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By RFI Brasil
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  • Brasileiro Apolônio de Carvalho participou da libertação da França há 80 anos

    Nesta quinta-feira (15), a França lembra os 80 anos do desembarque na Provence, no sul do país. A cerimônia contou com a presença do presidente Emmanuel Macron. Desde 6 de junho, o Dia D do desembarque aliado da Normandia, uma série de eventos recordam os 80 anos das jornadas que culminaram com a libertação de Paris, em 25 de agosto, e posteriormente com a capitulação alemã na Segunda Guerra Mundial. Muitos estrangeiros, que integravam a Resistência Francesa, ajudaram a derrotar o ocupante nazista e ação de um brasileiro, Apolônio de Carvalho, foi determinante para a libertação das cidades de Carmaux, Albi e Toulouse, no sudoeste da França.

    Militante comunista, Apolônio de Carvalho (1912-2005) foi um exemplo de solidariedade internacional. Ele combateu na Guerra Civil Espanhola, na Resistência Francesa e no Brasil contra as ditaduras de Vargas e Militar. Por isso, entrou para a história como o “herói de três pátrias”.

    Todas essas batalhas foram importantes, mas a vitória contra as forças nazistas em 1944 foi especial.

    “Nós tínhamos sido derrotados no Brasil em 1935, na Espanha, mas pela primeira vez nós tínhamos a alegria de uma vitória geral, com exemplos de dignidade e de coragem de todos os continentes”, lembrou o próprio Apolônio de Carvalho no documentário “Vale a Pena Sonhar”, de Stella Grisotti e Rudi Böhm.

    O combatente brasileiro chegou à França em 1939 com 27 anos, depois que as Brigadas Internacionais foram expulsas da Espanha. Ao atravessar a fronteira, foi internado pelo governo francês em campos de concentração do sul do país ao lado de outros militantes e conseguiu fugir.

    Em Marselha, integrou o grupo FTP-MOI (Franco-atiradores e Partidários – Mão de Obra Imigrante em tradução livre) da Resistência Francesa e participou de várias ações contra as forças alemãs, antes de comandar tropas da FFI (Forças Francesas do Interior) que ajudaram a libertar as cidades de Carmaux e Albi, entre 16 e 19 de agosto, na região de Toulouse.

    O combate foi intenso, “A batalha de Carmaux durou de 16 a 18 de agosto. Na manhã do dia 19, Apolônio de Carvalho seguiu para Albi e, sem esperar o aval de sua direção, ocupou a cidade. Os alemães tentaram um contra-ataque, mas fracassaram. Carmaux e Albi estão entre as primeiras cidades a serem liberadas na França, (depois do desembarque aliado)", conta Alain Viguier, biógrafo de Apolônio de Carvalho na França. Para Viguier, essas vitórias marcaram "a história de Apolônio. Foi como a apoteose do engajamento dele”.

    Encontro com Renée, resistente francesa

    Em Marselha, Apolônio de Carvalho conheceu a jovem resistente francesa Renée Laugery, de 17 anos, que passou a ser a sua companheira de vida e de luta. Em 1944, ela estava grávida do primeiro filho do casal e usou a gravidez como “estratégia para fazer ações” relembra seu segundo filho, Raul de Carvalho.

    “Meu pai era muito otimista. Então, não sei se foi por acidente, mas o fato é que meu irmão nasceu antes do fim da guerra, ou seja, minha mãe participou da resistência grávida. E eles usavam o fato dela estar grávida para carregar coisas: dinamite, explosivos, armas, etc., junto com a barriga. Uma coisa extraordinária, né?", detalha.

    Apolônio de Carvalho escreve em seu livro de memórias “Vale a Pena Sonhar” (Rocco, 1997) que, no dia 20 de agosto, “todo o sudoeste da França – um quarto do país - estava liberto graças a seus soldados sem uniforme; e com a participação crescente do povo, e sem a presença de um único soldado das forças aliadas”.

    No final da guerra, já em Paris libertada, o brasileiro recebeu as condecorações francesas da Legião de Honra e Cruz da Guerra e a medalha da Resistência. Mas hoje sua ação é praticamente desconhecida do grande público. Por isso, Alain Viguier, que conheceu pessoalmente Apolônio em Paris nos anos 1970, decidiu escrever a biografia “La Puissance de l’Espoir” (O Poder da Esperança, Syllepse, 2023) sobre o “combatente internacionalista”:

    "Além dele ser bastante desconhecido na França, achei necessário escrever uma biografia do Apolônio porque ele é um militante que percorreu e participou dos grandes combates do século 20. Ele tinha uma personalidade iluminada, segundo algumas pessoas, e um engajamento muito particular”, explica o biógrafo.

    Participação dos estrangeiros na Resistência

    Quem também contribui para a divulgação da ação de Apolônio de Carvalho é Stela Grisotti, diretora do documentário “Vale a Pena Sonhar”. Desde 2005, a jornalista e documentarista brasileira teve a oportunidade de mostrar o filme várias vezes na França e ficou impressionada com a receptividade dos franceses.

    "Os franceses ficam impressionados como um brasileiro teve essa coragem e essa solidariedade de lutar também lá na França. Ele podia estar no Brasil vivendo com mais tranquilidade, mas estava lá lutando também", relata Grisotti. A jornalista diz acaba sempre "conectada com a França e com os franceses através do Apolônio e da Renée em função desse interesse, que vem crescendo, dos franceses em conhecer um pouco da história e da participação dos estrangeiros na Resistência". Uma participação "que foi super importante, ressalta.

    A contribuição determinante dos combatentes estrangeiros FTP-MOI na Resistência só começou a ser devidamente reconhecida na França este ano após a entrada no Panteão do casal de militantes comunistas de origem armênia Missak e Mélinée Manouchian.

    A ação do grupo de Manouchian, fuzilado pelos nazistas, foi imortalizada pelo poema de Louis Aragon, Affiche Rouge, transformado em música por Léo Ferré. Mas na opinião de Alain Viguier esse reconhecimento ficou restrito aos estrangeiros que atuavam na região parisiense.

    "O papel dos FTP-MOI no resto da França é bastante ignorado. Tomo como exemplo a liberação de Carmaux. Um general da Resistência fez um balanço detalhado da batalha e Apolônio de Carvalho não existe neste documento. Somente o pseudônimo que ele usava na época, comandante 'Rodelle', é citado”, afirma Viguier. O biógrafo explica que Apolônio tinha vários pseudônimos.

    Se a ação do brasileiro é pouco conhecida, a de Renée, como a de muitas outras mulheres da Resistência, foi invisibilizada.

    “Nós vivemos numa sociedade muito machista. E, de fato, minha mãe era particularmente uma pessoa muito revoltada com isso porque na Resistência e, depois, aqui (no Brasil) no Partido Comunista Brasileiro, as mulheres tinham um papel muito secundário. Não havia uma visão de igualdade. Via-se um machismo mesmo, um paternalismo muito grande. E minha mãe foi muito batalhadora contra isso. Mas vai demorar muito até a gente ter algum avanço maior”, critica Raul de Carvalho.

    Internacionalistas

    Alain Viguier e Raul de Carvalho ressaltam também que, ao contrário do que dizem muitos historiadores franceses, o amor pela França não explica por si só o engajamento de estrangeiros, como Apolônio de Carvalho, na Resistência:

    "O Apolônio sempre se colocou como internacionalista. Ele fez isso somente pela luta pela democracia, contra o fascismo. Evidentemente ele tinha uma grande admiração pela França, pela cultura francesa, pelo país, pela história do país, mas ele nunca pensou nisso. Ele sempre se disse internacionalista", garante o filho.

    Raul de Carvalho diz que “para azar” do pai, o Partido Comunista o mandou voltar ao Brasil, em 1945, onde o casal continuou militando e depois teve de entrar na clandestinidade quando a legenda foi declarada ilegal.

    "Eles tinham vivido uma guerra, uma libertação. Eu acho que a França viveu naquele momento uma coisa maravilhosa, a França e a Europa que se libertou. Mil perspectivas, ali se respirava liberdade e uma porção de elementos que poderiam levar ao progresso da humanidade mais intenso, a uma vida mais intensa", avalia. Ele detalha que o casal "passaram 10 anos subsumidos numa clandestinidade um tanto absurda. Então, foi um azar mesmo porque lá (na França) ele poderia ter feito muito mais do que fez aqui e teria vivido muito mais do que viveu aqui. Eu inclusive teria nascido lá", afirma, rindo. O segundo filho do casal nasceu em agosto de 1947 no Rio de Janeiro e passou grande parte de sua infância na clandestinidade, junto com os pais.

