Radar econômico

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By RFI Brasil
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  • Lei antidesmatamento e queimadas podem ser ‘bola da vez’ para manter acordo UE-Mercosul travado

    O Brasil tenta acelerar as negociações do acordo comercial entre a União Europeia e o Mercosul até o fim deste ano. Mas do lado dos europeus, dois argumentos ligados à atualidade têm potencial de continuar travando a finalização do texto: a entrada em vigor de uma lei antidesmatamento importado no bloco, prevista para janeiro de 2025, e os incêndios florestais em curso em diversas regiões brasileiras.

    Lúcia Müzell, da RFI em Paris

    O tema tem sido evocado pelo Itamaraty e o próprio presidente Luiz Inácio Lula da Silva, em conversas com Ursula Von der Leyen, presidente da Comissão Europeia, e Olaf Scholz, chanceler da Alemanha – país favorável ao tratado. A série de queimadas nos biomas brasileiros se tornam um argumento a mais para aqueles que se opõem há anos à ratificação do texto na Europa, em especial o setor agrícola.

    “O que está acontecendo no Brasil quase que justifica a regulação europeia sobre o desmatamento. Eu não a considero como um instrumento protecionista. Qualquer regulação pode ser usada de uma maneira protecionista, mas eu acho que ela tem uma motivação legítima ambiental, climática”, alega Pedro da Motta Veiga, diretor do Centro de Estudos de Integração e Desenvolvimento (Cindes), focado em política externa brasileira.

    “Na ausência de algum tipo de regulação multilateral ou acordada entre os países, eu entendo que a União Europeia tenha resolvido estabelecer um papel pioneiro de estabelecer uma legislação unilateral relativa às importações para os seus países-membros”, analisa.  

    Bloqueio permanente

    A última rodada oficial de negociações do acordo foi realizada em Brasília, no começo de setembro, sob protestos de entidades representativas dos agricultores franceses, holandeses ou irlandeses. O diplomata aposentado José Alfredo Graça Lima, ex-embaixador na missão brasileira junto à União Europeia, é um dos mais experientes negociadores em tratados comerciais em nome do Brasil e do Mercosul – e estava no posto quando as negociações foram suspensas, em 2004. Ele demonstra pouca esperança de ver os entraves ao acordo serem superados um dia.

    “Sempre tem e sempre terá, porque essas controvérsias não vão desaparecer. E aí o acordo fica no limbo”, constata. “Enquanto existir a Política Agrícola Comum (PAC) europeia, não tem expectativas de comércio mais livre para os produtos agrícolas de fora da União Europeia. É uma total impossibilidade.”

    O atual momento político na Europa também não é favorável, com a ascensão da extrema direita nacionalista em diversos países. Em plena crise política, tudo que a França não quer é reavivar um tema tão polêmico quanto a associação comercial com o Mercosul.

    Além disso, o novo primeiro-ministro francês, o conservador Michel Barnier, seria pessoalmente contrário à conclusão do tratado, segundo o site Euractif apurou com aliados do premiê. Barnier foi o negociador-chefe europeu para o Brexit e é apegado às chamadas cláusulas-espelho, que determinam a reciprocidade entre as duas partes.

    Rejeição do acordo pelo PT

    O projeto foi lançado há quase 25 anos, passou cerca de 12 anos paralisado e, por fim, só foi concluído durante o segundo ano de governo de Jair Bolsonaro, em 2019. Entretanto, a etapa seguinte, da ratificação pelos Parlamentos dos países membros dos dois blocos, jamais se concretizou, no contexto da disparada do desmatamento na Amazônia. As negociações foram reabertas após a troca de governo no Brasil, em 2022. 

    Na visão de Motta Veiga, a responsabilidade pelo fracasso até agora é partilhada pelos dois lados. Depois de a União Europeia exigir a inclusão do combate ao desmatamento no texto, o Brasil impôs uma nova lista de condições em contrapartida, como restrições de acesso às compras governamentais nos países do Mercosul.

    O especialista lembra que as gestões petistas sempre se opuseram ao avanço das tratativas – e afirma duvidar quando o presidente diz desejar fechar o texto até dezembro. 

    “Eu não sei se o Brasil espera isso. Eu sou muito cético sobre a disposição da diplomacia brasileira e os governos do PT de fechar acordos com países desenvolvidos. É uma coisa rejeitada pelo PT por princípio”, salienta. “Na verdade, eles não fazem acordos com ninguém, nem com o Mercosul, que é priorizado por eles. Então eu acho que é muito da boca para fora: Lula pode perfeitamente ficar dizendo que quer acordo, porque de qualquer forma os europeus provavelmente não o querem”.

    O diplomata José Graça Lima vai além: avalia a própria pertinência no pacto, que não criaria mais comércio entre os dois blocos regionais, dadas as restrições que o texto negociado impõe. Os automóveis europeus, por exemplo, só teriam acesso facilitado ao mercado sul-americano 16 anos depois da entrada em vigor do tratado.

    “É claro que há um interesse de todas as partes de vender algo que, na verdade, não existe, que é a criação de um mercado consumidor de milhões de pessoas. Mas mesmo na vigência deste acordo, a União Europeia não vai ter melhores condições de acesso do que a China, por uma questão de custos de produção, de competitividade”, avalia o ex-embaixador.

    “Do ponto de vista agrícola, há um engessamento de uma situação que é discutível, eu diria até ilegal à luz da OMC [Organização Mundial do Comércio], afinal o acordo estabelece cotas para produtos brasileiros – que ainda podem ser afetados por uma lei antidesmatamento, cuja operacionalidade é muito discutível. Ela estabelece o precedente de uma restrição que pode prejudicar o Brasil nos outros mercados”, adverte.

    Outros países também pedem adiamento

    No começo de setembro, os ministros da Agricultura, Carlos Fávaro, e das Relações Exteriores, Mauro Vieira, encaminharam à Comissão Europeia uma carta para pedir o adiamento da lei no bloco, considerada “punitiva” aos países produtores de commodities como o Brasil. Eles alegam que a medida poderia afetar 30% das exportações à Europa, o equivalente a 15 bilhões de dólares (R$ 83,5 bilhões).

    A iniciativa brasileira foi criticada por organizações ambientalistas, que afirmam que o país poderia, ao contrário, se beneficiar desta legislação para acelerar a preservação das florestas.

    O Brasil não é o único insatisfeito com a nova legislação, adotada para aumentar a rastreabilidade da cadeia produtiva e, assim, combater o desmatamento nos países exportadores para a União Europeia. Os Estados Unidos já tinham feito solicitação semelhante, e outros países africanos e asiáticos demonstram a mesma preocupação com a sua implementação, cujos detalhes não estariam esclarecidos. Alegam, ainda, que os trâmites burocráticos dentro da UE ainda não estão finalizados.

