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By RFI Brasil
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  • Polícia Federal do Brasil reforça segurança das Olimpíadas de Paris a convite da França

    A Polícia Federal (PF) do Brasil integra o grupo de forças internacionais de segurança, composto por cerca de 1.700 agentes de 44 países, que dará suporte aos Jogos Olímpicos de Paris 2024. A convite da França, 20 policiais federais brasileiros atuarão em três principais frentes: segurança pública, troca de informações e inteligência para prevenção ao terrorismo.

    Dezoito dos 20 policiais federais brasileiros já estão em Paris se preparando, ao lado das forças francesas, para o esquema de segurança dos Jogos Olímpicos (de 26/07 a 11/08) e Paralímpicos (de 28/08 a 08/09). Eles chegaram à cidade no dia 14 de julho, data simbólica da Queda da Bastilha e dia nacional da França, e puderam participar das celebrações.

    “Foi muito bonito, foi ótimo”, conta a paranaense Selma Cristina Martins, escrivã da PF em Brasília. "Estamos fazendo patrulhamento ostensivo e reconhecimento de locais. Estamos prontos e alinhados com a equipe de segurança francesa para garantir uma participação segura e tranquila nos Jogos Olímpicos e Paralímpicos", garante Selma, que já conhecia Paris e aprende francês há 3 anos.

    Segundo o delegado Luiz Ungaretti, adido da PF na embaixada do Brasil na França, os policiais atuarão uniformizados, mas desarmados, ao lado das forças francesas para garantir a segurança em locais estratégicos, como estádios, ginásios e a Vila Olímpica, onde haverá grande concentração de torcedores brasileiros. "Vamos priorizar a segurança dos brasileiros, trabalhando sempre em conjunto com as autoridades policiais francesas", afirmou Ungaretti.

    Durante o evento, Paris deve receber cerca de 13 milhões de visitantes, principalmente franceses, e atletas de mais de 200 países. Não há ainda um número exato de turistas estrangeiros, mas segundo um levantamento do AirBnb, o Brasil ocupa o oitavo lugar no ranking de países que mais reservaram noites na região parisiense para conferir as Olimpíadas.

    Em relação à delegação oficial, o Time Brasil é formado por 277 atletas e o país será representado pelo ministro dos Esportes, André Fufuca. No entanto, a primeira-dama, Janja da Silva, participará da cerimônia de abertura no lugar do presidente Lula. Ela chega no dia 25 de julho, assessorada por um grupo de 10 pessoas, mas sua credencial ainda está sendo negociada pelo COB (Comitê Olímpico do Brasil), junto ao COI (Comitê Olímpico Internacional).

    Experiência Brasileira

    Além da segurança pública, a PF participará do Centro de Cooperação Internacional (CCI) da França, onde haverá uma constante troca de informações de inteligência com todos os países participantes, visando à proteção de autoridades, atletas e do público em geral. Uma terceira frente será focada na prevenção e repressão ao terrorismo, com dois policiais federais integrando a equipe do Gabinete de Segurança Institucional (GSI).

    A experiência adquirida pela PF durante os Jogos Olímpicos do Rio 2016 foi um dos fatores determinantes para o convite francês. "O Rio foi um evento emblemático que demonstrou a capacidade do Brasil em organizar grandes eventos com segurança", destacou Ungaretti. Essa expertise será fundamental para contribuir com a segurança em Paris.

    Os 20 policiais selecionados para essa missão, de vários estados brasileiros, possuem um histórico de participação em grandes eventos internacionais, como a Copa do Mundo e os Jogos Olímpicos no Brasil. O mineiro Flávio Lima, um dos agentes escolhidos, ressaltou a importância da integração entre as forças de segurança de diversos países. "A expectativa é a melhor possível para que tenhamos um evento de grandes proporções, mas com segurança garantida", disse Lima, que visita Paris pela primeira vez e arranha “um tout petit peu” (um pouquinho) o francês.

    Custos

    O custo da participação brasileira na segurança dos Jogos Olímpicos e Paralímpicos está sendo arcado pelo governo francês e pelo Comitê Olímpico Brasileiro, cobrindo passagens, diárias e alimentação dos policiais.

    "A França está bancando passagens, diárias e alimentação, e o Comitê Olímpico Brasileiro está arcando com os gastos dos nossos policiais que vão trabalhar com os atletas e corpo técnico na Vila Olímpica", explicou Ungaretti. O valor dessa participação não foi revelado.

    Ao contrário de outras nações, como o Catar, que impressionaram os parisienses aos desembarcar na cidade com blindados, o Brasil não traz equipamentos ou armas. “Nós contamos mesmo é com a expertise dos policiais com relação à questão de conhecimentos, da utilização de nossos bancos de dados nas investigações, nas trocas de informações, inteligência, em especial para identificar possíveis criminosos, terroristas, no âmbito da cooperação Internacional”, informa o adido da PF na França.

    Expectativas e desafios

    A segurança dos Jogos Olímpicos de Paris, que promete ser um dos maiores eventos esportivos da história, será garantida por 30 mil policiais, 15 mil militares e 22 mil agentes privados franceses, além dos 1.750 policiais estrangeiros. Somente durante a abertura do evento em 26 de julho, 45 mil homens estarão mobilizados.

    A presença dos policiais federais brasileiros em Paris pode parecer modesta, mas é vista como uma adição valiosa. "Mesmo com um contingente de 20 policiais, faz toda a diferença a presença da PF, pois hoje a polícia trabalha com inteligência e informação para prevenir crimes", destacou Ungaretti.

    O maior temor é em relação à ameaça de atentados. Mas o adido da PF, que há meses participa de reuniões, lembra que “há um trabalho muito grande que já vem sendo feito há anos”. Ele diz que “o ambiente está muito seguro em termos de monitoramento e de controle”. Com a cooperação internacional, “reunindo dezenas de países buscando prospectar informações em todo o mundo”, Luiz Ungaretti avalia que o cenário é, “de certo modo, de tranquilidade, mas sempre de alerta”.

    8 min
  • Brasileira é a segunda atleta paralímpica do mundo a competir também nos Jogos Olímpicos

    Ela está pretes a fazer história no tênis de mesa brasileiro. Bruna Alexandre é a primeira atleta paralímpica a ser convocada também para os Jogos Olímpicos. Ela teve o braço direito amputado quando ainda era bebê. Aos 28 anos, após superar o trauma, ela é temida por seus adversários e representa uma chance de medalha para o Brasil nas duas competições. 

    Com informações de Sarah Cozzolino, correspondente da RFI no Brasil

    Com três medalhas paralímpicas no currículo, a catarinense de Criciúma Bruna Alexandre faz parte da equipe feminina brasileira que obteve uma cota para o Brasil nos Jogos de Paris 2024. Ela diz seguir os passos da polonesa Natalia Partyka, seis vezes medalhista de ouro paralímpica. Em 2008 e 2012, Natalia disputou os Jogos Olímpicos e Paralímpicos.

    Bruna também não vê limites ao pódio, apesar de sua deficiência. Ela tem sido um modelo e uma inspiração para outras pessoas, assim como Partyka foi para ela. No centro de treinamento paralímpico, em São Paulo, ela é conhecida pelo saque difícil de defender. Bruna posiciona a bola em cima da raquete e lança para o alto com a mão esquerda e depois bate com o mesmo braço. 

