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By RFI Brasil
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  • Proposta de reforma imigratória em Portugal leva a “corrida” de brasileiros por nacionalidade

    Anunciado após uma reunião do Conselho de Ministros de Portugal na última segunda-feira (23), um projeto de lei prevê mudanças significativas no processo de obtenção da nacionalidade portuguesa e no reagrupamento familiar — medidas vistas como um retrocesso por organizações da sociedade civil e especialistas. A proposta de reforma traz preocupação às comunidades imigrantes, como a brasileira.

    Lizzie Nassar, correspondente da RFI Brasil em Lisboa

    Entre os pontos mais controversos está o aumento do tempo mínimo de residência legal para imigrantes que desejam solicitar a nacionalidade. O prazo passaria de cinco para sete anos no caso de cidadãos da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP), incluindo os brasileiros, e para dez anos no caso de estrangeiros de outros países.

    Além disso, o governo propôs restringir a concessão de vistos de trabalho apenas a profissionais qualificados e incluir a possibilidade de retirada da nacionalidade portuguesa em casos de crimes graves com sentença judicial. A proposta também altera as regras de reagrupamento familiar, exigindo agora que o pedido seja feito ainda no país de origem e apenas após dois anos de residência legal em Portugal por parte do solicitante.

    Esclarecimento e corrida pela nacionalidade

    Após dias de incerteza, o governo português esclareceu ao jornal O Público Brasil, na tarde desta sexta-feira (27), que imigrantes que já tiverem completado cinco anos de residência legal até o dia 18 de junho de 2025 poderão ainda solicitar a nacionalidade com base nas regras atuais.

    A advogada Marcelle Chimer, que atua com imigração em Lisboa, confirma o aumento repentino na busca por informações e pedidos de naturalização. “Está acontecendo uma verdadeira corrida”, explica. “Estamos aconselhando quem já completou os cinco anos a dar entrada o quanto antes. Apesar do anúncio, a proposta ainda precisa passar pelo Parlamento. Certamente haverá alterações no debate parlamentar, especialmente sobre a retroatividade", adverte.

    Até o momento, o Parlamento português ainda não definiu uma data para a votação do projeto. O Conselho Nacional para as Migrações e Asilo enviou uma nota à imprensa criticando a ausência de diálogo e pedindo maior participação das comunidades afetadas nas discussões legislativas.

    Reagrupamento familiar: um obstáculo adicional

    A nova proposta dificulta consideravelmente o reagrupamento familiar. Atualmente, muitos imigrantes conseguem trazer seus cônjuges ou filhos diretamente após receberem autorização de residência. Com as mudanças, será necessário esperar dois anos e solicitar o visto ainda no país de origem.

    Francisco Paulo, um trabalhador brasileiro do Ceará, compartilha sua experiência frustrante com o sistema atual. Ele chegou a Portugal há 10 meses com contrato de trabalho e visto legal, mas enfrentou obstáculos inesperados ao tentar trazer a esposa. “Tive que entrar com processo judicial e gastar 800 euros para acelerar o reagrupamento. Ninguém me informou que eu poderia fazer isso ainda no Brasil. Foi uma surpresa amarga”, contou.

    Representantes da comunidade imigrante e organizações de apoio também criticaram duramente as propostas. Para Cyntia de Paula, vice-presidente da Casa do Brasil de Lisboa e conselheira no Conselho Nacional para as Migrações, as medidas representam um retrocesso sem precedentes.

    "Essas mudanças ferem inclusive princípios constitucionais portugueses. Impedir o reagrupamento familiar é um ataque ao direito básico de viver em família. Portugal sempre foi referência em políticas migratórias inclusivas, e agora vemos uma proposta que pode gerar mais desigualdade, mais exploração", afirma.

    Ela aponta que as novas regras podem afetar negativamente o próprio mercado de trabalho português. “Grande parte da força de trabalho nos setores essenciais vem de imigrantes. Dificultar a permanência e o reagrupamento pode prejudicar as empresas, que já enfrentam escassez de mão de obra.”

    Clima de incerteza

    Enquanto o Parlamento não define o futuro da proposta, a comunidade imigrante vive entre a ansiedade e o medo. Organizações como a Casa do Brasil têm recebido um volume crescente de pedidos de informação, e muitos imigrantes temem ter que deixar o país ou viver em situação irregular.

    A advogada Marcelle Chimer recomenda cautela. “É hora de esperar e acompanhar o processo legislativo. Ainda há muito a ser debatido. A versão final da lei pode ser bastante diferente do que foi inicialmente anunciado.”

    Francisco e sua esposa já cogitam deixar o país, caso o reagrupamento não seja possível. “Não quero viver ilegalmente. Se o processo não avançar, vamos considerar voltar ao Brasil ou tentar outro país europeu.”

    Leia tambémRemessas de dinheiro enviadas ao Brasil por imigrantes em Portugal batem recorde em 2024

    8 min
  • Instalação que usa IA para visualizar o "futuro dos sonhos" estreará no Brasil para a COP30

    Imaginar o futuro e vê-lo desenhado à sua frente, literalmente. Essa é a proposta da experiência imersiva The Lumisphere, que promete ressignificar a maneira como nos conectamos com o futuro do planeta. O convite é para que o público use o poder da imaginação coletiva e aproveite a tecnologia que existe hoje para criar o mundo que desejamos.

    Cleide Klock, em Sacramento (Califórnia) para a RFI

    A instalação estará na praça do Museu do Amanhã, no Rio de Janeiro, a partir de 1º de outubro, onde ficará até dezembro, coincidindo com a realização da COP30, a Conferência da ONU sobre a Mudança Climática, sediada este ano em Belém. Antes de embarcar para o Brasil, a RFI visitou a obra com exclusividade em Sacramento, capital da Califórnia, onde foi construída.

    A instalação, composta por três domos e com cerca de 750m2, foi criada em uma parceria da plataforma interdisciplinar Visions2030 com o estúdio de design Minds Over Matter. Mais do que arte ou tecnologia, a experiência é um ritual coletivo de imaginação: um lembrete de que a criatividade não é luxo, mas necessidade — e que cada pessoa, ao visualizar o futuro que deseja, pode começar a construí-lo. 

    “Queremos democratizar o acesso a conversas sobre o futuro. Acreditamos no superpoder da imaginação humana", explicou a diretora-executiva da Visions2030, Elizabeth Thompson. "Este projeto foi criado para alcançar milhões de pessoas e ajudá-las a liberar sua imaginação, sonhar com o futuro que desejam e, então, conectar-se a recursos, outras pessoas, organizações e projetos onde possam começar a ativar suas ideias para o futuro, se envolver e mudar o nosso mundo".

    Uma jornada em três atos

    No Domo 1, os visitantes se reúnem ao redor de uma “fogueira digital”. É o espaço de conexão e acolhimento para entender o presente: uma introdução sensorial à ideia de que, embora o planeta esteja em risco, a humanidade também é capaz de feitos extraordinários.

    O Domo 2 oferece uma experiência audiovisual imersiva, que “expande a consciência” e estimula a imaginação. A proposta é criar um momento de pausa e contemplação, onde cada pessoa fica deitada em uma cadeira confortável assistindo a projeções coloridas no teto. A partir daí, a proposta entra em um estado de "sonho guiado", usando tecnologia imersiva para cada um descobrir sua própria utopia.

