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Desde a Grécia Antiga, cultura e esporte convivem enquanto parâmetros de civilização, mas a ideia de combinar atletas e artistas remonta à criação dos Jogos Olímpicos modernos: em 1912, a escultura, a arquitetura, a literatura, a música e a pintura tornaram-se modalidades olímpicas. Embora as artes não sejam mais consideradas olímpicas desde 1949, cada edição dos Jogos inclui uma Olimpíada Cultural, evento paralelo que está incluído na Carta Olímpica, documento que enquadra a competição.
Em Paris 2024, não será diferente, segundo a secretária de Cultura da capital francesa, Carine Rolland. "A Olimpíada Cultural é uma obrigação imposta à cidade-sede dos Jogos como parte do relacionamento entre a cidade-sede e o Comitê Olímpico Internacional. Ela remonta aos Jogos Olímpicos de Barcelona em 1992 e, desde então, sempre que sediamos um desses eventos olímpicos e paraolímpicos, somos obrigados a participar. Nos eventos olímpicos e paraolímpicos, as atividades culturais devem ser planejadas para acompanhar a chegada do evento.
"Assim que os Jogos Olímpicos e Paralímpicos de Tóquio terminaram, entramos na Olimpíada Cultural de Paris 2024, que deve organizar o evento cultural além do evento esportivo. E, dentro dessa obrigação, para a prefeita de Paris, e para mim ao lado dela, essa foi uma oportunidade maravilhosa de dar vida aos Jogos por meio da cultura em uma cidade que está muito empenhada em fazer da cultura um meio de construir a sociedade", diz Rolland.
"Portanto, não se trata apenas de entretenimento, de dizer que durante os Jogos Olímpicos é bom ter outras atividades, além dos eventos esportivos. É uma maneira de dizer que os Jogos Olímpicos e Paralímpicos são um momento extremamente importante para Paris. Estamos fazendo tudo o que podemos para que tudo dê certo, e a cultura é parte integrante disso, e vamos fazer desta uma Olimpíada cultural a mais unificadora possível", completa a secretária de Cultura de Paris.
Com Paris 2024, a cidade deseja aproveitar esses eventos culturais para "promover os vínculos entre arte e esporte, incentivar o diálogo entre territórios, ocupar o espaço público e, de forma mais ampla, reunir as culturas do mundo num mesmo evento olímpico".
"Isso já está acontecendo desde o outono de 2021. Temos um grande evento artístico chamado Nuit Blanche. No outono de 2021, ela já tinha sido inteiramente dedicada à Olimpíada Cultural. Foi uma harmonia de eventos durante a noite em Paris e nos arredores, reunindo arte e esporte. Foi o primeiro grande evento a sair do papel. Desde então, muitas coisas estão acontecendo", afirma Rolland.
"Em outras palavras, a longo prazo, houve residências de artistas em ambientes esportivos. Isso pode ter existido no passado, mas não foi pensado de forma tão abrangente, de forma tão forte. Agora, os artistas estão se instalando em instalações esportivas e clubes esportivos. E isso dá origem a criações cruzadas que serão apresentadas na época dos Jogos Olímpicos e Paralímpicos, um pouco antes, na primavera", sublinha.
Desde o lançamento da Olimpíada Cultural de Paris, em outubro de 2021, a cultura foi introduzida em novos ambientes e espaços públicos, e o esporte serviu de inspiração para novas formas de expressão artística. "O mesmo vale para os jovens. Os jovens parisienses há muito tempo têm acesso a cursos de esportes durante as férias. Desde o início da Olimpíada Cultural, propusemos que um certo número desses cursos incluísse atividades esportivas e artísticas de meio período. É o chamado Paris sport, vacances et culture. E todo verão, há eventos artísticos no espaço público que combinam arte e esporte", relembra.
"No final das contas, o que quero dizer é que estamos realmente inventando coisas novas. Pode ser que haja um show ou outro. Veremos no próximo verão. Você já sabe o que será feito nas ruas ou praças de Paris. Estou pensando em uma grande criação do [diretor de teatro e dramaturgo] Mohamed El Khatib chamada Stadium, que está diretamente relacionada ao esporte. Então Mohamed El Khatib vai fazer o Stadium XXL, porque tudo é maior durante os JO de Paris 2024", afirma.
Outros destaques da Olimpíada CulturalJean-Max Colard, curador de um dos maiores centros de arte contemporânea da capital francesa, o Centro Pompidou, contou à RFI que eventos estão planejados com a etiqueta "Olimpíada Cultural". "É claro que acho muito importante que uma instituição como o Centro Pompidou participe dos Jogos Olímpicos. É importante que as instituições culturais não estejam ausentes desse evento nacional e internacional e que não estejam simplesmente voltadas para suas próprias agendas ou seus próprios problemas, mas que também estejam abertas às grandes questões e aos grandes momentos que atravessam nossas sociedades", afirma.
"Implementamos um programa que já começou, pois criamos uma espécie de visita guiada às coleções uma vez por mês sobre o tema. E isso continua, agora que estamos entrando no ano de 2024. Na primavera, teremos algo extraordinário com o selo da Olimpíada Cultural, uma caça ao tesouro que estamos organizando ao mesmo tempo e em total colaboração com os cinco principais museus nacionais de Paris - o Louvre, a Orangerie, o Museu d'Orsay e o Centro Pompidou – que estão unindo forças para oferecer ao público uma “caça ao tesouro”. É uma maneira bastante interessante de trazer pessoas que se interessam por esporte. É uma forma de levar as pessoas aos museus, de fazê-las ver o local de uma maneira diferente. Também instalaremos na piazza do Centro Pompidou, uma incrível obra de arte, uma escultura do artista Raphaël Zarka. É uma escultura sobre a qual você vai poder andar de skate. Ela se chama Cycloïde Piazza e será incrível para amadores e profissionais desse esporte. E será realmente uma obra de arte no espaço público durante a Olimpíada, na praça pública do Centro Pompidou”, afirma Colard.
"Ainda é cedo. A realidade é que sabemos que [o programador e organizador] Thomas Joly está preparando grandes surpresas, isso é certo. Às vezes, as surpresas foram um pouco divulgadas, foram divulgadas quando não iam acontecer. Portanto, sabemos que alguns artistas foram previstos e que isso aconteceria, mas no final não será o caso das cerimônias", diz a secretária de Cultura de Paris.
"Quanto ao resto, nós realmente queremos uma Olimpíada cultural que esteja viva, que esteja em toda a cidade, que possa ser compartilhada. Haverá grandes destaques no palco e em outros lugares, como as cerimônias de abertura e encerramento, que serão assistidas pelo mundo inteiro. Como sabemos, haverá um público incrível para o resto. É uma experiência da cidade que estamos oferecendo naquele momento. Tem que ser algo que possa ser compartilhado por aqueles que estarão lá. Essa é a nossa prioridade", diz Rolland sobre os eventos com o selo da Olimpíada Cultural de Paris 2024.
Até o dia 19 de fevereiro, internautas do mundo todo terão acesso ao MyFrenchFilmFestival, que propõe, em sua 14ª edição, dez longas e 16 curtas em língua francesa. Os filmes terão legendas em 11 línguas, incluindo o português. Com parceria da RFI, a iniciativa é da Unifrance, organismo encarregado da promoção e exportação do cinema francês no mundo.
Patrícia Moribe, em Paris
“O Myfrenchfilmfestival existe há quatorze anos, é um festival onde a Unifrance apresenta filmes em língua francesa em mais de 80 plataformas ao redor do mundo”, diz Daniela Elstner, diretora-geral da Unifrance.