    Luta contra a Ditadura Militar

    Nos anos 1960, Apolônio de Carvalho foi um dos fundadores do Partido Comunista Brasileiro Revolucionário (PCBR). Ao lado dos dois filhos, René Louis e Raul, lutou contra a Ditadura Militar, foi preso, torturado e exilado na França, depois de uma grande batalha para a obtenção de um visto de residência. No contexto da Guerra Fria, o governo francês passou a considerar o “herói da Resistência” como um terrorista. Com a Anistia, a família Carvalho foi uma das primeiras a voltar ao Brasil e Apolônio participou da fundação do PT.

    Apesar de tantos feitos, a história do veterano militante é desconhecida também no Brasil, lamenta Stela Grisotti:

    "No Brasil, não é só o Apolônio. A gente tem um problema sério com a memória, história e isso desde a escravidão, né? A questão indígena também é sempre deixada de lado. Então eu acho que é uma questão estrutural do Brasil em relação à memória. Então, dentro desse contexto, quem é Apolônio? E quantos heróis brasileiros esquecidos", denuncia a documentarista.

    Apolônio de Carvalho morreu em 2005, aos 93 anos. Pouco antes de sua morte, continuava um entusiasta, acreditando na transformação da sociedade.

    “Para viver, é preciso merecer viver. A vida é uma coisa extraordinária. É um dom. É preciso valorizá-la. Para isso, é preciso ter um ideal nessa vida para torná-la melhor e para tornar a sociedade melhor”, defendeu no documentário "Vale a Pena Sonhar".

    As festas para lembrar os 80 anos da libertação de Carmaux e Albi, libertas com a ajuda do brasileiro Apolônio de Carvalho, acontecem nos dias 17 e 19 de agosto, respectivamente, antes das festividades em Paris, em 25 de agosto.

    15 min
  • Recordes, lindos cenários, sucesso das brasileiras e polêmicas: os momentos marcantes de Paris 2024

    Com uma cerimônia memorável, a Olimpíada de Paris se encerrou no domingo (11), sendo aclamada como o evento esportivo mais espetacular de todos os tempos. Quebra de recordes, um desempenho inédito da França, sucesso das mulheres brasileiras, cenários de tirar o fôlego, polêmicas e muitos memes: os Jogos Olímpicos de Paris serão lembrados por uma série de façanhas e fatos.
     

    Daniella Franco, da RFI

    Tudo começou com uma cerimônia de abertura grandiosa, com duração de três horas e meia – a primeira em toda a história das Olimpíadas realizada fora de um estádio, com o rio Sena e monumentos como pano de fundo. A festa também foi marcada pela performance de grandes estrelas, como a cantora canadense Céline Dion, que, depois de muito suspense e especulações, interpretou “L’Hymne à L’Amour”, de Edith Piaf, na Torre Eiffel. 

    A abertura dos Jogos Olímpicos de Paris deu o que falar pela beleza, mas também pela ousadia, já que uma das cenas do evento, confundida com a Santa Ceia, suscitou críticas de autoridades religiosas e líderes políticos conservadores em todo o mundo. Artistas e o diretor da cerimônia, Thomas Jolly, chegaram a ser alvo de ameaças de morte. 

    Jolly precisou ir a público explicar que a passagem específica do evento nada tinha a ver com religião, e que teria sido inspirada na pintura “Festa dos Deuses”, obra criada no século 17 pelo holandês Jan Harmens Bilert. "Ninguém jamais encontrará no meu trabalho uma vontade de zombar ou de difamar. Eu quis fazer uma cerimônia para unir e também para reafirmar os valores da República Francesa - Liberdade, Igualdade, Fraternidade - e não para rir de quem quer que seja", afirmou, em entrevista ao canal BFMTV.

    Polêmicas envolvendo atletas

    Algumas polêmicas também envolveram a participação de atletas nos Jogos Olímpicos de Paris. É o caso do jogador holandês de vôlei de praia, Steven van de Velde, condenado por estupro de menor de idade. Ele chegou a ser vaiado na quadra, inclusive pelo público brasileiro, na partida em que ele e seu colega de dupla, Matthew Immers, foram eliminados por Evandro e Arthur nas quartas de final. 

    Já a boxeadora argelina Imane Khelif enfrentou boatos de que seria transgênero. A esportista, que tem hiperandrogenismo, viu sua participação nas competições femininas de Paris 2024 ser contestada. O caso chocou a Argélia, onde Khelif é um ícone. O Comitê Olímpico Internacional defendeu a atleta, que fez um apelo ao público antes de vencer a chinesa Yang Liu e conquistar o ouro na categoria - 66 kg.

    "Envio essa mensagem a todas as pessoas no mundo, para aceitarem as regras e princípios olímpicos e pararem de atacar os atletas porque isso tem consequências, consequências graves", declarou em entrevista à agência American Press. "Esses ataques podem destruir as pessoas, espiritual e mentalmente. E isso divide as pessoas. Por isso, peço que parem com o bullying", disse Khelif.

    Outra polêmica ocorreu devido à quebra de recorde protagonizada pelo nadador chinês Pan Zhanle, que no dia 31 de julho cravou o tempo de 46:40 na final dos 100 metros do nado livre - um segundo a frente do australiano Kyle Chalmers, que levou a prata. Uma façanha como essa na natação não era vista há cerca de 50 anos, o que levou muitos especialistas a insinuarem a possibilidade de doping, não confirmada nos exames. 

    Quebras de recordes

    A nadadora canadense prodígio Summer McIntosh, de apenas 17 anos, conquistou três ouros e uma prata nesta edição dos Jogos. Ela ainda registrou um novo tempo nos 200 metros borboleta (2:03:03). A jovem é vista como um dos grandes talentos de Paris 2024, três anos após sua estreia em Tóquio, quando tinha apenas 14 anos.

    No ciclismo de pista feminino, o recorde de velocidade foi batido cinco vezes em uma única noite, pela Grã-Bretanha, Alemanha, Nova Zelândia e depois duas outras vezes novamente pelas britânicas. Foram elas que levaram o ouro ao chegar à marca final de 45:186. 

    O sueco Armand Duplantis emocionou o Stade de France com seu desempenho no salto com vara, alcançando 6,25 metros. Essa foi a nona vez que o atleta quebrou seu próprio recorde.

    "Estou muito orgulhoso, definitivamente. Recebi mais amor e apoio do que poderia imaginar. Estou tão feliz que pude performar de uma maneira que eu sabia que era capaz. É mais incrível do que eu poderia imaginar, honestamente", declarou. 

    Sucesso nas redes sociais 

    Embora não tenha obtido o mesmo sucesso na competição, o atleta francês Anthony Ammirati viralizou nas redes sociais. Sua eliminação passaria despercebida não fosse sua genitália ter derrubado o sarrafo durante a disputa. 

    Uma plataforma de conteúdo erótico chegou a propor o pagamento de € 250 mil para que o francês posasse diante de suas câmeras por uma hora. Em seu TikTok, Ammirati postou um vídeo em que aparece comendo, com o olhar distante, ao som da trilha sonora do desenho animado Bob Esponja e a seguinte mensagem: "quando você chama mais a atenção por sua genitália que por sua performance".

    Quem também viralizou nas redes sociais durante os Jogos Olímpicos de Paris foi Snoop Dogg, que se tornou um verdadeiro "mascote do evento". O rapper americano, que participou do revezamento da tocha olímpica, veio a Paris também como comentarista esportivo do canal NBC. Mas não apenas: a estrela experimentou vários esportes - judô, natação, esgrima e halterofilismo. Além disso, vídeos em que o músico aparece falando em francês e até dançando com um cavalo, em Versalhes, divertiram o público.

    Novas estrelas no mundo do esporte

    Os Jogos Olímpicos de Paris também entrarão para a história com a ascensão de novos ídolos do esporte. É o caso do nadador francês Léon Marchand, de 22 anos, que se tornou um herói na França ao conquistar cinco medalhas, quatro de ouro e uma de bronze. 

    A RFI conversou com o jovem no estúdio instalado no Club France, espaço do Comitê Olímpico Francês no Parque de la Villette, norte de Paris. "Tenho consciência das minhas conquistas porque as pessoas não param de me perguntar sobre isso. Mas acho que, no fundo, ainda não me dei conta. Vai demorar um pouco, preciso de tempo. Os últimos dias foram muito intensos para mim. Então agora estou começando a voltar à realidade e a compreender o que aconteceu nesses últimos dias. E é uma coisa louca, na verdade", afirmou. 

