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A guerra entre Israel e Hamas na Faixa de Gaza já matou mais de 200 jornalistas desde que começou, há cerca de dois anos. Motivadas por esse dado alarmante, as ONGs Repórteres Sem Fronteiras (RSF) e Avaaz, que dá voz a ações da sociedade civil na internet, lançaram neste mês de setembro uma campanha de apoio aos jornalistas palestinos no território, com a participação de mais de 150 veículos de comunicação de todo o mundo. As organizações pedem proteção para os profissionais e o acesso da imprensa internacional ao enclave.
Correspondente da RFI em Gaza, Rami El Meghari, elogia a iniciativa e alerta para o risco de vida que os profissionais de imprensa encaram neste momento naquela região para levar informações ao mundo sobre o dia a dia do conflito.
“A meu ver, a campanha da Repórteres Sem Fronteiras é muito importante. Para mim, El Meghari, jornalista de longa data da Rádio França Internacional, é realmente muito importante. Especialmente neste momento crucial em que profissionais de imprensa estão sendo alvos, de uma forma ou de outra, por ações militares israelenses. Então, agradeço de verdade por essa iniciativa”, comenta o correspondente.
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Em meio à guerra entre Israel e Hamas, a Faixa de Gaza vive sob um quase blackout midiático. Os jornalistas palestinos são alvos de ataques e os estrangeiros não são autorizados a entrar. El Meghari, que trabalha há 14 anos para a RFI, é um dos que resistem. Neste cenário catastrófico, seu dia a dia se resume a duas palavras: sobreviver e trabalhar.
“Um dia típico para jornalistas em Gaza começa com a busca por necessidades básicas como a água. Você precisa garantir que haja água disponível o tempo todo, onde quer que esteja. Precisa garantir que sua família tenha o suficiente para comer, no café da manhã, no almoço. Você precisa garantir energia elétrica para carregar seu telefone, para recarregar suas luzes de LED. O dia de um jornalista [em Gaza] é, portanto, bastante intenso. Você se divide entre suas responsabilidades profissionais e suas responsabilidades como chefe de família”, explica.
Apesar dos riscos, o correspondente continua trabalhando e indo ao campo de refugiados de Meghazi, no centro de Gaza, movido pelo sentimento de obrigações com sua família e com a sociedade.
“Para mim, como repórter há 25 anos, sempre me pareceu um dever fazer todo o possível para contar essa história ao mundo. Principalmente porque, hoje, não há jornalistas estrangeiros em Gaza. Então, é minha responsabilidade fazer o meu trabalho”, diz El Meghari.
“Outro motivo, é a obrigação comigo mesmo e com a minha família. Porque essa é a própria natureza do meu trabalho como jornalista independente. Se eu não trabalhasse, isso significaria que eu morreria de fome, não teria o que comer e não conseguiria alimentar minha família. Se eu trabalho, eu posso sobreviver. Sem isso, minha família e eu não conseguiríamos aguentar”, pondera.
“Sonho deixar esta parte do mundo”Para El Meghari, a Faixa de Gaza é o lugar mais “mortal do mundo”. Sentimento reforçado pelos números do conflito. Desde o início da guerra, mais de 63 mil pessoas foram mortas no território palestino, a maioria civis, segundo o Ministério da Saúde controlado pelo governo do Hamas.
Por conta disso, além de trabalhar diariamente, neste momento o repórter também luta para ser removido do território palestino junto com sua família. Um sonho, em suas palavras, que ele tenta realizar há mais de um ano: “Em fevereiro de 2024 foi minha primeira tentativa de sair. Porque sempre senti que a situação estava se tornando cada vez mais perigosa. Não é mais um lugar habitável. Não apenas para mim como jornalista, mas também como pai, cuidando dos filhos, que precisam de um presente e de um futuro melhor. Mas tanto o presente quanto o futuro estão faltando em Gaza no momento. Não é mais seguro, não é mais habitável. Sonho em deixar esta parte do mundo”, conta.
O correspondente conclui fazendo um apelo para que o governo francês retome a evacuação de jornalistas em Gaza. “Assim, eu e outros poderemos deixar Gaza muito em breve”, diz esperançoso.
Também por isso é atual e necessária a campanha lançada pela RSF em solidariedade aos jornalistas palestinos em Gaza. Para preservar a vida daqueles que, assim como Meghari, arriscam sua própria segurança para levar ao mundo todos os fatos do conflito.
Em Portugal, a criação da Unidade Nacional de Estrangeiros e Fronteiras (Unef), subordinada à Polícia de Segurança Pública (PSP), tem causado apreensão entre imigrantes que vivem no país e despertado alerta entre representantes da comunidade brasileira.
Lizzie Nassar, correspondente da RFI em Lisboa
A Unef foi anunciada pelo governo português em setembro de 2024 e entrou em funcionamento no dia 21 de agosto. A nova força herdou cerca de 100 mil processos pendentes de afastamento de imigrantes em situação irregular, alguns estavam parados há 50 anos. Somente em Lisboa, estima-se que existam 20 mil processos ativos.
Até outubro de 2023, o extinto Serviço de Estrangeiros e Fronteiras (SEF) era responsável tanto pelo controle de fronteiras nos aeroportos como pela gestão de processos de residência e expulsão. Após a extinção do órgão, parte das competências passou para a Agência para a Integração, Migrações e Asilo (Aima).
Com a criação da Unef, a PSP deixa de atuar apenas na execução das ordens de expulsão e passa a assumir todo o processo burocrático de retorno de estrangeiros. A mudança é significativa e, para organizações da sociedade civil, representa um passo em direção à “securitização” da imigração.
“Criminalização da imigração”Para Ana Paula Costa, presidente da Casa do Brasil em Lisboa, a criação da Unef reforça uma lógica de criminalização dos imigrantes.
“A questão principal que está por trás é a lógica de securitização da imigração, de criminalização da imigração, que é uma lógica terrível. Considerar a imigração como um problema, ver as pessoas imigrantes como um risco, constantemente sob escrutínio. Essa narrativa de ameaça e criminalização é o problema principal”, afirma.
Ana Paula lembra à RFI também episódios de violência envolvendo agentes da PSP: “Existe um histórico de violência policial dentro da PSP. Muito recentemente, um imigrante foi supostamente assassinado no Algarve, pelas mãos da polícia. Em 2020, outro imigrante, o ucraniano Igor Homeniuk, foi assassinado no aeroporto de Lisboa. Há também um histórico de racismo dentro da PSP, com casos simbólicos que já aconteceram em Portugal”.
