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O filme “Ainda Estou Aqui”, de Walter Salles, é um dos grandes destaques de 2024. O longa passou pela França, primeiro no festival latino americano de Biarritz, e depois em pré-estreia em Paris. Nas artes plásticas, a retrospectiva dedicada a Tarsila do Amaral, no museu de Luxemburgo, em Paris, é um franco sucesso.
O filme “Ainda Estou Aqui”, de Walter Salles Júnior, baseado no livro de Marcelo Rubens Paiva, está fazendo história. Sucesso de bilheteria no Brasil, o longa concorre ao Globo de Ouro nas categorias melhor filme em língua não inglesa e para melhor atriz – Fernanda Torres.
A trama se concentra em Eunice Paiva, cujo marido, o deputado Rubens Paiva, é preso, torturado e assassinado pela ditadura. Sua vida de dona de casa com cinco filhos com um marido desaparecido toma outro rumo. Ela se forma em Direito aos 47 anos e passa a defender direitos humanos das vítimas da ditadura e seus familiares.
Fernanda Torres vive Eunice Paiva em uma atuação de elogios unânimes. Fernanda Torres, sua mãe na vida real, é Eunice no final da vida, com Alzheimer. Há 25 anos, Montenegro concorria ao Oscar de melhor atriz por seu trabalho em Central do Brasil, do mesmo Walter Salles. Agora, a torcida é grande para que Torres também seja indicada. A Academia de Cinema anuncia os candidatos à estatueta em janeiro. Outra feliz coincidência é que Fernanda Torres estava no primeiro longa de Salles, “Terra Estrangeira”, de 1995. Ela, aliás, foi prêmio de melhor atriz em Cannes, por “Eu Sempre Vou te Amar”, de Arnaldo Jabor, em 1986.
"Eu tive a sorte de conhecer essa família quando eu tinha 13 anos", conta Walter Salles. "Eles tinham vindo de São Paulo e alugado uma casa no Rio. Eu voltava de cinco anos na França, onde tinha vivido de 1964 a 1969. Então, quando eu voltei para o Brasil, voltei para um país sob a ditadura militar, onde havia censura, um país onde eu me sentia bastante perdido. E, através de uma amiga, acabei conhecendo os cinco filhos da família Paiva".
"Na casa deles, pulsava um outro país, que era quase o contracampo do país da ditadura e onde a discussão sobre política era livre e acalorada, onde tocava o tempo inteiro música brasileira", lembra o cineasta. "A gente tem que lembrar que Gilberto Gil e Caetano Veloso estavam exilados naquele momento. Então, poder ouvi-los já era algo bastante excepcional. Isso me abriu um mundo novo. Todas essas informações culturais foram se somando e eu fui formado, em grande parte, pelo cinema e, de alguma forma, pela convivência nessa casa."
Walter Salles foi entrevistado pela RFI em Biarritz.
Retrospectiva de TarsilaNas artes plásticas, o destaque vai para “Tarsila do Amaral, Pintar o Brasil Moderno”, no museu do Luxemburgo, em Paris.
Com 150 obras, a exposição vem preencher uma lacuna e resgatar a história de Tarsila do Amaral (nascida em 1886-1973) com a França. A pintora paulista morou na capital francesa no início dos anos 1920, ao lado do então marido Oswald de Andrade (1890-1954).
A retrospectiva parisiense acontece quase cem anos após a primeira mostra individual que revelou Tarsila do Amaral em Paris, em 1926. “O motivo dessa exposição é justamente valorizar essa artista que foi muito parisiense naquela época e foi esquecida”, disse a curadora da mostra, Cecília Braschi, em entrevista a Adriana Brandão, em Paris.
A pintora chegou a fazer uma segunda exposição parisiense em 1928, sempre com muito sucesso, e vendeu seu primeiro quadro para um museu, a tela “A Cuca” que pertence ao fundo francês de artes plásticas.
Em Paris, Oswald lançou o Manifesto Pau Brasil em 1925, que precedeu o famoso Manifesto Antropofágico de 1928. Os dois manifestos foram ilustrados por Tarsila do Amaral. Cecília Branski ressalta que a participação da pintora foi muito além e que ela ajudou a criar movimento.
“Eles são totalmente complementares na pintura e literatura. Mas dá para ver, simplesmente pelas datas das obras, que Oswald se inspirou nas obras da Tarsila. O movimento antropofágico também nasceu inspirado na obra mais conhecida dela, o Abaporu”, lembra. O quadro que pertence ao Museu de Arte Latino-Americana de Buenos Aires não integra essa retrospectiva parisiense. A curadora tentou negociar, mas não conseguiu o empréstimo.
A RFI entrevistou em 2024 muitos artistas e intelectuais brasileiros como a escritora e jornalista Eliane Brum, o ator Antonio Pitanga, os músicos Armandinho Macêdo e Jards Macalé, além do cineasta Karim Ainouz e a diretora de teatro Cristiane Jatahy, entre outros.
Luciana Sagioro, de 18 anos, a primeira bailarina de nacionalidade brasileira a integrar o balé da Ópera de Paris, terá seus primeiros solos no espetáculo 'Paquita', em cartaz na Ópera Bastilha até o dia 4 de janeiro de 2025. Natural de Juiz de Fora, ela entrou para o corpo de baile - com contrato profissional vitalício até sua aposentadoria - no cargo de base Quadrille. Mas em menos de um ano, Luciana foi promovida à Coryphées, se destacando mais uma vez.
Luiza Ramos, de Paris
A primeira e, até hoje, única brasileira a ingressar na equipe de dançarinos na história do balé da Ópera de Paris foi recentemente promovida e fará seus primeiros solos no clássico 'Paquita', em cartaz na Ópera Bastilha. O espetáculo, criado na própria Ópera de Paris em 1846, faz sucesso devido as suas danças alegres e por ser um balé em que os dançarinos se manifestam por gestos e mímicas.
Foi dançando um trecho de 'Paquita' que Luciana Sagioro venceu o concurso Prix de Lausanne, em 2022, aos 16 anos, quando conquistou uma vaga na prestigiada Escola de balé parisiense. Em 2024, ela foi contratada para o corpo de baile no cargo chamado Quadrille. Em menos de um ano, Luciana já foi promovida à Coryphée, se destacando mais uma vez.
Como Coryphée, Luciana terá mais destaques no corpo de baile, e por isso, alcançou a possibilidade de realizar alguns solos em 'Paquita' - nos dias 23 e 30 de dezembro e no dia 3 de janeiro.
“A Ópera de Paris são 154 bailarinos. Somos muitos e todos muito bons, todos com uma grande excelência. Eu sempre soube que eu tinha minhas qualidades e que eu queria muito ser promovida de ano em ano, de temporada em temporada, para continuar a minha progressão. Mas eu sabia que seria muito difícil com a qualidade de todas as bailarinas do corpo de baile”, reconhece a jovem.
