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  • Paris: Sorbonne homenageia cátedra de História do Brasil criada em 1988

    A Sorbonne, criada no século 13 e uma das universidades mais antigas do mundo, celebra em 2024 a cátedra de História do Brasil, com uma homenagem especial aos professores Katia de Queirós Mattoso (1931-2011), Luiz Felipe de Alencastro e Laura de Mello e Souza, que a conduziram durante as últimas quatro décadas. Criada em 1988, a disciplina formou gerações de brasilianistas e transformou o olhar crítico de se pensar a historiografia brasileira a partir da Europa.

    A criação da Cátedra de História do Brasil na Sorbonne, na década de 1980, foi um marco emblemático no aprofundamento do debate de ideias e na disseminação do conhecimento sobre a historiografia brasileira na França e em toda a Europa.

    Presente durante a cerimônia de abertura da homenagem na Sorbonne, em Paris, o ministro André Dunham Maciel, representante da Embaixada brasileira na capital francesa, lembrou que a disciplina se tornou uma "referência internacional, ao longo de seus 40 anos de existência". "Os brasilianistas desempenham um papel essencial na desconstrução de estereótipos sobre o Brasil e no desenvolvimento de pensamento crítico sobre a realidade brasileira", destacou Maciel em seu discurso na Sorbonne. 

    Em declaração à RFI, o embaixador Ricardo Neiva Tavares sublinhou que "a cátedra de História do Brasil na Sorbonne reflete o interesse da França pela nossa história e tem sido central na formação de especialistas e no intercâmbio acadêmico entre os dois países". "Hoje, as relações entre o Brasil e a França estão em momento muito positivo, impulsionadas pelos encontros entre os presidentes Lula e Macron, e pelos preparativos do ano cultural 2025, que celebrará 200 anos de nossas relações diplomáticas", enfatizou Tavares.

    Coerência

    Primeira mulher do mundo a receber, em 2024, o prestigioso Prêmio do Comitê Internacional de Ciências Históricas, a historiadora Laura de Mello Souza falou sobre a genealogia do ensino dessa cátedra ao longo de décadas, e a coerência de sua abordagem.

    "Eu vejo até uma linha de continuidade, porque a Katia de Queirós Mattoso sempre se preocupou com aspectos das camadas ditas subalternas", lembra a pesquisadora, historiadora e escritora brasileira. "Ela tem um livro importante, Être esclave au Brésil (Ser escravo no Brasil), que foi publicado antes na França do que no Brasil. E ela fez demografia, ela fez uma história também das elites. Ela também organizou vários colóquios mesmo antes de eu ser professora aqui na Sorbonne", conta a historiadora. Mattoso, autora de dez livros, vários deles sobre a sociedade baiana no século 19, faleceu em Paris, em 2011.

    "Desde os anos 1990, eu frequento essa cátedra na forma de seminários, colóquios e tenho uma relação antiga com a com a Katia. Nesse sentido, quer dizer, o Luiz Felipe (Alencastro) recupera a questão da escravidão. Ele é um dos maiores historiadores do assunto", ressalta. "Comecei minha carreira trabalhando com grupos socialmente desclassificados e continuei com isso através de documentação da inquisição. Isso sempre foi uma preocupação. Talvez, as metodologias, as preocupações centrais das historiografias tenham se alterado, mas no que diz respeito à cátedra, acho que há um denominador comum, uma linha que diz respeito a essa preocupação com uma história social e cultural", conclui Mello e Souza. 

    Laura, assim como outros historiadores, ressalta a importância de desmistificar o olhar estrangeiro sobre o Brasil. "Eu acho que esse é um esforço nosso de mostrar como há uma continuidade no ensino dessa cátedra, de conflito, de violência em uma sociedade escravista e marcada pela escravidão, como é o caso da sociedade brasileira. Ela é indelevelmente destinada à violência. Essas marcas da sociedade escravista estão presentes na desigualdade social imensa que há no nosso país, na criminalidade e na violência cotidiana", afirmou a historiadora, professora na Sorbonne e na Universidade de São Paulo.

    Historiografia brasileira

    A historiadora francesa e organizadora do colóquio que homenageou a cátedra de História do Brasil na Sorbonne, Charlotte de Castelnau-L’Estoile, que hoje dirige a disciplina, falou sobre a atuação da França na produção de uma historiografia brasileira.

    "Também se tornou importante para nós existirmos, nos misturarmos, apresentarmos ideias, e acho que, em um contexto anglo-saxão totalmente dominante, a França agora também tem um papel a desempenhar na preservação de uma forma de herança que tem sido importante sobre a historiografia brasileira", afirmou. "Há muita reflexão sobre o Brasil aqui, e tenho até amigos portugueses que acham que se fala mais sobre o Brasil na França do que em Portugal. Portanto, essa tradição existe e acho que é importante", destacou.

    Segundo informações da Embaixada Brasileira em Paris, a França é hoje um dos principais parceiros científicos e universitários do Brasil. Dados oficiais mostram que existem atualmente mais de 5.600 estudantes brasileiros em território francês. Os dois países contam com mais de 1.300 acordos universitários bilaterais em atividade.

    7 min
  • Museu francês exibe obras-primas da Galeria Borghese, de Roma, iniciada por um cardeal inescrupuloso

    Depois de mais de um ano fechado para reformas, o museu Jacquemart-André, de Paris, reabre com uma exposição de obras-primas da Galeria Borghese, de Roma, um dos principais endereços culturais da capital italiana. O empréstimo inclui quadros de Ticiano, Rafael, Boticelli, Rubens e Caravaggio, obras que raramente viajam.

    Patrícia Moribe, de Paris

    A Galeria Borghese é fruto de um colecionador compulsivo e pouco escrupuloso, o cardeal Scipione Caffarelli-Borghese (1577-1633), sobrinho de Camillo Borghese, eleito papa Paulo V. Numa era em que a igreja era sinônimo de poder, o cardeal amealhou uma impressionante coleção de esculturas antigas e pinturas – no final do século 17, a família Borghese possuía cerca de 800 peças.

    Para abrigar o acervo, Scipione construiu a suntuosa Villa Borghese, inspirada em mansões romanas, em meio a um parque em uma das sete colinas de Roma.

    Uma parte da coleção de antiguidades foi vendida à Napoleão Bonaparte e transferida para o Louvre após o casamento arranjado de sua irmã Pauline com um rico príncipe da família Borghese. Para evitar a dispersão do tesouro, o Estado italiano compra a coleção e transforma a magnífica mansão em museu público, a Galeria Borghese.

