tempo, buscar estudantes que poderão se tornar técnicos”, disse a Justine Fontaine, da RFI. “Todos aqui já têm contratos assinados.” 

    Faltam alunos

    O planejamento da França em matéria de redução de emissões de gases de efeito estufa dá respaldo a quem apostar nesta área: a perspectiva do país é de pelo menos triplicar a produção de energia eólica no solo ou no mar, nos próximos 10 anos. Hoje, entretanto, o interesse dos estudantes ainda é baixo.  

    “Fiz um cálculo rápido e isso representa oportunidades para cerca de 600 pessoas por ano, apenas na área de exploração e manutenção. Mas neste ano, teremos apenas 12 diplomados aqui”, lamentou Patrick Guérin, diretor do curso. “Nós ampliamos a nossa capacidade das turmas em 2024, mas o número de candidaturas não subiu. Não compreendo muito bem por quê.” 

    Para Barbara Rubim, da Absolar, a questão é também geracional: até pouco tempo atrás, escolher a área de energia significava trabalhar com petróleo e gás. A transição energética em curso tende a mostrar que as renováveis serão, cada vez mais, uma aposta no futuro.

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    7 min
  • Eleições americanas: entre Trump e Harris, qual favorece mais a economia do Brasil?

    Na reta final antes das eleições presidenciais americanas, os rumos da maior economia do planeta impactam o Brasil, que tem nos Estados Unidos o seu segundo maior parceiro comercial. Os fluxos internacionais de investimentos e as taxas de juros e de câmbio também são influenciados diretamente pelo que acontece no país, que em 5 de novembro vai escolher entre a continuidade, representada pela democrata Kamala Harris, ou a volta do republicano Donald Trump à Casa Branca.

    Lúcia Müzell, da RFI em Paris

    Na política, dois projetos antagônicos se enfrentam nas urnas. Na economia, nem tanto: os dois candidatos pretendem estimular a atividade econômica, uma por meio mais gastos públicos, com transferência de renda e estímulos para setores como a inovação e a sustentabilidade, e o outro por cortes de impostos em favor das empresas. 

    A maior diferença é que Donald Trump assume o viés protecionista do seu programa de governo: planeja impor taxas pesadas sobre determinadas importações, que chegariam a até 60% sobre os produtos fabricados na China. No seu primeiro governo, o republicano lançou uma guerra comercial com o concorrente asiático e adicionou 25% de sobretaxas às mercadorias chinesas. 

    Um eventual segundo mandato Trump tende a ser ainda mais protecionista, avalia Luís Otávio Leal, economista-chefe da G5 Partners, em São Paulo – e o Brasil estaria à mercê das consequências indiretas dessas medidas:

    “Tem estudos que mostram que o crescimento da economia chinesa poderia reduzir 2 pontos percentuais. Qualquer coisa que aconteça com a China acaba tendo impacto sobre países emergentes exportadores de commodities”, afirma. “Eu acho que por conta desse aspecto específico, a Kamala Harris seria mais favorável para o Brasil”, avalia Leal.

    Comércio bilateral

    O impacto direto na relação bilateral é menos claro. Os Estados Unidos são o segundo principal destino das exportações brasileiras, incluindo alguns itens industrializados como aço e laminados, que já foram alvo de alta de tarifas alfandegárias no primeiro governo Trump. Mas se novas medidas se concentrarem na China, poderia haver espaço para aumentar a participação brasileira no mercado americano, atualmente de apenas 1,2%, segundo números da ApexBrasil (Agência de Promoção de Exportações e Investimentos).

    Em 2023, a corrente de comércio foi de quase US$ 75 bilhões – valor que representa uma pequena fração das transações americanas, de mais de US$ 7 trilhões. “O Brasil está longe de ser um parceiro super-relevante para os Estados Unidos. Antes do Brasil, é muito mais importante China, Europa, México, Canadá, países do lado dos Estados Unidos”, destaca o economista William Castro Alves, estrategista- chefe da corretora Avenue, em Miami. “Muito se fala que o Trump pode ser ruim e a Kamala pode ser mais favorável, mas dentro da pauta dos candidatos, seja quem quer que seja e mesmo se for o Trump, o Brasil não está na prioridade. Quando o Trump fala em ‘make America great again’, ele está muito mais se endereçando à China e ao próprio México”, lembra.  

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    O Brasil vende principalmente matérias-primas como petróleo bruto, ferro e aço, café e celulose, além de aeronaves, e compra dos Estados Unidos produtos industriais e relacionados à energia, como combustíveis refinados e gás natural, ou ainda fertilizantes. Também importa aeronaves e instrumentos médicos.