“São longas e curtas-metragens”, continua. “Quanto à seleção, mostramos caras novas do cinema francês, primeiros filmes, segundos filmes, filmes que já são um pouco reconhecidos, filmes que tiveram carreira em festivais, mas não muito expostos. Filmes que já foram lançados em outros lugares não nos interessa muito. E temos cada vez mais filmes que querem fazer parte do nosso festival, então isso significa que está funcionando”.
Em muitos países, como de língua espanhola da América Latina, Oriente Médio, Rússia, Sudeste Asiático, Ucrânia e outros, o acesso é gratuito. Em outras localidades, inclusive o Brasil, cada longa custa €1,99 (R$10) ou €7,99 (R$40) pelo pacote.
“Temos vários “businness models”, como se diz”, segundo Elstner. “Então temos países onde é totalmente gratuito. Mas quando dizemos gratuito, é preciso lembrar que pagamos sempre uma parte de direitos autorais. Garantimos que a criação seja paga porque senão, se não pagarmos, não há mais cultura. Então no Brasil, temos cada vez mais parceiros de plataformas, com assinantes. E como resultado, os nossos filmes são colocados em regime pago, pois já existe uma assinatura. É uma troca”, explica a diretora da Unifrance.
Tributo a Birkin
O cartaz deste ano faz uma homenagem a Jane Birkin (Londres, 1946 - Paris, 2023), que trabalhou como modelo e virou ícone do cinema francês e da música. Durante dez anos ela foi parceira do compositor, cantor e ator francês Serge Gainsbourg e juntos tiveram a filha Charlotte, atriz. Em “Jane B. por Agnès V.”, de 1988, Agnès Varda, nascida em 1928 na Bélgica, e falecida em 2019, em Paris, faz um retrato criativo e pessoal de Birkin.
Agnès Varda foi um nome importante da nouvelle vague francesa e no ano passado foi tema de exposições nos Encontros de Arles, no Sul da França, e na Cinemateca Francesa, em Paris, que também exibiu uma retrospectiva da cineasta.
O MyFrenchFilmFestival distribui várias distinções, inclusive prêmio do júri para longa-metragem, da imprensa e do público. Há duas presenças brasileiras nas premiações. A cineasta Lillah Halla é parte do júri para o melhor longa-metragem. Ela dirigiu “Levante”, premiado pela Fipresci (Federação Internacional de Críticos de Cinema) do ano passado. Já Leticia Silva Queiroz (CinePOP.com.br) faz parte do júri da imprensa internacional.
Da famosa tela pintada em 1656 por Diego Velázquez às ruas de Caracas. Essa tem sido a trajetória de “As Meninas”, do célebre pintor espanhol. Desta vez elas ganharam nova roupagem, em forma de escultura, através 19 releituras com motivos típicos da Venezuela natal do artista plástico Antonio Azzato.
Por Eliana de Aragão Jorge
As silhuetas coloridas espalhadas pelo município de Chacao, na Grande Caracas, vêm arrebatando sorrisos em uma cidade ainda carente de cultura. É tanto o sucesso da exposição, inaugurada há poucos dias, que diariamente os venezuelanos fazem fila, mas desta vez é para ver e fotografar "As Meninas".
O artista plástico Antonio Azzato mora há anos em Madri. Foi lá, durante uma visita ao Museu do Prado, ao ver um homem chorando copiosamente frente ao quadro de Velázquez, que o artista percebeu que "As Meninas" deveriam ganhar outros espaços. “Quando decidi reinterpretar 'As Meninas' o fiz porque estou convencido que [Diego] Velázquez precisava continuar transmitindo uma mensagem através de sua obra. Ele deixou no ar uma incógnita, por assim dizer, o que pintava por trás da tela? Por isso eu projeto uma Menina por meio de uma escultura em branco para que me ajude a transmitir uma mensagem através de sua silhueta”, diz.
A exposição "As Meninas", através das esculturas de Antonio Azzato, começou na capital espanhola e já passou por seis edições, todas aclamadas pelo público. Desta vez o artista mergulhou fundo em suas memórias para trazer aos conterrâneos 19 versões de "As Meninas", todas inspiradas em temas de seu país natal.
“Quando comecei a trabalhar na exibição, desde maio do ano passado, fiz uma lista de todos os ícones mais importantes para mim durante minha infância e me inspirei neles para criar. Por exemplo, o Ávila é a montanha onde eu ia cada manhã fazer esportes e é o pulmão vegetal da nossa cidade. O tucano que é um pássaro com umas características específicas e cores vibrantes que sempre me chamaram atenção desde crianças. Ou as araras que se transformaram em referência devido aos voos que fazem todos os dias pela capital venezuelana. Ou o Salto Angel (a maior queda d´água do mundo), lugar onde noivei. O ouro negro que é o petróleo que é a base de todas as riquezas venezuelanas”, relata.
Azzato exala felicidade ao ver o resultado em solo pátrio da exposição que o consagrou no exterior. “Esta é a primeira vez com uma exposição urbana no meu país. São seis as exposições que fiz nas ruas de Madrid. Este ano estou organizando a sétima. Esta é primeira vez aqui na Venezuela e estou muito alegre, emocionado, comovido. A primeira escultura, que foi a do (cantor) Óscar de León, posicionada na Praça França, quando passei de carro por aí, as lágrimas rolaram e comecei a chorar como uma criança. A emoção é impressionante!”, diz.
Uma surpresa!Não apenas o autor da obra se emociona. A venezuelana Joan Romero também aplaude a exposição. “Não (esperava). Foi uma surpresa muito bonita” Além disso dá esperança, nos anima e para que as pessoas que não conhecem que se interessem mais sobre o significado de As Meninas. Sobretudo porque temos muita conexão com a Europa, neste caso com a Espanha. Há muitas pessoas que viajam para conhecê-las e desta vez elas vieram para cá. Esta foi uma excelente iniciativa!”, pontua.
As esculturas estão espalhadas pelo município Chacao, um dos mais seguros da Grande Caracas, o que sugere ao visitante caminhar pela região, uma forma de conhecer as obras e a cidade. O trabalho do artista também tem a implícita função de reconectar os venezuelanos após anos de rusgas e divisões políticas. Azzato explica esse efeito causado pelas Meninas nas ruas caraquenhas:
“Venezuela vive um momento no qual as pessoas carecem de iniciativas como essas. As pessoas precisam de alegria, precisam percorrer as ruas, precisam de arte. O que mais me impactou foi ver pessoas de todo tipo de classe social aproximar-se das Meninas, conviver, ter união. União através da arte. É o que digo: a arte tem a mesma capacidade do esporte de unir as pessoas. Quando a Vinotinto (seleção venezuelana de futebol) joga se dissipam as divergências. Da mesma forma que As Meninas quando foram às ruas”, diz.
Talento venezuelanoMais que adornar parte da cidade, "As Meninas" parecem sugerir aos venezuelanos que apesar da frágil situação econômica e social do país, é preciso reconhece e celebrar o talento nacional. É o que explica Richard, um jovem que grava vídeos enquanto vai conhecendo cada uma das esculturas. “Ter uma exposição que representa o trabalho de um venezuelano para nós é inspirador. Reflete muito a cultura e o talento venezuelano”, alega à reportagem da RFI.
Mas Azzato não pintou sozinho todas "As Meninas" expostas na Venezuela. Ele contou com a criatividade de celebridades venezuelanas, entre elas estão jogadores de beisebol, o esporte nacional; um cantor de salsa, uma atleta e um estilista:
“As Meninas das celebridades que me acompanham que são (os jogadores de beisebol) Ronald Acuña e Gleyber Torres, (o cantor) Óscar de León, (a jogadora de futebol) Deyna Castellanos e (o estilista) Ángel Sánchez têm todas elas a mensagem implícita de que os sonhos se realizam e que há muitos venezuelanos lutando e trabalhando duro dentro e fora do país. Esse é um exemplo de que quando se quer as coisas, é possível consegui-las”.