    No Domo 3, com a ajuda de uma plataforma personalizada de inteligência artificial, os visitantes descrevem suas visões e sonhos de futuro. Em segundos, recebem uma imagem em um telão gerada a partir de suas palavras. Essa imagem é enviada por e-mail, servindo como símbolo pessoal do futuro sonhado.

    Travis Threlkel, CEO da empresa Minds Over Matter, explica que até a estreia no Rio, novas atualizações serão feitas na parte de tecnologia, já que a cada dia as ferramentas de inteligência artificial se aprimoram. “Temos o que há de mais moderno em projeção a laser em nossas cúpulas para proporcionar ao público uma imersão ambiental de 360º. Ao final da imersão, nossa experiência interativa é impulsionada por análises e gráficos baseados no que há de mais novo em IA. Ela ajuda a gerar a visão de futuro que nossos visitantes estão arquitetando".

    Brasil: ponto de partida e inspiração

    A escolha do Brasil como primeira parada da turnê global da Lumisphere não foi casual, conta Carey Lovelace, fundadora da Visions2030. “O Museu do Amanhã compartilha valores fundamentais conosco: imaginação, futuro, sustentabilidade. Desde o primeiro momento, sentimos que essa parceria era natural. O prédio, projetado por Santiago Calatrava, é quase uma escultura do amanhã”, diz Lovelace.

    A instalação será um dos destaques da programação de uma série de eventos que visa preparar e engajar o público brasileiro para os debates que acontecerão em Belém durante a COP 30 (30ª Conferência das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas),  de 10 a 21 de novembro.

    “Estamos muito animados em fazer a instalação junto com a COP 30, que pode ser a COP mais importante de todas, considerando tudo o que está acontecendo agora, e também estamos a apenas cinco anos do prazo do plano global de sustentabilidade da ONU (a Agenda 2030) Parece que este é o momento perfeito para estarmos lá e ajudar as pessoas a sonhar, a trazer o sonho para a equação da discussão climática, porque muitas vezes a questão é o medo, uma espécie de raiva, mas precisamos sonhar juntos de verdade", completa Carey.

    Um convite para sonhar — e agir

    A proposta da Lumisphere não é apenas simbólica. Ao final da temporada brasileira, espera-se que mais de 100 mil pessoas tenham passado pelos domos e criado suas visões de futuro. Todos os dados, de forma anônima, serão analisados para identificar padrões de esperança, desejo e transformação.

    Em uma parceria entre a Unesco e o Institute for de Future, de Palo Alto, na Califórnia, será gerado um censo sobre o futuro, mapeando mudanças e oferecendo insights sobre o pensamento do público nas questões de sustentabilidade e futuro do planeta. O resultado será compartilhado com a comunidade e com tomadores de decisão envolvidos nas negociações climáticas.

    A instalação The Lumisphere estará aberta ao público gratuitamente no Museu do Amanhã, de 1º de outubro a 19 de dezembro. Cada jornada individual dura cerca de 30 minutos. Após a passagem pelo Brasil, a experiência continuará uma turnê mundial de cinco anos.

    7 min
  • Encontro internacional em Lyon discute cinema feito por descendentes de japoneses no Brasil

    Pesquisadores do Brasil, França, Estados Unidos e Japão se reuniram - presencialmente ou online - na Escola Normal Superior (ENS), em Lyon, no oeste da França, para discutir durante dois dias (24 e 25 de junho) as perspectivas históricas e estéticas do cinema realizado pela diáspora japonesa no Brasil.

    Patrícia Moribe, em Lyon

    As discussões sobre o cinema amarelo no Brasil foram permeadas por questões de preconceito, aculturamento, ancestralidade, pertencimento e construção de identidade. Presencialmente ou online, os participantes apresentaram aspectos históricos e discutiram a identidade nipo-brasileira forjada a partir de culturas e experiências geograficamente opostas.

    A chegada oficial do primeiro navio de imigrantes japoneses ao porto de Santos foi em 1908. A imigração nipônica foi fruto de um acordo entre os governos do Japão, que tinha em seu território uma crescente população carente, e do Brasil, que buscava alternativas de mão de obra barata após o fim da escravidão em 1888.

    Essa parte da história foi retratada pelo longa “Gaijin, Os Caminhos da Liberdade”, de Tizuka Yamazaki, prêmio da crítica internacional em Cannes, em 1980. A cineasta Olga Futemma, que coordenou a Cinemateca Brasileira por mais de 30 anos, também tratou dessa temática em seus curtas. O trabalho seminal das duas cineastas foi citado por vários participantes, principalmente na mesa dedicada às mulheres cineastas.

    Estima-se que dois milhões de japoneses e descendentes vivam no Brasil, representando a maior comunidade de chamados “nikkei” (japoneses) fora do Japão.

    Fenômeno dekassegui

    O encontro em Lyon discutiu também o retorno, a partir dos anos 1980, de parte dessa população ao Japão. Na época, o país atravessava um boom econômico e necessitava de mão de obra não qualificada.

    Uma das exigências do Japão era que o candidato a dekassegui tivesse antepassados japoneses. Esse fenômeno diminuiu nas últimas décadas, mas nunca foi interrompido. Hoje cerca de 200 mil brasileiros e descendentes vivem no Japão.

    Há imigrantes que ficam no Japão, que voltam para o Brasil, ou que fazem idas e voltas, como retrata o documentário “Bem-Vindos De Novo” (2021), de Marcos Yoshi, exibido no encontro em Lyon.

    "É um filme a respeito da história da minha família, do meu núcleo familiar, dos meus pais e das minhas irmãs. Meus pais decidiram ir para o Japão como dekasseguis em 1999. E por conta disso a família se separou. Os filhos ficaram no Brasil, meus pais foram para o Japão, a princípio para ficar 3 anos, e acabaram ficando uns 13 anos. E o filme é o retrato dessa experiência. Mas também é o momento em que meus pais voltam para o Brasil e a família se reencontra e a gente precisa lidar com os sentimentosos sentimentos e com as feridas que ficaram de certa forma abertas.”

    Alienação e solidão

    Marcos Yoshi, que também é pesquisador, apresentou em uma das mesas de discussão um outro lado da moeda do fenômeno dekassegui. Muitos brasileiros sofrem com a alienação e a solidão no Japão, acabando por desenvolver problemas psiquiátricos. Essa problemática é também tema do novo projeto de documentário de Yoshi, tendo a história de um tio paterno como fio condutor para falar dos dekassegui e as consequências desse retorno.

    Outro filme exibido no final do primeiro dia de discussões foi “Amarela”, de André Hayato Saito, selecionado pelo festival de Cannes de 2024. O curta trata da jovem Erika, fã de futebol, na época da final da Copa do Mundo de 1998, quando fica dividida entre o seu mundo carregado ainda de forte influência japonesa e a discriminação que sofre no dia a dia.

    O pesquisador Hugo Katsuo, da Universidade Federal Fluminense, destacou curtas realizados em Curitiba, dando uma outra perspectiva a uma produção geralmente centrada em São Paulo. O franco-japonês Tristan Chiffoleau, pesquisador no Japão, falou sobre o filme “Okinawa-Santos” (2020), que retrata um episódio pouco conhecido da expulsão de japoneses de Santos em 1943, sendo a maioria de origem okinawana, etnia marginalizada no Japão.