    Rafael Monteiro, líder da seleção brasileira paraolímpica, explica que essa é uma das armas da equipe. "Ela começa sempre com um serviço muito bom, o saque dela é muito forte", elogia. "Ela entra no jogo já pressionando os adversários, o que lhe permite ter controle da partida. Ela tem muita habilidade", completa.  

    Erro médico

    Bruna Alexandre tinha somente três meses quando teve o braço direito amputado, depois da aplicação de uma vacina que causou uma trombose. Ela teve um nervo atingido e necrosado, e chegou a lutar pela própria vida. 

    A orientação errada de um médico e a imunização malfeita por duas enfermeiras do Hospital São José, em Criciúma (SC), resultaram na operação irreversível. Bruna conseguiu uma indenização, conquistada na Justiça, no ano passado. Depois do acordo judicial, o hospital considera o assunto encerrado e médico nunca mais foi encontrado.

    Nada disso impediu a menina de seguir em frente. Esportista desde muito cedo, ela começou no skate, o que lhe permitiu desenvolver um equilíbrio muito bom, conforme explicou à reportagem da RFI.  

    A carreira olímpica no tênis de mesa começou ainda aos sete anos. O técnico Paulo Camargo a acompanha desde os Jogos Olímpicos do Rio 2016, quando ela foi medalha de bronze. “Ela é muito criativa, muito habilidosa para jogar, inteligente, então ela muda um pouco o tempo de bola. É uma característica bem diferente, ela consegue mudar o ritmo, a cadência, ela muda efeitos, inverte”, diz.  

    Tênis de mesa olímpico

    O tênis de mesa fez a sua estreia olímpica em Seul, em 1988, com um total de quatro torneios disputados para medalhas, entre os de simples e duplas masculinas e femininas. 

    Em Beijing 2008, uma grande mudança foi implementada com os torneios de duplas sendo substituídos pelos de equipe. O programa permaneceu o mesmo até Tóquio 2020, quando um novo torneio de duplas mistas foi introduzido. Todos os cinco torneios para medalhas disputados em Tóquio 2020 estarão presentes em Paris 2024.  

    Somando a participação nos Jogos Olímpicos e Paralímpicos, Bruna Alexandre passará quase 50 dias em Paris. A temporada francesa será o ponto alto de um sonho, como ela diz. 

    “Eu tinha este sonho de disputar as Olimpíadas, mas sabia que precisava ser duas vezes mais disciplinada. Porque não tenho tantos adversários nos Jogos Paralímpicos. Mas para o nível olímpico, eu sabia que tinha que fazer algo a mais para me ver como uma atleta olímpica. Então, eu tenho feito isso ao longo de toda a minha carreira”, afirma. 

    Essa dupla participação é histórica no esporte brasileiro. Bruna é motivo de orgulho para os seus colegas. Aos 21 anos, Letícia Lacerda, também mesatenista paralímpica, vê em Bruna uma inspiração. “Nos dá muito orgulho ver a sua trajetória olímpica. É muito importante ser representado por alguém tão forte", diz. "É incrível e estou muito feliz por ela e pelo tênis de mesa”, completa. 

    A número 1 do tênis de mesa brasileiro vê isso como uma mensagem de esperança para as pessoas com deficiência. “Isso prova que tudo é possível. Independentemente de você ter apenas um braço ou uma perna, você pode ir muito longe. E o esporte é um caminho. Pode ajudar muitas pessoas”, acredita. 

    E Bruna não tem medo de sonhar alto. Depois do bronze no Rio e da prata em Tóquio, ela já se vê ganhando o ouro em Paris. 

    6 min
  • Versão restaurada de “Saravah”, filme “cult” sobre a MPB, estreia na França com elogios da crítica

    “Um filme cult para os apaixonados pela música brasileira”. Essa é a definição de vários críticos franceses do documentário “Saravah”, do francês Pierre Barouh, que foi restaurado e estreia nesta quarta-feira (10) nos cinemas da França, 55 anos depois de sua realização. Ainda não há previsão para o lançamento no Brasil.

    O documentário “Saravah” é o primeiro longa-metragem de Pierre Barouh. O músico, produtor, ator e diretor conhecia o Brasil e a música brasileira, que o fascinava intensamente, desde 1959. Em 1966, fez a versão francesa de “Samba da Benção”, de Vinicius de Morais e Baden Powell. “Samba Saravah” foi a trilha sonora do premiado filme “Um homem e uma mulher” e grande sucesso na França.

    Três anos depois, em 1969, em plena Ditadura Militar, Pierre Barouh encontrou o amigo Baden no Rio, que o acompanhou durante as filmagens. O longa foi rodado em apenas três dias. Ele não é um filme didático sobre a história da música brasileira, mas o testemunho de um momento. Na tela, muita descontração e cantoria. Músicos da velha e da nova geração tentam decifrar para o francês Barouh o enigma do samba.

    O documentário Saravah revela imagens incríveis dos veteranos Pixinguinha e João da Baiana, na época com mais de 80 anos, e dos jovens Maria Bethânia, com apenas 21 anos, e Paulinho da Viola. Baden Powell, presente durante todo o documentário, com seu violão, é o elo entre gerações tão distantes e fundamentais da música brasileira.

    Sucesso na pré-estreia

    “Saravah” nunca teve um verdadeiro lançamento nos cinemas. O documentário foi exibido algumas vezes a partir de 1969 e depois ficou na gaveta várias décadas até a ser restaurado no ano passado.

    A pré-estreia da versão restaurada em 4K aconteceu em 2023 no Festival de Cinema Brasileiro de Paris, dirigido por Kátia Adler, que apoia agora o lançamento de “Saravah” nas salas de cinema da França.

    “A gente passou o filme, restaurado, com exclusividade no cinema Arlequim. Foi um sucesso!”, lembra Kátia Adler. Ela considera que o documentário, dirigido por Pierre Barouh “um grande conhecedor da música brasileira”, é uma “pérola” do cinema brasileiro. “O filme merece ser revisto ou visto pela primeira vez pela juventude”, espera Adler.

    O filho de Baden, o pianista e compositor Philippe Powell, radicado na França, está entusiasmado com a estreia da versão restaurada. "Imensa alegria, grande emoção de ver o filme documentário 'Saravah' após mais de 50 anos estreando nos cinemas franceses", declarou. 

    Philippe Powel destaca que no filme Pierre Barouh registrou, "de maneira única e extraordinária, algumas das ramificações da música popular brasileira". O compositor e pianista garante que "é um filme incrível para a gente se apaixonar pela música brasileira e pelo Brasil". 

    “Registro sublime”

    Para o jornal “Le Monde”, “Saravah” é um registro sublime sobre a música brasileira. Um filme que faz um bem danado, como uma fotografia antiga que traz de volta fragmentos de um momento perfeito, de instantes mágicos.

    “Libération” diz que Pierre Barouh conseguiu, com sua câmera, captar a identidade do Brasil, através da música, matriz do país. O jornal descreve alguns momentos antológicos, como o encontro numa mesa de bar de praia, que reuniu Paulinho da Viola e Maria Bethânia. Eles interpretam o samba Rosa Maria, acompanhados em coro por todos os clientes do bar.

    Pierre Barouh morreu em 2016. Até o fim, foi considerado o "embaixador" da música brasileira na França que ele ajudou popularizar. Saravá!

