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A cantora e compositora brasileira Bia Ferreira segue em turnê de verão pela Europa, levando ao público uma arte que ultrapassa o entretenimento. Com passagens por mais de 16 países entre 2023 e 2024, a artista mineira é presença marcante nos principais festivais internacionais, como o Festival de Músicas do Mundo, realizado na cidade alentejana de Sines, em Portugal, onde conversou com a RFI.
Lizzie Nassar, correspondente da RFI em Lisboa
Conhecida por um repertório autoral que aborda racismo, feminismo negro, desigualdade, xenofobia e direitos humanos, Bia acredita no poder da arte para provocar reflexão e transformação. “Existem assuntos sérios que, se eu falasse diretamente, poderiam soar agressivos. Mas quando eu canto, eles chegam ao coração das pessoas. É minha forma de comunicação”, afirma a cantora.
Entre aeroportos e palcos, Bia tem vivido uma rotina intensa de apresentações internacionais. “Faço um tipo de arte que não é bem recebida em todos os lugares, justamente porque faz as pessoas pensarem”, diz.
Apesar dos temas densos que permeiam seu trabalho, Bia salienta que "o sofrimento não a define". "O racismo, a xenofobia que eu enfrento, não são o que me moldam. O que me define é a alegria de viver, é pagar as contas da minha família com música, é estar perto dos meus.”
Três discos a caminho: acústico, rap e reggaeMesmo em meio à turnê, a artista prepara três novos álbuns com propostas e sonoridades distintas: um trabalho acústico, apenas voz e violão, em formato intimista; um disco de rap que narra suas experiências de estrada e reflexões sobre qualidade de vida; e um projeto de reggae.
“Estou decidindo a ordem de lançamento ainda. Cada disco tem sua história e um público com o qual quero me conectar”, conta.
EUA na rota, com receios e resistênciaApós apresentações em países como Bélgica, França e Portugal, Bia seguirá para os Estados Unidos. Um dos compromissos mais simbólicos será no The Kennedy Center, em Washington, onde fará um show ao lado da Casa Branca. Apesar da honra, a artista revela preocupação diante do cenário político norte-americano.
“O Trump demitiu os democratas e colocou só republicanos lá. Tenho medo de cantar as coisas que canto nesse contexto, por conta da política de imigração e do cancelamento de vistos”, desabafa.
Sem residência fixa no Brasil ou no exterior, Bia se define como uma “nômade cultural”. Para ela, essa condição revela muito sobre como os países enxergam o imigrante.
“Se um brasileiro vem para a Europa, ele é imigrante. Mas quando um europeu vai para outro país, esse título não se aplica da mesma forma. Há uma diferença clara na forma como as leis de imigração são aplicadas, e isso precisa ser discutido”, aponta.
Durante a carreira artística, Bia aprendeu três idiomas: francês, inglês e espanhol. “A arte me deu asas. Me permitiu ser uma poliglota da cultura e me orgulhar de levar a bandeira do Brasil para onde eu for.”
Homenagem a Preta GilNo Festival de Músicas do Mundo de Sines, Bia prestou uma homenagem emocionante à cantora Preta Gil, que considera uma inspiração. “Depois dela, muitas mulheres se empoderaram para ser quem são. Nós, mulheres, somos a maior parte da população mundial", enfatizou, no palco.
"É inaceitável que as políticas públicas não sejam feitas pensando em nós”, declarou diante da plateia, arrancando aplausos do público ao entoar versos como “eu sou preta, essa é minha preta, me deram um palco e eu vou cantar”.
Preta Gil faleceu no domingo passado (20), aos 50 anos, em Nova York, após dois anos de luta contra um câncer no intestino.
Alugar uma casa em Portugal tem se tornado uma verdadeira batalha – especialmente para imigrantes. A crise habitacional no país não só elevou os preços dos imóveis, como também impôs condições cada vez mais precárias para quem busca um lar digno. Essa dura realidade inspirou o cineasta brasileiro Danilo Godoy a transformar sua própria experiência em arte: nasceu o curta-metragem “Procuro T”, exibido recentemente na Cinemateca de Lisboa.
Lizzie Nassar, correspondente da RFI em Lisboa
Em Portugal, a designação dos imóveis segue uma classificação que utiliza a letra “T”, seguida de um número (por exemplo, T0, T1, T2), indicando o número de quartos existentes. Um T0 corresponde a um espaço sem divisão de quarto – como um estúdio – enquanto um T1 tem um quarto, um T2 tem dois, e assim por diante.
O filme é difícil de rotular. Mistura cenas reais com atuação, levantando uma questão provocadora: onde termina a realidade e começa a ficção?
“Eu gravei em manifestações, em apartamentos nas mesmas condições que vivenciei. Os atores têm histórias muito semelhantes às do roteiro. É tudo misturado”, explica Danilo.
Segundo ele, a proposta do filme vai além de denunciar. Trata-se de um grito coletivo pela mudança.
“Quando a realidade é dura demais, não basta só mostrar. É preciso transformar. Essa é a minha forma de lutar”, diz.
A crise habitacional em númerosO cenário não é alentador. De acordo com o Instituto Nacional de Estatística (INE), um em cada quatro inquilinos portugueses gasta pelo menos 40% do seu salário com despesas de habitação, incluindo aluguel, água, luz e gás. Nos últimos anos, os preços dos imóveis aumentaram 106%, enquanto os salários subiram apenas 35%.
O valor médio dos aluguéis subiu 7% (2024), o maior aumento dos últimos 30 anos, com destaque para Lisboa e o Norte.
Vida real: casas pequenas, contratos precários e pagamentos em dinheiroPatrícia Breternitz Pereira e o marido, imigrantes brasileiros, estão no terceiro endereço em quatro anos. O atual é um T0 minúsculo, compartilhado com outras casas no mesmo prédio, com energia elétrica instável, um contrato irregular e localizado a 30 quilômetros do centro de Lisboa.