    Já Tomyo Costa Ito, da USP, falou sobre uma descoberta que realizou quando fazia parte do projeto Nitrato, da Cinemateca Brasileira, de arquivamento e preservação de filmes.

    “É um filme de 1950 em que os melhores nadadores da época, que eram japoneses, vieram para o Brasil e participaram de um tour visitando cidades por São Paulo com comunidades japonesas. O filme também traz esses elementos de uma certa propaganda do desenvolvimento do Estado. Na época, os governantes estavam preocupados em transmitir uma imagem de São Paulo como um o lugar de modernidade e de desenvolvimento dentro do Brasil”.

    Com estética dos cinejornais da época, o material está montado e narrado, mas, no entanto, não tem créditos, ou seja, ele é virtualmente anônimo. Para descobrir pistas, Ito foi atrás de fontes como jornais da época, mas relata que a pesquisa foi um grande desafio.

    O Brasil como utopia

    Alexandre Nakahara, da USP, em participação online, apresentou filmes japoneses que tratavam do Brasil como uma utopia, o sonho do Eldorado. Entre eles, “Viver no Medo” (1955), de Akira Kurosawa, sobre o dono de uma fábrica no Japão que, abalado pelo medo de um ataque nuclear, planeja se mudar com toda a família para a segurança de uma fazenda no Brasil.

    Os pesquisadores apresentaram também filmes que evocavam o Brasil dos dekasseguis ou o Japão dos imigrantes, realizados por japoneses, brasileiros e franceses.

    O colóquio do Japão ao Brasil e vice versa, perspectivas históricas e estéticas de um cinema de diáspora, foi organizado pelos doutorandos Romane Carrière, Emmanuel Dayre e Lucie Ryzdzek.

    8 min
  • Neguinho da Beija-Flor revela música e fala sobre planos de desfile de escolas de samba na Europa

    Neguinho da Beija-Flor disse adeus este ano como intérprete de sambas-enredo na Marquês de Sapucaí, mas às vésperas de completar 76 anos, não fala em aposentadoria. Em entrevista exclusiva à Rádio França Internacional, Neguinho da Beija-Flor, que nasceu Luiz Antônio Feliciano Marcondes, falou de seu novo trabalho, o álbum Empretecendo, feito com Xande de Pilares, e de seu projetos de levar desfiles das escolas de samba para Portugal.

    Lizzie Nassar Valença, correspondente da RFI em Portugal

    Em um bate-papo, Neguinho da Beija-Flor, o eterno intérprete da Beija-Flor de Nilópolis, revelou novidades sobre sua vida pessoal e profissional. Agora morando entre Portugal e o Brasil, o cantor, que completou recentemente 50 anos de carreira, compartilhou sua música inédita, "por toda vida, Beija-Flor", além de falar sobre planos.

    Neguinho da Beija-Flor e seus planos de levar o samba para a Europa

    Com novo endereço, em Vila Nova de Gaia, na região do Porto, Neguinho compartilhou seus grandes planos para a música brasileira no continente europeu. “A minha pretensão é levar o desfile das escolas de samba para Portugal. É a mesma língua, temos uma conexão muito forte... Estamos falando nisso já para 2026”, afirmou o cantor.

    Essa ambição é mais do que um simples sonho, é um projeto que Neguinho já começa a desenhar. A ideia é criar uma grande celebração do samba em terras lusas, algo que pode se tornar um marco para a cultura brasileira no exterior.

    Entre o Brasil e Portugal: Uma nova fase na vida de Neguinho

    Apesar de estar se dividindo entre os dois países, Neguinho admite que ainda está em um processo de adaptação. “A minha esposa é neta de português e nós gostamos muito de lá. Mas é difícil, o umbigo está enterrado no Brasil. Quando você vai para lá, dá vontade de voltar, e quando está aqui, pensa que lá estava legal. Estamos ainda indecisos”, brinca o sambista, mostrando a dificuldade de se estabelecer em outro lugar, mesmo com a proximidade da cultura e a língua.

    Essa fase de transição também trouxe uma nova inspiração para o músico. A canção "Por toda vida, Beija-Flor", escrita em sua nova residência no Porto, é um reflexo desse momento de vida e celebra seus 50 anos de carreira.

    Em sua nova casa, rodeado por boas memórias e muitas reflexões, Neguinho compôs a canção, que traz um olhar íntimo sobre sua trajetória e sua conexão com o samba. A letra, que traduz o carinho por sua história, está repleta de sentimentos de renovação e reverência aos anos de dedicação ao samba.

    Memórias de uma vida dedicada à música

    A entrevista também foi um momento de relembrar o início de sua jornada musical, com imagens de sua juventude e primeiros passos no samba. “Eu venho de uma família de músicos. A música sempre esteve presente. Lembro que ganhei um prêmio de duas latas de goiabada por cantar em um parque de diversão, com apenas 9 anos”, compartilhou, com um sorriso nostálgico.

    Neguinho também falou sobre sua experiência nas Forças Armadas. “Eu servi na Aeronáutica entre 1967 e 1971, uma época sem celulares ou câmeras. A única pessoa que tem fotos dessa época é o meu amigo Barbosa, um irmão que sempre esteve ao meu lado. E todo dia 29 de junho, no meu aniversário, nos encontramos”, disse emocionado.

    Aposentadoria? Não

    Apesar de ter sido anunciado como aposentado, Neguinho desmentiu os boatos e explicou a situação: “Eu não fui feliz na forma como me expressei. O que eu queria dizer é que estou passando o microfone para a nova geração. 50 anos foi o suficiente. A avenida é um ciclo longo, mas poucos conseguem alcançar essa meta na mesma escola. Agora é hora de dar espaço aos novos talentos”, explicou.

    O cantor afirmou ainda que a Beija-Flor está promovendo um reality show para escolher o próximo cantor a seguir seus passos. "Não tem substituto para o Neguinho. A Beija-Flor vai escolher entre os cantores que já me acompanham na avenida, e está sendo muito difícil, porque todos são meus amigos", afirmou.

    O futuro: Turnê pela Europa e um projeto com Xande de Pilares

    Com sua mente voltada para novos horizontes, Neguinho também revelou que está em processo de gravação de um DVD ao lado de Xande de Pilares. O projeto Empretecendo reúne 22 faixas compostas por ele e com convidados especiais como Zeca Pagodinho, Ferrugem, Renato da Rocinha e Alcione. “O Xande me fez uma homenagem cantando todas as músicas que marcaram a minha carreira. Já está nas plataformas digitais, e agora vamos gravar o DVD na Cidade do Samba”, contou.

    Além disso, Neguinho confirmou que fará uma turnê pela Europa, com shows previstos para Portugal, França, Bélgica e Alemanha. “Vou começar por Portugal, mas a ideia é seguir por vários países. A música brasileira precisa chegar ao mundo e esse é o nosso objetivo”, disse, empolgado.

    Novos rumos e mais inspirações pela frente

    Em breve, Neguinho retorna à Europa para continuar seus projetos e, quem sabe, se inspirar em novas músicas e ideias. “Eu devo chegar no dia 20 de julho e ficar até 10 de setembro. Vamos rodar a Europa com esse projeto e ver o que mais vem por aí", concluiu.