    7 min
  • Prisão de usuário de maconha favorece mão de obra para o tráfico, dizem especialistas

    Não se trata da descriminalização das drogas, mas da diferenciação entre usuário e traficante quanto à posse de maconha. A baliza determinada pelo Supremo Tribunal Federal (STF), de 40 gramas, também não é definitiva porque outros fatores podem qualificar o dono da droga e, politicamente, porque pode haver ainda desdobramentos. Ainda assim, analistas ouvidos pela RFI afirmam que o resultado do julgamento tem impacto importante, especialmente entre jovens negros.

    Raquel Miura, correspondente da RFI em Brasília

    O especialista Cássio Thyone, do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, destacou que o atual modelo de combate às drogas, com o encarceramento em massa, não tem mostrado resultado. Mas acha que o Legislativo, com a formação conservadora de hoje, pode mudar o entendimento do STF e arrastar o debate:

    “Pelo momento, pelo que já apareceu na mídia, vejo que deve haver uma reação do Congresso. A própria tramitação da PEC que trata da criminalização para qualquer quantidade de droga vai se antepor a esse tema e, se aprovada, pode voltar a ser questionada no STF. É um debate que ainda pode levar muito tempo”, explicou.

    “Os estudos mostram que essa repressão não resultou em redução do consumo e o que chamamos de guerra contra o tráfico também é bastante questionável. As pessoas são muitas vezes mortas em comunidades, com um número elevado de letalidade policial, etc. Enquanto isso os grupos do crime organizado têm ampliado sua atuação”, concluiu Thyone.

    Critérios ainda não absolutos

    O advogado do EducAfro Brasil, Marlon Reis, recordou que os ministros ressaltaram outros elementos, e não apenas a quantidade de droga, que pesam na definição de usuário ou traficante. Reis cita a posse de balança de precisão ou caderneta com nome de clientes com a pessoa detida. “Não se estabeleceu uma régua linear e absoluta. Quem estiver portando substância com peso inferior a 40 gramas, por exemplo, num caso concreto, pode, sim, estar relacionado à prática de tráfico. A princípio não está, mas é apenas uma presunção relativa.”

    Ele acredita que ao serem fixados os parâmetros, a avaliação deve ser mais da justiça do que do legislativo. “Essa decisão é eloquente, didática, precisa necessariamente ter um impacto sobre a atividade policial. E acho que é uma decisão claramente do mundo judicial. Não faz sentido a lei substituir o papel do juiz na definição do que é ou não ilegal, na análise de caso a caso”, defendeu Reis.

    Aspecto Racial 

    Um dos principais argumentos em favor da atuação do Supremo nesse caso é o aspecto racial que permeia o tema. O advogado Caio Cortez, especialista em direito penal e de relações raciais, avalia ser preciso estabelecer limites diante de um sistema que sempre puniu muito mais pretos que brancos, em qualquer circunstância.

    “Diversas pesquisas, inclusive uma que foi mencionada pelo ministro Alexandre Moraes no seu voto, mostra que jovens negros tendem a ser presos por tráfico com mais frequência, mesmo quando são pegos uma quantidade de droga inferior do que as aprendidas com pessoas brancas”, sublinhou o especialista.

    “No estado de São Paulo, por exemplo, uma pesquisa listou que 31 mil pessoas pardas e pretas foram enquadradas como traficantes em situações semelhantes às que brancos foram tratados como usuários. Existe um disparate aí”, exemplificou Cortez, que também destacou que a mudança não atrapalha a atuação da polícia:

    “A pessoa será encaminhada até autoridade policial, a droga vai ser apreendida, com a diferença de que não será mais lavrado o termo circunstanciado de natureza penal. E, fora isso, os procedimentos serão os mesmos. A pessoa terá de comparecer em juízo a fim de que sejam aplicadas as sanções administrativas previstas na legislação”, descreveu Cortez.

    Impacto na vida de jovens negros

    À RFI, o advogado e fundador do JusRacial, Hédio Silva Júnior, analisou que a decisão do Supremo deve ser o início de mudanças necessárias para evitar a discriminação racial de todo o processo, da abordagem policial até o julgamento pelo judiciário.

    “Essa decisão do STF impacta muito a vida dos jovens negros. Porém, repare, a diferença de tratamento entre negros e brancos acontece também com outras drogas, como cocaína, crack. A gente precisa começar a fixar critérios que diminuam a arbitrariedade, a tirania na aplicação da lei penal, que é uma aplicação seletiva. Quantos jovens negros são condenados no Brasil por crime de roubo, sendo inocentes? Se há aplicação seletiva na lei de drogas, há em toda lei penal”, afirmou Hédio Silva Júnior.

    O especialista avalia ainda que a prisão em massa de usuários de maconha não ajudou a combater o tráfico, ao contrário, garantiu mão de obra certa para o crime organizado. Para ele, “são jovens que não têm vinculação com facção criminosa, pessoas de periferia, de famílias com baixíssima renda, quando tem renda, que caem no sistema penal e são presas fáceis do crime organizado”.

    “Então você tem uma cadeia de consequências e efeitos nefastos”, observou o representante do JusRacial ao relatar o modelo que prevaleceu até agora no sistema policial.

    6 min
  • Zonas eleitorais fora da França abrem votação; candidatos da América Latina correm contra o tempo

    Nesta terça-feira (25) acontece o primeiro debate oficial na TV entre os candidatos às legislativas francesas, mesmo dia em que começa a votação de forma on-line para quem mora fora da França. A curta campanha, que iniciou quase imediatamente após a dissolução da Assembleia Nacional pelo presidente Emmanuel Macron, no dia 9 de junho, conta também com candidatos a cadeiras representativas dos franceses que moram no exterior.

    Por Luiza Ramos, da RFI

    O primeiro turno das eleições começou nesta terça-feira ao meio-dia hora de Paris (7h no horário de Brasília), com a abertura da votação on-line para os cidadãos franceses que vivem no exterior e que estão devidamente inscritos nos consulados para votar à distância. Há também a tradicional votação em cédulas nos consulados franceses pelo mundo, marcadas para o sábado, 29 de junho, véspera da data do pleito na França.

    São ao todo 11 zonas eleitorais (circunscrições) estrangeiras e a 2ª circunscrição é a que compreende a América Latina e o Caribe. Nesta fatia de franceses expatriados ou que escolheram viver fora da França, o Brasil possui o segundo maior número de eleitores, com mais de 16.600 inscritos para votar pela França em solo brasileiro, segundo dados de registro consular de 2023. O México tem o maior número de eleitores registrados no consulado francês (20.794) e a Argentina tem o terceiro contingente de franceses inscritos, 11.545.

    Candidata à reeleição na zona eleitoral América Latina e Caribe, Eléonore Caroit, 38, do partido Renascimento, mesmo partido do presidente Emmanuel Macron, conversou com a RFI sobre a “surpresa” de uma nova campanha em tão pouco tempo - as últimas foram em abril de 2023, quando a advogada foi eleita – e lamentou a guinada à direita nas eleições europeias. “Eu não esperava ter que voltar a fazer eleições em tão pouco tempo. E também eu achei uma derrota muito grande, uma decepção para todos ver a extrema direita chegar tão grande, tão forte na votação europeia”, declarou Caroit. 

    Leia tambémCandidata de Macron pela zona eleitoral da América Latina e Caribe critica coligações dos extremos

    Bertrand Dupont, candidato a deputado na mesma zona pelo partido Republicanos (LR, de direita) é atualmente conselheiro local eleito no Brasil (cargo que, segundo ele, corresponde a de um vereador). À RFI, o político criticou a manobra de Macron: "Considero que ele provocou um caos adicional no momento que não precisava (...) Hoje a França está numa situação extremamente complicada, com finanças que estão destruídas, com pressões internas gigantescas, como o crescimento dos extremos, tanto da direita como da esquerda". 