“Pagamos € 700 por mês, mas consta nas Finanças (órgão responsável pelo registro de contratos e cobrança de impostos) apenas € 600, o equivalente a R$ 3.900. O dono quer o restante em dinheiro. Para entrar no imóvel, tivemos que pagar € 2.100 (R$ 13.650), entre caução e seguro”, relata Patrícia.
Ela ainda conta que seu nome não foi incluído no contrato, dificultando sua regularização no país. Em Portugal, é comum encontrar proprietários que não registram contratos nas Finanças ou o fazem com valores inferiores ao realmente cobrado, para driblar o pagamento de impostos.
Outra imigrante, a psicóloga Fernanda, vive há três anos em Portugal e já passou por sete moradias diferentes. Atualmente paga € 500 (cerca de R$ 2.550), por um quarto, que divide com mais três pessoas.
“Já morei numa cozinha. Era desconfortável, sem sala, e com muito barulho. Nunca tive contrato de aluguel formal. Sempre situações temporárias, improvisadas”, relata.
A habitação é hoje um dos principais componentes da inflação em Portugal. O reajuste dos aluguéis representa quase três vezes o aumento geral dos preços no país.
Danilo levou seu curta para o Short Film Corner do Festival de Cannes, ainda em versão não finalizada. A recepção foi positiva e, agora, ele quer que a obra ganhe o mundo.
“Quero que esse filme chegue ao Brasil, à Argentina, a toda a América Latina. Mas, acima de tudo, quero que os imigrantes aqui na Europa se unam. Temos histórias parecidas. Precisamos nos ouvir e agir. O cinema é a nossa arma”, justifica.
Diante da escalada de tensão na relação institucional entre Brasil e Estados Unidos, analistas e setores exportadores não apostam em um entendimento rápido acerca das novas tarifas sobre os produtos brasileiros, mesmo com prejuízo certo para os dois lados. Com a atuação do clã Bolsonaro para desestabilizar o processo penal contra o ex-presidente a partir da pressão americana, Alexandre de Moraes impõe medidas restritivas a Jair Bolsonaro. E Donald Trump reagiu no mesmo dia.
Raquel Miura, correspondente da RFI em Brasília.
A semana terminou com Jair Bolsonaro de tornozeleira eletrônica, recolhido em casa, enquanto o governo Donald Trump proibiu a entrada nos Estados Unidos de Alexandre de Moraes e de outros ministros da Suprema Corte brasileira. E a fúria trumpista, após o périplo de Eduardo Bolsonaro nas terras estadunidenses para livrar o pai da cadeia, gera expectativa de um novo pacote anti-Brasil.
Porém, a análise política é de que as medidas restritivas a Bolsonaro mostram que a investida da família tem sido um tiro pé do ex-presidente. “Houve a percepção generalizada que o país inteiro está sendo prejudicado por conta da família Bolsonaro", diz o analista político Diogo Cunha, da Universidade Federal de Pernambuco. "Eles deram de bandeja para o PT e para o Lula a bandeira do patriotismo, do nacionalismo, da soberania. E as instituições também reagiram. Então, sem dúvida, isso piorou significativamente a situação do ex-presidente”, acrescenta.
“A atuação de Eduardo Bolsonaro é mais um passo no processo de politização e de pressão que eles querem fazer sobre o Judiciário, tentando mostrar força, inclusive com ajuda do presidente da maior potência do mundo, que pode realmente prejudicar o Brasil. Agora, evidentemente, isso não funcionou, pelo contrário”, conclui Cunha.
Perdas de U$ 1 bilhãoA atual crise tem reflexos gigantes na economia. Dados da AEB, a Associação de Comércio Exterior do Brasil, mostram que já houve recuo de exportações na ordem de U$ 1 bilhão desde que a tarifa de 50% sobre tudo o que o Brasil vende para os Estados Unidos foi anunciada.
“Nós começamos a ver nas estatísticas, agora no mês de julho, que está havendo uma queda nas exportações brasileiras em torno de U$ 100 milhões por dia. Isso significa, até aqui, uma queda de pelo menos U$ 1 bilhão. Basicamente, todos aqueles setores que têm acordos de longo prazo vão ser afetados porque há uma mudança brusca. Setores como calçados, carne bovina, aviões”, explica José Augusto de Castro, presidente-executivo da Associação de Comércio Exterior do Brasil (AEB).
“A expectativa era de que essa tarifa de 50% fosse revertida no curto prazo, mas agora o ambiente está mais carregado, com declarações tanto do lado americano quanto do brasileiro. A questão política está pesando mais do que a técnica. Então, essa taxa deve perdurar por mais algum tempo. Pode ser duas ou três semanas. Também pode mudar de uma hora para outra, mas o cenário político aponta que não será no curto prazo”, afirma Castro.
Para reduzir prejuízos aos empresários brasileiros, o dirigente da associação defende a negociação e não a reciprocidade. E diz que substituir mercados, no cenário atual, não é tão fácil como muitos pregam. “Todo mundo está buscando mercados alternativos, o Brasil, os Estados Unidos, a China, a Europa. Todos os países. Então é muito difícil, é uma concorrência muito grande. E buscar mercados alternativos pode demandar tempo. Dependendo do produto, pode demorar três meses, seis meses, um ano, e às vezes não vai ter resultado”, ressaltou.
Negociações conjuntas e não bilateraisAo assumir abertamente que o lema do clã bolsonarista hoje é "nossa família acima de tudo", Eduardo Bolsonaro tem gerado muito debate nas redes sociais com suas declarações. Ele chegou a dizer, em entrevista à CNN, que “Trump não vai recuar diante de Alexandre de Moraes. E se houver um cenário de terra arrasada, ao menos terei me vingado desses ditadores de toga”.