“Eu precisei realmente trabalhar muito para isso. Não é muito comum, no primeiro ano de trabalho, já conseguir ser promovida. Então realmente eu sou muito grata por isso. Mas tudo foi pago com muito trabalho, então eu sei que eu fiz muito para chegar lá”, acredita a dançarina.
A carreira de bailarinaNa progressão profissional na Ópera de Paris após o Coryphée vêm os Sujets, que são os solistas fixos. Depois, o profissional da dança pode ser promovido a Primeiro Bailarino ou Primeira Bailarina, que fazem os papéis principais dos espetáculos. Por último, o mais alto cargo da companhia, conhecido como Étoile - a Estrela -, ao contrário dos outros cargos, não passa por concurso, e sim por nomeação da diretoria da instituição.
Luciana, que estuda balé desde os 3 anos de idade, convenceu seus pais a se mudar para o Rio de Janeiro aos 10 anos com a babá para se profissionalizar em dança. A jovem mora há três anos na capital francesa, enquanto seus pais e suas duas irmãs gêmeas mais novas continuam em Juiz de Fora. Ela, que afirma ter “um orgulho enorme de ser brasileira”, desde criança abdicou do convívio com a família pelo sonho da profissão de bailarina, que lamenta não poder ser vivido no seu país.
“Infelizmente, hoje, como bailarina, se você escolhe essa profissão e quer realmente se dedicar a 100% e ser valorizado pela profissão que escolheu, você não consegue ser bem pago no Brasil. Desde pequena eu soube, eu pesquisei que para ser bailarina profissional você vai ter que sair do seu país”, diz Luciana Sagioro.
Inclusão de talentos na Ópera de ParisA Ópera de Paris vem, há alguns anos, tentado ser mais inclusiva. Em 2021, a direção tomou a decisão inédita de revisar seus critérios de recrutamento para encorajar a entrada de artistas que não sejam brancos e contratou um "fiscal da diversidade", a exemplo do Metropolitan Opera de Nova York. Em 2023, a tradicional instituição francesa nomeou pela primeira vez em três séculos de existência um bailarino negro como Étoile, Guillaume Diop, um dos raros dançarinos negros ou mestiços da instituição.
Como a primeira bailarina brasileira a ingressar na aclamada Ópera de Paris, Luciana afirma que o Brasil é rico em potencial para a dança. “Somos um país de muitos talentos”, confirma ela ao apontar nomes que se destacam no mundo das artes, dança e esportes na cena internacional. Luciana cita dançarinas em quem se espelha:
“Eu tenho uma grande inspiração na minha antiga mestre, a Patrícia Salgado, que foi minha mestre de balé, foi uma grande bailarina solista no balé de Stuttgard na Alemanha. Ela me inspirou muito pela forma que aprendeu tudo como bailarina, mas pela forma que ela transmite hoje como professora. A bailarina Mayara Magri, Étoile do Royal Ballet em Londres, brasileira também. E a Dorothée Gilbert, Étoile aqui da Ópera de Paris, é uma grande inspiração e hoje divido o palco com ela. Isso é demais! Marianela Nuñez também, outra grande Étoile do Royal Ballet em Londres. A lista é enorme, mas essas são algumas”, brinca.
Sonhar e realizar é possívelA mineira admira muitos artistas, mas também quer inspirar outros jovens brasileiros. Ela planeja em um dia poder ajudar outros bailarinos a alcançarem seus objetivos.
“Hoje, com meu papel, sendo bailarina da Ópera de Paris, eu crio a esperança nas pessoas de que elas são capazes de realizar os sonhos delas. E o meu maior sonho como bailarina brasileira, vendo a situação do meu país, que infelizmente é um país que é pobre, não tem muitos recursos, como aqui na França, é criar uma associação que possa ajudar bailarinos que tenham os mesmos sonhos que um dia eu tive, mas não tenham a mesma facilidade, os mesmos recursos que eu tive, graças a minha família”, agradece Luciana.
“Eu abdiquei realmente de muitas coisas. Nada disso foi fácil, foi muito trabalho, muita dedicação, muito esforço. É isso que eu quero inspirar nas pessoas. Muitas pessoas desistem porque o caminho é muito difícil e poucas pessoas falam do quão difícil é. A gente fala do glamour que chegar até lá. A gente fala que é muito gratificante, mas a gente esquece que a trajetória, os caminhos, foram difíceis”, pondera.
Para Luciana, a força do sonho fala mais alto. “Muitas coisas vão tentar impedir que você alcance seus sonhos. Mas se você não for mais forte que tudo isso, ninguém vai ser por você. Sempre falo [que] tudo é possível, basta só você acreditar”, declara.
A temporada de 'Paquita', que começou no início de dezembro e termina em 4 de janeiro de 2025, ainda tem ingressos disponíveis no site oficial da Ópera de Paris. Mas quem não conseguir ver a mineira Luciana Sagioro nesta temporada no clássico palco francês, terá ainda muitas oportunidades em espetáculos futuros. Afinal, a carreira da jovem cheia de brilho nos olhos pela dança está apenas começando.
Até o começo dos anos 2000, os diplomatas brasileiros alocados em Paris dispunham de um privilégio, abolido durante o primeiro mandato de Luiz Inácio Lula da Silva: trazer consigo para a capital francesa duas empregadas do Brasil. Sem falar francês, isoladas pela distância e sem redes sociais, muitas delas viveram em regimes comparáveis à semi-escravidão. A peça "Ressonâncias: Revoltas Silenciosas", do ator e músico Yure Romão, busca dar visibilidade a essas protagonistas invisibilizadas pelo silêncio.
"O projeto começou em 2022, durante um café na casa de uma amiga, a primeira pessoa que conheci aqui em Paris. Por questões de anonimato, já que os diplomatas com quem algumas dessas mulheres trabalharam ainda estão em atividade, vou chamá-la de Maria", conta o diretor do espetáculo, o ator, músico e encenador Yure Romão.
"Naquele dia, estávamos conversando sobre política. Era o dia da eleição presidencial na França, e a extrema direita estava ganhando força. Eu estava muito contrariado, sem entender como brasileiros vivendo aqui podiam votar na extrema direita no Brasil, ou como franceses optavam por isso", contextualiza.
"Maria começou a compartilhar experiências pessoais e de amigas próximas", relembra Romão. "Ela contou que conhecia muitas famílias brasileiras, especialmente de diplomatas, que nos anos 2000 tinham o direito de trazer duas empregadas domésticas ao país onde estavam alocadas", detalha.
"Eu não sabia disso. Maria explicou que, até 2003, isso era um privilégio concedido, mas que foi cortado no governo Lula, junto com outros benefícios, como auxílio-moradia. Segundo a análise dela, isso gerou um sentimento anti-Lula entre muitos diplomatas", avalia o diretor.
Algumas recebiam salários bem inferiores ou nada, e muitas viviam isoladas, longe das famílias, num contexto análogo à escravidão.
"Essas empregadas domésticas vinham com a promessa de receber um salário de US$ 800 e moradia digna. No entanto, ao chegarem aqui, a realidade era outra", conta.
