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“Ver para crer”. Nunca o ditado de São Tomé foi tão válido como para os franceses nestes Jogos Olímpicos de Paris 2024. Conhecidos pela fama de rabugentos e um pouco arrogantes, eles estavam mergulhados antes dos jogos na crise política criada pela dissolução do Parlamento pelo presidente francês, Emmanuel Macron, e precisaram literalmente “ver para crer” antes de aderir completamente à Olimpíada em casa. Lotando fanzones e estádios, os franceses finalmente se renderam à euforia de Paris 2024.
A reportagem da RFI demorou quase uma hora para conseguir entrar na quinta-feira (1°) no Parque dos Campeões, espécie de mega fanzone de Paris 2024 instalada com grandes telões, passarelas, arquibancadas e barracas de comes e bebes em Trocadéro, exatamente em frente à Torre Eiffel.
O sucesso do evento repercute a recente – e fulgurante – adesão dos franceses aos jogos olimpícos, que já marcam a historia das competições de alto nível pelos desempenhos dos atletas, mas também pelas polêmicas, como ressalta o pesquisador biomédico Nicolas, torcedor animado do Club France, fanzone no parque de La Villette, no 19° distrito de Paris.
"É uma ótima vibe, não é? Sinceramente, é incrível. Todos estão muito felizes. E estamos todos aqui torcendo pela França, então é ótimo. Sim, é verdade, estávamos reclamando um pouco antes das olimpíadas. Mas, na verdade, desde a abertura, a cerimônia de abertura mudou um pouco a mentalidade de todos. Nós mudamos e acho que todos estão no estado de espírito certo para aproveitar as comemorações", acredita.
A opinião de Nicolas é compartilhada pelo estudante Lucien, que junto com os amigos formava um grupo animado de torcedores nos gramados do Trocadéro, no recém-batizado Parque dos Campeões. "O clima aqui é realmente inclusivo, mostra a diversidade da população francesa hoje. E, quer os fascistas gostem ou não, a cerimônia foi ótima", pontua.
"Quanto à controvérsia em torno da abertura das Olimpíadas, citarei as palavras de Piche, a Drag Queen que foi vista desfilando durante a cerimônia. Se a cerimônia não fizesse as pessoas falarem, não seria arte. Portanto, acho que a abertura foi um verdadeiro sucesso", afirma.
A enfermeira Florence, que fazia um piquenique com as colegas de trabalho no famoso local em frente à Torre Eiffel, também se mostrou entusiasta com a festa. "Bem, é uma festa adorável, todos estão muito felizes, todos têm sido muito pacientes. E é magnífico", celebra. A francesa acredita que o famoso mau-humor dos parisienses tenha sido derrubado pelo sucesso do evento.
"Sim, dissemos que não ia dar certo, mas é um pouco dos franceses, adoramos reclamar e nunca estamos felizes. E, no final, percebemos que, até o momento, tudo vai bem. Mas há muitos parisienses que já foram embora, e muitos estrangeiros, e é isso que torna essa festa tão boa, porque todas as pessoas que ficaram em Paris estão aqui principalmente para as Olimpíadas", diz.
E se os estrangeiros constituem uma parte importante de Paris 2024, sua opinião não poderia ser mais abonadora desta festa, como conta a jovem empresária mexicana Lucy, presente no Parque dos Campeões com o marido Emilio. "Nós adoramos. De fato, oh, meu Deus, a organização é muito, muito boa. Ficamos surpresos e tudo está indo bem, então adoramos. Ficamos realmente surpresos com tudo. Bem, nós amamos basquete, então acho que é a competição que procuramos assistir. Além disso, todo a publicidade, a comida, tudo é bom, muito bom", afirmou, direto das ladeiras do Parque dos Campeões.
A mesma opinião é compartilhada pelo especialista em marketing britânico Christopher, que conversou com a RFI com a filhinha, uma bebê de dois meses no colo, sob o forte calor do verão parisiense. "Está um pouco quente e úmido hoje, mas está muito bom e é bom ver os atletas desfilando também. A bebê, ela está bem. Ela está com um pouco de calor, mas conseguimos um pouco de espaço aqui fora. Então ela está bem. Ela está se exercitando um pouco", explicou.
Em frente às impressionantes arquibancadas, passarelas e telões da estrutura montada em frente à Torre Eiffel, chuveiros especiais foram colocados à disposição de parisienses e turistas, para combater o calor. Dentro da fanzone, o jeito era se hidratar e correr para achar um bom lugar no meio da multidão.
No meio dos torcedores presentes no Club France, em La Villette, o engenheiro Paul assistia no telão a competição do nadador Florent Manadou, astro francês das piscinas, sob os gritos da torcida francesa: "Forent, Florent, Florent!!".
"Nós chegamos há uma hora. Eles [os dois filhos, de 3 e 5 anos] chegaram há duas horas com a mãe deles. E nós adoramos. Torcemos pelos franceses. Via a França! Os franceses são mal-humorados no fundo, é assim mesmo, mas no final tudo dá certo e é legal, e não houve nenhum incidente, então é isso aí", comemora. Perguntado se havia um atleta francês preferido, Mathieu, de 5 anos, não titubeou, agarrou o microfone da RFI e gritou: "Léon Marchand!", se referindo ao jovem prodígio da natação francesa. Mas o mais novo tem outra preferência: "Foot! Foot!", diz o caçula, querendo exprimir uma certa paixão precoce pelo futebol.
Resta saber agora se a torcida dos incrédulos e apaixonados franceses será suficiente para alimentar ainda mais o quadro de medalhas tricolor, que não para de crescer, junto com a recém-descoberta euforia dos torcedores franceses.
Demorou um século, mas os Jogos Olímpicos desembarcaram de novo em Paris, e dessa vez cheios de novidades. Uma delas fica no 7° distrito da capital, próximo à ponte Alexandre III, um dos mais belos monumentos históricos da cidade. Sobre as docas às margens do rio Sena, no barco do famoso bar Rosa Bonheur, se encontra a sede da Pride House, local que visa dar visibilidade aos atletas da comunidade LGBTQIA+ em Paris 2024, apoiado pela primeira vez pelo Comitê Olímpico Internacional (COI).
Todos os dias, o palco da Pride House receberá atletas da comunidade e um telão transmitirá suas disputas ao vivo. Jérémy Goupille, copresidente da Fier-Play, associação que administra o espaço, ressalta a importância de se falar sobre o assunto, numa Olimpíada marcada pelas críticas da extrema direita mundial à cerimônia de abertura de Paris 2024.