Arte, apesar da críticaPelas redes sociais surgiram críticas ao valor investido em cada uma das esculturas frente a outras necessidades do país. Mairi, uma das visitantes da exposição, destaca seu ponto de vista: “Há necessidade nos hospitais, há um gasto. Mas uma coisa não tem a ver com a outra! É verdade que há necessidade nos hospitais, mas também precisamos de cultura. Precisamos! Me parece genial! Eu adoro (essa exposição)!”, diz.
A exposição que vem colorindo parte de Caracas também tem outra função além de colocar arte na vida dos transeuntes. Grande parte das esculturas serão leiloadas. A verba será destinada a instituições de apoio social. Antonio quer repetir em seu país natal a beneficência promovida onde mora. “Mais de 300 Meninas já foram para as ruas. Milhares de euros já foram arrecadados com fins beneficentes por meio de leilões dessas Meninas”, conta.
A exposição "As Meninas" chega ao fim no próximo 19 de fevereiro, pelo menos no município Chacao. Mas Azzato quer levá-la a outros lugares das Venezuela e, quiçá, do mundo. “Eu quero que isso continue se replicando não só em Caracas, mas em outras cidades da América Latina. Já existem projetos e isso é o que quero: que As Meninas tenham um percurso, transmitam mensagens e que sobretudo incentivem os mais jovens para atraí-los à arte e à cultura”, conclui o artista.
O ano de 2023 foi de muita cultura na programação da RFI Brasil. Nossa equipe vistou as principais exposições de arte não só da França, mas pelo continente europeu. Acompanhamos juntos o lançamento de obras de escritores brasileiros na Europa, comemoramos o reconhecimento de diretores nacionais nos principais festivais de cinema do mundo e nos encantamos com as histórias contadas por meio de fotografias, quadrinhos e encenações teatrais.
Porém, foi também um ano em que guerras e conflitos tomaram conta do noticiário, e a cultura, como não podia deixar de ser, respondeu como forma de protesto contra esses movimentos ou para mostrar que a arte e o belo ainda prosperam, mesmo em tempos difíceis.
Pinturas, esculturas e artes plásticasNo campo das artes é possível destacar homenagens a grandes nomes da pintura e da escultura, como a mostra que comemorou os 50 anos da morte de Pablo Picasso e a exposição que reúne, no Museu d’Orsay, as obras de Vincent Van Gogh no período passado no pequeno vilarejo de Auvers-sur-Oise, a cerca de 30 km de Paris, onde o artista viveu, morreu e está enterrado.
Ainda no d’Orsay, uma outra exposição traçou um paralelo entre as obras de Edouard Manet e Edgard Degas, dois pintores que foram contemporâneos, frequentaram os mesmos círculos artísticos, mas seguiram caminhos diferentes, sempre mantendo uma certa rivalidade artística.
Voltando um pouco mais no tempo, até o século 17, fomos até Amsterdam e Delft, na Holanda, para acompanhar duas exposições em homenagem ao mestre holandês Johannes Vermeer, nascido em 1632. Hester Schölvinck, chefe de coleção e apresentação do museu Prinsenhof, falou sobre a exposição “Delft de Vermeer”.
“O objetivo da exposição é mostrar a Delft do século 17, período em que Vermeer viveu na cidade. Partimos do começo, com o que conhecemos e tentamos ir além,” contou.
Artistas estrangeiros também foram destaque neste último ano aqui em Paris. A Fundação Louis Vuitton apresentou uma retrospectiva do artista americano Mark Rothko, um dos nomes mais importantes da pintura do século 20, ligado ao expressionismo abstrato.
Já a exposição Paris et Nulle Part Ailleurs (Paris e nenhum outro lugar), reproduz a efervescência da capital francesa nos anos 1950 e 1960. Destacando os artistas estrangeiros que influenciaram a cidade-luz no pós-guerra, a mostra reuniu obras que narram o exílio, voluntário ou não, e a relação estabelecida com a França, como explica o curador, Jean-Paul Ameline:
“Havia cerca de 7 mil a 8 mil artistas estrangeiros presentes em Paris nesses anos do pós-guerra, o que é evidentemente enorme. Nós escolhemos 24 que são característicos de diferentes tipos de expressão neste momento. Não mostramos apenas pinturas e esculturas, mas também colagem de objetos, que são importantes, e instalações, porque Paris era também um lugar onde outros movimentos se desenvolviam”.
Meio ambiente como expressão culturalO meio ambiente e a cultura brasileira também foram temas de exposições artísticas. A mostra “Antes da tempestade”, apresentada pela coleção Pinault, no prédio histórico da Bolsa de Comércio de Paris, convidou a uma reflexão sobre as mudanças climáticas. E em Lodève, no sul da França, um misterioso mecenas francês apresentou a Ivonne Papin-Drastik, diretora do museu local, a sua curiosa e vasta coleção de pinturas brasileiras datadas do século 20. As obras foram catalogadas, organizadas e apresentadas na mostra "Brasil, Identidades", como ela mesma conta.
“Para dizer a verdade, foi ele quem entrou em contato comigo e sugeriu que eu fosse ver sua coleção. A principio não vi uma maneira de como poderia encontrar uma forma coerente de mostrar esses pintores diferentes no Museu de Lodève. Então decidi pesquisar sobre esses artistas e percebi que havia um aspecto interessante, que é essa questão da identificação com o território e a impregnação desse imaginário que podemos ter”, explicou.
"Arado Torcido"Na literatura, diversos lançamentos de autores brasileiros marcaram o ano por aqui. O best-seller “Torto Arado” ganhou uma versão em espanhol, intitulada “Arado Torcido”. O autor, Itamar Vieira Júnior, participou de uma série de eventos em Madri sobre realidade rural brasileira relacionados à obra.
Foi também a vez de obras focadas em temas sensíveis. O repórter João Alencar contou à RFI a experiência de cobrir um dos conflitos de maior impacto na geopolítica mundial no início do século 21. No livro “Ao Vivo da Ucrânia”, ele revela atrocidades cometidas por russos na guerra que dura quase três anos.
Já a advogada e escritora Ruth Manus percorreu as cidades francesas de Paris e Lyon, além de fazer uma visita à Genebra, para o lançamento em francês de seu "Guia Prático do Antimachismo", que busca tratar do tema com pedagogia e, ao mesmo tempo, com ativismo e combatividade, como ela contou em visita aos nossos estúdios.
“Eu adoraria que este fosse um livro 'démodé', que fosse um tema que já ficou no passado. Mas não é. Não é no Brasil, nem em Portugal, nem na França e imagino que isso se estenda a outros países. Fico muito feliz pela oportunidade de publicar aqui, mas ao mesmo tempo, fico triste de ver que num país desenvolvido como a França isso também seja necessário” comentou.
Histórias do Brasil em QuadrinhosApesar de ser um tipo de literatura muito apreciada pelas crianças, as histórias em quadrinhos também podem abordar temas sociais e históricos bastante complexos. No último mês de setembro, o quadrinista franco-brasileiro Matthias Lehmann lançou o álbum “Chumbo” que, mesmo sendo em francês, conta a saga de uma família durante os anos de ditadura no Brasil. O autor contou para a RFI de onde surgiu a inspiração para o trabalho.
“A minha mãe casou com um francês, veio morar na França há 40 anos e ela tinha uma saudade tremenda da familia, do Brasil e ela transmitiu esse sentimento para mim e minhas irmãs. Crescemos com esse apego muito forte pelo Brasil e sempre quisemos reafirmar esse lado brasileiro. Fazer o 'Chumbo' foi uma maneira de explorar a história brasileira, entender melhor o que é o Brasil e qual é o meu relacionamento com este país,” explicou.
