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O curso “criadores de conteúdo digital, como ser uma voz confiável online” foi criado pela Unesco, em parceria com o Knight Center de Jornalismo, ligado à Universidade de Austin, no Texas. As aulas online foram ministradas ao vivo no final de 2024, mas os interessados ainda podem acessar o conteúdo de graça na internet.
O curso inédito de combate às fake news destinado a influenciadores e influenciadoras digitais do mundo inteiro já atraiu, no final de 2024, 10 mil pessoas de 160 países. A alta participação é “um sinal muito positivo de que há um desejo por aprender mais, por entender (...) como combater a desinformação, o discurso de ódio e outros problemas que existem no ambiente digital”, acredita Guilherme Canela chefe da seção para a Liberdade de Expressão e Segurança dos Jornalistas da Unesco, a Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura, sediada em Paris.
A formação “criadores de conteúdo digital e jornalistas: como ser uma voz confiável online” tem quatro módulos, que continuam disponíveis na internet, gratuitamente, e em quatro línguas: espanhol, francês, inglês e português.
Antes de propor o curso, a Unesco realizou uma sondagem com influencers do mundo inteiro. O resultado indicou a necessidade urgente de se fazer um curso para combater a desinformação e os discursos de ódio online. Segundo a pesquisa, 2/3 das pessoas entrevistadas confirmaram que não checam as informações que compartilham com seus seguidores. “Esse dado é super preocupante”, salienta Guilherme Canela.
Mas a sondagem também revelou um aspecto positivo, ao mostrar que 73% dos entrevistados “reconhecem essa limitação” e têm interesse de receber “mais informações, mais conteúdo sobre todas essas questões”. O curso foi criado fazendo uma ponte entre “os criadores de conteúdo desse novo mundo, os chamados influencers, e o jornalismo, que tem como uma ferramenta básica o processo de checagem das informações, das fontes”, detalha o chefe da seção para a Liberdade de Expressão e Segurança dos Jornalistas da Unesco.
Brasil, país dos influenciadores digitais
Somadas todas as plataformas, o Brasil é o segundo país do mundo com o maior número de influenciadores, atrás apenas dos Estados Unidos. O país tem mais de 10,5 milhões de influencers. A consequência dessa forte presença e pouca checagem de informações é a grande polarização de discursos nas redes.
Guilherme Canela diz que o Brasil não é um dos principais alvos da Unesco nessa batalha contra as fake news e o discurso de ódio online. Ele lembra que a agência da ONU é formada por 194 Estados-membros que recebem a mesma atenção. No entanto, ressalta que o Brasil tem interesse particular “nessa agenda do combate à desinformação”.
As ações contra os atos golpistas de 8 de janeiro, o investimento feito pela presidência brasileira do G20 e os preparativos para a COP30 de Belém são algumas das iniciativas do Brasil citadas pelo chefe da seção para a Liberdade de Expressão e Segurança dos Jornalistas da Unesco. Por isso, a organização “tem trabalhado muito com vários atores brasileiros, inclusive com o governo, mas também com influenciadores, como Felipe Neto, por exemplo “, nessa discussão sobre a desinformação.
O debate integra “uma discussão mais ampla sobre a governança do ecossistema digital, que é a maneira mais estrutural de combater a desinformação”, indica Guilherme Canela. O tema vai pontuar o ano de 2025 com o aprofundamento de reflexões sobre o impacto da inteligência artificial na desaceleração ou multiplicação de fake news, com o Dia Mundial de Liberdade de Imprensa deste ano, em 3 de maio, sendo dedicado “à liberdade de expressão e inteligência artificial”.
A França lembra a partir desta terça-feira (7) os 10 anos da série de atentados terroristas que marcou o país e o mundo. Entre 7 e 9 de janeiro de 2015, os irmãos Kouachi e Amedy Coulibaly assassinaram 17 pessoas em ataques ao jornal satírico Charlie Hebdo, em Paris, na região de Montrouge e no Hyper Cacher, supermercado frequentado pela comunidade judaica, nos arredores da capital francesa. A RFI Brasil reconstitui os três dias de ataques terroristas que chocaram a França e o planeta.
Na manhã do dia 7 de janeiro de 2015, os franceses acordam com a notícia do primeiro de uma série de atentados que paralisam o país. Usando um capuz e carregando fuzis automáticos russos do tipo Kalashnikov, os irmãos Kouachi, Saïd e Chérif, se dirigem ao 11º distrito de Paris, a sede do jornal satírico Charlie Hebdo, e perguntam a uma mulher na rua o endereço exato do local, neste que marcará a história da França como o primeiro ataque terrorista à sede de um veículo de imprensa.
Por volta de 11h20, os terroristas forçam um funcionário a entrar no prédio e sobem ao segundo andar, onde acontece a reunião de pauta. Os irmãos Kouachi invadem a sala e abrem fogo, matando 12 pessoas, incluindo figuras icônicas do jornal, como Charb, Cabu, Wolinski, Tignous e o economista Bernard Maris. Na sequência, eles gritam: "Allahu akbar", slogan apropriado da religião muçulmana pelos radicais islâmicos que significa “Deus é o maior”, dizendo logo depois "Vingamos o Profeta Maomé".
Exatamente às 11h30 do 7 de janeiro, os irmãos Kouachi deixam o local de carro e após um confronto com uma patrulha policial, executam à queima-roupa o policial Ahmed Merabet na rua. Às 11h50, os terroristas abandonam o carro no nordeste de Paris e continuam a fuga em outro veículo.
Mas o pesadelo estava longe de acabar. No dia seguinte, 8 de janeiro de 2015, os franceses são surpreendidos por um novo tiroteio na região de Montrouge, ao sul de Paris. Por volta de 8h, Amedy Coulibaly, cúmplice dos irmãos Kouachi, mata uma policial municipal, Clarissa Jean-Philippe, e foge, deixando pistas que conectam seu ato aos irmãos Kouachi. As autoridades francesas seguem a pista, mas não conseguem localizar os agressores, deixando o país em suspenso.
Hipermercado judeu: o pesadelo continuaNo dia 9 de janeiro, os irmãos Kouachi são finalmente localizados às 8h e meia da manhã em Dammartin-en-Goële, a 35 km ao nordeste de Paris. Eles se refugiam em uma gráfica, fazendo um funcionário refém. Mais tarde, por volta de uma da tarde, Amedy Coulibaly invade o supermercado judeu Hyper Cacher, na porta de Vincennes, no leste da capital francesa. Ele mata quatro pessoas e faz vários reféns, exigindo a libertação dos irmãos Kouachi.
Às 17h, as forças da tropa de elite do batalhão antiterrorista da França invadem a gráfica onde se encontram os irmãos Kouachi e ambos são mortos pelas forças de segurança. Ao mesmo tempo, uma unidade de intervenção especializada da polícia nacional francesa intervém no Hyper Cacher. Coulibaly é morto, e os reféns sobreviventes são libertados.
Caricaturas de MaoméNo entanto, a redação do Charlie Hebdo já era vigiada pela polícia francesa desde 2011, e, desde 2006, o jornal satírico sofria ameaças por publicar caricaturas de Maomé. Em 25 de setembro de 2020, um jovem paquistanês apareceu na rue Nicolas Appert, no leste de Paris, armado com uma faca de açougueiro. Zaheer Mahmoud pensava que estava em frente à sede do Charlie Hebdo e feriu gravemente duas pessoas.
Na realidade, o jornal havia se mudado cinco anos antes para um local ainda mantido em segredo, após o ataque que dizimou sua equipe editorial, mas o agressor não sabia disso. Sob custódia da polícia, ele declarou que não suportava a nova publicação de caricaturas de Maomé nas páginas do Charlie Hebdo, que havia decidido republicá-las algumas semanas antes, na abertura do julgamento dos ataques de janeiro de 2015. A decisão do jornal provocou explosões de raiva em vários países muçulmanos, inclusive no Paquistão, país de origem de Mahmoud.
