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By RFI Brasil
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  • Em meio à violência no Haiti, ONG brasileira resiste e mantém distribuição de ajuda humanitária

    Quando a ONG Viva Rio chegou ao Haiti, em 2004, a convite das Nações Unidas (ONU) o cenário era de instabilidade, principalmente por conta da ação de grupos armados nas comunidades da capital Porto Príncipe. O objetivo na época era que representantes da ONG brasileira integrassem a Missão das Nações Unidas para a Estabilização no Haiti (Minustah), que visava mediar os conflitos envolvendo esses grupos armados.

    Renan Tolentino, em colaboração para a RFI

    Hoje, 20 anos depois, a Viva Rio tenta resistir para continuar oferecendo ajuda humanitária à população vulnerável, principalmente em Porto Príncipe, um dos locais mais afetados. 

    “A situação em Porto Príncipe principalmente, mais do que no resto do país é que aumentou muito a violência e se concentra sobretudo nos bairros Cité Soleil, Martissant, Croix-des-Bouquets, e no Centro da cidade", disse em entrevista à RFI o peruano Antonio González, chefe de missão da Viva Rio Haiti. 

    Segundo ele, a estimativa é que nos três primeiros meses do ano já houve 50 mil deslocamentos internos no país."O aeroporto está fechado desde 29 de fevereiro, por conta de um ataque, e o porto está fechado desde 5 de março”.

    “Atualmente há um fenômeno de retirada de estrangeiros, que trabalham em diferentes empresas, e de funcionários das embaixadas, como fizeram os governos da República Dominicana, México e França. Eles vão embora de helicóptero ou barco”, relata González.

    Leia tambémONU alerta para situação “catastrófica” no Haiti; país está nas mãos do crime organizado

    Desde o começo de 2024, uma onda de violência assola o Haiti, que já atravessava uma crise política e de segurança. Segundo a ONU, foram mais de 1,5 mil mortos durante os três primeiros meses deste ano. A organização aponta que “fronteiras porosas” facilitam o fornecimento de armas e munições às gangues.

    Aproveitando-se desta instabilidade, vários grupos armados uniram forças para atacar locais estratégicos na capital, Porto Príncipe, visando derrubar o primeiro-ministro, Ariel Henry.

    Neste cenário, a violência também começou a afetar as atividades da ONG brasileira. Além da segurança de funcionários e beneficiários, González conta que a Viva Rio vem tendo que lidar com desafios logísticos e até mesmo saques a instituições auxiliadas, como escolas.

    “Temos problemas logísticos atualmente com a violência, sobretudo, por exemplo, para fornecer materiais, para deslocamento… também uma das escolas que atendemos foi saqueada. Roubaram toda a comida que tínhamos levado. Além disso, como há problemas de segurança, tem momentos que precisamos paralisar obras por um ou dois dias e retomamos quando tudo volta quase ao normal”, lamenta.

    O peruano também teve sua rotina afetada devido à onda de violência. Ele relata que a insegurança é grande e, por conta disso, tem passado os dias trancado dentro de casa, saindo apenas em casos de necessidade, como, por exemplo, para ir ao mercado.

    “Com respeito à minha rotina, estamos basicamente confinados. Não se pode sair além de ir ao supermercado pontualmente para se abastecer. Porque às vezes quando a gente sai, pode encontrar barricadas na rua, então, pode acontecer de sair e não saber se poderá retornar para casa. Está bastante difícil, bem complexa a situação no momento”, explica González.

    De acordo o chefe de missão da ONG, atualmente, a Viva Rio Haiti emprega 100 funcionários e atende cerca de 25 mil pessoas por mês, principalmente nas escolas, dando suporte a 20 mil crianças em 54 unidades de ensino. Também há projetos que incentivam a capacitação profissional e empregabilidade, que ajudam quase 3 mil jovens e adultos.

    Os serviços de apoio humanitário são variados e vão desde auxílio alimentar a escolas, limpezas nos bairros e suporte sócio-emocional aos funcionários, “para poderem lidar com o estresse e evitar conflitos, sobretudo neste momento que é muito perigoso”.

    A ONG segue tentando encontrar caminhos para manter as atividades em meio ao contexto de insegurança. Não houve ataques diretos ao trabalho da Viva Rio no país. Entretanto, segundo González, duas pessoas ligadas à instituição foram vítimas da violência, que se tornou parte do cotidiano de Porto Príncipe nos últimos meses. Entre elas, uma criança atendida pela instituição e um funcionário.

    “Com relação a situações de risco, vivemos dois incidentes na semana retrasada. Uma criança que fazia parte de um projeto de capoeira morreu vítima de uma bala perdida. E em outro, também um incidente de bala perdida, um dos nossos motoristas foi atingido no pé, mas quando estava em casa. Não houve nenhum atentado contra nossos empregados ou nossos beneficiários ou contra a Viva Rio de maneira direta”, conclui González.

    Cenário mais grave que 2004

    Para Pedro Braun, coordenador de Segurança Humana da Viva Rio no Brasil, a situação no Haiti atualmente é mais grave do que em 2004, quando a ONU deu início à missão de estabilização do país (que terminou em 2017).

    Doutor em antropologia pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), ele também trabalhou para a ONG brasileira no Haiti até 2022 e acredita que os problemas políticos e de segurança que assolam o país desde o começo do ano são resultados de uma crise maior que vem se agravando nos últimos quatro anos.

    “Este último ciclo de piora do país começa em 2018, na minha opinião. E a cada ano vai piorando. Desde então, existe um nível de violência e instabilidade política muito acentuada no país. Inicialmente com uma crise econômica aguda, crise de abastecimento de combustível, que desencadeou um grande movimento chamado "pays lock", com barricadas nas ruas, protestos, enfraquecimento paulatino do governo e a ascensão das gangues”, diz.

    “Teve também a crise econômica que veio depois com a pandemia (a partir de 2020) [...] Então houve uma escalada desde 2018 até chegar a esse momento agora, com uma situação muito, muito difícil. O que todos falam é que a situação por lá é pior do que em 2004, quando iniciou a missão da ONU [para estabilização do país]”, avalia Pedro.

    8 min
  • França pode ter de pagar dívida trabalhista do Consulado do Brasil em Paris

     A demissão de Tiago Fazito Pereira da Silva do Consulado do Brasil de Paris, em 2017, foi considerada arbitrária pela justiça trabalhista francesa, que ordenou a reintegração do funcionário. O Consulado recorreu da decisão, mas se nega, como manda a lei francesa, a reintegrar o trabalhador e a pagar os salários devidos. Sem conciliação possível, ele se vê obrigado a exigir que a França quite essa dívida trabalhista do Brasil que, segundo o advogado, João Viegas, “abusa da imunidade de execução”.

    Tiago Fazito Pereira da Silva se formou em Belas Artes na Universidade Federal de Minas Gerais e veio a Paris fazer um mestrado, seguido de um doutorado, na Universidade de Paris 8. Em 2012, começou a trabalhar no Consulado-Geral do Brasil de Paris. Ele foi contratado como “assistente administrativo” de acordo com a lei trabalhista francesa, que é a que rege os contratos de trabalho de todos os funcionários locais tanto do Consulado quanto da Embaixada na França. As outras pessoas que trabalham na repartição brasileira em Paris são diplomatas e oficiais ou assistentes de chancelaria.

    Em 2015, juntamente com outros colegas, Tiago criou e assumiu a presidência do Sindicato dos Funcionários Locais das Representações Diplomáticas do Brasil na França para defender os trabalhadores que “tinham os deveres, mas não os direitos garantidos pela lei trabalhista francesa”. Paralelamente, entrou na justiça com uma ação por “isonomia salarial”, alegando que fazia o mesmo trabalho de funcionários locais que ganhavam mais do que ele. Na época, o Consulado-Geral de Paris era chefiado pela embaixadora Maria Edileusa Fontenele Reis.

    Tiago Fazito Pereira da Silva foi demitido “por justa causa” em abril de 2017, acusado de ter anexado ao processo documentos sigilosos.“Na verdade, eram documentos que eu tinha acesso no meu dia a dia de trabalho, mostrados para justificar que o trabalho que eu fazia era igual ao trabalho de outros funcionários que tinham salário expressivamente maior”, explica. 

    Para ele, a demissão foi política.“Eu fui demitido sobretudo por dois motivos. Primeiro, eu montei o sindicato. O segundo motivo foi que participei de uma manifestação contra o impeachment da Dilma, fora do horário de trabalho, na frente do Consulado”, lembra. A manifestação aconteceu no primeiro semestre de 2016 e, segundo ele, “teve inclusive um diplomata que desceu para filmar as pessoas que estavam participando”.

