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A Filarmônica de Paris acolhe até 17 de agosto a exposição "Disco - I'm Coming Out", dedicada ao estilo musical nascido no início dos anos 1970 nos Estados Unidos. O evento destaca o papel da música disco nas lutas políticas e sociais, tornando-se uma forma de expressão das comunidades LGBTQIA+, afro-americana e mulheres.
Daniella Franco, da RFI em Paris
A exposição traz quatro seções principais, que se concentram no surgimento da música disco, no contexto político e social da época, na popularização das discotecas e na expansão do estilo pelo mundo. Os espaços, decorados com muito brilho e neon, retratam a estética disco em diferentes fases e homenageiam ícones como Diana Ross, Donna Summer, Chaka Khan, Gloria Gaynor, e também artistas franceses, como Cerrone e Sylvester.
Em um imenso conjunto de arquivos exibidos na mostra, destacam-se vídeos e fotos, instrumentos musicais e materiais usados por DJs e gravadoras, figurinos imortalizados por cantoras e cantores, e obras de arte assinadas por artistas icônicos como Andy Warhol e Keith Haring. Durante todo o percurso, os visitantes são embalados por uma animada trilha sonora mixada pelo célebre produtor e DJ Dimitri from Paris.
Um dos curadores da exposição, Jean-Yves Leloup, afirma que mais do que inspirar o espírito festivo nos visitantes, a mostra tem o objetivo de resgatar a história, abordando o fenômeno planetário da música disco. "O início dos anos 1970 é marcado por avanços sociais e políticos de algumas minorias, principalmente a LGBT, após o célebre movimento de Stonewall em 1969. Depois disso, há uma verdadeira liberação, com o recuo das perseguições policiais e administrativas que sofriam os espaços dedicados a essas minorias", diz.
A partir dessas mudanças, nasce uma nova economia festiva e hedonista, impulsionada pela cultura LGBT, lembra. "A música disco vai rapidamente se tornar muito popular e cair no gosto do grande público, principalmente a partir de 1977, com o filme 'Embalos de sábado à noite', que vai tornar esse estilo musical em algo muito popular e para o grande público", lembra.
As mulheres nas pistas de dançaCaindo no gosto do grande público, a música disco também vai se tornar um canal de expressão das mulheres, principalmente das afro-americanas que celebram a libertação do domínio masculino por meio de canções que se tornarão clássicos deste estilo musical. É o caso de "I will survive', de Gloria Gaynor, um hino feminista, que fala da superação de uma mulher após uma separação.
"Há muitas músicas que falam da sexualidade das mulheres, do direito ao prazer e ao orgasmo, e muitas canções fazem eco às lutas feministas da época e às lutas das mulheres negras por direitos civis", observa Leloup.
O estilo musical também permite que a cultura afro-americana se popularize pelo mundo, um fenômeno que o jazz já havia iniciado e que o rap realiza até hoje. "Não costumamos associar a música disco à black music, mas ela está profundamente ligada ao soul, ao gospel e ao funk", destaca o curador da exposição.
Uma mostra para todas as idadesO parisiense Hervé visitou a exposição com o companheiro Vincent. Para o casal, a mostra traz à tona lembranças de outros tempos. "É bem representativo desta época, os anos 1970, e nos faz pensar na nossa juventude, quando frequentávamos discotecas. A trilha sonora também é muito boa, dá vontade de dançar desde que a gente entra", diz.
As gerações mais jovens também se divertem e aprendem com a exposição, acredita a jovem Emeline. "É interessante visualmente e também instrutivo. Aprendemos muitas coisas sobre os espaços da música disco, sobre as gerações com as quais não convivemos, mas que idealizamos", observa. "Há lindas decorações, com lindas músicas, que descobrimos ou redescobrimos, além de coisas do mundo atual que se inspira nessa geração", conclui.
A exposição "Disco - I'm Coming Out" fica em cartaz até o dia 17 de agosto na Filarmônica de Paris.
A 22ª edição do festival de cinema Regards d'Ailleurs (Olhares de Fora) é realizada em Dreux, no norte da França, até o dia 2 de abril. Neste ano, o evento homenageia o Brasil, trazendo ao evento pesos-pesados entre seus convidados, como Walter Salles, Kleber Mendonça Filho, Eryk Rocha, Antonio e Camila Pitanga, Maria de Medeiros, entre outros.
Daniella Franco, da RFI
Na agenda, uma extensa programação, com duração de quase um mês, com a exibição de clássicos do cinema brasileiro, como "Orfeu Negro", de Marcel Camus, e "Deus e o Diabo na Terra do Sol", de Glauber Rocha, grandes sucessos como "Cidade de Deus", de Fernando Meirelles e Kátia Lund, "Aquarius" e "Bacurau", de Kleber Mendonça Filho, "Madame Satã", de Karim Aïnouz, e o premiadíssimo "Ainda Estou Aqui", de Walter Salles. A nova geração do cinema brasileiro também está representada, como "Manas", de Mariana Brennand, "Senhoritas", de Mykaela Plotkin, “Estou me guardando para quando o carnaval chegar”, de Marcelo Gomes, entre tantos outros títulos.
O festival ainda promove encontros com vários cineastas brasileiros, masterclasses de Walter Salles e Camila Pitanga, além de uma homenagem a Glauber Rocha, um cine-concerto e uma programação especial para o público infantil.
A escolha do Brasil para ser o país tema do festival era algo previsto de longa data pelos organizadores, segundo o diretor do Regards d'Ailleurs, Thierry Méranger. "Faz muitos anos que eu sigo vários cineastas brasileiros e tinha muita vontade de homenagear esse belo território de cinema que é o Brasil. E, para ser sincero, eu não quis selecionar o Brasil para o festival durante o governo Bolsonaro. Então esperei, de uma maneira consciente, que o panorama político brasileiro se tornasse mais favorável", explica.
A escolha foi acertada: Méranger afirma que o interesse pelo cinema e os diretores brasileiros em Dreux é grande. "Creio que nossos convidados brasileiros são acolhidos com muita curiosidade, no bom sentido do termo, porque o público do Regards d'Ailleurs é um público que tem vontade de aprender”, diz.
“Por enquanto, o público tenta reconstituir esse magnífico quebra-cabeças de elementos que constituem a cultura brasileira. Os espectadores de Dreux estão se dando conta da incrível diversidade que abrange a expressão 'cinemas brasileiros'. Afinal, são os 'cinemas brasileiros' que estamos descobrindo", reitera Méranger.
"A Queda do Céu"Entre os convidados do festival está o cineasta brasiliense Eryk Rocha, que apresenta três de seus filmes no Regard D'Ailleurs. Entre eles está o premiado documentário "A Queda do Céu", obra que dirigiu junto com Gabriela Carneiro da Cunha, e que estreou em fevereiro no circuito comercial da França, com muitos elogios da crítica.
Em entrevista à RFI, Rocha explica que no exterior, o público, ainda que alheio às questões e temáticas brasileiras, não tem dificuldades para assimilar essa poderosa obra. “Acho que ‘A Queda do Céu’ é um filme que tem múltiplas dimensões e camadas. Cada espectador vai perceber seus pontos de riqueza: as dimensões políticas, histórica, estética, mística, filosófica. É um filme tanto quanto os Yanomamis quanto sobre nós”, avalia.
Após estrear no Festival de Cinema de Cannes, no ano passado, “A Queda do Céu”, baseado no livro homônimo do líder Yanomami Davi Kopenawa, passou por mais de 20 países e 70 festivais, recebendo 15 prêmios internacionais. Segundo o cineasta, essa é uma prova de que “o filme chega no coração das pessoas”.