    7 min
  • Câmbio alto prejudica viagens para o exterior; real não deve se fortalecer tão cedo

    Quem viaja para o exterior a turismo ou faz negócios internacionais começa a se acostumar com o câmbio alto: o dólar e euro em relação ao real subiram no início do ano, dispararam em junho e não baixaram mais. A queda dos juros nos Estados Unidos deve estancar esse movimento, mas não bastará para fazer o real se valorizar.

    A moeda americana tem oscilado entre R$ 5,60 e R$ 5,65, ante a cerca de R$ 5 em 2023. Já a europeia é cotada acima de R$ 6,2 – em torno de R$ 0,85 a mais do que no ano passado.

    O aumento tem pesado no bolso dos turistas que viajam ao exterior, nota a presidente da Agência Brasileira das Agências de Viagem (Abav), Ana Carolina Medeiros. “A procura não diminuiu, mas a gente percebe que mudaram as escolhas como o tipo de assento no avião, na classe executiva ou na econômica, uma diferença na hotelaria, que fica bem mais restrita para o cliente poder economizar. Ele também muda para outro destino que seja um pouco mais em conta", assinala. "Nós temos buscado, junto aos fornecedores, por mais facilidade de pagamento, como parcelamento no cartão", diz Medeiros. 

    A expectativa da queda da taxa de juros nos Estados Unidos, que se arrastou ao longo do ano, foi a principal justificativa para a valorização do dólar no primeiro semestre, e em relação não apenas ao real. O peso mexicano chegou a perder 18%. 

    “Quase sempre, os fatores externos são dominantes, mas a moeda brasileira, como as emergentes de maneira geral, tem se comportado um pouco pior neste mundo com tantas incertezas e riscos, relacionadas à reversão do ciclo monetário que começa no mundo desenvolvido e também pela eleição americana”, salienta Livio Ribeiro, professor e pesquisador do Instituto Brasileiro de Economia (Ibre) da Fundação Getúlio Vargas e sócio da BRCG Consultoria.

    Ciclo de queda de juros nos EUA

    Nesta quarta, as peças podem começar a se mexer no xadrez do câmbio: o mundo está de olho na reunião do Comitê Federal de Mercado Aberto (Fomc, na sigla em inglês), para uma aguardada decisão sobre o início de um ciclo de redução dos juros pelo Banco Central americano (Fed). O mercado espera um primeiro corte de pelo menos 0,25 ponto percentual nesta quarta-feira – o que já favorece a procura pelas moedas das grandes economias, inclusive o euro. 

    “No DXY, índice que mede o dólar em relação a outras moedas, principalmente de mercados de desenvolvidos, já podemos ver que o yen está com um peso forte”, nota Thais Batista, gestora de portfolios na Schelcher Prince Gestion, em Paris, onde é especializada em mercados emergentes. “A gente vê que o dólar, no ano, está caindo agora. Já está negativo, provavelmente por causa da força do yen.”

    Mas a conjuntura externa não é a única explicação para o real desvalorizado. Aspectos internos no Brasil acentuam a queda: incertezas sobre a situação fiscal do país, ingerências do governo na governança do Banco Central e dúvidas sobre a próxima presidência da instituição são alguns dos fatores que pressionam a moeda nacional.

    “O investidor local vive com esse bicho-papão da inflação há décadas e isso influencia muito o câmbio por conta do contexto interno. As questões estruturais do Brasil ainda estão pesando na moeda e nos cenários que os investidores fazem”, observa Batista. “A gente precisaria que eles pintassem um quadro um pouco melhor para o país para justificar uma alta significante do real.”

    Impacto no Brasil

    Por isso, não se espera uma mudança significativa do câmbio para os próximos meses. A instabilidade no México favorece a maior procura pelo real, entre as economias latino-americanas, e a provável nova alta da taxa básica no Brasil, que também deve ser decidida esta semana, tende a estancar a desvalorização da moeda brasileira.

    “A gente tem uma economia que está se mostrando mais forte do que as pessoas imaginavam, com um mercado de trabalho forte e a economia como um todo crescendo bastante, principalmente nos setores de serviços e consumo interno. Tem uma política fiscal expansionista e talvez o reconhecimento de que a política monetária possa ter passado do ponto", explica Ribeiro. "O corte que levou a Selic até 10,5 está se mostrando excessivo, dados os parâmetros nos quais a política monetária é discutida no Brasil.”  

    Para Thais Baptista, entretanto, se voltar a subir a Selic, o país “irá na contramão do mundo”. “Todos os Bancos Centrais do mundo estão baixando as suas taxas de juros, com exceção de três: Japão, Marrocos e Brasil”, indica a gestora da Schelcher Prince Gestion.

    Para ela, o BC poderá fazer este movimento para “comprar” a credibilidade do investidor no país após a série de percalços entre o governo federal e a instituição, no primeiro semestre do ano.

    6 min
  • Bloqueio do X abala ambiente de negócios no Brasil? Especialistas analisam

    Desde o bloqueio da rede X no Brasil pelo ministro do Supremo Tribunal Federal Alexandre de Moraes, empresários alegam que a medida prejudica o clima de negócios no país. A decisão traria um ambiente de “insegurança institucional” para as empresas que operam no Brasil e poderia afugentar investimentos estrangeiros.

    Moraes suspendeu as operações e o uso da plataforma em território brasileiro depois que o X se recusou a nomear um representante legal no país, num contexto de suspeita de que a rede estimula a disseminação de conteúdos falsos e discursos de ódio. O dono da rede, o bilionário americano Elon Musk, fomenta há meses um embate com o ministro do STF, que ele acusa de tentar censurar a rede.

    O caso gerou repercussão mundial – e ocorre uma semana depois do dono da plataforma Telegram, Pavel Durov, ser detido em Paris por descumprir ordens judiciais.

    “O mercado brasileiro pode ser penalizado se alguns atores internacionais estimarem que o acesso está mais difícil. Isso pode criar, a médio e longo prazo, efeitos negativos”, reconhece Julien Maldonato, diretor de digital trust da auditoria Deloitte. “Mas um país deve poder tentar manter uma forma de soberania em alguns assuntos, seja de negócios ou da gestão da comunicação e da informação. É preciso tentar encontrar um equilíbrio dinâmico, porque ao longo do tempo, esses equilíbrios serão sempre questionados.”

    Tentativas de controle afetou investimentos na China

    Apesar de inúmeras tentativas pelo mundo, o controle das plataformas digitais se tornou quase impossível – nem os países abertamente autoritários conseguem, salienta Nathalie Janson, professora associada de Finanças da Neoma Business School, em Rennes.

    “Levanta dúvidas sobre a capacidade das empresas multinacionais poderem fazer negócios nestes países, se as regras podem mudar de um dia para o outro. É uma questão colocada há uns 10 anos na China, aliás, que tem um governo autoritário”, explica a especialista em finanças digitais. “Depois dos problemas com o empresário Jack Ma e diversas proibições de atuação, o clima de negócios se tornou, evidentemente, desfavorável – e a China teve uma baixa dos investimentos estrangeiros. Então, acho que a questão é legítima no Brasil.”