    Demissão "arbitrária"

    A demissão de Tiago Fazito Pereira da Silva foi contestada na justiça francesa pelo advogado dele, João Viegas. O Tribunal Superior de Paris (Cour d’Appel) considerou duas vezes, primeiro em uma medida cautelar e depois em uma decisão final, a exoneração arbitrária e ordenou a reintegração do funcionário, além do pagamento de indenizações. O Brasil se recusou a cumprir a determinação e entrou com um último recurso em uma instância superior (Cour de Cassation).

    Esse processo ainda está em curso e será finalizado em setembro de 2024. No entanto, explica João Viegas, pela lei francesa enquanto não houver a decisão final, o Consulado do Brasil seria obrigado a reintegrar o trabalhador e a pagar todos os salários e indenizações devidos.

    A cada dia que passa, a dívida só aumenta. Após sete anos, pelos cálculos do advogado, esse valor é hoje de cerca de € 300.000 (€ 296.369 em 1° de janeiro de 2024, ou mais R$ 1,6 milhão).

    Uma empresa ou empregador comum já teriam tido seus bens confiscados ou penhorados para pagar a dívida trabalhista.

    Imunidade de jurisdição e de execução

    O advogado denuncia essa postura como um “abuso da imunidade” de que gozam as representações diplomáticas no exterior. “O Brasil já foi condenado por um tribunal, cuja competência reconheceu duas vezes, mas furta-se à obrigação de pagar e de executar essas sentenças, abrigando-se atrás da imunidade de execução de que beneficia e nos termos do direito Internacional”, detalha.

    Essa imunidade se baseia no costume internacional e decorre do respeito mútuo que os Estados soberanos devem ter entre si. Em contrapartida a esse privilégio, um Estado que aceita se submeter ao direito de outro Estado, acata as decisões de seus tribunais. Em geral, poucos países, ditos “marginais”, não respeitam essa regra. Por isso, João Viegas está surpreso com essa atitude do Brasil, principalmente agora com a volta de Lula ao poder.

    “Nenhum Estado com pretensões sérias a ter um papel ativo e responsável na vida internacional se coloca nessa situação de poder ser criticado como um Estado que, pura e simplesmente, não aceita as sentenças dos tribunais. É perfeitamente inconcebível. Enquanto o Bolsonaro, que é, digamos assim, uma pessoa cuja postura e o respeito do direito Internacional era no mínimo questionável, estava no poder ainda se podia conceber. Agora, com o Lula e com o governo que está apostado em ter cada vez mais um papel de relevo, essa contradição torna-se um bocadinho esquisita e eu espero que, enfim, deixe de existir”, critica.

    Ele completa dizendo que “não podemos ter o Lula a encher a boca com o respeito da regra jurídica, como assistimos hoje em dia, por um lado, e, por outro, a dar ordens ou, pelo menos, aceitar que os seus serviços se comportem como maus pagadores”.

    Ação contra a França

    A última carta pedindo o cumprimento das sentenças enviada por João Viegas ao cônsul-geral do Brasil na França, Fabio Marzano, com cópia para a Embaixada do Brasil, o serviço jurídico do Itamaraty e o advogado do Consulado, Denis Rosen, foi enviada em julho de 2023 e nunca foi respondida. Sem conciliação ou acordo possível, ele se vê obrigado a entrar com um pedido de indenização em um tribunal administrativo, exigindo que a França quite a dívida trabalhista do Brasil.

    “Enquanto o Brasil permanecer nesta postura e enquanto não cumprir o direito básico, a única alternativa que tem o meu cliente é virar-se contra o Estado francês e pedir para ser indenizado do prejuízo que sofre, em razão de uma impossibilidade que advém das obrigações internacionais da França. Fizemos já uma reclamação no Ministério da Economia e agora vamos entrar em tribunal com uma petição de indemnização”, explica João Viegas.

    Ações semelhantes acontecem sempre que empregadores maus pagadores fogem de sua responsabilidade. Como Tiago Pereira da Silva foi contratado pelas leis francesas, ele não pode recorrer aos tribunais brasileiros. O ex-funcionário “nunca imaginou que esse processo iria durar tanto tempo”. Ele vê “um certo descaso do Itamaraty com a justiça francesa”.

    O caso não é isolado. Há pelo menos dois outros funcionários da representação diplomática brasileira em Paris demitidos no mesmo período, mas os processos ainda não foram julgados pela justiça francesa.

    A situação envia um “sinal desastroso”, acredita João Viegas, nesse momento em que França e Brasil tentam se reaproximar e reforçar seus laços.

    “Sinceramente, eu acho que é uma postura não muito inteligente do Itamaraty. Ela é duplamente faltosa. Primeiro, não se preocupa com as relações com a França. Segundo, não se preocupa com uma causa trabalhista, com um funcionário que trabalhava para o governo brasileiro”, avalia Tiago. Ele espera “que o governo brasileiro possa agir de uma forma racional e que execute o que foi decidido pela justiça francesa”.

    A RFI procurou o Consulado-Geral do Brasil em Paris para saber a versão da instituição sobre o caso, mas até a publicação dessa reportagem não obteve resposta.

    8 min
  • Portugal decide futuro político em pleito considerado o mais importante em 50 anos de democracia

    Chegou a hora dos eleitores escolherem em Portugal quem vai governar o país, nas eleições legislativas antecipadas que acontecem neste domingo (10). No pleito considerado o mais decisivo em 50 anos de democracia em Portugal, após o fim da ditadura de Salazar, cerca de 10 milhões de eleitores estão habilitados a votar hoje e escolher quem ocupará as 230 cadeiras do Parlamento português.

    Márcia Bechara, enviada especial da RFI a Lisboa

    Entre os eleitores que votam neste domingo (10) em Portugal, muitos brasileiros, e não apenas aqueles que possuem também a cidadania portuguesa, mas também os brasileiros que solicitaram a equiparação de direitos eleitorais, possível graças a um acordo bilateral com Portugal. Para se ter uma maioria para governar neste pleito, é preciso conquisar 116 das 230 cadeiras do Parlamento.

    A imigração foi, aliás, o grande tema e o grande dissenso desta eleição e divide não somente os portugueses, mas também as comunidades estrangeiras. Neste domingo, as urnas estarão abertas das 8h às 19h e é possível votar levando apenas a identidade ou qualquer outro documento oficial com foto.

    Quem se inscreveu para o voto antecipado no domingo passado (3) e acabou não votando, pode votar hoje, desde que seja em sua seção de voto. Neste domingo, Portugal deve dar, na opinião de especialistas, uma guinada à direita em seu governo, após oito anos sob o comando da coalização de esquerda, mas ainda há muitos indecisos, cerca de 14%, e o pleito ainda é assombrado pelo fantasma da abstenção, que foi recorde, batendo nos 50%, nas últimas duas eleições, em 2019 e 2022.  

    Resta saber agora se a extrema direita e o voto de protesto do partido Chega baterão ou não os 16% esperados e qual será seu impacto na Assembleia de Portugal, e nas eleições europeias de junho.

    Voto jovem

    Para o estudante de Engenharia e Informática da Universidade de Lisboa Mario Gonçalves, os jovens não devem decepcionar na votação deste domingo. "Eu noto que este ano as pessoas parecem que querem votar mais do que queriam nos anos anteriores, parece que estão mais motivadas para isso. O que é ótimo. Eu acho que todas as pessoas deveriam votar", diz à RFI em Lisboa. "Eu acho que principalmente pessoas jovens não devem se abster do voto", sublinha.

    Imigração e preconceito

    O tema da imigração, exacerbado pela chegada de milhares de migrantes do sul e sudeste asiático depois de 2018, parece decisivo nestas eleições em Portugal, e é fortemente mobilizado e instrumentalizado por alguns partidos. A comunidade brasileira, com 400 mil pessoas, é hoje o maior grupo imigrante de Portugal, mas ainda existe preconceito, como conta a assistente social Evonês Santos, que mora há 22 anos no país.

    "Já sofri [preconceito] e não, não é fácil ser mulher, negra e imigrante", diz a brasileira, que possui também a nacionalidade portuguesa. "Quando ultrapassa uma barreira, você é apanhado em outras circunstâncias. Eu sou uma mulher, sou negra e fui para uma universidade privada, em que eu ouvi uma aula inteira de 45 minutos uma professora falar muito mal da mulher brasileira. Foram coisas que me custaram muito, pagar para estudar e ser discriminada, ou seja, estava pagando para ser discriminada", denuncia. 