    De volta à disputa ao cargo de deputado da zona eleitoral América Latina e Caribe, o candidato ecologista da coligação de esquerda Nova Frente Popular, Sérgio Coronado, 54, é franco-chileno e foi deputado entre 2012 e 2017. Ele afirma que a base política de Macron perdeu peso e aposta que nestas novas eleições os macronistas não irão alcançar maioria. Por isso, defende sua candidatura na coligação, que, segundo ele, reúne republicanos, democratas e legendas de esquerda e ecologistas, para barrar a ascensão da extrema direita na França.

    Embates entre extremos também fora da França

    O tempo da campanha legislativa foi curto, o 1° turno é em 30 de junho na França, mas para os franceses no exterior a votação é ainda mais cedo e acontece em alguns países ao longo desta semana on-line e presencialmente no sábado, 29 de junho.

    O desafio se torna ainda maior para os candidatos como Eléonore que considera “muito importante ouvir a voz dos franceses da América Latina no debate francês” e fez críticas às coligações formadas pelas alas da esquerda e da direita francesas.  

    A macronista acusa “a oposição política de não querer fazer uma oposição sobre as ideias”, mas sobre princípios, e, em seguida, defende a decisão do chefe de Estado usando como argumento as alianças formadas após a dissolução da Assembleia Nacional.

    “Eu não achava necessária a dissolução da Assembleia Nacional, mas depois vendo o que aconteceu, a oposição dos Republicanos (direita), por exemplo, com Éric Ciotti, que se aliou com o Reunião Nacional (RN, de extrema direita) e vendo depois que a esquerda, que tinha feito campanhas separadas do (Raphaël) Glucksmann, que criticava muito Jean-Luc Mélenchon (líder do LFI, França Insubmissa, de extrema esquerda), e eles voltam juntos como se nada tivesse acontecido... Eu achei que no final não era possível (para Macron) fazer de outra maneira”, acredita a advogada.

    Por outro lado, o candidato Sérgio Coronado, defende que não há nenhuma novidade na coligação da Nova Frente Popular, pois de acordo com ele, as forças de esquerda e organizações democráticas, sempre se unem "quando há o perigo de extrema direita".

    Para Coronado, "a novidade foi a decisão do presidente da República que, sem nenhuma obrigação, resolveu dissolver a Assembleia Nacional e convocou eleições em três semanas". O ex-deputado denuncia que "o debate vai ser limitado. É uma maneira de 'maltratar' a democracia e os eleitores", condena.

    Ele defende a "Nova Frente Popular como a única opção" contra a extrema direita e aposta de que os apoiadores de Macron não conseguirão chegar ao segundo turno marcado na França para 7 de julho (nas zonas do exterior em 6 de julho). Segundo a legislação eleitoral francesa, um candidato vai ao segundo turno se obtiver ao menos 12,5% de votos no primeiro turno. 

    Referindo-se a questões defendidas pelos ambientalistas, sobre evitar meios de transporte poluentes, em suas redes sociais o ecologista se queixa por ter como única opção o avião para seus deslocamentos, na reta final da campanha na América Latina e Caribe.

    Para tentar diminuir sua pegada de carbono, Coronado revelou aos seus seguidores nas redes sociais que leva pouca bagagem, nunca no porão, sempre apenas mala de mão, roupas confortáveis e um par de tênis para encontrar os franceses de países onde ele foca sua campanha, como o México. 

    Dupla-nacionalidade e acesso à cidadania francesa 

    Sobre o assunto que gera grande interesse, o republicano Bertrand Dupont defende a ideia de aquisição de nacionalidade francesa por estrangeiros que cumpram requisitos para a naturalização e que aceitem "os valores da República francesa".

    Aos 53 anos, Dupont vive há 28 na América do Sul, sendo o Brasil sua casa desde 2004. O político apoia a reformulação dos critérios para entrada de imigrantes em solo francês, pois, segundo ele, "a França não tem capacidade" para receber tantos estrangeiros.

    "A França tem uma tradição para o que se chama de direito de asilo. A gente sempre teve uma tradição de acolhimento de quem é perseguido no seu país, que seja por religião, sexo, orientação sexual. E isso tem que continuar, faz parte da nossa tradição, faz parte dos nossos valores. Mas sobre a imigração descontrolada ou ilegal, estou a favor, sim, de uma política muito mais rígida", explica o conselheiro local do Brasil, que é pai de dois franco-argentinos.    

    Já a candidata da extrema direita pelo Reunião Nacional (RN) ao cargo de deputada da zona eleitoral América Latina e Caribe, Marie-Nathalie Gonçalves, 51, procurada pela RFI, ainda não respondeu às perguntas sobre imigração e as propostas do partido sobre o tema. Ela, atualmente assistente parlamentar do RN, é filha de imigrantes: mãe brasileira e pai português.

    Marie-Nathalie republicou, na sexta-feira (21), em sua conta no Tik Tok (@rn.33.medoc) onde tem mais de 4 mil seguidores, uma lista de medidas defendidas pelo RN, dentre elas "deter o fluxo de imigrantes" e a favor do "fim do direito de solo", que garante aos filhos de estrangeiros a possibilidade de obter nacionalidade francesa quando nascidos na França. 

    Leia tambémFrança: extrema direita vai restringir empregos públicos "estratégicos" a cidadãos franceses

    A macronista Eléonore Caroit que é dominicana, francesa e suíça, acredita que é preciso romper com a narrativa defendida pela extrema direita de que seja preciso escolher uma única pátria. “Isso é um perigo bem forte, mas a extrema esquerda também tem um discurso forte contra os franceses (que vivem) no estrangeiro”, aponta ela.   

    Os franceses da América Latina e do Caribe 

    Os três candidatos ouvidos pela reportagem concordaram em alguns pontos principais de preocupações dos franceses de sua circunscrição. Sendo os mais comentados por eles a acesso aos serviços consulares, educação dos filhos e a saúde. 

    O republicano Bertrand Dupont estima que o "perigo" vem tanto "da coligação de esquerda quanto da deputada macronista", a quem acusa de apenas adotar "ações de marketing". Ele destaca em sua página na internet de campanha que "conhece bem as preocupações se seus compatriotas" e destaca seu trabalho a favor da Previdência Social dos Expatriados (CFE, Fundo francês no exterior), que passou a funcionar pela primeira vez no Brasil. 

    Dupont contabiliza apenas três liceus franceses no Brasil e diz que há um projeto de aumentar os estabelecimentos educacionais no país. Talvez o único ponto no qual concorda com os rivais Sergio Coronado e Eléonore Caroit.

    A candidata macronista destacou a importância das instituições de ensino e de acesso à cultura e língua francesas no exterior como um de seus trabalhos primordiais em seu curto mandato, interrompido após pouco mais de um ano como deputada da 2ª circunscrição. 

    Eléonore também defendeu uma maior proximidade entre Brasil e França. "Como deputada, eu trabalhei muito em reforçar essa relação França-América Latina e França-Brasil, em particular, pois acho que é um bom momento", disse ela, referindo-se ao ano de 2025, que será a temporada de trocas culturais entre a França e o Brasil.