    A história conta um episódio que demonstra bem o caráter pouco lícito do cardeal amante das artes. Ele convence o tio papa a confiscar, em 1607, mais de cem obras de Cavalier d’Arpino (1568-1640), então um dos artistas mais cotados de Roma. O pretexto foi posse ilegal de armas de fogo. Em seguida, o generoso papa presenteia o sobrinho com o espólio retido de d’Arpino.

    “A exposição é o resultado de um encontro incrível com Francesca Capelletti, diretora-geral da Galeria Borghese, que estava procurando um local para exibir sua coleção fora de Roma, durante reformas”, explica Christophe Beth, administrador do museu Jacquemart-André. “E o que poderia ser melhor do que uma exposição sobre essas obras-primas absolutas da coleção Borghese para a reabertura do museu?”, diz.

    “O objetivo foi escolher as obras mais emblemáticas e, ao mesmo tempo, que fossem compatíveis com o museu Jacquemart-André, que era uma residência, uma mansão do século 19. Os espaços são de tamanho humano, portanto, não pudemos trazer grandes esculturas. Mas trouxemos quadros de Da Vinci, Caravaggio, Rafael e muitos outros. E criamos um espaço para as esculturas de Bernini”, diz o administrador francês.

    O conjunto das obras a serem expostas foi escolhido em colaboração entre a Galeria Borghese e o curador da exposição, Pierre Curie, que é conservador do museu Jacquemart-André.

    A exposição vem atraindo muitos visitantes, ocasionando filas e opiniões variadas.

    “A exposição me surpreendeu. Ela é pequena, distribuída em algumas salas. As obras mostram o gosto refinado dos colecionadores. Mas é muito cheio, as pessoas se empurram e não há espaço para se apreciar as obras”, conta a guia turística Zilda Figueiredo.

    “É uma coleção interessante, gostei da ideia de ver essas obras em Paris, pois assim não preciso viajar até Roma”, disse a aposentada holandesa Kathleen.

    “O museu Jacquemart-André é uma residência concluída em 1875, encomendada por Édouard André, seu proprietário, um rico herdeiro de uma família de banqueiros de Paris. O hedonismo foi algo que ele buscou ao longo de sua vida, enriquecendo sua casa com coleções de arte, quadros, esculturas, móveis e objetos. Com sua esposa Nelly Jacquemart, ele viajou o mundo para adquirir obras de arte”, relata Beth.

    A visita à suntuosa mansão do casal Jacquemart-André é uma viagem no tempo, com obras do século 15 ao século 18, incluindo quadros de Van Dyck, Rembrandt, Canaletto, Mantegna, Botticelli, Fragonard e outros. O casal, que não tinha filhos, legou tudo ao Instituto da França para que fosse transformado em museu, inaugurado em 1913.

     A exposição “Obras-Primas da Galeria Borghese” fica em cartaz até 5 de janeiro de 2024, no Museu Jacquemart-André, em Paris.

    5 min
  • Hub latino-americano de moda criado por brasileiras em Paris quer 'quebrar tabus' e empoderar mulheres

    O Aysú Concept foi idealizado por duas jovens amigas brasileiras conectadas pelo amor aos estudos de moda. Mariana Sales, 28, e Elora Janguiê, 25, uniram o desejo de ambas de compartilhar a riqueza e a diversidade da moda latino-americana na Europa. Baseada em Paris, a loja é 100% digital e possui atualmente uma seleção de 16 marcas, “cada uma refletindo o patrimônio cultural e o artesanato único da América Latina”, segundo as fundadoras. 

    Além disso, as jovens têm “uma visão muito parecida sobre criar uma comunidade e incentivar mulheres empreendedoras” com foco na liberdade financeira feminina. A loja conceitual possui atualmente uma seleção de 16 marcas originais do Brasil, México, Peru, Colômbia e Argentina. Mas, de acordo com as fundadoras, há possibilidades de expansão para integração de marcas uruguaias e até americanas fundadas por latinos.  

    Mariana Sales mora em Paris há cinco anos, onde se dedica ao mundo da moda, tendo focado seus estudos em sustentabilidade da moda no Instituto Marangoni e no Instituo Superior de Artes de Paris, além de ter trabalhado no setor de luxo parisiense. Desde janeiro deste ano, ela se tornou diretora criativa da Aysú, coletivo que funciona como um hub dedicado a representar as riquezas brasileiras e latinas no mercado de moda europeu. 

    A jovem explica que a sustentabilidade não está necessariamente nos pilares da Aysú, mas o conceito acabou sendo inserido de forma indireta no coletivo já que as sócias prezam por grifes latino-americanas que usam artesanatos indígenas e locais com materiais de alta durabilidade, ou no inglês slow fashion, ao contrário do atual frenesi do fast fashion, criado por lojas de departamento e sites de entregas de roupas com preços baixos.

    “Slow fashion é aquela moda voltada para a qualidade e não produção em massa. Por exemplo, a produção indígena, ela é muito voltada para produtos naturais. É realmente focar no produto, na produção, na qualidade e não na quantidade”, detalha. 

    Leia tambémProjeto de lei na França prevê sanções financeiras e proibição de publicidade para empresas de 'fast fashion'

    Aceitação do público francês pela moda latina 

    Apesar de ser uma loja 100% digital e baseada em Paris, a Aysú abriu uma pop-up durantes os meses de junho e julho deste ano, uma boutique efêmera que divulgou mais de 20 marcas latino-americanas durante o verão europeu. O objetivo foi vender roupas com a cara dos trópicos no coração de Paris, no icônico bairro do Marais.

    Apesar da forte tradição do prêt-à-porter da moda parisiense e do apego cultural a tudo o que é feito em território nacional, a presidente da Aysú, Elora Janguiê, conta que a ideia de trazer algo novo esbarra no desafio de respeitar o estilo francês. Ela revela que a maior dificuldade foi não só a aceitação do público, mas o desafio de se adaptar às estações opostas entre os hemisférios norte e sul, por se tratarem de marcas totalmente latino-americanas.  

    “A gente consegue trazer uma coleção nova e a gente tem mais tempo para desenvolver as estratégias de venda antes de lançar aqui. Acaba sendo uma vantagem e uma desvantagem ao mesmo tempo”, diz Elora. 