"Algumas recebiam salários bem inferiores ou nada, e muitas viviam isoladas, longe das famílias, num contexto análogo à escravidão. Nos anos 2000, a comunicação era difícil — sem celulares ou WhatsApp, elas ficavam ainda mais isoladas", destaca o artista brasileiro, que desenvolve diversas residências com artistas em ex-colônias francesas, como Guadalupe e Martinica.
"Naquela tarde, Maria me apresentou duas amigas que passaram por essas situações. Elas expressaram o desejo de que suas experiências fossem conhecidas, não só como registro histórico, mas para que filhos, netos e outras gerações soubessem o que viveram", relata Romão.
Histórias reaisNo cruzamento da narrativa e da pesquisa documental, com dramaturgia fortemente marcada pela presença da música popular, do Brasil às ex-colônias francesas, o espetáculo resgata histórias reais de empregadas domésticas brasileiras na França, como conta Yure Romão.
"Decidi então transformar essas histórias em um espetáculo, pois sou diretor e músico, e meu trabalho é centrado no teatro e na música. Paralelamente, começamos a trabalhar em um livro, baseado nas transcrições das entrevistas. Tanto o espetáculo quanto o livro respeitam o anonimato, com cada mulher escolhendo um pseudônimo para garantir segurança e evitar retaliações", conta o diretor.
Uma das mulheres contou que dormia na lavanderia, embaixo de uma tábua de passar roupa.
"As histórias que elas contam revelam realidades dolorosas. Muitas vieram seduzidas pela ideia de ganhar US$ 800 — uma quantia impressionante comparada ao salário mínimo da época no Brasil. Algumas eram trabalhadoras domésticas; outras, como enfermeiras e administradoras, que aceitaram a proposta por parecer mais vantajosa. Mas ao chegarem aqui, enfrentaram promessas não cumpridas: salários retidos, condições precárias de moradia e isolamento", relata o diretor, em entrevista à RFI.
Os abusos aconteciam de formas variadas, como relata o diretor do espetáculo. "Uma das mulheres contou que dormia na lavanderia, embaixo de uma tábua de passar roupa. Outras relataram violências físicas e psicológicas, agravadas pela distância da família e pela dificuldade de pedir ajuda. O diretor conta ainda que "essas situações ocorriam dentro de um quadro legal, já que havia contratos, mas que na prática eram desrespeitados".
Entrelaçamento de dramaturgiasYure Romão detalha o entrelaçamento de dramaturgias que ele teceu, num diálogo com a autora antilhana Françoise Ega, através de seu livro “Cartas a uma negra”, onde ela endereça cartas à escritora brasileira Carolina Maria de Jesus.
"Ao longo do processo, percebi semelhanças com outras migrações institucionais, como as descritas pela escritora martinicana Françoise Ega, em seu livro Cartas a uma negra. Nele, ela relata a experiência de mulheres das Antilhas Francesas, nos anos 1960, que também vieram para a França com promessas de melhores condições, mas encontraram exploração. A conexão entre essas histórias, separadas por décadas e continentes, revela padrões profundos de desigualdade e abuso", analisa Yure Romão.
Visibilidade"O espetáculo busca dar visibilidade a essas mulheres e suas histórias, enquanto o livro serve como registro memorial. Algumas delas decidiram que suas famílias descobrirão o que viveram apenas ao assistir à peça ou ler o livro. Elas desejam que suas histórias não se percam e que sirvam como alerta para que outras mulheres não enfrentem as mesmas dificuldades", ressalta Romão.
"Não sinto medo de expor essas questões, embora elas revelem um lado sombrio da diplomacia brasileira", diz o diretor. "Estamos protegidos pelo anonimato e pela importância do trabalho. Essas histórias fazem parte da história do Brasil e da diplomacia, e acredito que merecem ser contadas", insiste.
"Estamos planejando levar o espetáculo ao Brasil em 2025, durante o Ano do Brasil na França. Será uma versão em português, e algumas das mulheres que entrevistei poderão assisti-lo. Espero que o impacto seja tão transformador lá quanto tem sido aqui", afirma Romão.
"Muitas vezes, quando falamos do projeto, deixamos claro que não se trata de 'dar voz' a essas mulheres. Elas já têm muita voz e falam muito. E isso é maravilhoso. Acho que o nosso papel é mais sobre escutar essas vozes, amplificá-las e fazê-las ressoar", diz a atriz, marionetista e contadora de histórias Ana Laura Nascimento.
"Enquanto mulher, filha e neta, essa questão me atravessa profundamente. Minha avó foi empregada doméstica, e minha madrinha ainda é, vivendo no interior de Pernambuco", afirma. "Mesmo com a PEC das Domésticas, muita coisa não mudou, especialmente nos interiores. Muitas empregadas domésticas ainda não têm seus direitos reconhecidos. É algo muito próximo para mim, porque tenho pessoas da família que enfrentam essas condições", sintetiza a artista brasileira, que desenvolveu seus estudos e boa parte de sua prática teatral na França.
"Quando falo, crio ou produzo peças sobre temas difíceis como esse, o que mais me motiva é explorar como essas pessoas conseguiram resistir e continuar. Quero falar sobre o que foi necessário para elas seguirem em frente, mesmo diante de tantas adversidades", destaca Nascimento.
"Tecnologias de sobrevivência""Vivemos em um país que enfrentou 400 anos de escravidão. Se estamos aqui hoje, é porque criamos tecnologias de sobrevivência, maneiras de seguir vivendo", avalia Nascimento. "Não foi só pela luta, mas também pela celebração, pela criação de subjetividades e de espaços onde antes não havia nada. Foi essa capacidade de criação que nos manteve vivos", aponta.
"Além disso, ontem, no início do ensaio, falamos sobre como essas histórias nos atravessam e nos emocionam profundamente. Elas nos deixam frágeis, mas também nos impulsionam", sublinha Nascimento. "Trabalhamos com artistas incríveis, com muita técnica, e isso nos permite transformar essa emoção em algo produtivo. Essa emoção se torna adubo, alimentando a nossa técnica e o nosso trabalho", conclui a atriz.
Depois da temporada francesa, a peça "Ressonâncias, revoltas silenciosas" deve desembarcar em 2025 no Brasil, dentro do calendário que comemora os 200 anos de relações diplomáticas entre os dois países.
Como promover e proteger a língua portuguesa e as culturas dos nove países que têm o idioma como oficial em um mundo cada vez mais dominado pelo inglês? Esse foi o tema central da 4ª Jornada da Lusofonia, evento internacional organizado pela Universidade Clermont Auvergne, em Clermont-Ferrand, região central da França.
Realizado nesta quinta-feira (21), o encontro reuniu acadêmicos, diplomatas e especialistas para discutir o papel da língua portuguesa em um cenário global marcado pela predominância de idiomas hegemônicos, como o inglês, especialmente em áreas como ciência, tecnologia e entretenimento.