Ao todo, a série de ataques terroristas deixou 17 mortos, sendo 12 na redação do jornal satírico Charlie Hebdo, uma policial em Montrouge e quatro pessoas no supermercado judeu Hyper Cacher. Os atentados marcaram profundamente a França, gerando uma imensa mobilização nacional, simbolizada pela gigantesca manifestação espontânea de 11 de janeiro de 2015, realizada na praça da República, na capital francesa.
Em 2020, foi realizado o julgamento de 14 acusados da série de atentados, cujas penas foram de 4 anos de detenção à prisão perpétua.
O corpo do webmaster Simon Fieschi foi encontrado sem vida no quarto de um hotel em Paris, em 2024. Atingido por tiros de fuzil que fragilizaram definitivamente seu estado de saúde, ele era um dos sobreviventes do tiroteio que dizimou a redação do Charlie Hebdo e é considerado a 18ª vítima do atentado.
"Je suis Charlie"Os atentados geraram uma imensa mobilização nacional, simbolizada pela gigantesca manifestação espontânea de 11 de janeiro de 2015, realizada na praça da República, na capital francesa.
A manifestação reuniu cerca de quatro milhões de pessoas na França, tornando-se uma das maiores mobilizações da história do país. Em Paris, entre 1,5 e 2 milhões de pessoas marcharam em homenagem às vítimas dos ataques.
No restante da França, cerca de dois milhões de pessoas participaram de manifestações em várias cidades, criando o famoso slogan que se tornou uma hashtag utilizada nas redes sociais do mundo inteiro: “#JesuisCharlie”, ou “#EusouCharlie”, em português.
Entrevistado pela RFI, Guilherme Canela, diretor da seção para a Liberdade de Expressão e Segurança de Jornalistas da Unesco, defende o humor como elemento-chave da liberdade de expressão. “O importante é trazer a discussão para a esfera pública. Ou seja, como proteger o humor, vis-à-vis de outras questões que também têm que ser discutidas. E infelizmente, a intolerância há 10 anos não permitiu fazer uma discussão saudável", analisa.
"A discussão foi para a violência, porque o problema não é discutir, o problema não é ser contra ou dizer ‘nós achamos que tal coisa é de bom gosto ou de mau gosto. Isso também é parte da liberdade de expressão. O problema é partir para a violência e não o diálogo ou a discussão sobre essas questões”, avalia Canela.
Memória e futuroO atual diretor do Charlie Hebdo, Gérard Biard, falou à RFI sobre o papel do jornal satírico em 2025. "Trata-se da memória de todos aqueles que fizeram Charlie, e ao fazermos o Charlie, perpetuamos também a memória de Cavanna, que o criou junto com Choron. Assim, perpetuamos também a memória de GB, de Fournier, de todas essas pessoas que fizeram de Charlie o que ele era e o que ele ainda é. Então, é isso que precisamos transmitir", declarou.
"O 7 de janeiro de 2015 é uma data fundamental, obviamente, na história do jornal. Mas não devemos parar por aí, mesmo que sempre voltemos a isso. Hoje somos uma redação entre 30 e 40 pessoas que colaboram, com muitos jovens desenhistas e jornalistas, de ambos os sexos. São eles que farão o Charlie Hebdo daqui a 10 anos. É para isso que estamos caminhando, é sobre isso que pensamos e é para isso que estamos indo, espero, em direção ao futuro", concluiu Biard.
Dez anos depois dos ataques terroristas que marcaram a França, o serviço especial antiterrorista da polícia francesa evoluiu algumas de suas práticas, estreitando significativamente a colaboração entre os batalhões de elite especializados. Mas a principal consequência prática dos ataques de janeiro é a Lei de Inteligência de 24 de julho de 2015. Ela define a estrutura dentro da qual os serviços de inteligência da França estão autorizados a usar técnicas de acesso a informações, seja por telefone ou escuta eletrônica.
Um brasileiro está preso na França suspeito de diversas agressões sexuais, abuso contra menores e estupro incestuoso. A RFI Brasil ouviu vítimas e seus familiares, que temem que o acusado seja solto e continue a molestar outras crianças. Edi Maikel dos Santos Silva, de 37 anos, é natural de Belém do Pará. Ele chegou a atuar como pastor em Annemasse, uma pequena cidade francesa na fronteira com a Suíça.
Aviso: essa reportagem contém depoimentos fortes
Maria Paula Carvalho, da RFI em Paris
Há dois anos e meio, Edi Maikel dos Santos Silva está preso preventivamente na França, de acordo com decisão do Tribunal de Annecy, no sudeste do país. Pelo menos oito vítimas prestaram queixa à Justiça e relataram ter sido agredidas pelo acusado, ao longo dos últimos 20 anos.
Camilla Araújo de Souza é sobrinha do acusado. O que não impediu os abusos, que começaram quando ambos moravam na Guiana Francesa, em 2002. Hoje, aos 28 anos, ela lembra das primeiras agressões.
"Tudo começou quando eu tinha seis anos, ele veio morar com a gente durante um tempo e foi a primeira vez que aconteceu", diz. "Minha mãe surpreendeu a gente, ele tentando esfregar o pênis dele no meu bumbum. E quando a minha mãe viu isso, eu achei que ela iria brigar com ele mas, na verdade, ela me bateu e brigou comigo", relata. "Ele é meu tio, irmão da minha mãe. Depois disso, os meus pais se separaram e a gente morou com a minha avó, depois com a minha tia. Quando a gente estava na minha avó, ele tentou fazer de novo. Mais uma vez tentando esfregar o pênis dele em mim", conta.
Ja morando na França, o assédio continuou. "Ele veio com um papo para cima de mim dizendo que uma mulher tem uma 'capinha' na vagina, que precisa tirar isso e se não for uma pessoa que tire, tem que ir no médico fazer uma cirurgia, que todas as mulheres passam por isso e que ele queria fazer isso comigo", diz. "E eu caí no papo, foi assim que começaram as penetrações do pênis dentro da vagina, quando eu tinha 12 ou 13 anos. E depois disso, eu voltei para casa e, sempre que não tinha alguém por perto, ele tentava algo. Me chantageava (dizendo) que ia se matar se eu não fizesse tal coisa", continua. "Ele me seguia, sabia os meus horários, uma vez me pegou de canto, com uma faca na mão, e disse que se eu não fugisse com ele para Lyon, iria se matar. E eu com medo acabei indo, porque a gente fica pensando: ele é tio, mais velho, tem que obedecer. Nisso, quando a gente estava em Lyon, eu fiquei um tempo sem menstruar e deu positivo", lembra a jovem.
A gravidez não se confirmou em um segundo exame, mas o trauma estava longe do fim. A RFI teve acesso a exames psicológicos feitos na vítima no âmbito do inquérito, que apontam "manifestações massivas de stress pós-traumático", "sofrimento persistente", "crises de ansiedade", "medo" e "sentimento de culpa".
Hoje, mãe de um casal de filhos, Camila teme pelo futuro. "O meu maior medo é de acontecer a mesma coisa, principalmente com a minha filha", diz. "O que mais me revolta é você falar que é cristão, que acredita em Deus, mas não assume o que fez, então não está arrependido", lamenta. "Me revolta muito o fato de ele falar que nunca aconteceu nada, que ele nunca teve desejo por adolescentes, por crianças, sendo que ele deixou trauma em todas nós, em mim, nas minhas primas. O que mais me revolta é ele não assumir e ainda ter gente que ajuda", desabafa.
Foi outro tio de Camila que insistiu na denúncia. A RFI conversou com Fabrício Cordeiro Brasil, que imediatamente percebeu o comportamento suspeito do ex-cunhado, que na época chegou a fugir com a menina. "Eu falei que isso não é normal. Ele é uma pessoa de maior. Ela tem 13 anos, isso se chama pedofilia, incesto. E vocês não têm o direito de esconder isso. Nem a mãe e nem vocês as tias", relembra.