    A professora evoca a delicada fronteira da liberdade de expressão, que pode entrar em conflitos com diferentes leis dos países. Janson destaca que em muitos deles, o X salvou vidas e ajudou a combater regimes opressivos.

    “A pressão por maior regulação é importante ao gerar debate, para as pessoas saberem por que estão querendo regular as plataformas. Porém, eu não acho que essa pressão terá um impacto maior do que o já vimos na Europa, que conseguiu aprovar o Digital Services Act.”

    Para Musk, dois pesos, duas medidas

    O caso de Elon Musk tem uma especificidade em relação a outras redes sociais: o bilionário faz uso político da plataforma que comprou em 2022. Ele faz campanha pelo candidato republicano Donald Trump nos Estados Unidos e, de forma mais ampla, milita contra a esquerda.

    Musk escolheu a dedo os pedidos judiciais ou de governo que recusaria – em 80% dos casos pelo mundo, acatou sem alarde as solicitações oficiais de suspensão ou fechamento de contas no X, observa Maldonato.

    “Estamos vivendo estes novos equilíbrios, nos quais as potências tecnológicas chegam a ter mais poder e impacto que um Estado. Musk pode se servir dessa força tecnológica e capitalista que ele tem para influenciar correntes de pensamento no seu próprio país e no exterior”, afirma o consultor francês. “Ele acha que existe praticamente só um caminho, a corrente de um mercado muito livre e libertário, e que só haverá progresso desta forma.”

    A confrontação Musk x Moraes no Brasil impulsionou o crescimento de uma rede social concorrente, o Bluesky, que passou de 6 para 8 milhões de usuários em pouco mais de três dias. Nathalie Janson, entretanto, demonstra ceticismo quanto ao fim da hegemonia do ex-Twitter, anunciada desde que a rede foi comprada pelo controverso bilionário.

    “Vimos que os movimentos alternativos, como o Mastodon, não foram muito longe na concorrência. Tenho a impressão de que acontecerá a mesma coisa no Brasil”, avalia. “É claro que é bom e é sadio que haja concorrência, mas acho que o Twitter vai continuar sendo a rede de referência, apesar das suas confusões com a Justiça.”

    Julien Maldonato considera a possibilidade de as redes operarem mais “em forma de arquipélago”, ou seja, com mais diversidade, conforme os interesses dos usuários. “Mas a diversidade pode levar à fragmentação e ao isolamento – poderemos ter pequenas ilhas digitais que talvez não se falarão mais entre elas. Seria lamentável, mas não esqueçamos que a tendência das pessoas sempre foi evoluir das fraturas: elas acabam por reunir para alcançarem escala e tamanho maiores”, salienta ele.

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  • Jogos Paralímpicos evidenciam diferenças de acesso a tecnologias por países ricos e pobres

    Os Jogos Paralímpicos trazem à luz os desafios da acessibilidade para as pessoas com deficiência. Por trás do desempenho dos campeões, está uma vasta cadeia especializada em melhorar não apenas a performance dos atletas, mas também o cotidiano das pessoas com deficiência. Mas o evento também ilustra o quanto o acesso dos países às melhores tecnologias é desigual. 

    Até agora, mais de 1,9 milhão de ingressos já foram vendidos para os Jogos Paraolímpicos de Paris 2024, de um total de 2,5 milhões postos à venda. Com 22 modalidades, a metade da Olimpíada, o evento não desfruta do mesmo prestígio, mas representa um momento único para promover avanços para cadeirantes, cegos e outros.

    Um exemplo: apenas 3% da vasta rede de metrô de Paris oferece acessibilidade plena, uma fragilidade que será exposta agora que a cidade espera receber 350 mil visitantes com deficiência durante o megaevento. A realização dos Jogos Paralímpicos força o país a olhar para problemas que costumam ser invisíveis para a maioria dos cidadãos, empresas e tomadores de decisões, aponta Juliette Pinon, pesquisadora do Instituto de Administração de Empresas da Sorbonne, em entrevista à emissora France Culture. Pinon desenvolve uma tese sobre a dimensão inclusiva do legado de Paris 2024.

    “Temos um eixo material, sobre coisas que ouvimos falar muito agora, como transportes, infraestruturas e equipamentos esportivos para o evento e para o cotidiano dessas pessoas. E temos o eixo imaterial: a sensibilização para as pessoas com deficiência, a mudança de olhar sobre elas”, afirma a pesquisadora. “É um momento chave para a França, cujas políticas públicas para as pessoas com deficiência foram criticadas por diferentes instâncias, em especial organismos internacionais, pelas violações dos direitos das pessoas nessa situação.”

    Diferenças entre delegações

    Na Vila Paralímpica, adaptada para receber os 4,4 mil atletas, um centro de revisão e consertos de próteses, cadeiras de rodas e outros equipamentos opera com 164 funcionários do grupo alemão Ottobock, parceiro do Comitê Paralímpico Internacional desde os Jogos de Seul, em 1988.

    O local é uma amostra de toda uma cadeia que melhora as condições de vida dessas pessoas. O diretor técnico das instalações, Bertrand Azori, relata que as visitas ao centro evidenciam o fosso que existe entre as delegações de países ricos e pobres, onde o acesso a tecnologias mais avançadas é baixo.

    “Já teve prótese feita com cano de encanamento, de plástico, cumprindo o papel do alongamento da prótese. E a gente sempre tem que encontrar uma solução”, comenta, à RFI. “Tem próteses improvisadas, outras que vemos que foram consertadas em casa. Há próteses de joelhos que não víamos há mais de 30 anos, e neste caso somos obrigados a trocar porque aqui temos tudo que precisamos para consertar, mas tem uns modelos que nem saberíamos como fazer para consertar.”

    O centro dispõe de cerca de 60 cadeiras de rodas para empréstimo, tem 15 mil peças no estoque e impressoras 3D que podem fabricar novas. O arqueiro francês Damien Letulle passou para verificar as rodas da sua cadeira, a poucos dias do início das competições paralímpicas.

    “Eles são muito competentes e vemos como eles prestam atenção em cada detalhe. A gente já tem que estar muito concentrado e não devemos estar preocupados com um probleminha técnico que nos atrapalharia”, diz o atleta. “Eles fazem de tudo para que a gente possa estar com a cabeça fria para praticar a nossa modalidade da melhor forma.”

    Tecnologia da Airbus a serviço dos atletas

    No ambiente da alta performance das Paralimpíadas, a tecnologia pode fazer toda a diferença – e pode vir de pesos-pesados do setor, independentemente da área de atuação principal. A quase 700 quilômetros ao sul de Paris, o laboratório de inovações da fabricante de aviões Airbus desenvolveu 30 equipamentos paralímpicos em parceria com a Agência Nacional do Esporte francês, como bicicletas melhor adaptadas ou um punho que torna a prática de esgrima mais eficiente pelo atleta.