Vale destacar que as HQs são tema de um importante evento literário, que acontece na França todos os anos no mês de janeiro, o Festival Internacional de Histórias em Quadrinhos de Angoulême. O quadrinista brasileiro Marcello Quintanilha, que já conquistou dois prêmios no festival, teve uma retrospectiva da sua obra apresentada no icônico Museu de História em Quadrinhos de Bruxelas.
“É incrível ter a possibilidade de expor no Centre Belge de la Bande Dessinée aqui em Bruxelas, porque Bruxelas é quase uma segunda pátria para as pessoas que se dedicam aos quadrinhos. Todo esse ambiente no que se refere ao quadrinho belga e franco-belga em maior medida é um ambiente no qual eu estou muito familiarizado”, afirmou.
A sétima arte em 2023No cinema, os festivais europeus, mais uma vez, deram espaço para as temáticas brasileiras. O realizador carioca Leonardo Martinelli foi o vencedor do prêmio de melhor curta do Festival de Cinema Latino-Americano de Biarritz, com o filme Fantasma Neon.
Já a edição de 2023 do Festival do Curta-Metragem de Clermont-Ferrand premiou as cineastas brasileiras Clara Anastácia e Gabriela Gaia Meirelles pelo filme “Escasso”. Elas conversaram com a RFI e falaram um pouco sobre esse projeto. Anastácia explica que a obra mistura um melodrama com a estética das favelas do Rio, focando no audiovisual brasileiro.
“Escasso é uma entrevista, basicamente é um falso documentário. Um grupo de estudantes, ou de jornalistas, ou de filmmakers – a gente não coloca isso em pauta – vai entrevistar essa mulher para entender qual é a dela nessa casa. A partir disso, ele discute território, ocupação, identidade, fé, culinária, entre muitas outras coisas, dentro de uma estética da comédia e desse humor trágico que o carioca tem”, descreve.
Impossível falar em cinema sem falar no Festival de Cannes. Apesar de o Brasil não ter sido premiado, a participação do país na última edição do evento foi considerada um sucesso. Seis filmes foram selecionados em várias mostras e a presença no “Mercado do Filme” foi relevante.
O chefe de Promoção Cultural do Instituto Guimarães Rosa do Itamaraty, Adam Jayme Muniz, falou sobre a importância da promoção do audiovisual como mecanismo de diplomacia cultural do Brasil.
“O audiovisual é estratégico porque, de todas as linguagens artísticas e culturais, é a que consegue de forma mais eficaz promover a imagem do país no exterior. O audiovisual dialoga com todas as outras linguagens, a literatura, a música, a arte. É nesse contexto que o audiovisual se posiciona de forma estratégica e conta com esse apoio grande de diferentes agências do governo federal”, disse.
Fotojornalismo ovacionadoNa fotografia, 2023 teve, como destaque, o mestre Sebastião Salgado apadrinhando um prêmio com tema humanista e ambientalista em Paris; moradores apresentando seus olhares pessoais do 11º distrito da capital francesa e o fotógrafo Emílio de Azevedo fazendo uma releitura das expedições do marechal Rondon, através do resgate dos arquivos militares e de viagens à Amazônia.
Teve também o festival de fotojornalismo Visa pour l’Image, que aproximou o público europeu de temas latino-americanos em Perpignan, no sul da França, no mês de setembro. O fotógrafo brasileiro Francisco Proner, que cobriu as eleições presidenciais de 2022 para o jornal francês Le Monde, teve sua obra apresentada e ovacionada pelo público presente.
“O Brasil está muito em alta na Europa, tem muitas matérias sobre o Brasil, muito interesse, e acredito que os aplausos que recebi também foram para a vitória do Lula e para a derrota do Bolsonaro, não necessariamente para as fotos”, opinou.
Teatro, circo e dançaNo teatro, circo, dança e política se misturaram em "23 fragments de ces derniers jours" (23 fragmentos dos últimos dias), um espetáculo bilíngue apresentado no Teatro Silvia Monfort. Enquanto o Festival de Avignon, no sul da França, destacou o trabalho da diretora Carolina Bianchi, uma das apostas da programação. E o Brasil esteve presente ainda no maior festival de marionetes do mundo, que contou com a participação do diretor Paulo Balardim com o espetáculo Habite-Moi, ou Habite-me, numa tradução livre para português.
"O espetáculo não apresenta uma história linear, mas três quadros que são intercalados por entreatos, que vão mesclar teatro de bonecos, máscaras e dança", diz. "É um jogo da atriz em cena. Ele vai orbitar no limite entre o inanimado e a vida e, dessa forma, fazer surgir presenças que vão contracenar com ela. Para isso, os bonecos vão adquirir vida e, à medida que vão sendo evocados, criam uma realidade ficcional íntima", completou.
Há 60 anos, o Festival de Charleville-Mézières reúne artistas, marionetistas e um público de 170 mil pessoas para assistir às produções de mais de 80 companhias, de 25 países.
No campo da cultura, o ano de 2023 foi de grandes eventos e importantes realizações não só para artistas e produtores, mas também para o público interessado, que pôde se divertir, se informar, torcer e se apaixonar com as obras, filmes, coreografias e espetáculos. E se “A arte é a mentira que nos permite conhecer a verdade”, como disse Pablo Picasso, que em 2024 possamos continuar a descobrir o mundo por meio da arte em todas as suas formas de expressão.
A Fundação Louis Vuitton, de Paris, apresenta uma retrospectiva do artista americano Mark Rothko (1903-1970), um dos nomes mais importantes da pintura do século 20, ligado ao expressionismo abstrato.
Patrícia Moribe, da RFI
Rothko ficou conhecido por suas telas de grande formato, muitas vezes lidando com retângulos de contornos fluídos e paletas distintas – seja o laranja, amarelo e rosa ou de tons mais sombrios. Seu objetivo, sempre, era exprimir “as emoções humanas fundamentais” através de seus abstratos.
Marcus Rotkovitch nasceu em 1903 no antigo império russo, em um território que hoje faz parte da Letônia. A ameaça de pogroms contra judeus fez com que a família tomasse a decisão de imigrar. Ele chegou aos dez anos aos Estados Unidos e se instalou em Portland. Aluno brilhante, começou a estudar em Yale, mas resolveu se fixar em Nova York em 1923, passando a se dedicar à sua verdadeira vocação – as Artes. Naturalizado americano em 1938, ele adotou o nome de Mark Rothko dois anos depois.
A última retrospectiva de Rothko na capital francesa aconteceu em 1999, no Museu de Arte Moderna. São mais de 115 obras de coleções privadas e de museus internacionais.
A visita é cronológica. Na primeira sala, podemos ver ainda telas figurativas, esboços humanos, além de um único autorretrato de Rothko.
“O que se vê neste espaço são pinturas com temas europeus bastante tradicionais, nus, cenas da vida cotidiana, um autorretrato, paisagens urbanas. Mas já existe um certo estilo próprio, temas que aparecem nestas obras figurativas e que serão encontrados mais tarde nas suas obras abstratas"; explica Gaelle Melin, mediadora cultural da Fundação Louis Vuitton.
"Se olharmos para os retratos, já podemos perceber que Mark Rothko não aprendeu o realismo nas escolas de desenho e pintura. Existem problemas de proporção, não há uma representação exata do corpo. Seu objetivo antes de tudo é expressar um sentimento”, explica Melin, destacando os rostos vagos, a perspectiva chapada e as cores lavadas.
"Tudo isso acontece entre 1938 e 1939, que não é um período muito feliz nos Estados Unidos. Para Mark Rothko, também não é um começo de vida muito fácil. Após fugir dos pogroms, houve a Primeira Grande Guerra Mundial e a quebra da Bolsa em 1929. A situação econômica é difícil e a Segunda Guerra se aproxima. Entao ele expressa o sentimento de uma época bastante triste, onde as pessoas estão um tanto isoladas umas das outras. Ele vai continuar a pintar e a pensar sobre o papel do artista. Faz sentido continuar a pintar retratos, cenas do cotidiano, naturezas-mortas, nus? A resposta geral será não, mas o que devemos fazer? Mark Rothko mergulha em um novo projeto bastante ambicioso. Ele quer falar do drama humano, da tragédia de existir", relata a mediadora.
