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Acontece neste momento a Paris Design Week, evento que desde 2011 reúne na capital francesa arquitetos, designers e artistas do mundo inteiro. Entre as cerca de 450 exposições previstas até o próximo 14 de setembro, está The Collector’s House, em cartaz Espaço Frans Krajcberg em Montparnasse, histórico bairro de artistas de Paris.
A mostra, que tem o formato “da casa de um colecionador” apresenta trabalhos de 25 brasileiros e três franceses. Todas as peças foram realizadas especialmente para a exposição e dialogam com a obra de Frans Krajcberg (1921-2017). O artista de origem polonesa, naturalizado brasileiro, foi pioneiro ao denunciar com sua arte a destruição da natureza. A ideia da curadora Patricia Monteiro Leclercq era, nesta segunda edição do The Collector’s House, unir design, arte contemporânea e sustentabilidade.
“O convite para os designers e para os artistas foi justamente de criar algo em relação ao pensamento ecológico, à ecoarte do Krajcberg, que foi o pioneiro. Todos estavam muito motivados. A gente tem resultados incríveis numa bela homenagem ao Krajcberg”, conta Patricia.
Essa homenagem ao artista é uma excelente ilustração do projeto “Bref” que a curadora desenvolve. "O projeto se chama Bref por ele ser breve e nômade, mas ao mesmo tempo tem o Br de Brasil e F de França”, explica.
Mestres do design brasileiroMóveis do mestre da madeira José Zanine Caldas (1919-2001) foram os primeiros escolhidos para integrar a exposição. Zanine criou a casa na árvore para o amigo Krajcberg, simbolizando a “relação harmoniosa” do artista com a natureza, acredita a curadora.
Outra peça de destaque é uma versão contemporânea da icônica poltrona “Esfera” de Ricardo Fasanello (1930-1993). As criações do último dos mestres modernistas brasileiros continuam sendo produzidas com novos materiais pela família dele. “Esfera” foi a segunda a poltrona desenhada por Ricardo Fasanello, em 1969, e a versão exposta em Paris foi feita por um neto, com algumas modificações em relação à original.
“Nós introduzimos a areia na resina e fibra de vidro para dar cor da parte da ‘coquille’ e o couro é um couro de pirarucu, que é um peixe brasileiro que estava em extinção e que hoje está sendo protegido. Esse curtume Cairú, no estado do Rio de Janeiro, tem uma parceria com os índios locais para fazer o manuseio sustentável”, relata Andrea Fasanello, filha do designer.
“É uma versão vintage-contemporânea” que terá uma “edição realmente muito limitada, no máximo 3 ou 4 peças, para comemorar os 30 anos da morte do papai”,
Diálogo com KrajcbergA arte ecológica de Frans Krajcberg inspirou a ceramista carioca Denise Stewart, que expõe em Paris um conjunto de vasos. “Pensei numa coisa que pudesse transformar em uma peça decorativa, que lembrasse um pouco as ‘Palmeiras’ que ele produzia, aquelas ‘Palmeiras’ com listras”, revela Denise Stewart.
A ceramista expõe seu trabalho em Paris pela segunda vez e acha muito “bacana essa coisa dos brasileiros estarem aqui, de como o Brasil está andando com essa coisa do design também. Eu acho que tem tudo a ver Brasil e França”.
Mobiliário, objetos decorativos, mas também obras de arte fazem parte da seleção, como “Beyond the Forest” (Além da Floresta), de Fernanda Froes, que denuncia a quase extinção do Pau Brasil, árvore que deu nome ao país.
A artista redescobriu e utiliza “receitas” de tintas de tecido do século 16 extraídas do Pau Brasil para reproduzir uma “floresta utópica, uma floresta que quase não existe mais, porque é uma planta quase extinta, uma planta em perigo”, denuncia.
Fernanda tinge pequenos pedaços “de algodão orgânico e (faz) uma obra como um conjunto de fragmentos do Pau Brasil, reconstruindo o Pau Brasil”.
O resultado é bem colorido, como a copa das árvores de uma floresta. Cada fragmento de tecido traz uma cor diferente porque “dependendo da alcalinidade, a tinta fica mais amarela se for mais ácida, mais roxa se for mais alcalina....”, detalha Fernanda Froes, ressaltando que nenhuma árvore foi derrubada para esse trabalho. Ela só utiliza a tinta extraída da poda do Pau Brasil.
Ainda entre as obras em destaque também estão o quadro "À Table" , da artista brasileira Lavinia Góes, radicada em Paris, e a instalação "Colmeia", da ceramista Sandra Arruda, que alerta para o risco de desaparecimento das abelhas.
LeliãoAs obras que compõem a exposição The Collector’s House também podem ser adquiridas e no sábado (7) haverá um leilão. A curadora Patricia Monteiro Leclercq diz que parte do benefício será doado para o espaço Frans Krajcberg, criado para administrar as obras legadas pelo artista à prefeitura de Paris em 2002. Ela explica que é importante “doar para uma associação que desenvolve um trabalho incrível com poucos recursos e, principalmente, porque a gente quer muito expandir a obra do Krajcberg, do conhecimento, desse pensamento, na França”
O design brasileiro, que começou a ter destaque internacional com os modernistas, ganha cada vez mais espaço. O público poderá ver a criatividade dos designers contemporâneos brasileiros até o próximo domingo, no espaço Krajcberg que fica no 14° distrito de Paris.
“Histórias Paralímpicas – da integração esportiva à inclusão social”, em cartaz no Panteão de Paris, traz um panorama do fenômeno esportivo paralímpico, desde o seu início até os dias de hoje. A exposição acontece paralelamente aos Jogos Paralímpicos de Paris 2024.