    Leia tambémParis confirma realização de novo “ano” do Brasil na França em 2025

    O ex-deputado Sérgio Coronado (Nova Frente Popular) lamentou o "desaparecimento da América Latina da agenda política francesa" e destacou a importância da região sobre "desafios contemporâneos" os quais, ele acredita que o presidente Emmanuel Macron não dá a devida importância como líderes franceses anteriores.

    Coronado cita "ecologia na Amazônia, o extrativismo petroleiro e mineiro, o combate feminista, a luta pelos direitos das minorias e desigualdades" como temas fortemente debatidos nos países latinos e que deveriam pautar a agenda francesa.

    9 min
  • Rei da Dinamarca inaugura 1º trecho do maior túnel submerso do mar Báltico

    A pequena Rødby, que tem apenas 6 mil habitantes, a 160 quilômetros de distância da capital Copenhague, esteve em clima de festa na segunda-feira (17). Bandeiras da Dinamarca decoravam as ruas, e centenas de moradores aguardavam a chegada do rei Frederik X, que visitou o local para inaugurar o primeiro trecho do túnel submerso que vai conectar a Dinamarca a Alemanha em apenas 10 minutos.

    Fernanda Melo Larsen, correspondente da RFI na Dinamarca 

    O trecho de concreto tem 217 metros de comprimento e pesa 78,5 mil toneladas, será submerso no lado dinamarquês ainda este ano. Nos próximos anos, serão unidos no fundo do mar outros 78 blocos de túnel e 10 elementos especiais de concreto.

    Durante o evento o rei Frederik X inaugurou uma placa memorial que será instalada assim que o túnel for concluído, junto com a placa uma cápsula do tempo será vai ser enterrada. Dentro cápsula foram colocados pequenos pertences dos trabalhadores do túnel Fehmarnbelt e um pequeno pertence do rei da Dinamarca, que ele mesmo fez questão de colocar.

    Segundo o Ministro dos Transportes da Dinamarca, Thomas Danielsen, o túnel submerso deve custar mais de € 8 bilhões, algo em torno de R$ 46 bilhões, mas terá um retorno positivo para a economia europeia.

    “O tráfego no túnel não é impactado por uma mudança no tempo, e fica aberto 24h, a Comissão Europeia afirmou que esse é um projeto importância para toda Europa”, diz o ministro dos transportes Thomas Danielsen.

    Canteiro de obras

    A construção do túnel, que terá 18 km de extensão no fundo do mar Báltico, foi iniciada em 2021 e deve entrar em operação em 2029, quando o tempo de viagem entres os dois países será de apenas 10 minutos de carro ou sete minutos de trem.

    Até lá, o maior canteiro de obras do norte da Europa conta com três mil empregados que trabalham numa área de um milhão de metros quadrados, que tem seis linhas de produção que funcionam em tempo integral.

    O túnel está sendo construído simultaneamente na Alemanha e na Dinamarca e no meio será conectado com um elemento especial. O CEO da empresa estatal dinamarquesa responsável pela obra, lembrou que a Dinamarca tem experiencia em construir grandes projetos de infraestrutura como, por exemplo, a ponte que liga a Dinamarca a Suécia.

    "Hoje é uma prova visível de quão longe chegamos. Este projeto se baseia na experiência do Grande Belt que liga a região da Zelandia à parte continental do país, e de Øresund que conecta Copenhague a Malmö na Suécia. O túnel Fehmarnbelt irá mostrar o caminho para muitos outros grandes projetos na Dinamarca e no resto do mundo", disse Mikkel Hemmingsen CEO da Sund & Belt.

    Impacto ambiental

    Para a construção do túnel estão sendo usados navios de remoção no fundo do mar, que resultará em 19 milhões de metros cúbicos de areia, pedra e solo, que vão ser transformados em uma estância balnear com três praias no lado dinamarquês do projeto e 73 mil árvores na chegada aos dois países.

    Além disso, os trens que vão circular pelo túnel serão movidos a energia renovável. Para Emilie Juel-Helwig, diretora de sustentabilidade do túnel Fehmarnbelt, o projeto está centrado em minimizar o impacto ambiental da região.

    “Quando nós começamos a construção do túnel é claro que ficamos preocupados com o meio ambiente e com as mudanças climáticas, por isso que essa construção está sendo feita para durar pelo menos por 120 anos, porque é necessário usar bastante concreto”, ressaltou diretora de sustentabilidade da Sund & Belt.

    7 min
  • Influenciadores digitais convocam milhões de seguidores a votar contra a extrema direita na França

    Depois da mobilização contra a extrema direita de intelectuais, celebridades e esportistas franceses na campanha das eleições legislativas antecipadas, os influenciadores digitais franceses se posicionam nas redes sociais e convocam milhões seguidores a participar do bloqueio ao partido Reunião Nacional. Esse é o primeiro movimento político conjunto de criadores de conteúdo na França. 

    Daniella Franco, da RFI

    Um dos líderes dessa iniciativa é o francês Squeezie, que tem quase 20 milhões de seguidores no Youtube. Nas redes sociais, ele publicou uma carta aberta pedindo explicitamente a seus fãs um bloqueio à extrema direita. Em um texto direcionado aos jovens, Squeezie diz: "Essa orientação política infelizmente foi banalizada, quando a história, mesmo recente, já nos mostrou os perigos e as duras consequências da chegada de um partido da extrema direita no poder", diz.

    Outra influenciadora extremamente popular na França, Léna Situations, que tem quase cinco milhões de seguidores, publicou stories no Instagram convocando o público a votar contra a extrema direita, a xenofobia e a intolerância. Já Crazy Sally publicou um vídeo nas redes sociais após a vitória do partido Reunião Nacional nas eleições europeias, em 9 de junho, abordando o perigo da normalização da extrema direita.

    "A extrema direita de hoje entendeu muito bem como se 'desdiabolizar', principalmente graças às redes sociais, onde o líder do Reunião Nacional, Jordan Bardella, é presente e poderoso. Ele tem um milhão de seguidores no TikTok, conseguiu fazer um 'rebranding', para ter essa fama de 'bonitão'", afirma a influencer. "Sua comunicação nas redes sociais é muito boa: ele passa a imagem de um cara legal, que faz confissões pessoais à seus seguidores, usa músicas e expressões da moda, enfim, Bardella é um TikToker profissional. Isso criou uma proximidade enorme com os jovens, que são os eleitores mais importantes hoje, porque eles não votam. Por isso que conquistar o voto dos jovens faz diferença", reitera Crazy Sally.

    Manifesto de 200 personalidades da internet

    Vários outros criadores de conteúdo reforçaram o apelo nos últimos dias. Na segunda-feira (17), o site de notícias Mediapart publicou uma tribuna assinada por 200 personalidades da internet contra a extrema direita. "O momento não é mais para a neutralidade", diz o texto, alertando para as origens da legenda, o antigo Frente Nacional [hoje Reunião Nacional, dominado pelo clã Le Pen], fundado por ex-paramilitares nazistas. "O partido não mudou, apesar da mudança de nome. Suas relações atuais, em nível local e nacional, com os piores grupos de extrema direita, são conhecidas de todos", completa o manifesto.