Porém, foi somente quando descobriu que as próprias filhas também haviam sido molestadas, que Fabrício pôde denunciar Edi Maikel. Assim como Camila, outras primas dela confessaram terem sido abusadas.
"Nunca pensei que ele seria capaz de fazer isso"Kissia era uma criança na época. "Eu era pequena, tinha cinco ou seis anos, morava na Guiana Francesa e, nessa época, o meu tio Edi Maikel morou com a gente em um estúdio e ele dormia na mesma cama que eu. Todas as noites, eu me acordava com a mão dele na minha calcinha", revela. "Ele era um tio que eu amava muito, eu nunca pensei que ele seria capaz de fazer isso. E que não era só com a gente, mas eram muitas pessoas. Ainda mais que ele era pastor e trabalhava com crianças", afirma. "Nesse caso o que me chocou mais nem era ele, mas a minha mãe que não acreditou em mim e que fica até hoje defendendo ele", acrescenta.
Em novembro, Edi Maikel pediu liberdade condicional, mas a justiça negou. Um alívio temporário para as vítimas, como Kissia, que aguarda apreensiva o julgamento definitivo.
"Não ter essa certeza que ele vai ficar na prisão indefinidamente, tem essa insegurança que ele possa sair e que a justiça não acredite na gente. E tem também essa dor, esse sentimento de que a nossa própria mãe e a família do lado dos Santos Silva não acreditam na gente, isso machuca muito, até hoje", lamenta a jovem.
A irmã dela, Victoria Cordeiro, também conta ter sido abusada pelo tio. Foi em 2009, quando a família passava uma temporada no Brasil. Na época, a menina tinha quatro anos. Ela lembra de ter contado os fatos para a mãe, a irmã do agressor, que segundo ela nada fez a respeito. Somente aos 17 anos, a jovem tomou coragem para falar sobre o assunto.
"Enquanto os outros dormiam, eu fui ao banheiro e Edi Maikel me seguiu. Eu pedi a ele para me ajudar, ele pediu que eu me virasse de costas e começou a me tocar de forma estranha nas partes íntimas. Foi desagradável, mas aos 4 anos, eu não sabia o que acontecia. Ele não parou, fazia coisas atrás de mim, apesar de eu chorar. Quando ele terminou, mandou eu me calar e me deu um pirulito para eu me conter".
Hoje, aos 20 anos, Victoria ainda sofre com essas memórias. "Até hoje, é um choque para mim. Esse homem que se faz passar por um pastor e que é um pedófilo. É insuportável, não tenho outra palavra", completa. "Eu me sinto decepcionada, com raiva, traída, como todas as vítimas. Me sinto destruída, frustrada, desesperada, sobretudo. É uma mistura de todos esses sentimentos", conclui a vítima.
Enteada também denuncia agressãoA reportagem também entrevistou a ex-mulher de Edi Maikel. Mayra Angela Silveira Vieira já tinha uma filha, Marjorie, quando passou a viver com o acusado. "A gente era casado havia onze anos. Quando a gente se conheceu, a Marjorie tinha quatro anos e, logo em seguida, já chamou ele de pai", contextualiza. "Era essa a relação de pai e filha. E quando ela tinha 15 anos, isso veio à tona. O comportamento dela estava bem diferente. Havia muito ciúme da parte dele, uma possessão. Nessa época eu me separei dele e percebi que, durante uns três meses, ela ficou muito feliz, radiante", relata.
Ao estranhar o comportamento da filha, Mayra resolveu investigar. "Alguma vez ele já te faltou respeito, ele te desrespeitou?", perguntou a mãe. "Aí, ela baixou a cabeça e começou a chorar. Não queria falar. Eu insisti e ela só chorou e disse que sim. Eu perguntei quando foi a primeira vez e ela disse que tinha 5 anos. Perguntei quando foi a última, ela disse: foi quarta-feira passada. Ou seja, ela vivia isso durante 10 anos", calcula. "Eu pensei que eram só toques, carícias, mas a irmã dele falou: não foi só isso. Teve outras coisas mais sérias", explica.
Mayra conseguiu uma confissão do ex-marido, em um vídeo. A conversa foi gravada no âmbito de uma formação que ambos faziam para ser psicanalistas. "Aí foi quando ele, no vídeo, confessou. Foi uma peça fundamental, a polícia recebeu este vídeo traduzido. Nesse mesmo dia, eu mandei ele sair de casa e falei: se você não sair por espontânea vontade, eu vou denunciar".
A conclusão do exame psicológico feito pelo Tribunal de Annecy em Marjorie Vieira Palheta, hoje com 18 anos, não deixa dúvidas sobre os transtornos provocados no desenvolvimento da jovem. Ela afirma "ter medo de homens" e que o padrasto agia como se tivesse "dupla personalidade". Ela sofre de insônia, tem pesadelos e não suporta a vergonha pelo ocorrido. A mãe dela busca justiça. "Isso de certa forma me matou, porque depois disso eu nunca mais fui a mesma pessoa", afirma Mayra.
Interrogado pelo juiz, Edi Maikel diz não se lembrar dos fatos e ter sido vítima de amnésia após uma queda. Ele nega ter tido relações sexuais com as vítimas. O acusado também passou por exames psicológicos, em novembro passado. No laudo, ao qual a RFI teve acesso, ele revela ter sofrido agressões sexuais por três adolescentes, quando tinha entre seis e sete anos, e ter sido vítima de maus tratos da madrasta. Edi Maikel alega ainda ser vítima de um complô e de mentiras.
A RFI Brasil entrou em contato várias vezes com o advogado do acusado, mas não obteve retorno até a publicação desta reportagem.
O que prevê a justiça francesaA advogada de defesa das vítimas, Sylvie Correia, explica que os depoimentos delas serão fundamentais para uma possível condenação. "Não temos nada provado. Em casos de estupro e agressões sexuais, em 99% dos casos, é a palavra de um contra a palavra de outro, porque não tem ninguém presente no momento dos fatos", diz. "O que vale neste caso, é que tem muitas pessoas que não se conhecem e que se queixam da mesma coisa. Ou seja, é o número de vítimas que vai fazer com que realmente o juiz preste atenção", acrescenta.
Caso seja condenado, Edi Maikel pode pegar até 20 anos de prisão, já que a legislação do país prevê penas mais duras quando há agressão de membros da própria família. "Isso na França é uma circunstância agravante, pois se considera que o padrasto, o pai, o tio tem autoridade sobre a vítima e, então, é mais grave perante a justiça", explica a advogada Sylvie Correia. "Ele tem aquele jeito de dizer que é bom, falar muito de Jesus, falar de Deus e as pessoas acreditam nele. Ele é muito bom falador. Foi assim que conseguiu enganar a todos", conclui.
Edi Maikel dos Santos Silva continuará em prisão provisória até o mês de maio, quando poderá recorrer novamente. Para a Justiça francesa, essa é a única forma de evitar que ele possa pressionar as vítimas, prejudicar a investigação ou mesmo fugir para o Brasil.
A Fenasamba, entidade que representa mais de 100 ligas municipais e 1000 escolas de samba do Brasil, assinou em Paris um acordo de cooperação com a Federação de Carnaval Tropical de Paris (FCTP). O objetivo é promover o intercâmbio entre as duas entidades para trocas de experiências e fortalecer a cultura do samba e do carnaval.
Durante a cerimônia realizada na quinta-feira (12) na Assembleia Nacional Francesa, os presidentes da Fenasamba e da Federação de Carnaval de Paris destacaram a importância de estreitar os laços culturais entre o Brasil e da França.
“O Brasil tem construído acordos na América Latina. Já temos acordos firmados com o Panamá, a Colômbia, a Argentina e o Uruguai, que inclusive organizam bons desfiles de escolas de samba, em espaços próprios e sambódromos. Estamos agora construindo uma ação na Europa, a partir da França, que tem a experiência de faz um espetáculo carnavalesco na maior cidade turística do mundo”, diz Kaxitu Campos, presidente da Fenasamba em entrevista à RFI.
