Rendez-vous cultural

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By RFI BrasilArts
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Rendez-vous cultural episodes

  • Exposição em Paris retrata 130 anos de história dos Jogos Olímpicos em paralelo à evolução do mundo

    A pouco mais de dois meses do início dos Jogos Olímpicos Paris 2024, o Palais de la Porte Dorée, no 12° distrito da capital francesa, inaugurou a exposição "Olimpismo, uma história do mundo". A mostra inédita reconstitui os últimos 130 anos a partir da primeira Olimpíada, em 1896, em Atenas, até os dias de hoje.

    Daniella Franco, da RFI

    Através de uma viagem cronológica, os 33 Jogos Olímpicos já realizados são retratados paralelamente a fatos políticos que marcaram a evolução da sociedade. Ganham destaque na mostra a admissão de atletas mulheres a partir de 1900, as edições canceladas devido às grandes guerras, o uso dos Jogos na propaganda política de regimes ditatoriais, e a luta de esportistas contra o racismo, discriminações e desigualdades. 

    A exposição também exibe objetos históricos - como as primeiras medalhas e os primeiros uniformes olímpicos - e até antigos instrumentos esportivos. Tudo isso acompanhado de centenas de arquivos, documentos, filmes e fotografias de grandes momentos olímpicos.

    "Essa é uma forma de conhecermos a história dos Jogos Olímpicos e de compreender o que vai acontecer em Paris em 2024. Aqui podemos ver toda a evolução dos Jogos Olímpicos, e como, em vários momentos ao longo da História, esses espaços de visibilidade ecoaram de forma política e social. A exposição também nos permite mergulhar na trajetória de algumas grandes campeãs e campeões", afirma uma das curadoras da exposição, Elisabeth Jolys-Shimells.

    Segundo ela, a exposição também propõe uma reflexão sobre o futuro dos Jogos, um exercício que considera fundamental para continuar a inscrevê-los na História. "Será que seguiremos realizando megaeventos concentrados em uma só cidade? Será que as questões ambientais e sociais serão mais levadas em consideração? E, finalmente, qual governança será necessária para organizar esses eventos?", questiona.

    No clima dos Jogos Olímpicos

    A exposição não tem um público-alvo específico. Entre os visitantes de "Olimpismo, uma história do mundo", há pessoas de todas as idades: fãs de esportes, de História, ou simplesmente interessados em entrar no clima dos Jogos Olímpicos.

    “Eu não costumo assistir às Olimpíadas. Mas a maneira como elas são apresentadas aqui, ano por ano, com o espectro geopolítico, é superinteressante. Então talvez eu até assista aos Jogos neste ano, sobretudo porque eles ocorrem na França", diz a francesa Astrid Garnier.

    Outro visitante, Dominique Dounont, viajou da Bretanha, no noroeste da França, à capital francesa especialmente para conferir a mostra no Palais de la Porte Dorée. "O que é muito interessante é que, efetivamente, a exposição nos fala de esportes, mas também da história, desde 1896, ano dos primeiros Jogos Olímpicos, em Atenas. Nessa ordem cronológica perfeitamente realizada, aprendemos muita coisa. Eu já conheço bastante, mas aprendi ainda mais."

    Florent Le Demazel foi atraído pelo retrato das evoluções geopolíticas exibido na exposição. Um dos enfoques que mais o agradou foi a evolução da participação das mulheres nos Jogos. "A cada edição dos Jogos, de quatro em quatro anos, percebemos que a diferença entre a presença dos homens e das mulheres se reduz, e que, felizmente, há cada vez mais mulheres que participam dos JO. A gente sabe que isso não aconteceu por conta própria, que combates foram realizados e podemos ver essa marca de uma edição a outra”, salienta.

    A exposição "Olimpismo, uma história do mundo", fica em cartaz no Palais de la Porte Dorée, no 12° distrito de Paris, até 8 de setembro. 

    7 min
  • 'Diabolus in Musica': Filarmônica de Paris mergulha no imaginário estridente dos metaleiros

    Contracultura, provocação, protesto, inspirações satanistas, imagens mórbidas... O que o universo, a música e o imaginário do metal têm a dizer ao mundo contemporâneo? Recuperar essa história - e essa historiografia - foi o desafio assumido por uma das maiores instituições dedicadas à música na capital francesa: a Filarmônica de Paris com a exposição Metal, diabolus in musica, em cartaz até o dia 29 de setembro de 2024.

    Não deixa de ser irônico imaginar um dos templos da música erudita e palco na França de nomes como Caetano Veloso e Gilberto Gil dedicar um gigantesco galpão para celebrar, com mais de 400 obras, entre "relíquias", instrumentos, imagens, objetos, discos, e cenografias icônicas, alguns dos maiores nomes mundiais do metal. Black Sabbath, AC/DC, Metallica, Sepultura, Megadeth, Iron Maiden ou Led Zeppelin, entre muitos outros. Eles estão todos lá, e muito mais do que um gênero musical, são bandas que instauram uma cosmogonia própria, como conta um dos curadores da exposição, Milan Garcin. 

    "O desafio para nós era contar a história de uma música e de uma cultura. E, para isso, reunir imagens, arquivos e instrumentos lendários. Penso especialmente na guitarra de Tony Iommi, o guitarrista do Black Sabbath, que é literalmente a guitarra com a qual ele inventou o metal", conta Garcin.

    "Trouxemos essa guitarra, que tem um significado especial, principalmente com o uso do triton, esse intervalo que era chamado de diabolus na música medieval, um tipo de intervalo dissonante que os músicos de metal aproveitaram. Um mundo imaginário transmitido por iconografias muito específicas e, obviamente, imagens fotográficas também. Contado a partir das grandes cenas ao redor do mundo e das pequenas cenas locais nas quais as bandas iniciaram suas carreiras", diz o especialista.

