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By RFI Brasil
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  • ‘Não deu em nada’: agente de recreação brasileira desabafa sobre denúncias de abusos em escolas na França

    Desde 2024, a França vive uma explosão de denúncias de abusos psicológicos, físicos e sexuais cometidos por agentes de recreação que atuam nas escolas públicas fora do período de aula — sobretudo em Paris. Esses profissionais são responsáveis por acompanhar as crianças durante as refeições, os momentos de lazer e após o fim das aulas, mas não fazem parte do corpo docente do Ministério da Educação.

    Maria Paula Carvalho, da RFI

    A situação se agravou em 2026, com dois casos graves ocorridos em escolas de educação infantil da capital. Em um deles, a família de um menino de três anos denunciou o estupro da criança em um banheiro da escola. No segundo episódio, outro menino da mesma idade teria sido violentado em circunstâncias semelhantes, por um homem que já havia sido denunciado anteriormente em outro estabelecimento.

    As identidades dos suspeitos não foram divulgadas, e as investigações seguem sob sigilo judicial.

    Sistema falha também para quem denuncia

    A RFI conversou com uma brasileira que trabalha como agente de recreação em Paris. Por razões de segurança, ela pediu para não ser identificada. No depoimento, descreve um cotidiano marcado por precariedade, medo e falta de resposta institucional.

    “A gente não pode ter contato físico com criança, não pode pegar no colo, não pode dar beijo. Houve um caso de um animador que só queria pegar as crianças no colo ou fazer atividades com portas fechadas. A gente sinalizou esse mau comportamento. Depois disso, eu fui mudada de escola porque essa pessoa teve momentos de agressividade, tentou me jogar da escada. Tive que ir à delegacia registrar queixa. Passei a ter crises de angústia, faço tratamento até hoje, e no fim não deu em nada.”

    Segundo ela, os problemas se estendem à falta de pessoal e às condições de trabalho. “Nós reivindicamos mais contratações, principalmente nos dormitórios, onde deveriam estar dois animadores. Hoje, por falta de recrutamento, há apenas um", diz. "Enquanto as crianças brincam, há acidentes, e não há gente suficiente para dar conta. Eles querem economizar, essa é a verdade. Os salários são baixos, os horários são fragmentados e não atraem. Estamos pedindo respeito: melhores salários, horários e valorização”, completa.

    Após a multiplicação de denúncias de violência sexual contra crianças em escolas públicas, cerca de uma centena de agentes de recreação se reuniram na semana passada em frente à prefeitura de Paris. A mobilização foi organizada por sindicatos e acompanhada de greve, com o objetivo de denunciar a precariedade do setor e exigir melhores condições de trabalho.

    Pais denunciam falhas no modelo de contratação

    Do lado das famílias, cresce a mobilização. Um dos coletivos mais ativos é o Me Too École, formado por pais que denunciam falhas estruturais no sistema de contratação e supervisão desses profissionais. Diferentemente dos professores, os agentes de recreação são contratados diretamente pelas prefeituras.

    O coletivo lançou uma petição com mais de 22.300 assinaturas, denunciando o que define como um silenciamento sistemático de casos de violência física, psicológica e sexual contra crianças no ensino público.

    Anabel, uma das fundadoras do Me Too École, explica por que o sistema é especialmente vulnerável:

    “Na pré-escola, as crianças têm dois anos e meio, três anos. São bebês, muito sensíveis à autoridade. Em teoria, um adulto nunca deveria ficar sozinho com uma criança, mas isso acontece por falta de funcionários. Os momentos mais críticos são a soneca, a ida ao banheiro ou a hora de se despir, quando elas ainda não são independentes. Existem também espaços isolados, como bibliotecas: projetadas para serem silenciosas, mas que, quando estão fechadas, se tornam lugares ideais para pedófilos.”

    De acordo com o site Les Pros de la Petite Enfance, 52 agentes de recreação foram suspensos pela prefeitura de Paris entre 2023 e 2025 por suspeitas de caráter sexual. Só em 2026, a prefeitura informou que 78 profissionais foram suspensos, incluindo 31 por suspeita de abuso sexual.

    Mesmo assim, os pais dizem se sentir abandonados. “Quando um filho nos conta que sofre violência, seja de outras crianças ou de um agente de recreação, não sabemos a quem recorrer", diz Anabel. Não sabemos se devemos procurar um médico ou a direção da escola, que muitas vezes não é responsável pelas atividades extracurriculares”, continua.

    Pressão política e promessas de mudança

    Diante da ausência de respostas, as famílias deram um ultimato às autoridades parisienses. O tema entrou no centro da campanha eleitoral municipal, levando o novo prefeito de Paris, Emmanuel Grégoire, a afirmar que o combate às violências no sistema de recreação escolar seria uma prioridade de seu mandato.

    O prefeito socialista apresentou um plano de ação com tolerância zero, que inclui a criação de um guia de acolhimento, reuniões anuais de início de ano sobre as atividades extracurriculares em todas as 620 escolas da capital e o compromisso de entregar às famílias todas as conclusões das investigações administrativas em caso de denúncia.

    Para Anabel, trata-se de um primeiro avanço — ainda insuficiente.

    “No início, encontrávamos portas fechadas e silêncio absoluto. Diziam: ‘Isso não existe’, ‘Eu não sabia’. Fizeram-nos acreditar que se tratava de um caso isolado. Mas percebemos rapidamente que não era. Houve humilhações, ameaças de morte, importunação sexual, violência sexual e até estupro de vulneráveis, tudo na pré-escola. E, diante disso, só víamos negação. Isso é absolutamente inaceitável.”

    As revelações impulsionaram um movimento nacional, com o apoio de coletivos como o SOS Périscolaire, que recolhe denúncias de famílias em todo o país. Elisabeth Guthmann, cofundadora do grupo, relativiza a ideia de que o problema seja exclusivamente francês, mas aponta uma diferença. “Existem pedófilos em todas as áreas e países. Isso não é exclusivo da França. A especificidade francesa é que estamos começando a falar sobre isso.”

    Ela critica a forma como o sistema judicial lida com os depoimentos das crianças. “Todos os profissionais de saúde dizem que uma criança não inventa algo que não viveu ou viu. Mesmo assim, ouvimos argumentos como ‘talvez ela tenha escutado alguém falar’, ou ‘talvez os pais tenham colocado palavras na boca da criança’. Isso faz parte do problema”, acrescenta Guthmann.

    Casos parados na Justiça

    Atualmente, pelo menos 15 investigações judiciais sobre abusos cometidos em atividades de recreação escolar estão em curso no Ministério Público de Paris. Entre elas está o caso de Marie (nome fictício), cuja filha foi abusada na pré-escola aos quatro anos. Apesar da denúncia e da suspensão do profissional, o processo segue sem desfecho.

    “Foram sete anos de investigação. Há um ano, nada acontece. Ele não é mais agente de recreação, mas continua recebendo salário da prefeitura de Paris há sete anos, sem trabalhar, e vivendo em outra região. E a prefeitura continua pagando. É um escândalo”, denuncia a mãe.