“Em Dreux, por exemplo, o festival é frequentado pelos moradores da cidade, trabalhadores, funcionários, aposentados. Perceber como o filme chegou nas pessoas me emocionou muito”, conta. “As pessoas captaram o espírito do filme. Foi uma experiência muito forte. Raras vezes eu vivi em um festival um debate de mais de duas horas, o que é algo muito importante”, reitera.
Visibilidade ao cinema brasileiroO crítico de cinema Diogo Serafim, brasileiro radicado na França, também participa do Regards d'Ailleurs como convidado. Em entrevista à RFI, ele comentou sobre a vitrine que festivais fora do país representam para o cinema brasileiro.
“Acho que é sempre válido para o cinema brasileiro ter essa certa visibilidade, esse contato com o mundo exterior, principalmente em um contexto no qual a gente vive uma dinâmica de globalização no qual é muito difícil ter esse diálogo invertido”, diz.
Serafim também destaca que o Regards D’Ailleurs se diferencia de outros na França por propor uma concepção menos formatada pela indústria e pela hegemonia europeia e norte-americana. “O que é legal desse festival é que nós temos a possibilidade de ter um recorte bem amplo de obras e ter essa oportunidade de dialogar em torno das obras”, afirma.
Segundo ele, esse diálogo é benéfico tanto para o público quanto para a divulgação do cinema do Brasil fora do país. “É muito rico para a população local e francesa ter essa noção e esse recorte mais bruto da realidade do audiovisual brasileiro”, conclui.
"Antes eu acreditava em uma só espécie: a minha. Mas me decepcionei ao descobrir que somos atrozes, violentos, horríveis, que estamos nos destruindo e a nosso planeta. Descobri também que faço parte de um universo enorme de espécies, e que se a minha desaparecer, não há problema". A frase é do fotógrafo brasileiro Sebastião Salgado, homenageado desde o dia 1° de março com uma grande retrospectiva com 166 de suas obras no centro cultural Les Franciscaines, em Deauville, na França.
"Descobri que sou parte de tudo isso", insistia Sebastião Salgado, 81 anos, na abertura da grande exposição Sebastião Salgado: Obras da Coleção da MEP, que homenageia não apenas suas séries icônicas de fotografias em preto e branco, mas também sua vida e seu olhar às vezes terno, às vezes dramático, e muitas vezes crítico sobre o mundo. O evento destaca um trabalho de mais de 40 anos percorrendo os quatro cantos do planeta, que resultou em trabalhos como "Exôdos" (1993-2000), sobre as grandes migrações humanas, "Gênesis" (2004-2011), sobre a natureza intocada do planeta, ou "A Mão do Homem" (1986-1992), sobre os trabalhadores, a precarização do trabalho artesanal e as grandes transformações do mundo industrial.
A retrospectiva, que faz parte do calendário de comemorações oficiais do ano do Brasil na França, conta com a parceria da Maison Européenne de la Photographie (MEP), entidade que apoiou o fotógrafo brasileiro desde o início de sua carreira, quando trocou a formação de economista em Londres pelas lentes que imortalizariam grandes momentos da humanidade, dos animais e da natureza.
"Não sou um ser que domina o que está em volta, eu sou parte de tudo isso, dos minerais, dos vegetais", diz, Salgado, quando perguntado sobre o que aprendeu ao realizar a série "Gênesis", que ele afirma ter "reacendido sua esperança na vida e no planeta".
"Todos os minerais têm uma inteligência inacreditável, assim como os vegetais. Uma vez fotografei uma árvore na Serra Nevada, nos Estados Unidos. Ela tinha sido parcialmente queimada, e cientistas que me acompanhavam me disseram que ela havia sido tocada pelo fogo de um determinado lado há mais de 1.500 anos. Incrível. Para ficar frente a um ser como esse é necessário muito respeito, e tempo para compreendê-lo, e para que ele possa compreender você também. Para que possamos fotografar a dignidade presente nesta árvore", argumentou um Sebastião Salgado emocionado, mas incansável durante a sequência de perguntas da imprensa internacional.
"Não estou 100%"Integrante da Academia de Belas Artes da França desde 2017 e premiado pela Organização Mundial de Fotografia, em Londres, o fotógrafo surpreendeu o público presente no centro cultural Les Franciscaines, em Deauville, na região da Normandia, no norte da França, com um tom emocionado, pedindo "antes de tudo desculpas" e dizendo que não estava "100%". "Fui internado na semana passada num hospital em São Paulo para continuar um tratamento e volto na semana que vem para lá. É uma doença bem forte que eu adquiri há cerca de 15 anos trabalhando no projeto 'Gênesis', na Nova Guiné. Eu peguei malária e os médicos em Paris, no [tradicional hospital] Salpêtrière, me disseram que eu deveria descansar durante seis meses, porque a doença ataca o corpo inteiro, mas eu tive que desligar porque já estava no platô do Colorado", contou Salgado em francês, fazendo a audiência rir.
"Eu não pude interromper a excursão fotográfica, mas quando voltei a Paris, minha defesa imunológica despencou e eu desenvolvi uma infecção generalizada, tomando doses cavalares de antibiótico. Minha máquina de produzir glóbulos brancos e vermelhos se danificou para sempre. É uma espécie de câncer que adquiri, sou tratado por oncologistas", revelou. "Tomo medicamentos há 15 anos e isso ajuda um pouco, fiz toda a série na Amazônia assim, mas há duas semanas meu corpo começou a rejeitar o remédio e eu tive uma hemorragia no baço. Me desculpem, eu não estou nem com 50% da minha energia", disse Salgado, em meio a aplausos da plateia.
O privilégio "enorme" de "estar vivo"Sebastião Salgado chegou a chorar ao lembrar de seus périplos pelo planeta, na abertura do evento, e ao celebrar colegas mortos durante sua trajetória. "O dia mais feliz da minha vida foi quando completei 80 anos... Simplesmente porque eu estava aqui. Eu não estava morto. Quantos amigos perdi, éramos todos amigos durante quatro anos em Goma [,na República Democrática do Congo], quatro fotógrafos foram assassinados, eu estava lá. Então para mim, estar vivo com 80 anos, é um privilégio enorme", confessou.
Durante a coletiva, Salgado falou durante 25 minutos sobre suas experiências nos quatro cantos do globo. "Eu tive o privilégio de ir a esses lugares. Algumas vezes as pessoas me dizem que sou um artista, eu digo que não, que sou um fotógrafo. Porque vamos sozinhos a todas essas regiões do mundo, face a todos os problemas que vocês possam imaginar, todos os desafios, e temos dúvidas, questões éticas, de legitimidade, de segurança, e somos nós, fotógrafos, que devemos encontrar respostas para essas perguntas", testemunhou.
O fotógrafo lembrou de quando perdeu parte da audição no Kuwait. "Foi quando houve a explosão em quase seiscentos poços de petróleo. Eu estava num barco, fotografando uma história para The New York Times. Eu me lembro que as tropas norte-americanas estavam lá, era a guerra contra Saddam Hussein. Foi um momento terrível e sublime da minha vida", destacou. "Terrível porque foi a maior poluição já vista, tinha dias que não víamos o sol. Era tão surpreendente, porque num determinado momento batia um vento, conseguíamos ver entre as nuvens e podíamos finalmente ver um raio de sol", contou. "Eram homens para mim heróicos aqueles que entravam no fogo do petróleo que tentavam tapar os poços. Havia um medo enorme de ser queimado vivo e o barulho que esses poços produziam era como trabalhar atrás da turbina de um avião", lembrou. "Quando fui embora do Kuwait, havia perdido mais da metade da minha audição", relatou Salgado.