    "Trouxemos para a Filarmônica uma cena underground, que não havia muitos meios no início e, obviamente, para dialogar com uma música que, reconhecidamente, do ponto de vista externo, é para o público em geral uma música brutal, de difícil acesso", acredita o pesquisador e programador francês.

    Milan Garcin fala sobre o nascimento do gênero musical. "É verdade que o metal nasceu em uma cultura em que a religião era onipresente na Inglaterra, no final dos anos 60, e, pouco tempo depois, nos Estados Unidos, lugares onde o Cristianismo teve um forte impacto sobre os costumes e a moral. Era verdadeiramente uma placa de chumbo social. Em primeiro lugar o hard rock, depois o metal, no início dos anos 80, funcionaram como uma espécie de reação à religião no nascimento deste gênero musical, o que explica em parte esse apetite pela iconografia diabólica", diz.

    "Mas, simultaneamente, é bom saber que o nascimento da pintura clássica, inspirada da religião, também traz arquétipos de representação de momentos metafísicos como a morte, e o metal vai explorar esses questionamentos através de sua música, que, como princípio, tinha como objetivo ser uma música que assusta. A questão do diabo, numa sociedade muito religiosa, era, evidentemente, um artifício de questionamento para provocar medo nas pessoas", sublinha.

    O curador destaca a vocação política do metal. "Acho que o metal também tem a virtude política de colocar um certo número de culturas específicas no mapa mundial. Na Mongólia, por exemplo, há um grupo chamado The Hu, que incorpora o campo diatônico em sua música metal, usando instrumentos tradicionais. E aí está esse gênero musical, construindo todo um mundo imaginário que, obviamente, tem uma vocação estética muito importante, mas também uma vocação política para defender uma cultura e existir no mundo da música popular que é referência mundial", afirma Garcin.

    Sepultura e a cena metal no Brasil

    "O Sepultura é um excelente exemplo. Além disso, Max Cavalera teve a extrema gentileza de nos emprestar uma guitarra para a exposição. E ele teve também essa intuição de se adaptar a diferentes subgêneros da música metal ao longo do tempo; ele começou no trash metal com o Sepultura, mas também fez bastante New Metal, esse novo subgênero que surgiu no final dos anos 80, início dos anos 90, com sua segunda banda, Soul Fly", sublinha Garcin.

    "Ele teve essa intuição de fazer durar essa música brasileira, mas ao mesmo tempo, integrando-a com um certo número de códigos... Sabemos, por exemplo, de seu amor pela seleção brasileira de futebol. Portanto, há toda essa cultura de música de estádio que interage com o futebol, o que obviamente é muito simbólico para o Brasil, pelo menos em uma escala internacional", reconhece.

    "O Sepultura teve a incrível intuição de colaborar com os povos indígenas no Brasil. Pediram a eles que colaborassem no disco musicalmente, em várias faixas. O título que é obviamente baseado nesse momento é Root Bloody Roots. Então, claro, a questão das raízes do grupo é muito importante", lembra.

    "E também foi um desafio para eles, eu acho, conseguir identificá-las, essas raízes, no contexto de uma música popular que é capaz de falar com todos no planeta. Essa foi uma aposta incrível. E aqui temos essa capacidade de espalhar essa música tradicional brasileira pelo mundo, como a Bossa Nova fez, e como outras formas de música mais tradicionais fizeram", diz o curador. 

    6 min
  • Museu do Louvre abre temporada cultural de Paris 2024 com grande exposição sobre origem da Olimpíada

    O Louvre, o maior museu do mundo, entrou oficialmente na programação de Paris 2024 com a mostra "Olimpismo", que ilustra como os inventores dos jogos modernos no final do século 19, liderados por Pierre de Coubertin, se inspiraram nas imagens da Antiguidade para identificar suas fontes iconográficas, entender o contexto político e compreender como seus organizadores procuraram reinventar as competições da Grécia antiga, mesmo que às vezes as distorcendo ou instrumentalizando.

    "É uma exposição altamente original que mostra como a invenção dos jogos modernos no final do século 19 ocorreu no círculo em torno de Pierre de Coubertin, porque ele não estava sozinho. É isso que descobrimos na mostra Olimpismo, como esse círculo de pessoas se inspirou nas coleções de antiguidades gregas do Louvre. Assim, podemos compreender esse elo de inspiração que nos liga de um século para o outro, entre o Louvre e o que chamamos de Olimpismo", diz Laurence de Cars, a primeira mulher a dirigir o Museu do Louvre.

    Presidente de Paris 2024, Tony Estanguet elogiou a exposição e a olimpíada cultural, projeto que reúne os cinco maiores museus de Paris, respectivamente o Louvre, Museu D’Orsay, Quai Branly, Centre Pompidou e Museu de l’Orangerie.

    "Esse desejo de combinar esporte e cultura existe desde os tempos antigos e foi revivido por Pierre de Coubertin, que também queria incluir eventos artísticos durante os Jogos. E hoje, com essa exposição e esse projeto olímpico cultural, com esses cinco grandes museus em jogo, é exatamente esse estado de espírito que queríamos mostrar durante Paris 2024", elogiou. 

    Violaine Jeammet, conservadora-geral do departamento de antiguidades gregas do Louvre, e uma das curadoras, conta mais sobre o contexto da exposição. 

    "Essa exposição não se trata tanto de competições antigas, mas sim da criação do Olimpismo moderno, com essa iconografia antiga, que foi muito bem utilizada pelo designer Émile Gilliéron para criar uma comunicação extremamente moderna e contundente, usando os meios mais eficazes da época, ou seja, pôsteres, cartões postais e, acima de tudo, selos. Esse foi o início do nascimento da filatelia olímpica. Mas também mostramos a galvanoplastia (processo de recobrimento metálico de objetos), para os troféus dos atletas modernos. As obras do Louvre, recentemente exumadas do solo grego, foram usadas em um contexto histórico, político e artístico no qual a arqueologia, então em plena expansão, e a Grécia desempenharam um papel importante para compor esta exposição", explica.  