    O Brasil também fez história em Paris, com várias conquistas. Rebeca Andrade conquistou o primeiro ouro do país na ginástica artística e se tornou a maior medalhista brasileira de todos os tempos: foram quatro pódios apenas nessa Olimpíada, que se somam aos dois realizados em Tóquio. 

    A ginasta de 25 anos conversou com a repórter Maria Paula Carvalho, da RFI, logo após obter o ouro na Arena Bercy e expressou orgulho com sua performance. "Estou muito feliz de estar voltando para o Brasil com o ouro. Os brasileiros mereciam muito! E eu queria muito também, sabe? Eu lutei muito e fiz o meu melhor" celebrou. 

    Sucesso das brasileiras 

    As mulheres brasileiras foram, pela primeira vez, mais numerosas que os homens na delegação nacional: 153 esportistas do sexo feminino contra 124 do masculino. Foram elas também que conquistaram a maioria das medalhas. 

    Além de Rebeca Andrade, subiram no pódio Beatriz Souza e Larissa Pimenta no judô, Tatiana Weston-Webb no surfe, Rayssa Leal no skate street, Bia Ferreira no boxe, além da medalha por equipe da ginástica feminina, do vôlei de quadra, do vôlei de praia, com Ana Patrícia e Duda, e da equipe do futebol feminino, com essa foi a última Olimpíada de Marta. 

    É também uma atleta mulher, a primeira representante do Brasil a disputar uma mesma edição dos Jogos Olímpicos e Paralímpicos, a mesatenista Bruna Alexandre, que avaliou as atletas nacionais. "É algo de muita alegria para o nosso país, ver que a mulher é forte e capaz. Quem sabe em Los Angeles, em 2028, tenha o dobro ou o triplo de esportistas mulheres", disse, em entrevista à RFI.

    O Brasil também subiu no pódio com William Lima e a equipe mista, no judô; Isaquias Queiroz, na canoagem; Gabriel Medina, no surfe; Augusto Akio, no skate park; Edival Pontes no taekwondo; e Caio Bonfim, na marcha atlética.

    Os brasileiros também marcaram presença em Paris, colorindo a torcida de verde e amarelo e fazendo muita festa nas arquibancadas e ruas da capital francesa. A gaúcha Roberta Calabro, radicada em Barcelona, veio à Paris assistir a algumas competições. Em entrevista à RFI, ela contou que a experiência foi tão positiva que resolveu prolongar a visita e ir até Marselha, no sul da França, ver a seleção feminina de futebol do Brasil enfrentar e bater a Espanha. 

    "Participar das Olimpíadas sempre foi um sonho para mim, e essa em Paris, uma cidade que eu sempre amei, vai ficar marcada para sempre. Eu assisti a cinco jogos no total e eu fiquei impressionada com a organização. Foi incrível!", comemora.

    Paris se prepara para Jogos Paralímpicos

    Na noite de domingo (11), a França se despediu dos Jogos, mas temporariamente. A chama olímpica, exposta em um balão no Jardim das Tulherias, no centro de Paris, se apagou na noite de domingo, durante a cerimônia de encerramento. Mas ela voltará a ser acesa em 28 de agosto, quando iniciam os Jogos Paralímpicos. 

    Enquanto isso, as autoridades francesas cogitam em transformar a escultura de 30 metros de altura e sete de diâmetro em um monumento, como uma lembrança física e permanente dos Jogos Olímpicos de Paris. 

    Leia tambémEm contagem regressiva para Jogos Paralímpicos, atletas brasileiros embarcam rumo a Paris

    16 min
  • Em Paris, Formiga e Michael Jackson dizem o que falta para o futebol feminino decolar no Brasil

    Formiga e Michael Jackson, duas jogadoras que marcaram a história do futebol brasileiro, estão na França para acompanhar os Jogos Olímpicos de Paris e promover a 10ª edição da Copa do Mundo Feminina de Futebol de 2027 no Brasil. O ministro do Esporte, André Fufuca, vê o evento como uma oportunidade para impulsionar a igualdade de gênero e o desenvolvimento do futebol feminino no país.

    Mariléia dos Santos, ou melhor, Michael Jackson, como prefere ser chamada, integrou a seleção brasileira durante 12 anos, período em que disputou duas Copas do Mundo e uma Olimpíada. Já Miraildes Maciel Mota, conhecida pelo apelido de Formiga, participou de sete Copas e sete edições dos Jogos Olímpicos.

    Experientes, as duas compartilham a mesma opinião sobre o que está faltando no Brasil para que as meninas tenham a mesma chance oferecida aos meninos de crescer no futebol e se dedicar a uma carreira profissional.

    "O que nós pretendemos é que o futebol feminino não seja mais problema para as meninas que queiram jogar. Ela tem que ter facilidade, porque se ela está na escola, tem futebol. Se ela vai para a esquina, tem futebol. As meninas precisam de espaço para que elas possam jogar futebol a hora que quiserem", disse Michael Jackson durante um evento de apresentação da Copa do Mundo de 2027 na Casa Brasil em Paris. 

    Formiga afirma que muitos talentos são desperdiçados, devido à falta de criação de categorias de base em cada clube do país para o futebol feminino. Faltam gramados para treino e acompanhamento técnico que eleve o futebol feminino ao mesmo patamar do masculino. Segundo Formiga, "infelizmente o machismo ainda reina dentro dos clubes". A torcida tem sido aos poucos conquistada, diz a meio-campista. Mas para mudar o cenário, é preciso promover mais jogos dentro do Brasil. "Os clubes precisam incluir o futebol feminino como pauta principal deles e chamar sua torcida, assim como o Corinthians chama a sua torcida ao estádio", defende Formiga. 

    Duas vezes vice-campeã olímpica e uma vez vice-campeã mundial, Formiga alerta que é preciso recrutar pessoas capacitadas para acompanhar as equipes femininas nos clubes. "O presidente tem que ser flexível, escutar e executar as necessidades que o futebol feminino precisa. Dessa forma, a gente vai conseguir, sim, trazer torcedores, o que tínhamos antes", preconiza. Ela também é favorável à apresentação de times femininos nas preliminares de jogos masculinos. "Eu não vejo como uma coisa ruim as preliminares. É dar essa oportunidade para que a torcida saiba o que é o futebol feminino", argumenta.

    'Torcer e xingar'

    Durante os governos da ex-presidente Dilma Rousseff, Michael Jackson coordenou o departamento de futebol feminino do Ministério do Esporte e recorda da época como um período de avanços. "O Ministério do Esporte fez um papel excelente porque o Campeonato Brasileiro estava parado há mais de 11 anos e com a minha coordenação o torneio voltou", recorda. 

    Depois de disputar sete Olimpíadas, Formiga conta que veio a Paris preparada para encarar qualquer resultado da atual seleção brasileira. "A função vai ser torcer, torcer, torcer e xingar. Xingar bastante, cobrar, entender que quando eu jogava, fiz quantas pessoas passar raiva como eu passo hoje?", fala em tom divertido. "É uma emoção gostosa", garante. "É bom ver outras meninas batalhando em campo, algo que eu fiz por tantos anos. Saber que a minha luta e a luta das pioneiras não estão sendo em vão, que essas meninas têm hoje a oportunidade de vestir a camisa e sentir a emoção e a atmosfera que é uma Copa do Mundo, assim como as Olimpíadas", enfatiza. 

    A Copa do Mundo Feminina de Futebol de 2027 terá 32 países participantes e 64 partidas. A abertura e a final serão no Maracanã, no Rio de Janeiro. Dez capitais que já receberam jogos do torneio masculino em 2014 foram selecionadas para o evento: Belo Horizonte (MG), Brasília (DF), Cuiabá (MT), Fortaleza (CE), Manaus (AM), Porto Alegre (RS), Recife (PE), Rio de Janeiro (RJ), Salvador (BA) e São Paulo (SP). O ministro André Fufuca considera que a infraestrutura esportiva necessária já está pronta, o que evitará novos gastos.

    4 min
  • Paris 2024 é Olimpíada mais paritária, mas não vence desigualdade entre homens e mulheres no esporte

    A Olimpíada de Paris conseguiu ser a mais paritária da história e deu mais visibilidade ao esporte feminino, mas também mostrou que ainda existem desafios para alcançar a igualdade no esporte entre homens e mulheres.