    Ela destaca ainda que a loja física efêmera ajudou a entender melhor o público e traçar novas metas: “A parte da aceitação do público francês foi interessante ver. Deu para ver as marcas mais aceitas. Foi uma espécie de pesquisa de mercado para a gente (...) O francês é bem metódico, é um público bastante exigente e sensível a precificação”, avaliou. 

    Liberdade da mulher e mercado europeu

    Elora Janguiê fez seus estudos superiores nos Estados Unidos na área de jornalismo e mídias sociais, mas a vontade de aprimorar os estudos de francês a trouxe até a cidade-luz. A sororidade feminina é uma marca forte do coletivo das amigas Mariana e Elora. 

    “Eu e Mariana a gente tem uma visão muito parecida sobre criar uma comunidade e incentivar mulheres empreendedoras, a gente tem muito interesse no empreendedorismo feminino e a liberdade financeira da mulher. Acho que foi isso que nos incentivou a cria a Aysú”, revela. 

    As meninas vislumbram expansão para o futuro, “a gente vê que tem uma procura grande de mercados da Espanha e Portugal, então a gente pensa em refazer a pop-up em outros lugares da Europa”. Tem uma grande comunidade latina nesses países que a gente quer conquistar também”.

    Quebrando os tabus de xenofobia 

    Elora Janguiê destaca ainda a importância de desmistificar a ideia de que produtos provenientes da América Latina não têm qualidade. “Eu acho que aqui [na Europa] as pessoas têm a ideia de que produtos da América Latina são de baixa qualidade, não tem expansão criativa, não tem novidade. Eles pensam que é só beleza, só o natural, algo que se possa usar quando se trata de cuidados do corpo”, opina.  

    Para a fundadora, fazem sucesso no continente europeu grifes de moda que se solidificaram com trabalho de anos como PatyBO e Farm, mas acredita ser importante “mostrar a variedade gigantesca de criadores e designers”, e, além disso, “fazer uma diferença social”. 

    “O que a gente está fazendo é claramente uma aceitação de moda, trazendo espaço para essas pessoas aqui na Europa e podendo quebrar muito mais o tabu xenofóbico”, sublinha. 

    Todas as reflexões das jovens amigas associadas ao orgulho de ser latino-americano e sobretudo brasileiras, culminou na ideia de um nome que representasse essa essência, mas para agradar o mercado internacional, era preciso um “nome curto que as pessoas pudessem pronunciar e achassem diferente”.

    Elas escolheram "Aysú", que significa "amor" em tupi-guarani; para a diretora criativa Mariana Sales, “o amor é o que representa tudo para a gente, o amor ao nosso país e à nossa cultura”, conclui.  

    9 min
  • Dupla brasileira é finalista na França do prestigioso prêmio Marcel Duchamp de arte contemporânea

    A dupla brasileira Angela Detanico e Rafael Lain está entre os quatro finalistas da 24ª edição do prestigioso prêmio Marcel Duchamp de arte contemporânea. Essa é a primeira vez que brasileiros são selecionados para a mais importante recompensa de artes plásticas e visuais da França.

    Os artistas brasileiros, radicados em Paris há mais de 20 anos, concorrem com os artistas franceses Gaëlle Choisne, Noémie Goudal e Abdelkader Benchamma.

    O prêmio Marcel Duchamp foi criado em 2000, numa parceria da Association pour la diffusion internationale de l’art français (Associação para a Difusão Internacional da Arte Francesa) e o Centro Pompidou. Ele visa promover as artes plásticas e visuais francesas e dar maior visibilidade internacional aos artistas escolhidos por sua inovação, incentivando novas formas de criação.

    Os finalistas, franceses ou radicados na França, realizaram especialmente para esta edição do prêmio Marcel Duchamp obras que estão expostas no Centro Pompidou de Paris a partir desta quarta-feira (2). São vídeos, desenhos, esculturas e instalações monumentais. Cada finalista ocupa uma sala de uma das galerias do Beaubourg.

    “O Florescimento da Luz”

    Para a ocasião, o coletivo Detanico & Lain montou a instalação “Flowering of Light”, ou “O Florescimento da Luz”. Três partes compõem o universo poético criado pela dupla para essa exposição, que levou quase um ano para ficar pronta.

    A primeira delas coloca em relação “dois tempos muito distintos, que são o começo do universo, campos de galáxias muito antigas de 13 bilhões de anos atrás, em relação com campos de flor, que são fotos que nós fizemos na primavera passada”, descreve Rafael Lain. Segundo Angela Detanico, eles trabalham “naquilo que constitui a imagem, que é a luz".

    A segunda peça “é uma constelação de estrelas, constelação do Rio Eridanus, com os nomes das estrelas codificados no sistema de círculos concêntricos de metal espelhado”. E na última, “os nomes dos mares da lua projetados em um disco de pedras brancas, como num Jardim zen”, completa Rafael.  “Esse imaginário celestial é uma tentativa de compreensão do mundo que muitas vezes é maior do que nós”, sintetiza Angela.

    Radicados em Paris

    Angela Detanico é formada em linguística e Rafael Lain é tipógrafo. A linguagem com suas várias representações está no centro da obra artística da dupla que se inscreve na tradição da poesia e da arte concreta brasileira.

    A obra do coletivo Detanico & Lain tem espaço na cena contemporânea internacional. Em 2004, eles receberam o prêmio Nam June Paik, um dos mais prestigiosos de mídia-arte do mundo. Em 2007, representaram o Brasil na Bienal de Veneza, e muitas instalações da dupla estão expostas em diversos países.

    A nomeação para o Marcel Duchamp foi uma surpresa e “uma alegria”. Independentemente da premiação, Rafael Lain diz que “o mais importante realmente é fazer a exposição, mostrar o trabalho, a pesquisa”.

    Gaúchos de Caxias do Sul, o casal veio a Paris em 2002 para uma residência artística no Palais de Tokyo e decidiu se estabelecer na cidade, lançando uma ponte entre o Brasil e a França. “Trabalhar cada vez mais, ter projetos na França e no Brasil também. É sempre muito importante para a gente manter esses dois pés, um em cada lado do Oceano Atlântico”, afirma Angela Detanico.

    O prêmio Marcel Duchamp distribui € 90 mil (cerca de R$ 540 mil), sendo € 35 mil para o vitorioso, escolhido por um júri internacional formado por artistas, colecionadores e diretores de grandes instituições culturais. O vencedor da 24ª edição será conhecido no dia 14 de outubro, mas os trabalhos dos quatro finalistas podem ser vistos no Centro Pompidou de Paris até 6 de janeiro de 2025.