    O professor e pesquisador em Ciências da Informação e da Comunicação, Alexandre Eyries, da Universidade Católica do Oeste da França, explica que esse tipo de mobilização não é nova no país. "Essa mobilização acontece numa continuidade do posicionamento de personalidades que já ocorria há 20, 30 anos - às vezes atores, às vezes atletas de alto nível. Eles davam sua opinião sobre acontecimentos políticos e orientações ao voto. Então, é uma evolução, mas não é uma revolução, eu diria. É apenas o seguimento de uma tendência, dentro da evolução das tecnologias da informação", avalia

    Para a professora e pesquisadora em Comunicação e Política Camila Moreira César, da Universidade Sorbonne Nouvelle, há uma diferença principal entre os movimentos políticos liderados por celebridades e o atual movimento dos criadores de conteúdo digital contra a extrema direita. "Os influenciadores são uma conexão entre os diferentes mundos. A internet é um grande conjunto de arquipélagos, onde a gente vê comunidades que se formam em torno de questões, de centros de interesse, de gostos. Eu acho que a diferença esteja aí", diz. "Celebridades e intelectuais, de uma maneira geral, já tem um posicionamento político mais afirmado; são pessoas públicas por excelência. Já os influenciadores conquistam esses espaços online, progressivamente, e conseguem fazer essa conexão entre públicos que são muito diferentes, conseguindo alcançar grupos mais distintos e criar pontes entre eles", avalia.

    Repercussão e efeito nas urnas 

    O movimento dos influenciadores digitais teve tanta repercussão que obteve uma resposta do líder do partido Reunião Nacional, Jordan Bardella, à frente das pesquisas, com mais de 30% das intenções de voto. Em uma carta aberta publicada nas redes sociais, ele afirma que os criadores de conteúdo online reproduzem argumentos “grosseiros” do partido da esquerda radical França Insubmissa, que integra a coligação da esquerda Nova Frente Popular, em segundo lugar nas pesquisas, com entre 25% e 28% dos votos.

    Mas, além do buzz, a mobilização política dos influenciadores digitais pode ter resultados nas urnas? A professora e pesquisadora da Sorbonne Nouvelle acredita que é difícil medir o peso dessas personalidades em uma eleição, mas o potencial desta iniciativa é expressivo. "Esses influenciadores têm um papel importante de levar esse debate urgente para outros espaços que não são necessariamente atravessados de maneira direta pela questão política", aponta.

    Camila salienta que "os influenciadores têm uma relação de identificação e de proximidade muito importante com a comunidade para a qual eles falam", principalmente o público jovem. Nas últimas eleições legislativas francesas, em 2022, 70% dos eleitores com menos de 35 anos não foram às urnas, segundo uma pesquisa dos institutos Ipsos e Sopra Steria.

    Os seguidores "não necessariamente têm uma afinidade política e ideológica, e muitos deles têm uma posição refratária à política tradicional". Por isso, segundo a professora e pesquisadora, o fato de os criadores de conteúdo serem muito visíveis e presentes, o movimento do setor pode contribuir com um freio à progressão da extrema direita. 

    7 min
  • Última livraria portuguesa e brasileira da França pode fechar as portas em Paris

    Nas prateleiras, autoras como Conceição Tavares e Djamila Ribeiro se misturam  a nomes mais tradicionais como Carlos Drummond de Andrade e Jorge Amado. Há 38 anos, a paixão de Michel Chandeigne pelo universo da língua portuguesa mantém abertas as portas azuis da tradicional Livraria Portuguesa e Brasileira de Paris, em frente à pracinha de L'Estrapade, local que se tornou ponto de peregrinação de fãs da série "Emily in Paris": a protagonista "mora" na frente. 

    "Às vezes eu gostaria de deixar um microfone escondido aqui na frente da porta, para ouvir e gravar o que as pessoas estão dizendo, porque há uma surpresa real das pessoas que passam ao descobrir uma livraria de língua portuguesa. Também é muito divertido ouvir esses comentários", brinca Corinne Saulneron, braço direito (e esquerdo) de Michel Chandeigne na Livraria Portuguesa e Brasileira de Paris. Responsável não só por acolher o público, a francesa Corinne sabe dizer em minúcias de detalhes, com uma incrível miríade de sutilezas, a diferença entre um Jorge Amado de tal época e suas versões mais atuais, o subtexto presente na ironia do baiano, ou ainda quantas vezes aquela obra específica foi republicada.

    "Temos 8 mil títulos disponíveis na livraria e também tentamos dar visibilidade aos novos lançamentos brasileiros. Não estamos preocupados em ter sempre livros novos. O que gostamos mesmo é de ter livros aprofundados, livros que podemos recomendar, livros em que acreditamos e que amamos", detalha Saulneron.

    "Então, tentamos seguir em frente mesmo com os problemas. E também levamos em conta nossos clientes. Temos a sorte de ter parcerias com as grandes bibliotecas, instituições que confiam em nós, como a BNF, a Biblioteca Nacional da França, que nos pede belos livros de arte do Brasil", diz. "Estamos tentando nos tornar mais visíveis gradualmente. Por isso, também gostaríamos de agradecer à [série] Emily in Paris, não é? A famosa série que tirou a Place de l'Estrapade da obscuridade e nos trouxe mais alguns clientes, e uma clientela mais jovem. Sim, temos mais jovens que estão se aventurando pela livraria agora", comemora.

    Única na França

    "A Livraria Portuguesa e Brasileira é a única na França", lembra o proprietário, Michel Chandeigne. "E também não há quase nenhuma livraria hispânica, porque as grandes livrarias hispânicas desapareceram há mais de 15 anos. Essa é a evolução normal dos livros estrangeiros na França. As livrarias estrangeiras fecham porque precisam competir com sites on-line diretos em países como Portugal, Espanha, Brasil, e assim por diante", contextualiza. "E também porque os livros estrangeiros podem ser encontrados de segunda mão em tantos sites que os leitores - estudantes - preferem ler em PDFs, eles não compram mais livros. Portanto, há uma queda na demanda, o que torna bastante complicado manter o ritmo", admite Chandeigne. 

    "Somos capazes de manter essa atividade na livraria porque também publicamos livros, e porque dou muitas palestras, e estamos em uma boa localização, um bom endereço", diz o proprietário francês. "E a Corinne [funcionária e produtora de eventos da livraria desde 2015] tem muita energia, além do fato da livraria ter 38 anos. Temos também um site que atende clientes em todo o mundo, portanto, estamos nos mantendo. Mas a tendência é de erosão. Perdemos quase todos os nossos clientes em potencial devido às vendas online. Não se trata apenas da Amazon. São todos os sites que vendem livros online, e os nossos são livros estrangeiros", lembra. 

    Pessoas de todo o mundo

    "O público é extremamente variado porque temos pessoas de todo o mundo. Temos um site que nos permite fazer entregas. Acabei de enviar livros para os Estados Unidos esta manhã, mas também enviamos para o Japão", conta Corinne Saulneron, que recebe os clientes na livraria há 9 anos. "Fazemos entregas em quase todos os lugares porque, na verdade, a cultura portuguesa semeou admiradores em quase todo o mundo. Isso significa que tenho até vietnamitas que vêm comprar livros comigo no verão, porque eles ainda estão ensinando português no Vietnã", conta.

    "O público é extraordinariamente variado. É por isso que é um prazer. Temos 80% dos livros em português e 20% de traduções de livros lusófonos brasileiros, portugueses ou africanos. E, acima de tudo, também temos livros sobre descobertas, um pouco um hobby, para Michel Chandeigne, que adora histórias de navegação e naufrágios, especialmente naufrágios", diverte-se Corinne Saulneron.