    Olhar crítico

    Mas nem só de exaltação de um ideal atlético e espiritual olímpico é feita a exposição Olimpismo, em cartaz no Louvre. Um de seus curadores, Alexandre Farnoux, professor de arqueologia e de arte grega na Sorbonne, deixa clara a visão crítica do museu sobre a mostra.

    "Ao pegar realidades antigas e transformá-las para adaptá-las às necessidades do olimpismo moderno, queremos dar ao público desta mostra os meios para entender como os estereótipos que hoje alimentam o olimpismo contemporâneo foram criados em um certo imaginário, e como esses estereótipos são divertidos de desenhar ao comparar as imagens produzidas com as origens que as inspiraram", diz Farnoux.

    "E como, às vezes, eles também são distorções da realidade antiga, e essas distorções não são nada divertidas, porque manifestam modos de exclusão, especialmente sobre a participação feminina nos jogos, ou sobre modos de exploração de uma imagem do corpo masculino branco e saudável, como foi explorado, por exemplo, pelos nazistas nas Olimpíadas de Berlim", relembra.

    A exposição Olimpismo fica em cartaz no Museu do Louvre até o dia 16 de setembro.

    6 min
  • Ex-Salão do Livro, Festival do Livro de Paris é maior vitrine para autores estrangeiros na França

    Com a expectativa de receber mais de 100 mil visitantes em três dias, o Festival do Livro de Paris é uma verdadeira maratona para autores, leitores e editoras de todo o mundo.

    "Todos os anos, os autores estrangeiros têm um lugar de destaque, juntamente com o país convidado. Este ano, será o Québec. Portanto, é a literatura francófona canadense que estará no centro das atenções, e queremos ouvir as muitas e variadas vozes dos escritores quebequenses", comenta a curadora para a seção de Poesia e Ficção do Festival de Livro de Paris, Adélaïde Fabre.

    O Festival do Livro de Paris é o maior festival do livro realizado na França todos os anos. "É também um festival que, além do país convidado, nos permite receber escritores da Europa, do Brasil e de outros lugares. Nosso objetivo sempre é fazer com que eles troquem ideias e discutam com autores de outro idioma, outra cultura, porque gostamos do que nos interessa. O que importa é a diversidade de vozes e a garantia de que diferentes culturas se encontrem e troquem ideias", diz.

    São mais de 300 autores, cerca de 330 escritores, em um cruzamento entre literatura, humanidades, histórias em quadrinhos e literatura para a juventude. "Isso nos permite traçar um panorama bastante amplo da criação literária dentro do panorama da literatura francesa e francófona hoje", avalia Fabre. 

    Poesia e ficção

    Os eventos de poesia serão realizados simultaneamente nos seis palcos do evento. Atiq Rahimi, Arthur Teboul e vários outros estarão presentes, além da realização de uma homenagem a Christian Bobin. Por fim, acontecerá a gravação de um programa chamado "C'est la base", criado pela rede France TV, que permite que rappers e slammers, como a jovem Amalia, apresentem textos poéticos clássicos em forma de slam.

    "Achei que era importante fazer com que as vozes das pessoas fossem ouvidas, uma poesia de ontem e de hoje, ao mesmo tempo", conta a programadora.

    A escritora, jornalista, influenciadora e palestrante brasileira Izabella Camargo participa pela primeira vez do Festival do Livro de Paris, com seu livro best-seller no Brasil, "Dá um tempo". "Meu livro foi lançado em 2020, mas ele está mais em alta do que nunca, porque eu falo sobre as percepções do tempo. O meu livro é para quem quer fazer as pazes com o tempo", conta a autora.

    "É um marco na minha vida, porque quando eu fui pesquisar os assuntos do livro, eu encontrei muitos pensadores franceses. Encontrei muitos manifestos franceses reclamando que o tempo estava passando muito rápido e no fundo, com o tempo da natureza, não há nada errado. Além de ter entrevistado vários físicos e astrônomos do Brasil, eu fui até o MIT [Massachusetts Institute of Technology, nos Estados Unidos] para confirmar mesmo se a Terra não está girando mais rápido em torno do próprio eixo, e não está", sublinha Camargo.

    A autora salienta a obra não é sobre o burnout, mas sim para quem quer fazer as pazes com o tempo. "Eu comecei a escrevê-lo em 2017, quando eu ainda trabalhava na TV Globo. Durante a pesquisa do livro, eu tive um burnout. E assim como a depressão é o excesso de passado, a ansiedade é o excesso de futuro, o burnout é o excesso de presente, ou seja, quando eu quero fazer muitas coisas ao mesmo tempo", explica Camargo, que encabeça vários eventos paralelos além de sua participação no evento literário, como no Museu do Louvre e na Biblioteca François Mitterrand, na capital francesa.

    O Festival do Livro de Paris se encerra no dia 14 de abril.

    9 min
  • Paris: Artista brasileira transfigura olhar pós-colonial sobre corpos dissidentes com violência do metal

    Aos 30 anos recém completos, a artista brasileira Lyz Parayzo instalou sua Tempête Magique (Tempestade Mágica) sob os gigantescos arcos de metal do Grande Pavilhão de La Villette, em Paris, logo na abertura da 100% L'Expo, uma iniciativa do Ministério da Cultura da França que visa dar vitrine a jovens artistas saídos de grandes escolas de arte. Mulher transexual, racializada e nascida em Campo Grande, na periferia do Rio, a brasileira instalou em Paris seus móbiles de aço e violência.

