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By RFI Brasil
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  • Brasil é destaque no Web Summit em Lisboa com participação recorde e startups inovadoras

    Com uma delegação recorde de 400 startups, o Brasil dominou a participação internacional no Web Summit em Lisboa, que começou segunda-feira (11) e terminou nesta quinta-feira (14). No evento, o país mostrou sua força crescente no cenário tecnológico mundial.

    Luciana Quaresma, correspondente da RFI em Portugal

    O evento é considerado a principal conferência de tecnologia global e se tornou a vitrine perfeita para o potencial brasileiro e para atrair investimentos estrangeiros em seus setores tecnológicos em expansão. 

    A Agência Brasileira de Promoção de Exportações e Investimentos (ApexBrasil) investiu R$ 11,5 milhões para viabilizar a presença das startups no evento, fomentando parcerias e impulsionando o crescimento das empresas do país.

    A expressiva participação brasileira reafirma a posição do país como um centro de inovação em ascensão. “A ApexBrasil, em parceria com o Sebrae, vem trabalhando para a inserção de novas startups no cenário internacional. Ampliamos o nosso espaço e além das palestras e encontros temos as empresas inovadoras. Aqui temos as empresas selecionadas pelo Web Summit num total de 80. As outras são empresas inovadoras”, explica Maria Paula Velloso, Gerente de Indústria e Serviços da ApexBrasil.

    Este ano marcou um crescimento exponencial em relação ao anterior, mas o impacto brasileiro transcende os números. A delegação se destacou pela notável diversidade, fruto de um esforço consciente para incluir empresas de diferentes regiões do país, rompendo com a concentração tradicional nos grandes centros urbanos. 

    Parcerias estratégicas com a Central Única das Favelas (CUFA) permitiram a inclusão de empresas de favelas e lideradas por mulheres, além de um foco especial no ecossistema do Nordeste, garantindo uma representação mais ampla e abrangente do potencial inovador brasileiro. 

    “A Apex olhou a questão da diversidade. A gente fez parceria com a CUFA para podermos trazer empresas oriundas da favela. Fizemos também com a Rede Mulher Empreendedora para trazer empresas lideradas por mulheres, também focamos no ecossistema norte-nordeste com a preocupação de trazer mais empresas de outras partes do Brasil que não fossem apenas sul-sudeste. Ampliamos a participação brasileira, mas com uma maior diversidade”, explica Maria Paula Velloso.

    Soluções inovadoras da Amazônia

    A Wood Chat, startup 100% acriana, exemplifica essa diversidade. Sua inteligência artificial revolucionária soluciona problemas cruciais na Amazônia: a identificação de espécies e a falta de dados de imagens. A tecnologia brasileira agora alcança a Europa, auxiliando compradores de madeira a certificar a origem e a espécie das toras e peças, principalmente na Europa e nos Estados Unidos, os maiores importadores de madeira amazônica. 

    A ferramenta desenvolvida pela empresa faz o reconhecimento de madeira em tora, ou seja, no corte da madeira transversal. "O DNA da madeira está justamente neste tipo de corte, então produzimos uma IA que fizesse esse reconhecimento e identifica o nome botânico, a origem da madeira e da família dela. Na nossa Floresta Amazônica temos entre 40 e 300 espécies por hectare, então imagina o tamanho da nossa diversidade", frisa Fernanda Onofre, criadora da Wood Chat.

    "Resolvemos um problema da Amazônia que era a identificação de espécies e também os dados de imagens que não existiam. Com a nossa tecnologia conseguimos resolver estes dois problemas”, afirma. “Os maiores compradores da madeira da Amazônia são a Europa e os Estados Unidos, então quando esta madeira chega aqui na Europa, por exemplo, como cliente Wood Chat, ele consegue fazer o reconhecimento das toras e das peças de madeiras que podem chegar laminadas e se certificar de que aquela madeira é realmente o que comprou, reconhecida pelo Chat”, completa.

    Cleo Sousa, diretora da Escola de Negócios da Favela, que busca transformar a realidade socioeconômica das favelas por meio da educação e da promoção de negócios, destaca a presença de dez empreendedores de diferentes estados, selecionados em um evento voltado para o protagonismo de comunidades em situação de vulnerabilidade.

    "Na hora que a gente conseguiu esta parceria através deste super apoio da ApexBrasil, com a CUFA e a Escola de Negócios da Favela, decidimos que teria que ser algo relacionado com tecnologia, algo que em algum momento já tenha tido destaque em seu estado, top 10 dentro da Expo Favela. Essa foi a base para a escolha das startups que estão aqui com a gente”, afirma Cleo. A diretora adianta que para 2025 a Escola de Negócios deverá trazer trinta startups para o Web Summit.

    Histórias de Sucesso

    Janaína Cristina, de São Paulo, é fundadora da startup Seja do Mundo, cuja missão é democratizar o acesso ao mundo para todos os brasileiros. "Quando vi a Torre Eiffel brilhando, percebi que o mundo ia muito além de Guaianazes e então criei a Seja do Mundo", afirma a empreendedora. A startup faz consultoria de cidadanias portuguesa, italiana e espanhola. "Temos uma pegada diferente, pois levamos o assunto para as favelas do Brasil. Estar aqui hoje é um grande divisor de águas porque a gente está tendo a oportunidade de ter um contato direto com pessoas que podem fazer a diferença e nos ajudar a conquistar os nossos objetivos”, diz.

    Raphael Ribeiro, fundador da Sankofa Sustentabilidade, uma startup carioca de engenharia periférica e soluções ambientais, utiliza a tecnologia para promover mudanças sociais e econômicas sustentáveis. O nome Sankofa, explica, vem do idioma de Gana que significa voltar ao passado e ressignificar o presente para construir o futuro.

    "Através do movimento da CUFA, Escola de Negócios, da Expo Favela, fui selecionado entre 400 pessoas e fui a única empresa de engenharia periférica local. A partir disso começaram a surgir outras oportunidades como essa, de hoje estar aqui na Web Summit. É um verdadeiro presente, pois eu nunca tinha saído do Brasil. É uma realização”, explica Ribeiro.

    Portugal é parceiro estratégico

    A presença brasileira no Web Summit extrapolou a participação direta no evento.  Encontros com outras delegações e um “Dia da Inovação” com empresários portugueses enriqueceram a experiência.

    Startups brasileiras já estabelecidas em Portugal também estiveram presentes, reforçando a crescente relação entre os dois países no cenário de inovação. Empresários brasileiros que se estabeleceram em Portugal corroboraram a percepção do país como uma plataforma estratégica para o acesso ao mercado europeu, oferecendo um ambiente propício para investimentos e incentivos a startups.