Para evitar a terra arrasada, o analista internacional Alexandre Ueara, da ESPM, diz que o caminho é a negociação, porém não essa que os Estados Unidos têm forçado boa parte do mundo a fazer. “Negociar bilateralmente é fazer o jogo de acordo com as regras de Donald Trump. Sempre vai ter uma vantagem para os Estados Unidos nessas negociações bilaterais porque eles são a maior potência mundial, apesar da economia chinesa. Então, focar na negociação bilateral com Trump seria o pior dos mundos”, analisa.
Como ainda faltam mais de três anos para terminar o mandato do presidente americano, o especialista sugere a convergência de interesses dos demais países para fazer frente à instabilidade comercial gerada por tantos tarifaços. “Se os Estados representam 26 % da economia mundial, podemos olhar pela perspectiva de que os demais países representam cerca de 74 % do PIB mundial. Os Estados Unidos estão ameaçando o Japão, China, Brasil, Europa, entre outros. E esses países juntos têm muito mais força na negociação. Uma atuação coletiva pode ter mais resultado nessa taxa de reciprocidade”, frisou Ueara.
Política comercial discriminatóriaO uso das tarifas comerciais como arma política para defender aliados e empresas americanas, como as Big Techs, alcançou uma escalada que tem gerado críticas mundo afora. “De forma alguma a política externa que vem sendo implementada pelo governo Trump tem convergência com as regras internacionais de comércio. E esse segundo mandato Trump passou a implementar uma política externa absolutamente discriminatória, um descumprimento sério dos Estados Unidos perante o princípio mais importante da Organização Mundial do Comércio (OMC), que é o princípio da não discriminação”, afirmou a advogada Roberta Portella, mestre em Direito Internacional do Comércio e professora da FGV.
Portella destaca, no entanto, que essa guinada americana não é de agora. “A primeira administração de Donald Trump já sinalizava essa postura que questiona o multilateralismo. Mas nós juristas e pesquisadores tínhamos a esperança de que numa mudança de governo esse tema seria acomodado. E não foi. O governo Joe Biden não assumiu uma nova postura perante a OMC. Isso trouxe um novo sinal de que, na verdade, é uma política de Estado e não de governo. E o assunto se intensificou agora, ganhou toda essa luz no segundo mandato de Trump.”
O Brasil foi o grande homenageado da tradicional queima de fogos da Torre Eiffel, espetáculo que marca o encerramento das comemorações do 14 de Julho, a festa nacional francesa. O verde e o azul tomaram conta dos céus de Paris e drones reproduziram imagens representando o samba e a Amazônia.
Como acontece todos os anos, o encerramento da festa nacional aconteceu na Torre Eiffel. Diversos artistas se apresentaram em um concerto gratuito, em um palco montado no Campo de Marte. No programa, música clássica, ópera e samba.
A música “Saudade fez um samba”, de João Gilberto, foi apresentada pela violoncelista brasileira Dom La Nena, junto à Orquestra Nacional da França. Já o sopranista Bruno de Sá interpretou a obra Bachianas Brasileiras nº 5, de Heitor Villa-Lobos. As referências ao Brasil continuaram ao longo de todo o show e no fim os artistas brasileiros se juntaram aos demais para cantar o Hino Nacional francês, a Marselhesa.
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Animais e sambistas
Mas o ponto alto da noite foi, sem dúvida, a queima de fogos de artifício. Celebrando a amizade entre França e Brasil, o espetáculo, que durou 25 minutos, começou com a torre iluminada de verde e azul. Mais de mil drones foram responsáveis por formar frases e imagens, como figuras dançando samba, animais, corações e símbolos da França, incluindo a frase Liberté, Égalité, Fraternité (Liberdade, Igualdade e Fraternidade), além de uma homenagem aos dez anos da assinatura do Acordo de Paris, sempre acompanhados por música.
Drones impactam o públicoO público compareceu em peso para prestigiar o espetáculo. Com algumas estações de metrô fechadas por questões de segurança nas imediações do Campo de Marte e do Trocadéro, uma multidão se aglomerou nos acessos mais próximos.
Acompanhado da namorada, o francês Justin elogiou: “A encenação com os drones foi muito legal, com muita originalidade. E os fogos estavam lindos.” Já Solène, que é da Bretanha, falou sobre o encanto de ver o show de fogos ao vivo. “Foi a primeira vez que vi o espetáculo aqui em Paris e eu gostei muito! Já tinha visto pela TV, mas é verdade que, pessoalmente, é muito melhor.”
Essa também foi a primeira vez que o francês Paul assistiu aos fogos ao vivo. “Foi excepcional! Acredito que seja o primeiro ano com os drones, e o espetáculo foi realmente fantástico”, disse.
Festa nacionalMais cedo, também como parte da programação do 14 de Julho, foi realizado um desfile militar na Avenida Champs-Élysées, com a presença do presidente Emmanuel Macron.
O Brasil é o grande destaque dos Encontros de Arles, reunião obrigatória de profissionais e amantes da fotografia, que acontece no sul da França. O curador Thyago Nogueira apresenta duas mostras de porte: “Novos Ancestrais” e “No Lugar do Outro”.
Patrícia Moribe, enviada especial da RFI a Arles
“'Futuros Ancestrais' é uma exposição coletiva que apresenta uma geração nova e empoderado na arte brasileira, produzindo imagens a partir de múltiplas tecnologias - fotografia, vídeo, inteligência artificial, colagem”, explica Thyago Nogueira, editor da revista Zum e coordenador-chefe de arte contemporânea do Instituto Moreira Salles.
“O objetivo é reinterpretar e narrar a história do Brasil e mostrar o Brasil contemporâneo. É uma exposição que mostra artistas que desafiam a maneira como a história do país foi narrada. Eles usam partes desses arquivos para tentar contar uma outra história do Brasil, para tentar completar lacunas, para enfrentar apagamentos e violências que esses arquivos produziram. Mas também usam a imagem para construir novas formas de comunhão e de solidariedade e para pensar a integração entre diferentes tradições e ancestralidades”, acrescenta Nogueira.