"A Pride House é, na verdade, um local inclusivo que tem como objetivo destacar os atletas LGBTQIA+ no esporte, obviamente, e oferecer um local acolhedor para celebrar esses atletas e combater a discriminação. Esta é a vigésima quarta edição. A primeira edição foi nos Jogos de Vancouver em 2010. Portanto, a Pride House evoluiu ao longo do tempo", diz Goupille. "Agora somos a primeira Pride House a receber o apoio oficial do Comitê Olímpico Internacional. Estamos trabalhando lado a lado com Paris 2024 e várias outras instituições. Então, é verdade que esta é uma organização que está assumindo cada vez mais importância com a questão da inclusão e da diversidade, que também é cada vez mais importante em nossa sociedade", sublinha.
"Estamos realmente em um momento em que todos estão fazendo essa pergunta. Infelizmente, há muita controvérsia, mas a questão vai além: trata-se de inclusão, de diversidade, trata-se de poder conviver melhor em sociedade, e é isso que esperamos alcançar com a Pride House. Também temos um outro programa de legado para tornar o esporte amador mais inclusivo, para que todos possamos realmente jogar juntos. No momento, há quase 200 atletas abertamente LGBTQIA+ nos Jogos Olímpicos. Estamos cientes de que essa não é necessariamente a realidade, que ainda há muito trabalho a ser feito para garantir que todos sejam plenamente eles mesmos durante esses jogos e em campo", diz Goupille.
Muito esperada pela imprensa dentro da Pride House, a drag queen Le Filip, vencedora da edição 2024 do programa Drag Queen Race France, falou sobre a importância de celebrar a diversidade. "Porque é incrível, é histórico. A última vez que isso aconteceu em Paris foi há 100 anos. Então, obviamente, eu tinha que vir aqui. Mas sim, é incrível. O mundo inteiro está aqui. Eu mesmo não sou francês, sou croata. E ter essa vida dupla, bem, isso me lembra que somos acima de tudo humanos, e ver o mundo inteiro aqui me lembra que somos, podemos ser diferentes, mas somos, acima de tudo, semelhantes. E somos acima de tudo mais semelhantes do que diferentes", lembra o artista e performer.
"Acho que o mundo está bastante polarizado no momento e as emoções podem desempenhar um papel importante... Talvez existam opiniões muito fortes e comprometidas de um lado ou de outro, mas este é o lugar onde podemos discutir e compartilhar. E isso vencerá, porque nada acontece quando você briga. Aqui pelo menos há uma maneira de nos conhecermos, de celebrarmos uns aos outros. E esse é o progresso que vejo, e é o que espero no momento", destaca a drag queen Le Filip.
Além de franceses, a Pride House também acolhe um público internacional, como a chinesa Jenix, que mora em Pequim e se voluntariou para trabalhar no espaço. Ela contou à RFI como a questão LGBT é hoje tratada na China. "É muito interessante porque as pessoas tendem a não falar sobre isso: não é ilegal, mas também não é legal. As pessoas simplesmente não falam sobre isso. Então, elas fingem que isso não existe, mas não é como nos países em que você é condenado à pena de morte por ser gay. Mas nossa sociedade, nossa rede social, não são muito abertas a esse tipo de relacionamento, comunidade e conscientização", conta ela. "Portanto, temos muito a fazer, ainda há um longo caminho a percorrer, mas estamos chegando lá e, especialmente a minha geração, estamos fazendo o melhor que podemos para melhorar esse tipo de nível de conscientização e fazer com que as pessoas sejam consideradas legítimas nessa comunidade", diz.
A francesa Emmanuelle explica porque decidiu se voluntariar para trabalhar na Pride House. "Bem, eu sentia que precisava contribuir de alguma forma, e, inicialmente, queria fazer um trabalho voluntário nos Jogos Olímpicos. E a ideia é que, ao ser voluntária na Pride House, também podemos aumentar a conscientização sobre as questões LGBT. Portanto, para mim, esses foram dois bons motivos para estar aqui hoje. E como sou professora, tenho um pouco de tempo livre, então quis doar meu tempo também", afirmou à RFI.
Morador de Nova York, Zie conta que conheceu a Pride House nos jogos do Rio em 2016. "Essa não é minha primeira Olimpíada. Fui voluntário pela primeira vez nos Jogos Olímpicos do Rio de Janeiro em 2016 e visitei a Pride House de lá e adorei a ideia de acolher a comunidade LGBT, um lugar onde os atletas ou espectadores pudessem se sentir aceitos e gostar de fazer parte da comunidade; e eu queria muito visitar a Pride House em Tóquio em 2020, mas não fui selecionado como voluntário, então não pude ir, mas felizmente consegui me inscrever com antecedência no início deste ano e estou muito feliz por poder trabalhar na Pride House de Paris", celebrou.
A atriz Valérie e o fotógrafo Corentin se conheceram na fan zone da Pride House de Paris 2024. "Eu me deparei com essa área de fãs quando estava saindo a competição de triatlo. Eu estava assistindo a disputa do lado de fora e passei por aqui, havia comida e bebida, uma boa atmosfera, então parei e encontrei essa senhora aqui comendo uma pizza em frente ao telão gigante, e acabei ficando, é magnífico", disse Corentin. "Acabamos conhecendo uns aos outros, e é para isso que servem os jogos. É uma ótima atmosfera, muito popular e muito alegre. É realmente algo maravilhoso de se vivenciar em Paris e estou muito orgulhosa da organização. Também fui à Champs Élysées para ver o triatlo, e foi fantástico", completou Valérie, enquanto terminava seu creme de alcachofras com vinho branco, iguaria típica do verão francês.
A Pride House fica aberta até o dia 11 de agosto em Paris, de meio-dia até a meia-noite, com uma extensa programação de jogos, shows e workshops.
“Diga ‘bonjour’”; “Aguarde antes de pegar uma mesa”; “Pergunte se o garçom fala inglês”. Essas são algumas recomendações encontradas em roteiros turísticos sobre Paris e viralizadas nas redes sociais. Afinal, os garçons da capital não têm a fama de serem lá muito simpáticos, e quem já passou pela cidade tem sempre uma dica para evitar os problemas de atendimento em restaurantes. No entanto, os brasileiros ouvidos pela reportagem da RFI dizem que notaram uma mudança nos serviços e que, sim, estão sendo muito bem tratados.
A gastronomia francesa é conhecida como uma das melhores do mundo, mas o mesmo não pode se dizer dos garçons dos famosos bistrôs e brasseries de Paris. Os profissionais que atuam em bares e restaurantes da capital francesa têm a fama de serem “râleurs”, em português, rabugentos. Tanto que, preocupados com essa má reputação durante os Jogos Olímpicos, diversos estabelecimentos, instituições e até monumentos turísticos vêm realizando uma série de ações para melhorar o atendimento ao público. E tudo indica que a campanha vem surtindo efeito.
Enzo é um turista de São Paulo, que veio a Paris acompanhar as Olimpíadas. Devidamente uniformizados com camisas do Brasil, bandeira e adereços, ele e uma amiga almoçavam em uma boulangerie próximo à arena do vôlei, onde foram assistir ao jogo da equipe masculina do Brasil contra a Polônia.