    Eduardo Migliorelli, CEO da Atlantic Hub, reforça essa visão. “Temos aqui 70 empresários hoje e mais 400 startups que vieram para cá e estamos conectando. Eu fico até arrepiado de tanto orgulho de brasileiros ajudando brasileiros a criar um mindset global entre os empreendedores", destaca

    "Chega de ficar só pensando localmente e desenvolver negócios para crescer dentro do Brasil. O Brasil é incrível, tem uma economia brutal, mas a Europa e os EUA estão esperando estes bons negócios que o brasileiro tem de melhorar e mostrar para fora”, afirma Eduardo.

    Sua empresa já apoiou a internacionalização de centenas de empresas brasileiras e, neste ano, trouxe um número significativo de startups para o Web Summit, representando diversos setores. Segundo Eduardo, Portugal oferece um ambiente favorável para investimentos, especialmente para brasileiros, e se tornou um dos melhores pontos de partida para empresas brasileiras que desejam acessar mercados globais.

    "Com estabilidade política, incentivos fiscais para startups, e um ecossistema de inovação em crescimento, o país é uma porta de entrada estratégica para o mercado europeu. Além disso, a conexão cultural e a facilidade de adaptação fazem de Portugal um destino atrativo para empreendedores brasileiros que buscam internacionalizar seus negócios”, afirma Migliorelli.

    Paddy Cosgrave, CEO do evento, destacou a importância dessa crescente participação brasileira, ressaltando a força e a inovação das startups do país no cenário global e o protagonismo feminino no comando das iniciativas. “A variedade e a qualidade das propostas apresentadas pela delegação brasileira reforçam a posição do país como um polo de inovação crescente na América Latina e no mundo”, disse.

    10 min
  • Ignacy Sachs, pioneiro da teoria do desenvolvimento sustentável, é homenageado em Paris

    Ignacy Sachs (1927-2023), intelectual visionário da ecossocioeconomia desde os anos 1970, foi homenageado em Paris pela Fundação Maison des Sciences de l’Homme (FMSH), em várias mesas redondas nesta quarta-feira (13). Pioneiro, ele lançou as bases para o debate tão urgente e atual sobre a necessidade de um novo paradigma de desenvolvimento, enlaçando economia, ecologia, antropologia cultura e ciência política.

    Nascido na Polônia em 1927, Ignacy Sachs fugiu com sua família do nazismo e viveu no Brasil de 1941 a 1954, onde se formou em economia. Depois se instalou na Índia, onde obteve um doutorado com uma tese sobre modelos do setor público em economias subdesenvolvidas.

    Em 1968, foi convidado para ensinar na Escola de Altos Estudos em Ciências Sociais (EHESS), em Paris, onde criou, em 1985, o Centro de Pesquisas sobre o Brasil Contemporâneo. Sachs também trabalhou na organização da primeira Conferência de Meio Ambiente e Desenvolvimento da ONU, em 1972, em Estocolmo, Suécia, quando foi criado o Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (PNUMA).

    “Ele trabalhou intensamente no campo da economia do desenvolvimento e contribuiu fortemente para a evolução do conceito, que nasce na economia como simples crescimento econômico, de indicadores como o PIB, o nível de atividade econômico, o tamanho da economia”, explica Emílio Lèbre La Rovere, coordenador do Centro Clima da Coppe UFRJ, e integrante do painel do IPCC que ganhou o Nobel da Paz em 2007.  

    “Depois, tem toda uma contribuição com a Cepal (Comissão Econômica para a América Latina), Celso Furtado e os estruturalistas – Raul Prebisch -, no sentido de dizer que não era apenas crescimento, mas era também industrialização, modificação da estrutura da economia para um estágio mais avançado que simplesmente produzir bens primários, agrícolas e commodities”, continua La Rovere.

    Ecodesenvolvimento

    “Ele incorpora o conceito de ecodesenvolvimento, de desenvolvimento em harmonia com o meio ambiente. Ele foi consultor das Nações Unidas com extensa contribuição na América Latina, na Ásia. Trabalhou muito no Brasil, inclusive até recentemente. Foi consultor do Sebrae, Serviço Brasileiro de Apoio à pequena e média empresa. Essa contribuição, que mais tarde deu lugar a uma tradução em inglês para 'desenvolvimento sustentável' no relatório 'Nosso futuro comum', em 1986, de Gro Brundtland, foi seminal para mostrar a importância de se agregar a dimensão ambiental também na economia”, explica

    Sérgio Pereira Leite, professor titular da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro, do Programa de Pós-graduação de Ciências Sociais em Desenvolvimento, Agricultura e Sociedade, conheceu Sachs na década de 1990. Ele ressalta a generosidade intelectual, o desprendimento com pesquisadores de vários países e a compreensão que ele tinha de diversas culturas

    “Também destaco a capacidade dele de antever uma série de questões, problemas, assuntos que hoje estão à luz do dia e totalmente atuais, especialmente no campo da sociobiodiversidade, digamos assim, do desenvolvimento territorial, das questões relacionadas ao combate à luta contra a pobreza e a desigualdade”, destaca Leite, que também é coordenador do Observatório de Políticas Públicas para a Agricultura e membro da Academia da Agricultura da França.

    Segurança alimentar

    “Desde os anos 1970, Sachs produzia análises muito finas, muito complexas também sobre diferentes questões e particularmente sobre ecodesenvolvimento, antevendo uma situação dramática que atravessamos hoje com esses extremos climáticos e as mudanças e os impactos que eles têm acarretado”, acrescenta.  

    “Ele teve uma inspiração muito grande para pessoas que trabalham com o meio rural brasileiro, em especial sobre o processo de emergência da assim chamada agricultura familiar, ou seja, o protagonismo desses atores do campo brasileiro e sua capacidade de direcionar políticas públicas específicas a esse segmento, como, por exemplo, o próprio Programa Nacional de Fortalecimento da Agricultura Familiar, o Pronaf, mas também aqueles àquelas políticas direcionadas à segurança alimentar e, em particular, a reforma agrária”, explica.

    Democratização fundiária

    “Sachs tinha uma percepção muito aguçada desse processo relacionado à democratização fundiária e como ele poderia contribuir para um melhor estilo ou padrão de desenvolvimento nacional, pensando o Brasil que ele conhecia profundamente bem, em diferentes áreas. E é importante mencionar que ele foi um dos entusiastas do processo de políticas de desenvolvimento territorial que o Brasil vai experimentar, sobretudo nos anos 2000, com a Política Nacional de Desenvolvimento Sustentável dos Territórios Rurais, o Pronaf e o Programa de Territórios da Cidadania, criado em 2008, para o qual o próprio Sachs atuou como um dos consultores”, relata o pesquisador.