RepresentatividadeA mostra denuncia a violência histórica contra comunidades afro-brasileiras, indígenas e LGBTQIA+, questionando estereótipos e a história oficial. Artistas como Denilson Baniwa, Ventura Profana, Gê Viana, Mayara Ferrão, Yhuri Cruz e Igi Lọlá Ayedun usam colagem e IA para recompor arquivos visuais e criar novas representações de beleza, afeto e espiritualidade.
O coletivo Lakapoy e Lincoln Péricles abordam os relatos oficiais através de arquivos fotográficos de suas próprias comunidades, enquanto Glicéria Tupinambá destaca a expropriação colonial e a restituição de objetos sagrados. A exposição também explora o corpo como arquivo e ferramenta de denúncia contra preconceitos, com obras de Rafa Bqueer, Castiel Vitorino Brasileiro, Melissa Oliveira e Paulo Nazareth.
“É uma exposição de artistas que olham para o passado não como um lugar nostálgico ou congelado, mas como um lugar que precisa ser reativado e rediscutido para poder esclarecer o nosso presente e também para poder imaginar um futuro diferente do futuro que está previsto para eles”, explica Thyago Nogueira.
Cláudia AndujarParalelamente, Nogueira apresenta “Cláudia Andujar – À la place des autres (No lugar do outro)”, focada na primeira parte da carreira da fotógrafa Cláudia Andujar, antes de seu engajamento com o povo Yanomami. A exposição é o resultado de dois anos de pesquisa nos arquivos da artista.
Cláudia Andujar, sobrevivente do Holocausto que chegou ao Brasil em 1955, começou a fotografar o país e a desenvolver seu olhar e sua forma de pensar a contribuição da fotografia para uma sociedade mais justa.
A exposição apresenta suas primeiras séries, incluindo “Famílias brasileiras” (1962-1964), seu trabalho editorial para a revista Realidade (1966-1971), reflexões sobre a feminilidade em “A Sônia” (1971), fotografia de rua em “Rua Direita” (cerca de 1970), e suas primeiras incursões na Amazônia (1970-1972).
As mostras nos Encontros de Arles acontecem no contexto da Temporada França-Brasil 2025.
* Correção – ao contrário da informação anterior, das duas exposições curadas por Thyago Nogueira, apenas “Cláudia Andujar, No Lugar do Outro”, foi produzida pelo Instituto Moreira Sales.
Em audiência no tribunal de Chamberry, na região da Alta Sabóia, nos Alpes franceses, em 3 de julho, a Justiça rejeitou o pedido de liberdade condicional apresentado por Edi Maikel dos Santos Silva, estendendo a sua prisão por mais seis meses. Na prática, conforme demanda do Ministério Público francês, o ex-pastor brasileiro, acusado de seis crimes sexuais contra menores de idade na França, ficará preso até o julgamento, marcado para novembro deste ano.
Maria Paula Carvalho, de Paris
Natural de Belém do Pará, Edi Maikel dos Santos Silva, de 37 anos, está preso preventivamente por decisão do Tribunal de Annecy, no sudeste do país, desde maio de 2022. Sua detenção foi prorrogada quatro vezes, enquanto responde por três estupros e três agressões sexuais contra menores. Em três desses casos, o acusado tinha autoridade sobre a vítima, o que pode acentuar a pena, em caso de condenação.
A RFI acompanha o processo em que pelo menos oito vítimas prestaram queixa à Justiça e relataram ter sido agredidas por Edi Maikel ao longo dos últimos 20 anos. Fabrício Cordeiro Brasil foi quem denunciou o ex-cunhado, após descobrir que duas de suas filhas haviam sido molestadas pelo ex-pastor. "Eu sinceramente estou um pouco aliviado, porque já há uma data fixada para o julgamento. Porém, sinto também uma pequena apreensão, porque não se sabe o que os juízes decidirão", disse em entrevista à RFI.
"O ideal seria que ele pegasse cadeia mesmo. Pena máxima para ele pagar por tudo o que cometeu no território francês, tanto na Guiana [Francesa] quanto aqui na França", desabafou Cordeiro ao ser questionado sobre sua expectativa para o julgamento. "Mas também iremos insistir para que ele seja julgado no Brasil, porque lá ele também deixou vítimas. Espero que Justiça seja feita e que seja bem pesada para ele", completa.
Um trauma para as vítimasDuas sobrinhas e a enteada de Edi Maikel estão entre as vítimas e todas eram menores de 15 anos no momento dos fatos. De acordo com os depoimentos à Justiça, aos quais a RFI teve acesso, o ex-pastor é acusado de tocar partes íntimas das meninas, de ter esfregado o pênis contra as nádegas e a vagina delas, acariciado o ânus e, em certos, casos, com penetração.
Camilla Araújo de Souza é sobrinha de Edi Maikel, o que não impediu os abusos. Hoje, aos 28 anos, ela lembra das primeiras agressões. "Minha mãe surpreendeu a gente, ele tentando esfregar o pênis dele no meu bumbum", disse à reportagem da RFI. "As penetrações do pênis dentro da vagina começaram quando eu tinha 12 ou 13 anos. E sempre que não tinha alguém por perto, ele tentava algo. Me chantageava (dizendo) que ia se matar se eu não fizesse tal coisa", acrescenta.
A RFI também ouviu as irmãs Kissia e Victoria Cordeiro, filhas do denunciante Fabrício Cordeiro, e citadas no processo. "Eu era pequena, tinha cinco ou seis anos, morava na Guiana Francesa", contou Kissia. "Nessa época, o meu tio Edi Maikel morou com a gente em um estúdio e ele dormia na mesma cama que eu. Todas as noites, eu me acordava com a mão dele na minha calcinha", revela.