    A RFI entrou em contato com o Ministério Público de Paris, que informou que a fase de investigação está concluída. Para a mãe, no entanto, o caso permanece paralisado, enquanto os traumas da filha se aprofundam. Ela diz que tentou contato com o novo prefeito, sem resposta. “Ele disse que receberia todos os pais. Mas nem sequer tivemos confirmação de recebimento do e-mail. O que assusta é isso: não devemos esperar que a justiça seja feita. Sete anos depois, o agressor está livre, não houve julgamento, e o caso pode ser arquivado, mesmo com centenas de depoimentos.”

    Procurada pela RFI, a juíza responsável afirmou que não pode comentar o processo.

    11 min
  • 'Infância destruída’: famílias denunciam abusos sexuais em pré-escolas e prefeitura de Paris reage

    As denúncias de crimes sexuais cometidos contra crianças matriculadas em atividades de recreação nas pré-escolas de Paris vêm provocando forte mobilização de pais e associações de proteção à infância. A pressão sobre as autoridades municipais é tamanha que o novo prefeito da capital, o socialista Emmanuel Grégoire, recém-eleito, anunciou o combate a esse tipo de violência como uma das prioridades de seu mandato.

    Maria Paula Carvalho, da RFI em Paris

    Uma das vítimas é filha de Marie (nome fictício), mãe profundamente traumatizada pelo estupro sofrido pela menina quando tinha apenas quatro anos. A criança foi violentada por um agente de recreação em uma escola do 13º distrito de Paris, onde cerca de 15 casos semelhantes foram registrados. Para preservar sua identidade, o nome da mãe foi alterado.

    "Ela foi estuprada por um agente de recreação. Ele também fazia com que as crianças o tocassem e se tocassem entre elas, nas partes íntimas, e dizia que, se elas contassem alguma coisa, os pais morreriam. Que elas deveriam guardar segredo. Você imagina o traumatismo que isso provoca?", questiona. Sete anos depois, a família segue marcada pelo trauma. A menina vive em estado permanente de estresse, agonia e raiva, sendo acompanhada por psicólogos, o que também representa um alto custo financeiro. “Ninguém nos ajuda”, afirma a mãe.

    Ao tomar posse em 29 de março, Emmanuel Grégoire destacou o problema em seu discurso, prometendo identificar os responsáveis pelas agressões. 

    Desde o início de 2026, apenas em Paris, 78 agentes de recreação foram suspensos, dos quais 31 por suspeita de crimes sexuais.

    Diante desses números, o prefeito anunciou uma revisão completa dos procedimentos, com “tolerância zero”. Segundo ele, será criada uma comissão independente para reavaliar os processos de contratação, os mecanismos de denúncia e os sistemas de controle. "Devemos proteger nossas crianças e criaremos um grupo de escuta dos pais para casos suspeitos", acrescentou.

    Paris anuncia plano milionário para proteger crianças

    A prefeitura aprovou um plano orçado em € 20 milhões, que inclui a revisão da formação profissional dos agentes, o aprimoramento do atendimento às denúncias, apoio às vítimas e a aplicação de sanções. Em entrevista recente, Emmanuel Grégoire revelou carregar uma “cicatriz interna” após ter sido vítima de violências sexuais durante vários meses quando tinha menos de dez anos, inclusive em uma piscina municipal.

    O caso de Paris se insere em um contexto mais amplo: a França enfrenta uma explosão de denúncias de pedofilia envolvendo profissionais responsáveis por atividades extracurriculares, fora do período de aulas. As vítimas têm entre 3 e 5 anos, e os casos incluem estupros e atos repetidos de violência sexual.

    A situação se agravou este ano com a revelação de episódios graves em pelo menos três escolas da capital. Esses trabalhadores, vale destacar, não são vinculados ao Ministério da Educação. A explicação é de Elisabeth Guthmann, cofunda­dora do grupo SOS Périscolaire, coletivo criado em 2021 por pais e profissionais para denunciar, documentar e combater a violência no ambiente extracurricular.

    Segundo Guthmann, na maioria das famílias francesas ambos os pais precisam trabalhar para garantir a subsistência, o que levou as prefeituras a criarem serviços de acolhimento antes e depois do horário escolar. No entanto, ela alerta para falhas estruturais nesses programas. 

    “Faz cinco anos que alertamos para graves disfunções nos programas extracurriculares em Paris e em todo o país. Temos denunciado a violência física, psicológica e sexual desde 2021 e, até muito recentemente, a Prefeitura de Paris se recusava a nos ouvir, a ouvir todas as famílias", disse em entrevista à RFI. A ampla cobertura da imprensa desde o ano passado, no entanto, levou a uma conscientização coletiva e forçou o anúncio de medidas. "Isso criou uma conscientização coletiva", ela destaca. 

    Trauma precoce

    Os momentos considerados de maior vulnerabilidade para as crianças incluem idas ao banheiro, períodos de soneca, atividades de leitura em salas fechadas e até mesmo os refeitórios. As consequências dos abusos, segundo Guthmann, são profundas e duradouras. Casos documentados desde 2018 revelam crianças estupradas aos três anos que ainda hoje sofrem sequelas físicas e psicológicas graves, incluindo sintomas de estresse pós-traumático.

    Para o coletivo Me Too École, o fato de o prefeito ter tornado público seu próprio passado de vítima não altera o sofrimento cotidiano de muitas famílias. Anabel, uma das fundadoras do grupo, lembra que as famílias confiam na escola como espaço de formação e proteção.

    “As crianças não têm armas para se defender. A escola deveria ser um santuário, mas infelizmente não é mais assim”, afirma.

    Ela também questiona a atuação de Emmanuel Grégoire no passado, quando um relatório de 2015 já apontava problemas e ele era responsável pelo recrutamento dos agentes. Segundo Anabel, na época nenhuma medida foi tomada, ao contrário do discurso de excelência adotado pela prefeitura.

    Outro entrave apontado pelo coletivo é a lentidão das autoridades e da Justiça no combate a esses crimes. "Apenas 3% dos pedófilos são julgados, porque há dificuldade em recolher e levar a séerio os depoimentos das crianças," explica. Para Anabel, é essencial uma articulação coletiva. "É preciso reunir todos — as prefeituras, a polícia, o Ministério Público e o Ministério da Educação. Sem isso, não será possível implementar um protocolo para proteger as crianças, uma vez que cada instituição tem seus próprios interesses", aponta. 

    Após um ultimato dos pais, a prefeitura de Paris prometeu divulgar estatísticas trimestrais sobre suspensões de agentes de recreação, dados que até então eram de difícil acesso. Para Elisabeth Guthmann, trata-se de um avanço. “É um bom começo, foram anunciadas medidas que reivindicamos desde 2021, mas ainda há muito a ser feito, para garantir segurança às crianças”, disse à RFI. 

    Entre as principais demandas está a criação de um sistema de denúncia realmente eficaz. Até agora, relatos feitos pelos pais frequentemente não chegavam às instâncias superiores, esbarrando em disputas de responsabilidade entre escolas e programas extracurriculares. O coletivo defende que, diante de qualquer denúncia, o agente seja imediatamente suspenso, que investigações administrativas sejam rápidas, que os relatórios sejam entregues às famílias e que o Ministério Público seja automaticamente informado.

    Sem respostas adequadas, muitas famílias vivem sob constante medo. A de Marie decidiu se mudar para o interior. Mesmo assim, o trauma persiste. Sete anos depois, a filha, hoje com 11 anos, afirma que só conseguirá viver normalmente quando o agressor estiver preso. O medo de que ele volte a atacá-la permanece.