Patrícia Moribe, em Paris
Através de cartazes de época, fotografias de momentos históricos e sequências de filmes, o visitante acompanha o desenvolvimento da prática esportiva para deficientes, desde as primeiras competições, chamadas “hospitalares”, realizadas no hospital de Stoke Mandeville, no Reino Unido, sob supervisão do dr. Ludwig Guttmann, em 1948, passando por Roma, quando acontecem os primeiros Jogos Paralímpicos, em 1960, na ocasião só para cadeirantes, até que progressivamente englobassem todas as pessoas com deficiência, como é o caso hoje.
“É uma exposição que segue um eixo histórico e que busca mostrar a evolução histórica desse movimento esportivo, que nasceu no final da Segunda Guerra Mundial e teve um grande desenvolvimento durante a segunda metade do século 20. E, desde, digamos, os anos 2000, está se tornando cada vez mais mediático, o que não era o caso antes”, explica Anne Marcellini, especialista em sociologia do esporte da Universidade de Lausanne, na Suíça e comissária da exposição, junto com Sylvain Ferez.
“No início, essa prática esportiva foi imaginada por médicos para ajudar na reabilitação física dos jovens feridos de guerra. Mas, rapidamente, também se consolidou a ideia de que essa reabilitação deveria ajudar esses jovens a retornarem à vida social e profissional”, acrescenta.
“Os impactos dessa evolução se refletem também no nível social, com uma mudança na maneira como o mundo vê a deficiência. Antes dos Jogos Paralímpicos, as pessoas com deficiência viviam mais isoladas, de forma menos visível”, explica Barbara Wollfer, administradora do Panteão. “Essa questão da visibilidade é muito importante. Os Jogos Paralímpicos colocam o corpo em evidência, e essa visibilidade muda a maneira como as pessoas enxergam aqueles em situação de deficiência. Então, uma dimensão muito importante dessa exposição é mostrar isso e ir além da questão puramente esportiva”, acrescenta.
O percurso da exposição foi pensado também para o púbico com deficiência. Além do material visual, há audiodescrições, textos, documentos em Braille e explicações em língua de sinais francesa e internacional. Há próteses e cadeiras de rodas antigas, e suas versões mais modernas. A mostra conta ainda com mascotes dos Jogos e versões de bonecas, como a Barbie, com deficiências.
O imponente edifício Panteão de Paris, no alto do monte Santa Genoveva, no 5° distrito de Paris, foi construído entre 1759 e 1790, a pedido do rei Luís 15. O prédio abriga os restos mortais de grandes figuras da história francesa, como os filósofos Voltaire e Rousseau, o escritor Victor Hugo, a cientista Marie Curie, a artista nascida nos Estados Unidos Josephine Baker, e Simone Veil, sobrevivente do Holocausto e política que defendeu o projeto de lei pelo aborto, em 1974.
“O Panteão é o lugar de reconhecimento dos grandes homens e mulheres da nação. Essas figuras se destacaram especialmente por suas lutas pela emancipação e igualdade”, explica Barbara Wollfer. “Entre esses grandes homens está Louis Braille, o inventor da escrita tátil, que descansa no Panteão desde 1952. Portanto, foi bastante natural organizar essa exposição aqui, pois é também a história de uma luta pela igualdade.
“Histórias Paralímpicas – da integração esportiva à inclusão social”, fica em cartaz no Panteão de Paris até 29 de setembro de 2024.
Paris se transforma na capital da música a partir desta quarta-feira (21) e é palco até domingo (25) do Rock en Seine, o maior festival da capital francesa e um dos principais da Europa. O evento, que ocorre desde 2003 no Parque de Saint Cloud, no sudoeste de Paris, é um dos poucos a ser realizado no período da Olimpíada e Paralimpíada, mas também entra no clima dos jogos e acolhe até uma das etapas do revezamento da tocha.
Daniella Franco, da RFI
Para essa 21a edição, o Rock en Seine aposta grande novamente, mantendo o formato de cinco dias de festival, com cinco palcos e cerca de 90 artistas e bandas. No line-up, Lana del Rey - que entra em cena nesta noite - Massive Attack, PJ Harvey, Pixies, Offspring, The Kills, entre tantos outros grandes nomes.
"Acho que atingimos a nossa maturidade. Tivemos um belo início de vida, despreocupado, com muita vontade. Depois o festival conheceu períodos mais complicados, que podemos considerar como um período adolescente, com tumultos e mudanças que são difíceis de serem aceitas", diz o diretor do Rock en Seine, Matthieu Ducos, em entrevista à RFI. "Mas depois da época da Covid, conseguimos reencontrar um festival com muita força nas propostas artísticas e na coerência delas, chegando à idade adulta, com o encontro também de uma confiança em si mesmo", reitera.
A cada edição, o Rock en Seine se renova, expande a oferta musical e investe também em outros eventos culturais, como exposições, debates, além de projetos voltados para o meio ambiente, inclusão e diversidade. O show do trio americano Gossip, nesta quinta-feira (22) será completamente traduzido em libras e contará com a participação de dois corais inclusivos da grande região parisiense. Essa, aliás, é uma das tantas iniciativas do Rock en Seine neste ano em conexão com a Paralimpíada, com uma programação especial para celebrar os laços e valores comuns entre a música e o esporte.
"Os Jogos Paralímpicos começam um pouco depois do Rock en Seine e queríamos abraçá-los através de artistas com deficiência que vamos acolher no festival, com demonstrações de esportes paralímpicos que estamos propondo, também por meio de uma grande obra de arte, o streetartist The Blind - que aborda a deficiência visual - além de debates, que realizamos todos os anos e que neste ano vão tratar dos laços entre música e esporte", destaca Ducos.
A tocha paralímpica passará pelo Parque de Saint-Cloud no domingo, entre os shows de PJ Harvey e LCD Soundsystem. Um paratleta e um artista escolhido pelo festival, cujo nome ainda não foi relevado, serão as grandes estrelas de um momento evocado com muita emoção pelo diretor do festival. "Quisemos ter um papel direto nesse espírito olímpico que atravessa o verão na França e, quando nos ofereceram a possibilidade de acolher a tocha, ficamos muito entusiasmados com a ideia de participar de uma etapa do revezamento", celebra Ducos.