    7 min
  • Delegações indígenas brasileiras na Europa denunciam continuidade de desmatamento e massacres

    Duas delegações do Cimi – Conselho Indigenista Missionário - estão na Europa, uma participando da terceira caravana pela ecologia integral, uma iniciativa da rede Igrejas e Minorias, e outra acompanhando o Conselho de direitos Humanos das Nações Unidas, em Genebra. Em Paris, participantes dos dois grupos se reuniram nesta segunda-feira (30) com associações locais para falar de seus objetivos e compartilhar experiências.

    Quando Lula subiu a rampa do Planalto em janeiro de 2023, acompanhado por uma amostra da diversidade brasileira, incluindo o cacique Raoni Metuktire, de 90 anos, líder do povo Kayapó, pensou-se que a questão indígena seria tratada com a merecida atenção depois de quatro anos de destruição promovido pelo governo Bolsonaro. Mas um grupo de indígenas brasileiros está na Europa para denunciar que o descaso, os assassinatos e o desmatamento da floresta continuam.

    Gláuber Sezerino, do Crid, uma rede de organização de solidariedade internacional, e co-presidente da associação Autres Brésils foi o mediador do encontro entre representantes de povos indígenas, especialistas e associações locais e internacionais.

    A caravana tem como tema o questionamento da tradição e da transição energética e as suas consequências para os territórios indígenas, com vários exemplos na América Latina. Já a delegação do CIMI nas Nações Unidas veio com o propósito principal de denunciar toda a violência recente sofrida pelos povos indígenas na luta por seus territórios.

    Leis à base de canetadas e balas

     “No nosso país eles estão valorizando mais agro do que o povo indígena”, denuncia Simão Kaiowá, que falou sobre a violência sofrida pelos povos originários no Mato Grosso do Sul, onde um projeto de ferrovia deve passar por 24 territórios indígenas. “E a gente pede o apoio e espera que a denúncia chegue mais uma vez à ONU sobre essa violência que acontece com o nosso povo”. As leis hoje são feitas à base de canetadas e balas, diz Simão, que carrega uma bala alojada perto do coração, resultado de um atentado.

    “Eu venho do Vale do Jequitinhonha e atualmente meus dois povos vivem nessa região, depois de terem sido desterritorializados por empresas que dizem ser desenvolvimentistas”, diz Ytxaha Pankararu/Pataxó. “Primeiramente, meu povo Pankararu foi impactado pela hidrelétrica da Chesf, inundou um território e houve muitos conflitos no nosso território. Então, minha família teve que sair e meu povo Pataxó também. Também há os conflitos territoriais causados pela monocultura e grandes fazendas ao redor.”

    De olho no lítio

    “Então meu povo foi expulso e tem mais de 30 anos que a gente está no estado de Minas Gerais, que é um estado também muito afetado pela mineração”, diz Ytxaha, citando Brumadinho. “E todo esse discurso que vem causando violência aos nossos corpos e nosso território também”, lamenta, lembrando que o Vale do Jequitinhonha guarda uma cobiçada reserva de lítio.

    Já Railson Guajajara falou sobre o avanço do desmatamento na Amazoônia, destacando o Maranhão, um dos estados onde a floresta desaparece com mais velocidade. Uma das primeiras consequências é a escassez de água, que afeta o povo Guajajara e outros núcleos de contato recente que vivem isolados.  “Os grandes países gastam milhares e milhares de dólares e de euros para fazer uma reunião trazendo vários líderes mundiais para tratar das mudanças climáticas. Mas o que estão fazendo para fazer a mudança climática?”, pergunta Railson, lembrando que a problemática não é apenas indígena, mas global.

    As delegações do CIMI contam ainda com as presenças do antropólogo indigenista Christian Crevels, Matias Benno Rempel, coordenador do Cimi no Mato Grosso do Sul, e do jornalista Renato Santana.

    6 min
  • Parte da esquerda brasileira vive “fora da realidade”, diz documentarista no Festival de Biarritz

    Como todos os anos, o Festival de Cinema Latino-Americano de Biarritz abre espaço para discussões políticas e a situação da democracia brasileira foi o assunto de um debate, no domingo (22). O historiador francês Olivier Compagnon recebeu o documentarista Ivan Cordeiro e a produtora Sara Silveira para falar sobre os avanços e os problemas persistentes no Brasil, dois anos após a volta do presidente Luiz Inácio Lula da Silva ao poder.  

    Maria Paula Carvalho, enviada especial da RFI a Biarritz 

    O professor de História Contemporânea na Universidade Sorbonne Nouvelle (Instituto de Estudos Avançados Latino-Americanos) Olivier Compagnon abriu o encontro com o público perguntando sobre a “resistência atual e uma certa decepção com relação ao presidente Lula no Brasil” que, segundo ele, não “consegue diminuir a desigualdade e melhorar a educação” no país. 

    O documentarista Ivan Cordeiro, que apresenta em Biarritz o curta-metragem “A Visita”, com sequências de arquivo em Super 8 (formato cinematográfico de fitas desenvolvido nos anos 1960) restauradas da visita de Lula ao Recife durante a campanha eleitoral de 1982, começou argumentando que a situação do Brasil está melhor hoje.

    “A democracia brasileira está bem, graças a Deus, com o retorno de Lula como presidente. Mas é muito difícil consertar quatro anos do bolsonarismo no Brasil. Então, ele está tentando reconstruir todos os laços democráticos que havia antes que o golpe aconteceu”, disse.

    “Mas é impossível para o Lula ter uma resposta imediata para a solucionar todos os problemas, porque está além do que ele pode fazer, uma vez que todo o sistema internacional de finanças não é controlado por ele, mas por uma oligarquia que não somente retém o poderio monetário do mundo, assim como todas as mídias do mundo”, observou Ivan Cordeiro em entrevista à RFI. 

    Cordeiro falou, no entanto, sobre a necessidade de um reposicionamento de parte da esquerda no Brasil. “A esquerda brasileira, a ultraesquerda, ainda é aquela esquerda completamente fora da realidade”, destacou. “Ainda acreditam que a Rússia é um país comunista e certas coisas. Então, a esquerda brasileira tem que se coadunar realmente com a situação mundial, que é outra”, continuou. “Não existe mais comunismo no mundo, o que existe são ditaduras capitalistas que usam o comunismo para se beneficiar”, afirmou o documentarista que vive em Los Angeles, nos Estados Unidos, há 43 anos.  