Segundo ele, o carnaval brasileiro gera um ativo de US$ 2 bilhões e uma importante vitrine para a difusão da cultura brasileira no exterior. “O carnaval é uma atividade econômica importante, é um desenvolvimento para as comunidades mais pobres, com mais dificuldades. Os recursos do carnaval atingem de forma democrática toda uma população”, acrescenta.
Durante a assinatura do acordo de cooperação, o presidente da Federação do Carnaval Tropical de Paris, Thierry Lacroix, destacou o histórico do carnaval promovido há 25 anos nas ruas da capital francesa. A festa popular, realizada no meio do ano, exibe tradicionalmente as manifestações populares típicas dos territórios ultramarinos franceses da Guadalupe, Martinica e da Guina Francesa.
Segundo Thierry, o carnaval parisiense tem sua própria identidade, mas a intenção é também abrir espaço para manifestações carnavalescas de outros países e particularmente o Brasil.
“Estamos cooperando plenamente para que possamos desenvolver e trocar cultura e know-how, e aprender com a Fensamba também. No aspecto econômico, ainda não somos uma potência. Mas aqui também temos figurinistas, costureiras que podem ensinar nossos associados e também poderão ir ao Brasil para fazer cursos de treinamento, e também trocar ideias sobre o carnaval. Sabemos que o Brasil é o carnaval número um do mundo. Aqui ainda estamos nos primeiros passos”, destaca Therry Lacroix.
Os primeiros intercâmbios serão realizados já a partir do início de 2025, com o convite da Fenasamba para que uma delegação da FCTP possa ver de perto os desfiles das escolas de samba no Rio de Janeiro e dos blocos de rua durante o carnaval carioca. Muitas outras atividades estão previstas no âmbito da temporada cultural do Ano do Brasil na França, no primeiro semestre do ano, e da França no Brasil, no segundo semestre.
“Nós vamos trazer mais de 100 brasileiros das escolas de samba para desfilar no carnaval de Paris e vamos fazer também uma exposição de arte com artistas brasileiros”, afirma Kaxitu. O presidente da Fenasamba também conta com a presença da FCTP no primeiro Encontro Mundial de Culturas Carnavalescas a ser realizado em setembro em Florianópolis.
O acordo de cooperação entre a Fenasamba e Federação do Carnaval Tropical de Paris tem o apoio do Ministério da Cultura do Brasil, que enviou a Paris o coordenador do grupo de trabalho do Carnaval do Minc, Yuri Soares Franco, para prestigiar a assinatura do documento que oficializou a parceria.
"A gente entende o papel importante das relações internacionais para a promoção da cultura brasileira no mundo e para o intercâmbio com outras culturas com as quais temos diálogo. O carnaval é o grande expoente da cultura brasileira, que gera tanto visibilidade quanto empregos, renda, turismo e economia criativa. É importante para a difusão cultural do carnaval tanto no Brasil quanto na França”, afirmou Yuri.
Para o presidente da FCTP, a presença de representantes das escolas de samba do Brasil em Paris no ano que vem vai reforçar o interesse crescente pelos desfiles que acontecem na capital francesa e também pelas escolas e clubes que se formam na cidade e atraem diversas comunidades.
“Os parisienses adoram samba, basta olhar a diversidade nas escolas de samba e elas são culturalmente diversas, com brasileiras, francesas ou das Antilhas, todas as comunidades amam o samba. Trata-se de compartilhar a cultura, aprender com os outros. Porque há uma coisa que não podemos nos esquecer: o carnaval, seja no Brasil, na Martinica, em Guadalupe ou em Paris, é uma válvula de escape”, finaliza Lacroix.
O Papai Noel pode até ter suas origens no Polo Norte, mas foi em Nova York que ele fez sua morada. A decoração cuidadosamente pensada, com pinheiros iluminados nos principais parques da cidade e vitrines especialmente enfeitadas nesta época do ano, deixa claro que a cidade é a terra do Natal.
Luciana Rosa, correspondente da RFI em Nova York
Com o início de dezembro, começa oficialmente a temporada de festas. A inauguração das luzes da tradicional árvore de Natal do Rockefeller Center e também do pinheiro instalado no coração da cidade, no Bryant Park, na semana passada, são o pontapé inicial.
Há 12 anos acontece no Bryant Park uma feira de inverno ao ar livre, bem ao estilo dos mercadinhos de Natal europeus, chamada Winter Village (vila de inverno).
Com cerca de 170 postos de venda ao ar livre, a feira atrai turistas e nova-iorquinos interessados em decoração natalina, presentes, lembrancinhas ou apenas em um bom chocolate quente para amenizar as baixas temperaturas.
Um dos produtos mais populares são as divertidas sacolas de pano que trazem mensagens que refletem o espírito da cidade. A que traz a mensagem “Você não é um verdadeiro nova-iorquino até você aprender a andar depressa” ficou famosa nas redes sociais.
"Há muitas pessoas aqui que vêm de várias partes do mundo, muitos turistas internacionais, então é muito divertido. Eles ficam empolgados com nossas bolsas e sacolas, e geralmente dão boas risadas lendo as mensagens enquanto escolhem o que levar para casa para os amigos e familiares", conta Jensen Wheeler-Wolf, que trabalha no quiosque das sacolas.
Originalmente de Chicago, Jensen concorda com a mensagem de que não é fácil seguir o ritmo de Nova York. "A competição aqui é alta, o nível é alto, então as habilidades precisam ser altas. É empolgante. Alguém me disse uma vez que, em Nova York, a pergunta não é 'o que você fez ultimamente', mas sim 'o que você vai fazer agora'. Esse é o novo mantra", explica a comerciante.
Anualmente, mais de 12 milhões de pessoas passam pelo Bryant Park.
De acordo com o CEO do banco que promove a atividade, somente na temporada de 2023, o mercado de Natal gerou cerca de 40 milhões de dólares em receita.
Uma das propostas do mercado natalino de inverno é promover empresas locais de médio e pequeno porte. Eles têm a oportunidade de estar em uma localização privilegiada como o centro de Manhattan durante uma temporada alta de turismo.
Existe até um concurso que seleciona quatro pequenos empreendedores para ocupar um dos quiosques da vila de forma gratuita por duas semanas cada um.
GastronomíaEm se tratando de negócios, os quiosques de comida estão entre os mais buscados. Entre eles, o Strawberro tem uma das filas mais longas de espera por uma sobremesa que, como explica Teagan, é uma combinação de chocolate, pistache e outros ingredientes. "É algo como pistache, chocolate ao leite... nem sei exatamente o que mais tem, talvez pasta de pistache. É muito bom", diz.
Ela e a amiga Resen, ambas de 17 anos, vieram de Ohio para passar as festas em Nova York e contam que estão na expectativa para a inauguração da árvore de Natal.
No meio de muitas ofertas, um nome soa familiar, ainda que com uma grafia diferente. É a nossa coxinha, aqui escrita "Cosheenya".
Alexandre Cavalcante, que é brasileiro e atende no quiosque de salgadinhos, conta que o movimento é muito grande, principalmente nos finais de semana e durante a hora do almoço.
Ele explica que o pastel é o produto mais procurado. "Por causa dos latinos que temos aqui, eles têm as empanadas, e nós temos o nosso pastel. Se falamos 'pastel', eles entendem como bolo. Então eles compram bastante nossas empanadas, que são parecidas com as deles, mas as deles são assadas e as nossas são fritas". Cavalcante diz que as coxinhas também foram muito bem recebidas pelo público.
Mas, a clientela não é formada apenas por brasileiros saudosos de seu país. Chelsea, que é portuguesa, veio atrás de churros recheados de doce de leite para o filho, que é metade colombiano. "Ele ama churros com doce de leite. É algo especial para ele", diz a turista.