Imprevistos e futuro do rockO Rock en Seine também teve de enfrentar um grande imprevisto: o cancelamento do show do grupo britânico The Smile, que integrava o line-up deste ano do festival e era uma das bandas mais aguardadas. A organização do evento anunciou em 12 de julho que a banda teve de adiar sua turnê europeia por conta de problemas de saúde do guitarrista Jonny Greenwood. Por outro lado, o festival conseguiu rapidamente convocar o icônico quarteto americano Pixies, que sobe no palco principal do Rock en Seine neste domingo.
Mas apesar de o evento propor neste ano pesos-pesados do rock, Matthieu Ducos destaca jovens artistas que estão revolucionando a cena musical. "Acho que há uma verdadeira renovação com novos grupos de rock. Há seis, sete anos, o rock estava em baixa, mas atualmente há uma nova geração liderada por artistas muito talentosos", observa.
O diretor do Rock en Seine cita The Last Dinner Party, banda formada por cinco garotas britânicas que sobem no palco do Rock en Seine nesta quinta-feira. "Elas são um exemplo excelente de um novo grupo de rock, com uma proposta musical rica, nova e intensa, e com uma performance grandiosa", elogia.
Para Ducos, esse movimento de renovação musical suscita o interesse de jovens pelo rock e mostra um novo universo "com atitude e energia que pode complementar outros estilos". "É isso também que defendemos no Rock en Seine", conclui.
Os Encontros de Arles, que acontecem no sul da França, voltam a reunir o mundo profissional e amador da fotografia do mundo todo. A programação é eclética e extensa, com uma forte presença feminina, principalmente de japonesas. O Brasil também compareceu em várias vertentes do evento durante a semana profissional, de 1 a 7 de julho. As exposições em Arles podem ser vistas até 29 de setembro.
Patrícia Moribe, enviada especial a Arles
Cristina de Middel, diretora da mítica agência Magnum, ocupa a Igreja dos Irmãos Pregadores com “Viagem ao Centro”, uma espetacular – em vários sentidos – releitura do complexo movimento migratório saindo do México em direção aos Estados Unidos.
Inspirado inicialmente na “Viagem ao Centro da Terra”, de Júlio Verne, a artista mistura ficção, encontros com personagens extraordinários e homenagens visuais a artistas como a fotógrafa mexicana Gabriela Iturbide, permeado de experiências trágicas de vítimas anônimas ou não.
O Japão também é presença marcante, a começar pelo prêmio Woman in Motion, que neste ano homenageia a veterana Ishiuchi Miyako. Através de imagens quase etéreas, fantasmagóricas e poéticas de objetos pessoas, um apanhado de sua obra traz uma imersão na intimidade de pessoas como a própria mãe, Frida Kahlo, e de vítimas da tragédia de Hiroshima.
Outra mostra que destaca o olhar de fotógrafas japonesas é “Que alegria de vê-las de novo”, com mais de vinte artistas de várias gerações. Em outra exposição, “Réplicas”, fotógrafas e fotógrafos japoneses revisitam a catástrofe de Fukushima, em 2011. Um relato visual emocionante é o de Mayumi Suzuki, que perdeu os pais no desastre. Ela encontrou objetos nos destroços, como a câmera do pai, que também era fotógrafo.
Arles também revisita a obra seminal e humanista da americana Mary Ellen Keller. Já a francesa Sophie Calle usa uma cripta do centro histórico para expor obras condenadas, ou seja, imagens expostas recentemente no museu Picasso em Paris, mas que foram atingidas no depósito da instituição pelas águas de violentas tempestades. Condenadas à destruição por estarem contaminadas por fungos, a cripta serve como último receptáculo dos trabalhos de Calle.
Conexão BrasilO Brasil compareceu em várias seções da semana profissional dos Encontros de Arles. A fotografia brasileira contemporânea na França é cada vez mais presente, principalmente devido à atuação da associação Iandé, fundada por Glaucia Nogueira e Isabelle Brosolette Branco.
A Iandé, que em tupi-guarani quer dizer nós, pronome pessoal inclusive, surgiu como plataforma para dar visibilidade à fotografia brasileira na França. Em 2024, a Iandé fez parte do circuito OFF de Arles, com um espaço próprio, um local de exposição de livros brasileiros e de intercâmbio.
O leque de atuação da Iandé também vem se expandindo. “Agora queremos fazer a ponte entre os profissionais franceses e brasileiros, dos dois lados”, explica Glaucia Nogueira. Foi o que se viu na sexta-feira (5), durante um café da manhã promovido pela associação, reunindo representantes de festivais brasileiros, de instituições francesas e artistas dos dois países, para um contato informal de trocas de muitas ideias.
“Eu gosto muito dessa ideia de que a França não está restrita apenas à metrópole, mas é capaz de se abrir para territórios ultramarinos, com um forte vínculo com o Brasil”, explicou Erika Negrel, diretora do Réseau Diagonal (Rede Diagonal), que reúne 30 centros fotográficos em toda a França. “Em nossa rede, temos também uma instituição implantada na Guiana Francesa, chamado La Tête dans les images (Cabeça nas Imagens), lembrando que a fronteira mais longa e extensa que compartilhamos com um país, é com o Brasil. São 700 quilômetros de fronteira que nos separam do Brasil”, diz a responsável francesa. “Como rede, temos o desejo de sermos abertos, de nos enriquecermos também com experiências, projetos e de compartilhar ideias com colegas, especialmente no Brasil.”