    “A infância dela foi destruída. Não há mais alegria despreocupada. Nossa vida familiar foi destruída”, conclui a mãe.

    10 min
  • Portugal deixa centenas em lista de espera para tratamento na prevenção do HIV

    Portugal continua sem avançar na implementação de um projeto considerado essencial para ampliar o acesso à PrEP, medicamento altamente eficaz na prevenção do HIV. Apesar de ter sido aprovado, o programa permanece sem financiamento, travando a expansão de uma das principais ferramentas de saúde pública no combate às novas infecções.

    Lizzie Nassar, correspondente da RFI em Portugal

    A PrEP (profilaxia pré-exposição) é um medicamento de uso regular por pessoas HIV-negativas que estão em maior risco de exposição ao vírus. Quando tomada corretamente, a proteção pode chegar a 99%.

    Ele faz parte de uma estratégia de prevenção amplamente recomendada por entidades como a ONUSIDA e o Centro Europeu de Prevenção e Controlo das Doenças. Mas em Portugal, a cobertura atual do medicamento está muito abaixo das necessidades identificadas por especialistas.

    A denúncia é feita por organizações do setor, que alertam para um bloqueio financeiro que impede a resposta a centenas de pessoas em risco. No centro desta crítica está Luis Mendão, diretor do GAT (Grupo de Ativistas em Tratamentos), que descreve um cenário de procura crescente e capacidade limitada. “O projeto foi aprovado, mas não teve financiamento. E sem financiamento não é possível avançar”, resume o responsável.

    Três organizações, o GAT, Grupo de Ativistas em Tratamentos, a Abraço e a Liga Portuguesa Contra a Sida, propõem criar um modelo de acompanhamento comunitário da PrEP, mais próximo da população e menos dependente da estrutura hospitalar do Serviço Nacional de Saúde. Segundo as organizações, o dispositivo permitiria aumentar rapidamente o número de pessoas em prevenção ativa.

    Estima-se que entre 6.000 e 6.500 pessoas estejam em PrEP em Portugal. No entanto, os dados indicam que seria necessário alcançar pelo menos 20.000 pessoas para começar a reduzir de forma significativa a transmissão do HIV, e até 40.000 pessoas para atingir objetivos alinhados com metas internacionais até 2030. Um investimento total de cerca de € 3 milhões por ano.

    “Estamos muito longe do mínimo necessário para ter impacto na epidemia”, afirma Luís Mendão.

    O projeto de expansão da PrEP prevê o acompanhamento descentralizado de pessoas em risco através de equipes especializadas em contexto comunitário, reduzindo pressão hospitalar e acelerando o acesso. Na prática, o bloqueio é financeiro.

    O GAT estima que o custo de acompanhamento comunitário por pessoa seja de € 300, num total de 10 mil pessoas por ano, dependendo do modelo de implementação. Ainda assim, não houve alocação de verba específica para iniciar o programa em 2025.

    As organizações insistem nas vantagens do dispositivo, que tornam-se ainda mais evidentes quando se compara com o custo do tratamento do HIV, que é vitalício e recai integralmente sobre o sistema público de saúde.

    “É mais barato prevenir do que depois tratar pelo resto da vida o HIV”, sublinha Luís Mendão. 

    Lista de espera crescente e capacidade limitada

    Enquanto o projeto não avança, a resposta existente está sobrecarregada. O GAT acompanha atualmente cerca de 400 pessoas em PrEP, mas já tem mais de 700 pessoas em lista de espera. A organização foi obrigada a suspender novas admissões devido à falta de financiamento para equipes médicas e de enfermagem.

    “Temos mais de 700 pessoas à espera e não conseguimos abrir novas vagas porque não temos condições financeiras para expandir a resposta”, explica o responsável.

    Este bloqueio acontece num contexto em que a procura continua aumentando, especialmente entre populações consideradas mais expostas ao risco de infeção.

    No modelo atual, o acesso à PrEP no SNS (sistema nacional de saúde português), depende sobretudo de consultas hospitalares especializadas. Segundo as organizações, os tempos de espera podem atingir até um ano para a primeira consulta. Na prática, isso cria um sistema desigual: quem consegue pagar recorre ao setor privado e acede mais rapidamente ao tratamento preventivo; quem depende do sistema público entra numa fila de espera prolongada.

    Além do projeto comunitário bloqueado, as organizações alertam para a ausência de financiamento estável para atividades essenciais de prevenção e rastreio.

    Em 2024, o GAT realizou mais de 40 mil testes rápidos de HIV, representando mais de metade dos 68 mil testes oficiais realizados no país. Em 2025, ultrapassou os 45 mil testes, mas teve de limitar a sua atividade por falta de recursos.

    Segundo os responsáveis, a dependência das ONG para o rastreio e prevenção evidencia uma fragilidade estrutural do sistema.

    Meta distante até 2030

    Portugal comprometeu-se com metas internacionais (ONUSIDA) para reduzir drasticamente novas infeções por HIV até 2030. No entanto, com a cobertura atual de PrEP muito abaixo do necessário e projetos de expansão sem financiamento, organizações alertam para um desequilíbrio crescente entre objetivos e realidade.

    “Se queremos cumprir as metas de saúde pública, precisamos de escala. E escala exige investimento”, resume Mendão.

    Enquanto isso, centenas de pessoas continuam em lista de espera para um tratamento preventivo já reconhecido como altamente eficaz – mas ainda fora do alcance de todos os que dele necessitam.

    7 min
  • Festival Back2Black realiza sua primeira edição em Paris, com Gilberto Gil no line-up

    Após ter encerrado a turnê "Tempo Rei" no Brasil, no último fim de semana, Gilberto Gil desembarcou em Paris, onde emplaca o line-up do festival Back2Black nesta sexta-feira (3), com ingressos esgotados há semanas. Ao lado de filhos e netos, ele subirá no palco no célebre Théâtre du Châtelet para apresentar os grandes sucessos de seus mais de 60 anos de carreira. 

    Daniella Franco, da RFI em Paris

    O festival Back2Black é realizado desde 2009, com 12 edições no Rio e uma em Londres, em 2012. Em Paris, o evento foi inicialmente pensado para ocorrer em 2025, durante a Temporada Cultural França-Brasil. No entanto, a organização se estendeu, levando o festival a coincidir com o encerramento da turnê "Tempo Rei", na qual Gil se despediu dos grandes palcos no Brasil, reunindo mais de um milhão de fãs. 

    A edição parisiense do Back2Black tem o formato de um dia, mas conta com uma rica programação. Entre as atrações, está a exposição do artista plástico Carybé e duas sessões de projeção do documentário "3 Obás de Xangô", de Sérgio Machado, às 16h30 e às 18h. A festa começa com o Baile Bom no Grand Foyer do teatro, seguido de um DJ set da luso-guineense Umafricana, às 19h. Em seguida, a cantora brasileira Agnes Nunes e o artista camaronense Blick Bassy entram em cena às 20h e o espetáculo se encerra com chave de ouro, com o show de Gilberto Gil, às 21h20. 

    "O Back2Black foi criado no sentido de levar para o Brasil uma África contemporânea que era pouco conhecida, principalmente quando eu comecei o festival, em 2009", diz a idealizadora e diretora do Back2Black, Connie Lopes. "Nesta época, havia muito poucos artistas contemporâneos africanos que iam ao Brasil. A África ainda era algo muito folclórico no Brasil e as pessoas conheciam muito pouco sobre essa cultura pulsante que é a cultura africana", reitera. 