    "Na verdade, eu comecei a fazer ações estéticas e políticas, intervenções não oficiais no Rio de Janeiro e em São Paulo. É justamente porque eu sempre desejei redistribuir as violências que eu sofria, seja como transexual na cidade, seja como artista periférica, racializada, e como mulher transexual no mundo das artes", conta Lyz Parayzo, que recebeu a RFI no parque de La Villette, no leste de Paris.

    "Eu comecei com o corpo porque a minha formação era mais performática, no Parque Lage, [escola de arte] no Rio de Janeiro. A nossa finalização plástica era o corpo, era a ação. Então eu estava sempre em diálogo com os lugares que eu transitava", sinaliza Parayzo.

    "Então, mesmo se no Parque Lage eu sofria diversas violências, por ser um lugar classista, racista ou etc, eu fazia intervenções de arte, por exemplo. Então sempre foi um mecanismo de receber as violências a partir do meu trabalho de arte", conta. "Depois, aqui na França [na prestigiosa escola de Beaux-Arts, em Paris], quando eu fiz o mestrado sobre [a artista plástica brasileira] Lygia Clark, que eu comecei a pensar que isso na verdade foi um processo de terapia, de cura para mim mesma", estima a artista.

    "Assim começa o lugar da violência no lugar de reconfiguração, de retribuição. É para criar também, não um ataque direto, mas um debate público. Esse trabalho tem unidades de violência. Então é muito mais sobre os outros do que sobre mim mesma", analisa.  

    Neta de ourives: esculturas como projeções do corpo

    Lyz conta que "para chegar nesse trabalho, foram anos de pesquisa". "Eu comecei a fazer esculturas em 2017; meu avô era ourives, então eu cresci vendo meu avô fazendo joias no último quartinho da casa onde a gente morava. Então eu comecei minhas primeiras esculturas em metal, que foram uma transição da performance para um objeto - as joias de prata, que eram joias bélicas para autodefesa, porque eu estava meu trabalho de performance era um lugar de crítica institucional", sublinha a artista.

    "O meu corpo é um signo com muitos códigos, que catalisa várias violências por seus recortes. Ser uma pessoa racializada ser uma mulher trans, ser um de um lugar periférico, então como fazer um objeto que desse conta da ausência do meu corpo nos espaços tradicionais de arte?", questiona.

    "Então tinham que ser jóias esses objetos, que eram extensões do corpo. Meu trabalho sempre teve relação com o corpo, eu fazia essas jóias de autodefesa. Depois fiz uma série chamada Bichinhas com alumínio [referência à série Bichos, de Lygia Clark], que era ressignificar essa história da arte branca, cisgênera", diz. "Como uma pessoa que nasceu em 1994 vai rever uma produção da década de 1960?", provoca a brasileira.

    "Tempestade Mágica"

    "Sobre a Tempête Magique, coincidentemente foi muito curioso esse nome porque eu comecei a estudar a história das bruxas, uma perseguição misógina dos séculos 14 e 15. E quando eu comecei a ler os livros eu me dei conta que, nossa, ser uma trans em 2024 é como ser uma bruxa no século 14", compara.

    "Porque as trans não colonizaram nenhum país, não fizeram nenhum genocídio internacional, mas somos perseguidas justamente pela questão de nosso gênero não ser tão normativo. E aí eu comecei a pensar também nesses objetos [as esculturas] não mais só lugar muito explícito da transidentidade, mas também com um lugar mágico", elocubra.

    "A obra se chama tempestades, porque são 10 obras suspensas, todas a 3m e 50 do chão, por questões de segurança, e são espirais que têm formas bélicas, formas cortantes... E também uma forma sedutora, né, porque uma espiral também seduz, elas também giram com com vento. E, além disso, todas as esculturas são acompanhadas por canhões de luz rosa que fazem refletir as formas no teto e fazem uma sombra com desenho das espirais planificadas no chão: é um trabalho óptico e cinético", explica a artista, que já conta com convites para trabalhos em diversos outros centros europeus.

    7 min
  • Brasil plural é destaque em festival de cinema de Toulouse, no sudoeste da França

    Vários Brasis estão presentes no festival Cinélatino, em Toulouse, no sudoeste da França. São curtas e longas, em cores ou preto e branco, ficções e documentários, atestando a boa forma do cinema brasileiro.

    Patricia Moribe, enviada especial a Toulouse

    Em sua primeira incursão pelo cinema, o rapper Manu Cappu, da periferia de Curitiba, já está concorrendo ao prêmio de melhor curta no festival Cinélatino, em Toulouse. O filme “Bença” fala sobre o universo carcerário, baseado na própria experiência pessoal do artista.  

    “O filme nasceu a partir do encontro que eu tive com meu pai no cárcere. O meu pai era réu, confesso. Eu estava preso inocentemente. E o Bença surgiu nesse lugar de potência para unir a nossa família. O cárcere é visto como lugar de muita violência. Mas é em meio a esse caos, que a gente conseguiu fazer uma história de amor e perdão”, explica. “Fui gerando, criando e me reconectando com o meu pai assim.”, conta Mano.

    Escrever cada linha do roteiro, refletir cada momento, pensar a imagem, a palavra, todo o processo foi uma catarse para o novo cineasta. “Os filmes brasileiros sobre o cárcere geralmente são feitos por pessoas que nunca ficaram presas. Comecei com o rap e o rap no Brasil é muito forte, fala muito sobre a desigualdade social brasileira”.

    Mano Cappu ouviu o primeiro rap aos 11 anos, o “Diário de um Detento”, dos Racionais MC's, sobre a violência no Carandiru, em São Paulo. “E 15 anos depois fui encarcerado injustamente e fui entender a prisão. E aí a música veio com esse lugar de potência”.