Leia tambémCom aumento dos crimes de ódio em Portugal as "pessoas sentem que o seu modo de vida está em perigo"
A dirigente ressalta ainda que muitas pessoas não estão propriamente em situação irregular, mas sim à espera de autorizações de residência que demoram meses — até anos — a serem emitidas.
“As pessoas não estão irregulares. Elas estão à espera de uma autorização de residência, de um processo administrativo que é moroso e desorganizado. Esse clima de medo, com a criação de uma unidade policial, reforça a sensação de que podem ser expulsas ou tratadas indignamente”, explica.
Consulado do Brasil emite recomendaçõesDiante da entrada em funcionamento da Unef, o Consulado-Geral do Brasil em Lisboa divulgou recomendações à comunidade brasileira. O órgão orienta que os cidadãos portem sempre documentos de identificação válidos, como passaporte, título de residência ou comprovativos de contribuições à Segurança Social.
O cônsul-geral Alessandro Candeas explica que o objetivo do aviso é orientar os brasileiros sobre como agir em caso de abordagem.
“É uma informação direta, objetiva, sem juízo de valor. Apenas comunicar a comunidade brasileira sobre como se portar se for abordada por agentes dessa polícia. O mais importante: portar sempre um documento de identificação válido”, enfatiza.
O diplomata sublinha que o Brasil acompanha de perto o processo e espera que as mudanças respeitem os compromissos internacionais. “As alterações são o resultado da soberania de Portugal, mas devem ser feitas em respeito aos direitos humanos, ao direito dos imigrantes e aos tratados bilaterais que o Brasil tem com Portugal. Estamos bem informados e conscientes de todo o processo”, esclarece.
Candeas reforça que todos os cidadãos brasileiros têm direito ao apoio do consulado: “Não importa o status migratório. Seja irregular, em trânsito, residente ou binacional, todo brasileiro tem o dever de ser bem atendido e bem recebido pelo consulado”.
Governo defende eficiência, imigrantes temem exclusãoA Unef começou com 1.200 agentes, mas o contingente deverá chegar a 2 mil nos próximos anos, incluindo técnicos especializados, prestadores de serviço e representantes de organizações não-governamentais.
O governo português argumenta que a nova unidade vai aumentar a eficiência do sistema migratório. Já para associações de imigrantes, a aposta numa estrutura policial em vez de resolver os atrasos nos processos de residência pode acabar apenas por ampliar o medo e a insegurança entre estrangeiros que vivem no país.
No Brooklyn, em Nova York, e também em Nova Jersey, consumidores e comerciantes começam a sentir no bolso os efeitos da alta de preços provocada pela política comercial do presidente Donald Trump.
Luciana Rosa, correspondente da RFI em Nova York
As novas tarifas sobre produtos importados já impactam itens básicos e, em alguns casos, os clientes precisam mudar os hábitos para continuar consumindo.
No bairro do Brooklyn, encontramos a família Puma. Jeannette, nascida nos Estados Unidos, e sua mãe, Angelina, que veio de Porto Rico, dizem que a alta é generalizada.
"Tudo aumentou. Tudo está mais caro. A carne, sobretudo, subiu muito de preço", diz Jeannette Puma.
A mãe de Jeannette, Angelina, conta que o café é um dos produtos que mais pesa no orçamento. "O café subiu muito. Eu adoro coar meu café e ele está caríssimo. Então, o que eu faço é reduzir para uma ou duas xícaras por dia."
Carnes e enlatadosA alta atinge também alimentos enlatados, como o atum. Angelina lembra que antes pagava três latas por US$ 5 e agora encontra cada uma por quase US$ 6. Boa parte do atum em lata consumido nos Estados Unidos vêm de países como a Tailândia e Indonésia, países atingidos pelas tarifas em 36% e 19% respectivamente.
O equatoriano Juan Llambo confirma que a mudança já afeta o cardápio. "Já não consumimos muita carne, porque está muito cara. Compramos mais frutas no lugar da carne. Arroz, muito pouco, porque também está bem mais caro. Café também. Isso afeta a gente como trabalhador, porque já não dá para tudo."
O casal Michelle e Joel Garcia confirma que percebeu que produtos importados ficaram mais caros. "Muita coisa importada aumentou de preço. A gente vinha aqui ver esses produtos japoneses, por exemplo, e os preços estão definitivamente mais altos."
Eles, porém, não atribuem o aumento diretamente às tarifas, mas à pandemia. "Se você parar para pensar, desde a pandemia tudo disparou, do leite a outros produtos básicos."
Preocupação por parte dos distribuidoresPara quem importa e distribui produtos, o impacto já está no horizonte. Em uma torrefadora de café no Brooklyn, o sócio Howard Chang explica que a incerteza causada pelas tarifas encarece a compra dos grãos e dificulta fechar contratos.
"As tarifas deixaram o café cru mais caro. A falta de certeza tornou mais difícil buscar fornecedores e planejar contratos. Os custos aumentaram em todos os segmentos", diz o empresário.
Segundo ele, a estratégia tem sido diversificar fornecedores e buscar alternativas para manter a qualidade. "Isso nos forçou a ser mais criativos e diversificar os critérios de compra para criar novas relações com produtores."
Chang diz que ainda é cedo para medir o impacto exato sobre o café do Brasil, já que os estoques atuais não foram afetados. Mas, se a tarifa de 50% for aplicada, já há planos para importar mais de outros países e reduzir o impacto.
No setor de bebidas, o brasileiro Leonardo de Oliveira, gerente de uma distribuidora em Nova Jersey, afirma que ainda não houve aumento expressivo para cervejas mexicanas, mas alguns vinhos portugueses já ficaram mais caros.
"As empresas ainda têm estoque comprado antes das tarifas. A expectativa é que os preços subam quando esse estoque acabar", explica.
Para se antecipar, ele decidiu comprar em grandes quantidades: "Aumentei minhas compras de cerca de 200 para 720 caixas de (cerveja) Coronita, o que me permitiu manter a margem de lucro sem repassar os custos para o cliente".
Enquanto consumidores reduzem porções ou trocam produtos, distribuidores e comerciantes se reinventam para segurar os preços. Mas a sensação geral é de incerteza: até onde esses aumentos vão chegar e por quanto tempo vão durar? Essa resposta, por enquanto, ainda não tem previsão.