A irmã Victoria Cordeiro também diz ter sido abusada pelo tio. Foi em 2009, quando a família passava uma temporada no Brasil. Na época, a menina tinha quatro anos. Mas somente aos 17, a jovem tomou coragem para falar sobre o assunto. "Enquanto os outros dormiam, eu fui ao banheiro e Edi Maikel me seguiu. Eu pedi a ele para me ajudar, ele pediu que eu me virasse de costas e começou a me tocar de forma estranha nas partes íntimas. Foi desagradável, mas aos 4 anos, eu não sabia o que acontecia. Ele não parou, fazia coisas atrás de mim, apesar de eu chorar. Quando ele terminou, mandou eu me calar e me deu um pirulito para eu me conter", diz.
O brasileiro, que chegou a atuar como pastor na França, pode pegar até 20 anos de prisão, já que a legislação do país prevê penas mais duras quando há agressão de membros da própria família. Elas eram crianças na época dos fatos e seus depoimentos serão fundamentais para uma possível condenação, segundo a advogada das vítimas.
A RFI também entrevistou uma testemunha do caso, que prefere manter o anonimato. Ela era amiga da família e conta que também foi agredida por Edi Maikel. "Ele foi violento, me empurrou na parede e foi me agarrando, passando a mão em mim, nos meus seios e querendo me beijar", relata. "A prima dele que estava em casa ouviu a porrada na parede. Ela veio e começou a pedir para ele me largar. Foi quando ele meteu a mão na minha boca para eu não gritar e dizia que não ia me largar", conta.
Hoje com 32 anos e mãe de um casal de filhos, ela espera que ele responda por seus atos. "Ele deve pagar porque deixou sequelas na vida das meninas e não só delas, pois cheguei a me sentir culpada", lembra. "É muito doloroso viver com isso. Eu fico me perguntando como as meninas viveram sem poder falar sobre isso durante todos esses anos, porque ele mexeu no psicológico delas", continua. "Ele é um monstro. Porque conhecendo a palavra de Deus, ele aproveitou disso para se aproveitar de cada uma das meninas e dos meninos, porque não foi só com meninas que ele fez isso", diz, ainda que todas as partes ouvidas no processo sejam hoje jovens mulheres. "Ele não tinha o direito de tirar a inocência de cada uma dessas crianças, desses jovens. Ele não tinha o direito de fazer isso", conclui.
Réu diz ser inocenteOuvido pelo Justiça, Edi Maikel dos Santos Silva afirma ser vítima de um complô. Ele rejeitou todas as acusações, argumentando que se baseavam no contexto de um divórcio conflituosa de sua ex-esposa e na intervenção dela para colocar as sobrinhas contra ele. Ao ser interrogado pelo juíz, ele negou ter tido relações sexuais com as vítimas.
O acusado passou por exames psicológicos. No laudo, ao qual a RFI teve acesso, ele revela ter sofrido agressões sexuais na adolescência.
A RFI fez contato diversas vezes com o advogado do réu, sem obter resposta até a publicação desta reportagem.
Pai de duas das vítimas, Fabrício Cordeiro Brasil diz, que apesar da proximidade do julgamento, o trauma permanece. "Infelizmente, sempre vai ficar, porque eram crianças. Nós, os pais, confiamos nele a ponto de deixar os nossos filhos, já que ele era tio. Além disso, ele era pastor. Nós confiávamos muito nele. Então, deixa um trauma sim. Esse trauma sempre vai ficar, infelizmente. A única solução é não pensar mais. Deixa essa ferida fechar, cicatrizar", conclui.
O ex-pastor Edi Maikel dos Santos Silva continuará em prisão provisória até o julgamento, marcado para acontecer de 3 a 7 de novembro, na Corte Criminal de Annecy. Para a Justiça francesa, essa é a única forma de evitar que ele possa pressionar as vítimas, prejudicar a investigação ou mesmo fugir para o Brasil.
Há mais de duas décadas colorindo as ruas da capital francesa, o Carnaval Tropical de Paris voltou a encantar o público neste domingo (6), com um desfile vibrante na icônica Avenida Champs-Élysées. O tema deste ano foi Amazônias, trazendo ao público presente a diversidade cultural que engloba a floresta e a urgência das questões ambientais, em plena temporada de verão europeu.
Luiza Ramos, de Paris
Cerca de 20 grupos participaram do tradicional concurso carnavalesco, inspirado nos desfiles das escolas de samba do Rio de Janeiro e São Paulo. Comunidades das Antilhas, Guiana Francesa, América Latina e Caribe se uniram para celebrar a mistura de culturas e reafirmar a importância da preservação ambiental.
A escolha do tema também destaca o papel da Guiana Francesa, território ultramarino francês que compartilha com o Brasil uma vasta área de floresta amazônica. Segundo Joby Garnier, diretor do Carnaval Tropical, a proposta é unir festa e consciência:
“Há 25 anos começamos esse carnaval em Paris com o apoio da prefeita e de muitos amigos. Hoje, celebramos o Ano do Brasil na França diante do Grand Palais e do Petit Palais. A Amazônia é a Guiana, é o Brasil, é tudo isso. Queremos que todas as diásporas participem. Chamamos de carnaval tropical porque é de todos os trópicos — e os parisienses também devem fazer parte disso”, disse
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Além da celebração, Garnier reforça o papel educativo do evento: “Vivemos em um mundo que precisa falar de ecologia. Não podemos oferecer nada sem conscientizar sobre o planeta. Já desperdiçamos tudo o que podíamos e agora precisamos consertar. Esse planeta nos pertence. São pequenos gestos coletivos como a escolha dos figurinos e a abordagem do aquecimento global que fazem a diferença. Fazer carnaval não significa ignorar os problemas. É um problema de todos nós”, afirma o diretor.
Nesse contexto, os grupos carnavalescos optaram por materiais sintéticos e reutilizáveis na confecção das fantasias, como explicou o carnavalesco Marcelo Oliveira, da escola de carnaval G.R.E.S Azulinha, a segunda a desfilar na avenida.