    “Ele via nessa possibilidade de desenvolvimento territorial que seria mais ou menos uma esfera intermediária entre a municipalidade e a administração dos governos estaduais, uma capacidade de integração de atores de diferentes segmentos, entre eles o próprio setor rural, na dinamização dessas regiões, produzindo uma distribuição melhor desses recursos e dessas riquezas, numa proposta de descentralização, inclusive de adensamento dos demográficos mais regionalizados e um melhor atendimento dos serviços públicos, em especial saúde, educação, transporte, moradia e, no caso rural, uma série de facilidades, desde a eletrificação rural até apoio à própria produção agropecuária, no sentido de estimular a de outras regiões que poderiam vir a conseguir uma situação ou um padrão de vida. Ou naquilo que o Amartya Sen chamou do Índice do Desenvolvimento Humano, muito mais amplo e inclusivo.”

    A descentralização do processo foi um ponto importante levantado por Sachs, “para que ocorresse de forma mais desconcentrada, inclusive da renda e da riqueza, e gerando novas oportunidades de renda, emprego e também de produção propriamente dita, especialmente aquela ligada aos mercados locais, regionais e que estimulassem a circulação de bens dentro dessas esferas”, explica Pereira Leite.

    15 min
  • Cantora britânica Jesuton lança novo single em português que explora vulnerabilidade e resiliência

     A cantora e compositora britânica Jesuton, radicada em Portugal, está de volta com um novo projeto musical que promete impactar o público brasileiro. Com o lançamento de “Alerta Vermelho” esta semana, Jesuton dá continuidade à sua jornada artística com seu quarto álbum, intitulado ‘HOJE’, que será o primeiro em língua portuguesa, com lançamento agendado para março de 2025.

     Luciana Quaresma, correspondente da RFI em Lisboa,

    “Estou muito feliz de começar este projeto com uma estética e sons bem diferentes de tudo que eu a fiz na minha carreira. A ideia era mesmo mergulhar em 'brasilidades', as coisas que me encantaram ao longo dos anos que morei no Rio de Janeiro, e pessoas com quem tive uma identificação muito forte", diz a cantora.

    Ela explica que o projeto nasceu da vontade de querer se aproximar mais das pessoas e dos fãs que a acompanharam nos mais de dez anos de vivência no Brasil. "Eu queria muito fazer este projeto, de me sentir parte da comunidade brasileira não somente no Brasil, mas ao redor mundo”, explica Jesuton.

    "Alerta Vermelho" é um single que flerta entre o desejo e a racionalidade, abordando os alertas emocionais desencadeados por paixões intensas que desafiam a lógica. Jesuton, que ganhou destaque no Brasil em 2012 ao fazer performances nas ruas do Rio de Janeiro, descreve a canção como um chamado à reflexão.

    “Eu queria que ‘Alerta Vermelho’ fosse um lembrete de que, apesar das dificuldades, existe uma força latente em cada um,” disse a artista, ressaltando que a faixa reflete suas vivências pessoais e a intensidade dos tempos atuais. “Essa música nasceu de um período difícil, mas transformador. Fala sobre encontrar coragem onde antes parecia haver só medo,” acrescentou a cantora nascida em Londres, de ascendência nigeriana e jamaicana.

    Temáticas profundas e reflexões emocionais

    A canção também é uma exploração das complexidades dos relacionamentos e a importância de reconhecer os sinais de alerta que podem surgir. Com elementos de soul e pop, "Alerta Vermelho" destaca a poderosa voz de Jesuton que já’ lançou três álbuns no Brasil: Encontros (2012), Show Me Your Soul (2014) e seu primeiro autoral, HOME (2017).

    A participação do pianista e compositor carioca Jonathan Ferr é um destaque da nova faixa. Jesuton fala da sinergia entre os dois, mencionando que sempre houve o desejo de trabalharem juntos. “Trabalhar com pessoas que entendem a cultura e o sentimento por trás da língua fez toda a diferença. Foi uma verdadeira colaboração,” afirmou Jesuton, enfatizando a importância de criar um ambiente autêntico para o público de lingua portuguesa.

    Segundo Jesuton, o dia da gravação com o produtor musical Vincee, com quem trabalha desde 2018, foi “desafiador”. “Estivemos em um belo estúdio com um piano de cauda e eu tive que direcionar o Jonathan para o caminho que eu imaginava, já que o instrumental estava quase todo pronto e mapeado já. E é uma honra, vai falar o que pra ele? O cara é um monstro dos teclados! Estou muito contente com o resultado final e com a participação dele, especialmente porque consegui tratar o piano como uma voz, dando ao Jonathan o destaque que ele merece”.

    A faixa “Alerta Vermelho” foi sendo desenvolvida ao longo dos anos. “Eu e Vincee temos uma parceria muito natural. A letra aconteceu bem rápido, foi bem fluido. A nossa parceria é antiga e fomos desenvolvendo este som que é um pouco mais pop e fala sobre relacionamentos que você sabe que não vão dar certo, mas mesmo assim você tem tanta vontade que acaba entrando nele”, explica a cantora que lançou recentemente o single “Boy lixo” também em português.

    Reflexões sobre amor e relacionamento

    A letra de "Alerta Vermelho" expressa uma mistura de vulnerabilidade e força, refletindo emoções como paixão, insegurança e a necessidade de proteção emocional em relacionamentos. Jesuton utiliza sua arte para abrir um diálogo sobre as complexidades das dinâmicas amorosas, convidando os ouvintes a refletirem sobre sua própria felicidade e saúde emocional.

     

    “O som que criamos remete à tensão e tesão nessa negociação emocional. A música consegue abordar isso com leveza, mas o assunto não deixa de ser significativo para mim: muitas lutas internas minhas acontecem no campo de cabeça versus coração”, explica Jesuton.

    Além disso, a artista revela que este single é apenas o começo de uma nova fase criativa, com mais composições em português a caminho. “Estou empolgada para compartilhar mais da minha música com o Brasil. Sinto que é uma forma de agradecer ao país que me acolheu com tanto carinho,” disse a cantora, enfatizando que a faixa foi pensada para as pistas de dança.

    Com uma trajetória marcada por interpretações emocionantes e uma voz marcante, Jesuton teve canções em trilhas sonoras de diversas novelas e colaborações com grandes nomes da música brasileira como Seu Jorge, Marcelo D2, Ana Carolina e Maria Gadu. A cantora de 39 anos conquistou o Brasil com sua autenticidade e se firmou como uma artista que traduz sentimentos com intensidade e verdade.

    Com “Alerta Vermelho”, Jesuton oferece ao público uma canção que toca nas complexidades da vida, convidando os ouvintes a refletirem sobre a importância da coragem e da resiliência. A faixa já está disponível nas principais plataformas digitais.