    Moradia e alugueis

    As estudantes brasileiras Victoria e Luiza, que chegaram de Vitória no Espirito Santo para estudarem em Portugal por meio do programa Erasmus, evocam o problema dos alugueis no país, um dos temas dessa campanha. "Eu vejo muitos portugueses comentando como o país está atrasado em relação a essa parte de empresas de atração de capital externo. Muitos estrangeiros vêm pra cá com o visto Gold, mas não investem totalmente seu dinheiro aqui. Eles simplesmente compram as casas", diz Victoria, 23. 

    "Essa questão dos alugeis toca a gente, que é imigrante", diz Luiza, 21. "A gente sente muita diferença por causa do valor do euro hoje em dia. E nós vivemos aqui na grande Lisboa, mas às vezes a gente precisa morar num bairro, nos arredores. É porque às vezes um quarto é o valor de um apartamento", diz.

    Portugueses

    A historiadora brasileira Thaís Galindo, que faz seu mestrado em Portugal, revela suas expectativas para as eleições deste domingo. "Realmente as pessoas creem que a culpa de todo o problema de Portugal é dos imigrantes. Eles realmente creem nisso? Porque é assustador que as pessoas não saibam da onde isso está vindo", afirma a brasileira.

    "Mas, ao mesmo tempo, eu também tenho fé numa coisa do comportamento português que eu vejo que é serem pessoas inconformadas. Portugueses são muito chatos, não é? Eles são muito inconformados com várias coisas, são péssimos clientes, são clientes muito chatos. Mas eu acho que isso dentro da política é muito bom também que quando você é inconformado, você está sempre vendo os erros", contemporiza Galindo.

    A decisão agora está nas mãos dos 10 milhões de eleitores portugueses, brasileiros e de outras nacionalidades autorizados a votarem neste pleito histórico que, com certeza, causará forte impacto nas eleições europeias de junho.

    5 min
  • Carla Madeira leva best-sellers à Suíça e fala da finalização do quarto livro

    Carla Madeira foi a escritora mais vendida do Brasil em 2023, na categoria ficção, com Tudo É Rio. Ela está na Suíça para participar do Salão do Livro de Genebra.

    Valéria Maniero, correspondente da RFI Brasil em Genebra (Suíça)

    No Dia Internacional da Mulher, ela recebeu a RFI para uma conversa em um restaurante da cidade, antes de uma sessão de autógrafos no estande da editora e livraria Helvetia. Carla falou falou sobre questões ligadas às mulheres, à literatura, ao Brasil e à finalização de seu quarto romance.

    Além de autora de três livros que se tornaram best-sellers no Brasil, Carla é publicitária, sócia de uma agência em Belo Horizonte, mãe de dois filhos e madrasta de três. Carla é muita coisa e faz muita coisa: também compõe, canta, toca, pinta quadros.

    "Eu acho que tem um lado muito forte meu é que todas essas coisas que eu faço – escrever, pintar, essas coisas ligadas a linguagens – são muito prazerosas. Então, não vejo como uma tarefa, um trabalho. Sempre dou um jeito de estar perto disso porque são coisas que me descansam”, explica.

    Consciência da luta das mulheres por seu espaço

    Neste Dia Internacional da Mulher, ela conta que nunca pensou que não podia fazer algo por ser mulher. Montou a agência quando tinha apenas 21 anos, em um ambiente dominado pelos homens.

    "Eu acessava todas as minhas possibilidades ali no trabalho, de crescimento, de me impor no mercado e, se os homens estavam contrariados com isso, eu nem notei. Eu realmente não me deixei paralisar ou muitas vezes nem percebi que estava incomodando”, lembra. "A ponto de uma pessoa que trabalha comigo um dia me falar: 'tenha sempre consciência do seu privilégio. É uma exceção, pra você não achar que está todo mundo nesse lugar e pra você contribuir com essa luta'. Então, foi uma tomada de consciência: eu achava que não tinha barreira.”

    Impulsionada por esta determinação até hoje, ela incita as  mulheres a "serem aquilo que ainda não são”. “Façam”, diz. “Eu sei que tem as barreiras, as dificuldades, mas é isso: decida fazer. Vamos buscar o caminho.”

    A escritora também não deixa de lembrar as violências de que milhares de mulheres são vítimas todos os dias. "Deveria ser mais rápido, porque a cada morte, a cada violência, a gente sente que a urgência dessas coisas mudarem é muito grande. Falta muito e tinha que ser mais rápido”, salienta.

    "No entanto, eu sou uma pessoa que acredita que já existe um ponto de irreversibilidade nisso. É claro que a gente fica assustada quando vê esse crescimento da extrema direita, do conservadorismo, todas essas coisas assustam e a gente fala: não tem nada garantido. Mas tem uma consciência ampliada, você pode até ter mecanismos externos para oprimir isso, mas você não destrói isso. A gente não 'desvê' o que a gente viu”, analisa.

    Personagens 'de carne e osso'

    Quanto aos seus livros, Carla diz que os leitores percebem que suas personagens não são só boas ou más, mas são pessoas reais, "de carne e osso". Essa característica, avalia, gera empatia. Os livros da Carla não são fáceis, mas muitos leitores dizem que é impossível parar de lê-los.

    "Todos nós temos essas potências de bem e de mal e a gente vive equilibrando essas forças dentro da gente. Esse é o grande exercício da vida: você passar por todas as circunstâncias que a gente passa, ver tudo o que a gente vê, lidar com toda a imprevisibilidade, todas as dores, toda a falta de controle que a gente tem sobre a vida. Eu acho que a gente vai chegando nessa essência do humano”, disse.

    Ela então remonta à infância para explicar como chega às históricas que conta em suas obras. "Eu já tinha um desejo enorme de escutar essa voz interna, imaginar coisas. Sempre fui uma pessoa de muita imaginação e de necessidade de uma certa solidão, desse espaço de ficar sozinha pra poder imaginar, aprender meu instrumento, compor, pintar.”

    E se “imaginar é sempre revelar um pouco de si mesma”, como ela diz, o que tem de Carla Madeira nos livros de Carla Madeira? "Tem uma coisa que atravessa, que não é propriamente da temática, mas da musicalidade, da sonoridade, essa relação com o ritmo, com a música, quase uma métrica”, responde.

    “Eu venho de uma família religiosa, então acho que é uma questão que sempre me provoca grandes reflexões. Tem sempre fragmentos de coisas que eu vi, que eu vivi. Nunca é um fato específico, uma pessoa que está toda ali, mas são pedacinhos de pessoa, pedacinhos de movimento, de posicionamentos diante da vida ou de algumas questões que você vai vendo ao longo da sua vida que é a sua bagagem, a matéria-prima de todo autor, as coisas que o afetaram”, constata.

    Quarto livro 

    A autora já disse algumas vezes que “a gente escreve sobre o que nos afeta” e que “escrever é uma maneira de encaminhar as angústias”. Para ela, “escrever é sempre um encaminhamento, uma maneira de lidar com o real”.

    E é isso que está acontecendo agora, depois que Carla perdeu a sócia para um câncer fulminante. "Eu tinha me proposto a ficar um bom tempo sem escrever. Estou no meu quarto romance, queria ter esperado um pouco para poder ler, estudar, abrir a cabeça, viver, colher o material. Mas eu vivi um processo muito doloroso, ela teve um diagnóstico de câncer de pâncreas e eu fiquei impressionada”, relata.

    "Teve um dia que eu cheguei do encontro com ela, abri o computador e comecei a escrever o quarto livro”, completou. "Freud fala que entre a angústia e a capacidade de simbolizar essa angústia, através da linguagem, a gente vive um estado de desamparo. Acho que a gente tem sempre essa angústia que só se encaminha quando ela encontra uma linguagem, quando ela encontra palavra. Então, sim, eu continuo.”

    Esse paralelo com o real a leva a fisgar o leitor com tanta facilidade, avalia.

    “Uma obra é como se, por um instante, organizasse uma coisa que está espalhada dentro da pessoa. Acho que a minha literatura tem um pouco disso: isso aqui está comigo, faz parte de uma angústia minha, como que essa pessoa está falando uma coisa que é tão minha?"

    O quarto livro sairá, mais uma vez, pela editora Record. Mas ainda não tem data para a publicação. "Não terminei a história propriamente e quando eu termino a história, eu entro na parte que eu mais gosto que é começar a leitura, a releitura, lapidar, cuidar da textura, a parte que eu tenho mais alegria de fazer. Falta muito”, indica.