A língua portuguesa, com mais de 260 milhões de falantes nativos, é uma das mais faladas no mundo. Mas, como outros idiomas, tem perdido relevância internacional diante da crescente predominância do inglês amplamente utilizado em áreas como tecnologia, ciência, diplomacia e entretenimento em todo o mundo. Para que o português mantenha sua relevância internacional, é necessário expandir seu alcance e atrair interesse de falantes não nativos.
"No último recenseamento, que foi feito pelo instituto Camões, o português é colocado com uma quarta língua mais falada por pessoas nativas do mundo. Então, nós precisamos trabalhar justamente para que essa língua não seja somente uma língua utilizada como ferramenta para nativos, mas atrair também pessoas que não necessariamente têm nacionalidades de países lusófonos que possam aprender e se interessar por esse idioma”, destaca Ailton Sobrinho, professor do Departamento de Estudos Portugueses e Brasileiros da Universidade Clermont Auvergne (UCA).
Universidades francesas e o ensino do portuguêsMuitas universidades francesas têm departamentos de língua portuguesa, indicando o interesse pelo idioma na França. Somente na Universidade de Clermont Auvergne são mais 200 alunos, de graduação e pós-graduação. Comércio internacional, turismo e tradução são as principais áreas de atuação visadas. A Inteligência Artificial (IA) representa um grande desafio, principalmente para os tradutores, segundo Ailton Sobrinho.
“Acredito que nós não vamos conseguir substituir o homem por uma máquina, porque ela nunca terá essa sensibilidade de compreender os contextos, de compreender as especificidades de uma língua. Então eu prefiro acreditar que a profissão do tradutor, a figura humana, ela será sempre essencial nesse trabalho, nessa profissão”, afirma.
A UNESCO e o papel do Brasil na promoção do portuguêsA embaixadora do Brasil na Unesco, Paula Alves de Souza, foi uma das participantes da Jornada da Lusofonia. Ela lembrou que o papel da Unesco, formada por 194 países, é justamente a promoção e a defensa da diversidade cultural e linguística. Foi a Unesco que declarou o dia 5 de maio Dia Mundial da Língua Portuguesa. Paula Alves de Sousa ressalta, no entanto, a importância do governo brasileiro ter uma política nacional de proteção de sua língua e cultura.
"O papel do governo é investir em uma produção cultural de língua portuguesa. Por exemplo, investir recursos na produção audiovisual, no cinema brasileiro e justamente investir em salas de cinema e na reserva de mercado para que as pessoas possam assistir a filmes brasileiros”, exemplifica.
Outro campo de exploração, segundo a embaixadora, é na área das ciências e da educação. “É tentar fazer que a língua portuguesa seja a língua da ciência, e que a gente possa escrever e produzir em língua portuguesa e assim ganhar cada vez mais força e espaço no meio científico”, defende.
Paula Alves de Sousa acrescentou que, em um mundo cada vez mais globalizado, a preservação do idioma tem que ser um esforço contínuo. "É uma batalha difícil, talvez quase perdida, mas precisamos insistir. O mundo está se tornando cada vez mais anglófono e particularmente norte-americano. E com isso, nós teremos uma única cultura mundial e cada vez menos diversidade cultural. Isso sem dúvida alguma, é um empobrecimento para todos nós”, alerta.
Mesmo diante de cortes orçamentários, a embaixadora acredita que é possível direcionar recursos de forma eficiente para a promoção da cultura brasileira. "Hoje é impossível você pensar em cultura se você realmente está tentando ainda alimentar ou dar vacina para as pessoas. Na realidade é pouco dinheiro para muita coisa, para muitos objetivos. Mas é pensar criativamente, para poder ter investimento na cultura", diz Paula, citando o Fundo Setorial do Audiovisual como um exemplo do uso de recursos com criatividade e boa gestão.
“Pessoa, since I’ve been me” (“Pessoa, desde que eu sou eu”, em tradução livre) é a última peça de Robert Wilson. No espetáculo, o renomado diretor de teatro americano faz uma leitura pessoal da vida e obra de um dos maiores escritores portugueses de todos os tempos. Depois da estreia mundial em Florença, no primeiro semestre, a peça entrou em cartaz na terça-feira (5) no Théâtre de la Ville, em Paris.
Uma escolha de fragmentos de textos de Pessoa retraça a vida do poeta do nascimento a morte. A peça começa e termina com a frase "I know not what tomorrow will bing" (Não sei o que o amanhã trará"), escrita em inglês antes da morte do poeta em 1935.
Bob Wilson conhecia pouco a obra de Fernando Pessoa e mergulhou no universo do poeta português no processo de criação, conta a brasileira Janaina Suaudeau, uma das atrizes do espetáculo. "Ele (Bob Wilson) mesmo diz que aos poucos, justamente fazendo trabalho de dramaturgia com Darryl (Pinckney), com o Charles Chemin, foi se encantando cada vez mais com esse personagem. Não tem como não se encantar com o Pessoa, não é?”, aponta.
A atriz franco-brasileira diz que nessa homenagem ao poeta português o diretor americano “brincou muito com a multiplicidade do Pessoa em todas as esferas. No imagético, ele passa de um universo para o outro muito rápido. Passa do 'Fausto', por exemplo, que é uma coisa tão profunda, mais sombria, e logo depois vem uma música no final".
Espetáculo caleidoscópioEm cena, sete atores e atrizes de várias nacionalidades: italianos, franceses, portugueses e brasileiros.
“Pessoa” é um espetáculo caleidoscópio, que revela com a encenação límpida, os gestos geométricos e lentos que caracterizam a obra de Bob Wilson, mas também muitos elementos burlescos, as várias vidas do escritor português, simbolizadas por seus diversos heterônimos.
Cada ator ou atriz se identifica com um dos heterônimos, principalmente os mais conhecidos: Álvaro de Campos, Ricardo Reis, Alberto Caeiro, Bernardo Soares. Já a atriz portuguesa Maria de Medeiros vive em cena o próprio Fernando Pessoa.
“O que eu achei muito interessante na proposta do Bob foi abordar o Pessoa pela infância, pelo lado lúdico. E esse ‘Pessoinha’ com o seu bigode, andrógino porque é interpretado por uma mulher, de alguma forma vai organizar no sistema pessoano aquilo que ri das coisas mais dramáticas, das dificuldades de ser, das angústias pessoanas”, detalha.
A atriz e cineasta, que brinca que a obra do poeta português é para ela uma “espécie de líquido amniótico”, concorda com a leitura que Bob Wilson faz de Pessoa. “Isso está certo porque o Pessoa também tem um lado extremamente irônico e autoirônico”, afirma Maria de Medeiros, que interpreta a obra do escritor português desde os 19 anos.
Pessoa universal"Pessoa, since I’ve been me" convida o público para uma viagem visual e sonora, e em várias línguas europeias: inglês, português, francês e italiano. Com a presença de atores e atrizes brasileiros e portugueses em cena, Maria de Medeiros ressalta a importância de se ouvir na peça os sotaques do português do Brasil e de Portugal.