A cidade de Briançon, no coração dos Alpes franceses, se prepara para acolher a 20ª edição do Festival Violoncelles en Folie, que será realizada de 9 a 16 de agosto de 2025. Criado pelo violoncelista brasileiro Fernando Lima, o evento nasceu do desejo de oferecer um espaço dedicado ao encontro e à criação em torno do instrumento. Vinte anos depois, o evento tornou-se uma referência, reunindo artistas consagrados, jovens talentos e um público fiel que compartilha a paixão pelo violoncelo.
“Esse ano o Violoncelles en Folie completa 20 anos. Ele nasceu nos Alpes, em torno de Briançon, como um pequeno encontro de violoncelistas”, recorda Fernando Lima. “Hoje, reúne cerca de 130 músicos e atrai mais de 4.000 espectadores. Tornou-se uma referência para o violoncelo na Europa”, completa.
Segundo o idealizador, desde o início o objetivo foi cultivar a excelência artística em um ambiente de liberdade criativa e alegria. “Queríamos um espaço de expressão, onde a busca pela qualidade fosse acompanhada de leveza, de prazer em fazer música.”
O Brasil ocupa um papel de destaque nessa trajetória. “Sempre teve um lugar especial no festival, porque tem um lugar especial para mim”, afirma Lima. “Ao longo desses 20 anos, cerca de 40 jovens músicos brasileiros passaram por residências em Briançon. Alguns ficaram e hoje são professores e artistas do festival.”
Entre os nomes que construíram essa ponte cultural entre Brasil e França, estão o clarinetista Alison Pereira, os violoncelistas Diego Coutinho e Diego Cardoso, e o compositor Kali Akel, residente no festival desde 2018. “Ele contribui de forma importante para enriquecer o repertório contemporâneo do violoncelo”, destaca.
Para marcar a data, a programação de 2025 aposta em encontros musicais inspiradores. Ao lado de artistas franceses de prestígio — como o violoncelista Victor Julien-Laferrière e a violinista Manon Galy, vencedores do prêmio Victoires de la Musique — o festival receberá o virtuoso cavaquinista brasileiro Matheus Donato, em uma celebração da diversidade estética que marca o espírito do evento.
“São concertos variados, com música clássica, jazz, música brasileira e sons do mundo inteiro. É um festival de encontros — e de muito amor pela música”, resume Lima.
Entre os destaques da programação estão o Trio Zeliha, o duo formado por Julien-Laferrière e Théo Fouchenneret, o Tansman Cello Quartet, além de apresentações coletivas com artistas residentes que interpretarão repertórios que transitam de Schubert a Piazzolla, de Brahms ao tango contemporâneo.
Uma experiência musical nas alturasDurante o dia, a Académie Violoncelles en Folie transforma Briançon e seus arredores em um laboratório vivo de formação musical. Crianças, jovens e adultos de diferentes níveis participam de aulas individuais, oficinas criativas, ensaios coletivos e projetos de música de câmara. No final da semana, os alunos dividem o palco com artistas consagrados. A experiência se desdobra entre 1.500 e 1.800 metros de altitude, integrando música, natureza e patrimônio arquitetônico local.
O clarinetista Alison Pereira, um dos músicos brasileiros que passaram pela residência do festival e hoje atua como professor convidado, será protagonista de dois momentos especiais. Na programação oficial, participa de um trio ao lado do violoncelista Diego Coutinho e do acordeonista Jérémy Vannereau, com repertório que une Piazzolla, Chico Buarque e composições autorais de Vannereau. “Será um belo concerto, misturando estilos e timbres, do canto à música instrumental”, adianta.
Pereira também assina o concerto de encerramento, no dia 16 de agosto, à frente de um grupo festivo criado especialmente para a ocasião. “É com muita felicidade que vejo chegar esse aniversário de 20 anos. O festival sempre contou com artistas brasileiros de renome e encanta o público com esse universo sonoro que traz à região. Agora é a nossa vez de contribuir com uma gota de alegria nesse grande vaso musical. Vamos fechar com festa: músicas dos anos 1980, Gilberto Gil e companhia, para todo mundo dançar”, celebra.
O violoncelo e a voz humanaO violoncelista Diego Cardoso participa das comemorações pelos 20 anos do festival, evento que acompanha sua trajetória artística desde 2007. Ao longo desses anos, Cardoso passou de aluno a professor, artista residente e convidado, consolidando uma relação duradoura com o festival.
“Comecei como aluno e, com o tempo, retornei como professor, violoncelista em residência e artista convidado”, relata o músico. Entre os momentos marcantes de sua participação, destaca colaborações com o grupo Ansombro Nemesis, a equipe do Tempo de Brasil e o pianista César Birchner, além de outras experiências musicais e humanas que considera inesquecíveis.
Cardoso também reflete sobre a natureza expressiva do violoncelo, instrumento que, segundo ele, se destaca por sua proximidade com a voz humana, tanto em tessitura quanto em timbre. “Quando a gente toca, ele vibra com o nosso corpo, e essa vibração cria uma conexão muito forte, como se os dois corpos, o do músico e o do instrumento, virassem um só”, explica. Para o músico, essa característica torna o violoncelo especialmente capaz de "transmitir emoções de forma direta e sensível ao público".
Além de sua expressividade, o violoncelo é, segundo Cardoso, um instrumento versátil: “Pode cantar, acompanhar, fazer acordes, ser rítmico, até percussivo. É possível explorar muitos estilos e sons com ele”. Ainda assim, ele ressalta que a verdadeira magia do instrumento está na sua capacidade de "ressonar com quem toca e com quem escuta".
Neste ano, sua participação no festival ganha um significado especial. Como artista residente, Cardoso está envolvido em diversas frentes: ensaios, aulas, concertos e interações com alunos e público. Um dos destaques será a estreia mundial de uma obra inédita do compositor Kali Akel, escrita especialmente para ele e para o festival. A peça, para violoncelo solista e orquestra de violoncelos, será apresentada pela primeira vez durante o evento.
Acessibilidade e espírito comunitárioCom ingressos a preços acessíveis - 20 €, com descontos para jovens e estudantes — o festival reafirma seu compromisso com a democratização do acesso à música de qualidade. Crianças de até 12 anos têm entrada gratuita, e há também a opção de passes semanais com tarifas sociais.