Rothko segue explorando a mitologia e bebendo nas inspirações surrealistas e desenvolve as chamadas pinturas Multiformes. Nas décadas de 1940 e 1950 surgem suas telas “clássicas”, totalmente abstratas, com algumas formas retangulares de contornos indefinidos e cores gritantes. Os formatos ganham em dimensão, ele explora outras paletas de cores, resultando em explosões sensoriais.
"Para o meu pai, a cor sempre foi um meio para atingir um fim, não um fim em si", explicou Christopher Rothko, filho do artista e co-curador da exposição em Paris, a Siegfried Forster, da RFI. "Ele não está interessado em estudar as cores, para ele a cor é um meio de evocar uma emoção. Não se trata de evocar uma emoção com o amarelo e outra com o azul. Essas cores existem em várias camadas profundas. Por exemplo, numa pintura, o que percebemos como laranja é composto de muitas camadas que podem conter vermelhos, brancos e rosa. De certa forma, essas cores são como as nossas próprias emoções. Nós também não sentimos apenas uma coisa. Na realidade, vivenciamos sentimentos muito complexos que se acumulam para criar a sensação que estamos sentindo em um determinado momento. Para meu pai, essas camadas de cor são uma forma de captar a complexidade do que sentimos".
"Graças à internet e às redes sociais, muito mais pessoas têm uma ideia de Rothko", diz o filho do artista, questionado sobre as influências da vida digital no trabalho de Rothko, apresentado pela última vez em Paris há duas décadas. "Muito mais pessoas pensam que conhecem o trabalho de Rothko. Mas, assim que se entra na exposição, é clara a sensação da importância física da pintura. O desafio deste trabalho não é ter apenas uma troca visual. Esta pintura realmente requer uma troca física com você. Meu pai falava da dimensão tátil, da credibilidade de uma pintura, porque você tem a impressão de sentir a presença de alguma coisa no ambiente. É uma sensação física. Isso é muito importante para obter a experiência completa de Rothko", explica.
Cores sombriasNo final dos anos 1950, as cores ficam sombrias, com tons escuros. Em junho de 1958, Rothko aceita uma encomenda para decorar as paredes do restaurante concebido pelo arquiteto Philip Johnson, no icônico e recém-inaugurado arranha-céu de outro mito da arquitetura, Mies van der Rohe, o prédio Seagram. Um ano depois, Rothko desiste do projeto, pois acha que suas obras não são compatíveis em um espaço de restauração. Dez anos depois, ele doa nove painéis da série à Tate Britain de Londres, encantado com a ideia de estar no mesmo prédio de um pintor inglês que ele admira, Turner, que é o grande destaque da Tate Britain.
A exposição parisiense destaca também a série Black and Gray (1969-1970), em que ele explora as fronteiras e embates do preto e do cinza. A presença de esculturas de Giacometti evocam uma encomenda monumental feita pela Unesco a Rothko, em 1969, para a nova sede do organismo em Paris. Mas, em julho, Rothko anula o contrato, mas continua trabalhando na série. O artista se suicida em fevereiro de 1970.
Em 2012, o quadro Laranja, Vermelho, Amarelo, de 1961, estipulou um novo recorde para uma obra de Mark Rothko, leiloado por mais de US$ 86 milhões. A retrospectiva de Mark Rothko fica em cartaz em Paris até 2 de abril de 2024.
A trupe, uma das maiores companhias de repertório do Brasil, finaliza o ano de 2023 fechando turnê europeia na Alemanha e na França. Na bagagem, um compilado de coreografias, espetáculos e partituras que marcaram o passado recente da São Paulo Companhia de Dança, tendo por denominador as inúmeras sonoridades, miríades e desenvolvimentos da música brasileira, em sua gradação popular, clássica ou contemporânea, com um leve sotaque paulistano.
"Nós começamos a fazer turnês para a Europa a partir de 2010, 2011. Então tem um tempo e todos os anos a gente vem especialmente para a França e para a Alemanha. Mas nós já estivemos em vários outros países na Bélgica, na Suíça e em Luxemburgo", conta Inês Bogéa, diretora artística do grupo.
"É um reconhecimento também do trabalho da companhia que une essa dança muito brasileira, com o DNA de uma companhia brasileira, mas que também dança o repertório europeu, como [William] Forsythe, além de outros grandes nomes da nossa dança mundial. Então, acho que a Europa, para nós é um momento de muita alegria, porque a gente pode dividir um pouco da nossa arte com esse público que reconhece o valor da dança e nos prestigia com a presença e com um aplauso muito caloroso", celebra Bogéa.
"Acho que tem uma escolha de trazer a dança e a essência do Brasil para a turnê. E é como se a gente conectasse um pouco do Brasil à Europa, e as sensações que nós trazemos, essa energia, vibração e a música são elementos fundamentais na percepção da dança", diz a diretora.
A diversidade da música brasileira"Nós estamos trazendo trabalhos de cinco brasileiros Henrique Rodovalho, Cássia Abranches, Jomar Mesquita, Leilane Telles e Juliano Nunes. Cada um deles tem uma relação muito direta com a música brasileira", diz Inês Bogéa.
"Se pensarmos no Henrique Rodovalho, ele traz um clássico de Elis e Tom, que tem um título que diz muito para gente: só tinha de ser com você. É um convite para que cada um se descubra nessa dança", aponta. "E é uma dança muito delicada e ao mesmo tempo intensa, que fala de sensações e emoções, das relações humanas. Depois você tem o Agora, de Cassia Abranches, que foi uma música criada especialmente para a gente pelo Sebastián Piracés-Ugarte, e ele traz um pouco de percussão, bateria afro brasileiro e até canto. Então a gente tem uma música que já traz um outro embalo, mais contemporânea, mais desse tempo de hoje...", lembra Bogéa.
"No embalo, ele vai buscar vários criadores brasileiros de música. Então você tem desde o Tom Jobim, do Vinícius, mas também você vai ter Assucena, Você vai ter As Bahias e a Cozinha Mineira e Celso Sim, Adriana Calcanhotto, Marisa Monte e uma variedade muito grande de músicas brasileiras, com um pouco da música baiana, com a Virgínia Rodrigues, por exemplo. E não podia faltar um pouco de música clássica, né? Então, nas Cartas do Brasil a gente vai poder ouvir Heitor Villa-Lobos", pontua.
O primeiro destino dessa turnê europeia da SPCD foi a Alemanha, onde a trupe paulistana apresentou o programa com as obras Cartas do Brasil, de Juliano Nunes; Anthem, de Goyo Montero; e Umbó, de Leilane Teles. Entre as cidades contempladas por essa turnê, Fürth, entre 1 e 5 de novembro no palco do Stadttheater Fürt; Wolfsburg, em 7 de novembro, no Scharoun-Theater Wolfsburg; e Colônia, nos dias 9 e 10 de novembro, no palco do Staatenhaus Saal 1. Por fim, a Companhia se despediu da Alemanha com um espetáculo em 14 de novembro, na cidade de Fürstenfeldbruck, onde se apresentou pela 1ª vez, no Veranstaltungsforum Fürstenfeld.
Na FrançaNos dias 28 e 29 de novembro, a companhia desembarcou na França, mais especificamente em Grenoble, no leste, para apresentar Só Tinha de Ser com Você, de Henrique Rodovalho; Agora, de Cassi Abranches; Ngali, de Jomar Mesquita; e Umbó, de Leilane Teles, no palco da Maison de la Culture de Grenoble (MC2).