    Com uma carreira sólida, Neguinho da Beija-Flor continua a fazer história e levar o samba para novos públicos, sempre com o espírito renovado e os olhos voltados para o futuro.

    6 min
  • Brasileiros em Israel relatam ‘medo’ e ‘estado de choque’ diante do conflito contra o Irã

    Mais de uma semana após o início da ofensiva maciça lançada em 13 de junho pelo exército israelense contra o Irã, os moradores de Israel convivem com um novo cotidiano: sirenes diárias, ataques ao longo do dia e uma ameaça sem precedentes, mesmo para uma população "acostumada" a conflitos. Neste sábado (21), o governo de Israel afirmou ter conseguido retardar a capacidade de desenvolvimento de uma bomba atômica pelo Irã, após novos ataques aéreos a uma instalação nuclear em Isfahan, na região central do país. Em seguida, o Irã atingiu um prédio residencial no norte de Israel, sem registro de vítimas até o momento. 

    Henry Galsky, correspondente da RFI em Israel

    Se, durante os conflitos com o Hamas na Faixa de Gaza ou com o Hezbollah no Líbano, a vida no interior de Israel ainda mantinha uma aparência de relativa normalidade, a guerra contra o Irã mudou drasticamente esse cenário.

    Nos ataques contra Petach Tikva, na região central de Israel, um casal morreu dentro do abrigo protegido do apartamento. O Comando da Frente Interna — braço do Exército responsável por orientar a população civil —, reconheceu que, no caso de um ataque direto, mesmo os abrigos reforçados garantem proteção total.

    Apesar dos sistemas de defesa avançados, os mais de 500 mísseis balísticos disparados pelo Irã têm se mostrado desafiadores. Em apenas uma semana de conflito, ao menos 24 israelenses foram mortos em ataques da República Islâmica.

    Brasileiros em 'choque' em Israel

    A RFI conversou com brasileiros que vivem em Israel para entender como têm sido os últimos dias no meio de uma guerra inédita na região. 

    Sarah Salomão Neta, cozinheira e guia de turismo, mora sozinha em Bat Yam, cidade que faz parte da região metropolitana de Tel Aviv. A casa dela foi destruída por um míssil iraniano que atingiu o prédio em frente. 

    Ela estava no "miklat", o termo em hebraico para o abrigo coletivo, que fica na parte de baixo dos edifícios. Este tipo de abrigo é muito comum, em especial em prédios mais antigos construídos antes de 1993, quando uma lei aprovada pelo parlamento israelense determinou que todas as novas construções deveriam ter um quarto protegido no interior dos apartamentos. 

    "Para mim só a parte da frente do prédio tinha sido destruída. Depois subi no apartamento e tudo estava destruído. A porta de madeira estava caída no chão, a janela tinha caído na poltrona, no meu quarto todas as paredes caíram", conta Sarah, que está temporariamente hospedada em um hotel em Tel Aviv, assim como os demais moradores do prédio.

    "Eu estou em estado de choque. Não posso ouvir um barulho que meu coração vem na boca", diz a brasileira.

    Já Deborah Kopstein Schanz trabalha como cuidadora de crianças e mora em Ramat Gan, outra cidade atingida por um míssil iraniano. "Não estou saindo de casa para praticamente nada, compras eu peço para entregar. Tem sido muito difícil. Fico pensando nos meus pais que moram em Haifa, no meu irmão que mora em Zichron Yaakov (também no norte de Israel) com as crianças", indica ela.

    "Eu tenho que ir para o abrigo do prédio, mas que não tem uma porta de ferro. É só rezar, porque está se aproximando, [os mísseis] estão caindo muito perto de pessoas que a gente conhece", relata Deborah.

    Ao cair da noite, os israelenses se recolhem em suas casas, e as ruas das cidades ficam praticamente desertas. Tel Aviv, conhecida por sua vida vibrante e constante movimento, está excepcionalmente calma.Tel Aviv, conhecida pela agitação permanente, está excepcionalmente calma. Um bairro inteiro foi destruído por um míssil iraniano.

    A reportagem da RFI esteve no local e registrou a destruição de prédios residenciais, casas, mercados e hotéis. Todas as construções em um raio de 500 metros foram afetadas.

    Um comandante do exército que pediu para não ser identificado confirmou a potência do ataque: "Foi um milagre que ninguém tenha morrido por aqui". 

    Fábricas não conseguem proteger trabalhadores

    Nossa reportagem esteve presente em cinco locais atingidos na região norte e central de Israel: Tamra, uma cidade árabe-israelense onde quatro jovens de uma mesma família foram mortas, Rishon Letzion, Tel Aviv, Haifa e Ramat Gan. 

    Juliano Rosenberg é agrônomo e mora em Kiriat Ata, uma das cidades do entorno de Haifa. Ele trabalha em uma empresa que produz artefatos para a indústria bélica e percebeu uma redução dos trabalhadores ativos na fábrica. Juliano detalha que as ausências acontecem pelo fato de o abrigo protegido da fábrica não ser grande o bastante para proteger todos os funcionários em caso de ataques.

    "Estamos funcionando com um número reduzido de trabalhadores pelo tamanho do bunker, que não comporta todos os funcionários. Então, estamos trabalhando em rodízio", afirma Rosenberg.

    O Irã afirma que tem buscado atingir apenas alvos militares. Mas as evidências no terreno mostram outra realidade. Nos locais visitados foi possível verificar que apenas estruturas civis foram destruídas. O Irã atingiu uma refinaria de petróleo em Haifa; um alvo considerado estratégico, o Hospital Soroka, em Beersheva, além de prédios civis em Holon, Bat Yam, Petach Tikva e Bnei Brak.

    Foram registrados também ataques contra um alvo militar na região central de Israel (cuja localização precisa ainda não foi divulgada) e o Instituto de Ciências Weizman, em Rehovot, ao sul de Tel Aviv. O Instituto Weizman é dedicado basicamente a ciências, mas realiza parte de suas pesquisas em parceria com as forças militares de Israel nas áreas de energia, medicina e ciências da computação. A maioria dos danos causados pelo míssil iraniano destruiu laboratórios de pesquisa de tratamentos contra o câncer. 

    Leia tambémIrã pede fim de ataques israelenses antes de qualquer negociação diplomática

    Adaptação à nova rotina de guerra

    Ao conversar com brasileiros que vivem em Israel, fica evidente que, neste momento, a prioridade tem sido se adaptar à nova rotina imposta pela guerra. Até agora, são poucas as vozes críticas ao conflito, pois os esforços estão voltados para lidar com os desafios do dia a dia — como manter as crianças entretidas com as aulas presenciais suspensas, conciliar o trabalho remoto e garantir que os abrigos domésticos estejam sempre prontos para uso.

    A operadora de turismo Luana Amorim, moradora de Petach Tikva, relata as mudanças no cotidiano desde o início da guerra, há uma semana.

    "Viver em Israel nesses dias tem sido uma mistura de tensão constante, tentativas diárias de seguir em frente para não surtar dentro de casa. Tenho dois filhos, então foi preciso sair da rotina porque não tem nada funcionando. E com as crianças em casa, trabalhando de casa, está sendo bem difícil conciliar, além do medo. Essa é a primeira vez que, realmente, o medo está bem grande. As sirenes tocam a qualquer momento. Mas quando a gente recebe esses avisos, o coração dispara", conta.