    Uma placa na entrada anuncia o objetivo: “o lugar onde as ideias ganham vida”. “Para termos aviões ultramodernos, precisamos das mesmas competências: cálculos de estruturas, de estresse dos materiais, que sejam ultraleves, mas ultrarresistentes. Se transportarmos todo o nosso conhecimento em aerodinamismo e em materiais para outra área, o resultado para uma alta performance vai estar lá”, explica Christophe Debard, diretor do ProtoSpace e ele próprio usuário de uma prótese na perna direita.

    O produto que acaba de ficar pronto é um tipo de meia que cobrirá a prótese de corrida do campeão mundial de paratriatlo Alexis Hanquiquant, tornando-a aerodinâmica.

    “Utilizamos os nossos programas de cálculo aerodinâmico para criar um modelo que otimize a penetração do ar na prótese e faça o atleta ganhar precioso segundos quando ele for passar para a bicicleta. Aqui nós buscarmos esses ganhos marginais, esses segundinhos que podem representar ter medalha ou não, ou passar de uma medalha de prata para uma de ouro”, salienta Debard.

    Os Jogos Paralímpicos de 2024 começam nesta quarta-feira (28) e vão até 8 de setembro.

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  • Oportunidade de ouro ou frustração? Olimpíada desafia brasileiros que trabalham em Paris

    A realização da Olimpíada em Paris oferece oportunidades profissionais inéditas para brasileiros instalados na França – mas também impacta negativamente no trabalho daqueles que não atuarão diretamente no evento. Os meses de verão costumam ser a alta temporada para o turismo na capital francesa. Este ano, entretanto, uma estranha calmaria tomou conta do setor.

     

    Lúcia Müzell, da RFI em Paris

    A fotógrafa e videomaker Camilla Cepeda trabalha há oito anos registrando a visita de estrangeiros de passagem pela cidade. Mas desta vez, o turista tradicional, que vai a Paris para conhecer ou voltar aos principais monumentos, preferiu antecipar a viagem para escapar do agito dos Jogos Olímpicos ou adiá-la para depois que os cartões postais forem devolvidos à cidade, a partir de setembro.

    Camilla já se preparava para uma queda da demanda, já que vários dos principais pontos turísticos parisienses estão ocupados para as competições e os preços da viagem dispararam. "Muitas agências de turismo que são minhas parceiras no Brasil e mandam clientes para cá me disseram que não embarcaram o público esperado”, relata.

    A goiana tem em mente o impacto dos Jogos de Londres para a capital britânica, há 12 anos: o megaevento esportivo acabou assustando a clientela típica que vai à Europa aproveitar os meses de verão.

    "Tenho alguns trabalhos agendados de pessoas que já tinham feito o planejamento da viagem para a Olimpíada. Ou seja, é um outro perfil de cliente que eu vou atender neste período. Não é o perfil habitual do turista que vem e consome Paris em todos os quesitos, desde restaurantes, moda, shopping”, indica a fotógrafa. "O turista que virá a partir da semana que vem é o turista esportivo. Vai ter, mas será pontual: nada comparado ao movimento de julho turístico de Paris."

    Na falta de clientes, opção é mostrar a cidade na 'versão olímpica'

    A mineira Karine Naves organiza roteiros turísticos para brasileiros em Paris desde 2017 – e chega à mesma conclusão. "Em julho, costuma ser o momento em que eu mais trabalho, eu e outros colegas guias. Mas esse ano está sendo atípico, por causa das Olimpíadas”, constata. "Tudo está muito mais caro, as pessoas estão com dúvidas de como vai ser, sobre as dificuldades de locomoção em Paris, as estações de metrô fechadas. Eu vejo que os hotéis estão vazios, não só de brasileiros, mas de outras nacionalidades”, afirma.

    Ao perceber que a demanda estaria em queda, Karine não hesitou: decidiu curtir o período ao lado de clientes que se tornaram amigos e estarão na cidade. "Eu me dei esse tempo para eu poder aproveitar mais as Olimpíadas e não só estar trabalhando", afirma. De quebra, ela tem mostrado a preparação de Paris para os Jogos para os seus seguidores nas redes sociais.

    Virada à vista? 

    Nessas horas, nada como a experiência para superar os altos e baixos do métier. Vivendo há quase 30 anos na França, a pernambucana Adriana Leal traz na bagagem da vida outros megaeventos sediados na cidade, como a Copa de 1998 e a Eurocopa de 2016. A aposta dela é que ainda ocorrerá uma virada na situação.

    "A gente tem que ter um pouco de calma, sangue frio. Talvez porque eu tenha jogado basquete, eu aguento a pressão e deixo que o jogo comece. Quando o juiz apita e o jogo começa, aí vai!”, compara. "Então estou esperando que, no sábado, depois da abertura, as coisas comecem a evoluir de uma forma mais positiva para o tamanho do evento que temos pela frente”, prevê.

    Adriana organiza e recepciona turistas estrangeiros e conta com uma rede de motoristas que, como ela, já têm “gingado" para atender a um volume de trabalho que poderá surgir de última hora.

    "O brasileiro gosta de decidir muitas coisas em cima da hora. E quando o show começa, eles ficam animados com o que veem e acabam vindo, até porque surgem promoções ou pacotes interessantes”, diz. "De repente, um dia antes eles me avisam: “tô chegando e quero isso e isso", e do nada surgem três ou quatro carros de uma vez só que eu tenho que disponibilizar para dali a três horas."

    Trabalhar na organização do evento é oportunidade única

    Já para aqueles brasileiros envolvidos na realização das Olimpíadas, a ‘correria' já está intensa há meses. A delegação do Brasil ocupará três grandes espaços relacionados ao evento: os alojamentos da Vila Olímpica, para os atletas; a Casa Brasil – onde ocorrerão eventos abertos ao público, no parque de La Villette –, e o castelo de Saint-Ouen, a 600 metros da Vila Olímpica e que servirá de base de apoio para o Time Brasil.

    No castelo, monumento histórico da cidade ao norte de Paris, quem estará no comando dos fogões para o tradicional feijão com arroz de cada dia é a cozinheira e empreendedora Sarah Lima. Há 12 anos na capital francesa, a paulista foi selecionada pelo Comitê Olímpico Brasileiro (COB) para coordenar o serviço de alimentação dos atletas brasileiros.

    "Para mim é um desafio muito grande porque é um dos projetos mais longos em que eu já trabalhei e tem toda uma logística específica para este projeto. Ele é mais cheio de detalhes, protocolos, mas está sendo uma experiência muito legal e gratificante para mim e a equipe”, salienta.

    Setor da alimentação brasileira no exterior

    Mais de 30 pessoas estão envolvidas ao seu lado nesta missão, entre elas 25 novos cozinheiros brasileiros que foram formados para trabalhar no castelo. Alguns deles, revela Sarah, já começavam a abandonar o sonho de viver na França.