A 20ª edição do Festival Violoncelles en Folie segue até 16 de agosto, em Briançon.
No dia em que o mundo recorda os 80 anos da bomba atômica lançada pelos Estados Unidos em Hiroshima, no Japão, em 6 de agosto de 1945, durante a Segunda Guerra Mundial, tensões crescentes entre potências nucleares reacendem o temor de que um ataque como esse volte a acontecer. Em entrevista à RFI, especialistas analisam o ritmo acelerado de uma nova corrida armamentista nuclear.
O mês de julho de 2025 começou com o presidente americano Donald Trump ordenando o reposicionamento de dois submarinos nucleares, após declarações do vice-presidente do Conselho de Segurança da Rússia, Dmitry Medvedev, sugerindo a possibilidade de guerra.
O pesquisador Gabriel Merino, chefe do Departamento de Estudos de Eurásia na Universidade de La Plata, em Buenos Aires, lembra que desde a saída dos EUA do Tratado de Forças Nucleares de Alcance Intermediário, em 2019, o mundo vive uma nova corrida armamentista. Ele destaca que Washington planeja posicionar mísseis intermediários na Alemanha, enquanto a Rússia investe na produção em massa dos hipersônicos Loretchnik, que podem transportar ogivas nucleares e são quase impossíveis de ser interceptados pelos sistemas de defesa ocidentais.
O especialista avalia que o uso de armas nucleares estratégicas continua improvável por causa da dissuasão mútua, mas alerta para a possibilidade de armas táticas – de menor poder destrutivo –, o que mantém elevada a tensão global.
Proliferação de ogivas nuclearesEm 6 e 9 de agosto de 1945, os Estados Unidos lançaram bombas atômicas sobre Hiroshima e Nagasaki, respectivamente, matando entre 129 mil e 246 mil pessoas. Foi a única vez na história em que armas nucleares foram usadas em combate, encerrando a Segunda Guerra Mundial e inaugurando a era nuclear.
Para Merino, esse aniversário deve servir de alerta: “Com as capacidades nucleares de hoje, um conflito teria consequências devastadoras para a humanidade. É essencial que a dissuasão prevaleça para que a história de 1945 jamais se repita.”
Em 1945, os EUA eram a única potência nuclear no mundo, lembra o historiador Matthew Pauly, da Universidade Estadual de Michigan. "O presidente Harry Truman justificou os ataques como forma de evitar uma invasão terrestre do Japão, que poderia causar ainda mais baixas entre soldados americanos e aliados", lembra o professor, ressaltando que o contexto atual mudou. Atualmente, há um equilíbrio maior de forças com a Rússia, a China e outras nações ampliando seus arsenais, segundo Pauly.
Rússia e Estados Unidos respondem atualmente por cerca de 90% das 12 mil ogivas nucleares do mundo, segundo o Instituto Internacional de Pesquisa para a Paz de Estocolmo (Sipri), que alertou, em junho, para uma nova "corrida armamentista nuclear".
Na segunda-feira (4), a Rússia anunciou que pode voltar a instalar mísseis de curto e médio alcance, acusando os Estados Unidos de posicionarem armas semelhantes na Europa e na região da Ásia-Pacífico. Moscou declarou que está abandonando a moratória que mantinha por conta própria, alegando que "deixaram de existir as condições" para manter o compromisso.
Entretanto, o que está em jogo, atualmente, são os custos elevados de uma guerra tradicional, afirma Gabriel Merino. "Os custos incluem o risco de desaparecimento da humanidade como um todo", conclui. A esperança dos estudiosos do assunto é que Hiroshima ainda sirva de alerta e que a dissuasão nuclear continue prevalecendo, para que a história de 1945 jamais se repita.
Em mais uma das ações da Temporada Cultural do Brasil na França, três exposições fotográficas ilustram a Paris Plages, as chamadas praias de Paris. Com imagens de povos indígenas, amazônicos e de biomas naturais do país, as mostras abordam questões humanas e a preservação ambiental.
Três fotógrafos foram escolhidos para trazer um pouco mais do Brasil para Paris. Um deles é o paulista João Farkas, que tem trabalhos expostos em grandes coleções no Rio de Janeiro, em São Paulo e espalhadas pelo mundo. Ele contou como foi feita a escolha das obras que ilustram a sua mostra na Paris Plages.
"Houve um convite por parte do curador, Emílio Kalil, que já conhecia vários aspectos da minha obra. Ele me pediu uma sugestão de quais imagens a gente selecionaria para essa oportunidade. Então nós pensamos juntos que precisavam ser imagens com certo impacto visual, uma vez que vão estar expostas fora de uma galeria, fora de um museu, para um público geral e ao ar livre. Ou seja, as imagens têm que ter uma certa força", explica o fotógrafo. "Normalmente os meus trabalhos são sobre alguma região ou sobre alguma manifestação cultural brasileira, mas dessa vez nós resolvemos selecionar 16 imagens muito fortes visualmente, que têm uma característica comum que é uma aproximação diferente sobre a paisagem. São imagens mais gráficas, com mais saturação de cor e mais grafismos, então fizemos uma seleção baseada nesse critério", contou.
Além de homenagear os povos amazônicos, as exposições têm o objetivo de alertar para a importância da preservação dos biomas. Direto de Belém, no Pará, o fotógrafo Luiz Braga falou sobre a emoção de ver as cores e contornos da floresta ilustrando as paisagens de Paris e também sobre a urgência de se tratar dos temas ambientais.
"A importância de ter essas imagens tão típicas da minha terra em Paris é revelar e mostrar a Amazônia tão desconhecida para o público francês.
Braga esteve em Paris para a abertura da mostra e gostou do contraste criado entre as suas imagens, compostas por casas, rios e igarapés, e a paisagem "monocromática" de Paris. "Para mim foi muito emocionante ver as cores da minha terra espalhadas na borda do Sena, e ajudando na compreensão da Amazônia, porque eu acho que é isso que é importante para a preservação do planeta: o conhecimento. O conhecimento está acima de tudo", destacou o fotógrafo.
Além de João Farkas e Luiz Braga, a fotógrafa inglesa que vive no Brasil desde os anos 50, Maureen Bisilliat, também compõe o time de expositores. Suas obras estão disponíveis no décimo distrito de Paris, no Canal Saint Martin e apresentam as cores e a beleza dos povos indígenas registrados no Parque do Xingu.