Livros e encontrosNa feira de livros dos Encontros, Rafael Roncato apresentou “Tropical Trauma Misery Tour”, vencedor em 2023 do Dummy Award, um concurso internacional de projetos de livros de fotografia, antes conhecido como Kassel Dummy Award e que atualmente é outorgado pelo PhotoBookMuseum, de Colônia (Alemanha) e MAS Matbaa, de Istambul (Turquia). O livro de Roncato, uma revisão do fenômeno Bolsonaro, foi sua defesa na tese de mestrado da Academia Real de Haia, na Holanda, onde ele hoje é professor de fotografia.
A primeira semana do festival de Arles também traz uma maratona de encontros reunindo especialistas e fotógrafos do mundo todo para encontros de 20 minutos cronometrados para intercâmbio de ideias. Entre os especialistas, estava João Kulcsár, diretor dos festivais de São Paulo e de Paranapiacaba (SP). Na seção OFF de Arles, muitas leituras de portfólio são organizadas pelas estruturas participantes, entre galerias e revistas.
Ainda no circuito OFF, o fotógrafo Ricardo Tokugawa foi finalista do prêmio revelação Saif x La Kabine, com a série "Travessia".
Em outro evento paralelo, o artista Shinji Nagabe, baseado em Madri, participou da mostra "Embajada", com peças da série Dioramas.
Cerca de 1.700 espetáculos. Um total de 25 mil apresentações, em 150 teatros e espaços cênicos. 1320 companhias de teatro, sendo cerca de 160 delas estrangeiras e cerca de 115 mil espectadores na mostra oficial, e mais de 2 milhões de ingressos vendidos no OFF. O Festival de Avignon, dirigido pelo português Tiago Rodrigues, abriu as portas no último dia 29 de junho, mantendo o foco no engajamento político com uma incrível pluralidade de vozes teatrais, no maior evento de artes cênicas do mundo.
Marcia Bechara, enviada especial da RFI a Avignon
Quem abriu o baile em 2024 na prestigiosa Cour d’Honneur do Palacio do Papas, vitrine principal do Festival de Avignon, foi a encenadora espanhola Angélica Liddell, com Dämon, peça que homenageia Ingmar Bergman, trazendo toda a fúria do verbo da espanhola, um verdadeiro convite à rebelião.
"Descobri Bergman ainda muito jovem na televisão pública espanhola, numa época em que esse tipo de mídia pública ainda era interessante na Espanha, eu devo meu imaginário e minha educação estética a ele e a outros cineastas, e desde pequena percebi que Bergman tinha conseguido colocar palavras para nomear meus sentimentos, e isso me nutriu espiritualmente e esteticamente", contou a performer espanhola, uma veterana do festival.
"Para mim, este testamento de Bergman sobre como deveria ser seu funeral é seu último grande ato estético. Toda rebelião passa pela estética, e não pela mensagem. Efetivamente, essa descrição de Bergman de seu funeral é sua última grande obra, uma escolha estética formidável, e que nos coloca em contato com o grande demônio da vaidade", detalha a diretora, uma provocadora por excelência.
"Arte é coisa de artistas"Um dos alvos de Angélica Liddell na peça é, assim como Ingmar Bergman, os críticos. "Compartilho com ele esse ódio aos críticos. Minha obra é uma bofetada, que não posso dar fisicamente porque me denunciariam. Mas eu gostaria de confrontar toda essa gente que me insultou banal e impunemente, cara a cara, e dar-lhes uma bofetada. A arte é coisa de artistas, os críticos são arcaicos e chegam a ser, em determinado momento, uma coisa daninha para a arte", disparou Lidell.
O coreógrafo francês Boris Charmatz, hoje à frente da companhia de Pina Bausch, na Alemanha, falou sua participação como artista-cúmplice da edição 2024 do Festival de Avignon. "Essa cumplicidade está ligada a esta direção do festival de Tiago Rodrigues e sua equipe, e nasceu no momento em que Tiago se mudava para Avignon, enquanto cidadão português, convidado a assumir um posto importante na França, e eu chegava a Wuppertal, na Alemanha", declarou.
"Não se trata de um exílio, mas de se juntar a instituições muito vivas, mas, ao mesmo tempo, cheias de histórias, lendas e mitos. Essa cumplicidade nasceu então desse entrelaçamento entre passado, presente e futuro, uma vez que estamos aqui para inventar, improvisar e talvez desenhar caminhos de esperança nestas narrativas de fim do mundo que nos angustiam a todos", disse Charmatz, que apresentou Cercles, com foco no "círculo", um formato cênico que sempre assombrou a memória da dança, seja ela tradicional ou moderna, clássica ou contemporânea.
Já o diretor do festival, Tiago Rodrigues, explicou a escolha de revisitar uma tragédia de Eurípides em Hécuba, não Hécuba, espetáculo que estreou no Festival de Avignon 2024. "Eurípides é o trágico mais progressista, aquele que coloca em questão o divino, transforma o divino em simbólico e responsabiliza os humanos por suas escolhas", diz o diretor.
"Ele introduz hesitação e uma quase psicologia nos diálogos, e sobretudo continua uma linhagem de Ésquilo e de Sófocles de olhar para o 'outro', seja o estrangeiro, seja a mulher – porque em Atenas, há 2.500 anos, a mulher era o 'outro', e não tinha acesso à tragédia, seja no palco, seja na plateia", sublinhou.
"O que ele nos propõe é algo fundamental hoje, falando de lei, falando de justiça, de vingança. Hécuba, rainha de Troia, agora transformada em escrava, uma mulher estrangeira, uma troiana, que perdeu a guerra contra os gregos, uma escrava, mais velha, e zangada, quer justiça para seu filho, morto sob a proteção de um suposto aliado", destacou Rodrigues. "Ela é madura, não é aquela heroína trágica jovem como Ifigênia ou Antígona, idealizada", aponta o diretor.