    “Isso trouxe esperança para eles de um horizonte diferente, de sair de trabalhos como limpeza, construção civil. Isso está permitindo a eles terem outros objetivos e perspectivas profissionais aqui na França”, comemora. “Tem alguns que estão realmente abraçando a oportunidade com muita vontade de aprendizado e evolução. Para mim, o mais gratificante é isso, é ver que estou conseguindo dar oportunidade e uma visão de futuro para 25 imigrantes."

    Para manter a Casa Brasil abastecida com brigadeiros, a sul-matogrossense Claudia Silva também teve que triplicar o número de ajudantes para enrolar os docinhos. Ela estima que o volume da produção será sete vezes maior que o habitual da clientela na França, onde vive desde 2012 graças ao trabalho como confeiteira de especialidades brasileiras.

    "É surreal, um volume nunca antes feito. E a gente sempre pende para contratar brasileiros”, ressalta. "É um período bem bacana para a gente poder divulgar o nosso trabalho e ser mais conhecido, um período fantástico e com certeza nós colheremos mais frutos dele, a longo prazo.”

    8 min
  • Restrições das Olimpíadas deixam comerciantes de Paris ‘desencantados’ com evento

    O que parecia ser uma oportunidade de ouro para os negócios se revela, na verdade, um prejuízo: as Olimpíadas de Paris decepcionam diversos serviços dependentes do turismo, que viram a frequentação de visitantes cair nas semanas anteriores ao evento e ainda temem o pior. Comerciantes e gerentes de hotéis e restaurantes evocam o impacto da série de restrições ao trânsito na cidade e o medo dos preços altos, que parecem afugentar os turistas habituais da alta temporada.

    Lúcia Müzell, da RFI em Paris

    O tempo chuvoso e fresco neste início de verão parisiense também não colabora. Julho não tem sido um bom mês na comparação com os outros anos, garante Franck Delveau, presidente da União das Profissões e da Indústria Hoteleiras. Ele lamenta a expectativa de apenas 70% de ocupação dos hotéis na capital francesa.

    "Muita gente desistiu de vir a Paris por causa dos problemas para circular na cidade, com muitas obras. Sem falar do clima político na França hoje – que, preciso destacar, contribui para atrapalhar a vinda dos turistas”, aponta. "A Olimpíada vai trazer 1 milhão ou 1,3 milhão de turistas estrangeiros. Nos tempos normais, costumam vir de 3,5 milhões a 4 milhões no verão."

    A fuga dos turistas não chega a ser uma surpresa: as imagens da cidade-sede virada do avesso para a realização das Olimpíadas geram efeito negativo nos meses que precedem o evento, um fenômeno já tinha sido verificado nos Jogos de Londres, em 2012.

    Em junho, as receitas do turismo em Paris caíram 25,4% em relação ao mesmo mês em 2023, conforme apurou a consultoria MKG Consulting, especializada no setor. O preço médio das diárias de hotel recuou 14,5%, impactado também pela queda do turismo de negócios. Paris acabou riscada do mapa para a realização de outros eventos empresariais e de instituições.

    A companhia Air France nota essa baixa nos seus aviões, mais vazios neste verão. A empresa antecipa que as receitas serão de € 160 milhões a € 180 milhões menores nesta temporada, na comparação com o verão passado.

    Obras, grades e bloqueios afastam turistas 

    Em pleno coração de Paris, os comércios, cafés e restaurantes acostumados a receber milhares de pessoas por dia veem a Olimpíada como uma decepção. Não bastassem as grades provisórias instaladas por toda a região central para a programação olímpica, o garçom Laurent mal consegue acreditar que banheiros químicos serão colocados bem em frente ao café onde trabalha.

    “Para a gente, é um desencanto, porque aquilo que deveria ser um evento convivial se tornou uma Paris vazia”, resume, à reportagem da RFI. "Visualmente, o resultado aqui é lamentável. Não estamos conseguindo atrair gente para as mesas na rua, porque ninguém quer ficar instalado na frente de uma grade dessas. Ninguém quer ver isso quando vem conhecer a cidade e apreciar a beleza de Paris”, afirma o garçom.

    O frequentado mercado de flores Elisabeth II, na ilha de la Cité e a poucos metros da catedral de Notre Dame, não poderá abrir na véspera e no dia da cerimônia de abertura dos Jogos Olímpicos. Em toda a cidade, 10% dos tradicionais mercados ao ar livre serão atingidos pelo evento.

    "Nós seremos obrigados a fechar porque não terá ninguém. Tudo vai estar bloqueado. Eles já começaram a cortar o acesso às pontes”, diz a florista Betty. "Como vamos poder trabalhar, e como faremos para pagar os nossos aluguéis, para comer, afinal ninguém aqui é grande empresário. Somos todos pequenos comerciantes”, questiona Betty, que vai exigir da prefeitura compensações pelos prejuízos.

    Cerimônia de abertura fecha margens do rio Sena

    A cerimônia de abertura, no dia 26 de julho, acontecerá em um formato inédito, ao ar livre no rio Sena, e vai exigir um esquema de segurança também excepcional. A partir desta semana, apenas moradores e trabalhadores na região terão acesso às margens do rio, depois de obterem autorização dos serviços policiais.

    Turistas e visitantes também precisarão se cadastrar e apresentar documentos – uma "burocracia" que tem tudo para atrapalhar a frequentação, teme Audrey Azoulay, dona de uma joalheria na famosa rua de Rivoli.

    "Por enquanto, não sei exatamente como vai funcionar. Só sei que para chegar aqui, será necessário apresentar um QR code”, indica a lojista. "O acesso a várias estações de metrô está fechado e as pessoas precisariam caminhar uns 10 minutos a mais para vir aqui. Vai ser fácil para os turistas que estarão em hotéis perto, mas para todos os outros, acho que vai ser complicado. Estou apreensiva."

    Aluguéis por temporada decepcionaram

    Não são apenas os comerciantes profissionais que ficaram desiludidos. A empreendedora Camille aluga há quatro anos o seu apartamento nos períodos de alta temporada em Paris, quando ela própria sai de férias com a família. Mas, desta vez, foi bem mais difícil emplacar, garante.

    "Foi muito atípico para nós não conseguirmos alugar nos finais de semana anteriores à Olimpíada, em junho e julho, e isso que colocamos no preço normal que sempre alugamos. Esse efeito eu também pude constatar no meu trabalho, junto a chefs de cozinha parisienses, que infelizmente não estão tendo uma grande frequentação dos seus restaurantes”, garante.

    "E até meu marido, que trabalha no setor dos museus, constata que a clientela atualmente é basicamente francesa. Tudo isso confirma que talvez o turismo vá se concentrar apenas nos dias da Olimpíada e tenha fugido daqui no restante da temporada”, conclui a empreendedora.