“Os brasileiros sempre foram e são grandes intérpretes do Pessoa. Por isso, me parece muito certo que dois brasileiros estejam no espetáculo e que se ouça o português de Portugal e o português do Brasil também. Ao atravessar todas essas línguas com a perspectiva particular do Bob, que é um americano, de alguma forma é o afirmar da universalidade do poeta Pessoa”, salienta a atriz portuguesa.
A peça de Bob Wilson é uma produção do Teatro della Pergola, de Florença, e do Théâtre de la Ville, de Paris, coproduzido por vários outros teatros europeus.
Depois de Paris, a peça irá estrear no São Luiz Teatro Municipal de Lisboa, em março de 2025. O contratenor brasileiro Rodrigo Ferreira, escolhido entre os mais de mil e setecentos candidatos para atuar na produção, torce para o espetáculo ir também para o Brasil.
“Nós queremos ir ao Brasil. Teatros brasileiros, levem o espetáculo! O Pessoa merece. A língua portuguesa está sendo honrada. É bom ter um espetáculo onde se fala português e outras línguas latinas: italiano, francês. Isso é bastante Fernando Pessoa e isso é o que eu mais gosto no espetáculo, esse fato que a gente passa de uma língua a outra, ao mesmo tempo e que é bastante fluido”, elogia.
A peça "Pessoa, since I've been me" fica em cartaz no Théatre de la Ville de Paris até 16 de novembro de 2024.
“Figuras do Louco, da Idade Média aos Românticos” é uma nova exposição do Museu do Louvre, em Paris, a respeito desse personagem que povoa o imaginário visual do século 13 ao século 16. O louco é uma figura que invade literalmente todo espaço artístico e se impõe como personagem fascinante, perturbada e subversiva, em uma época de grandes rupturas.
“Esta exposição nasceu de uma interrogação. Por que houve uma tal proliferação de loucos nos tempos góticos e na Renascença? Qual o significado dessa figura às vezes sorridente, ou dançante, às vezes os dois ao mesmo tempo?”, questiona Elisabeth Antoine-König, co-curadora da exposição.
“Os loucos são representados nos objetos mais variados, desde os mais modestos aos mais preciosos. Como nosso ponto de partida foram as representações, o nosso objetivo não foi escrever a história da loucura na era pré-clássica. Isso os historiadores já fizeram”, explica a conservadora geral do departamento de objetos de arte do Louvre.
“Além disso, os homens da Idade Média não estavam abordando a loucura sob o aspecto patológico ou médico. Ao tratar a figura multiforme do louco, o objetivo desta exposição foi também revelar uma Idade Média inesperada, ou melhor, mal conhecida, uma Idade Média que faz rir, refletir sobre nós mesmos e sobre nossas relações com outros”, diz Antoine-König, no vídeo de apresentação da mostra.
A exposição traz cerca de 350 obras emprestadas por instituições da França, Europa e Estados Unidos, com peças raras e excepcionais. Entre as preciosidades expostas, está a “Nau dos Loucos”, do holandês Jerônimo Bosch, conhecido por pinturas que misturam fantasia e grotesco.
O ser louco, endemoniado, meio homem, meio bicho, começa a aparecer nas bordas de livros sagrados, ricamente copiados e ilustrados à mão na Idade Média. Dali passa a figurar em livros impressos, gravuras, tapeçarias, pinturas, esculturas, objetos preciosos ou do cotidiano. Ele ganha outras vidas e formas com o passar do tempo, geralmente calcadas no grotesco e no ridículo.
A mostra aborda também a loucura do amor dos romances de cavalaria, com personagens célebres como Lancelote, um dos cavaleiros da Távola Redonda, e Tristão – de Isolda.
"Vim pelo tema. Acho interessante, pois é um tema que nunca foi tratado e, além disso, a loucura é algo muito relativo. A exposição mostra muito bem a loucura, o amor louco, a loucura religiosa. Ela mostra também o bobo da corte, que com suas loucuras vai salientar a sabedoria do rei. São oposições muito interessantes”, diz François, um visitante.
“E há também os códigos de cores, como os bobos da corte se vestiam com cores vibrantes, com guizos. A exposição cita Michel Pastoureau, que é um especialista das cores e que tratou do assunto de maneira excepcional. Depois, na última parte, temos o Dr. Philippe Pinel, que foi o primeiro a abordar a doença psiquiátrica de maneira inovadora, com a ideia de que muitos considerados loucos não precisavam ser internados, mas apenas ter uma adaptação ou viver um ambiente favorável”, acrescenta.
Já Catherine, visitante assídua do Louvre, aponta para a obra que mais a impressionou, a penúltima do extenso percurso: “Stanczyk durante um baile após a queda de Smolensk”, de Jan Matejko, 1862.
“É um bobo da corte polonês do século 16, que agoniza sobre o futuro de seu país enquanto os líderes fazem a festa nos fundos. Acho que é simbólico, pois ao longo da exposição a gente se questiona as razões e motivações e se este personagem não seria o fio condutor de todos os outros que estão à margem. São tantas fases e etapas diferentes – e talvez o resumo seja essa última figura”, conclui.
Abrangendo mais de 40 anos de excepcional efervescência criativa, entre 1924 e 1969, a exposição “Surrealismo” no Centro Pompidou de Paris comemora o centenário do movimento que começou com a publicação do Manifesto Surrealista de André Breton. Cerca de 500 pinturas, esculturas, desenhos, textos, filmes e documentos de artistas como Salvador Dali, Miró, René Magritte, Max Ernst e Dora Maar, incluindo muitos empréstimos excepcionais, estão expostos em uma área de 2.200 m².
As obras revelam até que ponto esse movimento artístico, que nasceu em 1924 em torno de poetas como André Breton e se espalhou pelo mundo, foi visionário e permanece contemporâneo em seu desejo de não apenas transformar a relação entre os seres humanos e a natureza, mas lançando um olhar crítico e político sobre seu próprio tempo.
Reproduzindo a forma de um labirinto, formato de predileção e projeção dos surrealistas, a mostra gira em torno de uma cena central na qual é apresentado o manuscrito original do "Manifesto Surrealista", documento valioso emprestado excepcionalmente para o ocasião da Biblioteca Nacional da França.
Cronológico e temático, o percurso segue figuras literárias que inspiraram diretamente o Movimento Surrealista, como Lautréamont, Lewis Carroll e o Marquês de Sade, e também mitologias e temas que alimentaram o movimento, como a pedra filosofal, a floresta, a noite, o erotismo, o inconsciente. A cenografia brinca com a ilusão de ótica, tão cara aos surrealistas.
O desafio surrealista a um modelo de civilização baseado apenas na racionalidade técnica e o interesse do movimento por culturas que conseguiram preservar o princípio de um mundo unificado (a cultura dos índios Turahumara, descoberta por Antonin Artaud, e a dos Hopis, estudada por André Breton) atestam sua modernidade.
Segundo Marie Sarré, co-curadora com Didier Ottinger, vice-diretor do Museu Nacional de Arte Moderna da França, “mais do que um dogma estético ou um formalismo, o surrealismo é uma filosofia que, por mais de 40 anos, reuniu homens e mulheres que acreditavam em uma relação diferente com o mundo”.