    Quando conquistou a medalha de ouro no solo da ginástica olímpica, na segunda-feira (5), em Paris, Rebeca Andrade, resumiu a luta das mulheres para subir aos pódios, em um meio que nunca as favoreceu.

    "A gente sabe como é difícil para a mulher para estar no esporte, para a mulher aparecer, para a mulher fazer e acontecer, enfim, estávamos representando todas as mulheres e mostrando que é sim possível, que a gente é capaz", disse a ginasta que se transformou, nesse dia, na atleta brasileira com mais medalhas olímpicas conquistadas. 

    Paris 2024 tinha a ambição de ser a primeira Olimpíada totalmente paritária da história, com presença e número de medalhas iguais para homens e mulheres. 

    Mas apesar dos esforços, não se pode dizer que esse objetivo foi totalmente cumprido, como explica Éric Monnin, vice-presidente da Universidade de Franche-Comté e diretor do Centro de Estudos e Pesquisas Olímpicas Universitárias (CEROU). 

    "Na verdade, essa paridade não é real. Na luta, não há paridade. Há apenas 12 provas masculinas contra 6 femininas. Então a paridade não é completa. É um pouco um abuso de linguagem dizer que a paridade é total", diz. 

    "Ela é uma realidade na globalidade dos jogos, mas temos que relativizar porque, ainda que tenhamos o mesmo número de homens e mulheres, esta equidade não está em todos os esportes. É necessário precisar", insiste. 

    De acordo com números de Paris 2024, o objetivo de distribuição "50% a 50%" entre os dois sexos não foi alcançada, já que as mulheres representaram apenas 49,14% dos atletas qualificados, com 192 homens a mais. 

    Evolução importante

    Mas para entender como o sistema olímpico evoluiu sobre a questão, é necessário voltar no tempo. Em 1900, quando Paris realizou uma olimpíada pela primeira vez, apenas 22 mulheres participaram entre os 975 atletas selecionados, o que representava apenas 2% dos esportistas. Já em 2024 elas são 5.250. 

    Além disso, 100 anos atrás, as mulheres participaram apenas de provas consideradas "compatíveis com sua feminilidade". Pierre de Coubertin, barão francês responsável pela criação dos Jogos Olímpicos da era moderna, chegou a dizer, na época, que "a mulher era, antes de tudo, uma reprodutora destinada a coroar os vencedores". 

    Atualmente, a paridade faz parte do estatuto olímpico, que prevê a não discriminação e a igualdade entre homens e mulheres. 

    Para garantir que esse objetivo seja cumprido, provas mistas foram propostas como uma solução, obrigando as delegações a colocar o mesmo número de mulheres e homens nas competições. 

    Entre as modalidades estão o judô por equipes, que passou a ser misto em Tóquio 2020. Este ano foi a vez da marcha atlética masculina de 50 km ser substituída pelo revezamento misto. 

    "Acho que isso vai dar mais visibilidade (para o esporte feminino). Mas vamos ir ainda mais longe. Hoje existe uma verdadeira reflexão que ultrapassa a polarização homem/mulher. Eu acho que é necessário repensar o sistema em sua globalidade", diz o Eric Monnin. 

    "Temos que pensar a questão homem-mulher de uma maneira muito mais global, sobre que lugar dar ao atleta em sua globalidade. Sabemos que hoje falamos de ele, ela e elu, então, percebemos que existe uma mutação da sociedade que está acontecendo", acrescenta, otimista. 

    Paridade e igualdade

    Mas paridade não é exatamente sinônimo de igualdade. Nas Olimpíadas pode ter sido uma maneira de dar visibilidade ao esporte feminino, mas a desigualdade de acesso aos esportes de competição em geral e às responsabilidades esportivas para as mulheres continuam. 

    Além disso, alguns casos como o da boxeadora argelina Imane Khelif, que foi alvo de especulações sobre sua identidade de gênero, mostram que o corpo das atletas ainda é o principal alvo dos comentários e não seus desempenhos. Como lembra a editora da revista de esporte feminino, Les Esportives, Claire Smagghe. 

    "O corpo das mulheres é sempre a questão, isso não é novo. Continua acontecendo e é muito problemático. Sempre resumimos as esportistas a seus corpos, a sua feminilidade", lamentou em entrevista à France 24. 

    Questões sobre os uniformes das atletas também ainda são debate. A equipe de atletismo americana reclamou de maiôs muito cavados, enquanto as francesas quiseram ter o direito de usar roupas iguais aos dos homens na abertura de Paris 2024. 

    "O esporte é governado pelos homens e, ainda pior, são eles que dizem às mulheres como se vestir, enquanto são elas que têm responsabilidade sobre seus corpos. Elas devem poder escolher como se vestir. Esse é o primeiro ponto. E o segundo tem a ver com os enquadramentos. Acho que existem imagens e comentários que não são necessários. Elas são campeãs que treinam o ano todo. O essencial é o desempenho", lembra Smagghe.

    Na Olimpíada de Tóquio 2020, o COI (Comitê Internacional Olímpico) atualizou suas diretrizes para tentar mudar ângulos que sexualizam o corpo das atletas nas transmissões televisivas. Recomendações que parecem óbvias, como tentar não focar na aparência, nas roupas e nas partes íntimas das esportistas, foram transmitidas aos profissionais da imagem que trabalham nas olimpíadas. 

    Arenas de debate

    As olimpíadas servem também como uma maneira de colocar nas arenas de discussões as dificuldades das mulheres por trás do sonho olímpico. 

    A história da velocista brasileira Flávia Maria de Lima ficou conhecida até fora do Brasil. Em pleno processo de divórcio e de preparação para as olimpíadas, o marido da atleta utilizava na Justiça suas viagens internacionais para participar de competições como provas de "abandono materno" para obter a guarda da filha. 

    Flávia conseguiu sensibilizar milhões de internautas, atrizes e celebridades brasileiras e chegou a ser notícia na mídia francesa. O caso da esportista mostrou também que, para alcançar olimpíadas mais igualitárias, existem questões que vão muito além da paridade.  

    6 min
  • ONG Panthera traz esculturas de onças para Paris durante Olimpíadas para alertar sobre preservação

    Duas esculturas de onças do projeto Jaguar Parade, que faz escala atualmente no Rio de Janeiro, podem ser vistas até o final dos Jogos Olímpicos e Paralímpicos de Paris em frente ao edifício da prefeitura de Saint-Ouent, subúrbio da região parisiense que é sede da delegação brasileira durante as Olimpíadas. A artista plástica carioca Ticiana Parada é autora de uma das onças exibidas na França. A segunda peça é uma criação do artista franco-brasileiro Augustin de Lassus.

    A Jaguar Parede é uma iniciativa da ONG Panthera, líder mundial na preservação de felinos selvagens. A peça de Ticiana Parada representa a onça das florestas tropicais. Já a onça preta, customizada pelo artista gráfico, pintor e autor de murais Augustin de Lassus faz referência a um tipo de felino presente no Escudo das Guianas, região que engloba Brasil, Guiana, Guiana Francesa, Suriname, Venezuela e parte da Colômbia.

    A diretora de Relações Institucionais da Panthera, Fernanda Ribeiro, veio a Paris para divulgar o projeto e falou sobre o trabalho da ONG. "A onça é provavelmente o maior símbolo da nossa diversidade, da nossa biodiversidade no Brasil e na América Latina, e eu acho que é muito importante esse tipo de iniciativa para que as pessoas se conscientizem cada vez mais da importância da conservação dessa espécie e o quanto isso diz também da conservação dos nossos ecossistemas", destacou em entrevista à RFI.

    Segundo a representante da Panthera, como a onça está no topo da cadeia, para que ela consiga ter uma vivência num habitat, o resto precisa estar funcionando. "Todos os níveis de biodiversidade precisam estar no lugar. Precisa haver uma conectividade entre esses diferentes habitats, diferentes biomas", explicou. 

    Preservação brasileira  

    A ativista diz que o Brasil tem uma mensagem positiva para transmitir ao mundo. Um dado pouco conhecido no exterior é que o país possui 80% de toda a população global de onças. "Isso quer dizer que a gente está fazendo alguma coisa certa. Quer dizer que os nossos habitats estão bem preservados, estão bem conectados, funcionais e que não existe conservação de onça sem o Brasil", declara.

    Uma das características principais do projeto Jaguar Parade é estabelecer essa relação próxima da onça com a cultura brasileira. "A onça representa a força, ela representa a beleza e a resiliência. Você superar limites e barreiras, e tudo isso representa muito o nosso povo brasileiro também", sublinha Fernanda. 