    Encontro com leitores no exterior

    Na Suíça, a autora Carla tem a chance de estar em contato com leitores que moram no exterior. “A literatura tem me dado a oportunidade de viver essas trocas, de sentir a ressonância do meu livro em uma pessoa que vive aqui, que lida com uma realidade completamente diferente da do Brasil. É muito bacana”, comenta.

    Nestes dias fora do país, ela também traz um olhar “preocupado" com o Brasil.

    “A gente saiu de um momento muito difícil, arriscado, um acirramento muito grande, com ameaças muito sérias à democracia, à liberdade de crença, de gênero, de escolhas”, ressalta. "Nesse momento, vejo com atenção e com um profundo desejo de que a gente consiga uma clareza maior, uma consciência maior do que a gente viveu pra que se afaste o máximo possível da possibilidade de um retorno a esse lugar em que a gente estava, muito preocupante.”

    Na Suíça, um país desenvolvido, a escritora também constata todo o caminho que resta pela frente ao Brasil rumo a uma melhor educação, maior segurança e, sobretudo, redução das desigualdades.

    “Se não for bom pra todo mundo, não vai ser bom. O que adianta uma minoriazinha usufruindo de tanta coisa e uma grande maioria numa situação material horrorosa, uma situação potencial horrorosa porque não pode explorar as suas capacidades”, questiona. "Eu fico torcendo muito porque eu acho que, se der certo, vai ser o melhor lugar do mundo.”

    29 min
  • “2023”: com participação de franco-brasileiro, coreografia da francesa Maguy Marin é ato político

    Falar sobre os cachorros dos últimos presidentes franceses, desde Charles de Gaulle, é uma alegoria adotada pela coreógrafa Maguy Marin para fazer um esboço político e socioeconômico da sociedade contemporânea. A peça “2023” mistura dança, sons e atuação dos sete intérpretes no palco, incluindo o franco-brasileiro Kostia Chaix.

    Patrícia Moribe, em Paris

    O espetáculo "2023" foi criado no ano passado e está em turnê pela França. Em Paris, acontece até 9 de março, no Les Abesses - Théâtre de la Ville. Mesmo assim, Maguy Marin repassa de tarde a peça antes de o público chegar à noite, conferindo movimentos, entonações e cobrando também do pessoal técnico.

    Os temas navegam pela crise da imigração tão atual, produto de uma sociedade que se empoderou às custas de outros, desde os tempos da colonização, passando por novas explorações e pela soberba da classe sempre dominante. “Eu acho que é uma forma de fotografia da nossa história social aqui na França, desde que o liberalismo entrou na política francesa até 2023; é uma fotografia parada em 2023 do que aconteceu e como é que o sistema midiático e político hoje”, diz Kostia Chaix, 28 anos, nascido no Rio de Janeiro.

    O engajamento político e social é uma tônica do trabalho de Maguy Marin. O lado criador vem desde os tempos em que era solista do grupo Balé do Século 20, de Maurice Béjart. Ela pesquisa e incorpora elementos teatrais em suas coreografias, o que a torna uma das criadoras marcantes da chamada Nova Dança Francesa. Um de seus trabalhos icônicos é “May B”, inspirado no teatro absurdo do irlandês Samuel Beckett, prêmio Nobel de Literatura. Em 2018, Lia Rodrigues e seus alunos da Escola da Maré, no Rio de Janeiro, apresentaram “May B” em Paris. Marin também acompanhou pessoalmente a preparação dos dançarinos.

    Preparação intensa

    Kostia Chaix conta que a preparação de “2023” teve várias etapas. Em uma delas, durante três semanas, o grupo se reuniu para “se conhecer, ler coisas, compartilhar jornais, filmes e ideias. “Nada a ver com o espetáculo. Depois, a gente se encontrou sete ou oito meses até a estreia em 8 de novembro de 2023”, lembra. O dançarino conta que as discussões históricas e sobre a atualidade continuavam em paralelo. “É jogo de ida e volta no palco, você tem uma ideia cênica, o grupo discute como melhorar ou até descartar a proposta.”

    Sobre como se tornou bailarino, Chaix mostra que é carioca, dizendo que nasceu “em dia de bloco de carnaval no Rio de Janeiro”. Mas explica: “acho que sendo brasileiro, a dança é parte da cultura; você fica vendo as pessoas dançando, é parte da sua vida e do dia a dia”.

    Inspirado por "Billy Elliott"

    Ele conta que uma influência importante foi o filme “Billy Elliot”, em que um garoto inglês descobre a dança clássica e enfrenta a família e tabus para ser bailarino. Na França, ele passou pelo Conservatório Nacional de Paris e, depois, pelo Conservatório Nacional de Lyon.

    Na formatura, Chaix experimentou o vocabulário coreográfico Maguy Marin. Depois de um tempo em Berlim, ele voltou para a França e, durante a pandemia, escreveu para a coreógrafa, dizendo que queria fazer “May B” de novo. O retorno veio logo e assim o franco-brasileiro passou a fazer parte de uma das companhias mais emblemáticas da Franca.

    Sobre o Brasil, Chaix gostaria de desenvolver algo, mas é consciente. “Já tem muitos artistas no Brasil que precisam ter visibilidade, que merecem essa visibilidade”, diz,  como os amigos da Escola da Maré, de Lia Rodrigues, e outros profissionais brasileiros atuando na Europa. “É um sonho para mim criar essa ponte e não ter o Brasil só para férias, é um pais muito mais interessante que isso”. 

    6 min
  • Dia dos Namorados: estudos desbancam Paris como "cidade mais romântica do mundo"

    Hoje, dia 14 de fevereiro, é o Dia dos Namorados em muitos países. É uma homenagem a São Valentim, suposto mártir católico do século 3. A tradição de se festejar o amor romântico se espalhou pelo mundo nos séculos seguintes. Paris sempre teve a fama de ser uma cidade ideal para o amor, com sua paisagem de monumentos, pontes e muitas atrações. Mas esse lugar privilegiado no pódio parece ameaçado. Pesquisas variadas apontam para outros destinos românticos, como Londres, Roma, ou Lisboa.

    Os apaixonados mergulham na tradição e comemoram. Muitos optam pelo romantismo de uma viagem, de uma cidade em especial. O comércio se esmera, com muitos corações vermelhos e cintilantes nas vitrines e sites. 

    No ano passado, uma pesquisa científica realizada pela Universidade de Wrocław, na Polônia, e publicada na Scientific Reports estudou fatores culturais, sociais e ambientais que pudessem influenciar as experiências e expressões do amor. O estudo não oferece um ranking, mas o jornal britânico The Daily Mail tirou conclusões a partir dos resultados. Por exemplo, a Hungria foi o país onde os casais se diziam mais felizes. Em seguida, Malásia e Portugal.

    Mas Londres? É o que aponta um levantamento do site de compras Ubuy, que se baseou na atratividade de algumas cidades em relação aos apelos de restaurantes finos, hotéis 5 estrelas e passeios românticos. Ubuy usou os dados do site TripAdvisor para fazer um ranking das capitais europeias.

    Londres saiu na frente, com 1505 prontos, traduzidos em 1361 restaurante, 138 hotéis de 5 estrelas e seis tours românticos. Paris chega logo em seguida, com 1440 pontos, referentes a 1275 restaurantes refinados, 105 hotéis multiestrelados e 60 roteiros românticos.

    Londres oferece mais que apenas chuva

    “Dizem que chove o tempo todo em Londres e não é isso. Londres tem dias cinzas. Chove, mas não todos os dias e bem menos que em muitos lugares”, explica a brasileira Tina Wells, que trabalha desde 2016 como guia em Londres.

    “Obviamente que Londres mudou, progrediu. Mas não na questão de comportamento das pessoas, o que mudou foi o olhar do mundo para Londres”, explica Wells.

    “As pessoas esnobavam Londres, hoje ainda esnobam e preferem Paris, Estados Unidos e Itália”, continua. “Mas com o advento das redes sociais, as pessoas postam no Instagram as coisas que elas fazem quando vêm a Londres e as pessoas que moram aqui e os guias também que postam. As pessoas começaram a enxergar a Londres e aí começaram a vir e gostar”.

    Tina Wells diz que há passeios para todos os gostos, mas para curtir um clima romântico, ela sugere um chá da tarde tradicional da Fortnum and Mason, um passeio pelo palácio de Kensington, na London Eye (roda gigante), com direito a uma taça de champanhe e caminhar pela beira do rio Tâmisa ao cair da noite. Para jantar, ela recomenta do Clos Maggiore, em Covent Garden e outros restaurantes com ‘rooftops’.