Patinar no gelo quase de graçaA Winter Village do Bryant Park tem início no final de outubro e se estende até o começo de março, mas o mercado de Natal encerra as atividades no início de janeiro (5).
Uma das atrações principais é a pista de patinação no gelo de 1.500 metros quadrados, que pode ser usada de forma gratuita. Os turistas precisam gastar apenas com o aluguel do equipamento para patinar. Ela fica aberta até meia-noite durante os finais de semana.
Cena presente em muitos filmes de Natal realizados em Nova York, a patinação no gelo abre a noite de estreia oficial da vila.
Na pista, profissionais do esporte se misturam com patinadores infantis, como as meninas do Figure Skating in Harlem, e encantam o público presente no Bryant Park.
Finalizado o espetáculo na pista, os olhos se voltam para a enorme árvore de Natal instalada ao fundo do parque. A iluminação do pinheiro indica que está aberta oficialmente a temporada de Natal em Nova York.
Quando as portas da catedral mais famosa do mundo, a Notre-Dame de Paris, forem oficialmente reabertas no sábado (7) na presença do presidente francês Emmanuel Macron, além de outros 50 chefes de Estado, os brasileiros terão do que se orgulhar. Duas brasileiras, Luciana Lemes e Juliana Cavalheiro Rodrighiero, ajudaram a restaurar respectivamente o órgão, suas capelas e sacristia. Em entrevista à RFI, elas contam como foi a emoção de retocar um dos templos religiosos mais antigos do mundo.
Márcia Bechara, da RFI
"Trabalhei na restauração da Catedral de Notre-Dame de Paris, especificamente na parte de pinturas murais decorativas. Minha atuação se concentrou na capela Porte Rouge e na capela Saint-Germain, além da finalização da restauração dos móveis da sacristia", conta Juliana Cavalheiro Rodrighiero, que tem experiência como restauradora de pintura decorativa e mural no Atelier Mériguet-Carrère, em Paris.
"Na capela Porte Rouge, acompanhei o trabalho desde o início, participando de todas as etapas: higienização, fixação, aplicação de massa niveladora, verniz e reintegração cromática. Essa capela, particularmente afetada pelo incêndio e pela umidade, exigiu esforços intensos para recuperar suas cores e ornamentos, como os tons vibrantes e as estrelas douradas", detalha a profissional brasileira, que acumula também os títulos de doutora em Memória Social e Patrimônio Cultural pela Universidade Federal de Pelotas (UFPEL), e doutora em Antropologia pelo Laboratoire Interdisciplinaire de Recherches Sociétés, Sensibilités, Soin (LIR3S) junto à Université de Bourgogne Franche-Comté, na França.
Três banhos por dia para eliminar resíduos tóxicosRodrighiero relata como era o ritmo do trabalho dentro da catedral mais famosa do mundo. "O dia começava às 8h30 e terminava às 17h, com uma pausa de uma hora para o almoço. Por questões de segurança, devido à contaminação por chumbo, seguimos um protocolo rigoroso: trocávamos de roupa ao entrar e sair da área contaminada e tomávamos banhos obrigatórios, às vezes até três por dia, para eliminar qualquer resíduo tóxico. O almoço era oferecido no próprio canteiro, o que facilitava a rotina", diz.
Desafios e momentos marcantes"O maior desafio", conta a restauradora, foi a "responsabilidade envolvida". "Restaurar um patrimônio da humanidade, como a Catedral de Notre-Dame, é um trabalho que exige extremo cuidado técnico e científico. Além disso, havia uma constante supervisão por parte de profissionais e arquitetos do patrimônio, reforçando a importância e o peso dessa tarefa histórica", avalia.
"Dois momentos me marcaram profundamente. O primeiro foi minha chegada à catedral. Eu acompanhei o incêndio de 2019 ainda no Brasil, com o temor de nunca conhecer Notre-Dame. Entrar na capela pela primeira vez e vê-la danificada foi uma experiência emotiva, misturando orgulho e responsabilidade. O segundo momento foi a retirada dos andaimes, que revelou o resultado completo do trabalho, mostrando a beleza das capelas restauradas com suas cores vibrantes e ornamentos originais. Foi emocionante ver nosso esforço reconhecido pelas pessoas que visitaram o local durante o processo", sublinha Rodrighiero .
A beleza das "cores originais""Para reconstituir as cores originais, utilizamos principalmente nossa expertise técnica, analisando visualmente e ajustando as misturas até chegar ao tom mais próximo possível. Era um trabalho minucioso, especialmente devido à diversidade e intensidade das cores da catedral", conta a restauradora, natural de Pelotas, no interior do Rio Grande do Sul.
"Embora minha vida pessoal muitas vezes se misture com a profissional, considero a conservação e a restauração uma paixão. Esse envolvimento integral com o trabalho torna a experiência mais gratificante, pois sinto que contribuo diretamente para preservar a história e a cultura para as futuras gerações", diz a brasileira.
"Infelizmente, não estarei presente na reabertura oficial da catedral, pois retornei ao Brasil para desenvolver novos projetos profissionais. No entanto, planejo visitá-la no próximo ano para contemplar o resultado final e rever o trabalho realizado por mim e meus colegas", espera Rodrighiero.
Órgão de Notre-Dame afinado por uma brasileira"O momento mais emocionante foi a primeira vez que entrei na catedral com a equipe e subi as escadas. Aquela atmosfera grandiosa me transportou para emoções e memórias que nem vivenciei, mas que pareciam ecoar na minha mente", conta Luciana Lemes, que integrou a equipe de restauração e afinação do órgão de Notre-Dame, construído pelo francês Aristide Cavaillé-Coll (1811-1899), o mais famoso artesão deste tipo de instrumento do século 19. "Era como se cada passo fosse carregado de história e significado. Pensei no quanto minha trajetória foi difícil, mas, ao mesmo tempo, senti uma imensa honra por estar ali", relata com emoção a brasileira.
"Esse trabalho foi especialmente significativo para mim, pois venho de Lorena [interior de São Paulo], onde existe um órgão menor construído pelo mesmo artesão responsável pelo órgão de Notre-Dame", revela Lemes, que, na época, trabalhava para a empresa Quoirin, especializada no setor. "Desde pequena, eu sonhava em ter contato com órgãos franceses, mas nunca imaginei que teria a honra de trabalhar diretamente em Notre-Dame. Meu objetivo inicial ao vir para a França era aprender a profissão e, um dia, retornar ao Brasil para contribuir com os órgãos de lá. Ser convocada para um projeto dessa magnitude foi um privilégio indescritível", afirma a profissional.
Desafio foi "o barulho" durante a reforma"O maior desafio durante esse processo foi trabalhar em meio à movimentação de outras equipes na catedral", relata Luciana Lemes. "Havia pintores, operadores de andaimes e outras máquinas, o que gerava muito barulho e dificultava nosso trabalho, que exige silêncio e concentração. Apesar disso, conseguimos concluir com sucesso a restauração da fachada e a afinação do instrumento", diz.
"A harmonização é uma etapa crucial, pois define o timbre e a entonação de cada tubo, caracterizando o som único do órgão. Já a afinação é a última etapa, responsável por ajustar a precisão sonora. É um trabalho extremamente delicado e detalhista, e cada um dos 8 mil tubos foi harmonizado e afinado individualmente", detalha Lemes.
Risco da contaminação pelo chumboLuciana Lemes conta que "a fachada do órgão, que funciona como um verdadeiro cartão postal, é composta tanto por tubos funcionais quanto por tubos decorativos [fakes]. Eles são a parte visível do instrumento, criando uma apresentação imponente. Apesar de o órgão não ter sido gravemente danificado pelo incêndio, ele foi contaminado por poeira de chumbo, o que exigiu um processo de descontaminação minucioso. As empresas envolvidas desmontaram cerca de mil tubos para limpeza e restauração", relata.