    A crise venezuelana também foi discutida em Biarritz: “O problema da Venezuela é um problema muito sério, porque não somente existe a ditadura de direita, como existe a ditadura de esquerda. Então, eu acho que o Lula fica um pouco na gangorra, né? Ele não sabe se concorda com o lado da direita ou com a esquerda. E penso que ele tem que ter uma mensagem certa, sincera, do que realmente é a Venezuela. O que está por trás disso tudo com o sistema da Venezuela?”, questiona. “Mas também tem o outro lado da pressão internacional, justamente dos Estados Unidos, que ditam um sistema contra a Venezuela de sanções e que dificulta muito qualquer governo, seja o de Maduro, seja outro que não uma pessoa escolhida pelos Estados Unidos com fins econômicos e petrolíferos”, completa. 

    O filme “A Visita”, que concorre na categoria curta-metragem em Biarritz, foi remasterizado em Los Angeles e apresenta uma versão de Lula pouco conhecida, segundo o diretor. "Em 1982, o Lula veio para o Recife para ajudar na campanha política de certos candidatos do PT. Ele era líder do Sindicato dos Metalúrgicos, ainda não era candidato a nada. Então, eu tive a oportunidade de passar um dia com ele. É uma espécie de home movie com Lula, com essas imagens muito intimistas, em que a gente pôde ver muito da personalidade dele: aquela pessoa que escuta mais do que fala e somente fala quando realmente tem uma mensagem para dar”, destaca. 

    "O ódio tem que ser exterminado"

    A produtora de cinema Sara Silveira, que veio a Biarritz apresentar o longa-metragem “Cidade; Campo”, também participou do debate no antigo Cassino de Biarritz. “O Brasil ainda está numa situação muito conturbada. Nós tivemos quatro anos de um governo de extrema direita que fez muito mal ao Brasil culturalmente, mas também socialmente”, contou ela diante de uma plateia formada por amantes do cinema e estudantes.  

    “Então, nós estamos num período de reconstituição geral de tudo, porque quando esse novo governo Lula chegou ao governo, nem salas mais havia. Não tinham mais equipamentos culturais, nada”, lamenta. “O Brasil tem uma economia criativa monstruosa. As possibilidades são enormes. O país é diverso, com muito mais jovens e tem tudo para dar certo. Nós precisamos é ter pessoas que nos levem a esse caminho”, completa. 

    Em entrevista à RFI, Sara Silveira também explicou sobre a polarização política atual na sociedade brasileira. “A questão das fake news, essa indústria de fake news, esse lado obscuro da internet que veio para melhorar o mundo, mas que permite a essas pessoas desumanas utilizarem este método para proclamarem essa polarização e esse ódio que tem que ser exterminado”, acredita. 

    Aos 74 anos, com mais de 50 filmes realizados na carreira, a produtora ainda falou sobre o combate à corrupção, que considera endêmica no Brasil, e sobre o momento vivido pela esquerda brasileira. “Não acho que a esquerda fez ainda essa reflexão que a gente está querendo, que a gente está esperando. Eu, inclusive aqui, aproveito para dizer à esquerda: nós todos que lutamos por essa via de pensamento no mundo temos que humanizar, buscar a honestidade, dar o máximo que nós pudermos em nossas ações”, afirma. 

    “Eu acho que a autoanálise não está sendo feita, ainda tem muito trabalho mesmo. A esquerda tem muito trabalho. A esquerda no Brasil não é aquela união perfeita”, lamenta. “Nós precisamos, inclusive, é garantir que estes governos mais humanos permaneçam lá e que aprendam com esses erros, é isso que eu espero com o Lula, que aprenda com tudo o que aconteceu lá”, conclui Sara Silveira.

    Por fim, a produtora destaca o caminho da educação para levar o Brasil a um novo patamar de desenvolvimento. "Essa é questão, de formação mesmo, é a educação. Precisa começar por baixo, na escola, na base, que eu acho que é o que o Brasil precisa. É um trabalho de base, entendeu?", finaliza.

    10 min
  • Lavagem da Madeleine faz Paris virar Salvador ao som de Carlinhos Brown e muita cultura brasileira

    Paris virou Bahia neste domingo (15). Mais especificamente, Salvador. Ao som de Carlinhos Brown, com direito a um trio elétrico puxando um cortejo de milhares de pessoas, foi realizada nesta tarde a "Lavagem da Madeleine", que traz um pedaço da cultura baiana e afro-brasileira para a capital francesa.

    Renan Tolentino, da RFI em Paris

    Inspirado na histórica Lavagem da Igreja do Senhor do Bonfim, em Salvador, o evento já virou tradição em Paris, sendo organizado todos os anos há mais de duas décadas, desde 2002. Por conta disso, foi incluído até mesmo no calendário oficial da prefeitura parisiense.

    “Esse evento é o fortalecimento da relação Brasil e França, do amor entre os dois países. É a França e o Brasil se abraçando”, Robertinho Chaves, idealizador da Lavagem da Madeleine.

    “Foi tudo muito lindo. Além de ser um evento com mais gente, que agregou outros grupos (culturais) novos que chegaram, foi um dia de sol, não fez muito calor, não fez frio. Então, foi uma vitória do nosso projeto, tudo ajudou. Estou muito feliz. Sentimento de missão cumprida. É muito bom saber que estamos levando um Brasil maravilhoso para o mundo todo ver. Um Brasil lindo, da cultura afro, do maracatu, da capoeira, do afoxé, do candomblé… um Brasil da diversidade”, celebrou o baiano Robertinho.

    A programação desta 23⁠ª edição contou mais uma vez com o cantor baiano Carlinhos Brown animando a multidão em cima de um trio elétrico, bem ao estilo carnaval fora de época. Além de Brown, também fizeram parte da atração musical diferentes blocos de percussão e alas, como das baianas, maracatu, grupos de batucada e capoeira.

    Como todo ano, o cortejo de quase 4 km saiu da Praça da República, localizada no Centro da cidade, e seguiu rumo ao 8⁠º distrito, onde foi realizada a lavagem das escadarias da igreja da Madeleine, feita pelas baianas com a bênção do babalorixà Pai Pote, de Santo Amaro (BA), presente a cada edição. Durante o ritual, é jogada a tradicional água de cheiro, com pétalas de flores, no público e nos degraus, que são varridos logo em seguida pelas baianas.