"Uma mulher ferida que exige justiça, Hécuba também é um símbolo político. Essa dimensão sempre me fascinou e atinge seu clímax em uma peça sobre a aceitação da vulnerabilidade pela sociedade", diz o diretor, na apresentação da peça. "Quando um artista diz Shakespeare ou Molière, ele está reescrevendo ou traduzindo Shakespeare, ou Molière. É um exercício de imaginação. A vida dos artistas de teatro é repleta de experiências. Há uma porosidade entre atores e atrizes, suas vidas e suas interpretações das palavras que interpretam", acredita Rodrigues.
Contra a extrema direitaInspirado também por esse pacto euripidiano, o diretor Tiago Rodrigues irrompeu a cena da Carrière de Boulbon, nos arredores de Avignon, depois da estreia de Hécube, pas Hécube, no dia 30 de junho, após ser confirmada a vitória da coligação comandada por Marine Le Pen e Jodan Bardella nas eleições legislativas antecipadas da França, para convocar a coletividade presente a participar do evento La nuit d'Avignon (A noite de Avignon), uma iniciativa cidadã do festival para lutar contra "a ameaça da extrema direita" no país.
"Fiel a seus valores fundadores, e convencido que outro projeto de sociedade progressista, popular, democrática, republicana, feminista, ecologista e antirracista é desejável, o Festival de Avignon, convocando o público a se unir à Noite de Avignon, deseja encarnar o lugar vital do debate social e político”, diz o texto do evento, que acontecerá a portas abertas e gratuitamente nos dias 4 e 5 de julho no Palácio dos Papas, vitrine principal do festival, com a presença de vários artistas convidados.
O Festival de Avignon 2024 fica em cartaz no sul da França até o dia 21 de julho.
A estilista franco-brasileira Márcia de Carvalho apresentou sua mais nova coleção no "Desfile Solidário “Baguette magique” (Varinha de Condão, em português), na sub-prefeitura do 18° distrito de Paris. Suas criações têm origem no trabalho desenvolvido com sua associação, que alia moda, inserção social e desenvolvimento sustentável.
O salão principal e as escadarias do imponente edifício do século 19, situado ao norte da capital francesa, foram o cenário para apresentar o novo trabalho da estilista nascida em São Paulo e que fez carreira na França.
“A ‘varinha de condão’ é um objeto que lembra nossa infância, a possibilidade de transformar qualquer coisa em outra coisa que a gente sonha", destaca a estilista ao falar do tema escolhido para o desfile. "“Essa é alma das nossas ações. No plano do meio ambiente, transformar o inútil, dar uma segunda vida. Mas também transformar o que é menos belo em extraordinário. E dar a mão para as pessoas que estão precisando passar para outra etapa da vida”, acrescenta.
Márcia de Carvalho é fundadora da Associação Meias Órfãs, que associa moda e economia circular, social e solidária. A ONG, criada em 2008, transforma meias usadas em fios e tecidos que mobilizam uma cadeia de produção envolvendo uma população de baixa renda.
“A primeira etapa é sempre a coleta de meias, que a gente faz com empresas parceiras e também com várias instituições. Depois vem toda a parte de transformação dessas meias em fio. E uma vez que temos um fio que é a base do têxtil, transformamos em tecido, em malha, e depois em roupas e acessórios”, explica.
Tricotado, tecido, nós de macramé ou bordados fazem parte das diversas criações das peças e acessórios. O 'Desfile Solidário' foi concebido em várias temáticas, que buscaram valorizar o trabalho de criação e também mostrar a evolução técnica dos últimos 15 anos da transformação das meias.
“Tem uma parte que chamo de upcycling que é o uso da matéria-prima reciclada, mas sem uma transformação industrial. Depois tem a produção mais industrializada, que é a transformação em fibra e depois em tecido. E também tem impressões e estampas feitas feita a partir de pedacinhos de meias”, explica a estilista.
Em ano de Jogos Olímpicos e Paralímpicos, o evento esportivo inspirou a estilista, que procurou mostrar na coleção um pouco da evolução da moda esportiva e também do trabalho envolvendo crianças e adolescentes do bairro da Goutte D’Or, onde fica seu ateliê na capital francesa. “Eles escolheram seus esportes preferidos, como basquete, tênis, natação, e trabalharam na criação de pequenos quadros e estampas para camisetas”, conta.
Na passarela montada para exibir suas criações, desfilaram modelos não profissionais, manequins com deficiências, diferentes gerações, religiões e classes sociais. Essa diversidade reivindicada pela estilista. “Eu convido pessoas para desfilarem que sejam de todos os horizontes, idades, formas físicas. Enfim, a diversidade que existe na sociedade. É todo mundo junto para mostrar que esse conjunto de 'diferentes' faz uma coisa muito harmoniosa”.
Com o apoio de algumas empresas privadas e públicas e associações caritativas, o desfile anual da estilista é a ocasião para dar visibilidade não apenas às suas criações, mas ao trabalho da Associação Meias Órfãs e seus projetos de formação profissional e inserção social em um contexto de produção e consumo sustentáveis.
“O desfile é realmente para mim um sonho, porque eu posso colocar em ação tudo que eu gosto em termos de criação de arte, música, pintura e o desenho. E para mim o que também é muito incrível é a relação com as pessoas. Nesse momento, o ateliê está cheio. Nós somos uns 15 trabalhando juntos. O trabalho pode ser difícil, mas pode ser também um prazer tão grande e te deixar feliz da vida. Eu faria isso todo dia”, conclui.
O termo "Resistência", na França, determina especificamente as ações clandestinas e libertárias de uma parcela da população civil, que decidiu se organizar contra os nazistas durante a Ocupação, período em que o país foi invadido e controlado pelos alemães durante a Segunda Guerra Mundial, entre 1940 e 1944. Para marcar o 80º aniversário do direito de voto das francesas em 2024, o Museu da Ordem da Libertação realiza a exposição "Resistentes", celebrando a participação feminina nesse combate.