A "mão do homem" e as belezas intocadas do planetaA retrospectiva dos trabalhos em preto e branco do fotógrafo brasileiro na França resgata desde suas primeiras reportagens sobre os danos causados pela seca e pela fome na África (1984-1985), até seu trabalho sobre a condição dos trabalhadores imigrantes na Europa, passando na série "Outras Américas" (1977-1984), onde ele revisita a América Latina, com uma visão humanista e universal.
Na sequência, a exposição mostra registros captados no final da década de 1980, quando Sebastião Salgado começa a trabalhar seus grandes murais fotográficos. "A Mão do Homem" (1986-1992) é uma homenagem ao trabalho manual e à condição humana. "Eu estudei geopolítica, antropologia, vi que nós estávamos chegando ao fim da primeira grande revolução industrial e que as máquinas inteligentes estavam substituindo o proletariado em toda linha de produção, que os robôs estavam substituindo o homem", declarou em entrevista à RFI em Deauville. "Eu resolvi fazer um retrato da classe trabalhadora antes que ela desaparecesse, e fiz. Minha formação [em economia com ênfase social] me permitiu ver o momento histórico que eu estava vivendo e fotografando", sublinhou.
"Mas eu pude ver que uma outra maior revolução estava acontecendo. Que o fato da gente estar terminando um tipo de indústria nessa parte sofisticada do planeta, não significava que ela estava acabando, mas se transferindo para a China, para o Brasil, a Indonésia, o México, esses grandes países em território e população. Trabalho barato, mão de obra barata", atestou Salgado.
Com "Êxodos" (1993-2000), Salgado documenta os grandes movimentos populacionais ao redor do mundo, relacionados aos conflitos e à pobreza resultante das transformações econômicas que abalam a nossa época. "Eu fui atrás dessa reorganização da família humana que estava acontecendo no mundo. Durante seis anos eu fotografei o que se transformou no livro "Êxodos". "Então essa minha herança visual, histórica, essa minha formação que permitiu me situar. Não que eu seja um militante, não que eu quis fazer coisas diferentes dos outros, mas o que eu fiz, eu fiz com uma certa coerência política", definiu Salgado à RFI.
Por fim, "Gênesis" (2004-2012), fruto de oito anos de expedições épicas pelos quatro cantos do globo, mostra a beleza de nosso planeta e permite descobrir paisagens, animais e seres humanos que até então haviam escapado à pressão do mundo contemporâneo. "Cerca de 47% do planeta Terra continua intacto", sublinhou o fotógrafo, feroz opositor ao acordo bilateral entre a União Europeia e o Mercosul. "A Europa quer nos vender produtos industrializados a baixo custo em troca de insumos agrícolas baratos, mas sabemos que as terras cultiváveis que restam no Brasil são indígenas, e deveriam ser preservadas", martelou.
O inferno do genocídio em Ruanda"Foi a coisa mais dura que eu vivi na minha vida", disse Sebastião Salgado sobre o genocídio em Ruanda, entre abril e julho de 1994, quando aproximadamente quase 1 milhão de pessoas, a maioria da etnia tutsi, foram brutalmente assassinadas por extremistas hutus. "Não era fácil chegar num campo de refugiados e ver morrer por dia cerca de 20 mil pessoas, com um grande trator que escavava buracos enormes no chão para depositar os cadáveres. Era tão insuportável que cheguei a ficar doente", relatou.
Consultado pelo médico indicado por Cartier-Bresson, amigo da família, Salgado conta que o especialista disse que seu corpo "estava perfeito" e que "ele estava morrendo em Ruanda". "Foi quando fomos como Lélia [Wanick Salgado, esposa e parceira do fotógrafo] e os meninos para Trancoso, na Bahia onde alugamos uma casa. Nesse momento, meus pais decidiram nos doar a fazenda onde nasci. Foi quando eu tomei a decisão de abandonar a fotografia. Eu tinha vergonha de ser fotógrafo, porque até então eu havia fotografado apenas uma espécie, a nossa. Então tomei a decisão com a Lélia de me tornar fazendeiro. Começamos a plantar, mas uma enorme chuva destruiu um morro que meu pai havia feito no terreno, matando um riacho onde eu nadava na infância. Lélia me disse então: 'vamos abandonar tudo, vamos pegar essa terra e replantar a floresta", lembra, rememorando as origens do Instituto Terra, que já restaurou cerca de 709 hectares de Mata Atlântica e plantou mais de 2,7 milhões de árvores nativas no Vale do Rio Doce, em Minas Gerais.
"Céus dramáticos de Minas Gerais""Se você colocar 300 fotógrafos em um evento, você vai ter 300 fotografias diferentes, porque você só fotografa com a sua herança, com tudo que está dentro de você. As minhas fotografias têm séries, céus dramáticos, carregados. Isso vem de onde eu nasci, vem da chegada da época de chuva naquelas montanhas de Minas Gerais que meu pai me levava para ver... no pico mais alto da nossa fazenda, pra se chegar àquelas nuvens incríveis, para ver o raio de sol passar através dessas nuvens, ver a chuva. Então aquelas imagens ficaram em mim", diz o fotógrafo.
"Memória da sociedade""Cada vez que você aperta no botãozinho da câmera e faz uma imagem, você faz um corte representativo do planeta naquele momento, e você só o faz naquele momento. Precisa ter a realidade em frente para essa imagem existir, para ela ser vista como fotografia, senão ela vai ser vista como um objeto criado como um artistismo, mas não como fotografia. Fotografia é a memória da sociedade" rebate o fotógrafo.
"Fotografia é a memória, e a memória tem que existir. E a memória só pode ser feita através da realidade. Uma ficção não pode criar memória, então eu acho que a fotografia jamais perderá sua função", insiste. "Eu não estou querendo tirar o lugar da inteligência artificial. Eu acho que ela vai fazer coisas fantásticas, talvez até melhor do que a gente. Com a nossa inteligência normal o que nós fizemos foi destruir o planeta, fizemos guerra, fizemos violência. Talvez uma inteligência artificial seja realmente inteligente para levar a gente em outra direção", diz.
"Eu não sou contra a inteligência artificial, mas fotografia mesmo, só é fotografia. Quando você pega a fotografia que você faz no telefone celular, isso não é fotografia. Isso é uma linguagem de comunicação por imagem, mas que não tem nada a ver com a memória", ressalta. "Eu acho que o inteligência artificial não vai mudar absolutamente nada na fotografia porque a inteligência artificial só pode criar a partir do que já existe. Pode imaginar, transformar, mas a fotografia é outra coisa", conclui Salgado.
A retrospectiva Sebastião Salgado: Obras da Coleção da MEP fica em cartaz no centro cultural Les Franciscaines, em Deauville, até o dia 1° de junho de 2025.
O cinema brasileiro mostrou a sua força nesta 75ª edição da Berlinale não apenas pela quantidade de obras apresentadas, tendo dobrado sua participação na programação oficial do festival alemão, mas pela qualidade de narrativas que compõem um verdadeiro panorama audiovisual de um Brasil diverso, inquieto e periférico, disposto a mostrar novas subjetividades para muito além dos clichês habituais.