"Cada componente foi enviado para ateliês especializados, onde passaram por avaliação e descontaminação. Após a conclusão desse trabalho, iniciou-se a remontagem do órgão. Essa etapa foi realizada por diferentes equipes que, com cuidado extremo, reposicionaram os tubos. Em seguida, coube a nós realizar o trabalho final: a harmonização e a afinação dos tubos", detalha Lemes.
Ela confessa que "será um momento de grande emoção ouvir o órgão soar novamente". "Cada nota que ele emitir será fruto do nosso trabalho duro, da dedicação de toda a equipe. Contribuir para a música de Notre-Dame e para a preservação desse instrumento tão especial é algo que me enche de orgulho e gratidão", conclui a brasileira, que mora com o marido francês, ele também restaurador, em Malemort-du-Comtat, um pequeno vilarejo de no sul da França, que tem apenas dois mil habitantes.
Catedral históricaA catedral de Notre-Dame é um dos templos religiosos mais antigos do mundo, com mais de 860 anos. Alguns relatos históricos dão conta de que ela nasceu como um antigo templo galo-romano dedicado à deusa Atenas, passou por diversas versões antes de se consagrar como uma joia da arquitetura gótica, verdadeiro símbolo de Paris.
Entre as histórias contadas pelos guias oficiais da catedral, duas se sobressaem: a coroa de Cristo, que teria sido trazida pelo rei São Louis de Jerusalém para o local, e a história real dos franceses que, durante a Revolução, arrancaram com machadinhas as cabeças coroadas das estátuas.
Agora, o mundo inteiro poderá rever as relíquias e lendas de Notre-Dame de Paris, restauradas com a ajuda de duas brasileiras.
Milhares de estudantes brasileiros que foram morar na Argentina em busca do sonho de cursar faculdade de medicina a um custo razoável foram pegos de surpresa por aumentos acima da inflação anunciados pelo governo Milei. Alguns são estudantes da faculdade privada mais procurada pelos brasileiros no país vizinho e que agora interrompem o sonho e voltam para o Brasil, outros recomeçam os estudos no Paraguai.
Márcio Resende, correspondente da RFI em Buenos Aires
Aos 22 anos, Amanda Mello está no terceiro ano de medicina, ela trocou Cuiabá por Buenos Aires para seguir o sonho de ser médica, mas, na metade do caminho, vieram os aumentos do custo de vida na Argentina e, sobretudo, da mensalidade do ensino.
“Quando saí da minha cidade, eu tinha a intenção de vir para a Argentina para me formar. Atualmente, com a situação que está, a faculdade em particular e o custo de vida em geral, tive de refazer os planos porque aqui não está dando mais para continuar. Tive de conversar muito com a minha família e pensar em outras possibilidades para poder continuar com meu sonho que infelizmente foi interrompido”, lamenta Amanda num desabafo à RFI.
Amanda está de mudança para o Paraguai, onde vai continuar seus estudos de medicina. “O Paraguai conseguiu abrir as portas para mim do mesmo jeito que a Argentina abriu há dois anos, porém com um custo de vida menor e com uma faculdade muito boa”, compara.
Leia tambémUniversitários da Argentina fazem greve em todo o país contra o governo Milei
Seis mil sob maior riscoSegundo um relatório do Ministério do Capital Humano da Argentina, com base nos números mais atualizados disponíveis de 2022, existem 20.255 estudantes brasileiros de medicina no país, dos quais 12.131 estão matriculados no sistema público de educação. Dos restantes 8.124, cerca de 6 mil estão na universidade Barceló, onde os brasileiros ocupam 75% das vagas, segundo o centro de estudantes da faculdade.
Numa das três sedes da universidade, a situada em Santo Tomé, na fronteira com a cidade gaúcha de São Borja, a Barceló já cobra 25% a mais se o estudante for de nacionalidade brasileira.
A situação chegou ao limite, e, com isso, milhares de estudantes que habitam em Buenos Aires decidiram protestar.
A inflação implica nos aumentosO índice de preços ao consumidor desde janeiro deste ano é 106,98% e deve fechar o ano abaixo de 120%, mas os aumentos na Barceló quase triplicaram essa cifra (325%).
Para muitos, o sonho de ser médico ficou para trás. É o caso do baiano Ario Santos, de 42 anos, que decidiu voltar para Vitória da Conquista, sua cidade natal, depois de três anos de estudos na Argentina.
“O que eu vou fazer agora é trancar minha faculdade aqui, voltar para o Brasil, esperar um pouco mais para ver se melhora a condição cambial daqui e, se isso acontecer, eu volto para continuar a minha faculdade. Porque eu estou no terceiro ano, já é um pouco mais da metade, eu não posso perder o que eu já investi”, explica Ario Santos à RFI.
“Hoje, com R$ 8 mil, está difícil você conseguir pagar tudo. Então, eu creio que aumentou 300% ou até 350%. É uma coisa incrível. Ninguém pode pagar isso. Por isso, a maioria dos brasileiros está voltando”, acrescenta.
Contas que não fechamOs brasileiros decidem vir para estudar na Argentina por três motivos principais:
1) no país não existe vestibular, basta se matricular;
2) o ensino é de qualidade;
3) o custo de vida era baixo até o ano passado.
Entretanto, este ano a moeda argentina foi a que mais se valorizou no mundo. E o custo de vida para os estudantes brasileiros mais do que triplicou em reais.
Apesar da inflação acumulada desde dezembro, quando o governo do presidente Javier Milei começou, ter atingido 160%, o valor do dólar financeiro (usado pelos brasileiros) é apenas 7% maior, quando comparado com o de dezembro de 2023.
Na contramão, em 2024, o real se desvalorizou 19,2% e o dólar aumentou 23,7% no Brasil, tocando os 6 reais.
Essa equação de peso argentino valorizado e de real desvalorizado atinge o poder aquisitivo dos brasileiros que recebem a ajuda da família no Brasil.
Há um ano, o curitibano Matheus Vieira, de 26 anos, pagava o equivalente a R$ 700 de mensalidade; hoje, paga R$ 1.900, quase o triplo. Com aluguel, transporte e alimentação, o custo de vida chega a R$ 5 mil e continua a subir todos os meses. Depois de dois anos na Argentina, Matheus admite que agora também está na dúvida sobre voltar ao Brasil ou recomeçar no Paraguai.
“Diante desse panorama, com os aumentos mensais da faculdade e com o aumento do custo de vida, infelizmente as opções são trancar a faculdade, voltar para o Brasil ou estudar a possibilidade de transferir para o Paraguai. Mas isso é muito triste porque isso é uma interrupção de um sonho, de um planejamento muito longo que envolve a minha família, que se programa e que se organiza para isso”, lamenta o estudante.
Interrupção e recomeçoA paulista Mikaela Bessa, de 20 anos, indica à RFI que "vai jogar no lixo os dois anos investidos" na universidade privada Barceló, mas não vai desistir do sonho. Como na Argentina, a universidade pública não reconhece o estudo da privada, Mikaela vai recomeçar do zero.
“O impacto desse aumento na minha vida é que eu terei de recomeçar. Vou ter de trancar, parar a faculdade no meu segundo ano. Ou seja: são dois anos que paguei a faculdade, que eu me esforcei, jogados no lixo. E vou recomeçar numa universidade pública aqui na Argentina para continuar o meu sonho e não ter de desistir e voltar para o Brasil”, resigna-se.
A também paulista Iasmin Riboski, de 21 anos, olha ao redor e vê como o sonho se tornou um pesadelo para os brasileiros e para as suas famílias no Brasil que arcam com os custos.
“Eu tenho a minha família no Brasil. Os meus avós, já aposentados, e os meus pais, que também estão dando todo o esforço possível. É muito complicado porque a gente vem com um sonho e volta com uma ilusão de que a vida é barata, de que a faculdade vai nos escutar, mas, infelizmente, esse sentimento de frustração não é somente meu, mas de todos os meus colegas e de todos os estudantes aqui”, aponta Iasmin sobre o caso de brasileiros nas universidades privadas argentinas.