As paisagens e referências culturais têm encantado o público. O casal franco-australiano Françoise e Alan se surpreendeu com a beleza das imagens. Perguntados se estavam acompanhando a Temporada Cultural do Brasil na França, eles responderam que sabiam existir algo relativo ao país, mas que não conheciam as exposições.
"Quando vi as fotos, imediatamente imaginei que havia algo de diferente e é magnífico", disse ela.
Passeando pelas margens do Sena, próximo à prefeitura de Paris, o francês Benoit, que morou no Brasil quando criança, sentiu certa nostalgia ao encontrar as fotos de Luiz Braga.
"É muito bonito. Traz de volta algumas lembranças, porque eu morei no Brasil quando era bem pequeno, entre 1 e 5 anos. Mas tenho fotos, lembranças... Meus pais voltam ao Brasil agora que estão aposentados, eles compartilham as fotos e é um pouco do que vejo aqui. Dá vontade de voltar", disse.
As imagens ficam disponíveis até o dia 31 de agosto e podem ser vistas no Canal Saint Martin e em dois pontos nas margens do Sena, um próximo à prefeitura de Paris e outro no Quai de Célestins.
O cinema brasileiro é celebrado em uma exibição de seis filmes ao ar livre em Paris, como parte da programação da Temporada Cultural do Brasil na França. A mostra começou na noite de quinta-feira (31), diante de um telão montado às margens do rio Sena, e segue até sábado (2), com curadoria da Associação Jangada, a convite da Prefeitura de Paris e do comissariado brasileiro. Todos os filmes são transmitidos com áudio original em português e legendas em francês.
Luiza Ramos, de Paris
Na estreia, os presentes assistiram a duas obras do diretor Jorge Furtado: o consagrado curta "Ilha das Flores", de 1989, que figura na lista dos 100 melhores filmes brasileiros de todos os tempos, e o longa "Saneamento Básico", de 2007. A comédia com crítica social conta com um grande elenco, incluindo Camila Pitanga, Bruno Garcia, Lázaro Ramos, Tonico Pereira, Paulo José e a dupla Fernanda Torres e Wagner Moura, sinônimo de sucesso no cinema nacional, atraindo um público de brasileiros e também franceses.
As cerca de 250 cadeiras dispostas pela Prefeitura de Paris lotaram tão rápido que a plateia passou a sentar no chão da calçada do rio, e alguns se arriscaram a assistir da altura da mureta à esquerda do telão para não perder o filme.
Jean-Rémy Ricordel, francês da região da Bretanha, chegou cedo para garantir seu lugar na primeira fileira e apresentar aos amigos franceses um pouco da cultura brasileira que ele tanto aprecia, incentivado pela noiva, natural da Bahia: “O Wagner Moura eu conheço, vi alguns filmes com ele como 'Tropa de Elite', que eu adorei, e minha noiva é baiana, então ela sempre me falou muito dele. Eu acho legal ver esse filme agora que ele recebeu um prêmio no Festival de Cannes e acho legal poder conhecer um pouco mais da filmografia dele”, conta.
A projeção dos filmes acontece ao lado de uma zona de mergulho no Sena, em uma área do evento de verão Paris Plages, que este ano homenageia o Brasil. No local, há DJs tocando música brasileira e barracas de venda de comidas típicas, criando o ambiente perfeito para uma experiência tropical.
“Este ano é um ano especial porque tem uma grande parceria cultural entre a França e o Brasil, e muitos eventos estão acontecendo em Paris perto do rio Sena. Então é muito legal porque eu posso compartilhar a cultura brasileira com meus amigos franceses e mostrar muitas coisas para eles, como as comidas, as bebidas e até mesmo o cinema. É um grande prazer apresentar a cultura brasileira para eles. Tenho um amigo aqui que nunca provou uma coxinha ou um guaraná, então foi um momento especial”, descreveu Jean-Rémy.
Filmes selecionados para uma viagem no cinema nacionalA curadoria dos filmes foi feita pela diretora da Associação Jangada, Katia Adler, que organiza festivais de cinema em Paris e na Europa há 27 anos. Para Katia, a escolha dos seis filmes – três longas e três curtas exibidos em três dias – visa representar momentos diferentes do cinema nacional:
“O ‘Central do Brasil’ é um filme de emoção, o ‘Saneamento Básico’ é uma comédia e o 'Aumenta que é Rock and Roll’ é uma comédia, mas com música, muita música brasileira. São três momentos do cinema brasileiro. Eu acho que é muito significativo a gente mostrar o nosso cinema no rio Sena e os curtas também”, diz Katia Adler.
Quando a produtora cultural recebeu o convite para selecionar os filmes, ela não teve dúvidas: “Eu pensei imediatamente em ‘Central do Brasil’ porque ninguém de 20 e poucos anos viu o filme no telão. É um filme que recebeu muitos prêmios e é do Walter Salles. Então, eu achei que era interessante colocar. Depois eu selecionei 'Saneamento Básico’ por causa da Fernanda Torres. E o Wagner Moura que ganhou prêmio de melhor ator este ano no Festival de Cannes”, explica. “O terceiro filme é ‘Aumenta que é Rock and Roll’ que recebeu dois prêmios na 27ª edição do Festival Jangada deste ano”, enumera.
A estudante de Brasília Ana Luiza Flores, de 24 anos, vive há um ano em Paris e aprova a iniciativa da exibição de filmes a céu aberto. A jovem, entusiasta da sétima arte, contou ter prestigiado o Festival Jangada este ano e convidou amigos para o evento na beira do Sena.
“Eu acompanho bastante. Este é o meu segundo festival de cinema em Paris, e os filmes brasileiros estão sensacionais. Gosto muito deste, especificamente, porque ele é ao ar livre – dá para sentir o clima da cidade no verão – e também por conta da qualidade dos filmes que foram selecionados. Eu vim neste festival por conta do filme ‘Saneamento Básico’, que é bem renomado e foi uma descoberta que fiz recentemente do cinema brasileiro após os atores que estão nele ganharem prêmios”, aponta Ana, enumerando Fernanda Torres e Wagner Moura.
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A programação de cinema ao ar livre no evento Paris Plages pode ser encontrada no site da Prefeitura de Paris.
Vários programas de Observação da Terra da Agência Espacial Europeia (ESA), que celebra 50 anos em 2025, contam com a colaboração de instituições brasileiras e a missão europeia Biomass, lançada no final de abril, é emblemática dessa parceira histórica entre a Europa e o Brasil no setor espacial.