    “Se o tempo estiver bom, fazer um piquenique num parque Valentine's Day em Londres não deixa nada a desejar para nenhum outro lugar do mundo”, conclui Tina.

    Encantos de Paris

    Mas Paris, apesar das pesquisas desbancando a “cidade luz”, continua sendo Paris. A guia brasileira Edis Lima também dá dicas para se passar um dia bem romântico na capital francesa. “Eu sugeriria um passeio a pé por um dos bairros históricos de Paris que é Saint-Germain-des-Prés, um dos bairros muito charmosos de Paris, explorando ali o carré Rive Gauche, que é o quadrilátero dos antiquários e galerias de arte, passeando nessas galerias, entrando, se inspirando, compartilhando”, diz a guia.

    Depois, ela aconselha atravessar a ponte das Artes, que separa Saint Germain do Louvre, passar pelo interior do pátio do museu e pela pirâmide antes de um drinque. Para a noite, ela sugere um jantar com vista para a Torre Eiffel, como os badalados L'Oiseau Bleu, The Peninsula e Girafe.  

    No Brasil, o Dia dos Namorados é comemorado no dia 12 de junho, véspera do dia de Santo Antônio, o santo casamenteiro, celebrado em 13 de junho em Portugal. No Brasil, a data foi inventada pelo publicitário João Doria, pai do ex-prefeito João Doria Jr., de São Paulo, por motivos comerciais.

    Origens libertinas e pagãs

    Reza a tradição católica que a data seria festejada no dia de São Valentim, um padre católico que desobedeceu as ordens de um imperador no século 3 e continuou celebrando casamentos.

    Supostamente executado em 14 de fevereiro de 270 D.C., a mística da Igreja "vendeu" com sucesso a história do mártir valente protetor dos apaixonados, mas, segundo alguns especialistas, essa teria sido apenas mais uma maneira da poderosa instituição religiosa da Idade Média se apropriar de uma festa eminentemente pagã e de fundo libertário e libertino, que celebrava a fecundidade - a Lupercalia romana.

    Como a maioria das tradições religiosas pagãs, explica Jean-Claude Kaufmann, sociólogo e pesquisador do CNRS francês, "os homens andavam pela cidade chicoteando as mulheres no estômago com tiras de couro para torná-las férteis". Como essas celebrações geralmente terminavam em bacanais [festivais religiosos celebrados na Antiguidade, regados a vinho], os cristãos logo teriam tentado acabar com estas festas apócrifas, incorporando-as a seu próprio calendário.

    No século V, o Papa Gelásio I decidiu combater a Lupercalia introduzindo um festival da purificação da Virgem Maria em 2 de fevereiro, que se tornou a Candelária, e depois um festival de amor espiritual, celebrado em 14 de fevereiro. Nesse caso, o Dia dos Namorados, quando São Valentim foi auspiciosamente resgatado pela tradição canônica. 

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  • Espumantes brasileiros do Rio Grande do Sul conjugam elegância e festa na Wine Expo Paris 2024

    A Wine Expo Paris chega à sua quinta edição na capital francesa reunindo mais de 4 mil produtores de vinho e espumantes de 48 países. Sob a égide das mudanças climáticas e dos desafios econômicos e sociais decorrentes, a edição 2024 quer discutir os novos rumos do setor num planeta em crise, mas que ainda celebra Baco, o antigo deus do vinho, com gosto e galhardia. No menu principal, destaque para os espumantes brasileiros do Rio Grande do Sul, exportados pela tradicional Casa Valduga.

    Luísa Valduga é de Bento Gonçalves, "no sul do Rio Grande do Sul", responsável pelas exportações do grupo Família Valduga. Ela conta que, apesar de já ter participado da Wine Expo quando o evento era sediado em Bordeaux (sul), em 2024 é a primeira vez que a empresa expõe em Paris, a convite do próprio evento, com o objetivo de "representar o Brasil e buscar novos parceiros não só na França, como em outros países europeus".

    Luísa elogia o fato de a feira ter oferecido a possibilidade de fazer networking com compradores antes do evento começar. "Eu queria parabenizar a feira por proporcionar uma oportunidade da gente encontrar os compradores antes do início do evento. Então a gente teve informação e acesso aos nomes e aos países de vários compradores. Meu objetivo aqui é conseguir novos contatos em alguns dos países nos quais ainda não tenho distribuição aqui na Europa. A França com certeza está entre esses países, mas a gente tem uma lista ainda muito longa para conquistar", disse a herdeira da empresa, que é hoje uma das maiores exportadoras de vinhos e espumantes do Brasil para o exterior.

    A representante dos vinhedos dessa tradicional família de Bento Gonçalves detalha as qualidades do produto brasileiro, em exposição na capital francesa. "Nós temos um excelente reconhecimento, principalmente pela nossa elaboração de espumantes. Somos muito focados na produção dos espumantes pelo método tradicional, o mesmo método do champanhe, e nós também utilizamos as mesmas uvas, Chardonnay e Pinot Noir", diz Valduga.

    "Elegância e festa"

    "Aqui hoje nós também trazemos outra linha, que se chama Ponto Nero, em que os espumantes são elaborados pelo método Charmat, que traz um pouco mais de leveza, um pouco mais de frescor. Trouxemos essas duas linhas para mostrar o potencial do Brasil", afirma a jovem empresária do Rio Grande do Sul. "Não só fazendo produtos que servem muito bem eventos e que remetem a festa, que é o que muita gente pensa do Brasil, mas também produtos que tenham elegância e que podem sim agradar paladares exigentes, como o dos europeus", enfatiza.

    Reação dos europeus

    Luiza Valduga relata a reação dos europeus ao vinho brasileiro. "É sempre uma surpresa falar que o Brasil produz vinho fino, ainda por cima espumante. Mas quando a gente começa a contar a história, sempre tem uma receptividade muito grande. E é importante fazer a degustação e deixar claro que a Casa Valduga produz os vinhos no sul do Brasil, onde temos um clima adequado e conseguimos ter uma boa acidez para elaborar espumantes de alta qualidade", diz Luísa Valduga.

    "Atualmente nós produzimos em torno de 2 milhões de litros anuais. Hoje, 30% são vinhos e 70% são espumantes. Estamos presentes em cinco países, mas queremos crescer cada vez mais. A representatividade das exportações gira em torno de 10%", conta. 

    Da França para o Brasil

    Fundador e proprietário da maior exportadora de vinhos franceses no Brasil, a Chez France, o francês Philippe Ormancey conversou com a RFI na abertura da Wine Expo Paris. "Criei essa empresa em 2012, chegando no Brasil numa outra carreira internacional, na área do aço [AcellorMittal]. E quando cheguei, não havia uma boa oferta de vinhos franceses ou tinha muito pouca coisa nos supermercados, mas de qualidade ruim ou vinhos super caros. Então eu decidi, com amigos, montar uma boa oferta dos vinhos da minha cultura, dos vinhos da França", conta.

    Ormancey elogiou a qualidade dos produtos brasileiros. "Teve uma grande procura dos vinhos chamados domésticos no Brasil. E a qualidade melhorou muito. A única preocupação de dessa cadeia produtiva no Brasil é que são pequenos produtores, é uma produção muito familiar e que não tem realmente essa força para poder investir e exportar", avalia o empresário francês, que mora no Brasil desde 2007. 

    Eduardo Cavalcanti, sócio brasileiro de Phillippe na Chez Brasil, falou sobre o paladar do público brasileiro quando o assunto são vinhos e espumantes. "O brasileiro gosta do bom vinho sempre, e naturalmente o vinho francês de qualidade, mas, sobretudo, aquele vinho que vai despertar uma curiosidade, aquilo que você nunca provou, nunca degustou", comentou. 

    Ormancey comentou sobre a preferência do público brasileiro. "Vendo nossas ofertas [de vinhos franceses no Brasil], realmente acho que os vinhos brancos têm uma preferência. Claro que o consumo ainda é de maioria tinto, mas hoje em dia realmente tem uma demanda cada dia mais forte de vinhos brancos finos, sem madeira, vinhos com frescor, que podemos beber com essa gastronomia maravilhosa que temos no Brasil. E acho que essa tendência nem é só no Brasil, é mundial", concluiu.

    A Wine Expo Paris de 2024 acontece no centro de exposições de Porte de Versailles até o dia 14 de fevereiro.

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  • Brasil pode ancorar transição energética europeia, diz governador de São Paulo em Paris

    O governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas, finalizou seu giro internacional em Paris, nesta sexta-feira (9), com a intenção de firmar parcerias com o setor privado internacional em áreas de infra-estrutura e mobilidade urbana. Ele conversou com a reportagem da RFI na sede da Embaixada do Brasil em Paris, quando também falou sobre a operação da PF, o acordo Mercosul-União Europeia, privatizações como a da Sabesp e a recente polêmica envolvendo seu encontro com Lula.