Pela primeira vez na Taça Libertadores, dois clubes brasileiros decidem em solo argentino. Mas o que pensam os argentinos, que ficaram de fora da festa? Os torcedores do River Plate, donos da casa, têm um clube brasileiro preferido e uma das razões é um histórico bicampeão da seleção brasileira.
Márcio Resende, correspondente da RFI em Buenos Aires
Buenos Aires é alvinegra. O preto e o branco, tanto do Botafogo quanto do Atlético Mineiro, estão nas camisas e nas bandeiras dos torcedores brasileiros que vieram para esta final e que se espalham pela cidade.
Mas o que pensam os argentinos dessa festa completamente brasileira da qual ficaram de fora? E o que pensam especialmente os torcedores do River Plate ao verem uma final brasileira na sua própria casa, o estádio Monumental de Nuñez?
Em frente ao estádio da final, o torcedor Tomás Donaldson, de 36 anos, sócio pleno do River Plate, tem um misto de sentimentos.
“Tenho sentimentos contraditórios por razões óbvias. Por um lado, porque sou torcedor do River e esta é a minha casa. Eu queria a festa aqui. Por outro, como argentino e anfitrião de duas equipes brasileiras, fico feliz que tenham escolhido o nosso país para realizar a final.
Pelo lado do torcedor do River, não gosto nem um pouco porque quero ganhar, porque é futebol e quero que meu time ganhe”, descreve Tomás à RFI. É o que acontece com a maioria dos torcedores do River: nesta final, vão engrossar a torcida do Botafogo.
“Eu torcerei para o Botafogo simplesmente porque o Atlético Mineiro nos eliminou na semifinal. Torço para o Atlético não ganhar e para o Botafogo ganhar”, revela.
Ricardo Ruiz, de 47 anos, é treinador de futebol infanto-juvenil. Não gosta que a final seja entre dois brasileiros em solo argentino.
“Não cai bem. A gente fica com esse ressentimento de pensar como a gente não está nesta final. Mas, enfim, temos de aceitar. A verdade é que, bom, é uma final, são dois brasileiros e pronto. Mas eu gostaria que fosse um brasileiro e um argentino ou dois argentinos, mas paciência”, diz.
Ricardo é torcedor do Boca Juniors, rival do River Plate. O Atlético eliminou o River na semifinal. Em agradecimento por ter tirado o rival da competição, o Atlético ganhou a simpatia de Ricardo. A final entre brasileiros também mexe com a rivalidade interna dos argentinos.
“Torço para o Mineiro. Eu, como torcedor do Boca, o Atlético deixou o River de fora, né? Bom, isto é futebol. Esta é a rivalidade Boca-River. É assim. Isto é futebol. É diversão. Isto é paixão”, interpreta.
Isaac Romero, de 14 anos, torcedor do River, não gosta nem um pouco de ter uma final entre brasileiros na Argentina. Desde 2019, todos os campeões da Libertadores são times brasileiros.
“Isso me cai mal porque já são vários anos de brasileiros disputando finais. Por outro lado, na semifinal, o Atlético Mineiro deixou o River de fora. Vou torcer pelo Botafogo porque eu quero que levantem a sua primeira Libertadores”, afirma.
Didi, o elo entre o Botafogo e o River PlateO Botafogo tem ao seu lado os donos da casa, a torcida do River Plate. Porém, a razão para essa torcida emprestada a favor do Botafogo não é apenas uma espécie de vingança porque o Atlético eliminou o River da disputa.
A outra razão é histórica e atende pelo nome de Waldir Pereira, o Didi.O bicampeão mundial pela seleção brasileira é a ponte entre o Botafogo e o River Plate. Didi jogou pelo time carioca primeiro entre 1956 e 1959; depois, entre 1961 e 1962. O Botafogo foi o clube pelo qual mais vezes jogou.
Ao lado de Garrincha, Nilton Santos, Zagallo, Gérson e Amarildo, marcou 114 gols em 313 jogos. E, como técnico, Didi foi treinador justamente aqui, no River Plate, entre 1970 e 1972, onde teve uma efetividade de 61,62%. Dirigiu o River em 99 partidas, obtendo 47 vitórias, 28 empates e 24 derrotas. Foram 172 gols a favor e 128 contra.
Marca na história do futebol argentinoDidi deixou uma marca na história do clube e tornou-se referência no futebol argentino. Descobriu talentos das divisões inferiores que foram a base do River Plate campeão de 1975, depois de 18 anos de jejum. Os juvenis escolhidos por Didi tornaram-se ídolos emblemáticos, como explica à RFI o pesquisador Osvaldo Gorgazzi, vice-presidente do Museu do River Plate.
“A importância histórica de Didi baseia-se no fato de ele ter chegado num momento muito difícil para o River, mas deixou as bases do futuro campeão. Isso faz com que os torcedores do River fiquem sempre gratos pela passagem de Didi na Argentina”, afirma Gogazzi, enquanto exibe os arquivos de Didi, cuidadosamente guardados pelo River.
Didi não falava espanhol, mas exigia que “jogassem bonito”. Queria toques de primeira, tabelas rápidas e criativas. Acabou instalando uma filosofia de jogo e a expressão, em português, “jogo bonito”, incorporada ao léxico futebolístico argentino.
“Didi também deixou dois conceitos que ainda hoje se repetem. Belo futebol, que é justamente algo que faz parte do estilo do River. E o “Folha Seca”, uma cobrança de falta na qual a bola faz movimentos muito curiosos, que o torcedor gosta de ver porque é como se estivesse vendo uma obra de arte porque o futebol, no final das contas, também é uma obra de arte”, traduz Osvaldo Gorgazzi.
Também pesquisador e membro da Comissão do Museu do River, Oscar Corletti, detalha à RFI que os juvenis de Didi foram nomes como os meio campistas Norberto ‘Beto’ Alonso, ‘Mostaza’Merlo e Juan José ‘JJ’ López, que, juntos com o goleador Carlos Morete, trouxeram uma década de glórias para o River Plate.
Cantiga para DidiOscar Corletti tinha 13 anos quando via os treinamentos daquele River de Didi. O brasileiro ensinava o chute “Folha Seca” e como bater com efeito para desviar de uma barreira feita de madeira. Foram todas inovações para a época.
Em 1971, ganhou do rival Boca Juniors, por 3 a 1. O time do River era de desconhecidos juvenis contra profissionais consagrados do Boca. O baile foi tanto que a torcida criou uma cantiga especial para Didi: “Toco para você, passa para mim. Esta é a equipe do Didi”.
“Didi soube unir muito bem o estilo de futebol elegante do River com a cultura do futebol brasileiro. A partir desse jogo, a torcida criou essa cantiga para ele”, recorda Oscar, presente no estádio nesse dia.
Oscar vai torcer pelo Botafogo, time que viu jogar num quadrangular em Buenos Aires em 1964. O Botafogo ganhou do River por 4 a 3, mas Oscar, com 7 anos de idade, ficou encantado com os brasileiros, apesar da derrota do River.
“Eu prefiro que o Botafogo ganhe porque depois de tê-lo visto jogar em 64 no River, adorei como o Garrincha e o Gerson jogavam, e a partir daí foi como se eu simpatizasse, não só com a camisa, mas com o estilo de futebol deles”, aponta, sintetizando um sentimento predominante de toda uma geração em torno da estrela solitária.
Na unidade da USP de Ribeirão Preto, uma pesquisa avançada no enfrentamento de cânceres chamou a atenção do Instituto Curie, centro de pesquisas e tratamentos oncológicos de Paris. A partir do interesse mútuo em avançar nos resultados positivos, surgiu uma parceria inédita para compartilhar conhecimentos e tecnologia para curar pessoas afetadas por um tipo de linfoma que atinge o cérebro. O projeto pretende tratar cerca de 20 pacientes brasileiros e franceses a partir de 2026.