    O homem que vira onça

    Buscando inspiração em outra vertente, em muitos anos de colaboração com o projeto Vídeo nas Aldeias, Ernesto de Carvalho se juntou a Ariel Kuaray para bolar a quatro mãos “A transformação de Canuto”, em competição para documentário de longa-metragem.

    “É um filme de fronteira entre o documentário e a ficção. Ele conta a história de um homem guarani que, na fronteira do Brasil com a Argentina, passou pelo processo de transformação em onça, transformação em jaguaretê, que é, na verdade, uma doença espiritual no mundo guarani”, explica o cineasta e antropólogo Ernesto de Carvalho.

    “O longa é uma exploração dessa história que brinca com o cinema, com a necessidade do vínculo. É também resultado de mais de dez anos de produção de filmes de colaboração entre o Ariel e eu e, principalmente dentro do projeto Vídeo nas Aldeias onde a gente tem, enfim, feito cinema e feito filmes e oficinas desde 2007. E este é nosso primeiro jogo dentro do universo da ficção, apesar de também ser um documentário. ”

    Brasil-Jamaica

    Marcelo Botta é diretor de “Betânia”, longa em competição, que teve estreia na Panorama, de Berlim. Depois de um documentário sobre os Lençóis Maranhenses em 2018, Botta voltou para a região três anos depois com a ideia de fazer uma ficção, com personagens locais e música, muita música.

    Além de concorrer com “Betânia”, Botta trouxe um outro projeto na manga, “Bramaica”, para discutir na plataforma de desenvolvimento do cinema. “Um filme que fala sobre a relação de amor entre o Maranhão e a Jamaica, o reggae, o Maranhão conhecido como a Jamaica brasileira e eu, assim como o Maranhão, sou um apaixonado também pela música jamaicana e pelo Maranhão.”

    Amazônia em preto e branco

    O cineasta pernambucano Marcelo Gomes adaptou o romance “Relato de um Certo Oriente”, de Milton Hatoum, sobre a chegada de um irmão e uma irmã que deixam um Líbano à beira da guerra civil nos anos 1950 para se instalar na Amazônia. Com fotografia exuberante, em preto e branco, e atores libaneses nos papéis principais, o título do filme virou “Retrato de um Certo Oriente”.

    O ator libanês Charbel Kamel viveu Omar, um vendedor ambulante que traz mercadorias do Líbano para revender na Amazônia. Kamel conta que o personagem mudou no meio das filmagens, deixou a arrogância por um homem mais sensível. "Gostei da transformação, no cinema árabe faltam homens doces, discretos, que não sejam machistas", disse à RFI.

    O Festival Cinélatino de Toulouse acontece até 24 de março. 

    6 min
  • Unesco exibe em Paris mostra com imersão nas famílias linguísticas dos povos originários do Brasil

    Concebida pelo Museu da Língua Portuguesa, de São Paulo, “Nhe’ẽ Porã: Memória e Transformação” chega agora em forma itinerante à sede da Unesco, em Paris. A mostra propõe uma imersão na floresta de famílias linguísticas às quais pertencem as línguas faladas hoje pelos povos indígenas no Brasil.

    Patrícia Moribe, em Paris

    O título da exposição, explica o site do Museu da Língua Portuguesa, vem da língua Guarani Mbya: "nhe’ẽ" significa espírito, sopro, vida, palavra, fala; e "porã" quer dizer belo, bom. Juntos, os dois vocábulos significam “belas palavras”, “boas palavras” – ou seja, palavras sagradas que dão vida à experiência humana na terra.     

    “Nós estamos trazendo uma pequena amostra dessa primeira exposição do Museu da Língua Portuguesa sobre Línguas Indígenas, que faz parte da Década Internacional das Línguas Indígenas, lançada pela Unesco”, explica a curadora e artista Daiara Tukano.

    Cerca de 50 profissionais indígenas participam do projeto. “É uma exposição que mostra a diversidade das línguas indígenas do Brasil, mas também a resistência de nossos povos, de nossas culturas”, acrescenta a ativista.

    As obras ocupam o saguão principal da Unesco e trazem uma instalação de pássaros e seus cantos, misturados às silhuetas das florestas – que representam as famílias linguísticas.

    “Quando eu era criança, ouvia falar dos troncos linguísticos e para mim, tronco era uma árvore. Então a gente desenhou cada família linguística na silhueta de árvores. E no meio dessas árvores estão pássaros importantes para muitos de nossos povos, que são pássaros sagrados e que são os pássaros que nos ensinam a falar e a cantar", conta Daiara. "Nosso conhecimento, nossa linguagem, vem da própria natureza. E dessa floresta nasce um rio, que vai atravessando toda a exposição, trazendo uma linha do tempo e das histórias de contato e resistência e construção das mensagens dos povos indígenas para a conquista de nossos direitos constitucionais, a luta do reconhecimento dos nossos territórios até a contemporaneidade.”

    “Não somos lenda”

    “Hoje nós temos 275 línguas vivas faladas no Brasil, de vários troncos linguísticos, como tronco Jê, o macro Jê, o tupi, tupi guarani, entre outros”, explica Thaline Karajá, que se apresentou na abertura da exposição na Unesco.

    “É de extrema importância que haja espaço para cantores e artistas indígenas estarem mostrando um pouco da sua arte, da sua ancestralidade, da sua língua, da sua cultura”, acrescenta. “Fora do Brasil, esse reconhecimento também é de extrema importância para que todos saibam que nós, povos indígenas, estamos resistindo e ainda existimos. Não somos lendas”, enfatiza a artista.

    “É fundamental nós termos nossos espaços de representabilidade”, disse Daiara Tukano a respeito do Ministério dos Povos Indígenas, da ministra Sonia Guajajara, que esteve na Unesco para prestigiar o evento. “Não podemos aceitar nada mais dito sobre nós sem nós. Então, é importante sempre trazer à frente o protagonismo das pessoas indígenas para poder explicar melhor sobre nossas realidades. E a gente precisa desconstruir muito das narrativas que foram feitas sobre nós, as narrativas da colonização, aqueles que entendem que não houve um descobrimento, que houve, na verdade, uma invasã”, alerta Tukano.