    *matéria corrigida em 22/06/25 às 08h25 de Paris

    7 min
  • "Nego Fugido, Memórias Quilombolas": imersão na resistência afro-brasileira vista por Nicola Lo Calzo

    A exposição "Nego Fugido, Memórias Quilombolas", do fotógrafo e pesquisador italiano Nicola Lo Calzo, oferece uma imersão na memória da resistência quilombola no Brasil, mais precisamente em Acupe, no Recôncavo Baiano. O projeto é apresentado no centro de arte Ygrec-ENSAP, em Aubervilliers, ao norte de Paris, até 12 de julho. A curadoria é da brasileira Ioana Mello.

    Patrícia Moribe, de Aubervilliers

    O convite para entrar nesse mundo misterioso vem já de fora, da rua, através das vitrines com trabalhos que fazem parte da exibição. No interior do espaço central, uma cortina transparente com imagens forma um simbólico círculo, uma roda.  

    "Nego Fugido" é uma prática performática e viva da comunidade quilombola de Acupe, na Bahia, Brasil. O ritual, mantido vivo desde o final do século XIX pela Associação Cultural Nego Fugido, encena a desumanização da escravidão e a violência escravagista, mas também a resistência a essa desumanização, representando a luta dos escravizados por sua abolição, independência e liberdade.

    “Mais do que uma mera encenação do passado, o Nego Fugido permite à comunidade lembrar o passado e inscrevê-lo nas lutas contemporâneas pelo acesso à terra e aos recursos naturais, como os do mangue e do mar, na Baía de Todos os Santos e arredores”, explica Nicola Lo Calzo. “Trata-se, portanto, de uma prática com uma importante dimensão política. A performance busca construir uma narrativa soberana e oferecer uma perspectiva alternativa sobre o passado colonial, ressoando ainda hoje.”

    Fuga e criação de espaços de liberdade

    Lo Calzo explica que a questão da memória da fuga e do marronagem (movimento de fuga e estabelecimento de comunidades independentes de escravizados, algo como “quilombolagem”, se a palavra existisse em português) o interpela profundamente, ressoando com sua própria experiência como minoria. Ele explora como essa experiência de fuga, que permite a criação de espaços de liberdade, pode se conectar com outras experiências de marginalidade e subalternidade.

    "O que me interessa nessas práticas é também sua capacidade de produzir espaços de criação e de liberdade e de autonomias que são antinormativas, que vão, diríamos, além das linhas normativas convencionais".

    Sua prática fotográfica é construída como uma "prática de relação", feita através de encontros e do estabelecimento de laços com as comunidades, permitindo-lhe acessar espaços considerados sagrados e viver o cotidiano, como a pesca de manguezal.

    O artista destaca a particularidade da memória defendida pela Associação Cultural Nego Fugido: a memória do "pequeno marronagem", ou a fuga cotidiana. Ele explica que, diferentemente da figura heroica e idealizada dos grandes quilombos e seus líderes, como Zumbi dos Palmares, o Nego Fugido narra "a memória da fuga cotidiana. É quando a gente foge duas horas da plantação para voltar depois, para ir ver o seu amor, por exemplo; é quando a gente foge da plantação um dia para ir ao mercado ou para ir pescar no mangue, e depois a gente volta". Essa abordagem revela a complexidade e a humanidade das pessoas escravizadas que encontravam espaços de liberdade dentro do próprio sistema de violência.

    Caçador de escravos e Exú

    Uma figura central e complexa na performance do Nego Fugido é a do "caçador de escravos". Lo Calzo explica que, na encenação, esse personagem, frequentemente negro, não é polarizado entre o bem e o mal. Ele afirma que a comunidade se reapropria "completamente dessa figura para fazer dela justamente uma figura que representa todas as ambiguidades da escravidão. Há o bem, há o mal, mas é uma figura complexa".

    O caçador de escravos, que inicia a performance caçando os escravizados, no final os ajuda a se libertarem e a prenderem o "Rei Pedro", reorganizando a ordem social. Por isso, o caçador de escravos é associado a Exu, o orixá dos paradoxos e mediador entre os vivos e os mortos, que tem o poder de subverter o status quo. Lo Calzo frisa: "ele [o caçador de escravos] é o mestre de toda a performance. É ao mesmo tempo uma figura de opressão, mas também uma figura de emancipação".

    A cor vermelha, com destaque na exposição, é um fio condutor que remete a essa figura e à prática do Nego Fugido. A comunidade usa o vermelho para pintar os lábios, simbolizando a violência e o sangue, mas também o poder de Exu. Essa escolha da cor está presente nas vitrines da exposição e nas prateleiras.

    Além do Nego Fugido, Lo Calzo menciona "Binidittu" (Benedito), que explora a figura de São Benedito, o Mouro. Nascido na Sicília como filho de escravizados, ele se tornou um símbolo de liberdade para os sicilianos e de resistência e emancipação para os escravizados na América Latina, incluindo o Brasil. São Benedito, que teve o processo de canonização mais longo da Igreja Católica por ser uma figura "ambígua" e de revolta, foi ressignificado pelas comunidades e sincretizado com cultos afro-brasileiros.

    Tanto Nego Fugido quanto Binidittu fazem parte do projeto "Kam", uma investigação iniciada em 2010 sobre as memórias contemporâneas das resistências à escravidão e ao marronagem, tema da tese de doutorado que Lo Calzo defendeu neste ano.

    Resistência e acessibilidade

    A curadora Ioana Mello enfatiza o fato de a exposição acontecer em um subúrbio carente de Paris. “As comunidades retratadas, como os quilombolas de Acupe, são muitas vezes completamente invisibilizadas e tornadas periféricas pelo olhar central. Estar em Aubervilliers permite uma conexão potente com essa invisibilidade e a força de suas histórias”, aponta.

    Mello também destaca o esforço para tornar a arte acessível ao público de Aubervilliers.

    "É um espaço que tem duas vitrines bem grandes e que foram bem pensadas para fazer parte da exposição. Não é apenas um detalhe da exposição, é a exposição também, porque a gente está num bairro onde as pessoas não têm acesso à arte, têm um certo medo desse cubo branco", explica.

    Para incentivar a interação, a prefeitura de Aubervilliers vai espalhar dez painéis fotográficos da exposição pela cidade.

    O conceito da "roda" (círculo) é fundamental na performance do Nego Fugido e foi incorporado ao design da exposição. Essa roda, que representa a forma como o Nego Fugido se manifesta no espaço público com a "caça" entre caçadores e escravizados ao redor dela, será replicada nas exibições programadas no Brasil. Após a temporada na França, a exposição seguirá para a Aliança Francesa de Brasília, no festival FotoRio e o Museu Afro-Brasileiro (MAFRO) em Salvador.

    6 min
  • Acervo da Biblioteca Nacional da França revela diversidade e memória da fotografia brasileira contemporânea

    A Biblioteca Nacional da França (BNF) realizou nesta sexta-feira (13), como parte programação da temporada cultural cruzada do Brasil na França de 2025, um colóquio sobre a fotografia brasileira contemporânea. Com mais de 1.400 fotos, a BNF tem o maior arquivo público de trabalhos de fotógrafos brasileiros do mundo.