    Com colaboração de Arthur Ponchelet, da RFI em francês

    9 min
  • Cidades europeias reagem ao turismo de massa, apesar de receitas cada vez maiores

    Com a chegada do verão e de, literalmente, milhões de turistas pelas cidades espanholas, habitantes de grandes metrópoles, como Barcelona, e de vilarejos menores, como Cadix e nas ilhas Canárias, também saem às ruas – mas não é para visitar monumentos. Fartos do turismo de massa, os moradores protestam para exigir medidas de restrição aos visitantes, ainda que a movimentação do setor gere cada vez mais riquezas para as economias locais.

    Na manifestação em Barcelona, os cartazes traziam palavras nada amigáveis: “Turistas, vão embora”, “É a nossa cidade, não o seu parque de diversões”. Basta um curto passeio nos fins de semana para entender as razões de tanta animosidade: as tradicionais ramblas ficam saturadas entre tanta gente e vendedores de lembrancinhas.

    A Espanha é o segundo país mais visitado do mundo, atrás da França. Este ano, as receitas do setor devem bater um novo recorde e chegar a € 202 bilhões, antecipa o organismo estatal Exceltur.

    Em entrevista à RFI, Eva Doya Le Besnerais, representante do governo regional da Catalunha na França, ressalta que 70% dos catalães são favoráveis aos incentivos para o turismo, mas as pesquisas mostram que a metade da população gostaria de mais regulação.

    "Evidentemente que o turismo é uma fonte de riquezas para a Catalunha, de cerca de 10% do PIB da região. Mas se pensamos nos 8 milhões de habitantes, o número de turistas é considerável: são 2 milhões por mês”, observa. "O impacto que essas duas milhões de pessoas geram precisa ser considerado e esse é o papel do poder público."

    Impacto no mercado imobiliário

    Sujeira, poluição sonora, saturação dos transportes e uso excessivo da água pública são alguns dos efeitos mais negativos da presença de visitantes em massa. A consequência mais nociva para o bolso dos moradores é no mercado imobiliário.

    "Moradias que antes eram usadas como habitação permanente agora são destinadas só para o turismo. Por isso é preciso regular e foi o que fizemos, com um decreto, depois que observamos que em 262 localidades da Catalunha, havia aluguéis turísticos demais”, defende Le Besnerais. "O parque imobiliário disponível passou a ser insuficiente para as pessoas que vivem nestes lugares e o mercado ficou sob muita tensão.”

    Na capital catalã, os aluguéis subiram quase 70% em 10 anos, o que levou a prefeitura a adotar uma reação radical: proibir a plataforma AirBnb na cidade a partir de 2028, de modo a liberar 10 mil apartamentos para a venda ou aluguel com contratos mais longos.

    Diversas cidades europeias, como Paris, Londres ou Berlim, impõem um limite máximo de curta locação anual dos imóveis.

    Amsterdã adota série de medidas antiturismo

    Outra cidade cada vez mais incomodada com a presença excessiva de turistas – 20 milhões por ano – é a holandesa Amsterdã. Facilmente acessível de trem ou voos de baixo custo, o município já impôs restrições como proibir o uso de cannabis nas ruas, deslocar do centro o porto de chegada dos cruzeiros, e agora acaba de proibir a construção de novos hotéis.

    Mas para pesos pesados do setor, a prefeitura começa a exagerar a dose e, desta vez, errou o alvo, alega o diretor do hotel Mövenpick, Remco Groenhuijzen.

    "55% das pessoas que visitam Amsterdã o fazem só durante o dia, portanto não são atingidas pelas novas regras. Temos a impressão de que as medidas atingem justamente os turistas que não causam problemas na cidade”, critica.

    A reportagem da RFI conversou com Guido, que opera barcos turísticos Shipdock pelos canais de Amsterdã. O serviço integra a rede Bulldog, que começou há 40 anos como um coffee shop e hoje também inclui bares, lojas de lembrancinhas e um hotel na capital holandesa.

    "Você não pode impedir as pessoas de virem aqui. É impossível. Tentaram na Inglaterra e foi contraprodutivo: falaram para as pessoas pararem de ir lá e o efeito foi o contrário, teve ainda mais gente”, argumenta. "Não precisa regular. Para mim a prefeita é uma idiota e o melhor que poderia acontecer seria ela sair.”

    7 min
  • Por que os programas de governo da extrema direita e da esquerda preocupam cúpula econômica francesa

    O primeiro turno das eleições legislativas na França colocou frente a frente dois modelos diametralmente opostos de sociedade, mas que têm alguns pontos em comum nos seus programas econômicos de governo do país. O Reunião Nacional (RN), de extrema direita, e a Nova Frente Popular (NFP), aliança de partidos de esquerda, baseiam suas propostas em um expansionismo orçamentário que preocupa os agentes econômicos, num momento em que a degradação das contas públicas francesas já causa danos ao desempenho do país.

    Por Lúcia Müzell, da RFI em Paris

    O Medef, principal organização patronal francesa, considerou os dois programas “inapropriados” e “perigosos” para a economia do país, ao “gerarem altas de impostos, fuga de investidores estrangeiros e falência em massa de empresas”.

    O termômetro dos mercados financeiros cristaliza esses temores, com instabilidade nas bolsas desde que o Reunião Nacional saiu vitorioso nas eleições europeias e a coligação de esquerda despontou como a segunda principal força política, à frente do partido do presidente Emmanuel Macron. No mercado da dívida, a diferença entre as taxas a 10 anos do Tesouro francês para o alemão, referência no bloco europeu, não para de subir e atingiu a maior variação desde 2012.

    O economista Jean Tirole, prêmio Nobel de Economia de 2014, publicou um artigo no qual afirma que “o que pode resultar destes programas só pode preocupar os cidadãos que querem manter o nosso sistema social e a nossa democracia liberal”. Ele criticou as promessas dos dois opositores para melhorar o poder aquisitivo dos franceses, mas sem prever fontes de riquezas coerentes para financiar as medidas.

    Outra vencedora do prêmio Nobel, a francesa Esther Duflo, salientou à emissora France Culture que a sigla de extrema direita aposta que o seu mantra da redução de impostos para as empresas e dos gastos sociais será suficiente para convencer o empresariado, apesar do programa vago do partido sobre a gestão da economia. O projeto prevê um déficit de pelo menos € 14,5 bilhões ao ano.

    “O problema é que tem muitas medidas que beneficiam a todos, inclusive os ricos. Por exemplo, a exoneração de imposto de renda para menores de 30 anos também beneficia jogador de futebol ou empresário da tech que é jovem”, aponta Gabriel Gimenez-Roche, professor-associado da Neoma Business School.

    Programa do RN favorece os mais ricos

    O partido busca conquistar o eleitorado de baixa renda, mas, na prática, suas medidas aumentariam as desigualdades: tornariam os 10% mais ricos da população ainda mais ricos e piorariam a condição dos 30% mais pobres, segundo uma análise detalhada do economista Raul Sampognaro, do Observatório Francês de Conjuntura Econômica (OFCE), com a colega Elvire Guillaud, da Université Paris 1 (Panthéon-Sorbonne).