    De acordo com a Panthera, ainda existem populações importantes de felinos selvagens na Amazônia, em ambientes mais preservados. A segunda população mais importante está no Pantanal. "Apesar de todas as ameaças do fogo e das pressões humanas no Pantanal, esse bioma ainda é um ecossistema-chave para a conservação das onças", garante Fernanda.

    Augustin de Lassus terminou sua onça exclusiva e única na capital francesa. "Estou me esforçando bastante no objetivo de realizar a melhor obra possível", contou. "A questão amazônica, o Pantanal, o Escudo das Guianas, o mundo inteiro sabe da importância. Todos nós sabemos os reveses que a gente sofre quando começamos a desmatar para colocar monocultura ou gado. Por outro lado, o ser humano consome esses alimentos. Então a gente está num paradoxo entre crescimento e evolução da nossa humanidade e preservação do planeta. É o grande paradoxo contemporâneo, entre outros", disse o artista à RFI.  

    França protege seus biomas

    Criado no sul do Brasil, Augustin de Lassus veio passar uma temporada com a família no país de seus pais e avós. Há um ano e meio, Augustin, sua mulher e os dois filhos pequenos se instalaram na região dos Pirineus e logo perceberam que os franceses também preservam a natureza. 

    "Muitas vezes a gente tem um pouco um estereótipo que a França já não tem mais natureza, já não tem mais floresta, mas não é bem assim. A forma que se preserva na Europa também é muito interessante. Tem florestas maravilhosas. A região onde eu moro, lá no sul, nos Pirineus, tem centenas de milhares de quilômetros quadrados de natureza preservada, parques ambientais. É uma fauna e flora muito rica e abundante. Então, eu admiro muito também a natureza na França, apesar dela ser mais singela, de ter espécies específicas e uma menor biodiversidade", disse o artista plástico. 

    Unindo forças, na opinião de Augustin, os dois países podem fazer muito pelas causas ambientais. Eu acho que nós somos povos, talvez pela nossa origem latina, talvez pelo nosso Direito que se aproxima, nossos princípios, eu acho que somos povos irmãos nesse sentido, de trabalhar pelo bem do planeta e por consequência pelo bem do ser humano e das gerações futuras", afirmou. 

    Jaguar Parade virá para Paris

    A ONG Panthera aproveita a realização dos Jogos Olímpicos e Paralímpicos de Paris para anunciar que a capital francesa também terá a sua Jaguar Parede, exposição urbana de esculturas de onças, como acontece atualmente nas ruas do Rio de Janeiro. Será em julho de 2025, quando o Acordo de Paris sobre o clima estará completando dez anos e em meio à programação do ano Brasil-França. O projeto faz sucesso por onde passa. Já esteve em Florianópolis, São Paulo e Nova York.

    Segundo Fernanda Ribeiro, os dois países têm em implicação forte na questão da conservação da onça-pintada. Existe um roteiro de conservação da onça para as Américas, que tanto o Brasil quanto a França são signatários, e um comprometimento significativo no investimento dos países, principalmente no Escudo das Guianas A onça de Augustin de Lassus representa as características da vegetação encontrada no relevo dessa região ao norte da América do Sul.

    "São coisas muito sutis, mas que através da obra de arte as pessoas têm um acesso muito mais direto, do que estar lendo um texto, uma coisa na internet. Acho que a arte gera essa conexão, que é muito mais primal e forte e que aí traz essa conscientização que é importante", observa a ativista da Panthera. 

    Já houve um declínio muito grande das onças na Mata Atlântica, no Cerrado e na Caatinga. "Estar presentes também nesses outros biomas é uma prova a mais do quanto elas são resistentes e resilientes a todas essas mudanças antrópicas", explica a brasileira. "O grande perigo é que uma vez que você perde a conectividade entre esses diferentes ecossistemas, essas populações ficam ameaçadas porque elas perdem a diversidade genética", alerta a ativista. 

    A onça é um animal que precisa se movimentar por longas extensões de territórios. A criação de parques nacionais e estaduais é sempre bem-vinda. "Mas, para além dessas áreas protegidas, é preciso olhar para os corredores ecológicos, corredores culturais, porque existe uma relação muito forte dessas populações locais, comunidades, povos indígenas, comunidades tradicionais, com a presença da onça", destaca Fernanda Ribeiro.

    "Para eles, a onça é um ser mítico, é o guardião do espírito da floresta, sabe? Então assim, quando você perde a onça, você não perde só uma espécie. Você perde esse vínculo cultural, espiritual, humano que é uma parte essencial", conclui a diretora de Relações Institucionais da Panthera.

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  • Voluntários em Paris, brasileiros vestem a camisa dos Jogos e vivenciam as Olimpíadas de outro ângulo

    As Olimpíadas são vistas por bilhões de pessoas ao redor do mundo inteiro pela TV e por outras tantas milhões presencialmente em Paris, na França. Mas alguns brasileiros estão tendo a chance de acompanhar ao vivo de uma forma diferente, literalmente vestindo a camisa do evento para trabalhar como voluntários nestes Jogos Olímpicos.

    Renan Tolentino, da RFI em Paris

    Em entrevista à reportagem da RFI, a gaúcha Fernanda Bauer, de 38 anos, e o capixaba Lucas Passos, de 27, contaram um pouco de como é a rotina de trabalho, os desafios e como está sendo viver essa oportunidade que vale ouro, como eles mesmos indicam.

    “Está sendo uma experiência incrível ver tanta gente junta, de diversos países, torcendo, comemorando, rindo e dançando", Lucas Passos, voluntário brasileiro em Paris.

    "Eu imaginava que seria uma experiência grandiosa, mas tem superado as minhas expectativas. Tenho gostado de estar bem próximo ao público e das conversas que temos, de conhecer a razão pela qual estão ali nos jogos, de onde eles vêm... E também de poder estar relativamente perto dos atletas e de ver as competições de vez em quando”, explica o capixaba.

    Fernanda, por sua vez, destaca o clima de festa nas arenas, a relação amistosa com o público e com outros colegas de voluntariado, além das atracões do seu local de trabalho.

    “A experiência está sendo muito boa. Todo mundo é muito gente boa, todos os voluntários são muito legais. A gente tem uma estrutura bem legal de atendimento dentro da Place de La Concorde. É um local novo, porque não tem só as competições, tem também todo um parque urbano com outros eventos, que o público pode visitar, com atrações para as famílias. Em geral, está sendo incrível”, diz Fernanda.

    Os dois fazem parte dos 45 mil voluntários selecionados, sendo 30 mil para os Jogos Olímpicos e 15 mil para os Paralímpicos, segundo os números divulgados pelo comitê organizador. Cerca de 20% do voluntariado é composto por estrangeiros.

    “É um processo um pouquinho longo porque a gente faz toda a inscrição, tem que responder a um questionário para [os avaliadores] verificarem nossas habilidades, qual a melhor função para gente ficar. Depois desse teste, eles propõem as missões de acordo com o seu perfil. A partir de abril, chegaram os resultados para mim e as missões que eu iria fazer [durante o voluntariado]”, detalha Fernanda.

    Ao todo, mais de 300 mil pessoas se candidataram para o processo que começou em março de 2023, quando as inscrições foram abertas e durou até março deste ano, quando começaram os primeiros treinamentos. Até chegarem lá, os candidatos tiveram que passar por diferentes etapas como apresentar um dossiê, com currículo e carta de motivação; e preencher um questionário “que envolvia situações cotidianas e possíveis cenários que seriam encontrados durante o evento, a fim de conhecerem melhor a postura e a compatibilidade dos candidatos em diferentes missões”.

    “Inicialmente participamos de uma convenção de voluntários, um evento presencial em um dos locais de provas e com o objetivo de apresentar o programa, os Jogos Olímpicos, o uniforme e promover a integração do grupo. Em seguida, tivemos acesso às formações para conhecermos as nossas funções e termos orientações gerais. Por último, uma semana antes do início dos Jogos Olímpicos, participamos de uma formação presencial no local em que seríamos voluntários, com o intuito de conhecermos a área e o seu funcionamento. Além disso, foram oferecidos cursos online de primeiros socorros e acesso a uma plataforma de idiomas”, detalha Lucas.

    Motivações e desafios

    Diante de todas essas barreiras, as motivações para se candidatar e encarar o processo de voluntariado é muito particular de cada um e pode variar de pessoa para pessoa. Para Fernanda Bauer, foi o relato de um amigo que despertou o desejo de viver essa experiência inédita.