Elas eram francesas, mas também estrangeiras, e a maioria pagou um preço alto por seu comprometimento na luta contra a Ocupação nazista na França, mas também contra os colaboracionistas do regime de Vichy. Doutora em história e especialista em mulheres da Resistência francesa, Catherine Lacour-Astol é curadora da exposição "Resistentes" e sublinha a extrema diversidade que existia nesse grupo de mulheres que fizeram história e marcaram sua época.
"Trata-se de um grupo extremamente diversificado, o que contradiz o clichê da combatente da Resistência que é necessariamente uma jovem recém-saída da escola. A diversidade de idades é surpreendente, como mostra claramente a galeria de portraits", diz Lacour-Astol.
"Há mulheres que se juntam à resistência com mais de 60 anos. E elas desempenham um papel absolutamente essencial. No geral, temos mulheres de 15 a 70 anos, mas com uma média de idade bastante alta, e mulheres de estados civis muito diferentes. Da mesma forma, costuma-se pensar que o fato de ser casada era um impedimento para o compromisso das mulheres com a resistência. Esse não é o caso. Temos muitas mulheres casadas com filhos, mas também temos muitas solteiras, viúvas ou divorciadas, enfim, uma variedade realmente grande de estados civis", lembra a especialista.
"Da mesma forma, temos uma extrema diversidade de status profissional, pois obviamente temos mulheres que são donas de casa, mas também temos muitas estudantes e uma presença forte de profissões como professoras e outras que exigem um alto nível de diploma, com bibliotecárias, como Yvonne Odon, ou etnólogas como Germaine Tillion, que são exemplos bastante conhecidos", sublinha a historiadora francesa.
Mais de 150 objetos presentes na mostra, como documentos, papéis falsos, cartas, roupas, armas, objetos pessoais, dispositivos clandestinos, bem como memórias de deportação e testemunhos em vídeo ilustram o compromisso de mais de 50 mulheres com a Resistência francesa.
"O trabalho da [historiadora francesa, especializada em História das Mulheres] Michelle Perrot foi uma inspiração perfeita para o trabalho que foi feito aqui, mostrando precisamente que as mulheres movem as fronteiras entre o espaço privado e o público, e uma das coisas que essa exposição pretende mostrar é justamente que o lar, que é o espaço privado por excelência, quando é afetado pela guerra, torna-se uma questão política e um ponto de partida para a ação de resistência das mulheres. Foi do lar também que as mulheres saíram para a arena pública para se manifestar. Há um tipo de porosidade que ocorre entre o espaço público e o espaço privado, que não fica, de forma alguma, restrito à experiência da Resistência", lembra Catherine Lacour-Astol.
A exposição lembra que, sob a Ocupação, o lar se tornou um refúgio, mas também um ponto de encontro, um esconderijo e até mesmo um centro logístico para iniciar uma luta da qual as mulheres participaram desde o início, mesmo que apenas abrindo as portas de suas casas."O que temos aqui é uma ação transgressora que desestabiliza a ordem de gênero sempre que as mulheres se envolvem, porque logicamente elas não deveriam intervir em praça pública. O preço que elas pagam por isso é realmente muito alto. Isso é exatamente o que André Malraux quis dizer quando falou da Resistência como ‘voluntárias de uma agonia atroz’", diz
Na França, há 80 anos, as mulheres se tornaram cidadãs em pé de igualdade com os homens. O direito de voto para todos consagrou um compromisso da Resistência das mulheres que, assim como o dos homens, foi obra de uma pequena minoria. "Elas não foram executadas em território nacional. Essa é uma diferença enorme em relação aos homens. Porque as execuções por fuzil são emblemáticas do sangue derramado pelos homens, mas as mulheres foram internadas ou deportadas. Mais de oito mil mulheres francesas foram deportadas para o maior campo de concentração da Alemanha, um campo para mulheres, Ravensbrück, perto de Berlim", relembra a historiadora francesa.
Os Francs-tireurs et partisans - main-d'œuvre immigrée (FTP-MOI) eram um subgrupo da organização Francs-tireurs et partisans (FTP), um componente importante da Resistência Francesa. Uma ala composta principalmente por estrangeiros, o MOI manteve uma força armada para se opor à ocupação alemã da França durante a Segunda Guerra Mundial. O Main-d'œuvre immigrée era o "Movimento de Imigrantes" da FTP. O último membro sobrevivente do Grupo Manouchian da FTP-MOI, o combatente da resistência Arsène Tchakarian, morreu em agosto de 2018.
"Havia mulheres de origem estrangeira que obtiveram a nacionalidade francesa. E há muitos estrangeiros que não obtiveram a nacionalidade ou que não a solicitaram e que estão muito presentes entre os combatentes livres e, em particular, nas fronteiras partidárias, trabalho imigrante, FTP-MOI. Muitas mulheres polonesas, russas, romenas, e uma presença muito grande de resistentes espanholas, especialmente no Maciço Central", conclui Catherine Lacour-Astol.
Omolu, Xangô, Nanã, Oxum, Iemanjá, Oxóssi, Exu, Iansã: o panteão do sincretismo afrobrasileiro está presente na Galeria 59, no prestigioso endereço da rua de Rivoli, no primeiro distrito da capital francesa, até o dia 24 de junho durante a exposição "Ecos dos Orixás: conectando mundos por meio da arte e do diálogo". Mitos e lendas desse imaginário são convocados por diferentes artistas, além de uma série de especialistas que traçam um painel da representatividade desse universo.
A exposição reúne pinturas de Ed Ribeiro, fotografias de Stéphane Munnier, uma instalação do arquiteto e cenógrafo Humberto Macêdo e composições musicais de Altay Veloso. Voltado para adultos e crianças, o programa também inclui duas palestras, de Valeria Sardenberg Mafra e Julio Cesar Cesano Peña, além de uma sessão de contação de histórias apresentada por Samile Possidonio. Cada palestra abordará um tema específico relacionado ao tema geral da exposição. Já o diálogo entre as artes visuais e acústicas visa explorar com mais profundidade os vínculos entre arte e mitologia.