    “Espero que as pessoas encontrem conforto e coragem na música. Que ela sirva de companhia para quem estiver enfrentando alguma batalha,” compartilhou.

    10 min
  • ‘A Negra’, de Tarsila do Amaral, é tema de debate promovido pelo Museu do Luxemburgo e MAC USP em Paris

    O Museu do Luxemburgo, em Paris, juntamente com o Museu de Arte Contemporânea da Universidade de São Paulo (MAC USP) e o Centro Alemão de História da Arte, promovem na terça e quarta-feira (4 e 5) a jornada de estudos sobre o quadro "A Negra" de Tarsila do Amaral. A obra emblemática da artista e do Modernismo brasileiro é questionada dentro do debate sobre descolonização e representação de pessoas negras na arte.

    O quadro, que está exposto no Museu do Luxemburgo dentro da exposição “Tarsila do Amaral. Pintar o Brasil moderno”, em cartaz até 2 de fevereiro, faz parte do acervo do MAC USP.

    "A Negra" retrata uma mulher com características estilizadas, misturando cubismo e arte brasileira. Mas o que gera debate não é o estilo ou as técnicas utilizadas na obra, senão a maneira como a personagem central é retratada.

    “Do ponto de vista dos movimentos sociais no Brasil hoje, o movimento negro feminista, os movimentos antirracistas, ela é uma obra super problemática porque apresenta a figura de uma mulher negra absolutamente exotizada, despersonalizada, racializada, objetificada”, explica Ana Magalhães, diretora do MAC. Estas questões levaram o museu de São Paulo a fazer um esforço de releitura da obra dentro do espaço onde está exposta.

    Ana Magalhães explica que o pedido de trazer a obra para Paris fazia sentido. O quadro “foi pintado nesse meio artístico”, diz. A obra foi realizada na França em 1923 quando Tarsila do Amaral residia em Paris e só foi levado para o Brasil em 1933 e começa a ser importante dentro da historiografia da arte brasileira entre os anos 40 e 50. 

    As jornadas do estudo, realizadas no Palácio de Luxemburgo na segunda-feira e no Hotel Lully na terça-feira, permitem “colocar em contato pesquisadores aqui (na França) e lá (no Brasil) para olhar para essa obra e para a produção da Tarsila e enfim, estar em frente a essas novas questões”, diz Ana Magalhães.

    Representação afirmativa da afrobrasilidade

    Tarsila nasceu em 1886 em uma família rica de cafeicultores de Capivari, interior de São Paulo. Em uma entrevista à revista Veja em 1973, a pintora conta que a tela se inspirava de suas memórias da infância na fazenda, onde conheceu antigas escravas.

    Rafael Cardoso, historiador da arte, pesquisador associado à Freie Universidade de Berlim e professor na Universidade Estadual do Rio de Janeiro, que participa nas jornadas de estudo, lembra que até muito recentemente, o quadro era visto sem que nenhuma problematização fosse levantada e como “uma representação nacionalista e afirmativa da afrobrasilidade. Agora isso se inverteu completamente”.

    “Agora ela é vista criticamente como uma obra de apropriação cultural e de uma cultura subalternizada por uma pessoa rica, poderosa, de classe. Ela é uma obra extremamente criticada, mas é uma obra canônica em termos de arte brasileira”, observa. 

    Tarsila é uma das artistas brasileiras de mais projeção no exterior e já teve exposições solo no MoMa de Nova York e no Art Institute of Chicago.

    Discussão na França

    Sobre o eco deste debate, Ana Magalhães opina que a “França e outros países da Europa estão entrando numa discussão sobre descolonização e sobre a presença de artistas mulheres, sobretudo nas instituições culturais e no meio artístico, no sistema da arte. Eu acho que agora a questão da imigração e a questão do racismo está começando a emergir, porque isso é alguma coisa que está reivindicada pelas ruas”, diz.

    Mas ainda é difícil saber as reações do público francês sobre obra de Tarsila, já que a mostra começou em 9 de outubro. Cecília Braschi, curadora da exposição no Museu do Luxemburgo, diz que “espera justamente as reações”. 

    Ela diz que o objetivo era enfrentar “o tema de jeito bem frontal”, da mesma maneira que o quadro “é frontal”. “A figura que nos enfrenta de cara e temos que falar abertamente hoje e no Brasil se está fazendo muito. Aqui, acho, que é um assunto nascente”.

    Segundo a curadora, as críticas que a exposição recebeu até agora são “eurocêntricas”. “Tem algumas confusões também de interpretações que formam parte de um contexto, de na cultura, de uma estratificação de significações que estamos justamente discutindo aqui. Eu acho que é muito importante”, diz.

    Cecília Baschi diz ter ficado impressionada com as diferentes interpretações sobre o quadro que surgiram nos debates. “Mas como cada um vê coisas distintas sendo brasileiro, europeu, sendo branco, sendo preto, sendo mulher ou homens, já tenho uma coleção de 56 interpretações distintas desse quadro. Eu acho muito interessante porque esse é um quadro que fica atual, no sentido que a interpretação dele sempre vai evoluindo e acrescentando sentidos”, acredita.

    5 min
  • Voto de brasileiros radicados no Estado democrata de Massachusetts também é afetado por polarização

    Massachusetts, no nordeste dos Estados Unidos, segue a tendência histórica do voto em candidatos democratas em eleições presidenciais. Mas, afetada pela polarização da campanha, a imensa comunidade brasileira radicada no local se divide sobre a preferência entre a candidata democrata, Kamala Harris, e o republicano Donald Trump.

    Daniella Franco, enviada especial da RFI a Boston

    “Eu já decidi em quem vou votar e estou muito convicta disso”, diz a mestre de cerimônias Maria José, que tem a dupla cidadania e vive na região de Boston. Morando nos Estados Unidos há 32 anos, ela participa das eleições presidenciais americanas pela primeira vez.

    “Eu vou votar em uma pessoa que está alinhada com os valores da família, com a economia, que é 100% contra matar crianças no ventre da mãe e que é contra a ideologia de gênero”, explica, referindo-se a Trump.

    Para ela, o candidato republicano é “um líder forte, que vai tomar decisões sem pensar nas consequências pessoais, um homem que não depende do dinheiro público”. “Votar ‘ao contrário’ [em Kamala Harris] seria dizer sim às drogas, sim à matança de crianças no ventre da mãe, a tudo que é ligado a organizações criminosas”, justifica. 

    Razões similares levam Pablah Schwartz, proprietária de um café em Framingham, nos arredores de Boston, a optar por Trump pela segunda vez. Definindo-se como cristã, ela afirma que tem valores que classifica de “inegociáveis”. 