    Os americanos são, há mais 10 anos, os principais investidores estrangeiros no Brasil, responsáveis por um quarto do total de investimentos estrangeiros diretos no país. Uma vitória de Kamala Harris tende a manter este status quo, nota Luís Otávio Leal.

    “Ela caiu meio de paraquedas na campanha. Eu acho que só mais do meio para o final do mandato é que ela imprimiria uma marca mais personalista dela, e a gente não sabe qual seria”, pontua o economista-chefe da G5 Partners. “Ela foi uma vice-presidente apagada e a gente realmente não sabe o que ela pensa em relação à economia, ao comércio exterior.”

    Mercados se preparam para qualquer cenário 

    Quanto aos mercados financeiros, o aumento das incertezas ligadas a uma vitória de Trump poderia gerar um movimento de fuga de capitais dos Estados Unidos que, em tese, beneficiaria outros países e potencialmente o Brasil. A desvalorização do dólar, que se estabilizou há meses em um patamar elevado em relação ao real, seria um dos efeitos possíveis.

    Entretanto, se o republicano for eleito e concretizar o projeto de desregulamentação da economia e diminuição massiva de impostos, o efeito seria o oposto: os Estados Unidos poderiam atrair ainda mais capital externo. Leal salienta que as políticas protecionistas e o endurecimento do combate à imigração tendem a impulsionar a inflação no país, o que também não é bom para o Brasil.

    “Se você tem menos espaço para a redução dos juros pelo Fed [Banco Central americano], tem menos dinheiro circulando na economia mundial e, consequentemente, sobra menos dinheiro para o Brasil”, ressalta.

    William Castro Alves observa que a fraca volatilidade das bolsas americanas nestas semanas precedentes à eleição ilustra que a vitória de um ou de outro parece já estar assimilada pelos mercados financeiros. A experiência do primeiro governo Trump mostrou que, na prática, não é tão fácil para o líder republicano cumprir suas promessas, principalmente se não puder contar com apoio do Congresso.

    “Esse ano já sendo atípico neste sentido: a volatilidade está baixa em ano eleitoral, e normalmente é alta. Em cenário de volatilidade e incertezas, normalmente a bolsa não rompe máximas históricas, ela fica para cima e para baixo, chacoalhando – e também não estamos vendo isso”, frisa Castro Alves.

    7 min
  • Sob impulso russo, Brics aceleram pagamentos sem dólar, mas moeda própria ainda é sonho distante

    Anfitriã da cúpula do Brics este ano, a Rússia quer aproveitar a reunião de chefes de Estado dos países emergentes para impulsionar os projetos de sistemas financeiros alternativos ao dólar. A criação de uma moeda única do bloco, entretanto, ainda é um sonho distante, que esbarra na grande assimetria econômica e geopolítica entre os seus integrantes.

    Os líderes do Brics se reunirão em Kazan, no oeste russo, na próxima semana, e discutirão diferentes projetos de mecanismos financeiros alternativos ao dólar no comércio intrabloco: o Brics Pay, equivalente à plataforma internacional de pagamentos Swift, o Brics Bridge, sistema baseado em blockchain que interligaria os respectivos bancos centrais, e a eventual moeda comum dos Brics.

    "A ideia é se liberar de algumas amarras que, para eles, não têm mais muita razão de existir, dado o peso econômico destes países. Eles veem como algo quase irracional: por que deveríamos ainda precisar tanto do dólar para as nossas transações entre nós, entre Brasil e China, por exemplo?”, afirma Carl Grekou, economista especialista em finanças do Centro de Estudos Prospectivos e de Informações Internacionais (CEPII), em Paris. "Para muitos deles, o aspecto antidólar não conta tanto quanto o objetivo de apenas simplificar as coisas. Mas por trás disso tudo, tem a Rússia que claramente quer forçar a barra, afinal ela é alvo de sanções."

    Desafio da expansão do Brics

    Até agora, 32 países confirmaram presença no evento, na continuidade do processo de abertura do grupo iniciado na última cúpula, quando cinco novos membros se associaram oficialmente ao Brics – Emirados Árabes Unidos, Arábia Saudita, Irã, Egito e Etiópia.

    A expansão complexifica ainda mais um projeto que já não era fácil de concretizar: se, por um lado, os aspectos técnicos são relativamente simples de viabilizar, a coesão interna de países tão diversos e apegados à sua soberania é uma barreira importante a ser superada.