O criador de "Eco dos Orixás", o curador Paulo Sérgio Rufino Henrique conta a inspiração para o evento. "Idealizar o 'Eco dos Orixás' veio num momento importante da gente poder refletir nesse momento atual do mundo as questões de intolerância, principalmente as questões de intolerância religiosa, o racismo religioso que tem sido visto principalmente no Brasil, contra todos aqueles que professam as religiões de matrizes africanas. Tivemos aí vários casos recentes de assassinatos de líderes religiosos de religiões de matriz africanas devido a esse racismo religioso e dessa ignorância sobre o direito do outro de professar a religião que deseja", pontua.
Rufino celebra a pertinência da mostra e sua relação com Paris. "O 'Eco dos Orixás' acontece aqui no centro de Paris, na cidade-luz, neste momento tão importante que a França vive, neste momento pré-olímpico. Trazemos grandes artistas e entre eles o Ed Ribeiro, que é o pintor dos orixás, que traz aí dentro da sua visão e a sua técnica inovativa", afirma Paulo Sérgio Rufino Henrique, idealizador do projeto.
"Pintei quase um ano com pincéis de espátula e outros instrumentos, e com mais ou menos uns 6 meses essa mesma força, essa mesma energia que me escolheu para pintar, me deu uma técnica que é única no mundo. Eu sou o único que derrama tinta para criar formas e movimentos sem usar nenhum instrumento", conta Ed Ribeiro.
"A cultura permite essa influência espiritual que representa a herança africana no Brasil, que é tão responsável pela formação e a criação do povo brasileiro, assim como também a dos povos originários. Porque quando a gente fala de religiões e matrizes africanas, devemos lembrar não só o candomblé, como a umbanda, o vodu, entre outras. Mas todas elas trazem uma visão positiva e também ecológica da preservação do ecossistema", sublinha Rufino.
"E através disso, nesse momento humano tão importante, que vemos também catástrofes ecológicas, que chegamos ao entendimento da ancestralidade africana, através da reverência aos orixás, que nos faz lembrarmos da preservação do nosso planeta, da nossa morada e da nossa casa", diz o artista. "Uma vez Carlinhos Bown me disse que as forças procuram quem tenha a ligação com elas", lembra Ribeiro.
“O eco, ele vem no vento, mas ele segue e ele leva essa energia normalmente para as pessoas que estão precisando dela, entendeu? Que têm essa conexão com ela. Então essa é a finalidade dessa exposição, trazer a energia dos orixás para as pessoas que precisam dela, que estão precisando dela”, conclui o artista.
A exposição ficará em cartaz por duas semanas até 24 de junho e contará com uma série de palestras e sessões de contação de histórias destinadas a enriquecer a experiência dos visitantes:
“La chair du tourbillon”, que pode ser traduzido como “o âmago do turbilhão” ou “o olho do furacão”, é uma exposição de fotografia coletiva que acontece em Paris, reunindo artistas francesas e da América Latina, sendo seis do Brasil. Descolonização do corpo, ecofeminismo e combate ao etarismo estão entre as propostas apresentadas por onze fotógrafes.
Patrícia Moribe, em Paris
“La Ima é um programa de mentoria baseado em Paris. A ideia é acompanhar fotógrafes, mulheres a princípio, mas também da comunidade LGBTQIA+. E isso nos permite nos conectar com pessoas de todas as origens e também de todas as idades”, explica Oleñka Carrasco, à frente da estrutura La Ima, em Paris. "O objetivo é acompanhar esse grupo de artistas, para colocar no mercado de arte trabalhos que tenham relação com o gênero ou com o corpo, entendendo o corpo como uma coisa muito ampla”, acrescenta.
A curadora Ioana de Mello conta que uma primeira fase foi realizada só com artistas da América Latina. “E aí a gente descobriu que, na verdade, os diálogos ultrapassam fronteiras e são incrivelmente próximos. O que mulheres francesas e latino-americanas estão passando é muito próximo, então o diálogo se forma muito facilmente. Foi bonito ver isso.”
Uma das participantes é a fotografa brasileira Daniela Balestrin, que expõe “Thereza”, todo em técnica de cianotipia. “Thereza é o nome de minha bisavó paterna. Que durante décadas foi apenas referida como a mãe morta do meu avô. Seu nome foi silenciado. Eu desconhecia qualquer coisa a respeito dela que não fosse o fato de ter sido mãe e de ter morrido. Também desconheço qualquer imagem sua. E esse trabalho desenvolvi nessa busca, então, por essa minha ancestral”, conta a artista.
Já Simone Marinho trabalhou sobre os ciclos femininos. "O trabalho que eu apresento em Paris é sobre as experiências dos meus ciclos como mulher, tanto da minha relação com a menstruação, como com as gestações que eu tive, com a experiência do parto, do puerpério", explica Simone Marinho. "Também a experiência do aborto espontâneo que eu sofri e agora do climatério, fase que antecede a menopausa, marcando o fim dos ciclos menstruais. Então, quando eu me dei conta de que um ano depois do meu último ciclo esses ciclos não se repetiriam mais, eu resolvi registrar, por meio da fotografia, o meu próprio corpo", acrescenta.
O local de exposição é privilegiado, uma vitrine de esquina, com a prefeitura de Paris de um lado e o rio Sena do outro. “A gente brinca muito com o espaço, com a questão de ter essa vitrine, essas janelas enormes que dão para a rua e para uma rua super movimentada. Então tem os olhares de dentro para fora, de fora para dentro, os olhares para os olhares, para as mulheres”, explica a curadora Ioana Mello.
“Desde o início do programa, que começou em 2022, vemos que há uma busca por uma investigação real sobre as noções que estão relacionadas ao corpo e ao gênero. Também com o feminismo, com o ecofeminismo, com a descolonização do corpo. E quando falamos de transição, falamos de transição de gênero, mas também de transição etária, porque é muito importante ver que em La Ima tocamos num ponto que não se vê muito no mercado de arte, que é a questão do preconceito de idade, o etarismo”, explica Oleñka Carrasco.