O pôster da exposição apresenta uma criatura estranha, um monstro antropomórfico, com roupas largas e coloridas, faixas de tecido torcidas em todas as direções, terminando em mãos que lembram as garras de uma ave de rapina. No centro, na altura do busto, um abismo de sombras se abre. Logo acima, uma cabeça assustadora com uma mandíbula longa e desdentada. E um título que soa como uma ironia, “O Anjo do Lar”, uma obra de Max Ernst, pintada no auge da Guerra Civil Espanhola em 1937, ano em que Guernica foi bombardeada. Ela também é conhecida como “O triunfo do surrealismo” e é um lembrete de que o surrealismo sempre triunfa.
Marie Serré dá mais detalhes sobre a exposição: "É essencial lembrar da preferência dos surrealistas pelas artes populares. Muito cedo eles questionaram completamente essa hierarquia entre as Belas Artes e as artes chamadas populares. Seu modelo não são as exposições de museu, são as festas regionais, o trem fantasma, o parque de diversões. Era necessário sublinhar isso fazendo os visitantes da mostra no Centro Pompidou adentrarem o espaço da exposição através desta enorme boca que reproduz o Cabaré do Inferno, que ficava na Praça Clichy, em Paris, logo atrás do ateliê de André Breton, que os surrealistas tinham o hábito de frequentar", explica.
A exposição não escapa, no entanto, ao olho crítico dos franceses, como ressalta Françoise, uma aposentada que veio direito de Grenoble (leste) para ver a mostra no Pompidou. "A exposição foi feita de maneira muito interessante, por temas, mas ela é muito grande. Fica difícil apreciar tudo, ela acaba saturando o olhar da gente em um determinado momento". Ela manda um recado para os visitantes que ainda não conferiram a exposição em Paris."É melhor escolher um horário com menos gente, porque é realmente difícil ter acesso às obras", avisa.
Já o brasileiro Bruno Damasco gostou da experiência. "Passamos por essa exposição com artistas mais das décadas de 1930, 40 e 50, como Salvador Dali, Miró, trabalhos fortes e que são boas referências, tanto de artistas famosos como de alguns que eu não conhecia, da Alemanha e da Suécia, bem bonito, gostei. Não conhecia ainda esse espaço, tinha visitado apenas os museus mais clássicos de Paris", contou.
A mostra valoriza as muitas mulheres que participaram do Movimento Surrealista, com obras de Leonora Carrington, Remedios Varo, Ithell Colquhoun, Dora Maar, Dorothea Tanning e outras, e reflete ao mesmo tempo a expansão mundial do Surrealismo, apresentando artistas internacionais como Tatsuo Ikeda (Japão), Helen Lundeberg (Estados Unidos), Wilhelm Freddie (Dinamarca) e Rufino Tamayo (México), entre outros.
A exposição "Surrealimo" fica em cartaz do Centro Pompidou de Paris até o dia 13 de janeiro de 2025.
Até domingo (6), o Brasil é destaque nas telas do cinema em Paris e arredores. O festival Brésil en Mouvements (Brasil em Movimentos), um dos mais importantes de documentários sobre o país na Europa, ocupa duas salas de projeção, com muitas temáticas diferentes. A RFI conversou com participantes sobre o cinema negro e indígena, mas as produções abordam, também, a violência policial, o desmatamento da Amazônia, a luta pela terra, 60 anos da ditadura, direito ao aborto, entre outros assuntos.
Maria Paula Carvalho, da RFI em Paris
O evento que começou no sábado (28) apresenta curtas, longas-metragens e debates sobre as questões sociais, políticas, culturais e as lutas da sociedade brasileira contemporânea. Muitos deles são inéditos, dirigidos por cineastas renomados ou novos talentos, como Davidson Candanda, de “Crônicas de uma jovem família preta” (2023).
O filme mostra o cotidiano de Hellena, uma dançarina, Lucas, um barman, e o filho deles, Dom. Mesmo com poucos recursos, os pais decidem organizar uma festa de aniversário para o menino.
“Para uma família simples como a deles, que está começando uma vida juntos, existe um custo para se fazer esta festa. E por mais simples que seja, pode não ser acessível a todos e isso, de alguma forma, joga luz e a gente pode fazer uma reflexão a partir disso da imensa desigualdade presente na sociedade brasileira”, explica.
O documentário é o quarto filme do cineasta carioca, que veio a Paris com apoio do Ministério da Cultura (MinC), através de um intercâmbio para a circulação e participação audiovisual no exterior. “Eu sou um cineasta do cinema negro brasileiro. O cinema negro brasileiro é uma cinematografia composta por filmes de cineastas pretos e protagonizado por pessoas pretas”, define. “É um tipo de cinema que tem um compromisso com o antirracismo por meio da produção de histórias que fogem dos estereótipos”, continua. “O filme é um documentário, eu classifico como um documentário, mas em muitas cenas, a família está reencenando eventos que aconteceram”, diz.
Premiado no Festival Visões Periféricas 2024, ocorrido em março, no Rio de Janeiro, “Crônicas de uma jovem família preta” foi exibido na França, juntamente com outros títulos, na mostra Vozes do Cinema Afro-brasileiro. A sessão foi apresentada pela diretora e pesquisadora Leila Xavier.
Em entrevista à RFI, ela explica a importância dessa temática. “Historicamente, esse segmento sempre foi mostrado no cinema de forma bastante pejorativa, onde os negros desempenhavam papéis subalternos, ou caricatos, ou como bandidos, ladrões. Então, o filme do Davidson mostra o cotidiano de uma família como qualquer família pobre, mas sem este estereótipo. Mostra uma família que sonha, que corre atrás para ganhar a vida, mas que se ama, uma vida normal”, diz. “Mas também tem um trabalho muito grande que esses dois jovens tiveram com o filho no sentido de elevar a autoestima falando para o menino que ele é bonito”, conta. “Porque normalmente na nossa realidade, as crianças já começam a ser bombardeadas desde a escola. E de alguns anos para cá, felizmente, em função da força do movimento negro brasileiro, essa realidade tem mudado”.
Leila destaca a boa recepção do filme na França. Para ela, a questão do racismo é comum a muitos países. “A gente vê que essa questão do racismo ainda é muito latente em diversas partes do mundo. Então, por isso eu acho que essas duas realidades conversam muito, da França contemporânea com a do Brasil, em que o racismo sempre existiu. O Brasil já nasce com essa questão”, completa.
As sessões do Festival Brésil en Mouvements acontecem no cinema L’Écran, de Saint-Denis, na periferia norte da capital francesa e no cinema Les 7 Parnassiens, no bairro de Montparnasse, em Paris, onde foi realizada a cerimônia de abertura, na noite desta quinta-feira (3).
A sessão de abertura teve o longa-metragem “A Transformação de Canuto”, uma cooperação entre os cineastas Ariel Kuaray Ortega e Ernesto de Carvalho, que veio a Paris para um debate, na ocasião, em parceria com o Museu dos Povos Indígenas do Brasil.