    ”Essa invasão continua existindo. Ainda hoje nós temos muitos povos que lutam pelo reconhecimento do seu território, que enfrentam graves violências. E isso não é uma coisa que ficou no passado. Reafirmar o contexto da nossa realidade também é reafirmar a nossa luta e o mundo no qual nós acreditamos”, insiste a ativista.

    A mostra “Nhe’ẽ Porã: Memória e Transformação” fica em exposição em Paris até 26 de março.

    “Nhe’ẽ Porã: Memória e Transformação” também pode ser visitada de maneira interativa.

    6 min
  • Teatro: Christiane Jatahy revisita fantasmagorias de 'Hamlet' em Paris com seu maquinário de revolução e desejo

    Ser ou não ser, eis a questão. A frase antológica de Shakespeare dita por Hamlet, triste príncipe dinamarquês assombrado por espectros do passado, ganha novas e surpreendentes cores na versão que a diretora brasileira Christiane Jatahy, premiada com o Leão de Ouro da Mostra de Veneza, estreia nesta terça-feira (5) deste texto clássico no teatro Odéon, em Paris, instituição da qual ela é artista associada, além do Centquatre, também na capital francesa, e do Schauspielhaus de Zurique, na Suíça.

    Encarnada pela atriz francesa Clotilde Hesme, nome recorrente nos palcos e telas francesas, Hamlet é agora uma mulher, capaz de olhar para as violências do passado e para sua propria violência, operando mudanças e revoluções, num dispositivo que se revela como assinatura no teatro de Christiane Jatahy. Mais do que ser ou não ser, como ser, porque ser e quando sê-lo, para quem ser, e como modificar e transcender as limitações de suas própria identidade e densidade para desarmar maquinários de reprodução da violência são questões-chave em vários trabalhos da diretora brasileira.

    Uma frase que eu acho que a gente repete muitas vezes na peça, seja como pergunta ou como afirmação é: 'Eu preciso ser cruel para ser justa?', porque, no fim das contas, também é esse o impulso que o/a Hamlet tem que  responder...

    O Hamlet que Jatahy estreia em Paris mira nas revoluções e transformações possíveis de cada um de nós, enquanto indivíduos, ou coletivamente. "Essa peça fala de transformações muito importantes. E a personagem da Ofélia é uma protagonista dessas mudanças, assim como Hamlet, que se confronta com sua questão do 'ser' e que passa também a reproduzir (ou não) uma determinada violência, porque o espetáculo também é sobre isso", conta Christiane Jatahy. "Uma frase que eu acho que a gente repete muitas vezes na peça, seja como pergunta ou como afirmação é: 'Eu preciso ser cruel para ser justa?', porque, no fim das contas, também é esse o impulso que o/a Hamlet tem que responder", diz a diretora.

    Jatahy conta que a escolha de trazer Hamlet para um corpo feminino, "cis ou trans", ultrapassa a questão de gênero. "É como se essa mulher estivesse sempre ali, entendeu? É sempre muito delicado, porque envolve também várias camadas. Às vezes eu faço alguma referência ao Orlando [texto clássico de Virginia Woolf], porque só mesmo a sensibilidade da mulher consegue olhar para essa história, reviver essa história, porque ao reviver essa história, como em muitas das minhas peças, trata-se de uma tentativa de não reproduzi-las", resume a diretora.

    "A missão que o Hamlet recebe é de violência, né? Essa luta interna... E a cada vez se repete a história caindo nessa violência, verificando quais são os conflitos que isso coloca e o que isso opera na transformação do personagem. Isso é super importante, além da figura da Ofélia, que não é aquela figura da mulher do femicídio, da mulher suicida, da mulher objeto de desejo, a ninfa morta tão reproduzida em tantas pinturas do imaginário misógino", pondera a artista.

    Fantasmagorias

    "Tem muita fantasmagoria nessa peça, e, inclusive, esses personagens que estão lá de alguma maneira são fantasmas da sua própria história", diz Jatahy sobre os espectros que rondam seus personagens, na adaptação que ela assina do texto clássico do bardo inglês. "As fantasmagorias são muito importantes nessa versão. A ideia de que o passado se cruza com o presente, também num lugar de fantasma. E numa relação com o infinito, o oito do infinito, em que as coisas vão se tocando", diz a encenadora brasileira.

    Patriarcado, herança hamletiana e universal

    Questões atuais, introjetadas dentro de cada um de nós, como as violências do patriarcado, também são revisitadas pela diretora brasileira e sua Hamlet, incorporada por Clotilde Hesme. O patriarcado assim vem com muitas camadas, e muitas camadas que são profundamente introjetadas em nós mesmos, inclusive nós mulheres", pontua Jatahy. "E existe, claro, toda uma discussão de como a gente muda isso socialmente, porque tem que ser mudado, isso é mais um fracasso violento", diz. 

    "Revolução, nem sempre quer dizer alguma coisa necessariamente violenta, né? Quer dizer, a revolução tem violências, mas não é sobre a violência. A revolução no sentido de transformação, essa é a questão que a gente está tocando, tratando, se perguntando na peça, como isso está dentro do próprio personagem do Hamlet? E como está também em todas as figuras, principalmente femininas, da peça?", questiona a encenadora brasileira, que já passou por incursões e adaptações prévias de Shakespeare em sua trajetória, especificamente com "A Floresta que Anda", em 2016, fechando a trilogia iniciada com Strindberg ("Júlia", baseada em "Senhorita Júlia") e Tchecov ("E se elas fossem para Moscou?", a partir de "Três irmãs"), uma performance livremente inspirada de "Macbeth", assim como "Before the Sky falls" ("Avant que le ciel tombe"), segundo volume da Trilogia dos Horrores, encenado na Suíça em 2021.