“A gente estava um pouco apreensivo, mas aparentemente, até o momento, foi tudo bem tranquilo. Eu falo francês, então não sei se essa abordagem faz com que eles sejam um pouco mais simpáticos. Por enquanto, tudo está correndo super bem. Ontem fomos em um restaurante, o atendente foi muito simpático. Às vezes tem um pouco de confusão na hora de pedir, porque a gente não entende o que está no cardápio, mas o atendimento foi tranquilo. Não é como em São Paulo, que é uma cidade conhecida pelo atendimento, mas aqui foi nota 10”, comentou.
Já a carioca Larissa, que atualmente mora em Pisa, na Itália, disse que está tendo dificuldades com a questão da língua, já que muitos atendentes não falam inglês. Mas mesmo assim, segundo ela, estão todos sendo muito receptivos e com vontade de ajudar.
Chopp geladoEm Porte de Versailles, onde estão acontecendo as disputas do handebol, vôlei, halterofilismo e tênis de mesa, os bares e restaurantes têm ficado cheios durante todo o dia. Nesta terça-feira (31), com a temperatura acima dos 30ºC, não foi difícil encontrar brasileiros apreciando um chopp gelado após as partidas.
Isabela e Marcele, duas amigas do Rio de Janeiro, estão em Paris há cerca de uma semana e não tiveram problemas para serem atendidas pelos profissionais franceses, mas elas acreditam que pode melhorar.
“Está melhor do que já foi, mas não está bom ainda não. Não tenho sido maltratada, o que já é um bom negócio, mas não é o melhor serviço de todos. Mas da última vez que eu vim para agora, achei as pessoas mais simpáticas”, disse Isabela.
Para Marcele, os atendentes estão se esforçando. “Eu percebo que eles estão se esforçando para serem mais simpáticos. Nós, do Brasil, estamos acostumados a um atendimento mais caloroso, mas eu não fui maltratada de forma alguma. É uma coisa bem burocrática, mais formal”, comentou.
“O que importa é a comida e não o garçom”Um estudo europeu, realizado de dois em dois anos pela Travelsat, com base em questionários, destaca que o índice de satisfação global dos viajantes aumentou e os pontos que antes eram mais sensíveis, como transportes e táxis, estão menos problemáticos em Paris.
No entanto, na pesquisa da Travelsat, a França teve uma classificação mais baixa do que os outros países em termos de relação qualidade/preço, especialmente no setor de bares e restaurantes. A percepção do acolhimento aos turistas também continua sendo inferior à média europeia.
As diferenças culturais acabam sendo recebidas de forma negativa por muitos visitantes, mas não surpreendem o carioca Sérgio, que já tinha visitado Paris em outras ocasiões antes dos Jogos Olímpicos e se diz “acostumado”.
“A gente conhece bem, a gente vem de vez em quando para Paris. É preciso saber levar. Eles não têm muita paciência com turista, e agora eles estão lidando praticamente só com turistas. Mas dá para levar, o que importa é a comida e não o garçom”, brincou.
“Eles estão contentes e nós também”Conscientes dos desafios, várias organizações aproveitaram os Jogos Olímpicos para lançar cursos de formação para atendimento ao público. A Alliance France Tourisme, por exemplo, desenvolveu um módulo gratuito que pode ser acompanhado online, com o objetivo de formar garçons, policiais e recepcionistas. Já a Atout France, agência governamental responsável pela promoção do turismo, preparou vídeos destinados aos profissionais do turismo, que descrevem o comportamento de cada nacionalidade, com o objetivo de oferecer um acolhimento consciente das diferenças culturais.
O garçom Cyril trabalha há 30 anos no segmento de restaurantes em Paris. Enquanto servia um café para um grupo de torcedores, ele contou que o bar onde trabalha não fez nenhuma preparação especial para atender os visitantes dos Jogos Olímpicos, mas que tudo tem corrido da melhor forma possível.
“Eles estão contentes e nós também. Tudo se passa muito bem e não tivemos nenhum tipo de problema até agora”, afirmou.
Élodie, que acolhe os clientes em um café no Boulevard Victor, no 15º distrito de Paris, também elogiou o momento de confraternização vivido na capital francesa e disse que tudo tem funcionado muito bem.
“É um clima muito bom e tudo tem se passado muito bem. Paris é uma cidade turística e nós já estamos acostumados a receber muitos turistas de maneira geral”, contou ela, que também explicou que não foi recebida nenhuma orientação especial para atendimento do público durante os jogos.
A Clínica de Vôlei, ministrada pela campeã olímpica Jackie Silva, é um dos destaques da programação da Casa Brasil, espaço do Comitê Olímpico Brasileiro (COB) no Parques das Nações, no nordeste de Paris. A reportagem da RFI foi até o local conferir as disputadas aulas com essa pioneira e ícone do vôlei de praia.
Daniella Franco, da RFI
O curso de Jackie Silva é realizado até 11 de agosto na quadra de areia instalada na Casa Brasil. O interesse do público foi tão grande que as inscrições se esgotaram logo que foram abertas, nos primeiros dias de funcionamento do espaço.
Foi diante dessa badalada quadra de areia que Jackie Silva conversou com a RFI. Ela contou como surgiu a ideia de trazer aos Jogos Olímpicos de Paris um projeto que já desenvolve há muito tempo em outros países.
“Eu sou uma apaixonada pelo meu esporte. Acho que o vôlei de praia é um sucesso universal. E aí, conversando com o COB e a organização da Casa Brasil, os convenci de trazer a praia para Paris”, diz. “Quando eu apresentei essa ideia para todo mundo, eu sabia que seria um sucesso”, reitera.
De fato, quando a Clínica de Vôlei tem início, o público da Casa Brasil volta sua atenção para a quadra de areia, onde Jackie troca passes com os participantes para o aquecimento. Depois, chega a aguardada hora do jogo, em que a campeã olímpica também entra em cena, sempre de olho nos alunos e repassando informações valiosas, sobre como cada um dos participantes podem melhorar seu desempenho.
“Eu jogo junto, eu brinco, os participantes têm a experiência de estar comigo perto. Aqui tem pessoas que sabem jogar, outros são crianças e jovens que querem se iniciar no vôlei. O essencial é isso: a aproximação entre o esporte e as pessoas”, ressalta.
Fora da quadra, o público da Casa Brasil não hesita em demonstrar a admiração e o carinho por Jackie. Na memória de muitos fãs, permanece a histórica conquista do ouro por ela e sua parceira de dupla, Sandra Pires, em Atlanta, as primeiras brasileiras a subirem no lugar mais alto do pódio em uma Olimpíada.