    Vivendo nos Estados Unidos há 25 anos, a questão da imigração também pesou no momento de sua escolha. “Tem muita gente que me fala assim: ‘mas você é uma imigrante e como você pode votar para essa pessoa?”, diz. “Mas antes de ser uma imigrante, eu sou uma cidadã americana."

    Pablah não tem dúvidas de que “o povo brasileiro é trabalhador”. No entanto, a comerciante expressa sua preocupação com “a imigração indiscriminada”, “quando as pessoas chegam aqui e só recebem". “Eu creio que a terra pertence a Deus e fronteiras são coisas tristes que nós tivemos que impor para a proteção dos nossos países e dos interesses financeiros de cada nação”, afirma.

    Um dos formadores de opinião mais populares entre a comunidade brasileira nos Estados Unidos, Lombardi Jr., apresentador da Nossa Rádio USA, não vota no país. Mas afirma que se pudesse participar do processo eleitoral americano, optaria por Trump, “pela pauta e agenda política dos republicanos”, diz. 

    “Donald Trump não me agrada como candidato, mas ele representa aquilo que mais se assemelha com o meu pensamento em relação ao que os Estados Unidos precisam para os próximos quatro anos”, reitera, apontando sua oposição ao direito ao aborto e classificando de “catastrófica” a política econômica do governo do presidente Joe Biden. 

    Brasileiros radicados nos EUA preferem Kamala

    Uma pesquisa realizada pelo instituto Ideia para a revista Exame, divulgada em 15 de outubro, apontou que as intenções de voto dos brasileiros radicados nos Estados Unidos é majoritariamente democrata. O balanço indica que 60% das pessoas entrevistadas escolherão Kamala; 35% apoiam Trump. Outros 2% preferem candidatos independentes e 3% não sabem.

    No total, mais de 800 brasileiros com cidadania americana e maiores de 18 anos foram ouvidos por telefone. A pesquisa foi realizada entre 6 e 12 de outubro, com eleitores de nove Estados, entre eles, de Massachusetts, e da capital Washington.

    “Os brasileiros que podem votar se identificam mais com os democratas, no entanto, têm aumentado a adesão desse eleitorado ao Partido Republicano”, explica Cila Schulman, presidente do Instituto Ideia.

    Para ela, a escolha é justificada pelo discurso anti-imigração adotado na campanha eleitoral. “Mesmo que esses brasileiros [ouvidos para a pesquisa] estejam regularizados, a gente tem que lembrar que na administração Trump, ele fez expulsões sumárias. Essa é uma questão pessoal, que ultrapassa a ideologia. Você pode ter um brasileiro conservador ideologicamente, mas que se sente ameaçado”, observa.

    Aposta na candidata democrata

    O jornalista Fabiano Ferreira vive na região da Grande Boston há dez anos, obteve a cidadania americana em 2023 e votará pela primeira vez no próximo dia 5 de novembro. Sua escolha foi feita após a desistência de Biden, que o levou a pesquisar para conhecer melhor a personalidade e as propostas de Harris.

    “Eu fiquei surpreso com tudo o que eu li sobre ela e a achei de uma competência imensa, como acontece com mulheres que ocupam cargos importantes na política, nas empresas, na economia. Simpatizei com a Kamala logo de cara e a acho muito convincente, muito pé no chão, e gosto também de como ela humaniza assuntos tão espinhosos”, explica.

    Fabiano acredita que esse é o momento para a eleição de uma presidente mulher nos Estados Unidos. “Está na hora de isso acontecer, como quando a gente teve uma presidente mulher no Brasil. Ainda mais Kamala, uma mulher negra, com o histórico de luta contra a corrupção. Não haveria uma melhor escolha hoje”, reitera. 

    Esse também é o primeiro voto para presidente da recepcionista Heloisa Araújo. Ela obteve a cidadania americana há um mês e resolveu participar das eleições antecipadamente, como permite o sistema eleitoral dos Estados Unidos.

    A moradora de Malborough optou por Harris pela boa relação da vice-presidente com outros líderes internacionais e países e por acreditar que ela tem uma melhor capacidade para diplomacia. Além disso, o perfil do candidato republicano não a agrada. “Decidi pela vice-presidente atual porque não concordo com a política do Trump, a forma que ele lida com os imigrantes e com a conduta grosseira dele”, diz.

    Sua participação nas eleições também foi motivada por um sentimento de pertencimento. “Eu faço parte de uma nação, e eu tenho que fazer o meu voto valer. Estou pensando também no futuro desse país, dos imigrantes. Então é muito importante desempenhar esse papel”, avalia.

    Já o jornalista Eduardo Amaral de Oliveira, locutor da rádio Insuperável, em Framingham, lamenta não poder fazer o mesmo. Detentor do Green Card, que permite a estrangeiros residir e trabalhar de forma permanente nos Estados Unidos, ele ainda não contribui diretamente com a escolha para a chefia da Casa Branca. No entanto, como formador de opinião, aposta em um resultado apertado: uma vitória de Harris, graças a dois grupos específicos, segundo ele.

    “A questão do aborto levantou a vontade da mulher de votar mais [na candidata democrata]. E tem também os jovens, que eu acho que não estão animados como na época do Obama, mas ganharam uma motivação a mais com Kamala. Então se eles comparecerem às urnas mais do que para o Biden, em 2020, acho que ela tem chances”, prevê.  

    Com a corrida ao mais alto cargo dos Estados Unidos sendo tema frequente dos programas da rádio Insuperável, Eduardo ainda observa outros pontos contraditórios desta campanha eleitoral. “Acho que o povo americano ainda tem dificuldade de ver uma mulher na presidência, o que é um absurdo. Tem o mito que Trump era melhor na economia, e eu também discordo disso, porque ele herdou a economia de Barack Obama, que governou o país durante oito anos”, ressalta. “Eu fico pensando: como é que uma pessoa que foi contra a própria eleição e tentou cancelar milhões de votos tem tanto apoio?”, questiona, referindo-se à recusa de Trump em reconhecer sua derrota em 2020. 

    11 min
  • Assembleia Nacional avalia votar Celso Amorim como persona non grata na Venezuela

    O presidente da Assembleia Nacional da Venezuela divulgou nesta quarta-feira (30) um comunicado criticando a postura do assessor especial para a presidência do Brasil, o diplomata Celso Amorim. O texto, de quatro páginas, começa com Jorge Rodríguez afirmando que Amorim “sempre pareceu mais um enviado de Jake Sullivan que do presidente Lula”, em referência ao principal conselheiro de segurança nacional da Casa Branca.