O longa conta a história de um homem com uma doença espiritual conhecida para os Mbyá-Guarani, a da transformação em onça, uma condição perigosa que pode acometer algumas pessoas. Rodado na fronteira entre a Argentina e o Rio Grande do Sul, o filme acompanha Ariel na encenação da metamorfose de Canuto em onça, com participação da comunidade indígena Mbyá-Guarani.
Em entrevista à RFI, Ernesto de Carvalho falou sobre a recepção internacional do filme. "Considerando a circulação internacional do filme neste primeiro ano, a gente tem encontrado uma resposta muito positiva na França, com espaços muto ricos de debate e de muito acolhimento para o filme", diz. "Estar no Brasil em Movimentos é uma culminância, um momento de aprofundamento e de celebração do fato do que significa a gente fazer um filme brasileiro que tem circulado bem na França", comemora.
Outro destaque da programação é a sessão especial do longa-metragem “Viajo porque preciso, volto porque te amo” (2009), do cineasta pernambucano Marcelo Gomes. Ele também está em Paris para a exibição do filme, em que divide a direção com Karim Aïnouz. O longa-metragem conta a missão do geólogo José Renato no sertão brasileiro e o encontro com seus habitantes. Ao longo da viagem de um mês, as aventuras se misturam com lembranças de um grande amor.
Marcelo Gomes já assinou longas de sucesso de crítica e de público como: “Cinema, Aspirinas e Urubus”, de 2005; “O Homem das multidões”, de 2013; ou “Joaquim”, de 2017. O diretor já esteve em Paris, onde apresentou uma masterclass na Universidade Sorbonne sobre sua carreira e obra.
A programação completa você encontra no site do Festival Brésil en Mouvements.
Em 2024, o público da prestigiosa Bienal de Artes de Veneza se deparou pela primeira vez em sua fachada principal com obras representativas de diversas etnias indígenas brasileiras. O feito é obra da força de um dos coletivos mais expressivos da arte indígena brasileira, o Mahku, sigla que resume o Movimento Artístico Huni Kuin. A exposição "Encontro de Almas" desembarca agora no Espaço Frans Karjcberg, em Paris.
O coletivo Mahku de artistas indígenas da etnia Huni Kuin "começou como uma pesquisa de seu fundador, o Ibã [Salles Huni Kuin], com os mais velhos [da tribo], com os cantos sagrados da ayahuasca", conta a artista, pesquisadora e curadora indígena Kassia Borges Mytara.
"Ele fez uma pesquisa, um livro, mas ficou pensando como as pessoas não indígenas e os indígenas iriam entender o que era dito. E ele resolve isso chamando seu filho e solicitando que ele pintasse o que estivesse sendo dito ou cantado... Assim surgiu o Mahku [Movimento Artístico Huni Kuin]. São artistas da etnia que são aldeados, ou seja, moram no alto Rio Jordão, no Acre", localiza Mytara.
"A partir dos pontos dessa pesquisa que o Ibã fez, a gente traduz um som para imagem, e assim surgiram as pinturas do Mahku", contextualiza.
Curadora da exposição cujas obras e artistas ilustraram a fachada principal da Bienal de Veneza em 2024, Kássia Borges Mytara também faz parte do coletivo, que traz instalações, pinturas, cerâmicas e cantos a Paris.
Representando as etnias do Brasil"A minha cerâmica é uma mistura de várias etnias, mas principalmente da karajás, que é a que eu faço parte junto com o Huni Kuin. Eu trago essa junção entre as etnias e é por isso que [a mostra] se chama "Encontro de Almas", diz.
"Estamos representando as etnias do Brasil. Somos 300 etnias e 300 línguas indígenas. Então eu acho que esse encontro quer falar sobre a união faz a força" sublinha a artista e pesquisadora.
Estar na Bienal de Veneza é poder estar junto com quem nos colonizou, sem deixar de sermos quem somos
Natural de Goiânia, Mytara levou "para dentro da universidade o olhar indígena" ainda na década de 1980, um olhar que "não existia antes. "Minha dissertação de mestrado se chamava 'Origem: um princípio a fundar'. Encontrei no [filósofo alemão] Walter Benjamin essa questão da origem como um turbilhão, uma mistura. Eu acho que trago para a cultura indígena esse olhar da academia, mas levo também o olhar indígena para dentro dessa mesma academia", aponta.
Mytara contou como foi participar da Bienal de Veneza pela primeira vez: "posso dizer que foi o topo de um desejo. Acho que estar na Bienal de Veneza é poder conversar... Eu acho que a gente está conversando com o público, num lugar em que fomos negados por muitos anos. E aí quando a gente aparece na frente da bienal, no prédio da bienal, no prédio central, estamos nos apresentando, falando sobre isso, e dizendo 'bom dia, seja bem-vindo a esse mundo'. Estar na bienal é poder estar junto com quem nos colonizou, sem deixar de sermos quem somos", sublinha.
"Então essa bienal é muito importante para a arte indígena, para os brasileiros. Foi um ganho e foi, a meu ver, uma coragem muito forte, muito grande do Adriano Pedrosa, que foi o curador dessa bienal", considera a artista. "Foi um gesto de coragem de trazer para o mundo quem somos. Não só a gente, mas todos que estamos representando, todo esse universo", diz Kássia Borges Mytara.
"Ampliar o universo"A artista e curadora explica como essa abordagem veio mudar o panorama da arte contemporãnea nos quatro cantos do planeta. "Eu acho que a arte indígena vem para ampliar o universo, porque não existe somente um ponto de vista. Não existe uma só verdade. Existem várias verdades e a gente precisava mostrar isso para esse universo que é bem europeu", defende.
"E [era importante] mostrar uma outra estética, no sentido mais literal da palavra estética, que vem da estesia de sentir, de não ficar adormecido. Na verdade, a palavra estética, é sobre isso. É não deixar adormecer os sentidos, despertar os sentidos", indica.
"A arte indígena contemporânea vem para preencher esses outros vazios, que às vezes nem sabem que são vazios. Ela vem mostrar outras possibilidades, outra estética que não é só essa que (a gente) está acostumado, porque é muito fácil você sempre ver as coisas sempre iguais. Aí quando você vê algo diferente, isso te toca. A estética é isso, e aí você percebe que existe outras possibilidades no mundo, outras possibilidades de ver o mundo, outras possibilidades de luta, né? Porque sim, é uma luta", sublinha Mytara.
E as temáticas que permeiam a exposição "Encontro de Almas" não poderiam ser mais atuais, como conta a curadora da mostra. "Estamos falando sobre o antirracismo, de todas essas coisas que estavam meio adormecidas, o feminicídio. A gente toca nisso. A arte indígena toca nisso. A arte indígena toca no sentido de mostrar para o mundo que existem outras possibilidades, outras estéticas, outras maneiras de ver e de sentir o mundo", acredita.