"Eu venho do Rio de Janeiro todos os anos desde 2022 para trazer nossa cultura nesta grande avenida Champs-Élysées, na cidade de Paris. A gente está usando muitas penas artificiais, para proteção dos animais, o que a gente chama de penas fakes", destacou o artista.
Apesar da chuva fina e dos 18 °C, centenas de espectadores de todas as idades e origens compareceram para prestigiar o espetáculo. Ao longo de três quilômetros e quase cinco horas de desfile, a Champs-Élysées se transformou em um palco tropical, com dançarinos caribenhos, passistas brasileiras e muita música.
Entre os presentes, a marfinense Beatrice Ceri, moradora de Paris há mais de 30 anos, compartilhou seu entusiasmo: “É meu quarto ano acompanhando o desfile. A atmosfera é sempre maravilhosa. A cada edição, há algo novo para descobrir. Eu adoro conhecer novas culturas — e, claro, gostaria muito de conhecer mais da cultura brasileira!”.
No último sábado (5), o Brasil foi tema de um grande baile em um dos lugares mais famosos de Paris. O samba, a capoeira e outros elementos da cultura brasileira tomaram conta do Grand Palais em mais uma ação do ano do Brasil na França.
Sucesso desde que foi anunciado há algumas semanas, com ingressos gratuitos esgotados em poucos minutos após serem disponibilizados, o Grande Baile do Grand Palais não decepcionou os brasileiros que moram em Paris e muito menos os franceses e estrangeiros, que acompanharam fascinados as músicas, as danças e as fantasias que desfilaram sob a cúpula de vidro desse icônico monumento francês.
“Está incrível esse carnaval no Grand Palais! O lugar é lindo, eu nunca tinha vindo e está todo mundo muito animado”, comentou a brasileira Aline Portugal.
Já a pesquisadora russa Gulnara Zakharova contou que foi ao evento convidada por uma amiga brasileira e que se surpreendeu com a diversidade, bem como com os significados dos símbolos e fantasias da cultura das diversas regiões do Brasil. Ela elogiou ainda a beleza e a riqueza dos figurinos.
“Eu adorei! Foi uma colega que me fez descobrir esse evento e eu realmente adorei o ambiente, a diversão total. Eu fiz uma maquiagem e eu adorei as músicas, as danças e as fantasias. É incrível! Paris é realmente um lugar que reúne todas as culturas e é muito bom poder participar de eventos como esse. Além disso, como russa, há muitas coisas em comum entre os dois países, até mesmo na música, no estilo, na maneira de festejar. Aqui eu me sinto em casa”, contou ela.
Axé, frevo, samba e voguingCom apresentações de música e dança, com axé, frevo, samba, capoeira e até mesmo o voguing, o evento entregou uma grande mistura das representações culturais do país. A cantora Carla Visi, que levou ao Grand Palais os sucessos da banda baiana Cheiro de Amor e participou pela primeira vez da temporada do Brasil na França, falou sobre a oportunidade de trazer o axé para a capital francesa.
“É uma felicidade imensa. A gente que trabalha cantando e levando a cultura de nosso país e principalmente da Bahia pelo mundo, quando a gente tem a oportunidade de celebrar essa cultura com tantos artistas, com performances maravilhosas e num espaço como esse, é muito emocionante”, disse.
O grande baile do Grand Palais teve ainda shows de artistas como Puma Camillê, Karla Silva e Jorge Aragão, que se apresentaram para um público de cerca de duas mil pessoas.
Trazendo uma mistura da capoeira de roda com a cultura do ballroom, Puma Camillê apresentou ancestralidade e voguing, numa performance ao som do berimbau que encantou e surpreendeu a plateia.
“É muito importante que nossos corpos, pretos, trans, façam esse caminho para representar o Brasil com essa dimensão e essa grandeza, falando de ancestralidade, falando de tradição, de cultura negra e originária, na França, junto com o carnaval. E hoje, pela primeira vez na história, foram transportadas mais de 160 peças do carnaval do Brasil para cá para serem usadas (por membros) do Capoeira para Todes (projeto que reúne pessoas LGBTQIAP+ em um movimento de cultura popular e de resistência) representando o Brasil. Estamos muito honrados e muito felizes”, contou.
Puma Camillê falou ainda sobre o fato de revolucionar as culturas ao unir dois movimentos bastante tradicionalistas e diferenciados, que são a roda de capoeira e a dança voguing. Perguntada se sofreu preconceito por misturar essas comunidades, ela disse que ainda sofre.
“Eu não vou dizer que esse movimento quebra muros, mas ele cria pontes que conectam o tradicional da capoeira, desde os capoeiristas indígenas, pretos a pajés, Griots e Ialorixás a pessoas LGBT para além da dança. As figuras que normalmente são mandadas para fora de casa por essas com as quais estamos juntando (na capoeira)”, destacou.
Confira mais algumas imagens do Grande Baile Brasileiro do Grand Palais.
Começou nesta sexta-feira (4) em Paris, a Expo Favela Innovation 2025. Mais do que uma feira de negócios, o encontro organizado pela Cufa, a Central Única das Favelas, visa promover a igualdade através do poder criativo encontrado em bairros populares, reunindo empreendedores, investidores, artistas e instituições.
Maria Paula Carvalho, de Paris
Durante dois dias, o Teatro de la Concorde, no coração da capital francesa, é o ponto de encontro para novos empreendedores e investidores que buscam bons projetos para apoiar, numa troca entre representantes do mundo empresarial, da sociedade civil e do poder público para debates as boas ideias nascidas em espaços de desvantagem social e econômica.