    “Um amigo do Rio de Janeiro foi voluntário nos Jogos Olímpicos de 2016 e teve uma experiência incrível. Sempre falou muito bem do tempo de voluntariado dele. Isso fez com que eu tivesse vontade de fazer parte disso também, de testar. Como eu já iria estar em Paris no período das Olimpíadas, achei que poderia ser uma experiência interessante para participar um pouco dos jogos sem ser só como espectadora”, relembrou a brasileira, natural de Sapiranga (RS), que vive desde 2022 em Paris, onde faz um mestrado.

    Já para Lucas foi a própria admiração pelas Olimpíadas que o fez querer vivenciar o evento de uma forma nova e totalmente única. O capixaba de 27 anos conta que acompanha os Jogos desde criança, mas até então não tinha tido a oportunidade de acompanhar in loco, como está tendo agora em Paris, como uma das milhares de pessoas que ajudam a fazer o evento acontecer.

    “Eu me candidatei para ser voluntário pois desde pequeno eu gosto muito das Olimpíadas e da ideia de unir nações a partir do esporte. Sempre acompanhei pela televisão e infelizmente não pude ir ao Rio 2016, o que aumentou ainda mais a minha vontade de participar em Paris 2024, como tinha grandes chances de eu estar aqui por conta dos estudos. Além disso, eu adoro o fato de conhecer e estar em contato com pessoas de diversas nacionalidades e poder falar e escutar outros idiomas”, explica Lucas, que mora há 11 meses na capital francesa, também para cursar um mestrado em psicologia, sua área de atuação.

    Uma experiência ímpar como essa também apresenta desafios, que podem ser variados. Trabalhando no mesmo local, na Place de La Concorde, e no atendimento ao público, os dois apontam diferentes barreiras a serem superadas nas tarefas diárias como voluntário.

    Situado no coração de Paris, o local está recebendo as competições mais urbanas, como skate, basquete 3x3, BMX Freestyle e breaking. Para Lucas, o maior desafio é em relação ao clima abafado que tem predominado em Paris durante os dias de competição. Em alguns momentos, a temperatura chegou a passar dos 35°, com a sensação térmica beirando os 40°.

    “O maior desafio é manter a energia em alta, principalmente quando faz muito calor ou chove, mas o ambiente e os espectadores recarregam as energias e nos motivam a continuar com a nossa missão”, brinca o brasileiro, natural de Vitória.

    O idioma é outro obstáculo a ser superado no trabalho do dia a dia como voluntário, uma vez que Paris está recebendo turistas de todo o mundo para os Jogos. Uma verdadeira "Torre de Babel olímpica".

    "O desafio para mim é o idioma. Eu falo francês, mas ainda não sou fluente. Em geral, me viro muito bem, mas às vezes ainda dá uma falhada. Então, está sendo uma experiência legal para isso também, para eu poder aprimorar o meu idioma”, afirma Fernanda.

    Tradição dos pins olímpicos

    Além de poder acompanhar as competições de perto, outra experiência proporcionada pelo voluntariado nos Jogos é a troca cultural com pessoas vindas de todos os cantos do planeta.

    E uma das práticas que mostram isso é a tradição da troca dos pins, uma espécie de broche olímpicos que alguns voluntários trocam entre colegas de outros países, ou com torcedores e até mesmo atletas (de forma menos frequente). A ideia é fazer uma coleção para guardar como recordação dessa experiência dourada.

    “Eu ganhei três pins, mas na maioria das vezes é bom você chegar na pessoa e pedir. Geralmente são atletas ou pessoas da equipe técnica que têm. E eu troquei um pin dos EUA para pegar um do Brasil, por exemplo”, conclui Lucas, que já tem cinco broches na sua coleção.

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  • 'Vivo em pânico': brasileiras no sul do Líbano testemunham escalada de violência com guerra na região

    Elas são mães de família e moram no sul do Líbano, diariamente convivendo com bombas e sirenes no meio da escalada provocada pelo assassinato dos líderes do Hamas e do Hezbollah na quarta-feira (31), e a promessa de retaliação do Irã e de seus aliados contra Israel. Palco de conflitos mundiais e regionais há décadas, o Líbano se prepara para se transformar, mais uma vez, em um "tabuleiro de War" regional. Assustadas, brasileiras que moram na região contaram à RFI como sobrevivem no meio do caos.

    A conversa com Christiane, 44 anos, mãe de duas filhas, de 17 e 23 anos, começa com um apelo. Ela não deseja revelar o nome da cidade onde mora, no sul do Líbano, por medo de retaliações. Ela é a única brasileira residente no local.

    "Estamos vivendo uma vida saída do Big Brother, se você me entende. É como se fosse isso. Você sabe que nem tudo posso falar pelo telefone, porque aqui tudo é vigiado. [Sobre] muitas coisas não podemos nos abrir, tudo bem?", justifica, se desculpando. 

    Christiane conta que vive no Líbano há 24 anos. "Eu moro bem na fronteira. Já faz 10 meses que eu estou fora de casa. A minha situação não é nada boa, porque tive que sair da minha casa somente com uma mala, com algumas roupas. A situação é a mesma onde meu marido trabalha, na fronteira, então fechou todas as portas", relata a brasileira. "Faz uns tempos que eu estou morando aqui; eu viajei para o Brasil e fiquei lá uns três meses, agora já vai fazer um mês que eu voltei, porque a minha filha tem que fazer prova do governo para entrar na faculdade. Se ela não fazer essa prova do governo, ela não pode se matricular", explica. "Então eu tive que fazer isso por minha filha. É um esforço que vale a pena para mim, porque minha filha é uma das primeiras [alunas] da escola. Ela é muito inteligente, muito estudiosa. Então valeu a pena, mesmo sabendo que eu tinha que enfrentar tudo isso que eu estou enfrentando de novo", conta.

    Eu tento fazer o meu dia parecer o mais normal possível, porque se não a gente fica louca, entra em depressão, dá tremedeira, sintomas de depressão. Então a gente tenta não pensar muito no que está acontecendo. 

    "Meu dia a dia é sempre uma caixinha de surpresa", relata Christiane. "Quase diariamente, ou às vezes até duas vezes ao dia, tem uma explosão no céu. Não é bomba, quero deixar bem claro. Mas o barulho é como se fosse três vezes o de uma bomba. Um barulho muito forte. Pode ser de dia, pode ser de tarde, pode ser à noite. E já fizeram de madrugada também", conta. "São aviões que passam e fazem um barulho estrondoso. Tão estrondoso que já teve pessoas que morreram de ataque cardíaco. É insuportável. É um medo tão grande, mas tão grande, que chega a secar a boca, sabe?", testemunha a brasileira.

    Aviões israelenses voaram baixo sobre Beirute nesta terça-feira (6), com explosões supersônicas que causaram pânico, pouco antes de um discurso planejado pelo líder do movimento libanês Hezbollah, Hassan Nasrallah, de acordo com jornalistas da agência AFP. "Aeronaves israelenses romperam a barreira do som sobre a capital e várias regiões em duas ocasiões", completou a Agência Nacional de Notícias (ANI). O acontecimento parece uma ilustração da narrativa das brasileiras que moram no sul do Líbano.

    "Você pode estar no banho, fazendo uma comida, pode estar andando na rua, de repente vem esse barulho e as casas, as janelas, tudo se movimenta, é insuportável", diz Christiane. "É tão forte que um bebê recém-nascido se sacode, se assusta. Temos que conviver com isso. Então, quando bate uma porta da sua casa com vento ou cai uma panela, você praticamente já se assusta. E é assim que eu vivo, em pânico, com qualquer barulho", afirma.

    "Como um jogo"

    "Fora isso, eu tenho uma sensação que a gente vive como um jogo. É um jogo. A gente tem medo de ir no mercado, tem medo de comprar uma fruta na feira, tem medo de ir numa loja porque a gente não sabe quem está ao nosso redor, quem está dentro do carro que está atrás de você ou na sua frente, ou quem está com você na loja. Então a gente anda assim, meio em pânico. E você pode ser o alvo, entendeu? Então, a gente vive em pânico todos os dias", suspira Christiane.