    Connie, que conhece Gilberto Gil há mais 40 anos, ressalta a relação do cantor e compositor com o público francês. "Eu viajei muito com Gil no início dos anos 1990, eu vim muitas vezes com ele à França, então sei do carinho que ele recebe em cada país. Na França, ele sempre teve uma acolhida muito, muito grande", lembra. 

    Apesar de não ter detalhes sobre o repertório que será apresentado nesta noite, Connie garante que será um momento especial. "Gil é Gil, um símbolo tão forte! Qualquer show dele, seja acústico, solo com violão, junto a uma banda de quinze pessoas, a gente sempre sai de alma lavada", afirma.

    Gil: um tesouro nacional

    Nascido em 26 de junho de 1942 em Salvador, na Bahia, Gilberto Gil é um dos maiores artistas do Brasil, pilar da MPB. Junto de Caetano Veloso, Gal Gosta e Tom Zé, fundou o Tropicalismo, movimento artístico que revolucionou a cultura brasileira na década de 1960. Com mais de 50 álbuns lançados e oito Grammys, é muito mais que um músico, e alcança um status de tesouro nacional.  

    Na política, Gil teve participação ativa na resistência à ditadura militar, chegando a ser preso e tendo de se exilar. Teve também um papel importante na vida pública: foi ministro da Cultura entre 2003 e 2008, onde promoveu políticas voltadas à diversidade cultural. 

    "Ao longo do tempo, ele vai incorporando no imaginário, tanto no Brasil como no exterior, uma ideia de alegria, de resiliência e de uma reflexão ativa", avalia Sheyla Diniz, professora e pesquisadora colaboradora do Departamento de História da USP. "O professor e crítico literário José Miguel Wisnik se refere a Gil num texto como 'o bom pastor'. É como se ele conduzisse e fosse um intelectual orgânico daquilo que ele faz. O Gil está pensando o Brasil o tempo todo", destaca. 

    Segundo Sheyla, essa encarnação da brasilidade também ajudou o artista baiano a se posicionar na cena internacional como um dos músicos mais importantes do país. "O mercado europeu, principalmente a França, se interessam pela música brasileira. A marca Brasil tem uma marca simbólica muito grande neste mercado e o Gil sabe trabalhar muito bem com essa marca. Ele explora símbolos de brasilidade sendo ao mesmo tempo internacional", aponta. 

    Além disso, a professora e pesquisadora destaca o papel que Gil incorpora de mediador cultural do Atlântico Negro, título de uma das obras do sociólogo britânico Paul Gilroy. Sheyla lembra que a partir do momento em que ele é obrigado a se exilar pelo regime militar e chega em Londres, Gil tem contato com artistas e intelectuais da diáspora africana no Reino Unido. Esses encontros desembocarão em uma viagem que o baiano faz para Lagos, na Nigéria, um capítulo de sua vida que resultará no álbum "Refavela", de 1977, uma homenagem aos laços entre o Brasil e a África.

    "Gil assume um papel muito importante na revitalização das práticas afro-diaspóricas brasileiras, e vai se construindo mesmo como um músico intelectual negro. Estabelece parcerias com Jimmy Cliff, regrava 'No, Woman, No Cry', do Bob Marley", exemplifica. "Ou seja, é impossível não olhar para o Gil e entendê-lo nesse papel. Ele foi conseguindo essa entrada no mundo como intelectual e músico que pensa o lugar do Brasil e dos negros do Brasil no mundo", conclui.

    Depois de Paris, Gil passa pela Itália, com shows em Roma, em 6 de abril, e Milão, em 8 de abril, e Porto, em Portugal, em 10 de abril. Em julho, Gil volta para a Europa para outras três datas em Londres, dia 7 de julho, Cascais, em Portugal, em 8 de julho, e Perugia, na Itália, em 10 de julho. 

    13 min
  • Coleção de crítico Roberto Pontual é vendida em primeiro leilão dedicado à arte brasileira na França

    A coleção pessoal do crítico de arte brasileiro Roberto Pontual será leiloada em Paris nesta terça-feira (31). Trata-se da primeira venda na França dedicada exclusivamente a obras brasileiras. Reunido ao longo de décadas, o acervo reúne cerca de 150 peças de mais de 60 artistas contemporâneos, produzidas entre 1945 e 1994 – um conjunto que Vincent Wierink, ex-companheiro de Pontual, descreve como sendo “de afeto”.

    Crítico de arte, jornalista e poeta, Roberto Pontual marcou a cena artística carioca dos anos 1970. Após dirigir programas educativos e exposições no Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro (MAM Rio), consolidou-se como uma voz influente, especialmente por meio de suas crônicas no Jornal do Brasil e da curadoria de exposições emblemáticas, como a representação brasileira na Bienal de Veneza em 1980.

    Seu livro Dicionário das Artes Plásticas no Brasil, publicado em 1969, quando Pontual tinha apenas 30 anos, permanece como obra de referência no mundo das artes. Além disso, ele publicou diversos ensaios e catálogos sobre arte contemporânea. Em 1980, mudou-se para Paris, onde continuou atuando como crítico e curador até sua morte, em 1994, em decorrência da AIDS.

    Sua coleção reúne obras de artistas brasileiros contemporâneos emblemáticos, muitos deles amigos próximos de Pontual, como Paulo Roberto Leão, Carlos Scliar, Ione Saldanha, Alair Gomes, Glauco Rodrigues, Antonio Bandeira, Frans Krajcberg, Ivan Serpa, Cildo Meireles e Wanda Pimentel. O acervo foi constituído por meio de compras espontâneas em visitas a ateliês, presentes de artistas, trocas e até pagamentos por prefácios, catálogos ou curadorias.

    Um retrato de afeto

    Segundo Vincent Wierink, a coleção é “tanto um retrato da arte brasileira da segunda metade do século XX quanto um verdadeiro retrato de Pontual”, um homem apaixonado pelos artistas e que não tinha a intenção de ser colecionador.

    “Ele era uma pessoa que não tinha verdadeiramente uma preferência. Tinha um respeito tão grande pelos artistas que o leque de seu interesse era enorme. Ele passava pela fotografia, escultura, pintura, abstrato, figurativo, conceitual”, diz Wierink, legatário universal de Roberto Pontual e herdeiro de sua obra e de sua coleção.

    Ele conta que a decisão de vender um acervo tão pessoal, cujas peças decoravam o apartamento que o casal compartilhava, não foi simples. “Para mim, mergulhar novamente na coleção foi quase uma catarse, um movimento muito emocional. Eu redescobri a coleção, que estava escondida há mais de 30 anos.”

    “Logo após a morte do Roberto, em 94, eu tive que mudar tudo na minha vida. Tive que mudar de apartamento. Era quase insuportável ficar lá. Então mudei, empacotei a coleção inteira e pronto. Mudei de vida, mudei de lugar. Não vou dizer que esqueci a coleção, obviamente não, mas ela ficou guardada”, lembra.

    “No fim do ano passado, pensei: ‘estou avançando na idade, e se acontece alguma coisa comigo, o que vai ser dessa coleção? Ninguém conhece essa coleção’", explica Wierink, que decidiu então entrar em contato com Salomé Pirson, da casa de leilões independente Maurice Auction, que chamou a consultora de arte brasileira radicada em Paris, Maria do Mar Guinle.