Adriana Brandão, enviada especial da RFI a Kourou e a Belém*
O inovador satélite Biomass de monitoramento de florestas tropicais foi colocado em órbita no dia 29 de abril, a bordo de um foguete europeu Vega C, lançado da Centro Espacial de Kourou, na Guiana Francesa. Seu objetivo é entender o ciclo do carbono, estocado ou emitido, assim como “as contribuições das florestas tropicais para as mudanças climáticas e as suas vulnerabilidades em relação a essas mudanças”, salienta o pesquisador do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE) e coordenador do programa de Mudanças Climáticas FAPESP, Luis Aragão.
Essa missão cientifica europeia começou a ser imaginada há anos, lembrou a pesquisadora Selma Cherchali do Centro Nacional de Estudos Espaciais (CNES), que é a agência espacial francesa, durante o lançamento do Biomass. Segundo ela, havia muitos dados de campo sobre as florestas, mas coletados isoladamente, com metodologias variadas.
”Questionamos como poderíamos comparar os dados espaciais do satélite com dados de campo que não fossem adquiridos da mesma forma em todo o planeta. Em 2010, organizamos um encontro internacional na França para discutir esse assunto. Foi o início do programa Geo-Trees. Todo esse trabalho foi realizado graças à preparação da missão de Biomass”, recorda Selma Cherchali.
O Geo-Trees é uma rede mundial de inventário de florestas que “coleta dados de campo de maneira duradoura” sobre a identificação de todas as espécies vegetais, o crescimento das árvores e a evolução do bioma, etc... Na Guiana Francesa, o sítio Paracou, a 50 quilômetros do Centro Espacial de Kourou, é esse laboratório tropical europeu.
Satélite Biomass
O Brasil, que possui a maior parte da Floresta Amazônica, integra a Geo-Trees. A participação do INPE na validação de dados foi fundamental para a preparação da missão cientifica Biomass do programa de Observação da Terra da Agência Espacial Europeia. O satélite inovador é equipado com uma antena sincronizada na Banda-P, que é uma frequência de ondas longas, capaz de penetrar as copas das árvores e estudar a composição das florestas até o solo.
“O satélite foi realmente concebido para conseguir detectar essas variações (na biomassa) em áreas com florestas muito densas que ocorrem na região tropical”, detalha Luis Aragão, que integra o conselho científico do Geo-Trees
.
Para ele, a missão Biomass é simbólica dessa parceria entre o Brasil e a Agência Espacial Europeia. “É uma missão e uma parceria simbólica pelo fato de nós estarmos envolvidos desde o começo. Espero que essa parceria gere muito avanço no conhecimento científico que nós temos aqui no Brasil”, diz.
A criação, junto com os parceiros europeus, de cursos de formação e capacitação de novos cientistas nessa área é outra expectativa do pesquisador brasileiro. “Uma possibilidade para que a gente tenha uma força de trabalho no futuro capaz de de analisar esses dados de alta complexidade, visando que, não só o Brasil, mas a Europa, e o resto do mundo, encontrem soluções para a mitigação e a adaptação às mudanças climáticas”, espera.
Agregando dadosOs dados inéditos enviados pelo satélite Biomass sobre a saúde e a evolução das florestas tropicais e o ciclo do carbono serão colocados à disposição de todo o mundo, gratuitamente; a partir do segundo semestre de 2025. Eles vão se somar aos dados já recebidos de outros satélites de observação da Terra que ajudam o INPE a monitorar a Floresta Amazônica.
Alessandra Rodrigues Gomes é diretora da Coordenação Espacial da Amazônia (COEAM) do INPE, localizada em Belém, no Pará. No local, os computadores das equipes do COEAM recebem e analisam as imagens enviadas por satélites para medir e mapear o desmatamento das florestas tropicais.
“A gente costuma dizer que o INPE é um fazedor de dados, um fazedor de mapas. Nós geramos informação. Quanto mais informação você tem, mais fácil se torna tentar evitar com que esse desmatamento se consolide”, salienta a coordenadora. Uma vez constatada alguma alteração no bioma, o dado gerado é enviado para os setores responsáveis pela fiscalização.
“No caso do Brasil, o Ibama faz fiscalização, além de outros órgãos estaduais e municipais. Para o INPE, cabe gerar mais informação. Para as outras instituições, cabe evitar o desmatamento. É um trabalho em conjunto. Mas se não há na ponta a fiscalização, o monitoramento vai continuar existindo”, ressalta Alessandra Gomes.
Cooperação históricaA cooperação do Brasil com a ESA começou em 1977, apenas dois anos depois da criação da agência europeia. No início, o acordo, assinado com a Agência Espacial Brasileira (AEB), abrangia apenas a utilização do Centro de Lançamento de Natal para o monitoramento de foguetes europeus lançados da Guiana Francesa. Mas a partir dos anos 1990 e o aprofundamento dos estudos sobre as mudanças climáticas, foi estendido para vários programas de Observação da Terra.
“Fizemos muitas campanhas de validação de dados sobre a cobertura florestal tropical, por exemplo, com o Brasil. Uma colaboração muito estreita com o INPE. Essa colaboração foi desenvolvida ao longo de 30, 40 anos, nas áreas de capacitação. Fizemos cursos de treinamento conjuntos sobre radar. Também recebemos na Agência Espacial Europeia profissionais brasileiros para estágios de especialização. E recentemente, temos colaborações mais focadas na calibração e validação de dados para lançamentos de novas missões”, elenca Simonetta Cheli, diretora do departamento de Observação da Terra da ESA.
Em 2002, um acordo de cooperação foi assinado entre a ESA e o Brasil com validade até 2025, mas um adendo acaba de pedir a sua extensão por mais 10 anos.
Parceria estratégicaNesse momento de tensões geopolíticas internacionais, a parceria com a Europa no setor espacial é considerada estratégica por Luis Aragão.
“A Europa tem se destacado atualmente como um grande parceiro na área espacial, não só com o lançamento do Biomass, mas também com a sua constelação de satélites Sentinel, que já vem gerando dados de altíssima qualidade e onde o INPE também é um parceiro”, informa. O Brasil é o “hub de informações do Sentinel” e o INPE tem uma estrutura que distribui os dados dos satélites europeus não para o Brasil, como também para toda a América do Sul.