    "Mas eu acredito que, dentro de um horizonte de alguns anos, se tenha um avanço considerável para intensificar essas transações. Estes exemplos têm uma base técnica que já é bastante controlável, já se tem um domínio dessas técnicas”, destaca Marcelo Milan, do Departamento de Economia e Relações Internacionais da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFGRS).

    "Resta a questão do direcionamento, de intensificar os fluxos em uma direção ou outra, para que o bloco possa criar mecanismos para que os arranjos de pagamentos sejam feitos cada vez mais com referência nas moedas nacionais e, se um dia for possível, nessa moeda comum", aponta Milan.

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    Peso desproporcional da China

    O maior problema rumo à moeda própria é que pressuporia uma preponderância do yuan chinês, dado o peso desproporcional de Pequim dentro do grupo. A maioria dos países rejeitaria a ideia de assumir o yuan como principal referência e em especial a Índia, garante o pesquisador Julien Vercueil, ligado ao Departamento de Comércio Internacional do Instituto Nacional de Línguas e Civilizações Orientais (Inalco) da França.

    “Envolve muito engajamento político e econômico, a possibilidade de terem de enfrentar choques assimétricos, de viabilizarem grandes transferências de riquezas de um país para o outro. Ainda estamos muito longe desse tipo de configuração dentro dos Brics, sem mencionar o fato de que eles não estão nada sincronizados nos seus ciclos econômicos, ao contrário do que temos na Europa com o euro, por exemplo”, resume. "Ou seja, eles teriam problemas econômicos insuperáveis para adotar esta moeda.”

    Especialista na economia russa, Vercueil avalia, entretanto, que os Brics tentarão passar como sendo já moeda própria os outros dois projetos mais avançados – para os quais o sistema Cips chinês parece servir de modelo. O Cips (China International Payement System) já começou a se interligar aos bancos centrais de alguns países do grupo de emergentes.

    "Enquanto eles decidem se uma das moedas nacionais poderia substituir o dólar – afinal, os países não querem substituir a hegemonia do dólar por uma outra –, eles definem que tipo de unidade de conta e meios de pagamentos poderiam ser utilizados”, explica o pesquisador do Inalco.

    O contexto geopolítico atual, com as pesadas sanções ocidentais à Rússia, além da presença de outro recém ingresso membro do Brics, o Irã, levou os membros do bloco a acelerarem uma solução alternativa ao dólar e ao sistema Swift, do qual Moscou foi banido. O país acumula grandes excedentes comerciais e monetários desde o início da guerra na Ucrânia.

    “O projeto segue o seu curso e, muito provavelmente, deverá sair uma vez que eles conseguirem validar os seus sistemas de pagamentos. Quando eles forem bem operacionais, poderão até chegar a uma moeda Brics”, observa Carl Grekou. "Mas uma das principais funções de uma moeda é a de reserva de valor. Será que os países do Brics terão algum interesse em ter as outras moedas uns dos outros para além das questões comerciais? Este é o ponto que focaliza as atenções e que, potencialmente fará com que o dólar continuará a ter um papel central."

    Hegemonia do dólar

    Hoje, pelo menos 85% das transações comerciais e financeiras internacionais são feitas em dólar. Sobram no máximo 15% para moedas seguras como euro, libra esterlina, yen ou franco suíço.

    Apesar do seu uso ter crescido, o yuan é presente em no máximo 2,5% das trocas mundiais. Porém, uma vez que o sistema de pagamentos do Brics se consolidar, os países membros – grandes produtores de matérias-primas valiosas, como petróleo e metais raros – poderiam optar por abrir mão da moeda americana nessas transações.

    “A gente está sempre muito focado na China, mas a Índia também tem um peso significativo. Na medida em que os países do bloco passem a utilizar as próprias moedas e reduzirem o papel do dólar, vai ter um impacto econômico importante, com desdobramento político também, com a capacidade de eles se financiarem com custo baixo – como os Estados Unidos fazem, com o uso internacional do dólar”, frisa Marcelo Milan.

    A 16ª cúpula do Brics ocorrerá de 22 a 24 de outubro. Até o momento, 24 chefes de Estado confirmaram presença no evento, entre eles o brasileiro Luiz Inácio Lula da Silva.

    8 min
  • Meca da moda, França vive onda de falências de marcas prêt-à-porter

    A fast fashion no mundo globalizado derruba algumas das marcas mais tradicionais do prêt-à-porter da França, berço de ícones da moda mundial. A crise no setor não vem de agora – desde o início dos anos 2010, as fabricantes francesas de vestuário e calçados sofrem com a concorrência do comércio online, ao qual demoraram a se adaptar.