Mytara ressalta os desafios ambientais que sublinham a necessidade de cura presente nas obras do coletivo indígena. "A cura para nós é muito importante, porque estamos num momento de muita necessidade disso para o mundo, para o meio ambiente. Aqui no Brasil a gente está sentindo uma massa de fumaça já tem um mês, que não dá para respirar direito, e isso tem a ver com o agrobusiness, com o agronegócio", avalia.
"Eu acho que quando a gente traz esses cantos de cura é como se a gente tivesse falando que temos que fazer alguma coisa, nem que seja gritar por essa cura. Porque quando você olha uma pintura do Mahku ou uma cerâmica, você vai ver esse grito de socorro. Mas ao mesmo tempo a gente tem uma esperança, porque [as obras] são cheias de luz. A hora que você vê as pinturas, você percebe a luz. É muita luz que a gente traz, é o que a gente está precisando mesmo", afirma.
O "susto" do colonizadorKássia Borges Mytara fala sobre a reação do público europeu aos trabalhos em múltiplos suportes do coletivo Mahku. "Às vezes eu percebo que há um susto, eu percebo esse susto e percebo algo assim: 'poxa, o que eu pensava que era arte, não é'. Existe essa ampliação [do olhar estrangeiro]. Eu percebo isso", comenta a artista.
"Bom, eu acho que eles tentam fazer esses questionamentos lá dentro. Eu vi muita gente que gostou demais e ficou feliz de ver o painel [na fachada] da Bienal de Veneza, mas outros já se assustaram e quiseram rotular a arte indígena como primitiva, naïf. Essas pessoas olham o painel com olho de colonizador. Ele se assusta, mas existe a possibilidade também de chegar lá 'nu' e começar a pensar de outro jeito", pondera Mytara.
A exposição "Encontro de Almas" fica em cartaz no Espaço Frans Krajcberg, em Paris, até o dia 20 de dezembro.
Descobrir o signo e a sombra por trás da cor, do traço, reencontrar o tempo em todas as suas equações imponderáveis, dialogar com uma obra abstrata que, como disse Nélida Piñon, “lida com o firmamento e as trevas”. Esse é o desafio da exposição que mistura trabalhos de duas séries distintas do prolífico artista brasileiro Gonçalo Ivo, radicado na capital francesa há 25 anos: as “Cosmogonias” e o “Inventário das Pedras Solitárias”, na galeria Ricardo Fernandes, em Paris, até 4 de novembro.
Exímio colorista, Gonçalo reinventa espaços polissêmicos e traz densidade às suas cosmovisões, revelando crateras e porosidades, cheias de melancolia, mas que iluminam, em contraponto sinestésico, uma esperança insuspeitada.
Ricardo Fernandes, o galerista que representa o artista em Paris, contextualiza sua obra. "O Gonçalo é um artista nascido em 1958, mas com uma influência muito forte das variantes históricas e artísticas do Brasil, entre elas o modernismo, a questão de ter passado também pela ditadura militar, e todas essas contemplações da arte paralela à vida política e à vida social do país e que fazem com que o trabalho dele seja realmente marcante, histórico", disse Fernandes.
"É um trabalho que ultrapassa as obras, que ultrapassa a força da abstração, nos fazendo perceber os signos que estão por trás de cada forma, de cada cor, em todas as composições do artista. Suas obras nos fazem navegar de forma bem orgânica através das tonalidades que penetram diferentes suportes. São obras que eu considero históricas, em uma exposição individual que foi trabalhada durante dois anos para estar na galeria", afirmou.
O Paul Klee tem uma frase linda, que é uma frase do diário dele: 'a cor me domina, sou pintor'
Dono de uma policromia sofisticada, espalhada em superfícies, suportes e texturas variadas ao longo de suas mais de quatro décadas de carreira, Gonçalo Ivo fala sobre sua relação com a cor, uma de suas marcas registradas. "A questão da cor, para mim, veio com com idade... A cor para o pintor é como um vocabulário para o poeta, né? Como o abecedário para o poeta...", argumenta Ivo. "O Paul Klee tem uma frase linda, que é uma frase do diário dele: 'a cor me domina, sou pintor'", relembra o artista.
O pintor conta que começou a imaginar a continuação da série "Cosmogonias", cujos primórdios remontam aos anos 1980, num quarto de hotel em Nova York, em 2017, pouco antes da pandemia, segundo ele um prenúncio, uma intuição de algo que seria dramático para a humanidade. "Mas eu também acho que [essa série] antecipa uma coisa de beleza, de beleza de céu de começo do mundo, ela tem essa coisa. E, na verdade, as pinturas têm muito a ver com as iluminuras e mandalas tântricas. Tem essa estrutura que é uma estrutura da própria iluminura tântrica de algo no centro. Uma moldura, uma coisa que se refere ao que está dentro, a partir do que está fora... Eu acho que são pinturas de culto mesmo", avalia.
O inventário das pedras solitáriasO artista, filho do poeta, tradutor e colecionador Lêdo Ivo, foi aluno de nomes como Iberê Camargo e frequentava artistas como Lygia Clark e Nelson Rodrigues. Antes mesmo de se formar arquiteto pela Universidade Federal Fluminense (UFF), foi nesse ambiente pródigo em inspirações que ele deu asas a seu universo criativo. "Com relação à questão de signos ou símbolos, eu acho que o meu trabalho é muito carregado de poesia mesmo. E de uma poesia que se materializa em cor, forma e conteúdo. Eu sempre tive um mundo assim, muito de fantasia, de alegoria, nunca fui muito racional. Eu acho que, um pouco como todo mundo, o mundo prático nunca me interessou", afirma.
Gonçalo Ivo relata como nasceu o projeto das “pedras solitárias”, que traz também uma inspiração dos haikais do poeta medieval japonês Matsu Bashô. "Em Nova York realmente eu comecei a estruturar as pedras como se elas fossem uma escrita, vários pequenos seichos, um ao lado do outro. Quando eu fui convidado pela fundação Joseph & Anni Albers em Betanny, Connecticut, aí sim, fui para uma zona rural dos Estados Unidos, sem ninguém, durante a pandemia, e aí as pedras afloraram quase que como personagens", conta. "E eu as colecionava, colocava em frente ao pátio da minha casa, na floresta, e eu as pintava, as reproduzia, dentro do meu estúdio, do meu atelier".
"Eu gosto muito de um romance do Harry Bradbrury, que é um escritor norte-americano já falecido, que se chama 'O homem ilustrado'; é a história de um homem todo tatuado e cada noite uma tatuagem se revela e vira realidade. Então as pedras têm essa capacidade de mimesis, e, ao mesmo tempo, de continuar sendo o que são", diz.
A exposição “Inventário das Pedras Solitárias”, com as obras de Gonçalo Ivo, fica em cartaz na galeria Ricardo Fernandes, em Paris, até o dia 4 de novembro.
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Reportagens sobre exposições, concertos e espetáculos na França. Destaque para os artistas brasileiros e suas criações apresentadas na Europa. Na literatura, lançamentos e as principais feiras de…

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