    Ela explica porque não considera a possibilidade de voltar a morar no Brasil. "Não tem como largar tudo. Começar do zero no Brasil, por exemplo, não é bem assim. Eu moro aqui há 24 anos. Eu tenho minha casa própria, meu marido tem o trabalho dele, não tem como você começar do zero. Tem gente pior do que eu, que está ainda mais próxima da fronteira", conta. "Preciso estar aqui pela minha família, não tenho como começar do zero no Brasil", afirma. "As pessoas perguntam como eu consigo viver num país assim... Mas é a mesma coisa se você está em qualquer país. Você comprou sua casa, trabalhou anos para construir, tem sua família e vive bem, e de repente tudo vira... Como é que se faz? Vamos para outro lugar e começamos do zero? E se não der certo em outro lugar? Há muitas coisas envolvidas... Tem muitos brasileiros nessa situação aqui. Eu não sou a única", diz.

    "O que mais me deixa deprimida é porque parece que a situação está piorando. Hoje, às vezes você está bem, está sorrindo, de repente vem uma notícia que te deixa mais para baixo, preocupada, e você não dorme a noite inteira, não come", relata Christiane. 

    "Temos uma tensão 24 horas por dia", conta a podóloga brasileira Lenny Souza, que mora na cidade de Mahrakk, a oito minutos de Tyre, no sul do Líbano. "A realidade que estamos vivendo, principalmente agora, esses últimos dias, depois desse ataque terrível que teve em Beirute, é que não sabemos se daqui a um segundo, um minuto, meia hora, uma hora ou se daqui a dois dias teremos uma guerra aberta... Estamos vivendo essa guerra diária já faz muito tempo, principalmente para nós que estamos aqui no sul. Hoje eu não considero local nenhum no Líbano seguro. O realidade é que, no momento, estão atacando em qualquer lugar", diz Lenny, mãe de três meninas.

    Moro no Líbano há 12 anos, e é a primeiraz vez que passo por uma situação tão difícil. Estamos vivendo em uma guerra.

    "Não adianta a gente dizer o contrário. Desde o dia 7 de outubro de 2023 estamos vivendo, sim, uma guerra. Moro no sul do Líbano e todas as brasileiras que aqui moram têm vivido 24 horas de tensão. Muitas brasileiras gostariam de ir embora, de retornar ao Brasil nesse momento, mas infelizmente não têm condições financeiras para estar bancando a sua volta ao seu país", conta.

    "Muitas vezes você está dirigindo e não sabe se o carro da sua frente ou de trás é alvo e pode ser atacado, e você pode ser atingido. Você não sabe se o prédio do seu lado vai ser atacado e, de repente, a sua casa ou o prédio onde você mora pode ser atingido", relata a podóloga. 

    Lenny conta que muitas brasileiras que não têm condições de sair do sul do Líbano, até mesmo nas cidades mais próximas à fronteira. "Se bancar financeiramente, sair de suas casas e ter que alugar uma casa em algum outro território do Líbano que seja um pouco mais tranquilo, não há condições, pois os aluguéis hoje em dia aqui, depois da situação toda que está passando com o país, estão um absurdo. E para você manter sem o seu trabalho, sem estar trabalhando, manter o seu aluguel ou o seu alimento com os seus filhos, é uma situação muito complicada e crítica", relata a brasileira.

    Estocando alimentos

    Lenny Souza conta que a população começa a estocar alimentos para uma "guerra total". "Sim, podemos dizer que em Beirute há muitas pessoas que estão vivendo normalmente, que no sul do Líbano há alguma cidades que ainda estão vivendo normalmente, com as pessoas indo trabalhar. Mas para nós, brasileiros, que nunca presenciamos e nem passamos por uma guerra, é complicado. É complicado você estar dentro da sua casa, de repente fazendo suas tarefas do dia a dia, e os aviões de guerra fazem um barulho terrível, a gente se assusta, os nossos filhos se assustam", afirma Souza.

    7 min
  • Programação do Parque das Nações empolga torcedores e turistas durante a Olimpíada de Paris

    Os Jogos Olímpicos de Paris lotam as arenas e também o Parque das Nações, em La Vilette, na zona norte da capital francesa. Torcedores e visitantes curiosos em experimentar uma imersão cultural e esportiva nos países das 15 delegações representadas no local se encontram diariamente para assistir às provas e, juntos, compartilhar a atmosfera festiva da Olimpíada.

    O Clube França e a Casa Brasil são um sucesso de público. A reportagem da RFI encontrou brasileiros e estrangeiros que contaram o que apreciaram no espaço brasileiro.

    "Eu vivi seis anos no Brasil e preciso desse ambiente para matar a saudade, a nostalgia. O que acho maravilhoso aqui é que a gente encontra todo mundo perto um do outro, a comida, a carne deliciosa, a cerveja gelada... e todo mundo junto. Eu adoro, gosto muito disso!", disse o ator Aguibou Ba, acompanhado de dois amigos artistas que ele levou para La Vilette a fim de compartilhar a atmosfera descontraída brasileira. 

    O casal de Recife Cristina e Jonas Olofsson estão passando férias na Europa e reservaram cinco dias para visitar Paris durante a Olimpíada. "A Casa Brasil é a mais animada do parque todo. Mas achei a Casa Eslovênia bem linda, com coisas artísticas bem bonitas para minha filha", disse o sueco Jonas. Cristina contou que a filha de 5 anos do casal ficou "enlouquecida" com as atrações. "Amei o astral, está maravilhoso, as pessoas super legais e também um espaço muito bom para assistir aos jogos", destacou a pernambucana.

    O DJ sul-africano Siba faz o público dançar na Casa África do Sul com canções tradicionais, sonoridades dos anos 1980 e hits recentes que o mundo todo conhece. Uma das exposições no local, de vestidos e trajes tradicionais de luxo, chama a atenção dos visitantes. 

    "Eu já morei na África do Sul por um tempo, então eu entendi realmente a mensagem que eles quiseram passar. Achei bem bacana essa mensagem da cultura deles (...) uma coisa bem expressiva, com as roupas bastante marcantes, a negritude bem explícita. E a parte mais savana, mais África, que é o que chama a atenção do público estrangeiro, que não tem muito conhecimento de como é lá dentro", disse Yuri Rabelo, de Fortaleza. 

    Ao lado da namorada Amanda e de um casal de amigos, os quatro brasileiros visitaram espaços de várias delegações no Parque das Nações. 

    "Também já visitamos a casa Taiwan, onde teve um show e a banda era muito animada", explicou Amanda. "A da República Tcheca é um ambiente muito bonito, mas as pessoas que estão lá dentro ficam mais sentadas, bebendo a cerveja deles, assistindo aos jogos mais calmos", acrescentou a cearense. "Acho que a Casa Brasil é a mais animada, a que tem mais movimento, (...) um diferencial maior", opinou.

    Na Casa Índia, as aulas de coreografias dos filmes de Bollywood encantam o público internacional. "Eu adoro! Come-se bem, o ambiente é delicioso, um artesanato incrível – tapeçaria, marcenaria, esculturas de bronze, bijuterias, perfumes – e, ao mesmo tempo, a tecnologia do país. É sensacional", disse uma visitante francesa entre dois passos de dança.  

    A Casa Colômbia, vizinha do Brasil, atrai o público pelo aroma de churrasco e a música latina que pode ser ouvida à distância. A fila na entrada costuma ser longa, mas flui com rapidez. No interior, um bar serve cerveja gelada e no jardim anexo dezenas de mesas foram instaladas sob uma área arborizada. Um telão completa o cenário, ideal para os dias de temperatura elevada em Paris.  

    A maioria das casas do Parque das Nações ficam abertas a partir de 10h até as 21h. Algumas delas exigem reservas por aplicativo, como a Casa Brasil, o Club France e a Casa Índia, entre outras. O espaço brasileiro tem acesso gratuito, mas outros cobram ingressos a preços acessíveis. Fora do Parque das Nações, em La Vilette, há pelo menos dez endereços de outras delegações que podem ser visitados. É um ótimo programa para conhecer melhor um outro país estando em Paris para os Jogos Olímpicos. 

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  • Judocas medalhistas do Brasil se tornam fenômeno nas redes sociais e querem ser inspiração

    Fenômeno nas redes sociais, inspiração para as novas gerações e aposentadorias. Os atletas brasileiros, medalhistas olímpicos do judô, estiveram na Casa Brasil, espaço de confraternização da torcida brasileira em Paris, nesta segunda-feira (5) e falaram sobre a emoção com as conquistas e os planos para o futuro. O esporte conquistou quatro medalhas nestes jogos olímpicos: um bronze por equipes, e um ouro, uma prata e um bronze nas disputas individuais.