    “Através da lavagem, viemos trazer a cultura da Bahia, de Santo Amaro, e energias positivas, ancestralidade (...) Para mim, é importante representar diferentes segmentos religiosos de culto afro e também afirmar a nossa negritude, a nossa cultura popular”, explicou Pai Pote.

    Religião e cultura juntas

    Uma roda de capoeira em pleno boulevard Saint Martin, com a ala das baianas à frente e o trio-elétrico de Carlinhos Brown atrás. Esse foi o cenário que o Centro de Paris presenciou neste domingo para a Lavagem da Igreja Madeleine.

    Como já virou tradição na capital francesa, o cortejo atrai tanto brasileiros como franceses que querem conhecer um pouco mais da cultura da Bahia. Para a estudante Naomi Silva Quirino foi um presente de boas-vindas, já que ela chegou do Brasil há poucos dias e já se depara com uma celebração de sua religião em pleno solo francês.

    “Foi uma grande surpresa, como se fosse uma recepção minha na França. Eu sou candomblecista. Então, saindo do Brasil para estudar, passar dois anos fora, eu estava muito apreensiva de passar um tempo longe da religião. Ter vindo aqui foi realmente uma grande surpresa, peguei a bênção, peguei a água de cheiro. Estou muito, muito feliz”, contou Naomi.

    Ela acredita que a lavagem da Madeleine vai além do teor religioso, mas presta também um serviço de inclusão, para mostrar a diversidade cultural do Brasil.

    “Acho importantíssimo, porque a religião para gente no Brasil é mais do que religião, expressa uma cultura, principalmente pensando nas religiões de matriz afro (...) Acho que é uma maneira de você mostrar para a França que (o Brasil) tem mais do que o samba do Rio de Janeiro, tem outras regiões, outras crenças e outras caras também”, concluiu a estudante.

    Personalidades marcam presença

    Além de Carlinhos Brown, figura carimbada na festa, ao longo desses 23 anos a Lavagem da Madeleine já recebeu outros artistas brasileiros, como Caetano Veloso e Margareth Menezes, em edições anteriores.

    O evento tem como padrinhos o ator francês Vincent Cassel, que tem uma ligação forte com o Brasil, e a modelo e apresentadora carioca Cristina Cordula, personalidade conhecida do público francês, que vive em Paris.

    “É uma honra para mim, porque é o maior evento cultural brasileiro que tem aqui (em Paris). Eu acompanho há muitos anos, sou madrinha desse evento e é maravilhoso. Eles (idealizadores) começaram de pouquinho em pouquinho e hoje você vem aqui, é Carlinhos Brown, é o trio-elétrico, toda essa organização. Para celebrar a cultura brasileira, paz e amor entre as pessoas. É muito bonito”, comemorou Cristina.

    Este ano, quem também marcou presença foi a atriz brasileira Maria Fernanda Cândido. A artista participou pela primeira vez do evento e elogiou a iniciativa de trazer a cultura do Brasil para mostrar aos franceses através de uma tradição religiosa, como a lavagem da igreja.

    “Gostaria de ter vindo já antes, mas não tinha conseguido ainda. Hoje, pude estar aqui, curtindo essa maravilha, essa energia, esse astral, com a percussão da nossa cultura, o Carlinhos Brown no trio-elétrico...", Maria Fernanda Cândido.

    "Eu acho que a França e o Brasil são culturas que têm muita afinidade, que se complementam. E são povos que se gostam muito. Entao, poder participar de uma celebração como essa, que junta essas duas culturas, é um grande privilégio e uma grande alegria”, concluiu a atriz.

    Com essas referências e as bênçãos espirituais, a Lavagem da Madeleine tem tudo para continuar fazendo Paris virar Salvador pelas próximas décadas.

    7 min
  • Macron recebe empresários brasileiros para atrair investimentos e defende entrada do Brasil na OCDE

    Cerca de 35 empresários brasileiros foram recebidos nesta quinta-feira (12) pelo presidente Emmanuel Macron em um almoço no Palácio do Eliseu, sede da presidência francesa em Paris. O maior objetivo desse encontro foi apresentar a França como uma terra de muitas oportunidades de negócios para as grandes empresas brasileiras. Na ocasião, o chefe de Estado francês apoiou a entrada do Brasil na OCDE

    O ex-governador de São Paulo, João Doria, co-chairman do LIDE, grupo responsável pela organização do evento, comemorou o entusiasmo demonstrado pelo presidente Emmanuel Macron para convencer os empresários brasileiros das oportunidades no país. Ele considerou o encontro “muito construtivo” para a relação bilateral. 

    “Várias empresas que vieram aqui já são investidoras na França e querem ampliar (os negócios). Outras, desejam investir. O presidente Macron expôs as facilidades, as vantagens e os benefícios do ponto de vista do mercado para essas empresas”, ressaltou.

    A questão ambiental do Brasil teve um lugar de destaque nas discussões. Os empresários brasileiros, questionaram Macron sobre as barreiras que existem em torno do acordo União Europeia e Mercosul, em discussão há mais de duas décadas.

    A conhecida resistência da França, principalmente em relação ao impacto ambiental provocado pelo sistema de exploração do agronegócio brasileiro, é considerada um dos principais entraves para a conclusão do tratado de livre comércio. O presidente Macron se mostrou aberto ao diálogo, mas sempre colocando a questão ambiental no centro das preocupações, explica Pedro Antonio Gouvêa, presidente da Câmara de Comércio França-Brasil e também membro do grupo LIDE França.

    “Nós temos que ter responsabilidade no agro, que não pode ser visto como um vilão. Eu tenho a impressão que a União Europeia já tem essa questão mais equacionada, de ter um diálogo que seja propositivo de forma que nós busquemos caminhos que sejam confortáveis para todo mundo”, afirmou Gouvêa.

    Apoio para entrada na OCDE

    O ex-ministro da Indústria e Comércio, Luiz Fernando Furlan, acionista da empresa BRF, uma das maiores produtoras de proteína animal do mundo, destacou o apoio do presidente francês para a entrada do Brasil na OCDE, (Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico), defendida também pelo grupo de empresários brasileiros presentes na reunião. “A França apoia a entrada no Brasil na OCDE. Esse foi o ganho final da nossa reunião,”, afirmou Furlan. “Quando falamos do acordo União Europeia - Mercosul ele não foi tão assertivo, mas no caso da OCDE, deu um ‘sim’ muito positivo”, contou.