No dia 2 de dezembro foi a vez da cidade de Saint-Étienne receber Só Tinha de Ser com Você, de Henrique Rodovalho; Partita, de Stephen Shropshire; Pássaro de Fogo, de Marco Goecke; e Umbó, de Leilane Teles, no Grand Théâtre Massenet. O mesmo repertório poderá ser visto em Mérignac, no dia 7 de dezembro, no Le Pin Galant, e em Biarritz, em 9 de dezembro, no Gare Du Midi.
Entre 12 e 17 de dezembro, a São Paulo Companhia de Dança se apresenta em Lyon, na Maison de la Danse com o programa composto por Cartas do Brasil, de Juliano Nunes; Umbó, de Leilane Teles; Partita, de Stephen Shropshire; e Só Tinha de Ser com Você, de Henrique Rodovalho. O mesmo repertório encerra a turnê entre os dias 19 e 21 de dezembro, em Annecy, no Bonlieu Scène Nationale Annecy.
As turnês internacionais da São Paulo Companhia de Dança acontecem desde 2010. Ao todo, a SPCD já realizou 208 apresentações no exterior, somando um público de mais de 250 mil pessoas. "Dançar na França para fechar esse ano em que nós já passamos pela Alemanha e também por várias cidades do estado de São Paulo, é uma alegria imensa, pois sempre somos recebidos aqui com muito entusiasmo pela plateia", diz a diretora.
"É uma delícia sentir também a vibração da platéia em relação ao nosso trabalho. E as organizações dos teatros são muito bem planejadas, o que deixa a turnê muito suave para quem vem de fora", elogia.
"Nós comemoramos 15 anos de muita dança, aprendizados, resiliência, troca de saberes e esperança e planos convertidos em ações. A São Paulo Companhia de Dança é um equipamento da Secretaria de Cultura, Indústria e Economia Criativas do estado de São Paulo, gerido pela Associação Pró Dança. E nesses 15 anos nós percorremos 18 diferentes países, passando por cerca de 150 cidades e mais de 1100 apresentações. Nós fomos contemplados com mais de 50 prêmios e indicações nacionais e internacionais por meio do selo SPCD Digital, criada em 2020", comemora a diretora artística da companhia.
"Dançando pelo mundo, fomos revelando a nossa identidade em movimento. Nós dançamos obras clássicas e contemporâneas, sempre com muita energia, muita paixão pela arte da dança", finaliza.
O cinema brasileiro entra em cena no Canadá neste fim de ano. O país acolhe, a partir desta sexta (23) até domingo (26), o Brazil Film Fest Toronto, que chega à 16ª edição. Depois, de 1° a 7 de dezembro, é a vez do Festival do Filme Brasileiro de Montreal, em sua 17ª edição. Realizados há quase 20 anos, os dois eventos se firmam como os maiores encontros do cinema brasileiro no Canadá e trazem uma série de obras focadas em músicos e artistas do Brasil.
Daniella Franco, da RFI
No total, 27 títulos nacionais integram a programação do Brazil Film Fest Toronto e do Festival do Filme Brasileiro de Montreal. Entre eles, há grandes sucessos como "Medida Provisória", de Lázaro Ramos, “Eduardo e Mônica”, de René Sampaio, e "Nosso Sonho", de Eduardo Albergaria.
Os festivais também exibirão documentários premiados, como “Elis & Tom, só tinha de ser com você”, de Roberto de Oliveira e Jom Tob Azulay, e "Amazônia, a Nova Minamata?", de Jorge Bodanzky, além das séries documentais "O Canto Livre de Nara Leão", de Renato Terra, e "Vale Tudo Com Tim Maia", de Nelson Motta e Renato Terra.
A diretora e curadora dos dois eventos, Katia Adler, explicou à RFI que as escolhas das produções foram feitas com o objetivo de “mostrar o que se faz no Brasil”. “Tem um lado comercial, sempre exibimos uma comédia ou um filme mais leve, mas também temas preocupantes da atualidade, além de documentários.”
Para Katia, o cinema brasileiro é caracterizado por sua diversidade e os dois festivais são um espelho disso. “Queremos mostrar um pouco de tudo”, reitera, lembrando que à programação deste ano em Montreal foram integradas duas séries sobre dois ícones da música brasileira, Nara Leão e Tim Maia. “É uma oportunidade única de assisti-las no cinema”, destaca.
A música, aliás, marca a programação dos festivais neste ano. Entre as ficções, “Eduardo e Mônica”, de René Sampaio, é uma adaptação cinematográfica de uma faixa mítica do grupo Legião Urbana, enquanto "Nosso Sonho", de Eduardo Albergaria, conta a história da dupla Claudinho e Buchecha.
Nos documentários, “Elis & Tom, só tinha de ser com você”, de Roberto de Oliveira e Jom Tob Azulay, aborda um dos álbuns mais importantes da história da MPB. Um outro destaque da programação dos dois festivais é “Andança – Os Encontros e as Memórias de Beth Carvalho”, que trata da trajetória de uma das maiores vozes do samba no Brasil.
Em Montreal, o público também poderá assistir à "Môa, Raiz Afro Mãe", sobre a história e o legado do multiartista e educador Romualdo Rosário da Costa, mais conhecido como Môa do Katendê, fundador do célebre afoxé Badauê, em Salvador, no final dos anos 1970.
Môa, assassinado em outubro de 2018, aos 63 anos, após uma briga política, se tornou símbolo do extremismo e da intolerância que invadiram o Brasil nos últimos anos. O crime bárbaro ocorreu durante a produção do documentário.
Em entrevista à RFI, o diretor Gustavo McNair contou que a ideia de "Môa, Raiz Afro Mãe" nasceu junto com o início da gravação do álbum do artista, dentro do projeto do filme. “Os dois começaram com Môa em vida e terminaram após sua morte”, explica.
No primeiro com o multiartista baiano, a equipe do documentário ficou encantada com suas histórias, sua sabedoria e a importância de sua produção cultural. Depois de vários encontros no início de 2018, Môa viajou à Europa onde desenvolvia vários projetos, e voltou ao Brasil para votar e dar sequência à produção do filme. No entanto, após uma discussão sobre política após o primeiro turno da eleição presidencial de 2018, em 8 de outubro, ele foi brutalmente assassinado a facadas em um bar de Salvador (BA).
“Tivemos que enfrentar esse luto, que foi horrível, muito triste e revoltante”, relembra Gustavo. “A gente deu um tempo para passar um pouco do luto e da revolta, conhecemos a família dele em Salvador para saber se eles queriam continuar o filme, mas percebemos que eles se incomodavam com a transformação do Môa em mártir político, deixando de lado a obra e o legado dele”, completa.
Assim, a equipe decidiu manter a ideia inicial do projeto, focado na vida e conquistas do multiartista baiano. “O documentário fala muito pouco sobre a morte, que está ali, mas a gente não explora isso como se fosse uma oportunidade. O filme é sobre a vida e o legado eterno do Môa”, ressalta.
Em Toronto, é grande a expectativa para exibição do premiado documentário “The Long Rider”, dirigido por Sean Cisterna, que encerra o Brazil Film Fest no domingo (26). O evento contará com a presença da equipe do filme e seu personagem principal, Filipe Masetti Leite, o único brasileiro e a pessoa mais jovem do mundo a percorrer o continente americano a cavalo.
Em oito anos, o jornalista radicado no Canadá cavalgou cerca de 27 mil quilômetros em três etapas. Do Alaska até Ushuaia, na Argentina, Filipe atravessou 12 países, uma façanha registrada em 500 horas de gravação.