    Festa, lugar onde caem as máscaras

    "Tenho algumas coisas retomadas em vários de meus trabalhos, a água é um elemento que está sempre presente de muitas formas e, novamente agora, com a personagem de Ofélia. E a festa, que tem uma ideia da gira, né? E a gira é o movimento, sim. Ela, a festa é a festa, ela traz a possibilidade da queda das máscaras e das mudanças de estado, é o lugar dos debordamentos", diz Jatahy. 

    "O que transborda das festas é a dança, a música, é toda essa coisa que sai um pouco do racional e nos atravessa em outros lugares", diz. "Eu particularmente adoro festas, eu acho que são as festas dos amigos, as festas de celebração. Mas também tem as festas de família, né? Em que muitas verdades vêm à tona. Então, esse lugar de uma comunidade que se encontra para celebrar, para chorar suas dores, para também se reencontrar no lugar do amor assim, porque chorar as dores às vezes te possibilita um reencontro com o amor", acredita.

    "Hamlet", de Christiane Jatahy, fica em cartaz até o dia 14 de abril no Teatro Odéon, em Paris, e deve se apresentar no Brasil em 2025. 

    6 min
  • Diretores brasileiros na Berlinale apontam para retomada de cinema nacional após desmonte da cultura

    Quatro filmes e duas co-produções representam o Brasil na 74ª edição do Festival Internacional de Cinema de Berlim, que acontece até domingo (25) na capital alemã. A presença de cineastas brasileiros e brasileiras neste prestigiado evento baixou desde 2020, quando o Brasil levou 19 produções à Berlinale, um recorde para o país. 
     

    Daniella Franco, enviada especial da RFI a Berlim

    Para profissionais presentes no festival neste ano, não há dúvidas: o desmonte do setor cultural durante os governos de Michel Temer e de Jair Bolsonaro é responsável pela queda da representação brasileira em eventos de cinema pelo mundo. O cineasta paulista Marcelo Botta, que compete com o longa "Betânia", na mostra Panorama da Berlinale, explicou o fenômeno à RFI.  

    "Os filmes têm um ciclo de vida longo. Quando um roteiro nasce, até ele ir para a tela, demora quatro, seis, sete, às vezes até dez anos. Em 2020, apesar de já ser governo Bolsonaro, a gente teve 19 filmes aqui porque era reflexo da política do governo Dilma. E agora, apesar de estarmos no governo Lula, estamos vivendo os reflexos do governo Bolsonaro", avalia.  

    No entanto, para o diretor, a presença neste que um dos maiores festivais de cinema do mundo é uma prova da força do cinema brasileiro. "Esses poucos filmes que estão aqui agora representam essa resistência do cinema brasileiro que, mesmo nos momentos mais difíceis, não deixou de existir. Estamos aqui firmes e fortes. São poucos, porém filmes muito potentes que eu acredito que vão fazer a diferença aqui na Berlinale", ressalta. 

    A Cinemascópio Produções, do diretor pernambucano Kleber Mendonça Filho e da produtora francesa Emilie Lesclaux, coproduziu o longa "Dormir de Olhos Abertos", da alemã Nele Wohlatz, que concorre na mostra Encounters da Berlinale. Kleber acredita que, depois desses anos de desligamento da cultura no Brasil, a situação está melhorando. 

    "Eu acho que aos poucos a máquina de apoio à cultura está sendo religada, porque ela foi sabotada nos anos Temer e Bolsonaro, e isso teve um impacto muito negativo na nossa produção", diz. "Nesse filme que estamos apresentando em Berlim, uma coprodução com Taiwan, Argentina e Alemanha, tivemos dificuldades de acessar os fundos porque a máquina estava entravada. Finalmente com a volta de um governo democrático, a máquina volta a funcionar", observa. 

    A cineasta paulista Juliana Rojas concorre com o longa "Cidade Campo" na mostra Encounters do festival de Berlim. Ela falou à RFI sobre sua esperança de uma melhora do setor após o restabelecimento do Ministério da Cultura no governo de Luiz Inácio Lula da Silva. 

    "Espero também que haja uma preocupação com diversidade, tanto de região, para que esses recursos não fiquem somente em São Paulo ou no Rio de Janeiro, mas que se expanda para vários Estados, e também como uma diversidade de olhares, de ter realizadores de diferentes raças e gêneros, além de produtoras de vários tamanhos", afirma. Segundo ela, é apenas com "o aumento de incentivos que o Brasil terá uma produção maior de cinema e aí com certeza vai ter uma presença maior nos festivais".

    Promoção e valorização da diversidade

    O instituto Nicho 54 é uma organização sem fins lucrativos, criado em 2019 e liderado por profissionais negros e negras pela promoção e valorização da comunidade preta na indústria audiovisual. A fundadora e diretora executiva da organização, Fernanda Lomba, participa do European Film Market (EFM), pelo quinto ano consecutivo. O evento promovido pela Berlinale incentiva encontros entre cineastas e profissionais da indústria do cinema para o financiamento e a coprodução de novos projetos.

    Em entrevista à RFI, ela ressaltou as consequências do desmonte da cultura no Brasil também à formação de profissionais da produção cinematográfica, "sobretudo para que tenham a capacidade de atrair negócios para a nossa coprodução". "Para estar presente no mercado de produção internacional do calibre de Berlim, só um filme brasileiro sem uma trajetória planejada de atração internacional não é suficiente. Então, a gente precisa qualificar as nossas produções e qualificar a coprodução que a gente consegue atrair para ter competitividade nesses festivais internacionais", salienta. 