    Questionado sobre a atual operação da Policia Federal "Tempus Veritatis", ou a "Hora da Verdade" em latim, Tarcísio de Freitas afirmou que "não tem conhecimento dos detalhes" do procedimento que balança atualmente as estruturas políticas brasileiras, sobretudo aquelas ligadas ao ex-presidente Jair Bolsonaro. "Eu não estou a par de tudo que está acontecendo, (...) fica difícil para mim até emitir uma opinião, comentar", afirma o governador do estado de São Paulo.

    "Não sei o que que está na delação, nem vi esse documento, não sei do que se trata. E depois, mesmo que um estado de sítio fosse decretado, ele precisaria ter autorização do Congresso brasileiro, do conselho da República", insiste Freitas. 

    "O fato é que houve a transição, foi instalado num gabinete de transição [depois da eleição de Lula para seu terceiro mandato]. A transição ocorreu, nós tivemos a posse de um novo mandatário no dia primeiro de janeiro. O presidente Lula assumiu o poder, foi eleito. Podemos discordar, do rumo das ideias, mas isso não importa. O que importa é que a gente tem um presidente que tem legitimidade para conduzir a sua política pública, da maneira em que a apresentou para a população", contextualiza o governador de São Paulo.

    Bolsonaro, "grande líder da direita"

    Para ele, no entanto, "Bolsonaro continua sendo o grande líder da direita. Foi ele que, de certa forma, mostrou um determinado caminho", avalia o governador, que foi ministro do ex-presidente Jair Bolsonaro entre 2019 e 2022. "Ele tem uma liderança, um carisma interessante. Todas essas incursões contra a imagem do presidente não afetaram a popularidade dele. Ele vai continuar sendo decisivo em termos eleitorais. E quanto ao meu futuro eleitoral, realmente é uma coisa que eu não penso. Nunca pensei", afirma Freitas, questionado se estaria recebendo algum tipo de convite para conversas destinadas a futuras chapas eleitorais no Brasil. 

    Otimista com giro europeu

    O governador de São Paulo se mostrou otimista sobre o balanço desse seu primeiro giro internacional de 2024 na Europa. "Entendo que a gente atingiu os objetivos da nossa missão, queríamos apresentar a nossa carteira de projetos, porque esse ano é decisivo para nós", afirmou. "Em termos econômicos, o estado de São Paulo representa 1/3 do PIB brasileiro, e nós temos um programa de infraestrutura muito ambiciosa. Esse ano vamos fazer uma série de ofertas com a iniciativa privada de ativos de infraestrutura. Então teremos privatizações, concessões, parcerias público-privadas", contextualizou Freitas.

    O governador disse que o objetivo na Europa era "despertar o interesse de investidores que já estão no Brasil, mas que podem aumentar a sua exposição, ou aqueles que ainda não estão no Brasil. E a gente teria interesse de vê-los trabalhando conosco, principalmente na área de mobilidade urbana", apontou à RFI.

    Novos operadores ferroviários

    "Um dos nossos objetivos, era trazer novos operadores ferroviários, para ajudar nas obras e nos projetos de metrô e de trem metropolitanos", sublinhou Freitas. "Apresentamos, por exemplo, o projeto do túnel, que vai ligar Santos ao Guarujá, de grande relevância para nós. É algo desejado pela sociedade paulista há 100 anos... Mostramos também parcerias público-privadas para projetos sociais, como escolas, habitação. Falamos dos projetos de rodovias, hoje temos 8 rodovias no estado de São Paulo sendo ofertadas, além de falar da privatização da nossa empresa de energia e da nossa empresa de saneamento", apontou o governador de São Paulo.

    Privatização da Sabesp

    O governador de São Paulo admitiu que a privatização da empresa de saneamento não é consenso entre os cidadãos. "A Sabesp de fato, toda vez que você discute privatização, tem milhões que são favoráveis e contrários. Nós entendemos que essa privatização da Sabesp vai deixar um grande legado para o estado de São Paulo, que é o legado da universalização do saneamento", afirmou Freitas.

    "Estamos prevendo muitos investimentos. O projeto está sendo muito bem estruturado, vai dar muita segurança para os investidores e já é um grande caso de sucesso, apesar de toda a sua complexidade", acredita. "A empresa nessa nossa gestão já ganhou R$18 bilhões de valor de mercado, ou seja, isso significa que tem um mercado atento, ativo e que já está se posicionando. E que não vai esperar a privatização para marcar suas posições", aponta. 

    "O que a gente espera é levar água para todos", insiste Freitas. Sobre outras parcerias internacionais durante o giro, Freitas afirmou que "saímos daqui com a determinação para uma concessionária italiana, que já trabalha conosco, para que eles façam o projeto da terceira pista da [rodovia] Imigrantes, para que eles façam o projeto da Perimetral. São investimentos de grande monta. A gente está falando aí de aproximadamente R$ 7 bilhões, e esses investimentos vão estar à disposição da sociedade de Santos, tão logo o projeto fique pronto", acredita o governador.

    Acordo Mercosul-UE

    À frente de um estado brasileiro que possui um PIB maior do que países europeus como Bélgica e Suécia, Tarcísio de Freitas acredita que "o acordo União Europeia Mercosul seja fundamental "para ambos os lados". "Entendo que a gente ainda tem um comércio bilateral tímido que pode ser multiplicado, caso esse acordo aconteça realmente", diz Freitas.

    "Eu acho que a Europa, mais do que nunca depois da crise do Covid, sobretudo depois da guerra da Ucrânia, tem a necessidade de ter parceiros confiáveis, principalmente no segmento de energia. E o Brasil tem um potencial muito grande de ser esse parceiro confiável, na utilização da biomassa, do biometano, do biogás, do combustível sustentável para aviação de hidrogênio verde, obtido a partir da reforma de etanol", sublinhou o governador, que afirma que "o Brasil pode ancorar a transição energética" do continente europeu.

    Lula: "Antagônicos pelo bem comum"

    O governador paulista chegou a ser vaiado por alguns correligionários ao anunciar, ao lado do presidente Lula, na sexta-feira (2), as obras do túnel imerso que ligará as cidades de Santos e Guarujá, no litoral de São Paulo. "A ideia ali era trabalhar em colaboração e mostrar que eu posso ter um presidente de esquerda, um governador de direita, ou seja, pensamentos antagônicos que trabalham pelo bem comum", afirmou.

    "Essa é a grande demonstração, que a gente pode botar o interesse do cidadão em primeiro lugar. Vamos fazer um projeto de forma colaborativa, governo do estado e governo federal vão atuar juntos, olhando o interesse público, o interesse do cidadão, é isso que importa. Acho que o cidadão vai ver um projeto que era sonhado há praticamente 100 anos, que vai ser viabilizar pelo trabalho conjunto de governantes que se opõem", concluiu Freitas.

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  • Diferenças legais podem dificultar prisão de egípcio acusado de ter sequestrado filho no Brasil

    Mesmo com o nome do filho agora incluído na lista de crianças desaparecidas da Interpol, o egípcio Ahmed Tarek Mohamed Fayz Abedelkalec parece não se preocupar. Em 2022, ele saiu do Brasil e voltou para o país onde nasceu trazendo o filho que teve com a brasileira, Karin Aranha, com quem foi casado. Eles viviam em Valinhos, no interior de São Paulo, mas na época ela estava na Inglaterra, onde passou 10 meses trabalhando. No fim do ano passado, uma juíza federal de Campinas determinou a prisão preventiva do egípcio. Ao saber que a Polícia Federal do Brasil encaminhou este pedido de prisão para a Organização Internacional de Polícia Criminal, Ahmed demonstrou indiferença. 

    Vinícius Assis, correspondente da RFI no Egito

    Contrastes legais, religiosos e culturais podem dificultar a prisão do pai que, no Brasil, é acusado de sequestro. Uma fonte do Itamaraty confirmou, informalmente, à reportagem que a discussão na Justiça do Egito atualmente é exatamente se o que Ahmed fez pode ser considerado sequestro ou não pela legislação local. A RFI conversou ainda, no Cairo, com quatro advogados egípcios sobre as leis do país em casos como este (que não é o primeiro, como revela uma uma breve busca na internet). Dois deles concordaram em ser citados na reportagem. “Dificilmente ele seria preso pelo crime de sequestro aqui”, disse o advogado George Abass, que já defendeu, inclusive, brasileiros que foram presos por outros motivos no Egito. “A menos que a Interpol solicite oficialmente”, completou a advogada especializada em Direitos Humanos Huda Nasrallah.  