O projeto era um sonho de infância do brasileiro e começou a se tornar realidade desde que se tornou estudante de jornalismo em Toronto. “Eu passei dois anos fazendo o planejamento estratégico para conseguir os recursos, entre equipamentos, cavalos e o dinheiro, que veio de uma produtora que comprou o projeto para eu filmar o documentário para eles”, relembra.
O investimento deu certo: desde que foi lançado, no ano passado, o documentário vem rodando o mundo e recebeu 20 prêmios internacionais. “Eu era um menino com um sonho impossível. Todo mundo falava que eu não ia conseguir, que eu ia morrer tentando, e acabei mostrando que com foco, força, fé, planejamento e disciplina absolutamente nada é impossível.”
Para o brasileiro, que também é o diretor de fotografia e produtor do filme, o trabalho não é apenas um simples documentário sobre a cavalgada e abordando temas com os quais o público do mundo inteiro pode se identificar.
“É uma história muito humana, sobre o meu relacionamento com os meus pais, que não cortaram as minhas asas e eu consegui fazer essa jornada graças a eles. Fala também da minha conexão com Deus; eu era um ateu antes dessa jornada. Tem a minha história de imigrante: eu vim para o Canadá muito cedo, meu pai teve o visto de trabalho negado, a gente teve que sair do país. Enfim, há muitos temas universais que acabam inspirando muitas pessoas”, diz.
O Brazil Film Fest Toronto é realizado de 24 de novembro até domingo, dia 26 na sala TIFF - Bell Lightbox, no Centro de Toronto. E o Festival do Filme Brasileiro de Montreal ocorre de 1º a 7 de dezembro no Cinéma du Parc. A programação completa pode ser conferida no site Jangada.org.
“F comme Forêt" ("F de Floresta", em português) é a nova exposição coletiva exibida na galeria do brasileiro Ricardo Fernandes, em Saint-Ouen, cidade ao norte de Paris. F de Floresta, mas F também de Feminino, já que a exposição propõe um diálogo de obras contemporâneas de artistas brasileiros e europeus em torno da temática resistência e resiliência das mulheres e da natureza.
“São duas temáticas distintas que se cruzam e, finalmente, são temáticas que geram vida, a mulher e também a floresta. Fazemos essa interconexão das pesquisas de cada um desses seis artistas, até chegarmos a um ponto comum, que é o conceito de resistência e de resiliência”, explica Ricardo Fernandes, curador e idealizador da exposição.
O galerista identificou e selecionou obras de seis artistas com trabalhos e obras em diferentes suportes. A francesa Mathilde Thiennot contribui com uma escultura feita a partir de um tronco de árvore, carvão e fio de ouro. A italiana Loredana traz um trabalho em fotografia artística intitulado “Natureza Amordaçada”, enquanto o finlandês Sami Korhonen exibe uma pintura em aquarela inspirada nas paisagens de seu país natal.
“Meu trabalho é da minha série ‘Neblina’, inspirada na Finlândia. A série tem cinco aquarelas e a que está na exposição é de uma árvore que está na neblina. Tem um fundo cinza e o vermelho bem forte que representa o poder feminino. Todo mundo pode imaginar o que é esse poder”, afirma Korhonen, que já viveu no Brasil.
Fotógrafos brasileiros
Os trabalhos de três fotógrafos brasileiros completam a exposição. O gaúcho Ale Ruaro tem duas obras que exploram a imagem exuberante da floresta e a delicadeza da presença feminina.
Também ganharam destaque no espaço as mineiras Juliana Sícoli, que tem um trabalho visual e artístico vinculado com a psicanálise, e Lucia Adverse, com sua série Natureza Viva, já exposta anteriormente em Paris.
No entanto, a série ganhou uma nova releitura, com o acréscimo de novas obras em forma de oratórios a partir de colagens inspiradas em várias personagens femininas e apresentadas em uma exposição em Tiradentes, Minas Gerais.
Das 16 mulheres presentes na série Natureza Viva, nove integram a exposição, entre elas, a mexicana Frida Khalo, a francesa de origem polonesa Marie Curie e a cazaque Gala, ex-mulher de Salvador Dalí.
“É a primeira vez que misturo as fotos delas, feitas a partir de troncos de árvores, com caixas de oratórios. Ficou interessante essa mistura”, afirma a fotógrafa Lucia Adverse.
“Minha expectativa é de que as pessoas vejam e se inspirem na história dessas mulheres. Nós conquistamos muitas coisas através delas. Acho também que a gente fazer um manifesto sobre a agressão que a natureza vive, é uma maneira de conscientizar as pessoas a defender mais a natureza porque todos nós dependemos dela”, argumenta.
O galerista Ricardo Fernandes celebra o resultado obtido com a proposta de interconexão entre obras e artistas de diferentes nacionalidades em torno da temática da exposição, que considera universal.
“Esse diálogo das obras e dos artistas ultrapassa a questão da nacionalidade. Ele propõe a realidade do que vivemos hoje no mundo todo. A resistência e a resiliência de uma mulher brasileira se comunicam com as de mulheres de muitos outros países”, avalia.
A exposição “F de Floresta” fica em cartaz na galeria Ricardo Fernandes até o dia 29 de janeiro de 2024.
Tudo começou com um misterioso mecenas francês, que exige permanecer no anonimato. Ele convidou Ivonne Papin-Drastik, diretora do Museu de Lodève, no sul da França, a visitar sua curiosa e vasta coleção de pinturas brasileiras datadas do século 20. Fascinada pela originalidade e potência do que encontrou, a conservadora do patrimônio da instituição francesa catalogou, organizou e fez dialogar entre si 120 telas de 49 grandes nomes da arte primitiva brasileira na mostra "Brasil, Identidades".
Marcia Bechara, enviada especial a Lodève
Encrustrado em pleno vale do Larzac, em meio a tesouros arqueológicos que datam de mais de 500 milhões de anos, com uma coleção inigualável de fósseis que atravessam o Neolítico até as primeiras formas de agricultura desenvolvidas pela humanidade, o Museu de Lodève se impõe como uma parada obrigatória para turistas de todo o mundo no sul da França.
Inicialmente um Museu de Arte Moderna, Arqueologia, Paleontologia e Ciências Naturais, ele é hoje um dos poucos museus na França a exibir peças de um período tão vasto da história da Terra, usando apenas objetos de origem local.
"É uma área extremamente rica, especialmente em termos de paisagens. É muito raro ter isso. Em uma área tão pequena, ter uma história geológica tão longa, como em Lodève, que vai de 540 milhões de anos a 2 milhões de anos atrás, o que é algo absolutamente considerável", relata a diretora do Museu de Lodève, Ivonne Papin-Drastik. E é no meio de toda essa panaceia pré-histórica que ela decidiu erigir um verdadeiro monumento historiográfico à arte primitiva brasileira, cujos principais protagonistas continuam desconhecidos do grande público em seu país natal.
À reportagem da RFI, ela contou não se supreender com isso. "Não me choca porque você não é a primeira a me dizer isso, há outros brasileiros que vieram, especialmente na noite do vernissage, e que me disseram a mesma coisa, que para eles foi uma descoberta", afirma Ivonne, fazendo um paralelo com seu próprio país.
"Acho que também é assim na França. Eu não conheço necessariamente os artistas que são um pouco incomuns e acho que todos nós estamos realmente formatados para conhecer uma certa história da arte, mas talvez não necessariamente as outras. E é contra isso que estou lutando. Para mim, há sempre um pouco de reivindicação em relação a uma forma de arte que é um pouco menos conhecida", disse.
Para Papin-Drastik, "há um desejo de romper barreiras". "A arte primitiva é vista como menos importante, ou de uma forma menos prestigiosa do que a arte acadêmica. Portanto, há um desejo de dizer não a isso, porque esses artistas também têm coisas a dizer", afirma a diretora do Museu de Lodève.