Localizado na parte baixa da famosa avenida do Champs-Élysées, a escolha do teatro foi simbólica, explica Karina Tavares, a organizadora. "No Brasil, a Expo Favela acontece sempre no centro, porque sabemos que as periferias são territórios de serviços e o pessoal do centro não vai para a periferia. Portanto, quisermos valorizar e colocar holofote nessas pessoas, nas criações, nos milagres periféricos, a gente tem de fazer isso no centro", diz.
A programação é formada por mesas-redondas, workshops, concertos, encontros literários e sessões de cinema. No jardim e no hall do teatro, os empreendedores ocupam estandes onde mostram suas inovações nas áreas de tecnologia, arte, gastronomia e bioeconomia.
Tatiane Moraes vive na favela da Tinga, na periferia de Porto Alegre, no Rio Grande do Sul. Ela trouxe à França, país conhecido pela perfumaria, o seu o projeto de fabricação de sabão artesanal. "Junto com o sabão, vem toda a questão de educação ambiental, pois um litro de óleo descartado de forma incorreta contamina 20 mil litros de água, pois o óleo impede a absorção da água no solo", explica. "Nós estamos passando por um momento difícil no Rio Grande do Sul referente às mudanças do clima, então, trouxemos essa pauta tão importante", destaca.
Iniciativa cariocaNascida no Rio de Janeiro, a Central Única das Favelas está presente em 68 países, dando visibilidade e conectando comunidades, promovendo soluções e transformações sociais em escala global, há mais de 25 anos. Uma história de sucesso, replicada pela segunda vez em Paris. "A nossa ideia não é comemorar a existência de favelas, mas que a gente possa comemorar o fato de que, apesar das dificuldades, essas pessoas têm sido bastante resilientes e têm se desenvolvido", observa Celso Athayde, o fundador da Cufa.
"A sociedade, de um modo geral, se encontra. Os ricos se encontram no Fórum Econômico mundial, os cientistas se encontram, os médicos se encontram e é importante que as favelas se encontrem, nas mais diversas atividades, inclusive no empreendedorismo", afirma. "Então, criar uma feira como essa no Brasil e depois levar essa feira para todo o mundo e começar pela França tem um papel muito importante, porque mostra que se os problemas são globais, as soluções também podem ser", analisa.
Negócios da periferia
Favela é potência, como atesta o grande número de pequenos empreendedores e presentes em Paris, como a Casa do Axé, da Paraíba. "Eu estou na Expo Favela representando o meu negócio, que é a Casa do Axé, que faz uma moda com influência afro para pessoas de terreiro e para além do terreiro", diz Erika Santos. Para ela, se apresentar no país da moda, ao lado de expositores internacionais, é uma grande conquista. "É um marco na minha história, poder ultrapassar fronteiras do meu país para apresentar o meu trabalho", diz.
Maria das Neves, da cidade do Conde, também na Paraíba, veio contar a sua história de superação. "Eu vim de um assentamento, onde iniciei uma história com apenas R$ 50 emprestados e com dois tipos de doces, feitos por duas mulheres pretas, analfabetas", diz. "Hoje, tenho o primeiro shopping rural do mundo. E para mim é um prazer estar aqui em Paris, participando da Expo Favela, pois é uma oportunidade única nas nossas vidas. Quando a gente passa a criar a nossa história, a sonhar e ser determinada, a gente tem certeza que vai muito longe", comemora.
Kalyne Lima, presidente da Cufa no Brasil, fala sobre a importância de reunir empreendedores e possíveis financiadores desses projetos."Para os empreendedores, vir a Paris é um objetivo alcançado, muitas vezes inimaginável para eles", afirma. "Sair do Brasil, fazer uma viagem internacional, poder encontrar outros empreendedores de países dos quais eles desconhecem a realidade e a cultura, e compreender que há muitas coisas em comum, é um crescimento, um aprendizado e uma autoafirmação", aponta.
8% dos brasileiros vivem em favelasConvidado do evento, o ex-ministro de Relações Exteriores do Brasil, Aloysio Nunes, lembra que 16 milhões de brasileiros vivem atualmente em 12 mil favelas, o que representa 8% da população brasileira. "As favelas são um sinal da desigualdade enorme que existe no Brasil e que vem sendo atenuada, ao longo dos anos pela luta política, por governos locais e nacionais, mas que ainda persiste infelizmente", observa. "As favelas são objeto de preconceito, consideradas como locais de criminalidade. Existe criminalidade e violência, como existe em algumas grandes cidades do mundo, mas há, sobretudo, resistência, vontade de mudar e de transformar", aponta.
A Expo Favela Innovation faz parte da temporada cultural França-Brasil, citada na sessão de abertura pelo ministro francês da Francofonia e das Parcerias Internacionais, Thani Mohamed Soilihi. "França e Brasil têm uma relação formidável, com trocas políticas e interculturais de excelência", disse ele sobre a relação entre os dois países. "Somos Estados vizinhos, já que a Guiana Francesa tem a maior fronteira internacional com o Brasil", destacou, antes de citar nomes de cantores brasileiros que se consagraram no exterior e agradecer aos jogadores brasileiros que tantas alegrias deram ao time de futebol do Paris Saint-Germain.
"Temos imenso prazer de celebrar novamente esse ano uma temporada cruzada entre o Brasil e a França, após as edições de 2005 e 2009", lembrou. "Temos visões comuns sobre como vencer os grandes desafios globais e aqui podemos reafirmar que, através do diálogo e da colaboração, podemos construir respostas atuais e duradouras aos problemas", finalizou.
Apoiada pelo Ministério da Cultura do Brasil, a Expo Favela continua neste sábado (5), com entrada franca. Esta noite, Amaro Freitas trio se apresenta no teatro da Place de la Concorde, local do evento, no número 1, Avenida Gabriel, no centro de Paris.
O teatro do Châtelet em Paris acolhe sábado (5) e domingo (6) o fim de semana temático Ancien Brésil – Brésil Nouveau (Antigo Brasil-Brasil Novo), com dois concertos que misturam vozes e músicas antigas e contemporâneas de compositores brasileiros, dentro da temporada França-Brasil 2025. A proposta é fazer o público viajar entre memória e modernidade.