    “Quando elas viram a coleção, tiveram uma reação imediata: a Salomé disse que era possível sentir uma alma por trás dela, e a Maria do Mar comentou que era uma coleção de afeto”, lembra.

    “Roberto, obviamente, tinha muito afeto e amizade por um grande número de artistas. Acho que não havia um artista que não gostasse do Roberto. Ele era uma pessoa luminosa, carismática, que queria o bem das pessoas. Às vezes eu digo que ele era mais um analista de arte do que um crítico. Não distribuía bons e maus pontos. Ele realmente ajudava as pessoas a se expressar, a atravessar crises”, diz Wierink.

    Uma aposta

    “Nunca houve uma venda de arte brasileira moderna na França. Mas é uma aposta”, afirma, lembrando que chegou a considerar realizar o leilão em Nova York ou no Brasil, mas decidiu rapidamente por Paris.

    “Tudo bem nunca ter sido feito. Tudo bem fazermos uma aposta. Mas há também uma lógica para mim. É como se o círculo se fechasse. Roberto escolheu – bom, nós nos conhecemos e, por causa do nosso encontro, ele decidiu mudar de vida, deixar o Brasil e se radicar em Paris. Ele amou profundamente a França, amou profundamente a Europa. Então era natural, mais lógico, que a coleção fosse vendida na cidade onde ele escolheu viver e onde faleceu", diz. 

    O leilão será realizado às 15h em Paris (11h em Brasília). Uma parte do montante arrecadado será dedicada à organização francesa de luta contra o HIV, Sidaction.

    6 min
  • Influência da gastronomia brasileira na cozinha portuguesa reforça laços culturais entre os dois países

    Como toda pessoa que um dia decidiu mudar de país, a enorme comunidade brasileira que escolheu Portugal para viver trouxe na bagagem muito mais do que a saudade. O arroz com feijão, a farofa no domingo e o pão de queijo são frequentes nas mesas dos imigrantes brasileiros neste outro lado do Atlântico. Aromas, sabores, ingredientes e o nosso jeito de cozinhar têm conquistado paladares mundo a fora.

    Letícia Fonseca-Sourander, correspondente da RFI em Lisboa

    Nos últimos anos, Portugal viu crescer endereços onde o Brasil é a grande estrela, da comida de rua reinventada à cozinha de autor. Um cenário totalmente diferente dos rodízios de carne que durante muito tempo foram sinônimo de comida brasileira em terras lusitanas. Hoje, até mesmo em alguns restaurantes portugueses, é possível pedir uma moqueca de camarão com azeite de dendê e feita em panela de barro. Verdade seja dita, este prato nasceu na África, atravessou o oceano e criou raízes na Bahia. A versão servida no Cantinho do Avillez, um dos restaurantes do chef estrelado José Avillez, é a Moqueca do Mar, que é uma combinação de corvina com camarão e um toque de amendoim.

    Comida é memória, afeto e origem

    Outra estrela da gastronomia lusitana é Kiko Martins, conhecido por ser um chef ousado e criativo em seus cinco restaurantes lisboetas. Em um deles, o Boteco, dedicado à cozinha brasileira, há no cardápio dadinhos de tapioca, pão de queijo, pastéis de vento, feijoada, picanha e bolo brigadeiro. Filho de pai português e mãe pernambucana, o chef passou sua infância no Rio de Janeiro e explica que quis abrir este espaço para honrar a sua herança familiar.

    Graças ao talento de chefs o Brasil tem proporcionado descobertas que vão muito além dos clichês: um peixe grelhado com manteiga de maracujá ou uma picanha com farofa de mandioca e legumes na brasa com rapadura são exemplos da criatividade que tem feito a cozinha brasileira brilhar e ser mais respeitada.

    A chef sergipana Lizandra Almeida é uma estrela em ascensão. Ela estudou no renomado Le Cordon Bleu do México, graças a uma bolsa de estudos e depois trabalhou com grelhados em restaurantes de São Paulo. Agora, aos 31 anos e vivendo há três anos em Lisboa, Lizandra foi uma das finalistas na categoria chef revelação do prestigiado prêmio Mesa Marcada, que reconhece os talentos da gastronomia em Portugal. Ela, que trabalha com grelhados no Pils Grill Eatery, conta como recebeu a notícia de que tinha sido indicada ao prêmio.

     

    Ainda em São Paulo, ao ter contato com o processo de defumação da carne, Lizandra se apaixonou por este mundo e quis conhecer mais as técnicas. Ela relembra que teve bastante dificuldade por ser um universo bem masculino e fechado. “Foi desafiador, consegui me destacar e também alcançar as possibilidades de entrar para o meio, porque eu era sempre vista como a menina que estava ali para fazer a sobremesa e não para trabalhar com a carne”, recorda. Na opinião da chef, o aumento significativo da comunidade brasileira em Portugal – há cerca de 500 mil brasileiros residentes em terras lusitanas – explica esta “invasão” da nossa gastronomia.

    A relação luso-brasileira é também marcada pela gastronomia

    Durante os séculos que o Brasil foi colônia de Portugal os hábitos alimentares sofreram transformações profundas. Ingredientes essenciais dos povos indígenas como a mandioca e dos africanos como o azeite de dendê foram em parte substituídos pela comida que os portugueses estavam habituados a comer. A fritura dos alimentos é uma herança portuguesa e os doces bem açucarados começaram a surgir no Brasil com a chegada da família Real Portuguesa.

    O sociólogo e historiador Gilberto Freyre, autor de Casa Grande e Senzala, dizia que a influência da culinária portuguesa se manifestava de maneira mais forte no litoral - do Maranhão ao Rio de Janeiro - enquanto a africana sobressaia na Bahia e a indígena no norte do país. Já na década de 1960, Luís da Câmara Cascudo, um dos mais respeitados folcloristas brasileiros, escreveu em sua “História da alimentação do Brasil” que o patrimônio culinário brasileiro não possuía o peso do regionalismo, e sim, da miscigenação entre as cozinhas indígenas, africanas e portuguesas.

    Um dos símbolos mais emblemáticos da nossa culinária, a feijoada, teria raízes no cozido português, que no Brasil foi adaptado com o feijão preto. Para Câmara Cascudo, a feijoada como conhecemos hoje seria uma combinação criada apenas no século XIX. Décadas depois, os modernistas a elegeram prato nacional – onde influências portuguesas, africanas e indígenas se misturam - na construção de uma identidade brasileira.

    “Esta identidade da gastronomia brasileira está ainda em processo, não é uma realidade pronta”, costumava afirmar o historiador e membro da Academia Brasileira de Gastronomia, Ricardo Maranhão. “Nós passamos 150 anos valorizando a gastronomia estrangeira e não demos bola para a cozinha nacional.”

    Maranhão destacava a importância da culinária mineira, da amazônica, assim como as do litoral e do sertão do nordeste, a afrobrasileira da Bahia, a gaúcha e a do centro-oeste.

    “A gastronomia define nossa identidade tanto quanto os sons do samba, a arquitetura barroca ou modernista”, lembra o sociólogo Carlos Alberto Dória, especialista em cultura culinária.