    Elianah Jorge, correspondente da RFI em Caracas

    O presidente da Assembleia Nacional reforçou que antes das eleições de 28 de julho manteve contato telefônico com Amorim. Nestas conversas, Rodríguez disse que o brasileiro repetia com constância o nome de Jake. E reforçou: “Amorim veio em nome de Sullivan para buscar danificar o normal desenvolvimento da eleição presidencial na Venezuela”.

    O encarregado de negócios do Brasil na Venezuela foi convocado a comparecer na chancelaria venezuelana. A embaixadora do Brasil, Glivânia Oliveira, está de férias, por isso ela não foi convocada. O governo venezuelano também chamou Manuel Vattel, embaixador da Venezuela no Brasil, a vir a Caracas.

    É esperado que a Assembleia Nacional vote para declarar Celso Amorim persona non grata na Venezuela. O assessor especial esteve na capital venezuelana durante as polêmicas eleições de 28 de julho, quando Nicolás Maduro foi declarado presidente eleito sem, no entanto, o Conselho Nacional Eleitoral ter divulgado as atas da votação.

    Na ocasião, o Brasil questionou a ausência de transparência na votação. O clima entre Brasília e Caracas ficou ainda mais tenso após o Brasil vetar a entrada da Venezuela no bloco econômico dos Brics, cuja reunião aconteceu semana passada na cidade russa de Kazan.

    A decisão de Jorge Rodríguez foi motivada pelo comparecimento de Celso Amorim na comissão de relações exteriores da Câmara dos Deputados para explicar a posição do Brasil em relação ao processo eleitoral venezuelano. Amorim destacou que “o princípio da transparência não foi respeitado” e que, portanto, não reconhece esse resultado nem a vitória que a oposição atribui a Edmundo González.

    1 min
  • Novo voo ligando Paris a Salvador tem início com expectativa de impacto positivo na economia da Bahia

    A companhia aérea Air France lançou esta semana o primeiro voo direto ligando Paris a Salvador, na Bahia. A novidade foi recebida com entusiasmo não só pelos brasileiros e visitantes, mas também pelas autoridades do estado, que estiveram na França para promover a capital como destino turístico.

    A baiana Catharina Rabelo foi uma das cerca de 350 pessoas que embarcaram no voo inaugural, que saiu do aeroporto Charles de Gaulle, em Paris, no último dia 28 de outubro, e aterrissou em Salvador, num trajeto direto de pouco mais de 10 horas. Ela, que é diretora de exportação, falou sobre a experiência e facilidades da nova rota.

    “Foi algo que eu esperava há muito tempo. Eu tento pegar menos avião, mas não deixa de ser emocionante saber que hoje a minha cidade adotada, que é Paris, onde moro há 13 anos, está diretamente ligada à minha cidade-natal. Foi emocionante para mim poder sair da minha casa pela manhã e chegar às 16h30 em Salvador diretamente. Desde que saiu a linha de Fortaleza eu fiquei decepcionada por não ter sido a de Salvador”, contou.

    O governo da Bahia também comemorou a nova rota. O secretário de Turismo do estado, Maurício Bacelar, esteve em Paris para uma ação de promoção do destino com agentes de viagens e falou sobre o voo direto da Air France.

    “Nós temos agora uma ligação direta com a França e a conectividade aérea é fundamental para a atividade turística. E este voo tem uma importância muito maior, ele torna a Bahia mais próxima de importantes mercados emissores de turistas internacionais. Ele coloca a Bahia mais perto do mundo”, explicou.  

    Impacto na geração de empregos e renda

    Maurício Bacelar falou ainda sobre o impacto econômico que o novo voo deve gerar para o estado. Esta é a primeira vez que a Air France lança um voo direto ligando Paris a Salvador e, segundo ele, é o único novo destino da companhia francesa lançado em 2024.

    “O voo vai oferecer mais de mil assentos semanalmente para o nosso estado. Se multiplicarmos isso por R$ 17 mil, que é a média que o turista estrangeiro gasta por semana, é um impacto de R$ 17 milhões na economia da Bahia semanalmente. Com esse voo, nosso estado passa a ter perto de oito mil assentos semanalmente da Europa, porque eles se somam com os voos da Tap para Lisboa e da Air Europa para Madri. Isso vai ter um impacto enorme na geração de empregos e renda”, disse ele, afirmando ainda que 45% dos turistas que chegam nas regiões Norte e Nordeste do Brasil usam a Bahia como porta de chegada.

    5 min
  • Expo Favela se torna vitrine internacional de periferias mundiais em Paris

    Das favelas do Brasil para as periferias do mundo: é assim que a Cufa, a Central Única das Favelas, que há 20 anos trabalha para mostrar o potencial humano e econômico das comunidades brasileiras, chega agora a Paris como um primeiro passo em direção à internacionalização de uma de suas principais vitrines, a feira Expo Favela Innovation.

    Conhecida por sua cultura antidesperdício, a chef brasileira Alessandra Montagne, madrinha do evento em Paris, que deve pilotar em breve os fogões do restaurante do Louvre, falou sobre a Expo Favela. "Essa exposição é muito importante, porque no Brasil o que se chama favelas, que aqui são as banlieues, faz referência a essas pessoas que vivem em bairros que não são favorecidos, que estão longe de tudo", argumenta.

    "Para você ter ideia, tem muitas empresas na França que não dão emprego porque o endereço no currículo da pessoa é longe, porque é um bairro perigoso, porque não sabe se a pessoa é ou não marginalizada", diz a chef brasileira, consagrada na França. 

    "A gente tem que mostrar que tem potências, que tem pessoas com potencial muito grande também nas favelas, nas banlieues, e isso pode ser na França, no Japão, no Brasil, em qualquer lugar do mundo. Existem bairros onde as pessoas são mais desfavorecidas, e essa exposição coloca isso em evidência", argumenta Montagne.

    O senador Aloysio Nunes, chefe do escritório da Apex na Bélgica, também esteve presente na abertura do evento. "Uma das linhas prioritárias do trabalho da Apex é a promoção das pequenas e microempresas. Aliás, em grande parte, dirigidas por mulheres. Essas pequenas empresas compõem um tecido muito rico de matéria, de inovação, de diversidade. E a Apex apoia essas empresas, no sentido de buscar investimentos para elas, e colocá-las em contato com investidores. Este evento aqui em Paris é feito principalmente com esse objetivo", detalhou. 

    "Está havendo uma mudança no mundo inteiro, no Brasil, na França. Uma mudança no mundo do trabalho não é apenas o avanço da digitalização de todos os produtos, mas também da inteligência artificial. A globalização fragilizou muito o modo tradicional de se trabalhar, especialmente o trabalho assalariado", sublinha o ex-chanceler brasileiro.