Mas Jackie é modesta e aponta outros fatores que explicam, segundo ela, o sucesso da Clínica de Vôlei, com uma longa lista de a cada sessão. “Você está em contato com a areia, ao ar livre, aproveitando o verão de Paris, ainda mais num lugar onde o inverno é tão intenso. As pessoas querem aproveitar dessa atmosfera, curtindo o tempo do lado de fora”, diz.
Emoção de estar perto de uma estrela olímpicaEntre os participantes da Clínica de Vôlei, há alunos de todas as nacionalidades e faixas etárias. No grupo da segunda-feira (29), uma das jogadoras impressionou o público: a hispano-brasileira Daniela Pareja Franco, de apenas 10 anos. A pequena trocou passes com Jackie Silva e deu um show na quadra de areia. Logo depois, contou à RFI como viveu essa experiência.
“Eu fiquei muito impressionada porque eu não pensava que ia jogar com a Jackie e nem com adultos. E ser a única criança aqui… meu Deus, me surpreendi bastante!”, diz. “Foi muito bom, nem parece que é verdade! A Jackie joga muito bem”, reitera, com um grande sorriso, e expressando sua ansiedade de voltar para a quadra.
A estudante carioca Thamires Santos, de 29 anos, não conseguiu se inscrever a tempo no site da Casa Brasil para participar da Clínica de Vôlei. Mas um pouco antes do início da sessão desta segunda-feira, ela conseguiu colocar seu nome da lista de espera, e descreveu a emoção de participar do evento.
“É uma oportunidade única, com um ícone do esporte, um ícone do vôlei de praia!”, comemora. “As Olimpíadas, para mim, são muito importantes, é sempre um momento que eu passo com a minha família. O vôlei de praia e de quadra são os nossos esportes favoritos. Então, estar aqui com a Jackie hoje é incrível. Vai ser um momento que vai ficar guardado para sempre”, completa.
A Clínica de Vôlei com a campeã olímpica Jackie Silva ocorre até 11 de agosto na Casa Brasil, no Parque das Nações, no nordeste de Paris. A lista de espera é preenchida um pouco antes do início de cada aula, na entrada lateral da quadra.
Enquanto a cerimônia de abertura da Olimpíada de Paris causou polêmica mundial por seu conteúdo – julgado provocativo por ultraconservadores –, a pira olímpica instalada nos jardins do museu do Louvre parece ser mais consensual. Desde que a chama foi acesa, no encerramento do espetáculo na noite de 26 de julho, o local recebe milhares de visitantes a cada hora. Os ingressos para se aproximar da estrutura se esgotaram em menos de um dia.
Lúcia Müzell, da RFI em Paris
A pira, no formato inovador de um balão, permanece acesa 24 horas por dia graças a outra novidade: a chama, na verdade, é um efeito da luz em contato com vapor d'água.
"É sério que não tem fogo? Eu ouvi falar que não era fogo de verdade, mas chegando aqui pensei que fosse boato, porque parece muito”, disse a brasileira Patricia, ao chegar ao local com um grupo de amigos que vivem na Irlanda.
A estrutura tem 30 metros de altura e sete de diâmetro e a cada anoitecer, às 22h, sobe aos céus de Paris para um “voo" de quatro horas, no centro dos jardins de Tuileries. Desde o fim de semana, os visitantes se preparam para não perder este momento, como a consultora mexicana Rosa, que mora há três anos na cidade.
“Não pude ir à cerimônia de abertura e vim ver a pira, que é um espetáculo que jamais veremos assim de perto de novo. E mesmo que pudéssemos ver de novo, não seria a mesma coisa do que em Paris”, avalia. “Está um charme, com todo mundo admirando, logo ali tem o Louvre e todos esses prédios com tanta história. É isso que deixa esses Jogos Olímpicos tão especiais.”
Ingressos esgotaramUma vez nos céus, a 60 metros de altura, a pira olímpica pode ser vista a centenas de metros de distância. Mas o privilégio de se aproximar para admirá-la e tirar fotos não é para todos. A cada dia, 10 mil pessoas podem ter a experiência gratuitamente, desde que tenham reservado um horário pelo site lavasque.paris2024.org. A visita pode ser feita das 11h às 19h, até 11 de agosto.
A brasileira Patricia Cunha, moradora de Paris há 10 anos, tentou reservar um ingresso, mas por enquanto, não conseguiu. “Temos que continuar tentando, para ver se a gente consegue entrar e beijá-la. Mas quem não conseguir beijá-la, não tem problema nenhum porque ela está exposta e dá para vê-la grande, maravilhosa, e ver o espetáculo de ela sair que nem um foguete. Adoro!”, comentou. “E ela é totalmente ecológica, com um sistema de vaporização de água que dá essa ilusão de que o fogo está saltando.”
A chama simboliza a ligação dos Jogos Olímpicos da era moderna aos da Grécia antiga, mas desta vez ela é 100% elétrica. Nenhum combustível queima para manter aceso o anel de “fogo” instalado na base da obra.
“Eu fiquei sabendo que é uma engenharia que descobriram e eu achei muito interessante, porque senão seria muito perigoso. Eu achei muito linda, e remete também ao dia da abertura, que foi muito emocionante”, afirmou outra brasileira, Simone Souza. “Sem falar em tudo que um balão pode representar: o sonho, a esperança, a tecnologia. Alcançar os nossos sonhos mais profundos”, compara.
Designer homenageia irmãos MongolfierNa abertura das Olimpíadas, a tricampeã olímpica de atletismo Marie-José Pérec e o judoca bicampeão Teddy Rinner foram os escolhidos para dar a largada à proeza, idealizada pelo arquiteto francês Mathieu Lehanneur. O designer é conhecido por se inspirar nos elementos da natureza.
Neste caso, Lehanneur também buscou referências no lema da França para conceber a estrutura. Na forma de balão, a tocha simétrica representa a igualdade. O anel luminoso na sua base, circular, exprime a fraternidade, e o voo da pira, a liberdade.
Othman, morador de Paris, sente orgulho do que está vendo para os Jogos Olímpicos na cidade. “Acho que foi uma ideia bastante original de colocar a pira aqui no meio de todo mundo. Isso dá a chance de qualquer um, um parisiense ou um turista, poder vê-la. Em geral, a pira fica isolada em um estádio”, ressalta. “Eu sou parisiense e estou bastante emocionado com tudo que está acontecendo e com esses monumentos que os Jogos Olímpicos estão nos proporcionando”, afirma.
A escolha de fazer um balão também remete à história dos franceses com o sonho de voar: em 1783, as pesquisas dos irmãos Mongolfier levaram à façanha de subir aos céus o primeiro balão movido a ar quente da história. O voo aconteceu exatamente no mesmo local em que agora a pira olímpica encanta o mundo. Em homenagem a eles, a palavra “balão" em francês é “mongolfière”.
“É uma linda forma de mostrar a França. Os irmãos Mongolfier são a França e essa pira está sublime”, disse a moradora Gaëlle. “E, para completar, ela está no jardim de Tuileries, com todas as estátuas, as árvores. Está magnífico”, celebrou.