    É inegável o espaço e prestígio que a gastronomia brasileira tem conquistado no exterior. Hoje em Portugal, além da cozinha autoral, há pão de queijo nas padarias e supermercados do país, brigadeiros nas festas infantis e lojas de doces, farofas como acompanhamento nas churrascarias. É o Brasil usando sua culinária como soft power para reforçar, ainda mais, os laços culturais entre os dois países.

    6 min
  • Conheça 'Pau d'Arco' e 'Copan', dois documentários brasileiros na mostra 'Découvertes' no Cinélatino

    Nem só de competição é feito um festival de cinema. O Cinélatino, em Toulouse, no sudoeste da França, conta todos os anos com uma aguardada premiação. Mas, em paralelo, o evento também promove sessões dedicadas exclusivamente a projeções de filmes já lançados e prestigiados em outros festivais. É o caso da mostra "Découvertes" (descobertas), na qual o público pode conhecer dois documentários brasileiros, "Copan", de Carine Wallauer e "Pau d'Arco", de Ana Aranha.

    Daniella Franco, enviada especial da RFI a Toulouse

    "Pau d'Arco", uma produção da Repórter Brasil e da Amana Cine, acompanha a busca por justiça dos sobreviventes da chacina em que a polícia matou dez integrantes do movimento sem-terra no Pará em 2017. Esse que é considerado um dos piores massacres de trabalhadores rurais no Brasil teve a investigação sobre os mandantes do crime encerrada em 2022, mas o processo contra os policiais está em via de ser julgado.

    Em entrevista à RFI, a diretora do filme, Ana Aranha, contou que a ideia de realizar o documentário surgiu durante uma reportagem que realizava para a Repórter Brasil sobre o armamento de fazendeiros no sul do Pará.

    "Durante essa investigação, aconteceu a chacina de Pau d'Arco. Ali a gente começou a filmar o documentário, porque eu entendi que a gente tinha uma história grande. Claro, uma chacina de dez pessoas já é uma história gigantesca, mas eu sabia que ela era ainda maior do que isso porque ela representava uma mensagem para toda a região", afirma. 

    Boa parte do documentário é conduzida por Fernando, um dos trabalhadores sem-terra sobrevivente e principal testemunho da chacina. Com ares de um personagem ficcional, ele tem uma personalidade cativante, que encanta e emociona o público por onde o documentário é exibido. 

    "A gente percebe que o Fernando cria uma conexão muito forte com as pessoas. Quem assiste ao filme dá risada e chora com ele. O Fernando acabou fazendo com que essa história virasse um filme. Foi a força deste personagem que nos chamou a fazer um documentário", diz Ana. 

    A Repórter Brasil realiza atualmente uma campanha de impacto no Brasil e na Europa, com sessões estratégicas de "Pau d'Arco", para que ocorra o julgamento dos policiais que cometeram a chacina. Depois de uma última projeção no Cinélatino neste domingo (29), "Pau d'Arco" segue para Londres onde será exibido em 31 de março e 1° de abril no King's College e dia 2 de abril na London School of Economics.

    Histórias e imaginário em torno do edifício Copan

    Como o próprio nome diz, "Copan" conta a história do imenso edifício em São Paulo projetado por Oscar Niemeyer nos anos 1950 — um dos símbolos da arquitetura moderna brasileira, com capacidade de acolher cinco mil moradores. O filme venceu o prêmio principal do célebre festival internacional de documentários "É Tudo Verdade", em 2025.

    Em entrevista à RFI em Toulouse, Carine Wallauer explicou que ter morado no Copan a motivou a realizar o filme, no qual trabalhou durante cinco anos. Segundo ela, a ideia partiu de um desejo de fazer um retrato cinematográfico deste icônico prédio paulistano.

    "Até então tinham sido feitas reportagens, que acabavam falando das mesmas pessoas, e sempre moradores. Eu tinha um desejo particular de contar as histórias e o imaginário de quem trabalha no Copan", explica.

    O documentário foi filmado durante a campanha eleitoral de 2022, conferindo à Carine uma oportunidade dar voz às opiniões políticas dos empregados do prédio. "Foi um documentário que foi se transformando ao longo do tempo, principalmente pela participação dos personagens, conforme eles foram entendendo qual era a linguagem do filme, e que resultou com eles se vendo no cinema, muitos indo ao cinema pela primeira vez", reitera. 

    "Copan" ganha uma última projeção no Cinélatino neste sábado (28). No dia 10 de abril o filme será exibido na capital francesa, onde compete no CLaP, o Festival de Cinéma Latino américano de Paris. 

    10 min
  • 50 anos do golpe na Argentina: “Procurei meu filho e encontrei minha neta”, conta avó da Praça de Maio

    Nenhuma outra ditadura na América do Sul sequestrou, torturou e matou tanto quanto a da Argentina, em apenas sete anos. O golpe de Estado de 1976 completa 50 anos na próxima terça-feira (24). Cerca de 400 bebês e crianças foram roubados, muitas vezes ao nascerem no cativeiro onde suas mães eram mantidas sob tortura, e destinados a famílias de militares e policiais ou a casais amigos dos torturadores. Buscarita Roa, uma Avó da Praça de Maio, ainda procura o filho, sequestrado pela ditadura argentina, mas conseguiu recuperar a neta, Claudia, criada por militares.

    Márcio Resende, correspondente da RFI em Buenos Aires

    Em 1971, aos 16 anos, José Liborio Poblete Roa, o “Pepe”, perdeu as duas pernas ao cair de um trem no qual viajava de forma improvisada para evitar o custo da passagem entre Santiago e Curicó, no Chile.

    Um mês depois, ao receber alta médica, o jovem decidiu que queria estudar medicina, deixando seu país natal para iniciar uma nova vida na Argentina. Pepe gastou toda a indenização recebida da companhia ferroviária em uma cadeira de rodas e em uma viagem a Buenos Aires para tratamento ortopédico.

    “Quando lhe dei um beijo no hospital, ele me disse: ‘Mãe, por favor, não chore, porque eu serei o primeiro homem a correr com uma perna ortopédica’. Quando voltou para casa no mês seguinte, disse que haviam cortado suas pernas, mas não sua cabeça; que queria estudar medicina e começar uma nova vida na Argentina. Para mim, foi uma lição de vida”, recorda Buscarita Roa, de 88 anos, em entrevista à RFI na sede da Associação Avós da Praça de Maio.

    À época, o Chile era um país pobre e a vizinha Argentina, o “primo rico” da região, contava com sistemas de saúde e educação exemplares.

    Em dezembro de 1975, Buscarita Roa decidiu deixar a localidade chilena de La Cisterna, ao sul de Santiago, para ficar com o filho mais velho, levando com ela os outros seis filhos.

    “O meu filho tinha 23 anos quando desapareceu — praticamente a mesma idade da minha neta quando a reencontrei. Ele lutava por um mundo melhor. Em casa, faltava comida, mas ele levava um pão à escola para dividir com quem não tinha. Às vezes, quase não comia para poder compartilhar. Até hoje preparo um lanche e o deixo pendurado na porta de casa para quem precisar”, conta Buscarita.

    No instituto de reabilitação onde morava, Pepe conheceu a argentina Gertrudis Marta Hlaczik, conhecida como “Trudi”. Os dois se apaixonaram e tiveram Claudia.