"O que também me interessou foi sublinhar o vínculo da arte primitiva brasileira com o Museu de Lodève, o que significa que esses artistas estão imersos em sua própria cultura, no contexto de toda a diversidade cultural e geográfica que compõem o Brasil. Eu realmente achei interessante ir além de considerações como 'esse pintor sabe pintar bem ou não?' 'Será que ele domina a técnica da perspectiva?' Não é disso que trata essa exposição. Ela conta a história de como esses artistas se apropriam, ou, de alguma forma, transmitem um tipo de memória", argumenta.
Territórios & imagináriosIvonne Papin-Drastik contou como organizou e fez dialogar as telas de grandes nomes da arte primitiva brasileira, como Silvia (1905-1987), Chico da Silva (1922-1983), Maria Auxiliadora (1935-1974), José Antônio da Silva (1909-1996), Ranchinho (1923-2003), Lia Mittarakis (1934-1998) ou Antônio Poteiro (1925-2010): "criei três temas principais em torno dessa noção de território. Um território geográfico, um território cultural e depois um território mais abstrato que chamei de imaginário porque, nessa seção, encontramos pintores que têm um universo muito pessoal, com um vocabulário muito idílico, além das outras seções que falam mais de fauna e flora, da água, da cidade e de manifestações como o sincretismo religioso".
"O que me chama a atenção é exatamente essa diversidade de paleta e pictoral... O que também acho surpreendente é o aspecto muito alegre dessa pintura, que se expressa com tons muito brilhantes, cores muito abundantes e assim por diante, ao mesmo tempo que, muitas vezes, trata de assuntos que são sérios, e isso é o que acho que mais me surpreendeu", conta a curadora da exposição.
Sobre a reação dos franceses à coleção exposta, ela afirma que, além de uma mostra, os visitantes que passam pelo museu desta pequena cidade de sete mil habitantes descobrem, mais do que pinturas, a diversidade de um país. "Ainda não tive tempo de parar para ouvir direito o feedback dos visitantes franceses, mas tenho a impressão de que o que os surpreende também é a descoberta, porque trata-se realmente disso, de uma descoberta; em outras palavras, tenho a impressão de que o público está descobrindo não apenas pintores, mas também um país e talvez sua riqueza, por meio desses pintores. E esse também foi o objetivo dessa exposição", finaliza Ivonne Papin-Drastik.
A exposição "Brasil, Identidades" fica em cartaz no Museu de Lodève, no sul da França, até 21 de abril de 2024.
Com uma coleção excepcional de pinturas, desenhos e cartas, o Museu d'Orsay em Paris convida o público a reviver os últimos 70 dias de Vincent Van Gogh em Auvers-sur-Oise, o vilarejo francês amado pelos impressionistas – um lugar onde Van Gogh, sofrendo de problemas mentais, explorou uma expressividade criativa sem paralelo na história da arte e onde morreu, após atirar contra si mesmo durante um episódio depressivo em 1890.
Paisagens campestres, casas de vilarejo [as chamadas chaumières, construções típicas do norte da França], naturezas-mortas e alguns retratos. O Museu d'Orsay traz 74 pinturas e 33 desenhos, além de cartas e objetos pessoais, como um caderno de esboços, que teletransportam o público aos últimos 70 dias de Vincent Van Gogh, durante sua última estadia em Auvers-sur-Oise, um dos locais franceses mais populares entre os impressionistas, no norte do país.
Foi lá que Van Gogh morreu em 29 de julho de 1890, dois dias depois de atirar no próprio peito com um revólver. Até o fim, o artista holandês pintou, pesquisou, experimentou e explorou novos formatos e novas cores, com a expressividade criativa que acompanhava seu sofrimento mental. É a primeira vez que uma exposição se concentra nos últimos dois meses da vida do pintor, revelando toda a diversidade e riqueza deste curto período.
Depois do Museu Van Gogh em Amsterdã, a mostra está agora em Paris: "Van Gogh à Auvers-sur-Oise, les derniers mois" ("Van Gogh em Auvers-sur-Oise, os últimos meses") abriu as portas no dia 3 de outubro e pode ser vista no Museu d'Orsay até o dia 4 de fevereiro de 2024.
Emmanuel Coquery, curador-geral de Patrimônio do museu e um dos curadores da exposição fala sobre o quadro que recebe os visitantes no início da mostra, um dos mais conhecidos de Van Gogh, um autorretrato pintado em 1889, no período em que morava em Saint-Remy de Provence. O pintor, com sua barba e cabelos ruivos, olha para a esquerda com olhos penetrantes que imediatamente nos colocam frente a frente com o destino do pintor. Qual seria o estado de espírito do artista ao se pintar dessa forma?
"Ele convalescia de uma doença. Trata-se de um autorretrato. É um quadro que faz parte de uma série de quatro autorretratos, na verdade seus quatro últimos, uma vez que ele não se pintou em Auvers-sur-Oise, e são trabalhos que acontecem durante uma grave crise do artista que durou seis semanas e que o deixou completamente inconsciente", explica Coquery. "Ele ficou inativo devido a suas crises psicóticas nesse período. É preciso dizer que não se trata de um pintor louco, mas um homem que tinha crises de loucura. Ele pinta para se recompor, para se ver melhor, para se examinar, sendo tão introvertido, e ele acaba ficando tão feliz com esse quadro que ele se dizia pronto a mostrá-lo publicamente e ao médico que é a razão de sua mudança para a região", conta.
Van Gogh chegou a Auvers-sur-Oise alguns meses depois, em 20 de maio de 1890, e pintou 74 quadros e fez 33 desenhos até o dia da sua morte. Emmanuel Coquery explica o frenesi criativo de Van Gogh no período.
"Ele precisa se curar. Ele precisa sentir que a cura é possível, e ele sente instintivamente que a pintura é sua boia de salvação. O médico que cuida da sua depressão lhe reafirma a importância de estar ativo no trabalho, e Van Gogh chega ao vilarejo culpando sua estadia no sul da França por sua melancolia, que ele espera dissipar no norte", sublinha o curador da exposição.
"Van Gogh é tomado por uma espécie de euforia ao chegar ao local que o reconecta com suas raízes e se reaproxima de seu irmão Théo, que o apoia e que literalmente o alimenta, pois lhe fornece uma pensão todos os meses e permite que o artista possa pintar", salienta.
Coquery conta que Van Gogh dizia que Auvers-sur-Oise era "terrivelmente bela". Seria o vilarejo um condensado pitoresco de paisagens? "Sim, porque reunia, como ele mesmo dizia, as casas modernas e antigas, com telhado de sapê, e também o lado urbano e interiorano, com jardins de cultivo, e emolduradas pelo rio e a ferrovia bem ao lado. Isso criava um efeito concentrado de tudo que Van Gogh amava", nota Coquery.
A exposição possui um fio condutor: os temas das pinturas. Van Gogh trabalhou sistematicamente os mesmos, estabelecendo ligações entre pinturas e desenhos. Um dos retratos é uma homenagem a seu médico, Dr. Gachet, por quem o pintor desenvolveu uma estreita amizade e confiança.
"Ele é melancólico e isso marca o artista desde o início, como uma espécie de novo alterego, em relação ao principal alterego de suas pinturas, seu irmão Théo. Existe até uma semelhança física entre eles, porque Gachet é ruivo, e rapidamente eles se apaixonam amigavelmente, era uma relação mais como uma amizade do que uma coisa médico-paciente", diz o curador da mostra no Museu D'Orsay "E Gachet era um médico apaixonado pela arte, pintor amador, um artista da gravura, ou seja, ele tinha todos os instrumentos necessários para compreender o que se passava na cabeça de um pintor que não está bem; ele era o cara ideal para colocar Van Gogh no caminho certo, e o artista também sente isso e se apoia nele, rapidamente fazendo também uma gravura sua", esclarece.
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