Márcia Bechara, enviada especial da RFI a Berlim
Exemplo disso é o longa Ato Noturno, um suspense erótico brasileiro exibido na mostra Panorama, que concorre ao Teddy Awards, a maior recompensa destinada ao cinema LGBTQIA+ nessa vitrine internacional, como conta Marcio Reolon, que assina o longa ao lado de Filipe Matzembacher.
"A nossa intenção com Ato Noturno foi, primeiramente, abordar a performance, que é algo muito significativo para nós. Tanto para mim quanto para o Filipe, nos encantava muito a ideia de dois personagens que, para alcançar o sucesso nas suas profissões — tanto na atuação quanto na política — precisam encenar vidas públicas específicas, que contrastam com as expectativas em relação às suas vidas privadas", contextualiza Reolon. "Esses personagens escondem uma determinada vida pessoal e, ao mesmo tempo, comunicam uma vida pública de ilusão, por assim dizer", contemporiza o cineasta.
"Olhar queer latino-brasileiro""Já era nosso interesse há algum tempo explorar o gênero de suspense, que é algo que gostamos bastante. No início desse processo, pensamos muito no filme como algo etéreo, quase no ar, mas, à medida que fomos desenvolvendo a ideia, o projeto foi tomando forma como um thriller erótico — um gênero que nos fascina e que foi extremamente popular nos anos 1980 e 1990. Claro que, agora, buscamos atualizar esse gênero para os dias de hoje, com um olhar queer latino-brasileiro, trazendo a nossa perspectiva para o contexto contemporâneo", enfatiza.
Entrelaçamento entre o real e o imaginárioDa cena queer gaúcha para o melting pot do imaginário da Baixada Fluminense, com seus personagens e memórias, esse é o pano de fundo do filme Zizi, a Oração da Jaca Fabulosa, apresentado na seção Forum Expanded pelo diretor Felipe Bragança.
"Como o título sugere, o filme é uma fabulação em torno das memórias de um quintal na Baixada Fluminense, mais especificamente em Queimados, onde passei parte da minha infância. Esse quintal acumula camadas de história e cultura soterradas, mas também é um espaço de culturas plantadas, misturadas com conflitos que, aos poucos, vão formando um mapa afetivo da minha família e, em certa medida, desse subúrbio do Rio de Janeiro", contextualiza o diretor, que esteve também em outras edições da Berlinale.
"A proposta do filme era construir uma representação desse quintal. Não apenas um espaço físico, mas também um lugar que existe concretamente, mas ainda mais forte na imaginação e na memória", diz Bragança.
O filme se desenvolve nesse "entrelaçamento entre o real e o imaginário", onde o diretor mistura fotos e imagens de arquivo, além de vídeos gravados durante sua adolescência, "quando consegui minha primeira câmera de vídeo". "Registrei momentos como o Natal em família, o futebol na rua da frente, entre outras cenas do cotidiano que foram, de certa forma, encenadas, agora com a minha própria família", diz.
Cartas do Absurdo: a voz indígena e a violência da colonizaçãoEm direção ao norte do país, mais especificamente na Amazônia, o filme Cartas do Absurdo, é inteiramente falado no idioma tupi, e se inspira em quatro cartas escritas no século XVII para refletir sobre a violência do processo colonial brasileiro e o genocídio indígena, como explica seu diretor, Gabraz Sanna: "Cartas do Absurdo é um filme que surgiu a partir de uma primeira imagem que eu capturei do Rio Amazonas, em Belém, em 2010. A partir dessa imagem, esperei mais de dez anos pelo filme que acompanha essas cenas, que podem ser vistas como o núcleo do projeto", explica.
"Cerca de um ano atrás, tive acesso a quatro cartas que foram recentemente descobertas. Essas cartas, escritas por indígenas no século XVII, falam diretamente sobre a violência e o processo de colonização do Brasil. Através delas, é possível perceber como esse processo, que começou no passado, ainda persiste, de uma maneira ou de outra, até os dias de hoje", contextualiza o diretor, destaque também na seção Forum Expanded da Berlinale.
"Embora o Brasil não seja mais uma colônia oficialmente, de várias formas ainda carregamos as marcas dessa colonização. Às vezes, é como se fôssemos uma colônia dos próprios donos do Brasil, para usar uma expressão provocativa", diz Gabraz.
"O filme, apesar de dialogar com documentos de três ou quatro séculos atrás — sendo que a primeira carta datada é de 1613 —, mantém uma atualidade impressionante. A reflexão que ele propõe sobre a história do Brasil revela um ponto de vista frequentemente invisibilizado ao longo do tempo, um ponto de vista indígena que conta uma parte da história que, por muito tempo, foi marginalizada", conclui o diretor mineiro, que hoje mora e produz no Rio de Janeiro.
Mergulho do interior de São PauloEntre vários outros destaques dessa mosaico cinematográfico brasileiro presente na Berlinale em 2025, o curta Arame Farpado traz o espectador para dentro do interior paulista. "O filme começa abordando o conflito entre a zona rural e o meio urbano, explorando como esses dois mundos, com suas realidades e valores distintos, se entrelaçam", detalha o diretor Gustavo Carvalho, estreante na Berlinale.
"O enredo gira em torno de personagens que seguem caminhos de vida diferentes, mas são forçados a se encontrar em uma mesma situação. A história foca em uma mulher religiosa que sofre um acidente e é atendida por um enfermeiro gay no hospital", detalha. "Esse encontro gera uma série de conflitos que refletem questões reais e complexas como um espelho do mundo contemporâneo. O filme busca representar essas realidades distintas, onde pessoas de vivências diferentes são colocadas na mesma situação e precisam aprender a lidar com as diferenças", defende Carvalho.
"Apesar de ser, em sua essência, um drama, há momentos de leveza e até de comédia, o que tem gerado boas reações do público, que riu bastante durante a exibição. Durante a sessão de perguntas e respostas [Q&A], as perguntas foram extremamente interessantes, algumas até surpreendentes, que eu mesmo não esperava", conta Carvalho.
A Berlinale fica em cartaz até o dia 23 de fevereiro na capital alemã.
“Um ato de resistência contra todas as ideias perversas": o Festival Internacional de Cinema de Berlim, a Berlinale, abriu suas portas na quinta-feira (13), tendo como pano de fundo o aumento do extremismo de extrema direita na Europa e em todo o mundo, dez dias antes das eleições gerais alemãs. O cinema brasileiro dobra sua participação nesta 75ª edição da Berlinale, marcando presença em quase todas as seções do festival. O longa "Último Azul", de Gabriel Mascaro, disputa o Urso de Ouro.
A diretora da Berlinale, Tricia Tuttle, deu o tom na coletiva de imprensa do júri na quinta-feira (13): “um festival como este é uma rejeição (...) de todas as ideias difundidas por muitos partidos de extrema direita”.
A Berlinale é o primeiro grande evento da indústria cinematográfica internacional de 2025. “Estamos passando por uma crise particular nos Estados Unidos, mas também em todo o mundo”, disse o presidente do júri, o norte-americano Todd Haynes, diretor de ‘Dark Waters’, ‘I'm not there’ e ‘Carol’, ao lado de Tricia Tuttle. Após a “preocupação e o espanto” causados pelas três primeiras semanas do governo Trump, “como vamos fazer para reunir as diferentes formas de resistência (...) ainda está sendo considerado”, disse ele.
Na noite de abertura, o Urso de Ouro honorário foi concedido a Tilda Swinton, estrela do cinema de autor que trabalhou com nomes como Wes Anderson e Pedro Almodóvar, além de Brad Pitt, Tom Cruise e Keanu Reeves.