    Com outros jovens do instituto, Pepe fundou a Frente de Aleijados Peronistas, uma organização política de esquerda que reunia cerca de 200 militantes. O peronismo seria alvo da ditadura argentina, instaurada em 24 de março de 1976, há 50 anos.

    O sequestro

    Em 28 de novembro de 1978, o casal e a bebê de oito meses foram sequestrados por militares e levados ao centro clandestino de prisão, tortura e extermínio em Buenos Aires, chamado pelos próprios torturadores de “El Olimpo”, pois se consideravam deuses sobre a vida dos cerca de 500 sequestrados que por ali passaram — a maioria até hoje desaparecida, como Pepe e Trudi.

    Buscarita Roa relembra à RFI o cenário que encontrou ao chegar à casa do filho, no dia do sequestro, para cuidar da neta:

    “Eu cuidava da Claudia enquanto eles trabalhavam. Quando cheguei de manhã, encontrei a casa destruída: janelas quebradas, porta arrombada no chão. Uma vizinha me disse: ‘Ontem à noite vieram um caminhão do Exército e uma viatura policial. Derrubaram tudo e os levaram embora’”, relembra. “Comecei a procurá-los. Encontrei outras pessoas que também buscavam seus familiares. Depois descobri que havia muitos casos. Reuníamo-nos numa igreja, todos chorando, sem conseguir encontrar nossos filhos. Era algo espantoso”, descreve, emocionada.

    Dois dias depois, o então coronel Ceferino Landa, que não podia ter filhos, foi ao centro clandestino e levou Claudia. Ele se apropriou da menina, mudou seu nome para Mercedes Beatriz Landa Moreira e a criou como filha até ela completar quase 22 anos.

    A informação sobre o destino do casal só surgiu anos depois, com investigações realizadas após o retorno da democracia na Argentina. Segundo a Comissão Nacional sobre o Desaparecimento de Pessoas (CONADEP), Trudi e Pepe foram “terrivelmente torturados”.

    Durante anos, Buscarita procurou, sem sucesso, pelo filho, pela nora e pela neta. No início, era acompanhada pela mãe de Trudi, que acabou entrando em depressão e cometeu suicídio.

    Na época, Buscarita trabalhava como supervisora de limpeza no Ministério do Planejamento da Argentina, a apenas quatro quarteirões da Praça de Maio. O ministério era repleto de militares. Para não levantar suspeitas, mantinha silêncio no trabalho; depois do expediente, saía em busca da família sequestrada. A cada dia, encontrava mais casos semelhantes ao seu.

    Avó da Praça de Maio

    Um dia, ao passar pela Praça, viu várias mulheres com lenços brancos na cabeça. Curiosa, perguntou por que estavam reunidas ali. Descobriu que procuravam seus filhos e netos desaparecidos. Foi nesse momento que Buscarita se tornou uma Avó da Praça de Maio. Hoje, é vice-presidente de um dos mais importantes organismos de direitos humanos do mundo.

    “Comecei a fazer as rondas, chorando sem parar, porque era terrorífico. Minha nora, minha neta e meu filho… não era fácil viver. E eu precisava entrar no Ministério do Planejamento, cheio de militares da ditadura, aparentando tranquilidade para que ninguém percebesse o que eu estava passando”, conta.

    A postura era essencial. No fim de 1977, mães da Praça de Maio — Esther Ballestrino, María Eugenia Ponce e a fundadora Azucena Villaflor — também foram sequestradas e lançadas vivas nos chamados “voos da morte”, método usado para eliminar prisioneiros: eram jogados de aviões, geralmente dopados e nus.

    Até hoje, as poucas Mães da Praça de Maio ainda vivas percorrem a praça religiosamente às quintas-feiras. Já realizaram 2.501 rondas desde abril de 1977, quando passaram a usar lenços na cabeça para se reconhecerem e tiveram de circular continuamente, já que reuniões eram proibidas pelo estado de sítio.

    Seis meses depois, em outubro de 1977, algumas perceberam que também precisavam procurar os netos, dando origem às Avós da Praça de Maio.

    “Eu procurava pelos três: meu filho, minha nora e minha neta. As marchas davam visibilidade. Jornalistas do mundo todo começaram a aparecer. Foi assim que mães e avós da Praça de Maio se tornaram conhecidas”, diz Buscarita.

    “Anos depois, soube que minha neta havia sido apropriada. Nas Avós da Praça de Maio recebemos a informação de que bebês e crianças eram entregues a militares e policiais. O problema era descobrir por quem”, explica.

    A descoberta

    Graças às campanhas na mídia e às investigações judiciais, uma denúncia anônima apontou uma jovem como possível vítima de apropriação ilegal. As datas e descrições coincidiam. O exame de DNA, no início de 2000, confirmou: era Claudia.

    “Como dizer a uma jovem de 21 anos: ‘Você é minha neta?’ Não é fácil. Foi preciso paciência, equilíbrio e espera. Aos poucos, conseguimos conquistá-la”, relata Buscarita.

    “Desde muito jovem, eu sentia que algo estava errado. Meus apropriadores — as pessoas que eu pensava serem meus pais — eram muito mais velhos. Meus colegas achavam que fossem meus avós. Eles tinham quase 50 anos em 1978”, conta Claudia Poblete à RFI. “Escondiam documentos e diziam que não tinham fotos da gravidez porque haviam sido roubadas.”

    No início, Claudia passou a chamar o casal que a criou pelos nomes; depois, passou a se referir a eles como “apropriadores”. Hoje, não mantém mais contato e afirma que eles nunca demonstraram arrependimento.

    “Mesmo assim, mantive vínculo com eles por um tempo. Quando minha filha nasceu, ela se parecia muito comigo e com fotos minhas de bebê com meus pais biológicos. Foi um choque. Comecei a entender o que significa ser mãe”, diz.

    “Passei a refletir sobre o que minha mãe viveu: a gravidez, a separação, o sequestro. E percebi que, para meus apropriadores, tudo aquilo fazia parte do cotidiano — eles mentiram para mim todos os dias.”

    Claudia demorou a assimilar sua história, e a família temeu perdê-la. Foram necessários mais cinco anos para que acontecesse o primeiro abraço.

    “Num momento de descuido, nos abraçamos pela primeira vez e choramos. Foi muito forte. Senti como se Pepe e a mãe dela estivessem ali. Então pensei: ‘Filho, cumpri minha missão. Aqui está sua filha’”, desabafa Buscarita.

    Passaram-se 26 anos desde o reencontro, mas permanece um vazio entre avó e neta.

    “Sinto a perda irreparável daqueles vinte anos que nos foram roubados. Quando a abraço, percebo que há algo que nunca poderemos recuperar. É triste”, diz Claudia.

    “Ao mesmo tempo, é um privilégio tê-la. Muitos netos recuperam a identidade quando a avó já não está mais viva.”

    A procura continua

    Buscarita ainda procura pelo filho e pela nora; Claudia, agora, busca pelos pais.

    “Encontrar os corpos nos permitiria entender o que aconteceu e começar a fechar essa ferida. Enquanto não sabemos, ela permanece aberta”, afirma Claudia.

    “No fundo, sei que os mataram. Seria um milagre encontrá-los vivos. Mas queremos ao menos saber onde estão os restos. Mesmo que seja um pequeno fragmento, já seria uma bênção. Poder tocá-los e dar-lhes uma sepultura cristã me permitiria morrer em paz”, diz Buscarita, emocionada.