Ficar ou não na cidade após a Olimpíada?O sucesso da pira levou a prefeita de Paris, Anne Hidalgo, a anunciar que vai tentar fazer com que a pira se torne um novo monumento da cidade, após o final das competições, em 11 de agosto. Hidalgo considerou “o objeto extraordinário, e o local onde ele se encontra é magnífico”.
Mas os parisienses ouvidos pela RFI têm suas dúvidas se seria uma boa ideia. “Não sei, mas acho que nada é melhor do que uma obra efêmera, para nos fazer sonhar com esse momento depois”, avalia Othman. “Eu diria que é melhor se for efêmero porque esses jardins são outra coisa, por mais que a pira seja muito bonita”, diz Gaëlle.
Estrategicamente localizado, o busto do ex-presidente Hugo Chávez evidencia que a Cidade Tiuna é um território socialista com regras próprias e estrutura comunitária. Este conjunto residencial ao lado do principal forte de Caracas é o endereço de mais de 20 mil pessoas – a maioria chavistas. Às vésperas de uma crucial eleição, líderes locais buscam somar votos para que Nicolás Maduro possa continuar na presidência da Venezuela até 2030.
Elianah Jorge, correspondente da RFI na Venezuela
Leonardo Granados mora há dez anos na Cidade Tiuna, complexo criado pela Missão Vivenda, o ousado plano anunciado por Hugo Chávez, em 2011, para extinguir o déficit habitacional do país. Em entrevista à RFI, este professor de História explica como é divido o complexo comunitário, que tem como vizinho o estratégico Forte Tiuna, o Ministério da Defesa e a Academia Militar, onde o ex-presidente foi velado em 2013.
“O condomínio é composto por vários setores. Este é o setor Simón Bolívar. (...) As pessoas (que moram aqui) o dividiram conforme quem o construiu. Este foi feito por construtoras chinesas. Então, todo mundo chama este setor de chinês", conta Granados. O venezuelano acrescenta que na área onde estão Las Mayas, um bairro popular da capital, há um setor erguido por uma construtora bielorrussa e outras empresas russas, o que faz com que aquelas unidades habitacionais sejam conhecidas como "os russos e os bielorrussos”.
Neste amplo complexo residencial, até 2015 foram construídos cerca de 6.400 apartamentos. Outros prédios ainda estão inacabados, aguardando investimentos estatais. Os primeiros moradores pagaram a moradia em bolívares, em parcelas acessíveis. Segundo Granados, hoje um apartamento de três dormitórios na Cidade Tiuna pode custar até US$ 25 mil, ou seja, são necessários mais de sete mil salários mínimos venezuelanos para comprar uma unidade.
Às vésperas da eleição mais importante da história recente do país, na Cidade Tiuna quase não se vê propaganda política. Apenas um toldo com galhardetes de Nicolás Maduro aparece na avenida principal. Pelo complexo residencial circula uma linha exclusiva de ônibus que exibe a a imagem do Super Bigode – personagem que representa o atual presidente como um super-herói de ficção. Durante meses, os moradores penaram sem transporte público até a instalação desta linha própria.
Há poucas referências visíveis a temas políticos. Porém, pelo menos 80% dos moradores da Cidade Tiuna são chavistas.
Cidadela chavistaLorenzo Ribas, morador do complexo, é um líder comunitário afiliado ao Partido Socialista Unido da Venezuela. Ele explica como o PSUV, fundado por Chávez em 2007, está espalhado pelo país e pela cidadela.
“O Partido Socialista Unido da Venezuela está presente em todas as comunidades, em todos os centros de votação e estará presente em todas as mesas como testemunha. Completamos agora todo o cenário eleitoral. Fizemos as previsões, cuidamos da logística e dos aspectos humanos. Acho que temos muita vantagem eleitoral”, diz o militante.
Lorenzo se refere à estrutura estabelecida pelo partido para as eleições deste domingo. Na Cidade Tiuna, inspirados em estruturas comunitárias socialistas, cada setor e torre (edifício) estão organizados para seguir uma orientação determinada pelo partido.
Agusmervis Castillo, moradora no complexo, é membro do PSUV e atua como chefe da Unidade de Batalha Bolívar Chávez (UBCH) em um dos colégios eleitorais da Cidade Tiuna. “A UBCH dirige a seção eleitoral, procura testemunhas e mesários, proporciona a logística, e trabalha a estrutura com a sua equipe, com os líderes comunitários e de rua. Além disso, fazemos atividades ao longo do ano”, explica.
Pirâmide eleitoralEmbora as últimas pesquisas de intenção de voto apontem o diplomata e líder da oposição Edmundo González Urrutia como o favorito para assumir o Palácio do Miraflores em janeiro de 2025, o PSUV conta com um esquema piramidal chamado de "1 por 10", em que cada eleitor deve trazer outros dez para votar no candidato governista e assim por diante. "Nos quatro centros eleitorais que temos aqui e mais dois novos que abriram, temos 15 mil eleitores”, afirma Agusmervis.
Por meio dessa estrutura, o PSUV busca emplacar o maior número de votantes na eleição que vai mudar o país. A militante chavista deu outros detalhes sobre o esquema previsto para o dia da votação: “A autoridade única que está aqui, que é um militar, um general, empresta dois ônibus para transporte até centros de votação distantes daqui. Eles levam e trazem (eleitores) dos centros”.
Voto controladoCom essa organização, Agusmervis estima que cerca de três mil residentes da Cidade Tiuna serão transportados para outros centros de votação em Caracas. Há também uma lista com o nome dos moradores usada no dia da eleição para registrar os votantes e os que decidiram não votar. Agusmervis e Lorenzo afirmam que respeitam a decisão dos que preferem não votar e também a dos cerca de 20% de opositores que vivem na Cidade Tiuna.
“Nós funcionamos por estrutura. Por exemplo, cada torre (edifício) tem um chefe e ele monitora toda pessoa que vai sair (para votar) ou já votou. Temos um ponto onde eles passam e se registram. É como uma checagem. É a checagem do 1 por 10 que nós fazemos”, detalha Agusmervis.
Homenagens à revoluçãoDe acordo com os entrevistados, durante o ano, seja ou não período eleitoral, há atividades organizadas para todas as idades. As crianças participam das chamadas "colmeias", enquanto adultos e pessoas da terceira idade podem fazer cursos, entre outras propostas, de acordo com o programa aplicado pela comuna.
O funcionamento da Cidade Tiuna foi pensado para a construção e manutenção da identidade socialista, por meio da ação dos chamados conselhos comunitários. Cada edifício faz referência a Hugo Chávez ou à revolução à sua maneira, segundo relato da militante Agusmervis.