    Eles concluíram que o conjunto de reduções de impostos e benefícios sociais teria um impacto negativo de 1% na renda da população mais pobre, e 1,5% positivo para o topo da pirâmide. “Nós visualizamos os 30% mais pobres, mas eles enxergam a população estrangeira como alvo. Em resumo, o programa do RN quer retirar € 15 bilhões de ajudas sociais dos estrangeiros, além de outros € 5 bilhões que eles dizem que não mandarão mais para a Comissão Europeia”, afirma.

    “Quanto ao resto da população francesa, se excluímos os imigrantes, vemos que a maior parte das medidas fiscais beneficiam o topo da pirâmide de renda”, aponta.

    Decisões como subsidiar os preços da energia, proposta pelo RN, ou a anulação da última reforma das aposentadorias, prometida pela Nova Frente Popular, aumentariam ainda mais o endividamento francês, num contexto em que as taxas dos títulos da França já estão em alta.

    Um mês antes do primeiro turno, a agência de classificação de riscos Standard & Poor’s havia rebaixado a nota soberana da França, alegando dúvidas quanto à capacidade de o país reverter o déficit de mais de 5,5% registrado em 2023.

    Esquerda promete aumentar carga tributária

    A Nova Frente Popular quer bloquear os preços da energia e dos produtos alimentícios de primeira necessidade, aumentar em 15% o salário mínimo e tornar as escolas públicas totalmente gratuitas, entre outras medidas. O custo do pacote é deficitário em ao menos € 160 bilhões por ano, de acordo com um levantamento do think tank Fundação para a Pesquisa sobre as Administrações e Políticas Públicas (Ifrap).

    Para financiá-lo, a coligação de esquerda conta com o aumento das receitas fiscais: uma reforma para tornar o imposto de renda mais progressivo, a volta do Imposto Sobre a Fortuna e a criação de duas novas taxas, sobre os “superlucros” e os produtos importados.

    “A Nova Frente Popular fala que não será mais possível a França financiar as suas ambições ambientais, de justiça social e até de defesa apenas com cortes da proteção social”, observa Sampognaro. “O atual governo insistia que não aumentaria jamais os impostos, mas também não baixaria o orçamento dos serviços públicos essenciais. A esquerda vem questionar o tabu que se instaurou sobre o imposto”.

    Na visão de Gabriel Gimenez-Roche, professor da Neoma Business School, entretanto, o pacote da esquerda espantaria os ricos do país, como já aconteceu no passado em governos socialistas que fizeram a carga tributária disparar.  

    “Eles têm o programa mais detalhado, em termos de quantificação, mas ele sofre de um otimismo desmedido quanto às receitas. A ideia é, realmente, pegar o dinheiro de quem tem, dos ricos”, constata o pesquisador. “O otimismo é pensar que eles não vão se mover – só que quem tem mobilidade de capitais são eles. Eles já foram embora antes e vão de novo. E os estudos mostram que quando você aumenta a carga fiscal desse jeito, as pequenas empresas são as que mais sofrem, porque elas não têm mobilidade de capital como as multinacionais”, complementa.  

    Um levantamento da Confederação das Pequenas e Médias Empresas indicou que as medidas que estão sobre a mesa teriam impacto negativo para o clima de negócios na França. A pesquisa apurou que 60% dos presidentes de empresas atrasariam investimentos ou contratações no caso de uma vitória da Nova Frente Popular, e 36% se o Reunião Nacional sair vencedor.

    7 min
  • Mundo sob tensão leva cotação do ouro a disparar, como um investimento seguro

    Em tempos sombrios, nada é mais valioso do que a segurança – inclusive nos investimentos. A compra de ouro disparou desde 2023 e leva a cotação do metal precioso a bater recorde atrás de recorde, impulsionada pela procura não apenas de investidores, como de Bancos Centrais.

    A cotação subiu cerca de 13% só neste ano. O movimento reflete o clima de incertezas que toma conta da economia mundial, com inflação persistente, duas guerras importantes em menos de dois anos – na Ucrânia e em Gaza – e a situação fiscal americana preocupante a longo prazo.

    “Quando analisamos a situação fiscal americana num horizonte de 20 anos, se continuar assim, temos uma situação um pouco complexa. Por quanto tempo esse país vai continuar com déficit e o mundo financiando esse déficit?”, explica William Castro Alves, economista-chefe da corretora digital Avenue, baseada em Miami. “Há uma correlação entre o déficit dos Estados Unidos e o preço do ouro: ele vai subindo como uma busca de diversificação de reservas.”

    Há milênios, o ouro é visto como uma garantia estável e segura, salienta Alessandro Soldati, diretor de uma das líderes mundiais no setor, a Golden Avenue, de Genebra.

    “Nós vemos que, há 50 anos, a moeda perde valor, o que nos faz perder poder de compra. Ao mesmo tempo, o ouro continua a manter o seu valor e, mais do que isso, a aumentá-lo”, resume. “Acho que o ouro deve ser visto como uma diversificação dos seus investimentos: colocar 5 ou 10% dos bens em ouro para proteger a poupança. Ele nos dá segurança para poder continuar fazendo outros investimentos com tranquilidade.”

    China troca dólares por ouro

    As aquisições de investidores chineses e do Banco Central do país, que por 18 meses consecutivos trocou dólares por ouro nas suas reservas, também impulsionam essa alta dos preços. “Os chineses continuam a ser os maiores credores americanos. Mas como é um agente com muitos recursos, quando ele diversifica 10% das reservas, estamos falando de US$ 300 bilhões, um valor gigantesco”, aponta. “Mesmo que esse movimento seja marginal, ele acaba mexendo no preço, chama a atenção.

    Outros BCs, como da Índia, Turquia ou Rússia, também sustentam essa demanda. Até agora, o pico histórico foi atingido em maio, a US$ 2.450 onças troy, a medida inglesa para pesar o metal. O valor é o dobro do negociado há quatro anos.

    A tendência deve permanecer diante da expectativa de queda das taxas de juros nos Estados Unidos ainda em 2024 – quando os índices caírem, reduzindo também os rendimentos nos títulos americanos, o ouro poderá atrair ainda mais interessados.

    “Não podemos saber em qual direção vai continuar a cotação, mas nós estamos com a perspectiva de que as coisas vão piorar no mundo antes de melhorarem. Vamos continuar a ter desvalorização da moeda, a ter riscos geopolíticos importantes, um contexto de incertezas que permanece e pode até aumentar no futuro”, indica Soldati. “Muitas pessoas comparam o Bitcoin ao ouro digital, mas faz cinco mil anos que o ouro é uma referência para todo o mundo. O Bitcoin existe só há 14 e é muito volátil”, compara.

    Movimento 'inédito' em lojas de compra e venda

    A corrida pelo metal repercute em lojas de compra e venda mundo afora. Na Godot & Fils, uma das lojas mais tradicionais de Paris, um dos diretores, David Knoblauch, nunca viu nada igual.