    "As livrarias estrangeiras em todo o mundo, e isto é fenômeno geral, estão desaparecendo, exceto as livrarias francesas, porque são subsidiadas pelo Estado francês, recebem ajuda e apoio", sublinha o livreiro. "Portanto, as livrarias francesas subsistem em todo o mundo. Mas essa é uma política governamental. E, no momento, essa política não contempla o lado brasileiro ou português. Talvez isso mude", analisa.

    "Há 10 anos, não era possível encontrar todos esses livros brasileiros e portugueses online. Agora é possível encontrá-los em sites de segunda mão na França, no exterior, em todos os lugares. Portanto, a concorrência está em toda parte. Não há lei, é uma anarquia. Em Portugal, por exemplo, as editoras podem fazer vendas diretas subtraindo o preço dos livros desde o início, com descontos de 30 a 40%. Eles não têm essa lei de preço único, que protege a rede de editoras e livrarias na França", conclui o proprietário.

    "Diversifiquei as atividades da livraria fazendo muitas conferências, então temos essa fonte adicional de renda. Mas é só isso. O futuro a médio prazo é que essa livraria desaparecerá, sim", lamenta Chandeigne.

    6 min
  • Macron conta com “fragmentação” da esquerda e da extrema direita para vencer eleições, dizem especialistas

    Quais as consequências do avanço da extrema direita no Parlamento Europeu? O que levou o presidente francês Emmanuel Macron a dissolver a Assembleia Nacional? De acordo com especialistas ouvidos pela RFI, os últimos acontecimentos trazem mais incerteza do que garantia de sucesso para qualquer um dos lados do espectro político. 

    Maria Paula Carvalho, da RFI em Paris

    “A extrema direita tem uma dificuldade de fazer um único bloco unido”, destaca Tomás de Barros, pesquisador associado ao Centro de Pesquisas Políticas da SiencePo, em Paris, sobre a fragmentação do campo liderado na França por Jordan Badella e Marine Le Pen, do partido Reunião Nacional. O grupo conquistou neste domingo (9) quase um terço dos votos nas eleições para o Parlamento Europeu e se posiciona bem à frente da aliança centrista do presidente Emmanuel Macron. 

    “Existem muitos grupos de extrema direita que ainda não conseguiram se unificar. Ela [a extrema direita] vai ter mais peso na decisão de quem será o próximo comissário europeu, para definir quais serão as políticas da União Europeia no próximo período, vai fazer barulho no Parlamento Europeu e usá-lo para catapultar pautas em seus respectivos países. Mas ela não conseguiu se impor”, explica o cientista político. “Não é que agora o Parlamento Europeu está dominado pela extrema direita. A legenda apenas cresceu um pouco de tamanho em detrimento de todos os grupos, mas, principalmente, do grupo dos liberais, do qual o partido do Emmanuel Macron faz parte”, analisa.  

    Ao dissolver a Assembleia Nacional, Macron também estaria apostando nas divisões dentro da esquerda. Tomás de Barros explica que o centrista estava “encurralado”, uma vez que já não tinha maioria no Legislativo e sofreu uma derrota simbólica nas eleições europeias. “Em 2022, houve um movimento para as eleições legislativas, em que todos os partidos de esquerda se unificaram na nova União Popular, Ecológica e Social, a NUPES”, lembra o pesquisador. Essa união de esquerda, inédita nos últimos 40 anos, conseguiu um bom resultado nas urnas. Porém, nos últimos dois anos, ela se se mostrou “muito frágil” e com várias divergências, aponta. “Sobretudo com o conflito na Ucrânia e com a questão no Oriente Médio. Isso tudo realmente transformou em pó essa união de esquerda, que saiu fragmentada para as eleições europeias”, analisa.  

    Para o cientista político, Macron confia que a esquerda não vai conseguir se reunir novamente, uma chance para ele se apresentar como o “salvador da democracia”. “Dessa maneira, ele conseguiria ir para o segundo turno e usar o discurso 'ou eu, ou o caos, ou eu ou a extrema direita', e assim tentar constituir uma maioria no Parlamento, o que é desafiador, mas ao menos reduzir as perdas e obrigar esses outros grupos políticos a comporem com ele, tentando hegemonizar esse campo do anti-extrema direita”, acrescenta.    

    Normalização da extrema direita 

    Outro ponto destacado pelo pesquisador é o esforço de alguns centristas em tentar normalizar as ações da extrema direita. “Por um lado, políticos como a Marine Le Pen, aqui na França, ou a Giorgia Meloni, na Itália, vão tentar se apresentar como candidatas normais, razoáveis, candidatas de centro, afastando dos seus movimentos e de grupos aliados setores que sejam virulentos, barulhentos, às vezes ligados a grupos neonazistas”, acredita. “Elas vão tentar tomar uma distância e se mostrar como direitistas pragmáticas. Isso é um movimento de normalização. O outro movimento é quando o centro acaba indo para a extrema direita, reproduzindo algumas das suas pautas para tentar capturar esse eleitorado”, explica. 

    Um exemplo disso foi a tentativa de endurecimento das regras de imigração por parte do governo Macron, com a supressão do direito de solo aos filhos de migrantes nascidos na França, um projeto que depois teve vários artigos considerados inconstitucionais pelo Conselho Constitucional francês. “Ele tentou fazer esse movimento para agradar o eleitorado de extrema direita, mas são raros os casos em que isso funciona, porque o eleitor vai sempre preferir o original à cópia” observa Tomás de Barros. 

    Dissolução da Assembleia Nacional é estratégia “rara” e “arriscada”  

    A decisão do presidente Emmanuel Macron de dissolver a Assembleia Nacional surpreendeu a França. A última vez em que isso aconteceu foi em 1997, quando o conservador Jacques Chirac dissolveu a Assembleia e perdeu a maioria, resultando em um período de coabitação com o primeiro-ministro socialista Lionel Jospin.  

    Quase trinta anos depois, muitos se perguntam qual é a estratégia de Emmanuel Macron. A historiadora Sílvia Capanema, da universidade Sorbonne, acredita que o plano possa ter dois objetivos. “O que ele pretende com isso? Criar uma maioria, já que ele tem uma maioria muito frágil, mas que pode ficar mais frágil ainda, ou entregar o poder para a extrema direita e tentar recuperar nas eleições de 2027, se colocando como a única alternativa”, explica a professora.

    Para isso, Emmanuel Macron teria de renunciar ao cargo de presidente, uma vez que já tem dois mandatos consecutivos, número máximo permitido por lei. “Ele fez isso de forma calculada”, analisa Capanema. “Ele provavelmente tem um plano A e um plano B: tentar reconstruir uma maioria com a direita e talvez seduzir o centro ou uma centro esquerda, se colocando como alternativa e, em um plano B, se a extrema direita ganhar, deixar que ela não consiga governar, como a gente já viu em outros lugares. Mas tudo isso é um risco enorme”, completa.   

    Já uma aliança do bloco presidencial com a esquerda seria um cenário muito improvável, acredita Capanema. Ela explica que o centrista “não representa de forma nenhuma a esquerda”, conforme apontado em vários movimentos sociais. “Ele não vai representar uma frente democrática contra a extrema direita nunca. Agora, pode acontecer uma união das esquerdas, que é o que está se articulando, para tentar construir uma maioria”.  

    A historiadora explica que essa alternativa exigiria consenso em temas muito importantes para o povo francês, como serviços públicos, aposentadoria, ecologia, salários e a questão da Palestina. “Seria uma configuração em que a esquerda se articula em termos sociais, ecológicos, de cidadania e internacional, e que colocaria esse centro do Macron, o centro direita, no lugar que eles estão: da derrota e do fracasso e o levaria ao enfrentamento contra uma extrema direita, onde tem fascistas e a direita tradicional”, avalia.   