    “A ideia do colóquio é exatamente valorizar o patrimônio brasileiro que conservamos na Biblioteca Nacional da França”, disse à RFI Heloïse Conésa, chefe do serviço de fotografia do Departamento de Estampas e Fotografia da BNF. “É a ocasião de apresentar este olhar e discursos desses fotógrafos, que nós conservamos, e de mostrar ao público algumas impressões originais. Para nós é um prelúdio de outras operações de valorização que vamos realizar.”

    Heloïse Conésa explica que a coleção contava com cerca de 550 fotografias, até antes de 2015. Depois, com novas doações, e graças ao trabalho de mecenato de Denise Zanet, diretora do Initial Labo Métropole, uma plataforma criativa dedicada à fotografia, com a curadoria primeiramente de Ricardo Fernandez, e posteriormente de Marly Porto, desde 2023, o acervo da BNF foi completado com o trabalho de fotógrafos contemporâneos brasileiros.

    “Fazer brilhar o nosso trabalho em um lugar que é o berço da fotografia – vamos dizer assim –, é muito importante”, comentou Marly Porto, co-fundadora da Porto de Cultura e comissária adjunta do fundo fotográfico brasileiro contemporâneo da BNF. “Ter uma acolhida de uma instituição como a Biblioteca Nacional da França e sua representatividade na questão da memória, para os fotógrafos, é absolutamente importante”, diz.

    Quando assumiu a curadoria junto com Héloïse Conésa, Marly Porto diz que, após cobrir o que considerava como uma “lacuna na história” do acervo da BNF, buscando fotógrafos como Rogério Reis (Na Lona, 1986-2001, Surfistas de trem 1989) que “fazem parte da nossa história, mas não estavam presentes”, ela passou a pesquisar o trabalho de jovens fotógrafos.

    Acervo brasileiro

    O colóquio expôs as três linhas de aquisição prioritárias do fundo fotográfico brasileiro contemporâneo da BNF. A primeira mesa redonda, sobre o tema "Como fazer sociedade hoje no Brasil?", apresentou um olhar sobre as evoluções da sociedade brasileira e teve a participação dos fotógrafos Carolina Arantes, Andrea Eichenberger, Rogerio Reis e Roberta Sant’Anna.

    Da segunda, sobre patrimônio, memórias coloniais e representações de comunidades afro-descendentes e da Amazônia no Brasil contemporâneo, participaram os fotógrafos Fernando Banzi, Livia Melzi, Ana Mendes e Pablo Pinheiro. A terceira mesa, sobre mudanças climáticas e consciência ecológica no Brasil, contou com os fotógrafos Raphael Alves, Rodrigo Braga, José Diniz e Isis Medeiros.

    Todos os fotógrafos brasileiros presentes no evento têm seus trabalhos preservados na BNF. Entre eles, a gaúcha Roberta Sant’Anna, que apresentou Parque Aquático. Projeto fotográfico que expõe a classe média brasileira em lugares de lazer transformados em universos fantásticos.

    “O trabalho às vezes cria pernas próprias e vai para lugares que a gente nem poderia imaginar no momento que a gente estava fazendo as fotos”, diz Roberta. “Privilégio, prazer, honra: é muito legal estar aqui em uma instituição tão respeitada assim. E é o aspecto também da coleção ser algo permanente. Quando nós não estivermos mais aqui, a coleção vai permanecer representando o Brasil.”

    O aspecto de construção de memória é "crucial" para Carolina Arantes, cujo trabalho Tombamento faz parte do acervo. Principalmente porque os fotógrafos não contam com esta possibilidade no Brasil. 

    "Um espaço de acolhimento para os fotógrafos, para a história da fotografia brasileira, para a reunião de tantas visões, de tantas imagens: essa coleção é imprescindível para a gente ter essa segurança de que isso está guardado”, sublinha. 

    Construção da memória

    Para a fotógrafa mineira Isis Medeios, a questão toma ainda mais relevância. Seu projeto fotográfico, "15:30", documentou durante dez anos o desastre ambiental em Mariana. O número faz referência à hora do rompimento da barragem de rejeitos tóxicos da mineradora Samarco. 

    “Está sendo muito importante estar aqui e abrir esse espaço também de visibilidade. É importante para mim ter esse trabalho aqui dentro da BNF e mostrar essa história. Porque infelizmente nosso país não valoriza a nossa história e não valoriza a memória. Para mim é extremamente importante que a gente nunca esqueça essa tragédia, que a gente nunca esqueça o que aconteceu e que a gente possa ter políticas de mudança mesmo, de melhoria para a população e para os territórios", diz.

    Para o fotógrafo amazonense Raphael Alves, o importante é que o olhar dos brasileiros seja registrado no acervo da biblioteca.

    "Nossas histórias sempre foram contadas por outros. O próprio nome Amazonas veio de um ideal do colonizador", lembrou. "Eu creio que a Amazônia é sempre muito observada do ponto de vista de um satélite, como uma coisa grande, distante, mas lá tem as pessoas e é impossível manter a floresta em pé, as águas limpas, se a gente não olhar para aquelas pessoas que vivem lá", ressaltou. "Quando alguém de fora vai na nossa região e as pessoas falam, 'Ah, vocês têm que subverter, vocês têm que retomar as narrativas'. Eu falo, não, a gente só tem que reverter. As histórias são nossas", diz.

    Alves insiste na força colaborativa da fotografia: "Quando a gente está diante do cotidiano, do próximo, e quando a gente consegue colaborar, eu com eles, eles comigo", a foto "se potencializa e pode ser um instrumento de denúncia, de registo, mas principalmente de interpretação desse mundo que a gente vive."

    7 min
  • Último projeto de Niemeyer para Brasília pode sair do papel graças a parceria internacional

    O último projeto elaborado pelo arquiteto Oscar Niemeyer para Brasília poderá finalmente sair do papel. Representantes da Agência Reguladora de Águas, Energia e Saneamento Básico do Distrito Federal (Adasa) vieram a Paris em busca de parceiros para a construção do MINA, o Memorial Internacional da Água.

    Maria Paula Carvalho, da RFI em Paris

     

    O projeto foi apresentado durante as comemorações dos 50 anos do Programa Hidrológico Intergovernamental da Unesco (IHP), que reúne, em Paris, até sexta-feira (13), representantes de 170 países.

    De acordo com Rogério Rosso, diretor da Adasa, uma parceria internacional poderá dar continuidade ao que foi planejado pelo arquiteto Oscar Niemeyer, anos antes de sua morte. "O nosso saudoso e lendário Oscar Niemeyer fez muitas obras, não só em Brasília, mas também no Brasil, na Europa e no mundo. E uma delas é o Memorial Internacional da Água. Ele era tão visionário que tinha essa preocupação com a água", disse em entrevista à RFI.

    "O nosso planejamento é que esse projeto, o memorial internacional, seja de fato internacional. Então, a Unesco nos convidou para apresentá-lo a mais de 130 países", continua. "A ideia é ter um local físico onde possamos mostrar às nossas crianças do mundo inteiro, aos jovens, a nós mesmos e às futuras gerações a importância de cuidar bem da água, em todos os seus aspectos", completa.