    Participe do canal WhatsApp da RFI Brasil

    Fernanda classifica o mercado do cinema brasileiro atual como "uma colcha de retalhos", devido ao impacto dos governos Temer e Bolsonaro, mas devido a outros fatores, como a chegada dos streamings no Brasil, "num cenário sem regulação que afetou a lógica e a ordem da produção nacional". Outra característica, segundo ela, é a força da diversidade e como ela impacta a cadeia produtiva. "A minha avaliação é de que nós estamos passando por uma grande revolução", diz. 

    No entanto, a diretora executiva da Nicho 54 refuta o termo "retomada" para falar sobre essa fase de recuperação do cinema brasileiro. "Eu acho que a gente coloca luz ou retira luz de alguns fenômenos que acontecem. E nesse momento eu gostaria de colocar luz no fenômeno da diversidade, especificamente liderada por profissionais da própria diversidade", reitera. 

    Segundo ela, as diferentes comunidades minoritárias dão outras perspectivas à produção de conteúdo cinematográfico. "Nós estamos passando por uma nova cara de Brasil, muito mais diversa. Isso tem afetado toda a cadeia. E estamos nos adaptando neste momento para recuperar ou mesmo de criar uma capacidade de maior fôlego para atrair negociações e lançar novos talentos", conclui Fernanda Lomba. 

    10 min
  • Curtas brasileiros em competição em festival francês exploram legados da violência colonial

    Dois filmes brasileiros concorrem a prêmios neste sábado (10) no encerramento da 46ª edição do Festival de Curta-Metragem de Clermont-Ferrand, na França, maior evento do gênero do mundo.

    Produções de 83 países estão em cartaz nas diversas mostras do festival de Clermont-Ferrand, que este ano contou com 363 filmes exibidos ao público.

    O título “Pássaro Memória”, sexto curta-metragem do carioca Leonardo Martinelli, disputa a Competição Internacional da mostra francesa com outros 65 filmes de 52 países. Na trama, um pássaro chamado Memória esquece como voltar para casa. Lua, uma mulher trans negra, tenta encontrá-lo nas ruas do Rio de Janeiro, mas a cidade se revela um lugar hostil.

    “'Pássaro Memória' é um filme que busca refletir como alguns espaços refletem uma certa violência simbólica na cidade do Rio de Janeiro, seja por uma herança colonial que ainda é representada de forma arquitetônica ou por questões de quanto aquele espaço sofre de repressão social”, disse à RFI o roteirista, produtor e diretor carioca.

    “A gente tenta utilizar a cidade como esse lugar que reflete essas violências. E utilizar no filme o gênero musical, que é uma forma de cinema que me atrai muito, como uma plataforma para trazer imagens um pouco diferentes do que seriam esses espaços da cidade. Isso não significa, claro, tirar a carga histórica que há neles, mas tentar trazer uma outra imagem para esse espaço e um corpo ocupando esse espaço, através de uma representação artística da dança, da música e do cinema, como uma forma de buscar, talvez, uma catarse”, explica Martinelli.

    A protagonista Lua sofre por não ter acesso a tantos espaços da cidade quanto outras pessoas menos marginalizadas.

    Aos 25 anos e sete de cinema, Martinelli tem suas produções reconhecidas e premiadas pelo público e pela crítica em diferentes festivais pelo mundo. Seu filme “Fantasma Neon” foi exibido na Competição Lab de Clermont-Ferrand em 2022, mas ele não estava presente. Desta vez, o diretor veio à França para conhecer o renomado festival internacional.

    "Eu sou muito apaixonado pelo formato do curta-metragem, porque eu acredito que ele é uma janela própria, assim como são o documentário, a animação, a ficção", disse. Para Martinelli, o curta-metragem pode trazer outras tensões e possibilidades dentro da linguagem do audiovisual que só poderiam ser manifestadas numa duração breve.

    O brasileiro lamenta que o formato ainda sofra algum grau de marginalização dentro da indústria audiovisual, por não ser tão rentável. Nesse contexto, espaços como os festivais são necessários para acolher o curta como uma proposta cultural artística plena, alega.

    Colonização holandesa

    O passado colonialista e seus efeitos deletérios que até hoje marcam a sociedade brasileira também estão no centro do documentário "Até onde o mundo alcança", primeiro curta do artista visual carioca Daniel Frota de Abreu, de 35 anos. O título, selecionado entre 24 filmes na Competição Lab, faz uma condenação contundente do período da colonização holandesa no Brasil no século 17.

    "Esse trabalho vem de alguns outros trabalhos que lidavam com história da ciência. O que me interessou nesse contexto específico do Brasil holandês foi a cultura material produzida durante esse período, (...) especialmente o primeiro catálogo da natureza brasileira", disse o diretor, que morou na Holanda e teve acesso a algumas coleções que inspiraram o roteiro do documentário.

    O filme denuncia a violência que marcou a passagem de Maurício de Nassau pelo Nordeste, enviado para administrar Pernambuco durante o período que os holandeses dominaram a região. Nassau, de origem germânica, patrocinou expedições de cientistas que extraíram amostras da fauna e da flora brasileiras, em um ambiente marcado pela violência, utilizadas depois para se autopromover em seu retorno à Europa.

    "Na verdade, eram expedições de caça a escravizados", diz o diretor. "O apelido dele [Mauricio de Nassau] era 'O brasileiro'. Você vê que a função dessas coleções, não só de arte com as pinturas, mas de história natural, vira uma espécie de moeda de troca. E é assim que essas coisas também vão se dispersando na Europa. Ele começa a dar presentes. É essa espécie de diplomacia mediada por uma violência simbólica", destaca Frota de Abreu, num contexto de escravidão e muito sangue derramado nas plantações de cana-de-açúcar do Nordeste.

    O festival francês termina neste sábado com a entrega dos prêmios.

    9 min

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