Os membros do júri começarão a trabalhar nesta sexta-feira (14), com a exibição dos primeiros filmes que concorrem ao Urso de Ouro, entre eles o "Último Azul", dirigido por Gabriel Mascaro, único brasileiro na competição principal do festival alemão em 2025.
Festa do cinema brasileiroDoze filmes brasileiros marcam presença na programação oficial desta edição da Berlinale, um marco da retomada do cinema nacional em vitrines e premiações de todo o planeta.
Esta edição do festival abriu suas portas com a exibição do filme "The Light", dirigido por Tom Tykwer, mesmo diretor do já clássico “Corra, Lola, Corra”. A cerimônia de abertura aconteceu no Palacio da Berlinale, na Potsdamer Platz, no centro de Berlim.
O festival alemão conta este ano com a presença de diversas personalidades do cinema, incluindo Timothée Chalamet e Robert Pattinson. Mas o cinema brasileiro também mostra sua força no festival alemão em 2025. Para Eduardo Valente, delegado da Berlinale para o Brasil, é uma demonstração da "saúde criativa" do audiovisual brasileiro, que esta presente em quase todas as categorias da Berlinale esse ano.
"Acho que a seleção brasileira desse ano é muito interessante, exatamente porque de uma forma de outra, ela atravessa transversalmente muitos formatos e tem perfis bem diferentes", diz. "Então, eu acho que, de uma maneira ou de outra, isso sinaliza uma maturidade, uma saúde criativa do cinema e do audiovisual brasileiro", sublinha Valente.
O diretor e programador reflete sobre a diversidade da participação brasileira no festival. "Você vai desde a competição oficial, que, claro, é a principal janela do festival, mas você passa pela Fórum Expanded, contando também com a participação de filmes antigos no caso de Iracema, e filmes atuais, que são a maioria, curtas, longas, inclusive uma série dentro da mostra Generation, que é só tem três filmes na programação", destaca.
Alguns diretores brasileiros já são velhos conhecidos do festival. "Existem diretores iniciantes na programação e muitos diretores já com relações com a Berlinale, uma coisa importante de se falar", considera. "A Caru [Alves de Souza] já esteve antes, a Rafaela Camelo também, a Anna Muylaert, o Gabriel Mascaro, em suma, muitos realizadores brasileiros estão voltando à Berlinale esse ano", diz.
Para Eduardo Valente, a seleção é um sinal claro da amplitude e da continuidade do cinema brasileiro. "Essa presença abrangente é algo que poucos países conseguem dentro da seleção geral do festival, estando representados em praticamente todas as seções, com longas, curtas e séries. Além disso, há uma delegação considerável no Berlinale Talents, que é um programa importante para novos profissionais do cinema, e um projeto brasileiro selecionado para o Co-Production Market. Também se destacam três séries no Berlinale Series Market, uma iniciativa do mercado do festival que também possui um processo seletivo rigoroso", ressalta Valente.
O Brasil também marcou presença no World Cinema Fund no final do ano passado e em praticamente todos os espaços da Berlinale existe alguma representação brasileira. "Voltamos a ter um número de participações similar ao que foi registrado entre 2017 e 2020, período em que até superamos essa quantidade", destaca.
A Berlinale fica em cartaz até o dia 23 de fevereiro na capital alemã.
Os vencedores do Festival Internacional do Curta-Metragem de Clermont-Ferrand serão conhecidos neste sábado (8). Nesta edição de 2025, os organizadores receberam cerca de 8 mil filmes de 51 países. Na sessão especial do Mercado do Filme dedicada à apresentação de cinco produções brasileiras, seguida de um debate com o público, o curta Quase Trap! arrancou risadas da plateia, Carlinha e André despertou questões sobre o HIV na terceira idade, enquanto o filme de ação 2 Brasis foi um sucesso.
Três filmes brasileiros concorrem a prêmios na competição internacional de Clermont-Ferrand e outros cinco curtas, selecionados pelo festival Kinoforum e a Spcine, de São Paulo, foram exibidos a distribuidores e produtores em uma sessão especial na tarde de quinta-feira (6).
Quase Trap!, filme de iniciação dirigido pelo paulistano Filipe Barbosa, e Anastácia, da mineira Lilih Curi, elaborado a partir de uma longa pesquisa da cineasta com mulheres que sofreram violência doméstica na Bahia, são produções da Rede Afirmativa, da Spcine. Já 2 Brasis, de Carol Aó e Helder Fruteira, ganhou destaque por ser um filme de ação sobre a distopia de um país dividido, com uma produção bem elaborada.
Filipe Barbosa abraçou o cinema em 2018, primeiro fazendo formações em oficinas, como as organizadas pelo festival Kinoforum na comunidade de Paraisópolis, depois abrindo um cineclube com os amigos em Cidade Tiradentes, distrito da periferia de São Paulo. Seu curta narra a história de Tiunai, um jovem negro de 16 anos que mora na periferia e se vê pressionado a afirmar sua identidade masculina.
O realizador disse à RFI que jamais imaginou estar no maior evento do mundo de curtas. "O Fabio Rodrigo, que é um roteirista, escreveu esse projeto. Ele a uma pessoa um pouco mais velha do que eu e vem da Vila Ede, na zona norte de São Paulo. Eu já sou de uma outra geração e também vivenciei isso. É uma pauta que muitas vezes não tem sido falada. Falar sobre a questão de virilidade, a questão da masculinidade, principalmente negra. A maioria dos debates sobre masculinidade não tem esse enfoque na periferia", destaca Barbosa.
O próximo projeto do diretor paulistano é o curta de terror Passado Presente, filme que contará a história de um jovem que pega o tênis de outro jovem, já falecido, e isso irá desencadear uma série de acontecimentos sobrenaturais. Com essa trama, Barbosa quer trazer para discussão a questão do pertencimento dentro da periferia, num cenário "funk" de 2010.
HIV chega à meia-idadeRicky Mastro, selecionado para participar pela primeira vez da sessão brasileira no Mercado do Filme, é uma das principais vozes do cinema queer no Brasil. Roteirista e diretor de dez curtas-metragens LGBTQIA+, atuante no circuito nacional e internacional de festivais, Ricky mostrou seu curta Carlinha e André, estrelado por Divina Núbia, André Guerreiro Lopes e Gregório Musatti. O filme retrata a história de amor de uma mulher transgênero na meia-idade que está esperando a volta do marido para casa, depois dele ter revelado a ela que estava com Aids.
Mastro conta que a inspiração para essa história veio na esteira de um longo projeto que desenvolve sobre pessoas que vivem com HIV, chamado Os Invisíveis. "Com o Carlinha e André, é interessante porque muitas pessoas falam que eu quis falar sobre viver com o HIV, falar sobre um casal sorodiscordante, mas na verdade eu falo sobre se tornar mais velho, sobre os medos e preocupações [que aparecem] ao envelhecer". Muitos questionamentos de Carlinha refletem preocupações pessoais do cineasta como homem gay cis chegando perto dos 40 anos, e a relação próxima que ele tem com a mãe, que completará 75 anos neste ano.
Roteirista e realizador engajado, Mastro passa a metade do ano em Toulouse, onde aperfeiçoou sua formação no cinema, e a outra metade em São Paulo. No Festival de Clermont, ele faz contatos com produtores e coprodutores internacionais para seu longa-metragem Tarzan. Nessa nova ficção, dois michês, o bailarino Tarzan e o traficante Gabo, aplicam golpes digitais para realizar o sonho de viver na Europa. Ele também procura coprodutores para a série Mundinho, que explora a juventude queer na vida noturna de São Paulo, produzida pela Manjericão Filmes.