    A pandemia e os novos modos de consumo que dela decorreram aceleraram uma tendência de declínio que já estava instalada no país, revela um estudo do Instituto Nacional de Estatísticas e Estudos Econômicos (Insee). Em 2020, as vendas de roupas no país despencaram 22,6% e as de calçados, 19,8%, ao mesmo tempo em que o varejo em geral só recuou 2,5%. Na sequência, o crescimento das vendas se manteve inferior a 1%.

    Este contexto, afirma o Insee, explica a queda brusca do número de lojas no país: de -18% das butiques de roupas e -26% das de calçados, entre 2014 e 2021. “Tem uma correção de mercado que se opera desde 2013. Ela continua e, infelizmente, não temos razão para pensar que ela terminou”, constata Gildas Minvielle, diretor do Observatório Econômico do Instituto Francês da Moda.

    O especialista salienta que a moda francesa demorou a acreditar na força do comércio online – e perdeu tempo ao focar os investimentos em novas lojas físicas, em vez de no desenvolvimento de sites modernos. Depois, os anos de inflação alta e queda do poder aquisitivo levaram os consumidores a serem mais sensíveis ao fator preço.

    O golpe final veio da China, com a chegada avassaladora das plataformas Shein e Temu no mercado europeu, desafiando os valores praticados pelas marcas de fast fashion bem implantadas no bloco, como a sueca H&M, as espanholas Zara e Mango e a irlandesa Primark.

    “Quando vemos atores como Shein, que chegam e tomam conta do mercado de uma forma muito agressiva, deveríamos poder controlar melhor o fato de que os consumidores aqui não tenham de pagar direitos de importação. Isso não é normal”, aponta Minvielle. “Mas, para ser totalmente honesto, não tenho certeza de que isso mudaria alguma coisa, até porque a Shein não é única que derrubou os preços.”

    Num contexto de concorrência cada vez mais feroz, na França o prêt-à-porter de baixo e médio custo é o mais atingido, vítima direta desta nova configuração. Redes como Camaïeu, Kookai, Naf-Naf, Pimkie e GoSport ou faliram, ou foram obrigadas a só operar pela internet. No ramo calçadista, as tradicionais André e San Marina enfrentam o mesmo destino.

    Roupas de segunda mão já pesam no mercado

    A emergência do fenômeno das compras de segunda mão, em lojas físicas como pela internet, também já impacta o desempenho do mercado de roupas e calçados novos. As vendas de usados pesavam, em 2022, entre US$ 100 e US$ 120 bilhões, em nível mundial, de acordo com um estudo da consultoria Boston Consulting Groupe (BCG) realizado a pedido da plataforma francesa Vestiaire Collective, um dos principais nomes da revenda de segunda mão no país. O volume representa três de 3% a 5% do total do setor e triplicou desde 2020. Segundo este relatório, nos próximos anos, as compras de peças usadas poderão atingir 40% do mercado, impulsionadas pelos jovens.

    Nos países europeus, a faixa etária de até 30 anos já se acostumou a só comprar em brechós ou em plataformas especializadas, em busca de preços mais baixos e peças exclusivas, mas também por preocupação com o impacto ambiental do consumo. Numa tentativa de se adaptar à tendência, a maioria das grandes lojas francesas – entre elas a famosa Galeries Lafayette – instalou um “canto das usadas”. No espaço, as clientes podem comprar e revender as suas peças da marca.  

    Aposta na qualidade francesa

    Gildas Minvielle avalia, entretanto, que o prêt-à-porter novo ainda tem dias promissores pela frente, à condição de apostar na qualidade e em subcategorias mais especializadas, como moda sustentável, marinha ou o chamado luxo acessível.

    “Não são volumes como os da Camaïeu, da Zara ou da H&M, claro. Mas temos muitas marcas fortes em todas as gamas de preços. Não acho que tenhamos uma gama que esteja condenada a desaparecer”, aposta o diretor do Observatório Econômico do Instituto Francês da Moda. “Elas precisarão se distinguir, num mercado complexo e com muita concorrência, mas não é impossível.”

    Outro conselho do especialista é investir mais na comunicação sobre as condições de fabricação dos produtos franceses, incluindo as normas ambientais, e sobre a importância do apoio às marcas nacionais para a economia do país.

    “Acho que pode ser o futuro da moda e espero que haverá várias empresas que vão se distinguir das produções ‘low cost’, como Shein e Temu, e estarão atentas à qualidade. O setor de alimentação viu acontecer essa revolução: hoje os franceses são muito mais sensíveis à origem dos produtos que consomem”, ressalta Minvielle.

    6 min

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