    “Há 10 anos, havia cerca de 10 pessoas que entravam por dia para fazer uma transação, e hoje estamos a 60, às vezes 80 transações diárias. É algo inédito”, conta, à reportagem RFI em francês. “Da abertura da loja até o fechamento, o movimento não para.”

    O cliente Jean-Pierre é um deles: ao ler as notícias sobre a alta da cotação do ouro, convenceu a família a se desfazer de algumas peças. Por um anel, um colar e um par de brincos, recebeu € 440.

    “Trago joias antigas de famílias que estavam guardadas numa gaveta. Nós concordamos que chegou a hora de vendê-las. Não serviam mais para ninguém e com o dinheiro vamos aproveitar com os nossos filhos, nossos netos”, afirma o cliente. “O ouro é um ativo seguro e essa era uma boa oportunidade de vendê-lo.”

    Certificação de autenticidade e origem

    Alessandro Soldati, da Golden Avenue, chama atenção para os riscos que a operação pode envolver, em uma cadeia que começa nas minas – nem sempre legais –, passa pelas refinarias e só depois chega à comercialização, uma etapa que também pode ser bastante fracionada. Para evitar golpes, é preciso estar atento às certificações internacionais de autenticidade e origem do produto.

    “Sempre que alguém propuser ouro a um preço menor que o valor do mercado, você deve suspeitar. Talvez a origem deste ouro não seja tão limpa quanto o vendedor diz”, ressalta o especialista.

    Além do ouro físico, outras possibilidades de investimentos no metal são em fundos de ouro ou mineradoras negociados na Bolsa de Valores.

    Com Bruno Faure e Stéphane Geneste, da RFI

    7 min
  • Como as enchentes no RS impactam na economia de todo o Brasil

    As enchentes no Rio Grande do Sul atingem 94% da estrutura econômica do estado, e seus impactos são sentidos em todo o Brasil. O maior desastre climático já visto na história recente do país pode ameaçar o objetivo de crescimento econômico superior a 2% em 2024, antecipam previsões de bancos e analistas.

    O Estado responde por 6,5% das riquezas nacionais e tem quarto maior PIB do Brasil – mais alto que o de países vizinhos como o Uruguai e o Paraguai. Com a tragédia, o impacto para o país tem sido avaliado entre 0,2% e 0,3%.

    “Num primeiro momento, não tem como evitar um empobrecimento da região, portanto, é um Brasil que cresce menos. O ponto agora é como vai recuperar as condições de crescer”, diz o analista econômico José Francisco Gonçalves, ex-professor da USP. “Você precisa ter um plano de recuperação da atividade. Se deixar no cada um por si e que as próprias empresas se recuperem, não será, absolutamente, factível”, antecipa.

    A agricultura gaúcha é responsável por 12,6% do que é produzido no Brasil, em especial mais de dois terços de todo o arroz. A tragédia nas lavouras no Rio Grande do Sul pode repercutir nos preços dos alimentos a curto prazo, mas medidas como importações pontuais já mitigam esse efeito para os consumidores brasileiros.

    Para o Estado, as consequências podem ser mais duradouras – sem a recuperação da infraestrutura de armazenamento e da logística para escoar a produção, a próxima safra pode estar comprometida.

    “A próxima safra vai depender da logística e de como ficaram os solos. Aquela água passa lavando e leva embora a cobertura do solo, nutrientes, tudo que fica para a plantação seguinte”, salienta Gonçalves.

    Impacto nos preços de alimentos, eletroeletrônicos e materiais de construção

    Luis Otavio Leal, economista-chefe e sócio da G5 Partners, mantém otimismo sobre o desempenho do PIB brasileiro graças a resultados melhores do que os esperados no primeiro trimestre do ano, antes da catástrofe no Sul. Os números definitivos devem ser revelados em junho e “poderão compensar a perda que virá do Rio Grande do Sul”, afirma.

    Mas o economista observa que, se o choque de oferta nos alimentos tende a ser compensado rapidamente, outros setores podem ter consequências mais duradouras, como a oferta de eletroeletrônicos e materiais de construção.

    “Todo mundo vai querer refazer a casa no mesmo momento. A gente pode ter um aumento pontual de demanda por geladeira, fogão, televisão, que nos leve a um gargalo de oferta”, frisa o consultor. “Material de construção também, talvez até mais que eletroeletrônicos.”

    Armando Castelar, professor de Economia da Fundação Getúlio Vargas (FGV) e pesquisador associado do Ibre (Instituto Brasileiro de Economia, da FGV), também pondera. “Vai haver neste resto de ano um certo aquecimento com as transferências que os governos estão fazendo, de renda, para a reconstrução”, ressalta. “Usualmente, quando há desastres dessa natureza, o setor de construção civil tende a ter um desempenho relativamente bom nos anos seguintes”, afirma.

    Ainda há pouca clareza sobre qual será a velocidade da recuperação gaúcha. As inundações afetaram nove em cada 10 indústrias do Estado. Na agricultura, a chegada do fenômeno La Niña no próximo semestre pode acarretar novos prejuízos para a agricultura, desta vez pela seca.

    Impacto nas contas públicas

    Para projetar cenários futuros, a G5 Partners buscou referências em outras catástrofes climáticas semelhantes, como o furacão Katrina, que devastou Nova Orleans em 2005. “Essa reconstrução não vai ser como nos Estados Unidos, que foi relativamente rápida. Ela talvez vá ser mais lenta pela capacidade menor de alavancar recursos como tiveram os Estados Unidos naquela época”, indica Leal.

    Os valores estimados para a reconstrução do RS estão sendo calculados, mas devem passar dos R$ 100 bilhões. Os aportes excepcionais do governo federal nesta conta causam uma certa preocupação sobre o impacto para o equilíbrio fiscal do país.  

    “Sem dúvida, se isso não for compensado com cortes de gastos em outras áreas, vai complicar uma situação fiscal que já não está simples: as projeções de aumento da dívida são significativas e o financiamento dela está ficando mais caro”, avalia Armando Castelar. “Ainda que se entenda o mérito deste gasto, isso pode ter um impacto sobre o crescimento do PIB e a inflação até maior do que as enchentes propriamente ditas”, antecipa.

    José Francisco Gonçalves, entretanto, avalia que a alta do endividamento agora “é o menor dos problemas”. O ex-professor de Economia da USP aposta que a recomposição da economia gaúcha vai permitir saldar o rombo, inclusive ao voltar a impulsionar o desempenho econômico do Brasil já em 2025.

    “Você tem uma grana que é fundo perdido mesmo, e cuja contrapartida é o conforto humano, que não tem preço. Isso vai ter que estar nesse orçamento, e eu não consigo imaginar o plano para o Rio Grande do Sul não dando frutos”, explica. “Em relação à postura do mercado financeiro sobre isso, o que dá para ver é que tem uma programação de leilões, que o Tesouro vai anunciar em algum momento, e dada a natureza excepcional e planejada, é algo que poderá entrar na conta”, salienta o ex-economista-chefe do Banco Fator.

    8 min

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