    "Surgiram novas formas que as pessoas encontraram para ganhar a vida, e essas pequenas empresas nas periferias são um exemplo nítido dessa reação a uma mudança que está ocorrendo. As periferias e as favelas eram reservatórios de mão de obra, com trabalho seriado de baixa qualificação. Hoje, são centros de criação, de luta, de inovação e, é claro, vivem em um ambiente de muita dificuldade, que é mais ou menos comum nas grandes cidades do mundo, tanto na França, em Paris, como em Londres, Nova Iorque, São Paulo e Rio de Janeiro", afirma Nunes.

    O fundador da Cufa, Celso Athayde explicou a escolha de Paris para iniciar a internacionalização da Expo Favela. "Hoje, nós estamos em 51 países, e a Cufa já estava aqui com a Karina [Tavares], realizando também um trabalho. Quando começo a ver na televisão os conflitos e as reivindicações, sobretudo dos jovens da grande Paris, percebo que aquele cartão postal que sempre consumimos sobre a capital francesa não é somente aquilo que imaginamos. Começamos a ver que realmente existe uma série de pessoas inquietas e que ali há uma necessidade de evolução; do contrário, vamos entrar em um colapso mundial", sublinha Athayde.

    Athayde também evocou a construção de oportunidades para essas populações. "Acho que, ao remover essa cortina e mostrar que Paris tem uma outra face que precisa ser vista, estamos, na verdade, dizendo que essa cortina precisa ser retirada do mundo inteiro. A ideia não é mostrar fragilidades, dificuldades ou carências de lugar nenhum, mas sim mostrar que, se existe riqueza, também existem pessoas nas periferias e favelas que vivem em desvantagem econômica nesses lugares ricos. Paris e a França não são diferentes", aponta.

    O diretor da Cufa França, Kayode Encarnação, e a diretora da Expo Favela, Karina Tavares, comemoram o sucesso do evento na capital francesa. "Estamos trazendo este ano três empreendedoras de favelas que estão começando a fazer negócios. Isso já é algo muito grande para o Brasil. Este ano, a Apex está trazendo uma parceria com a Cufa para levar 10 empreendedores ao World Summit, em Portugal, daqui a 15 dias", revela Tavares.

    "No ano que vem, a Expo Favela em Paris será o ano do Brasil na França. Queremos trazer pelo menos 20 empreendedores para fazer negócios. Não é só para viajar, mas para realmente entender o ecossistema da Europa. Isso é um passo enorme", reitera.

    "É a realização de um sonho. Eu venho do Rio de Janeiro, sou um dos jovens que foi ajudado pela Cufa no Brasil, e hoje estou aqui em Paris trabalhando. Eu falo que sou presidente, mas sou um membro da equipe, como todo mundo. Todos se ajudam, e estamos muito felizes e esperançosos com essa expo, que é uma forma de dar continuidade. É uma feira que fala por si só; a favela tem uma potência muito grande, e eu acredito que precisamos mostrar isso aqui também na França", conclui Kayandé Encarnação.

    A Expo Favela Innovation fica em cartaz em Paris até 26 de outubro.

    9 min
  • Brasília é destaque em seminário internacional sobre patrimônio realizado no Porto

    O Instituto Pernambuco Porto Brasil (IPPB), no Porto, é palco entre 22 e 24 de outubro do seminário internacional “Patrimônio, Turismo, Sustentabilidade e a CPLP”. O evento, que reúne especialistas sobre o tema nos países de língua portuguesa, dá destaque para Brasília, com debates, projeção de filmes e uma exposição paralela sobre a capital federal. 

    Luciana Quaresma, correspondente da RFI em Portugal

    O evento é promovido pelo IBRANOVA em colaboração com a ARTETUDE e o IPPB, com apoio da Universidade do Porto. Com foco na capital brasileira, o seminário reune especialistas para discutir estratégias de preservação do patrimônio cultural, sustentabilidade ambiental e cooperação acadêmica entre as nações que compõem a Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP).

    “A iniciativa foi motivada pela crescente valorização do patrimônio cultural como um recurso turístico estratégico, capaz de impulsionar o desenvolvimento sustentável e fortalecer as identidades culturais das nações lusófonas", explica Danielle Athayde, curadora do seminário. "O objetivo principal do seminário é criar um espaço de diálogo e troca de experiências entre especialistas, gestores, acadêmicos e representantes da sociedade civil dos países da CPLP, visando identificar boas práticas e desenvolver estratégias que promovam a valorização do patrimônio cultural de forma sustentável”, detalha.

    O seminário busca fomentar a cooperação entre os países membros, incentivando a troca de conhecimentos e a construção de redes que propiciem o fortalecimento do turismo sustentável, respeitando e preservando as identidades culturais locais. A ideia é ser um "catalisador para políticas e iniciativas que alinhem o turismo à sustentabilidade e ao respeito pelo patrimônio, contribuindo para um desenvolvimento mais equilibrado nas nações da CPLP”, resume Danielle. 

    Durante três dias, os participantes podem assistir a palestras, debates e apresentações de livros, explorando temas como turismo sustentável, a preservação do patrimônio cultural e linguístico e a promoção da integração e cooperação entre os países da Comunidade de Países de Língua Portuguesa (CPLP). Além de Danielle Athayde, o seminário é coordenado por Jorge Bento, professor catedrático jubilado da Universidade do Porto, e Leiliane Rebouças, escritora e acadêmica do Instituto Histórico e Geográfico do Distrito Federal. 

    Exposição “Brasília - da Utopia à Capital”

    A capital brasileira é um dos pontos centrais do evento, que foi aberto com a exibição do documentário “Brasília - da Utopia à Capital”, seguido de palestras sobre turismo sustentável e projetos inovadores na gestão da água em Brasília.

    O seminário coincide com o encerramento da exposição “Brasília - da Utopia à Capital”, que está em cartaz no Instituto Pernambuco Porto Brasil até o dia 27 de outubro. A mostra, inaugurada em julho de 2024 no Porto também sob a curadoria de Danielle Athayde, já passou por 13 cidades ao redor do mundo e é considerada uma das iniciativas culturais mais duradouras para a promoção de Brasília no exterior. A exposição oferece uma visão artística e histórica sobre a capital brasileira, desde sua construção até sua evolução como centro cultural e político.

    O seminário promete ser um espaço importante para o debate e a troca de ideias sobre como preservar e promover o patrimônio cultural e natural dos países de língua portuguesa, com Brasília como inspiração central para essas discussões. “Brasília está em destaque por vários tópicos relevantes que refletem sua importância cultural, histórica e arquitetônica", ressalta Danielle Athayde.