    O novo memorial, a ser construído às margens do Lago Paranoá, em Brasília, fará parte da Rede Global de Museus da Água, uma iniciativa do Programa Hidrológico Intergovernamental (IHP) da Unesco. A RFI também conversou com Eriberto Eulisse, diretor dessa rede, que conta com 120 museus pelo mundo — incluindo museus de ciências, história e arqueologia — para construir uma nova cultura da água.

    "Não estamos muito acostumados a ver água mais no meio ambiente. A gente fala bastante sobre isso durante as crises emergenciais ligadas ao aquecimento global, mas precisamos aprender a manejar a água de outra maneira, para previnir catástrofes, desastres e isso só é possível através da educação. Os museus da água vão preparar as futuras gerações para um manejo sustentável e os museus são essenciais para esse propósito".

     

    O MINA será não apenas um museu, mas também um centro de estudos em recursos hídricos, com um anfiteatro, e exibirá exposições internacionais de países que possuem tecnologia e são referência no tratamento de água e saneamento. Rogério Rosso fala sobre os custos do projeto: "Nós já temos um levantamento feito. É um projeto estimado entre 60 e 70 milhões de euros. Vários países já manifestaram interesse em atuar como parceiros. Quanto mais países entrarem, melhor", explica.

    "Eles podem participar por meio de doações governamentais de seus próprios países ou de empresas desses países que atuam no Brasil", acrescenta. "Temos legislações de incentivo a aportes culturais, como a Lei Rouanet, e também um fundo de endowment, que é uma nova legislação em tramitação no Brasil voltada para fundos de cultura. Então, o MINA já nasce muito moderno também nessa parte de estruturação financeira", avalia.

    Segundo o diretor da Agência Reguladora de Águas, a iniciativa — que aposta na parceria com países, institutos, universidades e organismos internacionais — surge em um momento crucial para o planeta.

     

    "Todos nós sabemos que as mudanças climáticas são severas em todo o globo. E tudo isso tem a ver com o nosso manejo de várias coisas. E a água é um recurso natural. Ela não é infinita, ela é finita. E sendo finito, a gente precisa cuidar dela com muito carinho, com muito amor. E é impossível um país cuidar e outro não. Porque a água não sabe onde a fronteira". 

    A cooperação internacional poderá finalmente tirar da gaveta mais um monumento do arquiteto que assina o projeto de Brasília, um marco do urbanismo moderno e que garantiu a inscrição da capital federal na lista de bens do Patrimônio Mundial da Unesco, em 1987.

    A previsão é de que as obras durem pelo menos três anos. "A gente pretende, em três anos, ter praticamente 70%, porque vai ser uma construção em várias fases", explica Rosso. "Primeiro, aquela parte central do museu, depois o anfiteatro, depois o Centro de Altos Estudos de Recursos Hídricos e o prédio da Governança", cita.

    33 milhões de brasileiros não têm água potável

    O MINA também proporcionará capacitação e formação em recursos hídricos, clima, engenharia ambiental, entre outros temas, no país que abriga 12% das reservas de água doce do planeta. Atualmente, no Brasil, 33 milhões de pessoas não têm acesso à água potável e aproximadamente 90 milhões não contam com saneamento adequado, segundo dados recentes do IBGE.

    "Foi um projeto contratado pela empresa de saneamento de Brasília, a Caesb, há mais de 20 anos, ainda na década de 1990. E Niemeyer colocou esse projeto como prioridade, tanto que, no seu livro Minha Arquitetura — onde reúne suas principais obras — ele cita o MINA e destaca a questão da água. Portanto, esse projeto já existe, feito pelas próprias mãos de Oscar Niemeyer, e é um dos poucos que ainda precisamos implantar em Brasília para concluir o que ele idealizou para a nova capital do Brasil, a linda Brasília", conclui.

    7 min
  • Startups brasileiras estão de olho em parcerias com a França no maior evento do setor da Europa

    Startups brasileiras se uniram a grandes empresas e startups francesas e globais no maior evento de tecnologia da Europa. A 9ª edição do salão VivaTech, que começou nesta quarta-feira (11) em Paris, contou com a presença do presidente Emmanuel Macron, que reforçou sua estratégia para garantir a soberania da França em inteligência artificial. A Agência Brasileira de Promoção de Exportações e Investimentos (Apex) participa com quase 40 startups este ano, enquanto a Universidade de São Paulo (USP) e a Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp) apresentam projetos inovadores pela primeira vez no Parque de Exposições da Porte de Versalhes.

    Luiza Ramos, da RFI em Paris

    O presidente francês celebrou, no dia de abertura do evento, a parceria que chamou de “histórica” entre a multinacional americana Nvidia e a startup francesa Mistral para o lançamento de uma plataforma de nuvem soberana na Europa. A futura infraestrutura de IA, segundo o jornal Libération, prevista para 2026, será gerida na Europa, equipada com 18 mil superchips da Nvidia. Segundo o Financial Times, a empresa francesa agora busca levantar o interesse de investidores.

    De olho nas possibilidades e em parcerias para o desenvolvimento e crescimento de projetos, aproveitando a visibilidade do país na Temporada França-Brasil 2025, startups brasileiras chegam em peso com a maior delegação desde que o Brasil começou a ter representatividade na feira internacional. Nesta edição, o país tem um stand maior montado na área de inovações. E a Apex participa pela sétima vez da iniciativa. 

    “A média da participação era de seis a sete startups. Mas esse ano, nós quintuplicamos a nossa participação e estamos aqui com 38 startups. Nós temos uma delegação formada por 54% de empreendedoras mulheres, o que é bastante interessante”, conta Juliana Vasconcelos, especialista em negócios internacionais pela Apex Brasil.

    Pix: tecnologias brasileiras atraem interesse

    Juliana Vasconcelos revela ainda a diversidade de origens dos representantes na feira deste ano: “Temos três empresas oriundas da favela e oito empresas do norte e do nordeste. E, claro, todas com bastante inovação embutida”, enfatiza, “temos aqui empresas que representam o agro brasileiro, soluções de rastreabilidade para o agro, (...) são empresas que tem, em sua maioria, uma tração com as políticas hoje exigidas pela União Europeia e que podem ter complementaridade e ser parte da solução de uma série de questões para os países do bloco”, explica Juliana, fazendo referência às tratativas de acordos como UE-Mercosul, que exigem, por exemplo, rastreamento de origem bovina a ser exportado da América Latina para países europeus.

    Segundo ela, já no segundo dia do evento, nesta quinta-feira (12), as tecnologias bancárias brasileiras têm chamado a atenção. Principalmente de startups como Vurdere, Saygo e Capital Empreendedor, que destacam a tecnologia de pagamentos expressos. 

    “Eu acredito que as soluções de pagamentos em Pix tem sido bastante procuradas aqui como destaque brasileiro. Nós temos observado também uma busca muito grande por soluções de databases e inteligência artificial para a saúde e as soluções de agronegócios, com uma demanda muito grande por parte de empresas europeias”, detalha. 

    Mulheres abrindo caminhos na tecnologia

    E não é só isso, o Brasil também se destaca na área da educação ambiental, de olho no crescimento das preocupações com o meio ambiente. Como o aplicativo "BoRa" desenvolvido pela startup Fubá, fundada por quatro educadoras da área da biologia, que aponta para a abertura de caminhos para o empreendedorismo feminino na tecnologia. "Isso é muito legal por que mostra a mais mulheres que é um caminho possível", celebra a co-fundadora Flávia Torreão.