    Na reunião, os participantes usaram uma pulseira indígena pataxó que também foi oferecida a Macron por iniciativa do francês Alexandre Allard, que há 15 anos investe no Brasil.

    Allard aconselha principalmente os empresários do agronegócio brasileiro a olhar para a França com mais ambição e até a apostar em fusões e aquisições de empresas francesas detentoras de tecnologias que podem melhorar o desempenho da atividade do setor. “O agrobusiness do Brasil tem que se regenerar totalmente e a França tem tecnologias, como a de drones e inteligência artificial, que os investidores brasileiros podem comprar para implementar no Brasil”, defende.

    O setor do vestuário é um dos que mais vê perspectivas de ampliação de negócios a curto prazo. Alexandre Birman, CEO do grupo Azzas 2154, que atua no segmento de roupas e acessórios, comentou a expansão da marca Farm Rio que abriu uma loja em Paris durante os Jogos Olímpicos e realizou um showroom durante a semana de moda na capital francesa, além da expansão de lojas em Saint-Tropez e outras cidades francesas. “O objetivo é trazer todo o head quarter (sede) para ter uma estrutura mais forte da marca aqui na França”, anunciou após a reunião com Macron.  

    11 min
  • Pouco acesso ao metrô freia impulso à inclusão dos Jogos Paralímpicos em Paris

    A organização dos Jogos Olímpicos e Paralímpicos costuma ser um acelerador de políticas públicas para beneficiar as pessoas com deficiência. Entretanto, os resultados raramente estão à altura do desafio, complexo até para um país desenvolvido como a França.

    Em matéria de acessibilidade, a capital francesa não faz feio, mas ainda não tem medalha de ouro. Na preparação para as Olimpíadas e Paralimpíadas, o orçamento municipal para a acessibilidade universal chegou a € 125 milhões até 2026 – um valor inédito.

    A prefeitura afirma ter feito em um mandato o que costuma ser realizado em quatro: a totalidade das paradas de ônibus de cidade, 2,6 mil, foi adaptada para cadeiras de rodas e 22,6 mil cruzamentos de ruas receberam equipamentos sonoros para auxiliar a travessia das pessoas com deficiência visual. Mais 13 mil foram espalhados por outros pontos, em especial os próximos a atrações turísticas.

    O acesso adaptado às calçadas se generalizou pelas ruas parisienses, graças à aceleração das obras nos últimos 10 anos, desde que a cidade foi escolhida para sediar o megaevento. A ampliação da largura das calçadas permanece um problema apenas nas partes mais antigas de Paris.

    O paratenista de mesa mexicano Alam Gonzales, pela primeira vez na capital francesa, disse estar encantado com a experiência. "Está muito bom, com tudo adaptado para pessoas usuárias de cadeiras de rodas. Já passeei pelas ruas da cidade para conhecer e tudo está perfeito para uma pessoa como eu. Vim sozinho e nem estou precisando da ajuda de ninguém porque tudo está adaptado”, afirma. "O México é muito atrasado no aspecto da acessibilidade, e aqui vejo que por tudo tem rampas, o solo é sempre parelho, e isso ajuda muito para que a gente possa se locomover."

    Acesso ao metrô permanece baixo

    Se experimentasse utilizar o metrô parisiense, talvez o entusiamo não fosse tão grande. Na maioria das estações, Alam não encontraria nem elevador, nem escadas rolantes. O acesso às linhas permanece o ponto crítico da cidade: apenas 29 das 320 estações oferecem acessibilidade plena.

    O principal freio à acessibilidade das estações é o custo. A região de Ile de France, onde se encontra Paris, avalia que as obras para equipar o centenário metrô com escadas rolantes ou elevadores custariam no mínimo € 20 bilhões.

    Mãe de um homem com deficiência nos membros superiores e inferiores, S. Ndiaye levou o filho, Abdoulaye, a Paris para acompanhar algumas competições. Originários do Senegal, eles vivem em Bordeaux, no sudoeste da França, e disseram ter ficado, mais uma vez, decepcionados com a cidade. S. Ndiaye esperava que um país rico seria mais avançado neste aspecto.

    "Eu não não tenho nem coragem de pegar o metrô. Na última vez que vim, uma pessoa nos ajudou a descer as escadas e acabou caindo com a cadeira e o meu filho”, conta a mãe. "Estamos pegando o ônibus, mas as linhas não vão até onde estamos hospedados. Somos obrigados a caminhar muito, muito mesmo."

    O período da Olimpíada, encerrada em 11 de agosto, serviu de teste das instalações para o megaevento – para o qual são esperados até 8 de setembro 350 mil visitantes com deficiência. Equipes de funcionários da prefeitura de Paris e integrantes de associações de usuários percorreram todos os locais de competições para avaliar, na prática, as condições de acolhimento deste público e ouvir as suas queixas.

    A conclusão foi que não eram necessárias modificações específicas para as Paralimpíadas. A falha do acesso ao metrô foi compensada com 150 micro-ônibus (€ 4) e 1,5 mil táxis adaptados à disposição durante o evento.

    Treinamento específico dos voluntários 

    O grupo de voluntários que assumiu o acolhimento do público nesta etapa recebeu um treinamento específico sobre a abordagem respeitosa das pessoas com deficiência, conta a brasileira Julia Bittencourt, 26 anos.

    "Quanto a gente não conhece muito, a gente muitas vezes tem a mania de ir tomando a frente e tirar a autonomia da pessoa, e eles transmitiram essa informação de nos estimular a preservar a autonomia delas, como abordá-las, para e escutar o que elas precisam naquele momento”, indica. "Se ela não está falando que quer ajuda, não devemos ir até elas."

    Um aplicativo, accessible.net, também facilita a vida das pessoas com deficiência de passagem por Paris, ao mostrar o mapa de lojas, restaurantes, teatros, hotéis e outros estabelecimentos adaptados a cadeirantes, surdos ou cegos.

    7 min
  • "Eu luto com as armas que tenho", diz Gabrielzinho, fenômeno da natação paralímpica em Paris

    Por causa dele, o hino do Brasil já foi entoado pelo menos duas vezes na piscina dos Jogos Paralímpicos, em Paris. Gabriel Araújo, o Gabrielzinho, é um dos principais destaques da competição, com várias reportagens sobre a sua performance e o seu carisma tendo sido publicadas na imprensa europeia. Ele levou o ouro nos 100m e 50m costas, na categoria SM2 para atletas com limitação físico-motora na quinta-feira (29) e sábado (31). Neste domingo (1º), ele bateu duas vezes o próprio recorde nos 150 medley. Ao todo, serão 5 provas no evento. A RFI Brasil ouviu torcedores na Arena La Défense e conversou com este fenômeno da natação paralímpica. 