“Abordamos a questão de ciclos, trabalhos que têm a ver com a menopausa, com a menstruação, com a maternidade. Isso diz respeito à metade da população mundial. São problemas que enfrentamos nos nossos próprios corpos, que é preciso poder disponibilizá-los para que o público possa ver esses modelos de representação”, acrescenta Carrasco.
Participam da exposição: Stéphanie Kowalski, Laurence Lebon, Simone Marinho, Marilene Ribeiro, Daniela Balestrin, Jennifer Cabral, Alessandra França, Franklin Garcia, Flavia Raddavero, Mezli Veja Osorno e Bella Tozini.
A exposição acontece nos Arches Citoyennes, em Paris.
A participação brasileira no 77° Festival de Cannes confirma a boa recuperação da produção cinematográfica nacional. Os seis filmes selecionados em várias mostras, mais um projeto em desenvolvimento, são apenas a ponta do iceberg dessa fase chamada de ressurgimento. Em Cannes, produtoras tentam ampliar coproduções e a internacionalização do cinema brasileiro.
Dezenas de produtores, distribuidores e cineastas participaram do Mercado do Filme, que acontece ao mesmo tempo que o Festival de Cannes, (e é tão importante quanto as mostras competitivas). Durante duas semanas, eles se encontraram com profissionais do mundo inteiro para fechar negócios e parcerias.
A participação brasileira nessa edição 2024 começou com uma fala da secretária do Audiovisual do Ministério da Cultura, Joelma Gonzaga, sobre “a política do governo para o setor, as perspectivas e o cenário do Brasil para a internacionalização”.
Ela também falou sobre os preparativos para a temporada cultural cruzada entre o Brasil e a França em 2025, um evento muito importante para o setor cinematográfico. Segundo Joelma, a “França é um dos principais parceiros de coprodução cinematográfica do Brasil. Então, celebrar essa temporada cruzada é mais um motivo de potencializar essa relação”, indicou.
A secretária do Audiovisual ressaltou que essa forte presença de filmes brasileiros em Cannes este ano é reflexo dos R$ 2 bilhões investidos pelo governo no último ano. “Todos esses projetos, todas essas obras (selecionadas), contaram com financiamento público no Brasil, em âmbito federal e estadual”, informa.
Coproduções com a África e projetos com a ÁsiaA SPcine marcou presença no Mercado do Filme de Cannes pelo terceiro ano consecutivo. A empresa de cinema e audiovisual de São Paulo cofinanciou dois dos longas selecionados este ano: “Motel Destino”, de Karim Aïnouz, e “Baby”, de Marcelo Caetano.
No evento, a presidente da SPcine, Lyara Oliveira, participou de dois eventos importantes para a internacionalização da produção e atração de filmagens para São Paulo; o Spotlight Asia e o AfroCannes.
Para Lyara Oliveira, reforçar as parcerias com a África é um dos eixos prioritários da empresa. “Nós entendemos os profissionais negros do audiovisual brasileiro como profissionais da diáspora africana. Para a gente é extremamente interessante e muito pertinente, promover essa articulação, promover essa aproximação”, declarou à RFI.
Nesse sentido, a SPcine assinou, em Cannes, com a África do Sul, um edital de desenvolvimento de projetos “para que essa articulação entre os dois países, essa coprodução seja fomentada. É um primeiro passo”, acredita.
Globo Filmes comemora 25 anosOutra produtora de destaque que marca presença em Cannes e participou do “ressurgimento” do cinema nacional é a Globo Filmes. A empresa, uma das maiores do Brasil, completa 25 anos.
Em Cannes, a produtora, dirigida por Simone Oliveira, comemorou o aniversário com a seleção de “Motel Destino”, de Karim Ainoüz, na disputa pela Palma de Ouro e coproduzido por ela. O longa de Aïnouz foi apenas um dos filmes produzidos pela Globo Filmes selecionado em grandes festivais este ano.
Simone Oliveira indica que esse ressurgimento da produção nacional teve ainda um outro lado positivo. “A gente teve a volta do público para assistir filmes brasileiros no cinema, que até então estava mais difícil. Esse ano a gente teve três grandes sucessos comerciais nos cinemas brasileiros. Então, esse alívio de começo de ano foi duplo”, festeja, lembrando o contexto de concorrência com as plataformas de streaming.
Com campanhas que têm o apoio de outras empresas da Globo, ela garante que “a gente consegue dar uma visibilidade muito grande para o filme no Brasil”.
“A Menina e o Pote"A cineasta pernambucana Valentina Homem pôde vir a Cannes graças ao financiamento público e apoio do Itamaraty. Ela foi selecionada para a mostra paralela Semana da Crítica com o curta de animação “A Menina e o Pote”, uma história distópica inspirada na mitologia indígena.
A cineasta afirma que é “uma resiliente” porque fez o curta e um longa, que também está lançando agora no Brasil, "num contexto de muita dificuldade, de muita oposição”. Por isso, fez questão de ressaltar em seu discurso antes da exibição do filme a importância da atual política do governo brasileiro para o setor.
“Historicamente, esse é um governo (do PT) que fomenta, que tem uma preocupação com a cultura. Isso tem um significado político muito importante. A gente não podia deixar de mencionar isso”, justifica.
Outra característica marcante dessa recuperação do cinema brasileiro é a diversidade. Os filmes selecionados em Cannes são uma prova disso. Eles mostram na tela temáticas queer, indígena, de discriminação racial, violência e erotismo. Sem falar na forte presença de mulheres, como as entrevistadas para esta matéria.
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Reportagens sobre exposições, concertos e espetáculos na França. Destaque para os artistas brasileiros e suas criações apresentadas na Europa. Na literatura, lançamentos e as principais feiras de…

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