De acordo com Luis Aragão, “esses dados têm sido usados nas nossas pesquisas e nossos programas operacionais de monitoramento do desmatamento e degradação florestal. O Biomass irá agregar informação a todo esse arcabouço operacional sobre os impactos desses eventos nos ecossistemas naturais brasileiros e globais também”,
Dando visibilidade a essa parceria, a Agência Espacial Europeia deve participar junto com o INPE e a Agência Espacial Brasil de atividades na COP 30 do Clima que acontece em novembro, em Belém.
*A viagem foi realizada a convite da Agência Espacial Europeia
O Centro Espacial da Guiana Francesa (CSG) é a principal porta de acesso da Europa ao Espaço. Mas sozinha a base de lançamento de Kourou não pode garantir a segurança dos voos e precisa de estações de monitoramento de foguetes espaciais espalhadas pelos quatro campos do mundo, como o Centro de Lançamento da Barreira do Inferno, em Natal. O Brasil é um dos parceiros históricos da Agência Espacial Europeia, que está completando 50 anos.
Adriana Brandão, enviada especial da RFI a Kourou*
De Kourou são lançados os foguetes europeus Ariane 6 e Vega C utilizados para colocar satélites em órbita ou para missões interplanetárias. Os lançamentos são preparados minunciosamente durante meses e até anos antes da data prevista. A segurança dos voos é de responsabilidade do CNES, a agência espacial francesa, proprietária do Centro Espacial da Guiana, que opera em parceria com a empresa Arianespace e a Agência Espacial Europeia (ESA).
Jean-Frédéric Alasa, diretor de Operações do CNES, diz que essa é uma cooperação complementar e estreita que começa muito antes de um lançamento.
"O diretor de Operações e o responsável de Missão da Arianespace são um binômio. A Arianespace gere o foguete e o diretor de operações a parte relacionada à base de lançamento e à segurança do voo", informa.
Ele detalha que a proteção de bens e pessoas e do meio ambiente é uma das missões soberanas do CNES. "Isso significa que quando o foguete decolar, se ele não estiver na trajetória correta, atuaremos, mas nas condições climáticas ideais para evitar que, em caso de queda, os destroços não caiam em áreas habitadas, por exemplo", explica.
Monitoramento do vooNo último dia 29 de maio, a RFI pôde acompanhar o lançamento de um foguete Vega C, que colocou com sucesso em órbita o satélite Biomass da Agência Espacial Europeia. Assim que o foguete deixa a base de lançamento, ele é monitorado durante toda a sua trajetória.
Os satélites podem ser colocados em órbita polar, ou geoestacionária, na linha do Equador. Nos primeiros minutos do voo, o rastreio é feito pelas poderosas antenas parabólicas da estação de Galliot, na Guiana Francesa, que fica a poucos quilômetros da base de lançamento de Kourou. Localizada em uma montanha, o local é protegido, cercado de arame farpado e com entrada restrita para evitar qualquer falha ou vazamento no esquema de segurança dos voos.
O brasileiro Cleberson Miranda trabalha na estação há mais de 20 anos. Ele nasceu na Guiana Francesa, mas é filho de brasileiros, e sonhava em integrar a equipe do Centro Espacial de Kourou desde criança.
"Nosso trabalho tem que ir até o fim da missão, quer dizer, ou o foguete vai ser desaorbitado ou ele vai ser passivado para ficar em órbita, mas sem perigo", indica o responsável pelo Sistema de Telemetria do CNES.
Base da Barreira do Inferno de NatalEm 10 minutos, os foguetes saem dos radares da estação de Galiot, que passa a contar com a ajuda de outras estações terrestres para monitorar os voos que duram em média duas horas. "Quando o voo é para o norte, a gente tem uma estação nas ilhas Bermudas, e quando é para o leste, a próxima estação é a de Natal. A gente tem um acordo com a Agência Espacial Brasileira, a AEB, e com o CLBI, que é o Centro de lançamento da Barreira do inferno".
As bases de monitoramento terrestres espalhadas pelos quatro cantos do mundo, como a de Natal, passam a ser o “olho” do Centro Espacial da Guiana, que continua sendo o responsável pela segurança do voo. As antenas dessas bases recuperam a telemetria emitida pelo foguete e enviam para Kourou, que faz o tratamento dos dados. Essas parcerias são indispensáveis.
"É essencial. Não podemos lançar sem essas colaborações aí pelo mundo. Depois que o foguete é lançado, temos de monitorá-lo até ele não ser mais um perigo. A autorização de voo só é dada se tiver os meios de monitorar isso durante todo esse tempo", salienta o brasileiro.
Além de Natal, o centro espacial da Guiana conta, por exemplo, com a colaboração das bases de Malindi, no Quênia, que pertence à Agência Espacial Italiana, de Gatineau, da Agência Especial do Canadá, ou a New Norcia, localizada na Austrália e que pertence à Agência Espacial Europeia.
Parceria históricaMas a parceira com o Centro de Lançamento da Barreira do Inferno é a mais antiga. O Brasil participa do monitoramento dos foguetes lançados de Kourou desde o início e foi o segundo país a assinar um acordo com a Agência Espacial Europeia em 1977, depois da Índia. A cooperação para a instalação na base brasileira de uma estação de telemetria para o rastreio dos foguetes europeus foi assinada somente dois anos depois da criação da ESA, em 1975.
A Barreira do Inferno é o primeiro centro de lançamento de foguetes da América do Sul. Localizada no município de Parnamirim, a cerca de 12 km de Natal, a base da Força Aérea Brasileira foi fundada em 1965, com o objetivo de contribuir para o avanço de tecnologias espaciais brasileiras.
O coronel aviador Christiano Haag, diretor do CLBI, ressalta que essa parceria com a ESA também é "muito importante" para o Brasil. "A Agência Espacial Europeia é responsável pela instalação e manutenção dos equipamentos e, mais importante, pela atualização da nossa estação. É ainda disponibilizado um treinamento para os recursos humanos e existe um pagamento financeiro que entra com os cofres públicos", informa o coronel.
Fabrizio Fabiani, diretor do programa Vega na Arianespace, lembra que a base de Natal é usada quase sempre nas "missões geoestacionárias" e que essa "parceria histórica com o Brasil é muito importante e robusta".