    "Além do documentário 'Da Utopia à Capital', a exposição de artes visuais apresenta a cidade com destaque para a sua arquitetura modernista e a obra de Oscar Niemeyer e o urbanismo de Lúcio Costa, que juntos moldaram Brasília como um exemplo de planejamento urbano moderno, destacando sua importância como Patrimônio Cultural da Humanidade. Trouxemos também a mostra de cinema 'Brasília Viva', com filmes brasileiros selecionados que abordam a temática da cidade sobre várias vertentes, documentários e ficção”, detalha.

    “Cada dia do seminário terá um tema principal. No primeiro dia, o destaque será a sustentabilidade e a gestão sustentável da água estará em evidência nas palestras. No segundo dia, a lusofonia domina os debates e, no terceiro dia, o destaque é o patrimônio cultural e a importância de sua preservação como um recurso estratégico para o desenvolvimento turístico e a promoção da identidade cultural nos países da CPLP, ressaltando a proteção do patrimônio e o papel dos meios de comunicação no aprofundamento da integração e visibilidade da CPLP”, explica Danielle.

    Durante o seminário, haverá lançamentos de livros inspirados em Brasília, incluindo “Um Niemeyer é sempre um Niemeyer”, do escritor português Carlos Oliveira Santos, e “JK, uma Fotobiografia”, de Fábio Chateaubriand. Outros títulos serão apresentados, incluindo obras que celebram a história e o patrimônio cultural da capital brasileira.

    Serviço:

       •     Datas: 22, 23 e 24 de outubro de 2024, das 9h às 19h

       •     Local: Instituto Pernambuco Porto Brasil

       •     Endereço: Rua das Estrelas, 143 - Campo Alegre - 4150-762 - Porto

       •     Exposição: “Brasília - da Utopia à Capital” (até 27 de outubro, das 10h às 18h)

    7 min
  • Aos 93 anos e consagrada na literatura infantil, Ruth Rocha revela novos contratos e textos inéditos

    A escritora brasileira Ruth Rocha, com uma carreira de cinco décadas consagrada na literatura infantil, impressiona por sua lucidez e novos projetos aos 93 anos. Autora de clássicos como “Marcelo, Marmelo, Martelo”, “A primavera da Lagarta” e “O Reizinho Mandão”, publicados entre as décadas de 1970 e 1980, além de outras dezenas de livros que marcaram a fase escolar de várias gerações, revela novos contratos com editoras nacional e internacional, além de novos formatos de obras clássicas e textos inéditos.

    A obra de Ruth Rocha foi representada na Feira do Livro de Frankfurt, entre os dias 16 ao 20 de outubro.“A minha mãe, aos 93 anos, está assinando um contrato de mais 15 anos de 150 obras com uma das maiores editoras, a Santillana Mundial e a Salamandra, no Brasil, tendo em conta tantas coisas acontecendo no Brasil. A gente achou que seria muito importante que o mundo também conhecesse o que está acontecendo com Ruth Rocha, quem é Ruth Rocha e toda a sua obra que é tão cara para tantos brasileiros”, diz Mariana Rocha, filha e organizadora do mais novo projeto profissional de expansão internacional da obra de sua mãe. 

    Os livros da consagrada autora foram representadas dentro no estande brasileiro na feira, na Alemanha, que recebe visitas de leitores diversos, editoras internacionais, ONGs que trabalham com língua portuguesa e famílias bilíngues.

    “Eu achei que teria menos repercussão, mas a gente aqui vê como Ruth Rocha é amada no mundo inteiro, na maioria por brasileiros, mas quem toma conhecimento da obra nesta feira está se encantando também”, conta Mariana, ao pontuar a presença das obras de sua mãe na feira literária dedicada à literatura infanto-juvenil realizada anualmente em Bolonha, na Itália, e que começa no próximo dia 25 de outubro. 

     

    Novos projetos aos 93 anos

    Já Ruth é modesta ao dizer que não pode escrever muita coisa por conta de sua idade. Ao mesmo tempo, conta sobre seu último lançamento, no final de 2023, “O grande livro dos macacos”, no qual aborda curiosidades científicas. Em entrevista à RFI, Ruth falou do andamento de um livro de contos, no qual está trabalhando, e uma história inédita: “Estou começando a escrever a verdadeira história da Cinderela”, revela. 

    Ruth Rocha sempre abordou em seus livros infantis temas sócio-políticos e culturais, e o racismo  –  interesses que ela atribui aos seus estudos e interesse por sociologia política. A escritora conseguiu driblar, nos tempos da ditadura no Brasil, a censura frouxa na literatura infantil, ao condenar o regime em “O Reizinho Mandão” e outros títulos em que os reis eram as figuras políticas criticadas. 

    Com 40 milhões de exemplares vendidos e traduzida para 25 idiomas, Ruth acredita que a literatura pode contribuir para a vida democrática e lamenta a ascensão da extrema direta na Europa e no Brasil. “Eu acho que (a literatura) é uma maneira que a gente tem de combater”, opina.

    Sucesso eternizado na infância das pessoas 

    Mariana Rocha relata ter ficado surpresa com a visita de tantos brasileiros no estande de Frankfurt. Ela diz que ao descobrirem que se tratava da filha da própria Ruth Rocha, os fãs da escritora a enchiam de abraços, relatos de vida e agradecimentos calorosos pelo significado dos livros de Ruth em suas infâncias. 

    Ela destacou a história de uma mulher natural do Rio de Janeiro, que consagra ao livro “Marcelo, Marmelo, Martelo” sua mudança de perspectivas de vida quando criança.  

    “Essa menina que se chama Andreia me disse: ‘sua mãe mudou minha vida, eu achei que eu fosse ser pobre o resto da minha vida e repetir o que eu via ao meu redor, mas através desse livro eu percebi que eu poderia fazer alguma coisa por mim e poderia mudar’. E ela hoje tem um projeto maravilhoso de literatura com crianças aqui na Alemanha. Nós choramos juntas, foi muito emocionante”, revela Mariana Rocha.

    Apesar de seu enorme sucesso de décadas com várias gerações de crianças, Ruth não concorda de ser coroada no posto de ‘rainha dos baixinhos da literatura infantil’. 

    “Livro é uma coisa livre, livro não tem rei! Eu me sinto muito solidária com criança. Eu escrevo para crianças por que eu sinto necessidade de apoiar à criança e ajudar a criança a viver. Eu nem penso em ensinar, mas em sugerir formas de vida boas, ricas e inteligentes. Não me sinto rainha não”, brinca Ruth Rocha.

    A editora Salamandra, em seu contrato firmado até 2039 com a escritora, pretende uma "completa renovação" de todos os livros da autora com edições especiais, novas ilustrações e novos formatos, sendo "um projeto bastante ambicioso pela frente", informou a assessoria de imprensa de Ruth Rocha.

    7 min

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