“Essas três torres formam um conselho comunal que se chama 28 de julho. Esse nome foi adotado pela comunidade, pelo chefe da comunidade e chefes de cada torre. Em homenagem ao comandante (Hugo Chávez) que aniversariava no dia 28 de julho. Os nomes são muito bonitos. O setor deles se chama Gigantes da Pátria, composto por seis torres. O setor J se chama Patriotas de Bolívar. Onde ele mora se chama Cidade Socialista de Tiuna. Há uma torre que se chama Sonhos de Chávez. Outra, Marcas do Comandante, Herdeiros de Chávez. E de onde viemos se chama Orvalhos da Revolução.”
Guerra civilQuestionado sobre a possibilidade de que Nicolás Maduro, no poder desde 2013, venha a perder a eleição, Lorenzo não descarta um conflito civil entre os venezuelanos e a ação dos demais poderes do Estado diante de um presidente opositor.
“Caso isso aconteça, estamos preparados para as consequências que virão, porque isso terá consequências graves. Não só a questão de uma possível guerra civil, mas pela pretensão de acabar com o estado bolivariano, acabar com a Constituição, acabar com os cinco poderes do Estado, desconhecer os outros quatro poderes. Se eles (opositores) chegarem à presidência, terão que enfrentar um poder eleitoral e um poder judicial que vai se opor a tudo que vai contra a Constituição. Eles vão ter uma Assembleia Nacional que também vai se opor a qualquer loucura que vá contra a Constituição”, diz o militante chavista.
Desafio econômicoNa Cidade Tiuna, a maioria dos moradores aposta na reeleição de Maduro. Caso ganhe, o presidente, que está há onze anos no poder, comandaria o país até 2030. No entanto, a economia ainda é o calcanhar de Aquiles do chavismo. O custo de vida no país é bastante alto. Atualmente, são necessários cerca de 170 salários mínimos em bolívares para a compra de uma cesta básica. Os entrevistados concordam que a economia precisa melhorar ou será difícil Maduro se manter no poder, se vier a ser reeleito.
“Eu acho que o principal aspecto que devemos abordar como revolução nos próximos anos tem que ser recuperar o salário, recuperar as reivindicações trabalhistas, as contratações coletivas. Mas se a médio prazo o tema salarial não for resolvido, acho que vamos ter muita dificuldade para nos manter no poder”, prevê o líder comunitário Leonardo Granados.
O Comitê Olímpico Brasileiro (COB) instalou a sede de sua estrutura de recepção aos atletas do Brasil em Saint-Ouen, nos arredores de Paris. A sede do Time Brasil conta com ginásio esportivo adaptados às necessidades dos atletas brasileiros, centro de massagem e fisioterapia especializados no esporte de alto rendimento, apoio psicológico, centro de distribuição de uniformes e o local mais disputado do castelo do século 19: o restaurante brasileiro, no subsolo.
A base do Time Brasil serve como apoio aos atletas brasileiros, e fica ao lado da Vila Olímpica, para facilitar os deslocamentos. A operação é fruto de um convênio entre o COB e a cidade de Saint-Ouen, assinado em 2022. Mas a Gerente de Jogos e Operações Internacionais do COB, Joyce Ardies, começou a visitar o local bem antes disso.
"A gente encontrou essas instalações em 2020, durante uma visita técnica, e olhando a instalação aqui, a gente identificou que era uma quadra de handebol, mas que tinha o potencial para se transformar num espaço de vôlei", diz Ardies, no ginásio da estrutura, que conta também com uma "sala de força", com equipamentos de musculação para os atletas.
"O piso foi comprado para os Jogos de Tóquio, sabendo que a gente ia ter uma base em 2024,então trouxemos direto para a Europa, e armazenamos primeiro em Portugal. A gente usou o piso algumas vezes para ele esticar. Em 2022, a gente fez um evento teste com a equipe de vôlei masculina aqui, um procedimento que é muito comum, porque a gente tem que fazer todos os ajustes, receber o feedback dos atletas, para que em 2024, nesse momento, tudo esteja perfeito", diz.
"Algumas modalidades têm uma necessidade maior de treinamento, até pela metodologia de seus treinadores. Da mesma forma, essas informações que a gente recebe do comitê organizador sobre disponibilidade de horários, também impacta nessa decisão. Então, algumas confederações e treinadores solicitam algumas estruturas adicionais à Vila Olímpica", conta a funcionária do COB.
A subchefe da missão brasileira explica como adaptou o tatame do local para atender atletas de três modalidades diferentes, judô, taekwondo e o wrestling. "Aqui a instalação que a gente está preparando e que vai servir para três modalidades de luta, o judô, o taekwondo e o wrestling (luta greco-romana). Preparamos o tatame e aqui fizemos uma pequena adaptação, que foi colocar esse material aqui em baixo de forma a amaciar o tatame, porque algumas modalidades dessas precisam que ele esteja um pouco mais macio. Isso faz muita diferença no esporte de alto nível e foi uma forma que a gente encontrou para atender as três modalidades", conta.
O COB focou nos serviços prioritários para complementar a estrutura da Vila Olímpica, como conta Joyce Ardies. "Isso é muito importante, porque se a gente fala de uma distância maior, fica muito difícil do atleta ir, então aqui a gente priorizou um cantinho para eles encontrarem os familiares e amigos. Temos mais ou menos 500 familiares, amigos que se registraram no nosso programa e aí o fluxo é constante, eles se alinham com a atleta, que têm autorização do chefe de equipe, e confirmam o horário de visita aqui de uma forma privativa, em que eles podem ficar tranquilos", afirma.
Promessa do boxe brasileiro, o jovem Keno Marley falou sobre a ansiedade antes das competições. "É a medalha que falta para mim é essa dos Jogos Olímpicos. Eu vim aqui, estou bem preparado, mas não tão ansioso. Eu estou bem controlado, bem treinado, então eu sei que vim para fazer o meu trabalho da melhor forma possível e vou trazer essa medalha", afirmou à RFI, na sede do Time Brasil.
O veterano e medalhista Abner Teixeira, que se recupera de uma lesão, contou sobre suas expectativas para as Olimpíadas.
"Deu tudo certo até agora. Eu tinha uma lesãozinha, foi um susto no final do ano passado, mas já estou muito bom, isso já não vai me atrapalhar em nada para os jogos", explicou. "A gente fez uma base em Rio Maior, em Portugal, foi muito boa, então estamos terminando a preparação aqui em Paris. Lá foi muito bom. Aqui está sendo melhor ainda, com essa estrutura que o Comitê Olímpico forneceu e a gente está pronto. Vamos fazer história", comemorou Teixeira.
Para Mariana Mello, vice-coordenadora da missão brasileira, a participação das atletas deve ser valorizada em 2024, ano em que pela primeira vez os Jogos Olímpicos alcançam uma paridade entre competidores de ambos os sexos. "Vocês têm falado muito das mulheres atletas. A gente têm um orgulho imenso", diz Mello, que faz parte da equipe do COB, que montou uma exposição dedicada ao tema no segundo andar do castelo.