    A pesquisadora detalha que o aplicativo, que tem mapeamento em alguns locais turísticos brasileiros e inicia uma parceria com Portugal, mostra ao usuário curiosidades e formas de melhorar a relação com o meio ambiente associado ao turismo em áreas urbanas e já tem em seu cardápio locais do Rio de Janeiro e de Foz do Iguaçu.

    "A ideia é encontrar parcerias na prefeitura [de Paris] ou empresas locais que estejam interessadas. Se houver uma possibilidade de colaborarmos com alguma instituição na França, para desenvolver o aplicativo na França, seria uma oportunidade incrível. É o que estamos fazendo na VivaTech, buscando parcerias", explica Flávia.

    USP e Fapesp pela primeira vez na VivaTech

    O diretor científico do Centro de Pesquisa e Inovação em Gases de Efeito Estufa da USP, Julio Meneghini, falou à RFI sobre a importância do intercâmbio tecnológico na França. “Somente o nosso centro, o RCGI, Research Center for Green House Gases Innovation, trouxe para cá dez startups que estão trabalhando com diferentes áreas. A oportunidade de vir aqui na França e mostrar essa tecnologia para a França, que é um dos países que lidera a questão de inovação no mundo, em particular aquelas que nós temos trabalhado no RCGI, que é um dos maiores da Universidade de São Paulo, é muito importante, é uma oportunidade única”, diz Meneghini.

    O professor afirma que a iniciativa desta primeira colaboração da USP e da Fapesp na VivaTech foi uma iniciativa da reitoria da USP alavancada pelas parcerias dos governos brasileiro e francês deste ano, marcado pela imersão de eventos que unem os dois países.

     

    No agronegócio, Julio Meneghini destaca startups de combustíveis verdes, uma delas usa a macaúba, um tipo de palmeira típica da América do Sul. “É uma tecnologia desenvolvida na Universidade de São Paulo, na escola de Agronomia, em Piracicaba, com a qual é possível utilizar a semente da macaúba para a produção de combustível sustentável de aviação. O que pode ter um impacto muito grande para se utilizar plantações de macaúba para o reflorestamento e, de uma forma sustentável, retirar a semente para a produção do combustível também sustentável da aviação”, sublinha. 

    O diretor evidenciou o interesse pelas tecnologias brasileiras já nos primeiros dias em Paris: “Tivemos uma grande procura de informações, inclusive fundos de investimento que vieram nos procurar para conhecer melhor as tecnologias e eventualmente fazer aporte de recursos. Toda startup precisa ultrapassar aquele chamado ‘Vale da Morte’”, explica.

    “É muito importante ter financiamento para você conseguir fazer com que o trabalho inicial que a startup começou passe de uma escala piloto para uma escala real e aumente a produção. Por exemplo, o caso do combustível sustentável para aviação ou a produção do metanol verde [tecnologia de outra startup brasileira também no VivaTech]. Então já tivemos no primeiro dia uma grande repercussão”, celebra Julio Meneghini. 

    O VivaTech acontece na Paris Expo da Porte de Versalhes e será aberto ao grande público apenas no sábado, 14 de junho de 2025, das 9h às 18h.

    8 min
  • Povos da Amazônia são tema de exposição fotográfica na Champs-Élysées, em Paris

    Um designer francês e um fotógrafo brasileiro se uniram, em 2009, para um projeto focado na Amazônia brasileira. Como resultado, as fotos, que registram populações diversas dessa região, ganharam as páginas de um livro e agora, pela ocasião do Ano do Brasil na França, uma exposição na Avenida Champs-Élysées, uma das mais famosas do mundo.

    A exposição nasceu do encontro entre o francês Antoine Olivier e o brasileiro J.L. Bulcão. Juntos, eles fotografaram os seringueiros de Xapuri, os índios Sateré-Mawé, os catadores de açaí e os quebradores de coco babaçu, documentando como cada uma dessas populações, por meio de seus conhecimentos tradicionais e de suas lutas, representa uma forma de resistência ecológica. Eles mostram que a preservação do bioma está diretamente ligada à sobrevivência de seus povos. 

    "Esse projeto, inicialmente, foi parte de um concurso europeu para apoiar uma ONG e fazer um projeto de comunicação. Eu e o Bulcão nos juntamos para fazer um trabalho de fotografia para falar das pessoas que vivem e trabalham na floresta, e sobretudo que sustentam a floresta e a si mesmos. Ele foi feito em 2009 e o tempo de fotografia foi de dois meses. Depois teve toda a parte de preparação porque esse grande trabalho fotográfico foi transformado em um livro" contou Antoine Olivier.

    "A gente decidiu fotografar os povos da floresta, que era o nome dado pelo Chico Mendes (seringueiro e líder militante, morto em 1988) às pessoas que moram na Amazônia. Fizemos uma pesquisa grande e decidimos dar uma volta na região. Começamos no Acre, no seringal Cachoeira, terra do Chico Mendes, depois fomos para o Médio-Amazonas, na terra dos Sateré-Mawé, que são os índios que têm como símbolo maior o guaraná; de lá fomos a Belém, pegamos o barco e fomos até Abaetetuba, uma das cidades principais produtoras de açaí; e a quarta etapa foi com as quebradeiras de coco babaçu, que estão localizadas num território entre Tocantins, Pará e Maranhão. São pessoas que estão lá há muitos anos e lutam pelo direito à terra para voltar a poder catar esses babaçus nas propriedades que não são delas", explicou J.L. Bulcão, completando que todo o processo durou mais de um ano.

    "A pré-produção foi grande, o Antoine morava no Rio de Janeiro e eu aqui na França. Nos reunimos, programamos a viagem e contactamos as associações, porque cada tema destes tem uma associação que nos ajudou a entrar em contato. E foi a Autres Brésils que reagrupou essas quatro associações", explicou Bulcão. 

    Antoine Olivier contou ainda como foi o processo de escolha das fotos que compõem a exposição em Paris.

    "Só eu fiz 10 mil fotos e foi feito um trabalho gigantesco de edição para escolher as que achávamos mais importantes e mais representativas de cada assunto. São quatro temáticas e a gente escolheu o que as representava mais para o público em geral, para tentar trazer um pouco de cada elemento", disse. 

        Ano do Brasil na França

    A exposição foi inaugurada oficialmente no último dia 11 de junho e, além dos fotógrafos, contou com a presença de representantes da embaixada do Brasil, da prefeitura de Paris, da associação Autres Brésils, de patrocinadores e do curador Emilio Kalil, que também é o curador geral da temporada do Ano do Brasil na França. 

    "Quando vi o projeto, me encantei. É uma exposição pronta, que veio para Paris. Me pediram autorização para incluir na temporada e eu achei mais do que correto, porque ela representa um pouco das três vertentes da saison. Uma delas é o meio ambiente. Ali está claro que é um pouco dessa Amazônia que a gente quer proteger, que quer salvar", destacou ele, afirmando ainda que a sua grande preocupação para essa temporada é mostrar "um Brasil que os franceses normalmente não veem".  

    6 min

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