    Ambos os pesquisadores temem as consequências possíveis de um governo de extrema direita na França, especialmente para a população de imigrantes e muçulmanos, mas também para os militantes da esquerda e ecologistas. Ao mesmo tempo, admitem que as forças conservadoras vieram para ficar no espectro político, citando como exemplo o Bolsonarismo no Brasil e os seguidores de Donald Trump, nos Estados Unidos. 

    “Virar a chave” 

    Douglas Mansur, professor e cientista social da Universidade Federal Fluminense (UFF), destaca que “apesar da França ter sido uma das bases do pensamento e de políticas social-democratas ou mesmo de um liberalismo com alguma sensibilidade social, também foi e é um dos berços do pensamento conservador”. Em entrevista àRFI Brasil, o pesquisador explica que “há séculos há um núcleo duro desse tipo de pensamento na sociedade francesa”. A diferença, acrescenta, é que esse grupo tem crescido nos últimos anos, apesar de “já ter sido significativo em outros momentos, como no período do general De Gaulle”. 

    Para Mansur, a estratégia de Macron de antecipar as eleições tem a ver com uma “tentativa de apaziguamento e de alertar para o que representa esse tipo de governo conservador e, assim, tentar conseguir unidade e alianças”.

    Outra análise seria que Macron quer “virar a chave” sobre o assunto eleições ainda “antes dos Jogos Olímpicos Paris 2024, que, por si só, já trazem tensão ante os conflitos que estamos vivendo no mundo, mas podem significar, também, uma narrativa sobre fraternidade entre os povos”, conclui o cientista político. 

    7 min
  • Cem anos do concurso 'Melhores Artesãos da França': brasileira foi 1ª mulher a vencer na torrefação

    O concurso “Um dos Melhores Artesãos da França” festeja 100 anos em 2024. Essa prestigiada seleção premia, a cada três ou quatro anos, trabalhadoras e trabalhadores que se destacam em mais de 200 profissões do setor artesanal, comercial, de serviço ou industrial. A cafeóloga mineira Daniela Capuano, radicada em Paris, foi eleita em 2019 a melhor torrefadora da França. Em entrevista à RFI, ela relembrou essa conquista e momentos-chave de sua carreira.

    Daniella Franco, da RFI

    Neta de produtores de café do sul de Minas Gerais, Daniela conta que passou sua infância e adolescência na fazenda da família, "sem se interessar muito pelo processo, mas sempre por perto". Anos depois, em Belo Horizonte, estudando design gráfico, a torrefadora começou a trabalhar em uma cafeteria. A conquista do primeiro lugar em um campeonato estadual de barista foi um sinal do início de uma bela carreira. 

    Após alguns anos em São Paulo, onde trabalhou para o Suplicy Cafés e a Associação Brasileira de Cafés Especiais, uma conversa com um torrefador francês em uma feira da Holanda mudou os rumos da vida de Daniela. "Ele me disse que o café especial estava começando em Paris, que não havia muita competência nesta área ainda na cidade", relembra. "Coincidiu de ser o mesmo momento que minha irmã estava se mudando para Paris para estudar moda. Eu estava meio cansada de São Paulo, acabei vindo. Tem 12 anos que eu cheguei e nunca mais fui embora." 

    Na França, Daniela continuou atuando como barista, mas passou a se dedicar à torrefação no renomado L'Arbre à Café. Sua mudança para Estrasburgo, no nordeste da França, coincidiu com a entrada da profissão de torrefador no concurso “Um dos Melhores Artesãos da França”, suscitando "uma grande conversa na comunidade do café". Trabalhando para o Cafés Reck, seu chefe insistiu para que ela encarasse o desafio, mas Daniela resistiu no começo: "eu achava que estrangeiros não podiam competir, pensava que era um concurso para franceses". 

    Três meses de treinamento

    No total, foram três meses de preparação para o concurso, realizado em dois dias de prova em Bordeaux, no oeste da França. "Quando você está diante do júri, você vai descobrindo no momento o que eles vão te perguntar e o que está acontecendo. A gente chegava lá e eles nos falavam: 'Estão aqui os cafés. Torra aí, faz um blend'", relembra. "O treinamento me ajudou para o concurso, mas toda a minha experiência de barista, de loja, de campeonato, e tudo o que eu fiz antes na vida, foi o que a fez a diferença", diz a mineira. 

    A espera pelo resultado do concurso foi longa, mas o anúncio foi emocionante, recorda. "Acabado o concurso, eles dizem que a resposta sai entre cinco e oito semanas, e você fica na expectativa", diz. "Um dia eu estava trabalhando, recebi um e-mail dos organizadores às 5h da tarde, tudo dentro daquela formalidade francesa e eu demorei para entender que tinha passado. Mas quando entendi, eu gritava tanto que meu chefe achou que eu tinha colocado fogo na torrefação", ri. 

    A entrega das medalhas, em uma pomposa cerimônia na universidade Sorbonne, em Paris, também está guardada na memória de Daniela: "é um conto de fadas". "Também encontramos o presidente francês, que também recebe uma medalha de melhor artesão da França, tem uma recepção no Palácio do Eliseu [sede da presidência francesa]. É meio 'Forrest Gump' a experiência toda", descreve a mineira. 

    Guinada na carreira

    O título de melhor torrefadora da França - a única vencedora do sexo feminino na categoria - alavancou a carreira de Daniela de uma forma que nem ela mesma poderia imaginar. "É um reconhecimento profissional na França, principalmente para mim: mulher, brasileira, estrangeira", diz. "De um dia para o outro, as pessoas passam a te respeitar de uma maneira diferente. Aí a sua opinião é importante, as pessoas querem saber o que você pensa, o que você acha, como você faz", enumera.

    Daniela é sócia hoje do Momus, uma cafeteria na badalada Rue de Martyrs, no 9° distrito de Paris. O estabelecimento oferece cafés especiais, originários da agricultura orgânica e durável, fabricados sob medida, conforme o gosto do cliente. A cafeóloga também trabalha com consultoria e treinamento para torrefadores. 

    Desde o final dos anos 2000 na estrada, Daniela tem na ponta da língua a resposta para o que considera um bom café: "é aquele que eu consigo tomar mais de uma xícara", resume. "Eu gosto de café equilibrado, moído na hora pra ter toda a riqueza de aroma e sabor. Além disso, eu gosto de saber de onde o café vem, onde foi plantado, que ele faz bem para mim como consumidora, mas que ele fez bem para todo mundo antes de mim nessa cadeia: produtor, exportador, importador, que todo mundo trabalhou direito e ganhou o que precisava ganhar para produzir um café durável, no âmbito econômico e ambiental." 

    Para quem está começando no ramo da torrefação, Daniela tem uma principal dica: "torrem e provem". "Não existe bom torrefador que não é bom degustador", observa. "Tem muita gente que eu vejo começando, que estuda, lê, testa, quer experimentar com outras tecnologias, escolas e approachs, mas que não prova sistematicamente tudo o que está fazendo", reitera.

    A cafeóloga compreende que a rotina de prova do torrefador possa ser cansativa, mas, segundo ela, essa é a única forma para o profissional conhecer o impacto de cada escolha feita durante a torra. "É como se um chef cozinhasse um prato e não experimentasse o que ele fez", compara. 

    11 min

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