"É sobre essas atletas que já chegaram e continuam chegando cada vez mais próximas das medalhas. A gente tem dado toda atenção a elas, como também aos nossos atletas masculinos, que são tão importantes quanto elas. Mas a gente se orgulha muito dessa caminhada [feminina] nos últimos anos aí das nossas meninas. E a gente sabe que a história delas no esporte é bem mais recente do que a dos homens. A luta é um pouco além. E elas estão chegando e vão continuar chegando, vão fazer bonito", concluiu.
O Comitê Olímpico Brasileiro (COB) inaugura na noite desta quinta-feira (25) a Casa Brasil, um espaço para celebrar o esporte e a cultura do país. No local será possível acompanhar a equipe brasileira ao longo das competições e inclusive encontrar atletas. O espaço vai oferecer uma extensa programação cultural, com shows, performances, eventos esportivos, além de diversos estandes para degustação de bebidas e especiarias típicas da culinária brasileira.
Daniella Franco, da RFI
A Casa Brasil está localizada no Parque das Nações, um espaço de 55 hectares dentro do Parque de la Villette, no nordeste de Paris. No total, há 20 pavilhões dedicados às federações esportivas, além de mais de dez casas de diferentes comitês olímpicos.
No total, a Casa Brasil conta com 5 mil metros quadrados, que abrigam também quadras de esporte, um half pipe de skate, palcos para shows, uma área de transmissão das competições, lounges e uma loja de venda de produtos oficiais do Time Brasil.
"Esperamos que a Casa entregue o conceito que a gente vislumbrou, há dois anos, quando a gente decidiu por esse local e esse projeto, que é essa integração entre todos os públicos", diz o diretor de marketing COB, Gustavo Herbetta.
A expectativa é de receber diariamente cinco mil pessoas, entre atletas do Time Brasil, heróis olímpicos, público em geral, convidados, imprensa e patrocinadores. "O objetivo é que principalmente os fãs, brasileiros ou não, venham aqui experimentar um pouco o que é a cultura brasileira, seja através da música ou da gastronomia, e celebrar o espírito brasileiro", reitera.
O melhor do BrasilMostrar para o mundo o que o Brasil pode oferecer: é desta forma que a supervisora de marketing do COB, Mariana Raad, define a Casa Brasil. "Nossa ideia aqui também é mostrar um pouquinho da cultura brasileira, para o público brasileiro mas também para fãs de outros países", diz.
Alexandre Voquer, encarregado de projetos de eventos do Parque de la Villette, acompanhou a equipe do COB durante a concepção do espaço. Segundo ele, há várias particularidades que diferenciam a Casa Brasil dos outros pavilhões internacionais.
"Eles quiseram construir quase um 'mini-festival', com vários estandes e uma grande tenda, que é utilizada aqui no resto do ano para apresentações circenses. A Casa Brasil ainda tem uma pista de skate, que nenhuma outra delegação aqui tem", ressalta.
Programação começa no sábadoA Casa Brasil abre neste sábado (27) para o público com o lançamento da campanha Europa da Embratur, uma das patrocinadoras do espaço. Para esse primeiro fim de semana de abertura, estão previstos workshops de vôlei com Jackie Silva, uma apresentação do humorista Max Petterson, shows de diversos grupos e artistas e até um campeonato de samba.
A entrada no local é mediante ingresso gratuito, que pode ser obtido no site casabrasilparis.com.br.
A poucos dias da cerimônia de abertura dos Jogos Olímpicos de Paris, boa parte das ruas nos arredores do rio Sena está cercada por milhares de grades, impedindo a circulação de turistas e complicando a vida de moradores e trabalhadores. O rígido esquema de segurança transformou a paisagem da capital francesa, dividida por barreiras metálicas e sob um alto policiamento.
Daniella Franco, da RFI
Pelo menos até a próxima sexta-feira (26), o perímetro de segurança é dividido em duas zonas, a vermelha e a cinza. Na primeira, apenas a circulação de veículos motorizados está proibida. Na segunda, o acesso foi bloqueado até mesmo a pedestres; apenas moradores e pessoas que trabalham nesta área podem transitar, desde que estejam munidos de um passe em formato de código QR.
Devido ao temor de atentados terroristas durante a cerimônia de abertura dos Jogos Olímpicos, algumas ruas e os cais do rio Sena estão completamente inacessíveis e vazios. Muitos monumentos, como a torre Eiffel, estão escondidos pelas barreiras de proteção.
Os noivos Jonatas Nunes e Ana Paula Lorenzet Nunes, brasileiros radicados em Dublin, vieram até Paris com a família para um ensaio de fotos antes do casamento. O casal estava ciente de que a circulação seria complicada na capital francesa a poucos dias do início da Olimpíada, mas não esperava que o esquema de segurança pudesse ser tão confuso.
“Muitos policiais não tem muitas informações ou não conhecem as próprias ruas de Paris”, afirma Jonatas. “Talvez falte um mapa que diga tudo o que está exatamente fechado”, sugere.
Ana Paula conta que para conseguir cruzar o centro de Paris, devido aos bloqueios da maioria das pontes que conectam as duas margens do rio Sena, foi preciso caminhar doze quilômetros. “A gente viu um grande contraste na questão da ajuda dos policiais. Vários foram bem solícitos e alguns pareciam até que estavam debochando da gente”, observa.
Forte policiamentoA turista mineira Dalvânia Pimenta veio a Paris passar férias com o marido, as duas filhas e uma sobrinha. A família se assustou com a quantidade de policiais fortemente armados nas ruas. “Parece que estamos no Afeganistão!”, brinca.
A maior reclamação de Dalvânia é sobre a dificuldade de circulação e a falta de coordenação dos policiais. “Isso atrapalha muito. A gente fica sem saber para onde ir. Tentamos ir em alguns lugares, mas cada vez que perguntávamos aos policiais, eles nos mandavam para lugares diferentes. Ficamos dando voltas e voltas e desistimos de ver a torre Eiffel”, conta.
Na região da Esplanada dos Inválidos, a poucos passos de uma das arquibancadas erguidas na Ponte Alexandre III para a cerimônia de abertura, o turista norueguês Paul Bossanga não esconde sua irritação depois de ser barrado pela polícia em uma grade de proteção. Paul trouxe a filha, Jessica, para sua primeira visita à capital francesa, mas se arrependeu.
"Tem barreira de segurança por tudo, tentamos passar por várias grades, mas tem lugares aos quais não temos acesso”, reclama, classificando o esquema de policiamento como “uma má surpresa”. “Não fomos preparados para encontrar todos esses bloqueios, mas temos que aceitar porque é pela segurança dos Jogos Olímpicos", pondera.