    Maria Paula Carvalho, da RFI em Paris

    "É um fenômeno brasileiro, estamos orgulhosíssimos de tê-lo aqui conosco", diz a engenheira Dafne Brito. "Muito legal, temos que torcer por ele, hoje e sempre", completa.  

    Com 1m e 21 centímetros de altura, Gabriel Araújo é um gigante da natação do Brasil. O mineiro que nasceu com focomelia, uma anomalia congênita que impediu a formação dos braços e pernas, detém diversos títulos internacionais e tem impressionado o público em Paris. "O cara é um monstro, é incrível de ver isso de perto, estamos aqui para isso, estamos para o espetáculo", diz Iana de Brito, engenheira agrônoma, ao descrever o que viu. "Ele tem um poder, dá para ver que ele usa tudo o que pode. Um guerreiro, é o nosso guerreiro", completa.  

    "A gente acha fantástico. Ele fez um documentário aqui na França recentemente, a gente assistiu faz dois dias, daí ver o documentário e assistir ele nadar, a gente se sente tão pequena, porque ele é tão grande e a gente é só desse tamanho," diz a engenheira civil Juliana Xavier de Lima, que vive na capital francesa. "Os Jogos Paralímpicos mexem comigo e com os demais espectadores, mexe com todo mundo", observa a brasileira, que também estava na torcida neste domingo.

    O filho dela, Hugo, de 12 anos, também comenta o desempenho de Gabrielzinho.  "Eu acho ele inacreditável porque ele não tem braço, e ele tem umas pernas muito pequenas e consegue dirigir o carro e mandar mensagens com os pés", destaca o menino. "Ele é um exemplo porque não desistiu e se bateu até o fim", acrescenta o jovem torcedor franco-brasileiro.

    Uma trajetória que impressiona até quem trabalha no evento, como o francês Eric Huynh, supervisor de fotografia do Comitê Organizador dos Jogos Olímpicos e Paralímpicos Paris 2024. "Há muitas coisas impressionantes sobre ele. A sua capacidade de ser muito autônomo, a maneira como ele mergulha e como ele nada, tão rápido e bonito. E quando ele sai da água, tem aquele sorriso incrível, é um atleta exemplar e inspirador", diz o fotógrafo.  

    Ovacionado na França, Gabriel tem transformado pessoas por onde passa. "Para mim, é alguém que me dá força. Eu olho e penso: meus pequenos problemas não importam. Ele me dá coragem e vontade de me superar, pois se ele consegue? Realmente essas pessoas são exemplos", completa Huynh. 

    "Um menino feliz e recordista mundial"

    O técnico de Gabriel, Fábio Antunes, fala sobre a reação dos franceses ao talento do nadador. "Para a gente é uma energia a mais, ele é um menino carismático e feliz e isso é legal para mostrar que as pessoas com deficiência podem ser felizes, podem se divertir e ocupar qualquer lugar da sociedade", diz. 

    A RFI Brasil entrevistou o nadador Gabrielzinho após a classificação dele para a final dos 150 medley, no fim da manhã deste domingo, quando bateu o próprio recorde mundial da prova, com tempo de 3min 15s 06 centésimos. "Eu vim para nadar contra o relógio, contra mim mesmo que é o que eu sempre faço, eu gosto de estar sempre evoluindo e evolução quer dizer que se eu melhoro o meu tempo e sou melhor do que eu fui ontem, para mim é muito gratificante", disse o atleta.

    À noite em Paris, na final, Gabriel bateu novamente a sua melhor marca, terminando a prova com tempo de 03min 14s e 02 centésimos. "É o que eu falo, é sempre bom estar entre os melhores e brigar com os melhores é melhor ainda", disse. O atleta ficou em quarto lugar na categoria SM3, já que a modalidade dos 150 metros medley masculino é disputada em multi-categorias, mostrando o bom desempenho do brasileiro mesmo entre adversários com menos comprometimento físico-motor do que ele. O ouro ficou com o alemão Alexander Topf, que fez 3min 00s16. Os australianos Ahmed Kelly e Grant Petterson levaram a prata e o bronze.

    Perguntado sobre o fato de ter sido citado em diversos jornais da França, Gabriel diz estar "muito feliz e emocionado porque jamais imaginaria viver tudo isso tão novo". Ele conta sobre "a atmosfera única e toda a energia, tudo o que está acontecendo". "Eu fico feliz, mas não é o que eu fico pensando, porque eu tenho que pensar nas provas, é o que eu vim fazer", diz, demonstrando concentração.

    "Usar todas as armas"

    Gabriel conta que treina de segunda a sábado, 4 horas por dia, em Juiz de Fora, Minas Gerais. Uma rotina que as pessoas não veem, mas que ele cumpre com alegria. "Não veem o mais difícil, a rotina de treino, o dia a dia que. Eu falo que é o mais difícil. Na competição se você está cem por cento preparado, fica mais fácil de acontecer". 

    Para nadar, Gabriel usa a ondulação do tronco, a força de todos os músculos. "A parte técnica é difícil de falar, pois é o meu treinador que sabe, mas o meu objetivo é usar todas as armas que eu tenho, lutar com as armas que eu tenho, as pernas, o quadril muito forte, o ombro, a cabeça, o pescoço; é o que eu tenho, eu tenho que otimizar tudo isso e fazer o melhor, ser um atleta inteligente", resume.  

    Perguntado sobre a vida fora da piscina, ele descreve uma rotina alegre. "Muito tranquilo, muito feliz sempre, levando alegria onde passo e, hoje, na França eu vi que estou no caminho certo, de transmitir alegria para todo mundo, alegria que contagiou essa galera, é uma honra para mim passar essa energia positiva", diz. 

    E o que a natação significa na vida dele? "A natação significa tudo, transformou a minha vida, me proporciona coisas que eu jamais imaginaria viver, realizar sonhos e fazer o melhor que é nadar, algo que só depende de mim, isso é gratificante. Fico feliz e vamos continuar no caminho", promete. 

    Gabriel disputa ainda os 200m livre nesta segunda-feira (2) e os 50m livre na sexta (6) em Paris. 

    7 min

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