    O judô é o esporte que mais conquistou medalhas para o Brasil em Olimpíadas até agora. Nesta edição, além do bronze por equipe mista, na vitória contra a Itália, o time teve ainda o ouro de Beatriz Souza, a prata de Willian Lima e o bronze de Larissa Pimenta. Com o resultado histórico em Paris, além de comemorarem a melhor participação em jogos olímpicos, os atletas festejam o reconhecimento do público e da torcida.

    Não faz muito tempo que a judoca Beatriz Souza podia andar tranquilamente pelas ruas sem ser reconhecida. Mas depois do ouro olímpico na categoria peso-pesado, conquistado na última sexta-feira (2), essa realidade mudou. Em visita à Casa Brasil, instalação que recebe atletas e torcedores brasileiros durante Paris 2024, localizada no 19º distrito da capital francesa, Bia, como é conhecida, era a mais disputada para selfies e autógrafos.

    “Só ontem consegui ver as dms (direct messages do Instagram), vi tudo e é impossível repostar. Mas o que mais me impressionou é que eu não esperava todo esse carinho. Foi para uma dimensão que nunca passou pela minha cabeça: três milhões de seguidores, nunca na vida eu pensei que poderia chegar a isso. Ser reconhecida na rua ainda é muito doido, mas acho incrível esse carinho, essa empatia e respeito”, disse ela, que se surpreendeu com mensagens de celebridades como Ivete Sangalo e Neymar.

    Inspirações femininas

    Ao vencer a luta pelo ouro, Beatriz Souza falou à RFI sobre ser uma atleta negra e chegar ao lugar mais alto do pódio, e sobre como esta conquista deve servir de inspiração para outras mulheres. Hoje, ela voltou a falar de inspirações e afirmou que tem grandes exemplos dentro de casa e no tatame.

    “Tenho uma família incrível, uma base inspiradora. Dentro do tatame, parceiros incríveis de seleção. E eu sempre procurei ser inspiração da mesma forma em que eu fui muito inspirada por mulheres fortes, guerreiras, pretas, mostrar que a cor da pele não tem nada a ver com sonhos. A gente pode, sim, alcançar tudo aquilo que a gente almeja, basta a gente estar disposto a pagar o preço, a se esforçar, a ser disciplinado e encarar o que vem pela frente”, afirmou.

    Leia também"Sou mulher preta, guerreira que conquistou o mundo e quero que outras saibam que é possível”, diz Bia Souza

    Larissa Pimenta, bronze por equipes e individual na categoria meio-leve, fez coro e afirmou que inspirações e motivações não faltam na família, mas também dentro da equipe.

    “Me inspiram muito e me fazem ter muito orgulho de poder estar dividindo tudo com elas”, disse.

    Recomeço e redenção

    A atleta Rafaela Silva, medalhista de bronze por equipes, se emocionou ao falar de seu momento de redenção nas Olimpíadas de Paris 2024. Ela, que foi ouro nas Olimpíadas do Rio em 2016, ficou dois anos fora das competições profissionais por um caso de doping. Com isso, ela não conseguiu disputar os jogos de Tóquio, em 2021.

    “A gente começa no judô e acha que já vai aprender a derrubar, aprender os golpes, mas a primeira coisa que a gente aprende no judô é a cair e depois a se levantar. Então é uma das coisas que a gente leva para nossa carreira. Eu faço um acompanhamento mental desde da minha volta da Olimpíada de Londres, em 2012, quando eu queria parar o judô. Agora eu me sinto bem, me sinto feliz, foi um momento especial, eu cheguei até a semifinal e acabei ficando sem medalha, e consegui dar esse ultimo ponto para o Brasil. Com certeza foi um momento muito importante. Fiquei muito chateada com meu desempenho na competição individual, mas eu sabia o quão importante eu era para o time. Eu sabia que eles precisavam de mim assim como eu precisava deles”, contou.

    Fim de um ciclo

    Aos 37 anos, Rafael Silva, conhecido como Baby, também fez história por ser o judoca mais velho ao subir ao pódio. O veterano, que conquistou o bronze por equipes com o time misto, soma três medalhas olímpicas na carreira e falou sobre os projetos futuros fora do tatame, pelo menos como atleta.

    “Eu acho que competir no judô é a coisa mais bela que tem, de emocionante, de adrenalina, mas o processo de treinamento é o mais difícil, mais doloroso, e com a idade esse processo vai ficando cada vez mais complicado. Minha intenção é continuar trabalhando pelo esporte, com a mesma dedicação, com a mesma resiliência e com a mesma excelência que eu sempre procurei entregar durante toda minha carreira. A nossa missão como atleta olímpico, estando atuando ou não, é sempre incentivar e inspirar as pessoas a compreenderem os valores do esporte, a vivenciar os valores do esporte. Então a minha missão e o meu propósito vão ser muito nesse sentido”, disse.

    O resultado em Paris supera Londres 2012, quando o Brasil também teve quatro medalhas, com um ouro e três bronzes. As 28 medalhas olímpicas da história do esporte colocam o judô brasileiro como uma potência mundial, atrás apenas de Japão, França, Coreia do Sul e Cuba em número de medalhas. A equipe brasileira subiu ao pódio em todas as últimas 11 edições dos jogos olímpicos. Desde 1984, o judô conquista pelo menos uma medalha.

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  • Conheça Alexandre Vecchio, árbitro que representa o Brasil nas provas de tiro com arco em Paris 2024

    A magia dos Jogos Olímpicos não reside apenas nas competições emocionantes ou nas cerimônias espetaculares, mas também nas histórias pessoais de seus participantes. Alexandre Vecchio, juiz internacional de tiro com arco, é um desses profissionais cuja trajetória exemplifica dedicação e amor pelo esporte.

     

    Luciana Quaresma, de Paris

    “É realmente uma emoção muito grande fazer parte dos Jogos Olímpicos, porque é o sonho de todos os atletas daqui. Como atleta, inclusive, sempre a gente olhava como uma coisa muito distante e é muito legal poder ter feito uma carreira, uma série de escolhas que me tiraram da parte de atleta mas que me levaram para a arbitragem”, explica.

    A história de Vecchio no esporte começou, como muitas, nos campos de treino como um atleta aspirante. Com o tempo, porém, ele percebeu que sua verdadeira vocação estava fora das linhas de competição direta. A transição para a arbitragem não foi apenas uma mudança de trajetória, mas uma expansão de sua paixão pelo tiro com arco.

    Essa é sua terceira participação em Jogos Olímpicos, onde Vecchio afirma que encontra satisfação em uma forma única de contribuição para o esporte. "Participar dos Jogos Olímpicos sempre foi um sonho, e estar aqui como diretor de tiro é uma realização desse sonho", diz, com um brilho de orgulho nos olhos.

    Gestão das competições

    Em Paris, o papel de Vecchio é crítico. Ele não apenas garante que o tempo de competição seja rigorosamente medido, mas também gerencia qualquer intervenção técnica que possa afetar o desempenho dos atletas. "Eu sou responsável por controlar o relógio e garantir que tudo funcione perfeitamente durante as competições", explica. 

    Cada sessão de tiro com arco exige precisão absoluta, não apenas dos atletas, mas também dos equipamentos e do evento, um peso que Vecchio carrega com seriedade. Ele não apenas administra os detalhes técnicos dos Jogos Olímpicos, mas também fortalece o espírito olímpico. Sua história é um testemunho da diversidade de papéis que contribuem para o sucesso dos Jogos, destacando que cada função, visível ou não, é fundamental para o espetáculo global que são os Jogos Olímpicos.

    A representação brasileira em Paris

    Além de suas responsabilidades técnicas, Vecchio vê sua presença em Paris como uma oportunidade de representar o Brasil em um palco internacional. "É uma honra imensa trazer a bandeira do Brasil para os Jogos, mesmo que de forma não convencional", diz ele. 

    Enquanto o arqueiro brasileiro Marcus de Almeida competiu diretamente por medalhas, sendo eliminado nas oitavas de final neste domingo (4), Vecchio contribui com sua expertise técnica, representando a competência e dedicação do Brasil nos bastidores.

    Para o árbitro, estar em Paris durante os Jogos Olímpicos é uma experiência única. Vecchio aprecia a cidade não apenas como um local de competição, mas também como um cenário cultural vibrante. "Paris é uma cidade emblemática. Cada Olimpíada tem suas características, e Paris não é exceção", reflete. 

    A cidade, famosa por sua história e beleza, oferece um pano de fundo inspirador para o evento, complementando a intensidade das competições.

    8 min

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