Parisienses expressam resiliênciaNa região da Praça da Bastilha, o parisiense Ludovic Duparc viu a rua onde mora, à beira do rio Sena, ser completamente isolada por barreiras metálicas e policiais. O cenário da “zona cinza” o faz lembrar os bloqueios da época da pandemia.
"É verdade que Paris perdeu um pouco o charme, para ser sincero. Ver grades como essas ao meu lado resulta em uma paisagem um tanto monótona, nos faz pensar na época da Covid. Mas como sabemos que é por causa dos Jogos Olímpicos, para dizer a verdade, não incomoda nosso cotidiano", afirma.
Apesar de as restrições não atrapalharem seu dia a sia, Ludovic e sua família não permanecerão em Paris durante os Jogos. "Foi um dilema! Nós chegamos a pensar: por que não assistir à cerimônia de abertura? Mas preferimos estender nossas férias. Deixamos a Olimpíada para os turistas aproveitarem tranquilamente", reitera.
Na mesma região da Praça da Bastilha, Sabine Lutton trabalha na “zona vermelha”, com menos restrições, mas também cercada por grades. Em um tom de resiliência, ela diz compreender os bloqueios.
"Não estamos acostumados a ver Paris assim tão separada, tão vigiada. Mas é preciso cuidar e proteger as pessoas que vêm para a cerimônia de abertura dos Jogos. Acho normal enfrentar essas restrições, que não vão durar, e a Olimpíada será um momento excepcional!”, comemora.
Paris já está transformada na cidade que vai acolher o mundo para os Jogos Olímpicos. O ex-jogador do PSG e da seleção brasileira Raí prevê uma Olimpíada "única", em que a paridade de homens e mulheres será celebrada como uma conquista do país anfitrião. Após nove anos de preparativos, Raí acredita que os franceses irão conseguir transmitir ao mundo toda a magia da cidade. "Será a união de Paris, do esporte e da população com todas as nacionalidades", disse o ex-jogador em entrevista à RFI.
A uma semana da cerimônia de abertura dos Jogos Olímpicos Paris 2024, Raí organizou na quinta-feira (18), com a sua Fundação Gol de Letra, o "Segundo Encontro de Inclusão Social pelo Esporte", desta vez na universidade Sorbonne, no centro da capital francesa. Especialistas da Austrália, do Canadá, da França e do Brasil trocaram experiências sobre políticas públicas nessa área.
A ex-jogadora de vôlei Ana Moser, medalha de bronze em Atlanta (1996), e ex-ministra do Esporte, veio do Brasil para participar dos debates e compartilhar a sua experiência.
A ministra francesa dos Esportes e Jogos Olímpicos, Amélie Oudéa Castera, também esteve no encontro e fez um balanço das ações do governo francês no dia em que os atletas começavam a se instalar na Vila Olímpica.
"Vamos acompanhar todas as chegadas nos próximos dias e sentir aquele ambiente extraordinário na Vila Olímpica", disse a ministra. "As infraestruturas são muito bonitas, foram construídas de acordo com os melhores padrões de sustentabilidade, com fácil acesso aos restaurantes e serviços. Nós realmente tentamos construir o melhor ambiente possível para que todos os atletas do mundo se sintam bem", destacou Amélie Oudéa Castera.
A preparação da Olimpíada serviu de alavanca para envolver um número maior de franceses em práticas saudáveis. Segundo a ministra, o número de inscritos nos clubes esportivos aumentou 8% no ano passado. Ela espera que depois do evento, esse número ainda cresça mais 15%.
Na Sorbonne, Raí destacou a longa lista de benefícios do esporte. "O esporte, se bem organizado, não é caro e tem muitos resultados: a questão do desenvolvimento humano, da socialização, do desenvolvimento cognitivo, da melhora, por exemplo, da performance dos alunos nas escolas", citou. Na avaliação do ex-capitão do PSG, "o esporte traz benefícios múltiplos, com um custo menor do que a escola, menor às vezes que outra política de compensação para atenuar a falta de esportes para a população", destacou.
"Não senti problema colateral depois de nadar no Sena", afirma ministra francesaA semana foi marcada pela liberação do rio Sena para mergulho, depois de vários testes revelarem que as águas estão adequadas para o banho e superaram um problema temporário de concentração de bactérias fecais. A ministra dos Jogos Olímpicos falou sobre o mergulho que deu no Sena no último sábado (14):
"Eu nadei no Sena e não senti nenhum efeito colateral depois desse mergulho. O rio está pronto e estamos muito confiantes na nossa capacidade de realizar ali todas as provas: o triatlo, a maratona de natação e depois, durante os Jogos Paralímpicos, o paratriatlo", disse Amélie Oudéa Castera à RFI.
Ela destacou que o governo francês "sente satisfação ao ver que o rio está recuperando a sua qualidade, a sua biodiversidade e pode proporcionar um ambiente fantástico para atletas de todo o mundo". De acordo com a ministra, "existe uma resiliência que permitirá o uso do Sena, mesmo se chover muito nos próximos dias". Talvez, de acordo com as análises da água, seja preciso adiar as provas por algumas horas, ponderou a ministra. Mas as soluções já teriam sido antecipadas pelos organizadores, caso surja algum risco de última hora.
MagiaRaí conhece bem os franceses e prevê uma Olimpíada cercada de magia. Ele tem a dupla nacionalidade franco-brasileira e diz estar ansioso para que a cerimônia de abertura, na sexta-feira 26 de julho, chegue logo.
"Minha expectativa aqui em Paris é que será uma Olimpíada única. É a primeira vez que tem homens e mulheres em mesmo número de atletas (no caso da delegação francesa). Será uma Olimpíada sustentável que teve poucas construções – estão usando as instalações da própria cidade ou do país, que já eram existentes. Vão usar o cenário dessa cidade maravilhosa para as provas de arco e flecha nos Inválidos, skate na praça da Concórdia, equitação em Versalhes", explicou o ex-jogador em tom animado. "Os franceses sempre reclamam de alguma coisa, mas vão conseguir transmitir toda essa magia: a união de Paris com o esporte e sua população, misturada com todas as nacionalidades", ressaltou.
Ana Moser: "Delegação brasileira irá bem"No final do encontro, falando para a RFI, Ana Moser deu seu palpite para a delegação brasileira: "Em termos de resultado, acho que o Brasil irá bem". Para a ex-campeã em Atlanta, se o Brasil mantiver a mesma posição no ranking olímpico, "já será muito bom".
Mas com a experiência de quem dedicou a vida ao esporte e chegou a ocupar a direção do ministério no Brasil – só afastada por uma pressão por cargos dentro do governo Lula –, Ana Moser lamenta que a única referência para o sucesso dos esportistas ainda sejam as medalhas e não "o número de atletas que o país tem, quantas competições promove e o número de clubes esportivos que consegue oferecer à população".
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