A iniciativa é liderada pela orquestra Americantiga, sob a direção musical do maestro curitibano radicado em Portugal, Ricardo Bernardes. No sábado, no concerto Alma Brasileira, a pianista Cristina Ortiz dialoga com Mozart e compositores do Brasil do século 20 como Harry Crowl, João Guilherme Ripper, Camargo Guarnieri e Fructuoso Vianna.
No domingo, é a vez dos cantores Bruno de Sá e Luanda Siqueira prestarem homenagem a duas grandes figuras líricas afro-brasileiras no espetáculo Marias do Brasil, que mescla ópera, canção e narrativa visual, com direção de Ligiana Costa.
Dois programas muito diferentes entre si, como explicou à RFI Ricardo Bernardes, mas ambos com o objetivo de mostrar a música brasileira na França.
Em Alma Brasileira, Cristina Ortiz interpreta Mozart, sua especialidade, e depois compositores contemporâneos brasileiros não muito conhecidos na França. “Um programa mais tradicional, mas muito original ao mesmo tempo”, revela Bernardes.
O segundo programa, “mais desafiador”, mistura música clássica com popular. “A gente tem desde modinhas do século 18 a árias de ópera, a tango brasileiro, a maxixe”, explica o maestro. Misturando composições de Chiquinha Gonzaga e Villa Lobos, entre outros, Marias do Brasil é uma homenagem à Maria Joaquina Lapinha e à Maria d’Apparecida. Esta última morou a maior parte de sua vida em Paris e foi a primeira afro-brasileira e interpretar Carmen, do compositor francês Georges Bizet.
“O desafio era criar uma dramaturgia que fizesse um cruzamento entre a vida dessas duas mulheres e que respeitasse, de alguma forma, um pouco o repertório que elas cantaram”, explica a diretora artística Ligiana Costa. “A gente tem um espectro de repertório brasileiro muito amplo, desde a música do século 18, modinhas, áreas de padre José Maurício, música erudita, até Villa Lobos, Waldemar Henrique, Francisco Mignone, chegando até Baden Powell”, explica.
“Então, eu e a Sophia Boito, que trabalhou comigo, fomos criando uma espécie de dramaturgia de cruzamento entre essas duas mulheres que têm muito em comum, apesar de tantos séculos que as separam”, conta Ligiana Costa sobre as duas cantoras que fizeram carreira na Europa e foram esquecidas pela história.
Ela define o espetáculo como “concerto, poético, documental”. “Porque ele tem forma de um documentário, de certa forma, que apresenta essas duas mulheres, mas de uma forma muito poética e livre também”. O roteiro do espetáculo se baseou no trabalho da jornalista e escritora Mazé Torquato Chotil sobre Maria d’Apparecida e da pesquisadora e especialista em história da música, Rosana Orsini Brescia, sobre Maria Joaquina Lapinha.
A partir dos documentos sobre as duas cantoras, a diretora artística criou textos, narrados pela atriz Camila Pitanga, que fazem parte do espetáculo em forma de peças sonoras.
Repertório brasileiroO sopranista (homem que canta com voz de soprano) Bruno de Sá e a soprano Luanda Siqueira dão voz às duas Marias.
“Já tive o prazer de fazer desde Mozart, Bellini, até Wagner e outros compositores contemporâneos. Então essa outra possibilidade que se abre dentro do repertório colonial, para mim é um grande desafio”, conta Bruno de Sá, que atualmente vive na Europa e já se apresentou em diversos palcos do continente.
Dono de uma voz excepcional, o sopranista diz que pode “contar nos dedos de uma mão” às vezes que teve a “oportunidade de cantar repertório brasileiro de verdade”.
“Porque morando aqui na Europa, (a gente) se concentra mais no repertório italiano e séculos XVII, XVIII e XIX. Então cantar algo em português é sempre um desafio porque minha língua estava acostumada e treinada a cantar em outro idioma. Mas, ao mesmo tempo, voltar para as origens, especialmente neste ano, voltar ao repertório português, repertório brasileiro, tem sido muito significativo”, explica, se referindo aos diversos eventos comemorativos da Temporada do Brasil na França. Em 14 de julho, festa nacional da França, ele vai cantar as Bachianas Brasileiras de Villa Lobos no concerto de Paris. O evento de música clássica, reúne a Orquestra Nacional da França, o coro da Rádio França e solistas internacionais e acontece aos pés da Torre Eiffel, antes da tradicional queima de fogos.
Luanda Siqueira concorda que o ano “está sendo maravilhoso”. “Eu participo de vários projetos em torno da música, do repertório brasileiro e também projeto em torno da música em língua portuguesa. Então, eu adoro, não só pelo fato de cantar na minha língua, mas também por abordar toda esse ritmo que a tão característico da nossa música”, conta.
A soprano diz que conheceu Maria Lapinha através de Ricardo Bernardes. “Quando você vê as partituras da Lapinha são obras muito virtuosas. É uma partitura mais escrita, virtuosa, porque ela tem uma coisa muito lírica, muito específica que é uma voz lírica. É um trabalho, que você vê na partitura dela, que devia ser uma excelente cantora, uma excelente musicista, com bastante maestria”, diz.
“Eu conheci recentemente a Maria d’Aparecida. E eu fiquei tão triste de saber que tinha uma cantora maravilhosa brasileira aqui que eu não conheci, porque ela faleceu em 2017. Eu só fiquei sabendo da existência dela em 2023”, afirma a soprano que vive na França há 25 anos.
Após ver imagens de arquivo de Maria d’Apparecida, Luanda Siqueira diz que ficou “impressionada também de ver a força dessa mulher, no olhar dela, na maneira de falar”. Uma força que a cantora transmite no concerto em homenagem às Marias do Brasil.
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