    A Polícia Federal do Brasil encaminhou o pedido de prisão dele à Interpol em dezembro, embora o nome de Ahmed não esteja no site oficial. Isso realmente pode acontecer em se tratando de determinados crimes ou do objetivo dos investigadores. Mas o cumprimento do mandado segue a legislação de cada país membro. No caso do Brasil, por exemplo, este tipo de pedido de prisão precisaria ser aprovado pelo Supremo Tribunal Federal para acontecer. 

     

    Encontro com o pai, mas sem a criança

    A RFI localizou o egípcio com facilidade no Cairo. Ahmed informou à RFI que o filho está sendo bem cuidado e estudando em uma boa escola. “O menino não está desaparecido. A embaixada do Brasil no Egito sabe onde está o menino, a comunidade brasileira sabe quem eu sou, sabe onde estou. Todo mundo sabe. Ele está comigo, está com o pai. Está tudo certo”, disse. Ahmed contou também que atualmente trabalha com venda de propriedades em Dubai e está em um novo relacionamento amoroso. 

    O egípcio tem contato frequente com brasileiras que vivem no Cairo. Mulheres com as quais a reportagem também conversou e confirmaram este contato com ele, mas que é feito apenas por telefone. De acordo com o pai, o último encontro do filho com algum representante da embaixada brasileira no Cairo aconteceu quase três meses atrás e atualmente não há contato entre ele a mãe do menino, com quem se casou oficialmente no Brasil. “Ele simplesmente me cancelou da vida do meu filho, mas tudo tem um preço” disse a mãe da criança que hoje tem 5 anos. 

    Ahmed prefere não revelar o endereço de onde vive com o filho e a família, alegando privacidade. Mas repete que não está escondido e que Karin sabe onde eles moram. 

    Ainda segundo o egípcio, os dois se conheceram na internet (pelo Instagram) quando ele tinha 19 anos e ela 35. A brasileira, que já tinha um filho, fruto de um relacionamento anterior, veio, então, conhecer Ahmed, em 2018. Karin disse à reportagem que passou cerca de seis meses no Cairo vivendo com ele. Os dois acabaram indo juntos para o Brasil, onde ele, lutador de judô, disse que teria uma oportunidade de trabalho no interior de São Paulo como professor. 

    Karin e Ahmed foram ouvidos para esta reportagem. Ao serem entrevistados, ambos trocaram graves acusações e críticas sobre o comportamento um do outro, apresentando às vezes versões diferentes sobre alguns fatos. Mas fica claro que, com o tempo, passaram a viver uma rotina de discussões e brigas. “Ele teve todo tempo do mundo para entrar na Justiça brasileira, para pedir a guarda do Adam, para fazer o que tinha que fazer da forma correta. Ele não fez”, frisou a mãe. Perguntado porquê nunca denunciou a brasileira, já que a acusa de maus tratos, o pai do menino disse que certamente não seria ouvido. “Eu vejo que a justiça brasileira não vai ficar do lado de um homem estrangeiro, egípcio”, justificou.

    A saída do Brasil com o filho

    Karin voltava para o Brasil confiando na mensagem que disse ter recebido do então marido afirmando que ele a buscaria no aeroporto de Guarulhos, no dia 20 de setembro de 2022. As mensagens foram trocadas enquanto ela fazia escala em Portugal. “No mesmo dia ele disse que me amava”, ressaltou a brasileira. Na entrevista, Karin contou que dois dias antes de voltar fez uma chamada de vídeo com o filho para que a criança escolhesse um dinossauro. “Ele participou da chamada e já sabia o que ia fazer”, contou. 

    Enquanto isso, Ahmed já tinha encontrado um jeito de sair do Brasil com o filho, o que ele insiste em dizer que não fez ilegalmente. Afirmou que o relacionamento estava desgastado e o fato de Karin ter ido para a Inglaterra sozinha piorou a situação entre o casal. Na entrevista, o egípcio chegou a insinuar que ela fazia um trabalho “questionável”. Enquanto isso, a mãe do filho dele diz que trabalhava fazendo faxina para mandar dinheiro ao então marido e os filhos. Karin afirmou ainda que ao voltar ao Brasil encontrou o apartamento onde moravam destruído e que o egípcio desapareceu com dinheiro que mandou, além de documentos dela e da mãe da brasileira, que já faleceu. Sobre o dinheiro, ele afirma já ter gastado pagando dívidas dela e cobrindo despesas do dia a dia da casa. 

    Ahmed foi de ônibus para o Paraguai, de onde embarcou para o Egito, com escala na Espanha. Ele diz ter escolhido sair por Assunção por conta do custo final da viagem, supostamente menor, o que foi considerado suspeito para autoridades brasileiras. Ao longo da viagem pela estrada, na fronteira do Brasil com o Paraguai e nos aeroportos pelos quais passaram, Ahmed afirmou ter sido questionado por policiais sobre os documentos do filho. O menino nasceu nos Estados Unidos para ter a cidadania do país, contou o pai. Foi o passaporte americano que ele usou para viajar com o filho.

    Ahmed contou também que mostrou uma permissão obtida nos Estados Unidos para que o filho viajasse apenas com um dos pais. Esta autorização estava no passaporte brasileiro do menino. Foi emitida para que a mãe voltasse ao Brasil com a criança, então recém-nascida. O documento já havia vencido, mas nenhuma autoridade de nenhum país o impediu de viajar por conta disso.  

    O egípcio ainda fala da ex-mulher com muito ressentimento, garantindo que o filho nem pergunta pela mãe. Mas, ao mesmo tempo, diz que Karin pode vir ao Egito quando quiser para ver a criança. 

    O dinheiro das vaquinhas virtuais 

    A brasileira tem feito vaquinhas na internet para conseguir dinheiro e arcar com as despesas com advogados para tentar rever o filho. Na entrevista, ela disse “não ter ideia” de quanto já arrecadou. “Tudo o que eu recebo na minha conta bancária é repassado para os meus advogados e eu tenho prova disso”, esclareceu na entrevista que foi acompanhada por dois advogados dela. 

    Karin não quis dizer se atualmente está ou não no Brasil. “Gostaria de não responder, até para minha própria proteção”, justificou. Mas afirmou que se prepara para vir ao Egito em breve. Questionada sobre porquê não veio ainda, alegou “questões da justiça brasileira” e preocupação com a própria vida. “Eu sou a vítima, meu filho foi vítima, foi tirado de forma absurda, tirado da mãe. O meu objetivo é ser mãe do meu filho que foi sequestrado”, destacou, reforçando que atualmente é a guardiã legal do Adam e que se divorciou do pai, que ela prefere chamar de "genitor". 

    O egípcio conta que fornecia constantemente informações e imagens da criança, mas como a mãe passou a usar este conteúdo em redes sociais em campanhas para pedir dinheiro ele decidiu parar.

    Sobre a guarda da criança

    Os advogados ouvidos pela RFI disseram que o assunto é complexo e há vários caminhos. Eles concordam que o melhor a ser seguido para Karin é vir ao Egito e investir no diálogo pela guarda do filho, o que ela já conseguiu no Brasil. Mas se o pai obteve a guarda da criança no Egito caberá ao Supremo Tribunal Constitucional do país tomar a decisão final, lembrando que Ahmed também é um cidadão brasileiro. “A mãe precisará provar o veredicto brasileiro perante o Tribunal egípcio. Então, ambos veredictos serão contestados e o Tribunal Constitucional decidirá qual veredicto de custódia prevalecerá”, explicou Huda Nasrallah. 

    No Egito, em caso de divórcios, hoje em dia a mãe tem quase que automaticamente a guarda dos filhos do casal até que estes completem 16 anos e possam decidir com quem viver, segundo o advogado George Abass. O pai tem direito de manter contato frequente com o filho, mas pode ser preso se não respeitar que a guarda é, de fato, da mãe. A pena por desrespeitar isso está prevista no art 292 da Lei de Punição: até um ano de prisão ou multa de 500 EGP (moeda local, que equivale a cerca de R$ 80, pela atual cotação oficial). 

    E como observaram advogados locais, o Egito é um país de maioria muçulmana, onde as leis seguem princípios islâmicos, o que pode acabar favorecendo o lado muçulmano do caso. O pai pode reconhecer que Karin tem a guarda do filho diante da justiça egípcia, mas exigir que ela não deixe o país dele até a adolescência do filho do casal. 