    No início da ditadura, crianças já nascidas eram entregues como abandonadas a instituições e adotadas com apoio de juízes. Com o aumento do sequestro de grávidas, surgiu uma segunda fase: o plano sistemático de roubo de bebês.

    Posteriormente, quando as Avós da Praça de Maio ganharam visibilidade, iniciou-se uma terceira fase: o roubo era disfarçado, registrando-se a criança como abandonada por poucas horas antes de sua entrega a militares, com aparência de legalidade.

    As Avós estimam que cerca de 400 netos foram sequestrados. Até agora, 140 foram recuperados. Claudia foi a neta número 64. Alguns corpos de mulheres foram encontrados ainda com o feto — assassinadas grávidas.

    O plano sistemático e perverso de roubo de bebês foi uma prática singular da ditadura argentina.

    8 min
  • Parisienses vão às urnas para escolher sucessor da prefeita Anne Hidalgo; eleitorado está dividido

    Paris se prepara para o primeiro turno das eleições municipais francesas, neste domingo (15), as mais disputadas dos últimos anos na capital. Com a saída da socialista Anne Hidalgo após 12 anos no poder, a corrida à Prefeitura vive um clima de forte tensão política e debates intensos sobre o futuro da cidade.

    Maria Paula Carvalho, da RFI em Paris

    A segurança aparece no topo das preocupações dos parisienses, e os candidatos apresentam propostas para reforçar a presença policial e combater ações de vandalismo. “Nos subúrbios de Paris há pontos de tráfico, venda de cigarros, sobretudo no leste. Há muitos camelôs, e esse é um problema que eu acredito que venha da imigração”, diz Arnaud, técnico da construção civil.

    “Há muitas pessoas desabrigadas, sem domicílio, que estão pelas ruas; não sabemos o que elas fazem. Vemos bastante barracas perto de Châtelet–Les Halles, muitas tendas embaixo das marquises e pessoas que estão na miséria. Não sabemos se existe algum risco”, acrescenta.

    Outro tema que domina a campanha: a limpeza da cidade. Com críticas crescentes ao estado das ruas, alguns candidatos defendem até triplicar o orçamento para deixá-la mais limpa. As propostas incluem modernizar a coleta de lixo, lidar com pichações e controlar a população de ratos.

    “Sim, há bastante ratos, mas há muita comida também, muitos restaurantes, então eles vêm para comer”, relata, sem medo. “Há mais ratos do que gente em Paris”, diz em tom de brincadeira.

    Paris vive uma transformação profunda na mobilidade. Ciclovias, redução do espaço para carros, zonas de baixa emissão de poluentes e a reorganização das grandes avenidas geram debates acalorados. A direita critica o “trânsito caótico”, enquanto a esquerda e os verdes defendem uma cidade mais calma e menos poluída.

    “É mais nas grandes linhas que há problemas de transporte”, opina Florian. “O metrô e o ônibus funcionam muito bem em Paris. Hoje aceitamos mais as bicicletas, e é melhor com bicicletas do que com carros. Isso permite aos pedestres circular tranquilamente”, diz.

    Crise de moradia

    Paris vive hoje uma das piores crises de moradia de sua história. Do total de 1,4 milhão de moradias da cidade, só um quarto está disponível para alugar, sendo que 300 mil imóveis estão vazios ou fechados.

    Em três anos, o número de anúncios de imóveis para alugar caiu 74%. E, a cada ano, Paris perde cerca de 8 mil apartamentos do mercado de aluguel para outros usos, como locação para turismo ou escritórios.

    Entre os mais afetados estão estudantes e jovens trabalhadores. Hoje, 10% dos estudantes da capital já viveram em situação de rua em algum momento.

    Na região parisiense, a situação é ainda mais grave: 1,3 milhão de pessoas vivem em condições precárias, e mais de 125 mil não têm domicílio fixo. Paris e arredores contam com 4.300 sem-teto.

    O sistema de moradia social também está sobrecarregado. Quase 900 mil pessoas esperam na fila por um apartamento com aluguel subsidiado, e só 7% conseguem um teto por ano. A crise imobiliária ocupa boa parte dos programas eleitorais: controle do valor dos aluguéis, construção de casas e prédios populares, regulação de Airbnbs e novos planos de urbanismo estão em disputa.

    Serge é piloto de avião e conta como viu Paris se transformar. “Uma cidade que, em 20 anos, se tornou triste. Há muitos parisienses deixando Paris; há cada vez menos habitantes”, lamenta.

    “A imagem icônica de Paris está ruindo. Eu moro no centro e está parecendo a Disneylândia. Convivo cada vez menos com parisienses e cada vez mais com turistas. E eles ficam decepcionados porque não encontram mais a imagem icônica de Paris. Uma invasão de Airbnbs; muita gente se aproveita”, observa.

    Políticas ambientais em debate

    As políticas ambientais introduzidas pela prefeita Anne Hidalgo seguem em debate. A vegetalização de grandes avenidas virou alvo de críticas da direita, que teme alterações na circulação e no comércio local. A pauta ambiental continua central: mais verde, menos carros e adaptação às mudanças climáticas.

    O taxista Bettayb acha que há exageros. “A bicicleta entrou, isso é normal, mas às vezes acho exagerado”, aponta. “Um exemplo: aqui na Rue de Rivoli, são quatro pistas para as bicicletas e uma pista para ônibus, táxis e outros”, calcula. Além disso, “há muitos engarrafamentos em Paris”.

    Outro problema, segundo ele, é a instalação de postes e barreiras de proteção que às vezes não são visíveis e podem danificar carros. Como apoiar os mais vulneráveis? Os candidatos divergem sobre políticas de acolhimento, saúde pública e assistência social em um cenário de aumento da precarização.

    Quem assume Paris depois de Anne Hidalgo?

    A esquerda tenta manter o controle com o candidato Emmanuel Grégoire, líder nas pesquisas.

    Atrás dele, Rachida Dati, da direita, e outros três concorrentes têm mais de 10% das intenções de voto e podem passar para o segundo turno.

    Entre propostas urbanas, disputas políticas e escândalos, a eleição de Paris promete um dos cenários mais imprevisíveis dos últimos anos. Além disso, as eleições municipais realizadas em 15 e 22 de março servem como teste das questões que preocupam a sociedade, aproximadamente um ano antes da próxima eleição presidencial.

    7 min
  • Professora brasileira leva teatro paulistano à universidade em Paris e amplia repertório dos alunos

    A autora, diretora e atriz brasileira Viviane Dias vem despertando o interesse dos estudantes da Universidade Paris 8 com um curso acadêmico dedicado ao teatro brasileiro. A partir de figuras do teatro nacional, das ressonâncias modernistas e de referenciais decoloniais, ela apresenta a inventividade da cena paulista a alunos que pouco conhecem da riqueza cultural do país. Em sua segunda edição, a formação voltou a lotar rapidamente as 40 vagas disponíveis e deve permanecer na grade universitária no próximo ano letivo, fortalecendo o intercâmbio artístico entre o Brasil e a Europa.

    Luiza Ramos, da RFI em Paris

    O curso integra o Departamento de Artes, Filosofia e Estética da Universidade Paris 8 e reúne estudantes de teatro, cinema, artes plásticas e filosofia. