
Sign up to save your podcasts
Or


Após anos de contração econômica, novas alternativas de crédito começam a surgir para os venezuelanos. Uma empresa privada e alguns bancos oferecem modalidades de crédito à população para facilitar o acesso a bens e serviços. Os consumidores aproveitam o crediário para parcelar roupas, viagens, motos, eletrodomésticos e até serviços médicos.
Elianah Jorge, correspondente da RFI Brasil na Venezuela
A pioneira é Cashea, que surgiu no mercado venezuelano no final de 2023. Para garantir a rentabilidade em um país com frágeis garantias legais, esta empresa – em parceria com o estabelecimento comercial afiliado – aplica o chamado “desconto cego”. A cada compra feita pelo consumidor, a companhia recebe um pequeno percentual. Os limites de crédito chegam a US$ 200 e o consumidor pode pagar em até três parcelas.
As transações de crédito e de pagamento são feitas por um aplicativo, explica Daniesca Borges, uma jovem consumidora que recorre a essa modalidade para comprar roupas e acessórios:
“Você usa o aplicativo, vai à loja e escolhe os produtos. Quando vai fazer o pagamento, eles registram o seu perfil de usuário, cobram a metade na loja e sincronizam tudo com o aplicativo da empresa que oferece o crédito", conta. "Chega [no celular] a notificação do produto que você está comprando, a informação da data das parcelas a serem pagas e o valor de cada uma delas.”
No ano passado, o Produto Interno Bruto (PIB) da Venezuela cresceu 2,6%, de acordo com o Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (Pnud). Embora tenha subido, o índice ainda está muito distante da chamada era da Venezuela Saudita, período entre as décadas de 1950 e 1980, quando o país era rico e a moeda nacional, o bolívar, tinha alto poder de compra.
Apesar do salário mínimo de US$ 3,20 ( R$16,30), a população conserva hábitos consumistas. Há sede de consumo e de créditos na Venezuela. Em pouco meses o novo sistema de crédito registrou mais de um milhão de usuários e a afiliação é superior a 350 estabelecimentos em cinco cidades. Cashea se tornou o segundo aplicativo de finanças do país, atrás apenas do Banco de Venezuela, e está em 20° lugar na escala global.
A atividade comercial motivada pela empresa vem dinamizando a atividade comercial no país. Pelas redes sociais, Pedro Valenilla, cofundador de Cashea, informou que estabelecimentos afiliados à empresa contabilizam aumentos de até 20% nas vendas, além de atrair clientes.
O economista Luis Oliveros explica que, na atual situação da Venezuela, os bancos têm tido inúmeros problemas na concessão de crédito. "Há cerca de 10 anos, a carteira de crédito no país girava em torno de US$ 15 bilhões. Depois, com toda a crise econômica, a carteira de crédito caiu para US$ 300 milhões ou até menos", relembra.
"O último número divulgado pelo Banco Central da Venezuela aponta para uma carteira de crédito próxima de US$ 1,6 bilhões. Embora seja um aumento significativo em relação ao que tínhamos há 3 ou 4 anos, ainda está muito abaixo do que tínhamos como economia”, detalha Oliveros.
Anos de consumo baixoEnquanto os bancos choram, a empresa que oferece sistemas de crédito vende de tudo a clientes ávidos por comprar após anos consumo em baixa.
“Ainda há muito que crescer. A economia precisa de crédito e surgem empresas que têm ajudado os venezuelanos a ter algum acesso ao crédito, mas que não passam de intermediários. O que Cashea, por exemplo, faz é cobrar uma taxa daquela empresa e servir de intermediário para dar a essa pessoa 15, 30 ou 45 dias para pagar”, explica Oliveros.
A crise econômica e a incapacidade de intermediação financeira abalaram o sistema de crédito no país. Por anos, os bancos não concederam financiamento a clientes de médio e pequeno portes.
A economista e professora universitária María Antonia Moreno explica que um dos instrumentos usados para impedir a expansão secundária de dinheiro foi a implementação de uma taxa elevadíssima de reserva legal de quase 90%.
“A enorme contração da renda petroleira e as arrecadações tributárias afetaram a confiança para dar crédito. Por isso o governo começou com a monetização da parte do gasto público, o que gerou uma inflação e uma grande desvalorização cambial, que aprofundou a perda patrimonial dos bancos", relembra.
"Foi uma rígida política de repressão financeira que o governo usou para corrigir a hiperinflação e que o fez através do impedimento da expansão secundária de dinheiro e, assim, frear a desvalorização cambial e a inflação. Isso se traduz, na prática, pela eliminação de crédito bancário em todas as áreas", constata.
Inflação em quedaDe acordo com o presidente Nicolás Maduro, em 2024 a inflação registra o menor nível dos últimos 12 anos. Em abril, chegou a apenas 2%, bastante inferior aos experimentados entre 2012 e 2021, quando a desvalorização do bolívar teve forte impacto negativo nos créditos bancários.
“Com a hiperinflação, o crédito ao consumidor chegou a desaparecer praticamente para a maioria dos portadores de cartões de crédito. De acordo com algumas estimativas, o montante da carteira de empréstimos bancários nacionais em cartões de crédito teria atingido, até o final de 2022, apenas 0,4% do que havia 10 anos antes”, salienta Moreno.
O “plástico”, apelido dado ao cartão de crédito, virou motivo de piada entre os venezuelanos. Por anos, o valor permitido ao cliente servia apenas para comprar uma garrafinha de água.
De acordo com a Sudeban (Superintendência das Instituições Bancárias, órgão regulador do setor bancário), em 2014, antes do agravamento da crise econômica, 13% dos gastos feitos pelos venezuelanos com cartões de crédito foram em supermercados e 5% em centros médicos e farmácias. Outros 11% foram para lojas de roupas e calçados.
Atualmente, poucos clientes têm créditos bancários, que variam entre US$ 30 e US$ 200, conforme a comprovação da capacidade de reembolso. No entanto, estes valores não permitem a compra da cesta básica, orçada em US$ 554 (R$ 5.115), de acordo com a recente análise do Centro de Documentação e Análise Social (Cendas).
As limitações impostas às instituições bancárias fazem com que, na maior parte dos casos, apenas as pessoas jurídicas consigam certos benefícios. "Não é que haja mais burocracia agora, mas sim que o banco é menor em tamanho. Cerca de 70% dos empréstimos bancários são direcionados para empréstimos comerciais porque o banco tem limitações importantes na concessão de empréstimos", ressalta Luis Oliveros.
"Há uma reserva legal muito grande, mas além disso o banco tem um tamanho muito pequeno, portanto, as possibilidades de que ele tenha dinheiro para emprestar é menor. Então, o banco toma cuidado na hora de emprestar."
De acordo com o analista financeiro Henkel García, o crédito bancário é destinado principalmente a empréstimos comerciais para empresas e setor agrícola.
“O crédito ao consumidor ainda é muito baixo, embora agora comecemos a ver um pouco mais de limite no cartão de crédito para determinados clientes e também em alguns créditos a veículos, que também é uma carteira que está crescendo de forma incipiente", nota García. "Mas o resto do crédito ao consumo é muito, muito limitado."
Durante as duas semanas do Festival de Cannes, mais de 160 filmes, sendo 22 na competição oficial, prometem muita emoção e suspense até a cerimônia de encerramento, em 25 de maio. Mas a grande novidade desta 77ª edição não está nas telas tradicionais. Pela primeira vez, o maior festival de cinema do mundo criou uma competição de cinema imersivo com filmes de realidade virtual e aumentada.
Oito produções estão na disputa da primeira competição de obras imersivas de Cannes. Seis projetos são apresentados fora da competição. As obras foram feitas com tecnologia para óculos de realidade virtual ou aumentada que permitem aos espectadores habitarem outros corpos e épocas.
Elie Levasseur, diretor da nova competição, disse em entrevista à RFI, que o Festival de Cannes “busca desmistificar a ideia de que as obras imersivas são individuais ou que visam um público de gameplayers”. Por isso, a nova competição selecionou “apenas obras que são completamente coletivas, que são visualizadas a três e até a 25 pessoas”.
O Mercado de Filmes de Cannes já abria espaços para obras de realidade virtual ou aumentada, mas agora as produções ganham maior relevância. “Apresentamos uma nova forma artística, que não vai substituir o cinema, mas vai evoluir paralelamente com ele”, acredita Levasseur.
Obra de Iñárritu fez históriaA nova competição foi criada sete anos depois ter feito história ao selecionar a primeira obra de realidade virtual em um grande festival de cinema. Em 2017, a 70ª edição apresentou "Carne y arena", do mexicano Alejandro González Iñárritu, sobre os migrantes.
As produções da competição imersiva são “exibidas” em um espaço de 1.300 m², montado um cinema multiplex de Cannes.
O público poderá vivenciar histórias como a de uma super-heroína que ajuda uma adolescente no período menstrual, ou visita de um homem a uma sauna gay, esta última proibida para menores de 18 anos.
A mostra acontece até 24 de maio, com o anúncio do prêmio de melhor obra imersiva de Cannes. Os especialistas do setor esperam que a presença de produções em realidade em grandes festivais e ajude a levar esta tecnologia a mais usuários.
Enchentes históricas, consequências sem precedentes. Os relatórios feitos sobre a situação das inundações no Rio Grande do Sul testemunham uma das maiores crises de desalojados internos em todo o mundo. Várias organizações internacionais com experiência em emergências humanitárias estão no Sul do Brasil para ajudar a traçar soluções no planejamento e gestão da catástrofe. A RFI conversou com algumas das que estão atualmente no terreno.
Maria Paula Carvalho, da RFI Brasil em Paris
Os números mais atualizados da Defesa Civil estadual apontam 461 municípios atingidos pelas chuvas que deixaram, em poucos dias, 540.192 desalojados no Rio Grande do Sul. De acordo com o último relatório anual do IDMC (Centro de Monitoramento de Deslocamentos Internos), com sede em Genebra, na Suíça, o atual balanço representa hoje três quartos de todos os deslocados por causa de desastres climáticos no Brasil no ano de 2023 (745.000).
“Tenho muitos anos de experiência, eu estive no Haiti, no Equador, em terremotos, recentemente na Turquia, e esta é uma emergência grande e complicada pela extensão do país. Obviamente é um país muito solidário, mas as extensões de terra aqui são muito grandes. Então, o envio de ajuda humanitária às zonas afetadas é medido em muitos quilômetros e muitas horas,” explica Marco Franco, chefe de operações da Federação Internacional da Cruz Vermelha e do Crescente Vermelho (FICV) no Brasil.
Ele ressalta que a emergência no RS afeta mais de 2 milhões de pessoas, o que equivale a aproximadamente metade da população do Panamá, que tem 5 milhões, compara. “A chuva não para, continua chovendo e isso dificulta muito. Caíram árvores, pontes e isso dificulta que a ajuda chegue rapidamente", salienta Franco, lembrando que, em poucos dias, choveu 300 milímetros, o que seria esperado para o período de uma semana.
O chefe de operações da FICV dá o exemplo do trajeto entre Caxias do Sul e Porto Alegre, normalmente feito em três ou quatro horas, mas que agora está levando 17 horas. “Devemos considerar que, nas próximas semanas, também pode haver proliferação de mosquitos e um aumento dos casos de dengue nas zonas afetadas por causa de tanta água”, alerta.
A Federação Internacional da Cruz Vermelha, considerada a maior organização humanitária do mundo, lançou um apelo de emergência de 8 milhões de francos suíços, o equivalente a mais de R$ 45 milhões, para fortalecer a assistência humanitária às comunidades afetadas pelas inundações no Rio Grande do Sul.
Seus voluntários, treinados para atender este tipo de emergência, têm prestado os primeiros socorros, cuidados de saúde e apoio psicológico à população afetada, além de organizar centros de coleta de mantimentos em Caxias do Sul e Porto Alegre.
Nos albergues, há aproximadamente 80 mil pessoas, entre as quais famílias grandes com crianças e idosos, relata. "Uma preocupação a mais é a queda na temperatura. Atualmente, faz entre 7°C e 10°C, o que significa que além de refúgio, elas precisam de agasalhos”, alerta Marco Franco.
A OIM, Agência da ONU para as Migrações, também está trabalhando em conjunto com os governos no sul do Brasil, fornecendo apoio técnico para a gestão dos abrigos. A OIM destaca à RFI a importância de incluir as discussões sobre mudanças do clima, nas considerações sobre a mobilidade humana.
A centenária ONG britânica Save the Children é outra organização com atuação no Brasil e que enviou dois representantes para São Leopoldo, na região metropolitana de Porto Alegre. Com um orçamento inicial que ultrapassa os US$ 100 mil (cerca de R$ 512 mil) para esta emergência, a organização trabalha com parceiros locais na distribuição de 1.000 kits de comida por dia aos necessitados.
“O Brasil tem uma capacidade e uma funcionalidade, uma coordenação muito bem estruturada. As organizações internacionais registradas no país atuam como organizações locais e todos os trâmites são feitos com os parceiros locais, com as capacidades locais, pois eles têm conhecimento do contexto e necessidades, além do idioma", explica Alessandro Tuzza, diretor da Save the Children Brasil.
“Pelo que vimos, é importante citar o compromisso da população na resposta, no voluntariado. Pela primeira vez, vejo uma atenção tão integral por parte de toda a população”, destaca.
Ele sublinha que um número elevado de vítimas perdeu tudo: desde os bens materiais até "a dinâmica familiar, o contato com os amigos da escola, o sistema de ensino". A maioria das escolas nas áreas afetadas continuam fechadas. "Queremos assegurar que o retorno à normalidade seja um novo começo, com uma nova perspectiva”, completa.
Impacto nas criançasO Unicef (Fundo das Nações Unidas para a Infância), que atua no Brasil há mais de 70 anos, também correu para assistir o extremo sul do Brasil, explica o escritório brasileiro da organização. Tradicionalmente, a instituição opera nas regiões Norte e Nordeste, onde há maior concentração de crianças e adolescentes em situação de vulnerabilidade.
Considerada uma das maiores agências especializadas das Nações Unidas, o Unicef fornece recursos humanitários e técnicos para auxiliar programas governamentais em diversos níveis da administração. Desde que as chuvas começaram a provocar vítimas no Rio Grande do Sul, três profissionais foram enviados a campo, convocados pelo Ministério do Desenvolvimento Social e dos Direitos Humanos e Cidadania.
“Já fizemos um primeiro mapeamento e agora estamos começando a trabalhar justamente no desenvolvimento de protocolos de atenção técnica para a gente assegurar que crianças e adolescentes abrigados tenham uma atenção focada nas necessidades dos meninos e meninas que estão sendo impactados por essa tragédia”, disse Denise Stuckenbruck, representante adjunta interina do Unicef Brasil, em entrevista à RFI.
Ela indica que organização distribui kits, chamados de "kits de aprender e brincar", composto por jogos educativos e guias para atividades lúdicas e educativas, a serem usados nos abrigos. "Para que crianças que estão abrigadas possam contar com atividades organizadas com recursos próprios para tentar mitigar o impacto negativo da vida delas nos abrigos”, acrescenta.
O Unicef calcula que atualmente 15.000 crianças e adolescentes estão em 700 abrigos gaúchos, entre elas 1.900 menores de 5 anos. Um dos trabalhos consiste em ajudar para reunificar as crianças e adolescentes separados de suas famílias. "Isso tem que ser feito de maneira profissional, para prevenir uma situação mais crítica, que pode levar a mais abusos. O impacto socioemocional e de saúde mental é muito forte e o trauma que pode permanecer na vida dessas crianças é muito profundo”, destaca Stuckenbruck.
Para desenvolver esse trabalho, o Unicef conta com a solidariedade dos brasileiros. “Nós estamos operando com recursos generosamente doados para a nossa resposta no Brasil. Nós temos, assim, o benefício de contar com a generosidade e a confiança da população brasileira”, reconhece.
A representante destaca ainda que as ações no Brasil estão coordenadas, entre as três esferas de governo e a sociedade civil. A falta de recursos para enfrentar a tragédia, afirma, não é o principal problema neste momento. "Ainda não consideramos a necessidade de fazer um apelo de mobilização de recursos internacional, até porque isso ainda não nos foi solicitado pelo governo brasileiro”, sublinha.
Princípios humanitários
A gaúcha e humanitária internacional Fernanda Baumhardt, que trabalhou com agências especializadas da ONU na resposta às inundações no Peru e no terremoto do Equador, entre outras emergências no mundo, relembra da importância de uma atuação com base nos princípios humanitários: neutralidade, imparcialidade, humanidade e independência.
"As agências humanitárias devem ser puramente técnicas e apolíticas. O nosso lado deve ser sempre e apenas o lado das pessoas afetadas e em sofrimento. Isso significa que, na prática, ao coordenar com as diferentes instâncias do governo, precisa-se manter o foco e ecoar as vozes dos necessitados, construir pontes com as diferentes autoridades, sendo porta-vozes da realidade e prioridades do terreno, que é dinâmico", aponta. "Esta escuta precisa ser ativa, constante e humana”, apela Baumhardt.
Centenas de surfistas se deslocaram para regiões mais afetadas pelas enchentes que assolam o Rio Grande do Sul com o objetivo de ajudar no resgate de milhares de pessoas que continuam isoladas. Entre estes heróis está um dos pilotos de segurança aquática mais reconhecidos do mundo, o paranaense Edilson Assunção, mais conhecido como o Alemão de Maresias.
Luciana Quaresma, correspondente da RFI em Lisboa
Acostumado a enfrentar situações de alto risco em ondas gigantes de Nazaré, em Portugal, Alemão e uma equipe de dezoito surfistas já estão há cinco dias em Porto Alegre realizando operações de resgate. Em entrevista à RFI, ele falou sobre a origem da iniciativa.
“Vimos a gravidade da situação através das notícias e começamos um movimento entre amigos através da internet. Quando recebi a mensagem estava com o meu filho e ele foi o primeiro a dizer para eu ir ajudar”, comenta.
No último sábado (4), Lucas Chumbo, também conhecido como Chumbinho, e Iankel Noronha tiveram a iniciativa de sair do Rio de Janeiro rumo ao sul do Brasil. Pedro Scooby, Michelle Bouillons e Ruizinho Duarte também se juntaram ao grupo. Na bagagem, equipamentos para salvamentos, coragem e muita vontade de ajudar.
“Montei minha estrutura, organizei os equipamentos de segurança, peguei meu jet ski, carro e em algumas horas estávamos todos prontos para pegar estrada. Em 24 horas estávamos na frente da operação prestando socorro para as pessoas”, comenta Alemão.
Situação desoladoraAlemão não esconde a tristeza ao descrever o cenário que encontrou ao chegar em Porto Alegre. “É difícil falar, é muito triste o que presenciamos aqui: animais mortos, pessoas chorando, famílias desesperadas, sem saber para onde vão. Dói no coração", diz.
No entanto, o grupo se esforça para não mostrar a tristeza aos atingidos pelas enchentes. "Vimos coisas que não imaginávamos e isso nos afeta, mas estamos conseguindo levar isso de uma forma tranquila para não passar estes sentimentos para a população e para nossos parceiros. Mas é um momento difícil para todos”, afirma o surfista.
O campeão olímpico e mundial de surfe, Ítalo Ferreira, medalha de ouro nas Olimpíadas de Tóquio, chegou ao Rio Grande do Sul na última quarta-feira (8) para se juntar ao grupo. O surfista já havia doado R$ 100 mil com a venda de 10 pranchas autografadas. Ele explicou à RFI que os surfistas estão espalhados por várias regiões do Rio Grande do Sul e divididos por equipes de resgate.
“Tem outras equipes de surfistas de ondas grandes como o Fabiano Tissot, Tiago Jacaré, o campeão de ondas grandes desta temporada João Paiva, o Luizinho, todo o pessoal do big surfe. São várias equipes. Aqui na minha equipe somos cerca de dezoito pessoas, com sete jet skis. É uma equipe grande e alguns já estão no salvamento a dez dias”, explica.
Com uma experiência em resgate em mares gigantes como poucos, o também piloto de tow-in diz estar vivendo momentos muito difíceis. “O que é mais difícil para mim é ver esta destruição. Você não imagina o que é ver pessoas trabalhadoras que conquistaram seus terrenos, suas casas e, de repente, verem tudo destruído. Isso é de cortar o coração. Ver também a quantidade de animais abandonados é muito triste.”
Ajuda de voluntáriosSegundo Alemão, para chegar ao maior número de pessoas e de forma mais eficaz, os surfistas contam com muitos voluntários. “Montamos um esquema onde criamos uma equipe de jet ski, outra de apoio na retaguarda, equipe dos barcos, um time no nosso ponto de partida no Gasômetro, onde as vítimas e doações são recebidas e direcionadas [em Porto Alegre]. Então foi um trabalho bem de formiguinha e que, em equipe, conseguimos concluir.”
Alemão conta que os surfistas também têm tido o apoio da iniciativa privada. “A situação de Porto Alegre está caótica. Muito triste ver a dimensão que chegou tudo isso, mas fico feliz porque vi uma mobilização muito grande, principalmente empresários aqui do Rio Grande do Sul e de todo o Brasil se prontificando para ajudar e mandar estrutura apoiando nossas equipes de resgate.”
A operação que vem sendo realizada pelos surfistas foi definida e está sendo coordenada pelo gaúcho Fabiano Tissot. A prioridade era resgatar crianças e idosos, além de pessoas com deficiência. O trabalho ocorre junto às operações do corpo de bombeiros, Polícia Federal, Polícia Civil, Marinha e Exército.
Para Tissot, a implicação neste mutirão foi "uma questão de amor ao próximo". "Treinamos a nossa vida inteira para situações de risco extremo colocando a nossa vida em jogo e agora estamos fazendo isso por um bem ainda maior que é a vida dos outros", explica.
Pior que ondas de NazaréApesar da maioria dos surfistas que estão na missão de salvamento já terem vivido situações de extremo risco nos mares, Tissot afirma que esta é, sem dúvida, a mais difícil. “Somos agora vinte pessoas e posso dizer que esta situação de resgate é a mais difícil que já vivemos se formos comparar com nossas experiências nas ondas gigantes em Nazaré, Portugal ou qualquer outro lugar”, afirma o surfista.
Já para Alemão, a experiência também resulta em aprendizado. "Estamos acostumados a lidar com água, mas o ambiente que encontramos no sul é extremamente difícil e totalmente diferente de tudo aquilo que já vivemos. É tão difícil, pesado e intenso quanto surfar as ondas de Nazaré e outros lugares perigoso que já surfamos no mundo”, salienta.
Depois de mais de uma semana resgatando pessoas em situação de risco, os surfistas já estão pensando na próxima etapa da operação. “Até aqui a gente estava na chamada fase um que é a retirada das vítimas das áreas de risco para direcioná-las para os abrigos e áreas mais seguras. Este trabalho já foi feio e grande parte das pessoas aqui na região de Porto Alegre foi socorrida e retirada de áreas perigosas, mas ainda há lugares que estão carentes de atenção", reitera Alemão.
Segundo ele, os surfistas se preparam agora para a "fase dois" da operação de salvamento. "O importante agora será a ajuda na distribuição de alimentos e bens de primeira necessidade, dar atenção aos desabrigados e distribuição das doações", afirma.
Tissot também faz um apelo para que as ajudas e doações continuem sendo realizadas. “Pelo que estamos vendo em campo percebemos o quão importante são as pessoas que estão do lado de fora, o quanto podem fazer para ajudar: arrecadando alimentos, mobilizando outras pessoas, enviando doações, pois todo mundo que foi resgatado agora vai precisar de apoio”, sublinha.
De acordo com boletim da Defesa Civil do estado divulgado na noite de sexta-feira (10), 126 pessoas morreram nas enchentes no Rio Grande do Sul desde a semana passada. Mais de 140 seguem desaparecidas.
O Pará está apostando suas fichas na bioeconomia como combustível para uma transição econômica que, se der certo, poderá levá-lo a um novo ciclo de desenvolvimento. Tudo isso sem perder de vista o objetivo de tornar-se carbono neutro em 15 anos.
Vivian Oswald, enviada especial da RFI a Belém
No Nheengatu, a língua franca de séculos dos povos indígenas do Brasil, 'ariamuru' significa o poder da mãe. Este foi o nome que a 100% Amazônia escolheu para o programa a partir do qual trabalha com os povos e comunidades tradicionais para extrair, beneficiar e exportar cerca de 28 espécies amazônicas florestais não madeireiras e renováveis.
O açaí é o mais conhecido. Mas tem frutas secas e desidratadas, óleos e manteigas, como os de buriti e tucumã, ou as resinas do breu branco e da copaíba e as folhas da muirapiranga, usadas como energético. É uma parceria, segundo Fernanda Stefani, uma das fundadoras desta empresa, baseada em Belém, que é um misto de agroindústria e trading. Cerca de 70% dos seus funcionários são mulheres, em sua maioria criadas pelas avós, que aprenderam com elas o poder da ancestralidade. Elas sabem usar murumuru no cabelo, ou a copaíba para curar tosse ou inflamação da garganta, como os fornecedores da empresa. Este é apenas um dos exemplos de como o Pará têm mergulhado no conhecimento tradicional e nas peculiaridades regionais para alimentar a chamada bioeconomia.
"Por que o nheengatu e não outra língua? Quando você pega algo indígena, por exemplo, um grafismo, uma palavra, para as populações indígenas, é como se você estivesse roubando algo deles. Então, para não ter problema nenhum, a gente usa a língua franca, que é de todos e de ninguém, e a partir dali a gente busca o nome. O indígena, ele está também hoje se reconhecendo, principalmente as gerações mais novas”, afirma Stefani.
Com 78% do território coberto por florestas, o estado, que é tradicionalmente um dos mais afetados pelo desmatamento, aposta em um audacioso plano de bioeconomia para garantir uma transição econômica sustentável que sirva de modelo para o resto do mundo. O PlanBio foi revelado pelo governo do estado em 2022 durante a COP27 em Sharm El-Sheikh, no Egito.
A ideia agora é poder mostrar seus primeiros resultados na COP30, a convenção do clima que terá como sede a capital Belém, em pouco mais de um ano. À RFI, o secretário de meio ambiente do Pará, Mauro O’de Almeida, afirma que mais de 50% das medidas apresentadas no plano, o primeiro de um estado na América Latina, já foram implementadas, com impacto na vida de mais de 67 mil pessoas, em 92 ações. O secretário garante que o diferencial do plano é que, independentemente do governador em exercício, as medidas vieram para ficar, pois viraram lei, assim como a política estadual de mudança do clima. O Plano Amazônia Agora, que está em fase de atualização, também está prestes a se transformar em lei.
"A gente estima que essa institucionalidade dê um caráter de política de estado. A gente tem certeza, nós que participamos deste governo, de que o caminho que trilhamos é um caminho sem volta”, diz O’de Almeida, que é advogado e já trabalhou com a ex-ministra do Meio Ambiente Isabella Teixeira.
Dentro do plano, o Pará está criando o Parque da Bioeconomia. É uma espécie de hub que vai reunir centros de tecnologia, conhecimento e inovação, startups, logística, um polo de biotecnologia, gastronomia e um museu para explicar o que é a bioeconomia. Espera-se que até a COP30 já haja 300 startups, negócios comunitários e bionegócios conectados a partir da iniciativa. Ele explica que não se trata de olhar só para startups, mas para negócios comunitários, porque é o que faz sentido no Pará e pode dar ganho de escala à produção. Tem também um escola de saberes da floresta, que estará conectada a escolas técnicas para que se criem instrumentos de bionegócios, voltados para o desenvolvimento na região.
Sistema de rastreabilidadeOutra novidade é o sistema de rastreabilidade do estado, que espera até 2026 ter toda a cadeia pecuária, hoje 26 milhões de cabeças de gado, totalmente rastreada. O mecanismo enxerga não apenas dados sobre áreas desmatadas, como de trabalho escravo e infantil. A ideia é que tudo isso permita ao Pará montar um mercado de carbono para chamar de seu. O estado criou uma companhia para centralizar a comercialização de crédito de carbono, para ter controle desses créditos vendidos no estado de modo que possa fazer a contabilidade para as suas Contribuições Nacionalmente Determinadas (NDCs, na sigla em inglês). Um dos estudos encomendados pelo governo indica que o setor de bionegócios pode gerar pelo menos US$ 30 bilhões ao ano para a economia local até 2040.
"O Brasil, de uma maneira geral, enfrentou uma desindustrialização nos últimos anos. Essa recuperação da industrialização vai, se conseguir, se dar no Sudeste. A nossa industrialização tem que ser baseada no alimento, no cosmético, no fármaco, na natureza”, garante o secretário.
A empresa de Fernanda Stefani têm por objetivo criar cadeias produtivas para o que as comunidades estão acostumadas a produzir. Tudo deve ser feito com respeito ao conhecimento tradicional. Segundo ela, é preciso revisitar essas cadeias produtivas amazônicas para que os povos originários sejam remunerados de maneira justa pelo que fazem. Mas tudo deve ser feito segundo a lógica local, em que até o atravessador tem o seu papel.
"Ele tem uma função. O que precisa é saber dividir melhor os ganhos dentro da cadeia. Em geral, quem ganha é sempre quem está mais no final. Só que tem também aquele cara que está se embrenhando dentro do mato para pegar copaíba, e ele fica três meses lá dentro”, diz Stefani ao referir-se ao atravessador, que muitas vezes também adianta os recursos pagos aos produtores.
A empresa Dona Nena produz chocolates amazônicos na ilha do Combu, visitada pelos presidentes Luiz Inácio Lula da Silva e o francês Emmanuel Macron, a 15 minutos de Belém. O produto gourmet ganhou embalagens de design e valor para o que a empresa familiar com 14 empregados fabrica. Ela agora também está fazendo óleos essenciais, um dos segmentos considerados prioritários pelo estado para dar escala à produção local.
Fora de Belém, a Rede Bragantina é constituída por 15 associações, ou 400 homens e mulheres agricultores familiares em áreas quilombolas, que atuam em quatros municípios no nordeste Paraense. Eles trabalham segundo os princípios da economia solidária. A fabricação de farinhas com raízes e tubérculos da Amazônia é sua fonte de sustento há gerações. Um ano atrás, a rede recorreu à Embrapa para tentar reduzir as perdas no processo de produção. O problema estava basicamente nas formas como manuseavam a matéria-prima. A representante da rede, Nazaré Reis, defende sua importância econômica e social.
"Traz retorno econômico, mas a medição desse retorno não é exclusivamente econômica na medida em que agrega outros valores sociais, culturais, agrega saberes, subjetividade, que, sem isso, as pessoas perderiam o seu chão”, diz.
No mesmo projeto, a Embrapa acabou incluindo a ampliação do cardápio das farinhas especiais feitas a partir das receitas quilombolas. Acrescentou farinhas mistas, ricas em nutrientes tirados de outros frutos amazônicos. Assim agrega-se valor à produção dessa comunidade vulnerável, com produtos exclusivos a partir de sementes crioulas, esquecidas pelo tempo e resistentes à mudança do clima. O programa está em fase final, para que se encontrem as boas proporções de tucumã, pupunha e cará-roxo nas novas receitas das misturas. Se o gosto for bom, elas poderão ser usadas em biscoitos, bolos e mingaus.
"Além de ter propriedades funcionais interessantes, ricas em antioxidantes e fibras também usam algumas matérias-primas que já não estavam sendo utilizadas pelas comunidades para a sua alimentação rotineira”, diz a pesquisadora Laura Abreu, da Embrapa Amazônia Oriental.
Proteger fórmulas da AmazôniaA receita das farinhas é guardada a sete chaves. Tem sido cada vez mais importante garantir que as fórmulas nascidas na Amazônia sejam propriedade de seus produtores ou guardiões. Pesquisas valem ouro nessa região. Empresa nacionais e sobretudo estrangeiras se dedicam há décadas a buscar receitas de sucesso que se convertam em muitos milhões de dólares para eles, e não para a região.
O diretor da Embrapa Amazônia Oriental, Walkymário de Paulo Lemos, lembra a necessidade de se proteger esses conhecimentos e fala da lógica da inclusão sócio-produtiva para distribuir renda. Ele destaca que a floresta de pé tem ainda mais valor financeiro do que derrubada. Segundo ele, os projetos da entidade já são feitos pensando em patentes.
"O mundo todo está interessado, mas que venha estar conosco, porque temos instituições que geram bastante conhecimento sobre a Amazônia. A Universidade Federal do Pará (UFPA) é um grande celeiro de conhecimento. É a instituição que mais publica no mundo sobre a Amazônia é a UFPA”, explica Lemos.
A chamada biopirataria é velho inimigo amazônico. Para combatê-la há um consenso de que é preciso difundir o conhecimento e explorar a floresta com respeito. A ideia de se colocar no plano de bioeconomia um eixo específico para o patrimônio genético e a distribuição de benefícios, teria sido justamente transformar o estado do Pará em um grande hub não só de requerimentos de patentes, mas de detentor de patentes, segundo o secretário de Meio Ambiente. E isso tem por objetivo garantir que a ancestralidade continue sendo um tesouro de quilombolas, ribeirinhos e indígenas sobretudo.
"Eles precisam ser detentores de patentes, e não as empresas. É claro que a gente sempre vai ter que ter contado com o empreendedorismo, porque esse é o nosso foco, ser empreendedor, mas eles têm que ser empreendedores”, ressalta O’de Almeida.
Futura sede da COP 30, a maior conferência da ONU, Belém do Pará tem identidade própria. São muitos brasis dentro de um Brasil que nem mesmo os brasileiros conhecem direito. A valorização da cultural local é uma das principais apostas dos belenenses nos preparativos do evento das Nações Unidas.
Vivian Oswald, enviada especial a Belém
A região de personalidade forte, muitas facetas e cores de pele, mudou sua maneira de enxergar o mundo e ver-se nele. É isso o que Belém deve mostrar durante a convenção do clima, quando será o centro de debate de uma das questões que mais afligem o mundo. O "made in Pará” está na moda. E ele não é exótico, é padrão e tem narrativa própria.
Mesmo aos olhos do forasteiro, existe um sentimento evidente de valorização da identidade local. Está no que se consome, na expressão das várias formas de arte e artesanato e até no uso da linguagem.
No segundo município mais populoso da região norte do país, convivem a confusa área urbana de uma cidade que cresceu mais depressa do que a infraestrutura conseguiu acompanhar, a floresta e as suas 39 ilhas. Ali, os rios são as ruas. A lógica é outra.
Vocabulário próprioO vocabulário dos povos originários mistura-se ao português imposto pelos colonizadores da época do descobrimento. E tudo vira um conjunto de palavras e expressões nascidas e criadas aqui.
O orgulho da cultura local é o que os belenses chamam de "ser pavulagem”, neologismo originário de pavão. Na linguagem popular paraense, representa a pessoa “que gosta de aparecer”.
“Égua!”, é a interjeição de espanto. Para diferenciar o banheiros masculino do feminino, o badalado restaurante Remanso do Peixe usa as tabuletas “sumano" e “sumana”, subproduto da contração "seu mano" e "sua mana”.
Para o escritor e poeta Paes Loureiro, que é professor de História da Arte e Cultura Amazônica da Universidade Federal do Pará (UFPA), há um reconhecimento de valor pela sociedade amazônica.
“Esse é um fenômeno que é perceptível através, por exemplo, dos meios de comunicação, da produção artística, dos cursos que têm sido criados recentemente”, diz Paes Loureiro.
Belém se desenvolveu na esteira de ciclos econômicos. Foi entreposto fiscal no século XVII, aproveitou a abertura dos rios amazônicos como rota comercial no século XIX e surfou na onda da borracha no século XX, quando ficou conhecida como a “Paris Tropical” e viveu a sua "Belle Époque".
Naquela época, os belenenses endinheirados seguiam as modas do Velho Continente. Apesar do calor, vestiam-se com as muitas camadas de tecidos, como os europeus. Reproduziram a arquitetura europeia no meio da floresta. Importaram até pedras para o calçamento.
A imensa estrutura de metal do Mercado Ver-o-Peso foi trazida de navio da Inglaterra. Por essas e outras, a maior feira livre da América Latina é tombada patrimônio histórico.
Seu nome vem de Casas de Haver-o-Peso, afinal era o entreposto aduaneiro para a cobrança de tributos justamente sobre os produtos europeus trazidos para Belém, ou extraídos da Amazônia com destino ao mercado internacional. Até hoje, o prédio da Casa Paris N’America chama atenção. Em plena área comercial, onde belos sobrados acusam maus tratos, cercados de ruelas esburacadas por onde se espalham ambulantes e sujeira, o edifício art-nouveau é cenário obrigatório para os álbuns das noivas. Inspirado nas Galleries Lafayette de Paris, foi uma das primeiras lojas de departamento do Brasil, onde se encontravam roupas, perfumes, maquiagens e outros produtos trazidos diretamente da França para Belém. Hoje, é uma loja de tecidos.
"Houve uma transferência para a Amazônia e, sobretudo para Belém, Manaus, e algumas cidades do interior, da chamada Belle Époque europeia, francesa, inglesa, e, de certa maneira, portuguesa. Hoje, na verdade, é possível que esteja começando a acontecer uma Belle Époque Amazônica, originária da sua própria realidade, da sua própria produção artística e cultural, produção científica, reconhecimento de valor, criação de obras que passam a caracterizar a sua grandeza, a sua dimensão”, afirma.
Na Belém do futuro fala-se em bioeconomia e na produção de itens originais, nascidos ali. A paulista Fernanda Stefani entendeu isso há alguns anos, quando se mudou para Belém. Trader, ela fundou em 2009 a 100% Amazônia, empresa especialista em bioingredientes florestais não madeireiros e renováveis, que trabalha em colaboração com comunidades, cooperativas locais e agricultores familiares para potencializar o melhor uso da floresta amazônica.
“Na verdade, a gente aprende que para você de fato ser bem sucedida na Amazônia, você tem que aprender com os amazônidas e olhar para trás, olhar o passado e olhar aquilo que deu certo aqui, mesmo que seja de uma maneira diferente. Mas é olhar para o passado para você poder escrever o futuro”, garante a executiva.
Stefani seguiu essa ideia à risca. Ao mudar-se para Belém foi atrás de um dos velhos casarões maltratados do centro antigo da cidade, que reformou e transformou em casa e uma espécie de pousada.
“É a mesma coisa a gente faz aqui nessa casa. Então a gente olha para o passado, a gente aprende com o passado, a gente entra numa casa como essa aqui é. Você vê ela, é uma casa agradável. Você está aqui, você não tem ar-condicionado aqui? Mas você olha e você traz o futuro, traz a modernidade aqui para dentro. Mas você não esquece do passado, você traz o passado junto. Isso é muito importante”, afirma Stefani.
Chocolato com cupuaçuFruto nativo da Amazônia, o cacau também ganhou novos significados. Ele ainda é vendido in natura às toneladas, como commodity. Mas tomou belas formas de chocolates gourmet, com embalagens caprichadas, assinadas por designers locais.
Personalidade conhecida em Belém, o chef Fabio Sicilia mergulhou na história do chocolate e viajou o mundo para saber traduzir na sua produção artesanal o espírito amazônico. Recentemente, seus chocolates com cupuaçu ganharam prêmios importantes em Londres.
Na ilha do Combu, a 15 minutos de voadeira de Belém, onde estiveram os presidente do Brasil, Luiz Inácio Lula da Silva, e da França, Emmanuel Macron, dona Nena fabrica quadrados de chocolate preto com cacau da várzea, uma variedade local. Em sua loja, Filha do Combu, há também barras de chocolate Gaudens à venda. Mais do que concorrentes, são parceiros.
Durante a pandemia Sicilia ajudou dona Nena a moer cacau. A ideia é, que juntos, os muitos produtores e as comunidades amazônicas podem mais. Dona Nena ainda vende jogos americanos em formato de folhagens amazônicas feitas a partir do látex e lembranças — de bolsas a cerâmicas —assinados por artistas locais.
Um dos melhores restaurantes da cidade, o Sushi Ruy Barbosa, que fica na rua de mesmo nome, também tem um diferencial. Além de preparar seus pratos com peixes da Amazônia, não dispensa entre seus ingredientes, do sushi à sobremesa, o tucupi, o jambu ou a tapioca. Tudo tem um toque amazônico.
Paes Loureiro afirma que parte dessa valorização se explica pelo avanço da comunicação e das novas tecnologias. A informação corre o mundo depressa. É cada vez mais difícil ver o que ainda não se viu. Isso teria provocado a busca pelo auto-conhecimento. O que se quer é mostrar originalidade.
Antes impunha-se o conhecimento externo, de fora da região, do país. O fenômeno descrito pelo professor de 84 anos, que é um dos mais importantes intelectuais da Amazônia, rompe um ciclo de longa data em que os próprios amazônidas foram ensinados a ver-se como diferentes do padrão. E esse é tema central da tese de doutorado de Paes Loureiro, que se transformou no livro “Cultura amazônica: uma poética do imaginário”. O imaginário amazônico, segundo ele, é parte da cultura da sociedade. Não se trata de mera folclorização, ou de peculiaridade.
“Que sempre representa para o mundo uma forma assim mítica de admiração, a dimensão mítica pela qual a própria Amazônia foi, digamos, encontrada. A própria Amazônia foi encontrada, porque era aqui que estaria o Paraíso na Terra, segundo o que a história nos conta, que foi a atração para que as pessoas pudessem viajar para cá e integrar isso, encontrar essa grande terra do mundo", afirma o professor e poeta. "Mas é preciso esquecer que essa era uma visão de busca de apropriação, de se apossar desse paraíso na Terra. E na tradição indígena, o que nós temos é uma interessante busca por uma Terra de igualdade para todos, busca da Terra sem males. Essa é uma utopia indígena presente na Amazônia brasileira, sobretudo. Mas se pode estender para a Amazônia continental”, diz o professor.
O Pará tornou-se destino incontornável para brasileiros e estrangeiros. É preciso saber se o estado vai aproveitar o momento atual e se lançar em novo ciclo de desenvolvimento e bonança. O estado ainda tem um dos piores IDHs (Índice de Desenvolvimento Humano) do país e as piores taxas de saneamento e acesso à água tratada. A COP30 pode ser um ponto de partida. Nem que seja para colocar Belém no mapa novamente, como disseram à RFI os próprios belenenses.
Para Waleska Queiroz, presidente da Rede Jandyras e representante institucional da COP das Baixadas, é muito importante garantir que esses movimentos de reconhecimento e valorização cultural, o “made in Pará”, ou “made in Amazônia” — que criam oportunidades, empregos, demanda e geram economia —, não se transformem em mais uma forma de exploração da cultura e do ambiente amazônico. E que as comunidades locais sejam as principais beneficiárias e guardiãs das suas próprias culturas.
“A COP pode ser também uma plataforma para destacar a importância da Amazônia nesse equilíbrio climático global e, principalmente, para a necessidade de adotar estratégias de ação que sejam ambientalmente e socialmente justas para o nosso território e as nossas populações. Isso representa também uma oportunidade para que a gente consiga mostrar ao mundo que Belém e a Amazônia como um todo não são apenas locais historicamente explorados que tem seus desafios, suas problemáticas, mas que são também espaços que fomentam a ciência, inovação, a tecnologia e a conservação do território”, diz a ativista.
"Eu, enquanto liderança local, ativista, cidadã, sempre me coloco nesse lugar de comprometimento, para promover essas questões importantes, sempre buscando também a valorização da nossa cultura, a preservação da nossa identidade, que são fundamentais para o reconhecimento global e a importância da Amazônia”, disse Queiroz.
Maior produtor de dendê do mundo, o Pará busca alternativas de expansão de cultivo que garantam boa reputação às centenas de milhares de toneladas de óleo de palma que exporta anualmente a partir da Amazônia. As palmeiras-de-dendê costumam ser plantadas em regime de monocultura e exigem cada vez mais espaço.
Vivian Oswald, enviada especial a Belém
No nordeste do estado, no entanto, pequenos agricultores resolveram apostar em novas técnicas de plantio mais sustentáveis dentro dos chamados sistemas agroflorestais (SAFs) para aumentar a produção. Eles funcionam como grandes quintais em que árvores e plantas de diferentes espécies — e ciclos de vida — convivem em um mesmo território. Esses sistemas representam uma saída para uma produção variada e a garantia de sustento da agricultura familiar o ano todo, sem que se precise avançar sobre outras áreas.
Os SAFs não são uma novidade na região. Mas estão sendo usados pela primeira vez com o dendê, após 15 anos de pesquisas comprovarem que não há perda de produtividade se plantado com outras culturas. A prática virou caso de sucesso que estará no receituário de boas práticas apresentadas à COP30 em Belém em novembro de 2025.
Na COP da floresta, como está sendo chamada essa edição da convenção do clima, que é a maior conferência das Nações Unidas, o Brasil quer mostrar que é possível manter atividades econômicas na Amazônia sem derrubar mais árvores. Tem feito o mesmo no G20, cuja presidência é brasileira até o final do ano.
Imigração japonesa na AmazôniaSua história dessa prática se confunde com a da imigração japonesa na Amazônia. Quase 100 anos atrás, um grupo de cientistas japoneses desembarcava no estado do Pará com a missão de localizar áreas onde poderiam instalar colônias agrícolas. Foi assim que 42 famílias fincaram raízes em Tomé-Açu — cidade separada naquela época por dias de balsa da capital Belém e hoje a duas horas e cinquenta minutos de carro.
Foram muitas idas e vindas até que encontrassem, décadas depois, a equação que os permitisse viver do que plantavam no meio da floresta. A ideia original era produzir cacau, planta nativa amazônica, cujas variedades de cultivo e técnicas de plantio não dominavam. Deu errado. Depois veio a pimenta-do-reino, que eles próprios trouxeram da Ásia. A produção do que passou a ser chamado de "ouro negro da Amazônia" enriqueceu muitas famílias até ser dizimada por uma praga entre os anos 1960 e 1970. A persistência desses imigrantes levou-os a recorrer ao conhecimento tradicional dos povos ribeirinhos.
Em Belém, o especialista da Embrapa Osvaldo Kato explica o sistema agroflorestal a partir de uma pequena amostra que a entidade mantém para estudos no seu quintal amazônico. Ali, plantam cacau, bananas, andiroba e feijão. As bananeiras protegem com sombras o desenvolvimento dos cacauzeiros, o que os japoneses não sabiam que era necessário logo que chegaram ao Pará. Filho de Tomé-Açu, Kato cresceu observando as dificuldades dos agricultores locais antes de entrar para a Embrapa em 1979.
"A chave de tudo é um processo de diversificação. Na época, a preocupação estava mais na questão da produção mesmo. Até que se viram os quintais dos agricultores familiares, que era ao redor da casa. Isso tem na terra firme e entre os ribeirinhos. No caso de Tomé-Açu, por causa da viagem, a estrada até lá era o rio, a viagem mostrava paisagem. Foi isso o que despertou a atenção de algumas pessoas para esse processo diversificado de produção”, salienta Kato.
O que os ribeirinhos já faziam nos seus quintais e que até hoje os 170 membros da CAMTA (Cooperativa Mista de Tomé-Açu) replica é simples: combinam árvores frutíferas, ervas e hortaliças de tempos de vida diferentes. A policultura oferece colheita o ano inteiro para a venda e o consumo próprio. A mistura também é útil para manter a saúde do solo, o que significa que não é preciso mudar a plantação de lugar, muito menos cortar árvores, ou promover queimadas, para reacomodá-la.
Há mais de 200 combinações possíveis, de acordo com a Embrapa, que trabalha com a cooperativa em alguns projetos. A CAMTA usa várias. Os produtores escolhem o que plantam a partir das necessidades do mercado.
Parceria com indústria de cosméticosHá 15 anos, desenvolveram com a Embrapa formas para se plantar dendê nos sistemas agroflorestais. O projeto começou de uma parceria com a Natura, grande consumidora do dendê para cosméticos que queria que a produção tivesse base orgânica com práticas agroecológicas. Ou seja, sem queimadas no processo. Imensas, essas árvores têm ciclos de 25 anos em média, ao final dos quais precisam ser derrubadas para dar lugar a novas. Como o solo demora a se recuperar, os produtores tinham de sair atrás de novas áreas, produzindo queimadas e, deixando para trás, as degradadas. Os restos agora são triturados e usados para fertilizar o solo, que acaba por se recuperar mais depressa.
Um dos primeiros fazendeiros a se lançar na corrida das SAFs do dendê, Ernesto Suzuki, de Tomé-Açu, não esconde o entusiasmo. Pelo mesmo sistema, antes do dendê já tinha pimenta e maracujá. Décadas depois da tragédia da pimenta-do-reino, o Pará voltou a ser o maior produtor do país.
“Estamos no 16° ano do SAF dendê. É notório o desenvolvimento das comunidades e a expansão dos sistemas na nossa região. No meio o ambiente onde se passou a estudar melhor essas combinações de várias espécies no mesmo espaço é que hoje temos consolidado um sistema de produção sustentável, com a sua importância social e econômica para a Amazônia", explica. "Isso tem gerado muitos empregos através da agroindústria, a partir da nossa cooperativa, bem como a sustentabilidade. Não só a subsistência dos agricultores, mas também a sua atividade. Com isso, estamos resolvendo as questões de êxodo rural e mantendo o homem no campo”, destaca Suzuki.
O policultivo também traz diversidade entre insetos e reduz as chances de prejuízos como o da pimenta do passado. A chamada de produção solteira, ou monocultura, pode ser arrasada por um único tipo de praga. Aliás, os próprios produtores começaram a instalar caixas de abelha no meio das SAFs. Além de acelerar a polinização, é nova fonte de renda.
"Tivemos o preparo de área com a derrubada de áreas sem o conhecimento da tecnologia e sem o conhecimento do comportamento da nossa floresta. E hoje temos essa tecnologia onde não há necessidade de novas áreas de florestas para ser abertas. Muito pelo contrário, já temos áreas antropizadas. E que estamos cultivando nessas áreas já abertas e podemos tirar o sustento e a melhoria de vida das famílias no longo prazo”, diz Suzuki.
Base da culinária do Norte e Nordeste, no Brasil, o dendê também é importante para a produção de alimentos e cosméticos mundo afora, além da produção de biodiesel mais recentemente.
Entre os efeitos colaterais dos SAFs, a cooperativa conseguiu a certificação de procedência, de indicação geográfica, do cacau produzido no sistema agroflorestal de Tomé-Açu. É um selo de qualidade, que abre mercados para a marca Amazônia, e cria oportunidades para a agroindústria local.
Antigamente, só se pensava na madeira como subproduto possível. Daí a ideia de associarem espécies florestais ao cultivo. Mas os subprodutos ganharam importância, com é o caso da castanha, da andiroba, do cumaru e uma série de outras espécies que podem se inseridas dentro dos sistemas agroflorestais para agregar ainda mais valor a uma área fixa.
"Inclusive no caso de Tomé-Açu, um exemplo é o próprio Ernesto [Suzuki], que está tentando produzir coisas", aponta Osvaldo Kato, da Embrapa. "Ele está valorizando o SAF dendê. Está produzindo chocolate do cacau que está saindo dessa área e já usa essa origem desse cacau, fazendo licor de cacau. Essas coisas começam a ser trabalhadas um pouco mais, independente da coisa maior, de uma ação maior da cooperativa. Mas iniciativas das próprias famílias de fazer coisas mais atuais dentro da propriedade, específica para cada família. A tendência que ela tem para desenvolver determinado tipo de produto”, acrescenta.
A comunidade japonesa de Tomé-Açu enfrentou fome, doenças tropicais e a tragédia da Segunda Guerra Mundial. Com o Japão lutando no Eixo, os imigrantes passaram a ser vistos com desconfiança no Brasil. Muitos tiveram suas casas queimadas, foram alvo de violência. Durante o período da guerra foram mantidos isolados na região.
Hoje, além de auxiliar os seus associados, a cooperativa que já existe há muitas décadas também lidera iniciativas sociais como as escolas de ensino médio onde se aprende o japonês. Diz-se que daqui a dois anos, quando a imigração comemorar 100 anos, os festejos devem contar até com a presença do imperador japonês.
Começou a contagem regressiva. A capital do Pará tem um ano e meio para mostrar-se vitrine ou vidraça do Brasil na 30ª edição da COP, a maior conferência da Organização das Nações Unidas (ONU), prevista para novembro de 2025. Vai ser a primeira vez que o evento tem como sede uma cidade amazônica. A ideia de apresentá-la como tal tem atrativos inegáveis, mas é cheia de armadilhas.
Vivian Oswald, correspondente da RFI em Belém
Tapumes confirmam que Belém está em obras. Mas preparar uma cidade para um evento internacional desta envergadura é tarefa que vai muito além de promover um punhado de benfeitorias. Significa transformação na infraestrutura, urbanização e limpeza.
Outro obstáculo de peso é criar acomodação suficiente e capacitar mão-de-obra para receber dezenas de milhares de forasteiros vindos do mundo todo. A cidade dispõe de 18 mil leitos, considerando-se toda a região metropolitana. Estima-se que os dias de maior movimento da COP30 exijam cerca de 50 mil. O desafio é imenso. E o tempo, escasso. Para uma Olimpíada, são cerca de sete anos de preparo. Para esta COP, terão sido pouco mais de dois, com o agravante de Belém ter algumas carências.
O governo do estado garante que vai haver COP e que será a melhor de todos os tempos. “Vai acontecer tudo aqui e vai ser uma COP maravilhosa. Estamos muito otimistas. Para nós, a COP já começou. Desde maio do ano passado estamos trabalhando no planejamento e na execução de ações concretas”, disse à RFI a vice-governadora Hana Ghassan.
Não é o que pensam os Belenenses. Muitos falam de obras superficiais e se queixam do sucateamento da cidade. A portas fechadas em Brasília, já se cogita um plano B, com a transferência de parte das reuniões para cidades como Rio, São Paulo e até a capital federal. Por via das dúvidas, aparentemente mais confiantes de que não haverá mudanças de planos, embaixadas estrangeiras estariam desde já alugando casarões para garantir que suas comitivas terão um lugar de qualidade para ficar em Belém durante a COP. Algumas até cogitam a compra de imóveis.
Desafio da hospedagemA questão da hospedagem foi dos principais gargalos apontados por um estudo encomendado pelo governo do estado à Fundação Getúlio Vargas (FGV). A COP de Dubai, que bateu todos os recordes, recebeu 41 mil pessoas nos dois dias de pico, quando os chefes de Estado e suas comitivas estavam presentes. Por isso, trabalha-se com um número ainda maior do que este."A gente sabe que a Amazônia vai atrair muito mais gente. Não dá para falar de meio ambiente sem falar da Amazônia", disse a vice-governadora.
Não há tempo para construir hotéis para suprir o déficit, embora duas cadeias tenham se interessado por dois prédios antigos do governo federal para transformá-los em hospedagens de luxo. Um é o velho edifício do INSS, o outro, o da Receita Federal. Um deles pegou fogo há uns anos. Ainda não há sinal de obras para reaproveita-los.
Mas a maior cartada do estado é permitir a entrada de transatlânticos no porto de Belém. Só eles poderiam trazer a bordo de 10 a 11 mil leitos. Para recebê-los, no entanto, é preciso fazer obras no calado do porto para que possam passar.
Mas deixar navios gigantescos atracados por dias pode ser sinônimo de mais poluição do rio Guamá, um dos cartões postais da cidade. A vice-governadora garante, porém, que estão sendo trabalhadas alternativas menos poluentes.
“Estamos trabalhando com algumas soluções que não existem em nenhum portos da América do Sul para que a gente possa ligá-los na eletricidade quando aportarem aqui. Então estamos não apenas com questão da hospedagem, mas também do meio ambiente”, disse Hana Ghassan.
O governo também aposta nos aluguéis de temporada. Um protocolo foi assinado com Airbnb no ano passado e já conseguiu dobrar o número de imóveis disponíveis na plataforma. Hoje, são 1.400 com capacidade para até seis pessoas cada. As autoridades também estão negociando com a plataforma Booking.
Mas isso não suficiente. Ainda é preciso preparar os condôminos. Muitos têm imóveis e não sabem como oferecê-los nas plataformas. Por isso, está sendo organizado trabalho de qualificação. As pessoas ainda têm que entender que isso gera renda para a capital e para os moradores de Belém. Outra alternativa para acomodação é usar a vila militar na cidade. Segundo Hana, as casas não precisam de grandes reformas. O custo seria pago pelo governo federal e seria um benefício que ficaria para a corporação após o evento. Mas o trabalho tampouco começou.
"Já fizemos contato com as forças armadas. Aqui todo mundo está muito engajado. Estão todos muito engajados para ofereceram vilas militares e áreas onde podem ser construídas estruturas temporárias, dentro de áreas militares que têm segurança e estão próximas do evento”, disse a vice-governadora.
Contexto políticoA COP de Belém é um projeto que vem sendo costurado pelo governador Helder Barbalho, do MDB, desde a COP27, em Sharm-El-Sheikh, em 2022, quando apresentou ao mundo seu Plano Estadual para a Bioeconomia, o primeiro de um estado brasileiro, o primeiro da América do Sul. Desde que assumiu o governo do estado em 2022, Barbalho tem apostado na sustentabilidade. A ideia é diversificar a produção, fazer a transição para um novo modelo econômico e torná-lo em 15 anos um "Estado Carbono Neutro”. Estudo recente do TNC, Natura e Banco Interamericano de Desenvolvimento, o BID, indica que a bioeconomia pode gerar receitas anuais de US$ 30 bilhões para o estado até 2040.
Eleito com 70% dos votos no primeiro turno, aos 44 anos Barbalho, que pertence a uma das famílias mais influentes na política do Pará, tem planos grandiosos para o estado e para si. Começou a carreira jovem. Foi vereador aos 21 anos e se tornou o deputado estadual mais votado do Pará aos 23, além de prefeito do município de Ananindeua, o segundo maior do estado, ainda aos 25. Também foi âncora de um programa de rádio na emissora da família.
A COP é grande vitrine — nacional e internacional — para ele e seu governo. Para o presidente Luiz Inácio Lula da Silva também. É a confirmação da volta do Brasil ao cenário mundial como líder das grandes questões globais.
Vitrine do BrasilA presidência brasileira da COP virá na sequência da presidência do G20, o grupo das 19 maiores economias do mundo mais a União Europeia e a União Africana. Ou seja, não é do interesse de ninguém que as coisas saiam erradas.
A candidatura de Belém teve o aval do governo federal desde o início. Antes mesmo de tomar posse como presidente, Lula foi convidado para participar da COP em Sharm El-Sheikh como membro da comitiva do governo do Pará. Dos R$ 4 bilhões que devem ser gastos para mudar a cara de Belém até o ano que vem, R$ 3 bilhões virão do governo federal. Mas se o arranjo político parece azeitado, a realidade se impõe. O entrosamento não tem sido suficiente para a necessária arrancada.
Do apertado aeroporto, onde a confusão das esteiras de bagagens confirma que há muito a ser feito, até a chegada no bairro da Campina, no centro, o motorista de táxi Waltair aponta obras em parques e canais da cidade. Diz que são apenas maquiagem, enquanto mostra pilhas de entulho e lixo em várias ruas. Ele ecoa o que dizem seus colegas e os vendedores no tradicional mercado popular Ver-o-peso, que acham que a cidade pode passar vergonha.
Na bagunça organizada do mercado, com suas barracas repletas de restaurantes, produtos amazônicos e os peixes pescados na madrugada para a venda no local ou no resto do Brasil, também há certa descrença. O Ver-0-peso vai ser transferido para dois galpões próximos para que a área atual passe por reformas até a COP. É um dos atrativos turísticos da cidade. Outros dois mercados populares e parte da casario de arquitetura pombalina de Belém também devem ser renovados. As belas fachadas estão caindo aos pedaços.
Parte dos atrasos no preparativos pode ter a ver com o cenário eleitoral em Belém que, em novembro, escolhe novo prefeito. Em baixa, o atual até gostaria de tirar uma casquinha das obras da COP. O que se diz é que, talvez por isso o governo do estado, que apoiaria outro candidato, ainda não tenha pisado no acelerador. O governador tem um candidato seu.
Nas duas semanas da COP, todos os holofotes internacionais estarão sobre o município de 1,3 milhão de habitantes que tem a sexta pior rede de saneamento do país, onde um em cada quatro moradores não tem acesso a água tratada e a maioria está fora da rede de esgoto. Além disso, paradoxalmente, a cidade amazônica, cercada de floresta, é a segunda menos arborizada do país. A segurança é outro item importante. A recomendação dos locais a quem anda pelas ruas de Belém é máxima atenção a assaltos. Desaconselham até curtas caminhadas pelo centro antigo, na área comercial, degradado durante o dia e deserto à noite.
A vice-governadora garante que a cidade estará pronta para além dos parques que estão sendo revitalizados. Fala de plano viário, com melhoria de vias com pavimentação, drenagem e sinalização. “Não apenas nos principais corredores, mas de muitas vias na nossa capital, o que inclui essa área lá do centro comercial”, diz.
Sobre o aeroporto, admite que hoje opera com apenas 50% da sua capacidade e precisa de adequações. Mas já há contatos com concessionária responsável pela sua gestão e com o governo federal para tentar antecipar o plano de investimentos previsto no leilão de concessão de modo que as obras estejam prontas no prazo.
"Dá tempo, porque, como eu falei, não envolve obras de construção e sim de readaptação, de realocação de horários de voos, porque hoje os voos chegam quase no mesmo horário”, afirmou a vice-governadora.
Hana lembra que não será a primeira vez que Belém verá forasteiros em quantidade e garante que a cidade não vai "colapsar". Por ocasião do Círio de Nazaré, grandiosa manifestação cultural, de fé e devoção à Nossa Senhora de Nazaré, que acontece há 200 anos, em outubro, a cidade recebe dois milhões de pessoas para eventos que vão de missas, a romarias e procissões religiosas. Mas o público do círio é bem diferente do que chegará para a COP30 em 2025.
"A grande diferença do Círio de Nazaré é que as pessoas se hospedam muito em casas de familiares, que é a cultura do Círio. Então o público é diferente do que vem para COP. Mas em termos de quantidade de pessoas circulando, eu sempre uso esse exemplo. Apesar do público ser diferente e de nós termos de trabalhar hospedagem de forma diferente, a cidade não colapsa. No Círio não falta internet, não falta alimentação”, destaca.
Não se trata apenas da estrutura. Espera-se que a COP30 na Amazônia avance no combate à mudança do clima. Para a cacique Watatakalu Yawalapiti, é preciso incluir as comunidades indígenas na discussão, mostrar como se faz economia dentro de uma aldeia sem precisar derrubar nenhuma árvore.
“Não dá mais para brincar com o nosso povo indígena. Nós não somos brinquedinhos, nós não somos bichinhos para ser mostrados para estrangeiro”, afirma ela, que é líder de 16 povos indígenas no Xingu à RFI.
O evento tem o desafio de mostrar que o Brasil tem condições de realizar uma COP na Amazônia, objeto de encantamento internacional pelo exotismo e pela urgência climática, e que a região tem condições de se desenvolver economicamente sem derrubar árvores, ao mesmo tempo em que garante qualidade de vida a sua comunidade diversa, com respeito ao conhecimento tradicional. Tudo isso no momento em que se comemoram dez anos do grande acordo do clima firmado em Paris em 2015. Se der errado, pode se tornar um grande tiro no pé.
Em novembro deste ano, na COP29 no Azerbaijão, os países devem ajustar metas e as necessidades de financiamento para a transição energética global. A expectativa é a de que o esforço seja bem maior do que se imaginava uma década atrás.
Madri foi palco do Fórum “Transformações: Revolução Digital e Democracia”. Autoridades e acadêmicos brasileiros e espanhóis se reuniram para debater temas como a regulação do conteúdo online, a inteligência artificial e o futuro da democracia na era digital.
Ana Beatriz Farias de Oliveira, correspondente da RFI Brasil em Madri
O evento, organizado sexta-feira (4) pelo Fórum de Integração Brasil Europa (FIBE), contou com a presença do ministro do Superior Tribunal de Justiça, Ricardo Villas Bôas Cuevas. Presidente da comissão de juristas que propõe subsídios à regulação da Inteligência Artificial no Brasil, ele avaliou que, depois de mais de quatro anos de debate, o Brasil já está “muito perto de chegar a um consenso sobre a regulação”, mas deixou claro que a meta, neste âmbito, deve ir além do território nacional.
“Esse modelo regulatório, originalmente, nasceu sob a inspiração do modelo europeu de regulação e hoje ele já incorpora elementos também do Reino Unido e dos Estados Unidos. Há uma convergência internacional em alguns pilares da regulação e o Brasil faz parte desse debate, portanto estar nesse Fórum na Europa é muito importante para que possamos intensificar esse diálogo e quem sabe atingir o ideal de uma regulação internacional sobre a inteligência artificial que acho que deve ser a meta de todos”, declarou à RFI.
Quem também compareceu ao encontro foi o ministro do Supremo Tribunal Federal Gilmar Mendes. O magistrado defendeu a necessidade de regulamentar a internet, ressaltando que os brasileiros já pagaram um preço alto pela falta de mecanismos de responsabilização pelo que se publica online – referindo-se aos reiterados ataques sofridos pelas instituições que culminaram no episódio de 8 de janeiro de 2023.
Membro do Conselho Consultivo do Fórum de Integração Brasil Europa, Gilmar Mendes foi citado várias vezes, ao longo do dia, como um dos responsáveis pelo êxito do evento, que já foi sediado em Lisboa e acontece pela primeira vez em solo espanhol.
“A Espanha tem uma experiência muito rica em relação a isso, a Europa tem uma experiência rica com a ideia da regulação que inicialmente começou na Alemanha e depois passou para âmbito europeu”, declarou, em entrevista à RFI. Na Europa, “já se definem as responsabilidades de provedores”, por exemplo, e o Brasil tem muito a aprender do modelo implementado no continente, salientou Mendes.
Lei europeiaIbán García del Blanco, um dos representantes espanhóis, foi o único eurodeputado espanhol a participar das negociações finais que, em dezembro, permitiram que a União Europeia chegasse a um acordo sobre a primeira lei de inteligência artificial completa do mundo. A norma busca principalmente garantir que os modelos de inteligência artificial generativa não violem os direitos fundamentais.
Estão previstas na lei europeia garantias de transparência e de veracidade na transmissão de informação. O eurodeputado declarou que é “crucial que as grandes democracias do mundo se unam em torno de alguns aspectos essenciais para, de certa forma, equilibrar a balança frente a agentes globais e empresas multinacionais que detêm um poder imenso, muitas vezes superando até mesmo o poder dos Estados em si”.
Já a deputada espanhola Tesh Sidi participou de um painel dedicado a discutir a consolidação de uma democracia 4.0. Engenheira informática, a parlamentar acrescentou que até o momento a transformação digital tem sido tratada de forma compartimentada e ressaltou que, pela primeira vez, a Espanha tem um ministério dedicado à transformação digital e está olhando para essa questão de forma mais séria.
Tesh Sidi defende a criação e a implementação de uma sociedade verdadeiramente digital, com as novas ferramentas servindo para uma maior participação da cidadania em processos eleitorais, além de defender a criação de uma linha estável de financiamento público que fomente as iniciativas relacionadas a este campo.
Cenário do BrasilO senador Eduardo Gomes, relator da Comissão Temporária Interna sobre Inteligência Artificial no Senado Federal, também compareceu ao fórum e traçou um panorama dos avanços na regulamentação da IA no Brasil. De acordo com ele, “nós estamos vivendo um momento agora praticamente da derradeira consulta para a concepção do texto final e votação na Câmara e no Senado”.
O senador falou sobre alguns dos principais pontos que estão sendo debatidos em relação ao tema no país e que serão incluídos nesta redação. Segundo ele, estão sendo previstas “a garantia ao direito de propriedade, aos direitos autorais, à proteção do ser humano em todos os seus aspectos – de segurança e de propriedade dos seus dados”.
Eduardo Gomes disse ainda que, por se tratar de um tema volátil e que se atualiza a todo instante, este é um assunto que será visitado permanentemente pelo Congresso para suas regulações, definições, adaptações. “Porque é uma novidade que muda a vida de toda a humanidade, então não há pretensão de apresentar uma lei definitiva”, conclui.
“Nós entendemos que lidamos com uma base a ser regulada que muda muito, mas vamos fazer isso com muita atenção, com muita tranquilidade e com muita serenidade”, ressalta o senador.
O renomado fotógrafo brasileiro Sebastião Salgado é o grande homenageado do ano pela Organização Mundial de Fotografia em reconhecimento à sua contribuição à linguagem visual da fotografia. Os vencedores do 17° prêmio Sony World Photography Awards 2024 foram anunciados em uma cerimônia em Londres.
Yula Rocha, correspondente da RFI em Londres
Sebastião Salgado recebeu o prêmio Outstanding Contribution to Photography (Contribuição Notável para a Fotografia), sendo o primeiro brasileiro e o segundo latino-americano agraciado com a honraria.
Uma seleta retrospectiva dos mais famosos trabalhos de Salgado faz parte da exposição de fotógrafos finalistas do prêmio aberta nesta sexta-feira (19) ao público na Somerset House, na capital britânica.
“Zona de Sacrifício” e “Entre Esperança e Distópia” são dois dos títulos das fotografias em cartaz que poderiam dar nome às muitas das imagens captadas por Sebastião Salgado nos últimos cinquenta anos, o grande homenageado da premiação internacional de fotografia - Sony World Photography Awards.
Mas os dois títulos são de fotos de finalistas desta competição que também trataram de temas globais como a catástrofe climática, mineração, migração e destruição das práticas ancestrais de povos Indígenas já retratados por Salgado em seu meio século de carreira como fotógrafo profissional.
Nesta 17ª edição, o juri selecionou cerca de 200 obras entre 395 mil imagens de 220 países, um recorde da competição de fotografia profissional. Os selecionados disputaram prêmios em dez categorias entre arquitetura, meio ambiente, criatividade, retratos, estudantes e jovens, entre outras.
O prêmio de fotógrafo do ano foi dado à francesa Juliette Pavy que expôs uma série de fotografias documentais sobre as vítimas de uma política forçada de controle de natalidade na Groenlândia entre 1966 e 1975 contra quatro mil e quinhentas mulheres Inuit, povo originário do Ártico. A investigação ainda está em curso.
Na mesma categoria de fotojornalismo, e em uma das salas mais cheias da exposição no dia da abertura para imprensa, estão as fotos do brasileiro Raphael Alves. Ele é um dos finalistas da premiação com seu trabalho em Roraima sobre a crise no território Yanomami com retratos fortes de Indígenas desnutridos e rios contaminados pelo mercúrio com avanço da mineração ilegal na Amazônia.
O verão mais quente da história, em 2023, inspirou muitos dos fotógrafos a retratarem as consequências da emergência climática global com imagens artísticas e impactantes das recentes queimadas no Canadá, a extinção de borboletas na Alemanha e a insegurança alimentar causada pelo clima extremo em boa parte do sul global.
Temas como o preconceito enfrentado pela comunidade LGBTQ+ da NASA, que bane astronautas não-héteros nas missões, até as histórias de refugiados trans de Uganda que migraram para o Quênia, onde podem ser o que bem quiserem, também foram contemplados.
Exposição das obras de Salgado
Na última sala da exposição estão as obras em preto e branco selecionadas pelo próprio Sebastião Salgado, reconhecido pela sua contribuição à linguagem visual da fotografia.
São fotos já vistas no Brasil e no mundo como as imagens dos trabalhadores em Serra Pelada e algumas fotos de exposições mais recentes como Genesis e Amazônia.
Aos 80 anos, Sebastião Salgado frequentemente ouve das pessoas que depois de tamanha experiência, ele deveria escrever um livro. A resposta dele está em um texto da exposição:
“Eu já venho escrevendo com fotografias, é minha forma de expressão, minha linguagem. Fotografia é minha vida.”
A exposição fica em cartaz na Somerset House em Londres até o dia 6 de maio.
From the publisher's feed
Confira aqui as análises, entrevistas e repercussões de notícias que você pode ouvir e baixar. As reportagens +RFI propõem a cobertura de eventos importantes no mundo inteiro feita pelos repórteres…

0 Listeners

0 Listeners

0 Listeners

0 Listeners

1 Listeners

1 Listeners

0 Listeners

0 Listeners

0 Listeners

0 Listeners

0 Listeners

0 Listeners

0 Listeners

1 Listeners

0 Listeners