Violência domésticaEm Anastácia, a mineira Lilih Curi leva às telas um drama de violência doméstica baseado em uma longa pesquisa feita com mulheres na Bahia. "É um filme curto, de 15 minutos, com uma narrativa disruptiva, não linear, mas que resolve ao fim o drama dessa mulher, Anastácia, que sofre violência doméstica na relação abusiva e terrível com o marido. É um filme que trata transversalmente de feminicídio, de racismo, de agressões múltiplas que a mulher sofre. Anastácia, por conta do trauma, sofre de mutismo e ela busca uma maneira de ter saúde de novo e de voltar a viver de novo", descreve Lilih.
"Eu espero que várias mulheres e homens que assistam esse filme se sensibilizem e consigam diminuir o impacto das violências em suas próprias vidas", acrescenta a diretora mineira. Recém-finalizado, o curta de Lilih Curi deve estrear em breve no Brasil.
O curta Migué, de Rodrigo Ribeyro, vencedor do prêmio Revelação no festival de curtas de São Paulo no ano anterior, completou a lista de produções apresentadas no Mercado do Filme, ao contar a história de uma garota paulistana trabalhadora que resolveu tirar um dia de folga.
Animação brasileira concorre a prêmioEm sua estreia num curta de animação, o diretor niteroiense Angelo Defanti, conhecido por seus filmes de ficção e documentários, conta ter ficado "espantado" e "lisonjeado" de ter sua produção Eu Sou um Pastor Alemão selecionada na competição internacional de Clermont-Ferrand.
"Eu comecei a desenvolver um projeto de longa-metragem de animação, mas, para chegar no longa, também pensei que eu podia me exercitar num curta e descobrir um pouco mais desse universo da animação, que não é tão simples assim. Sempre gostei muito dos quadrinhos do Murilo Martins e decidi dar esse pontapé inicial na animação com dois quadrinhos dele: um chamado Eu Sou um Pastor Alemão e o outro, Eu Era um Pastor Alemão", explicou Defanti à RFI.
O cineasta recorda que é 'dificílimo' ser selecionado na programação oficial do festival francês e revela estar impressionado com a atmosfera da mostra. "É realmente espantoso. A quantidade de filas, o tamanho das salas sempre cheias para ver curta-metragem. É uma cultura do curta-metragem já muito difundida, você vê que isso vem de muito tempo", diz Defanti com admiração e entusiasmo.
Os outros títulos que concorrem a prêmios em Clermont são Amarela, de André Hayato Saito, e Jacaré, de Victor Quintanilha.
A seleção dos curtas trazidos à França foi definida por Anne Fryzsman, programadora internacional do Festival de Curtas de São Paulo – Kinoforum. Ao lado do coordenador Marcio Miranda Perez, Anne dá continuidade ao trabalho iniciado há décadas pela diretora da mostra paulistana, Zita Carvalhosa, que abriu as portas do mercado global de produtores e distribuidores aos cineastas brasileiros.
O Brasil está representado no Mercado do Filme de Clermont-Ferrand desde 2011, em uma parceria que envolve, na edição de 2025, a equipe do Kinoforum, a Spcine, o Instituto Guimarães Rosa e a Embaixada do Brasil em Paris.
"Eu desenhei loucamente para que, quando não tivesse mais olhos, pudesse enxergar com as pontas dos dedos." A frase é de Suzanne Valadon, artista pioneira que desafiou convenções em sua vida e obra, e que agora ganha uma grande retrospectiva no Centro Pompidou de Paris. Anticonformista por natureza, Valadon demolia regras – inclusive ao pintar escandalosos nus masculinos, algo impensável para sua época.
Filha de pai desconhecido e criada no ambiente boêmio e popular de Montmartre do início do século 20, Suzanne Valadon começou trabalhando como modelo para grandes nomes da pintura da época, como Toulouse-Lautrec e Renoir. Mas ela não se contentou em ser apenas musa e conquistou seu espaço como artista reconhecida nesse meio eminentemente masculino. Valadon desafiou constantemente as normas sociais e artísticas de sua época. De origem modesta e filha de uma lavadeira, ela lutou para conquistar um lugar para si no mundo da arte, apesar dos preconceitos associados ao fato de ser mulher e às suas origens.
Nathalie Ernoult, curadora da exposição no Centro Pompidou de Paris, fala sobre o começo de sua carreira em Montmartre. "Ao chegar em Paris, Suzanne Valadon trabalhou em diversos pequenos empregos para se sustentar e ajudar sua mãe, mas essas ocupações eram mal remuneradas. Foi então que lhe sugeriram se tornar modelo, uma atividade mais bem paga na época. Em Montmartre, onde existia um verdadeiro 'mercado de modelos', ela rapidamente chamou a atenção dos maiores artistas do século 19, como Puvis de Chavannes, Renoir e Toulouse-Lautrec. Para Suzanne, posar como modelo não representava apenas uma imersão no mundo da arte que marcaria profundamente seu destino, mas uma verdadeira oportunidade financeira. Ser modelo para ela significava ganhar mais dinheiro", precisa Ernoult.
Autodidata e filha de uma lavadeiraEla se reinventou e forjou sua identidade mudando seu primeiro nome (de Marie-Clémentine para Suzanne). Desde muito jovem, não se conformou com as expectativas tradicionais das mulheres de sua época, como conta Flore Mongin, autora de uma biografia sobre a artista. "Marie-Clémentine Valadon, futura Suzanne Valadon, chegou a Paris aos 5 anos com sua mãe, em um ambiente popular marcado pela miséria. Criada sozinha pela mãe lavadeira, ela cresceu em Montmartre, um bairro vibrante de Paris, que foi um terreno fértil para o seu desenvolvimento. Desde a infância, demonstrou uma personalidade forte e um gosto acentuado pelo desenho, características que se tornariam centrais em sua trajetória artística. Montmartre, com sua efervescência cultural, foi o cenário de sua evolução, moldando a mulher e a artista que ela se tornaria, da infância à adolescência", afirma a escritora.
Suas representações das mulheres romperam com os clichês da época, mostrando corpos naturais e não idealizados em poses cotidianas, como detalha a curadora da mostra, que fala sobre uma de suas obras mais transgressoras, a "Odalisca". Suzanne Valadon "revisita e transgride o modelo clássico da odalisca em uma de suas obras-primas. Diferentemente da odalisca tradicional, frequentemente retratada nua e em uma postura sensual, seu modelo aqui está vestido, usando um pijama descontraído, com calças listradas e uma regata", contextualiza.
"A mulher fuma um cigarro, com livros displicentemente colocados ao seu lado, e sua expressão é séria, distante de qualquer sugestão de sedução. Valadon apresenta aqui a imagem de uma mulher livre e moderna dos anos 20, rompendo completamente com o arquétipo das odaliscas idealizadas. Tendo sido ela mesma modelo e posado para nus reclinados, Valadon conhecia profundamente a forma como os pintores representavam e objetificavam o corpo feminino. Com essa pintura, ela oferece uma visão radicalmente diferente", sublinha a especialista do Pompidou.
"Você é uma de nós": o apoio de DegasMas é o impressionista Edgar Degas, o artista mais importante do grupo de Montmartre na época, quem vai desempenhar um papel-chave na vida de Suzanne Valadon, como relata a curadora da mostra, Nathalie Ernoult. "Com os recursos que tinha à disposição, Suzanne Valadon desenhava sem cessar, em qualquer lugar que pudesse. Enquanto posava como modelo, observava atentamente os artistas ao seu redor, analisando suas técnicas de pintura e esboço. Dotada de um grande senso de observação e de uma memória visual impressionante, ela aprendeu a desenhar quase instintivamente, de forma autodidata", lembra.
"Um dia, ela teve a coragem de mostrar seus desenhos a Bartholomé e Toulouse-Lautrec, que imediatamente reconheceram seu talento. Lautrec a incentivou fortemente a apresentar seu trabalho a Edgar Degas, encontro que marcaria uma virada decisiva em sua carreira artística. Degas, que era uma figura central da época, se tornaria mais tarde um de seus maiores apoiadores e mentores", destaca. Foi Edgar Degas quem reconheceu seu talento, comprou seus desenhos e disse: "Você é uma de nós."
Entre os amores escandalosos que Suzanne nunca escondeu, figura uma relação relâmpago com Eric Satie, como conta a biógrafa da artista. "Sim, Montmartre era um lugar propício para os amores, e de fato Eric Satie ficou muito apaixonado. Ele foi um amor transitório de Suzanne Valadon e também um amante passageiro, já que a história deles não durou muito tempo. Eram duas personalidades muito fortes que não estavam necessariamente destinadas a se entender", conta Flore Mongin.
Apesar do reconhecimento, Valadon enfrentou muitos desafios. Ela foi recusada por não ter um "mestre" reconhecido na Escola de Belas Artes de Paris. E mesmo quando começou a pintar, sua ousadia escandalizava – como no caso de "Adão e Eva", onde retratou seu jovem amante nu a seu lado.
Com a exposição no Centro Pompidou de Paris, até o dia 26 de maio de 2025, e os novos livros dedicados a ela, Suzanne Valadon finalmente sai do esquecimento para ocupar o lugar que merece na história da arte.
Radicada na França desde 1986, a brasileira Janice Melhem Santos expõe “Hors-Sol”, uma meditação pictórica sobre a natureza, inspirada pelo espírito eco-militante de Frans Krajcberg. A exposição pode ser vista até 22 de fevereiro, em Paris.
Patrícia Moribe, em Paris
A exposição “Hors-Sol” acontece no espaço Frans Krajcberg (1921-2017), fincado em uma simpática vila arborizada, escondida do burburinho próximo da enorme estação de Montparnasse. Era nessa ruela que Krajcberg mantinha um estúdio em Paris. O espaço com o nome do artista foi inaugurado em 2004.
A exposição permanente traz várias obras que o artista doou à prefeitura de Paris, acompanhando sua trajetória pelo mundo, começando pela fuga da perseguição aos judeus em sua Polônia natal, passando por Paris e finalmente se apaixonando pela natureza em perigo do Brasil.
“Hors sol” quer dizer, ao pé da letra, fora do solo. “Tive a ideia de dar esse título à série e à exposição porque remetia a outras situações, como a minha própria situação de ser, de estar fora do meu país, e a situação do Krajcberg de ter saído também do país dele e ser uma pessoa fora do solo”, explica a artista.
Janice lembra também que Krajcberg tinha uma casa nas arvores, em Nova Viçosa (BA). Ela faz um paralelo com uma casa em malha de metal, exposta em Paris, uma maquete em malha de metal, suspensa no ar e batizada de Héstia. “É a deusa do lar na mitologia grega. É uma casa, mas que não tem base. É a casa que você pode levar em qualquer lugar que você está, porque o seu lar é o que você carrega em você. Não é a casa que você mora, mas ela simboliza isso em uma dentro da outra e dentro da outra. Assim como nós sempre guardamos fases, e pedaços até formar o nosso lar interno”, relata.
Ao longo dos anos, a artista cruzou o caminho de Krajcberg algumas vezes. Em 2010, ele visitou uma exposição de Melhem em Brasília. “Eu tenho a fotografia dele olhando para esse trabalho e eu sei que ele apreciou. Ele não era uma pessoa de fazer grandes elogios e tudo, mas quando ele apreciava, ele ficava. E essa presença dele para mim era importante”, explica.
“A obra do Krajcberg mostra essa destruição que está sendo feita, mas ele transforma em obra de arte as raízes que estavam sendo queimadas e tudo isso que a gente vê aqui, que é incrível. “De um lado temos aqui a obra de Krajcberg, do outro lado, uma exposição que cumpre o seu objetivo, o de trazer artistas que têm uma relação com o Krajcberg ou que trabalham diretamente ligados com o meio ambiente, a proteção da natureza, das minorias.”
A Fundação Louis Vuitton, de Paris, apresenta a mostra “Pop Forever”. A exposição revisita a corrente artística que surgiu nos anos 1950, com raízes no dadaísmo, e destaca a obra do norte-americano Tom Wesselman.
Patrícia Moribe, em Paris
Sem manifesto e sem fronteiras, o pop foi uma das correntes artísticas mais importantes do século 20 e sua influência continua forte nas artes plásticas e na música até hoje. As cores, o psicodelismo, o objeto cotidiano como fonte de inspiração, a sensualidade e o absurdo são elementos recorrentes.
Quem pensa em pop, pensa em Andy Warhol. Ele era o rei em uma Nova York efervescente, onde tudo era possível. Em seu espaço antológico, The Factory, flanavam intelectuais, dramaturgos, drag queens, artistas sem-teto, celebridades de Hollywood e milionários. Ele teria cunhado a frase de que no futuro todos seriam famosos por 15 minutos – e depois cairiam no esquecimento. Um dos quadros mais famosos de Warhol, um silkscreen da série retratando Marilyn Monroe está na exposição.
Mas o fio condutor da exposição é a obra de Tom Wesselman (1931-2004), que morreu em 2004 aos 73 anos.
“É uma exposição dupla, pois é, ao mesmo tempo, uma retrospectiva dedicada a este artista, Tom Wesselmann, que é considerado um dos pais fundadores do movimento pop”, explica Oliver Michelon, um dos curadores. “Mas também é uma exposição dedicada à arte pop, já que é, no fim das contas, uma leitura do pop a partir da obra de Tom Wesselmann e uma interpretação um pouco mais ampla do pop, já que vamos abordar as origens do movimento, por volta de 1960, até os dias de hoje”, acrescenta.
“Tom Wesselmann, junto com Roy Lichtenstein, Andy Warhol e James Rosenquist, é uma das primeiras grandes figuras do pop”, relata o curador. “Ou seja, ele aparece na cena artística de Nova York no começo dos anos 60 com obras que mostram objetos de consumo cotidiano, formas vibrantes, enfim, que fazem a arte passar para uma nova dimensão ao se apropriar da cultura popular. É uma espécie de detonador do pop. Desde o começo dos anos 1960 até o meio da década, e depois, obviamente, sua obra também evolui.”
A mostra reúne 150 pinturas e trabalhos com técnicas mistas do artista. Há também 70 obras de outros nomes do pop, além de Andy Warhol, como os recordes de quadrinhos de Roy Lichtenstein, a releitura da bandeira norte-americana de Jasper Johns e as bolinhas de Yayoi Kusama.
O projeto levou cerca de dois anos para ser concretizado e teve dois curadores convidados, Dieter Buchhart e Anna Karina Hofbauer. “Nunca é fácil conseguir os empréstimos, ainda mais de artistas excepcionais como é o caso”, diz Michelon. “Também pudemos contar com o apoio generoso da família Wesselman, que nos emprestou muitas peças.”
O diálogo do pop acontece com artistas contemporâneos, como Jeff Koons e Ai Weiwei, além da nova geração representada por Derrick Adams, Tomokasu Matsuyama e Mickalene Thomas, que criaram peças especialmente para a exibição.
“Pop Forever” fica em cartaz na Fundação Louis Vuitton até 24 de fevereiro de 2025.
Da encarnação do mal nas mitologias judaico-cristãs à ideia de sabedoria e regeneração presente nas cosmogonias mesoamericanas, hindus, africanas e nórdicas, passando por suas representações nas culturas aborígenes e asiáticas, o artista Ernesto Neto desconstrói e redimensiona o mito da serpente em instalações monumentais para a loja de departamentos Le Bon Marché. "Filho de Lygia Clark" e "neto de Brancusi", o brasileiro traz pimentas, perfumes e cantos de inspiração indígena para o coração de Paris.
Em sua 10ª exposição, Le Bon Marché Rive Gauche, uma das mais tradicionais lojas de departamentos de Paris, homenageia o artista brasileiro Ernesto Neto, que criou instalações monumentais especialmente para a mostra Le La Serpent, ou O A Serpente. Conhecido internacionalmente por suas obras biomórficas, ele realiza uma digressão poética sobre um dos mitos fundadores da humanidade na cultura ocidental, enaltecendo o papel da Serpente, entrelaçada às figuras de Eva e Adão.
"Eu não vejo isso como uma história da Bíblia. Vejo como uma história do Ocidente", argumenta Ernesto Neto. "Esse mito original, o mito da Gênesis, que vem da Torá e que faz parte da Bíblia, tem uma leitura que me tocou muito. Foi há uns dez anos, quando eu tive uma revelação: se a serpente não tivesse falado com Eva, levando aquela conversa 'de mulher para mulher', oferecendo a ideia de Eva compartilhar a fruta divina com Adão, eles estariam até hoje no Paraíso", sublinha o artista brasileiro, que será um dos destaques do ano do Brasil na França, em 2025 .
"Não seria lindo? Adãozinho e Evinha lá, curtindo a vida no Paraíso... E nós, onde estaríamos? Não estaríamos aqui. Não existiria eu, você, a Rádio France, Le Bon Marché, o Museu de Arte, a alegria, a tristeza, nem a guerra. Não haveria sofrimento, mas a vida é isso tudo", provoca Neto.
O artista subverte a visão ocidental que lê a serpente como um elemento maléfico. "Eu não acredito na ideia de queda do Paraíso. Isso, para mim, é uma invenção, um equívoco. A única coisa realmente importante nesse mito, na minha visão, é que a serpente é a nossa mãe, o nosso pai. Assim como em várias histórias ancestrais ao redor do mundo", diz o artista, que encomendou uma pesquisa a seu amigo e antigo colaborador Pedro Luz sobre como o animal mítico é visto em diferentes culturas, como na Ásia, África, Oceania, Polinésia, América do Sul, Central e do Norte.
"Em todos esses lugares, a serpente é uma figura positiva, associada à criação, à vida. No catálogo da exposição, incluímos textos do Joseph Campbell, um dos maiores estudiosos das mitologias, que traz conexões entre essas culturas", aponta Neto. "Ele fala da ideia de que a vida é feita de vida, que tudo que comemos está vivo, criando um ciclo de retroalimentação. A morte é necessária e parte da vida", afirma.
Muito além do bem e do malRealizadas nos ateliês do artista, as obras se distanciam da interpretação do pecado original, que considera o animal como diabólico. Le La Serpent é uma alegoria do vivo que não separa a natureza da cultura, ou o homem do animal. Ernesto Neto propõe uma imersão sensorial e multicultural, desafiando crenças e narrativas presentes em várias mitologias mundiais.
"Eu sempre tento trazer uma continuidade entre o nosso corpo e o corpo da Terra", diz o artista, cuja obra ecoa preocupações iminentes ligadas às mudanças climaticas e ao Meio Ambiente. "Quando vemos a Terra como paisagem, colocamos ela fora de nós. Nós nos tornamos observadores. A ciência faz isso. Mas, quando falamos que a Terra é o corpo, começamos a perceber que somos parte do corpo da Terra, assim como a Terra é parte de nós. Não estamos separados dela. Estamos todos conectados", insiste.
Crochê, DNA e especiarias: o tempero brasileiro de Ernesto Neto"Trabalhamos com crochê, utilizando algodão como material base. A serpente, por exemplo, possui elementos simbólicos muito fortes. As cores da obra foram obtidas através de tingimentos naturais, como chá preto para o tom bege, e Jatobá e casca de cebola para o marrom", explica o artista. "Esses métodos nos conectam à energia da Terra, oferecendo uma experiência sensorial mais rica em comparação aos tingimentos sintéticos. A ideia foi também trazer à tona uma representação de Adão e Eva com tonalidades mais escuras, refletindo as origens africanas desses personagens", afirma Neto.
"Outros materiais, como tampinhas de refrigerantes, são inseridos como símbolos de transformação e renovação, muito presentes em culturas indígenas, como os Ashaninka [povo indígena da Amazônia peruana]. Além disso, elas fazem parte da proposta de integrar arte e sustentabilidade, trazendo à tona a ideia de que tudo pode ser reimaginado e reintegrado ao ciclo da natureza", detalha.
"A serpente é um símbolo poderoso que atravessa várias culturas, e estudei muito a fundo sua presença tanto no xamanismo quanto em mitologias ancestrais. Um antropólogo chamado Jeremy Narby, por exemplo, explorou a conexão entre as serpentes e o DNA, mostrando como elas representam a espiral da vida e a conexão entre o mundo superior e inferior", aponta Neto.
Brasil "colônia""Eu venho de um país colonizado", diz. "O Brasil ainda carrega as marcas da colonização de forma muito sutil, mas presente. A estrutura econômica continua sendo voltada para a exportação de recursos naturais como petróleo, soja e minério, de maneira muito similar ao que acontecia com o açúcar, ouro e café no passado. Apesar de estarmos no século 21, seguimos com um modelo econômico que favorece a exploração em vez de investir em áreas como educação e cultura", contesta o artista.
Perguntado sobre que obra traria para o Grand Palais, em Paris, para o ano do Brasil na França em 2025, o artista antecipa algumas pistas sobre o trabalho escolhido. "O Barco Tambor Terra é uma escultura que fizemos no ano passado, apresentada no Museu de Arte, Arquitetura e Tecnologia em Lisboa. A ideia é que o barco, simbolizando a jornada, navegue de volta para o Brasil, carregando a energia do tambor, que representa a força vital da Terra. Este projeto é uma celebração dos tambores de diversas partes do mundo — Ásia, África, Europa e América. Estamos trabalhando com muito carinho para que ele chegue aqui, apesar dos desafios de atravessar o mar", afirma Neto.
"A proposta é refletir sobre a conexão do ser humano com a Terra e uns com os outros. O tambor, uma mistura de tronco de árvore e pele de animal, simboliza a união entre o vegetal e o animal, e é uma maneira de nos sintonizarmos com a energia da Terra. A filosofia africana, que valoriza a união e a força coletiva, é uma inspiração importante aqui. A ideia não é simplesmente onde estamos indo, mas como estamos juntos nessa jornada, tocando o tambor e nos conectando", conclui o artista.
A exposição Le La Serpent fica em cartaz no Le Bon Marché Rive Gauche de 11 de janeiro até 23 de fevereiro de 2025.
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