Uma parceria de "sucesso e estratégica" para o desenvolvimento do programa espacial das duas agências, ressalta o coronel Christiano Haag, garantindo que "até hoje nós tivemos 100% de sucesso no rastreio dos foguetes lançados a partir de Kourou".
Cleberson Miranda recorda que "a parceria com Natal existe desde o primeiro lançamento de Kourou" e espera que ela "ainda vá continuar um bom tempo".
*A viagem foi realizada a convite da Agência Espacial Europeia
O Centro Espacial da Guiana (CSG) é considerado estratégico para a Agência Espacial Europeia (ESA), que está completando 50 anos em 2025. A RFI visitou no final de maio a base de lançamento de foguetes instalada na cidade de Kourou, entre a floresta Amazônica e o oceano Atlântico, e pôde assistir ao lançamento do foguete Vega C.
Adriana Brandão, enviada especial da RFI a Kourou*
A base de Kourou é a principal porta de acesso da Europa ao espaço. Ela foi construída nos anos 1960 pela França em seu território na América do Sul, vizinho do estado brasileiro do Amapá. Desde meados dos anos 1970, com a criação da Agência Espacial Europeia (ESA), a base é operada conjuntamente pelos europeus, pela CNES, que é a agência espacial francesa, e pela empresa Arianespace.
De Kourou são lançados atualmente os foguetes europeus Ariane e Vega utilizados para colocar satélites em órbita ou para missões interplanetárias. A base é fundamental para a autonomia e a soberania do programa espacial europeu.
A franco-brasileira Renata Bragança é guia turística no Centro Espacial da Guiana, também chamado de Porto Espacial da Europa, há oito anos. Segundo ela, o CSG é muito mais importante para a Europa do que para o território francês.
O centro "permite que a Europa seja independente na indústria espacial. Sabendo que tem mais ou menos 15 bases no mundo todo, o importante mesmo é ter esse acesso independente ao espaço para a França e para a Europa. Aqui, ela [a base] só representa 12% do Produto Interno Bruto da Guiana", informa.
Cada novo lançamento reforça autonomia espacial europeiaEm 2025, já foram feitos com sucesso três lançamentos do Centro Espacial da Guiana. Mais cinco estão previstos até o final do ano, reforçando a independência da Europa de infraestruturas e políticas dos Estados Unidos, da Rússia ou da China. No final de maio, durante o lançamento do foguete Vega C, que colocou em órbita o inovador satélite europeu Biomass para monitorar florestas tropicais, a RFI conversou com o presidente-executivo da Arianespace, David Cavaillolès.
Ele salientou que a empresa Arianespace defende há décadas a autonomia espacial europeia. "Cada lançamento bem-sucedido reforça a autonomia de acesso da Europa ao espaço", enfatiza.
Ao comentar as tensões geopolíticas atuais e a nova política espacial americana, por exemplo, David Cavaillolès disse que esse contexto reafirma a posição europeia. "A evolução geopolítica atual confirma nossa posição e mostra que precisamos, em nível europeu, ter uma resposta forte, porque é realmente no nível dos continentes que essas questões estão em jogo. Penso que, com Ariane e Vega, damos essa resposta", acredita.
Satélites comerciais, governamentais e científicosOs foguetes lançados da base de Kourou colocam em órbita satélites de comunicação, de observação da Terra, meteorológicos e de navegação para clientes comerciais, como Amazon, governos e instituições científicas. Além dos satélites, Ariane também é capaz de realizar missões científicas interplanetárias, como o telescópio James Webb, lançado em 2021.
A grande maioria dos satélites e missões da Agência Espacial Europeia é lançada da base guianense. Nesses 50 anos, a ESA desenvolveu programas como o Galileo, que é o GPS europeu, ou o Copernicus – um sistema de observação da terra para apoiar estudos ambientais e climáticos.
"Nossos programas podem melhorar as estatísticas agrícolas, a compreensão e os riscos de catástrofes, o fluxo de migrantes e muitas outras aplicações ligadas à utilização do espacial", aponta Simonetta Cheli, diretora dos Programas de Observação da Terra da ESA.
O setor espacial está entre os dez considerados estratégicos para a Europa, segundo o relatório de competitividade elaborado pelo ex-primeiro-ministro italiano Mario Draghi. Nesse contexto, a agência espacial europeia desempenha um papel fundamental.
“O trabalho realizado é uma grande conquista para todos – cientistas, instituições, indústrias – mas especialmente para os países membros da ESA, que este ano comemora seus 50 anos”, avalia Simonetta Cheli.
Localização privilegiadaDe acordo com a diretora do Departamento de Observação da Terra, “todos os 23 países europeus que compõem a agência contribuem, neste momento, para esse acesso estratégico ao espaço, que deve ser preservado no futuro para garantir uma verdadeira autonomia da Europa nesses setores”.
A localização do CSG, próxima ao Equador, é privilegiada, pois permite a redução de custos e maior eficiência nos lançamentos. Quanto mais próximo do Equador, menor o consumo de combustível necessário para colocar satélites em órbita.
“É importante usarmos o mínimo possível de combustível, especialmente agora que buscamos levar combustível a bordo de missões futuras para tentar aumentar a vida útil dos satélites e evitar sobrecarregar as órbitas”, ressalta a diretora da ESA. Isso permitiria reduzir o lixo espacial, que atualmente é um dos grandes desafios do setor.
Estar em território francês também é uma vantagem “em termos de segurança”, aponta Simonetta Cheli. Kourou também está localizada em uma região livre de terremotos e furacões.
Atração turísticaAlém de representar uma porta de acesso da Europa ao espaço, o Centro Espacial da Guiana é uma atração turística popular. A base recebe cerca de 20 mil turistas por ano.
As instalações de alta tecnologia, com suas bases de lançamento, centro de controle, locais para a montagem de foguetes e preparação de satélites, são o "segundo local mais visitado da Guiana Francesa, depois das ilhas que receberam presidiários entre os anos 1880 até 1950", informa a guia Renata Bragança.
A base recebe tanto turistas locais, franceses e estrangeiros, quanto clientes interessados em contratar o serviço europeu para o envio de satélites. A maioria dos visitantes não consegue assistir a um lançamento, que ocorre poucas vezes por ano.
"Eles ficam só um pouco tristes por não poderem ver um verdadeiro foguete, só um modelo que não é lançado. Mas ficam muito felizes em poder ver como se prepara um lançamento", relata Renata.
*Viagem realizada a convite da Agência Espacial Europeia
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