    O artigo 20 da Lei de Família egípcia estabelece ainda condições para que um dos pais mantenha a guarda do filho. “A reputação é muito importante para a Justiça nesses casos”, lembrou Abass. O entendimento sobre o conceito de má reputação pode ser divergente, levando em consideração as diferenças culturais entre os dois países. “Se ela oferece risco à segurança do menino, usa drogas, tem relações sexuais”, destacou o advogado citando alguns exemplos que podem ser usados, talvez, pelo pai da criança diante da Justiça egípcia. 

    Ambos advogados não conhecem as partes envolvidas neste caso e analisaram genericamente a situação. "De acordo com o que você disse, o pai está dizendo coisas sobre a reputação da mãe com provas que ele pode apresentar ao Tribunal, isso pode afetar a situação dela no caso se o Tribunal aceitar essas provas”, destacou a advogada especializada em Direitos Humanos, Huda Nasrallah, que lembrou de um caso semelhante envolvendo uma francesa e um egípcio, cerca de 10 anos atrás. 

    “Se ficar claro que ela não tem condições de ter a guarda da criança, a próxima opção prevista na lei é a avó materna. Se esta também não tiver condições ou tiver falecido, a Justiça no Egito pode dar a guarda do menino para a avó paterna”, explicou George Abass, com base no que diz a lei local. 

    Se por um lado Ahmed está confiante de que não será preso no próprio país, nem será separado do filho, por outro a perseverança de Karin é grande, assim como a equipe que ela diz que a apoia. “Quem deve para a Justiça é ele, não sou eu. A única coisa que eu quero é o meu filho, que não tem que ficar na mão de um criminoso. Nossa história já acabou, só que existe uma criança nisso tudo”, disse a brasileira.

    Karin afirmou estar recebendo apoio de mulheres de vários países. “Pessoas que abraçaram a causa e viram o quanto eu sofri”, reforça. “Quero muito reencontrar meu filho e poder ser mãe, porque me tiraram o direito de ser mãe do meu filho, que nasceu lá nos Estados Unidos. Ficou 13 dias na UTI e eu ficava o dia inteiro naquela UTI”, disse, aos prantos. “Eu sei o quanto eu fui mãe”, disse, antes de afirmar que os pais de Ahmed são cúmplices nessa história. “Isso não vai ficar assim. Eu vou ser mãe e vou lutar pelo filho até o meu último dia”, concluiu. 

    Segundo o ministério das Relações Exteriores do Brasil, o assunto está sob responsabilidade do Ministério da Justiça e Segurança Pública, mas que, através da embaixada brasileira no Cairo acompanha o caso e prestou a assistência consular cabível. E alegando a privacidade dos envolvidos, não forneceria detalhes. 

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  • Protestos de vítimas da tragédia de Mariana-MG marcam audiências sobre o caso em Londres

    Os dois dias de audiência sobre a maior ação ambiental coletiva do mundo movida contra as mineradoras Vale e BHP na corte de Londres pelo rompimento da barragem de Fundão em Mariana (MG) em 2015 foram marcados pelo protesto de mais de 50 vítimas, nesta quarta (31) e quinta-feira (1°), no Reino Unido.

    Yula Rocha, correspondente da RFI em Londres

    Entoando cantos tradicionais, em homenagem ao rio Doce destruído pela mineração, lideranças do povo Krenak, representantes quilombolas, famílias de vítimas, prefeitos e procuradores de 15 cidades de Minas Gerais ocuparam a porta da corte de justiça de Londres.

    Eles levaram faixas com uma montagem do rio Tâmisa - de 346 km de extensão desde o sul da Inglaterra, que passa por Oxford e Londres, e desagua no mar do Norte - inundado de lama e a provocação: “Imagine se tivesse acontecido aqui.”

    Há oito anos, os rejeitos tóxicos da barragem do Fundão chegaram até o Espirito Santo e contaminaram o rio Doce, ou Watu na língua indígena, que abastece 230 municípios brasileiros, e é considerado sagrado pelo povo Krenak. Cerca de 600 deles ainda resistem às margens do rio, como conta à RFI Marcelo Krenak, uma das lideranças indígenas que lembra com pesar de 5 de novembro de 2015, data em que a barragem desabou.

    "Desde aquele dia onde assassinaram o nosso rio, o nosso povo sofre todos os dias o mesmo crime. Porque o nosso rio está ali, mas não podemos fazer contato. O rio é vida para o provo Krenak. Hoje, estar aqui é buscar justiça. Dizer que eles foram lá e tiraram o que de melhor tínhamos e estamos buscando que devolvam uma parte para nós", diz o líder indígena.

     

    Luta por justiça

    Os Krenak viajaram a Londres com mais de 50 vítimas de um dos maiores crimes socio-ambientais do Brasil para acompanhar os dois dias de audiência do caso do rompimento da barragem de Mariana. As sessões na corte inglesa definem o cronograma do julgamento marcado para outubro, que em caso de condenação podem custar às mineradoras BHP e Vale - controladoras da Samarco que operava a barragem - indenizações de até R$ 230 bilhões em danos reparatórios.

    Felipe Hotta, advogado e sócio da Pogust Goodhead, escritório de advocacia que move a ação nos tribunais ingleses, aponta que é impossível colocar um valor nas 20 vidas perdidas. “O que fazemos é tentar trazer um pouco de conforto às pessoas que sofreram essa perda”, diz.

    Geovana Aparecida Rodrigues da Silva, mãe de Tiago, menino morto aos sete anos no desabamento da barragem, desabafa à RFI sobre sua luta diária por justiça, embora saiba que não há indenização que compense sua dor.

    “Você sofre todos os dias e se pergunta - 'ô Deus, por que tem que ser assim?' A resposta está na nossa frente: a ganância (das mineradoras), o dinheiro fala mais alto em tudo. Mas não assassinem desse jeito porque dói demais”, clama emocionada.

    A Pogust Goodhead, organização que representa 700 mil atingidos, contratou como consultor de direito administrativo, o ex-ministro da Justiça do governo de Dilma Rousseff, José Eduardo Cardozo. Ele acredita que após oito anos de "embromação das mineradoras em se chegar a um acordo", as vítimas podem finalmente ser compensadas.

    “Nós temos aqui na ação na Inglaterra a alternativa mais rápida e justa para se resolver um problema que se arrasta há anos por conta da inércia das mineradoras”, aposta.

    Segundo o advogado, uma eventual condenação da Vale e BHP na Inglaterra passa um forte recado à indústria mineradora e cumpre três objetivos importantes - de se reparar às vítimas, prevenir novos crimes e educar. “Se a impunidade prevalece, o interesse pelo lucro também prevalece a despeito da prevenção”, conclui Cardozo.

    Legado de um crime

    O prefeito de Mariana, Celso Cota, revela que está investindo no fortalecimento da Secretaria de Meio Ambiente e na fiscalização das minas que continuam ativas na cidade. Segundo ele, este foi o legado que o crime, ainda sem fechamento, deixou.

     

     

    “No Brasil temos a máxima de que a justiça é tardia, mas chega. Porém, muitas vezes ela é ineficaz, porque ela tem que vir a tempo de curar as feridas e, em Mariana, a ferida está só se abrindo”, enfatiza Cota.

     

    Desde 2018, a anglo-australiana BHP enfrenta nos tribunais de Londres essa que é a maior ação ambiental coletiva do mundo. Em 2022, quando a corte inglesa confirmou a jurisdição do caso, a empresa entrou com pedido para que a Vale também respondesse pelo pagamento de eventual indenização. Após recorrer e perder todos os recursos apresentados, a Vale foi finalmente incluída no processo.

    O julgamento, marcado para outubro em Londres, traz esperanças para a coordenadora geral do caso, a advogada Cintia Ribeiro de Freitas.

    "O que a gente espera do julgamento da corte inglesa é que haja efetividade nas questões judiciais porque o cumprimento de sentença de qualquer decisão judicial é extremamente penoso no Brasil, se não houver boa vontade da outra parte não existe efetividade no cumprimento de uma reparação integral", detalha Cintia.

    Na porta dos tribunais em Londres, Thatiele Monic Estevão, representante de quatro comunidades quilombolas de Minas Gerais, tratou da palavra justiça com reserva. Uma vitória parcial é que falar e ser ouvida.

    “É extremamente gratificante estar aqui inserido dentro do processo, porque aqui a gente não fala apenas de um processo de reparação, mas a gente fala da história do povo quilombola. E a gente traz ao mundo quem somos nós e porque é que lutamos para sermos ouvidos”, explica Thatiele.

    7 min

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