Luiza Ramos, da RFI em Paris
Uma delegação formada por oito membros da Universidade de São Paulo (USP), da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp) e do consulado da França em São Paulo esteve em Paris para uma semana de intercâmbio científico entre os dias 18 e 22 de novembro. Nos eventos, foram apresentados projetos inovadores de pesquisa celular e outros temas, para selar parcerias entre instituições francesas e brasileiras.
Um dos pesquisadores do estudo clínico com células CAR-T, Diego Clé, especialista em hematologia do Núcleo de Terapia Avançada da USP (Nutera), apresentou resultados positivos dos tratamentos com pacientes com câncer realizados no Brasil. Já o pró-reitor de graduação da USP, Rodrigo Calado, detalhou à RFI a pesquisa feita pela unidade de Ribeirão Preto e que interessou a França.
“Nós desenvolvemos algumas terapias usando as células CAR-T, que foi a pioneira no Brasil para tratamento de leucemia e linfomas. E aqui no Instituto Curie, eles desenvolvem uma terapia para outro tipo de linfoma. Surgiu essa oportunidade de nós combinarmos esforços em uma colaboração, em um projeto único de pesquisa científica para tratar pacientes com esse tipo de ferramenta terapêutica”, descreve o especialista.
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Intercâmbio de conhecimentos“Essa é uma ferramenta que foi desenvolvida inicialmente aqui no laboratório de Paris e que nós vamos complementar com as habilidades e a expertises que nós temos na produção de células na USP em Ribeirão”, explica Calado.
A delegação brasileira em Paris pôde visitar as instalações provisórias do setor de pesquisas celulares do Instituto Curie (CellAction), cuja tecnologia e equipamentos avançados de análises específicas podem complementar o que o Brasil já apresenta de avanços e de sucesso em tratamentos preliminares realizados em São Paulo.
A pesquisadora do Instituto Curie e diretora médica da unidade de pesquisa celular oncológica (CellAction) em Paris, Marion Alcantara, especifica que objetivo da parceria é construir em conjunto um ensaio clínico para tratar pacientes com linfoma cerebral primário que tiveram reincidência após uma primeira opção de terapia.
“A ideia é que pacientes franceses sejam tratados na França com o produto fabricado na França e pacientes brasileiros tratados no Brasil com o mesmo produto fabricado no laboratório da USP Ribeirão Preto. A ideia é fazer junto com eles para não desenvolvermos algo do nosso lado que não seja viável para eles. Então, realmente precisamos colaborar nisso”, descreve a especialista, que irá ao Brasil trabalhar com os cientistas brasileiros em 2025 visando “tratar os primeiros pacientes no início de 2026”, confirma Marion Alcantara à RFI.
A unidade de pesquisa celular oncológica do Instituto Curie faz parte do plano de investimento France 2030, aprovado há cerca de três anos pelo presidente francês, Emmanuel Macron. Com um orçamento de € 54 bilhões, o plano visa recuperar o atraso industrial da França e investe maciçamente em tecnologias e pesquisas inovadoras.
Colaboração científica França-Brasil para o tratamentoO reitor da USP, Carlos Gilberto Carlotti Jr., detalha que a parceria já terá efeito a partir do início de 2025, com intercâmbio de cientistas brasileiros para as instalações francesas para ter acesso a essa tecnologia e replicar o tratamento no Brasil. Cada país deverá tratar cerca de dez pacientes, que serão submetidos às mesmas terapias, mas produzidas em seus países.
“Nós fazemos no Brasil o tratamento para linfoma e leucemias, não do cérebro, mas sim aqueles que atingem todo o corpo. Isso nós já temos vários casos [no Brasil] e temos um projeto único de pesquisa científica com o Ministério da Saúde, para tratar pacientes com esse tipo de ferramenta terapêutica”, destaca o reitor. O desenvolvimento da tecnologia pretende proporcionar, no SUS, um valor médio do tratamento por paciente de até R$ 100 mil – um custo que, hoje, chega a US$ 400 mil aos cofres da saúde pública.
Parcerias futurasRodrigo Calado aposta que a vinda a Paris pode gerar futuros intercâmbio de conhecimento e até novos tratamentos contra o câncer.
“Essa visita é para poder estreitar essa oportunidade, utilizando essa colaboração específica, mas isso provavelmente vai abrir uma oportunidade para outras parcerias e outros intercâmbios de cientistas, médicos, biólogos, estudantes, tanto do Brasil para França quanto da França para o Brasil, e desenvolver outros tratamentos, outras terapias celulares e para outros tipos de cânceres”, afirma o pesquisador.
A reinauguração do Museu de Arte Urbana de Belém (Maub) marcou os 365 dias que faltam até a COP30, a Conferência do Clima das Nações Unidas, que terá como sede a capital paraense em novembro de 2025. A reforma é parte das muitas mudanças por que passa a cidade. Para encher de formas e cores fachadas, muros e pontes, foram convidados artistas importantes da cena urbana na capital, que é cercada de floresta e pelo universo paralelo do rio e as suas 39 ilhas. Drika Chagas é um desses artistas.
Vivian Oswald, correspondente da RFI no Rio
Maior museu do gênero da América Latina, o Maub ocupa uma área de seis mil metros quadrados à beira-rio, na Baía do Guajará, no complexo do Ver-o-rio, uma das áreas que estão sendo revigoradas. Drika e os outros foram escolhidos por uma curadoria que busca artistas de diversas regiões do país, em harmonia com outras manifestações culturais juvenis que florescem em grandes capitais cosmopolitas ou cidades menos conhecidas.
Nascida e criada em Belém, hoje a artista de 39 anos está baseada em Dijon, na França, onde vive há seis. Seu painel no Maub é imenso: tem 1.200 metros quadrados. Ela trabalhou por dias debruçada em andaimes. Era pequena no meio de tantas cores. Reproduz personagens com a cabeça de animais amazônicos com risco de extinção: o gato maracajá, o gavião real, imenso do tamanho de uma pessoa, e o macaco-prego. Eles chamam o público para a dança, uma espécie de rito do apagamento do fogo – uma conexão com o que se perdeu.
“Para os meus murais, eu gosto muito de levar uma temática onírica amazônica, onde trabalho com estéticas um pouco surreais e também o feminismo amazônico, através das formas, dos tecidos, de nuances. Eu trago essa discussão do feminino, assim como a questão do simbolismo amazônico, com essas referências do nosso sincretismo religioso. O misticismo é muito atrelado nos meus murais”, explica.
Aos 14 anos, ela entendeu o que queria: ser artista e trabalhar com grafite. "Lembro que eu via muita arte dentro de um museu, de instituições. E quando eu vi pela primeira vez uma revista de grafite, me inspirou muito o dinamismo que a gente vê dentro dessa cultura urbana, que é essa aproximação com o público. Quando tive contato com essa revista, meio que virou a chave. Eu falei: quero fazer isso", conta. "A partir daí surgiu essa busca independente”, afirma.
A história de Drika com a França começou com um convite por intermédio da Aliança Francesa, depois de participar de projetos dentro e fora do Brasil. Aos poucos, ela foi se conectando com o país, e conheceu seu futuro marido.
Drika participou do Le Lab14, que ocupou as paredes de cada um dos andares do prédio do correio em Montparnasse, em Paris. O velho edifício foi transformado em galeria e residência de artistas, coberto de grafites, colagens e fotos.
Com a agenda cheia, Drika hoje tenta organizar seu tempo. Ela está prestes a coordenar um grande projeto de cultura urbana pelos próximos quatro anos em Chalons-sur-Saône, na região francesa da Borgonha. Mas as raízes também falam alto. A artista tem passado de três a quatro meses por ano em Belém. É onde se reconecta.
A cada ano, o Maub deve renovar sua imensa exposição. Drika espera estar na próxima, a que será visitada pelas delegações dos quase 200 países que participarão da COP Amazônica, como tem sido chamada a Conferência do Clima de 2025.
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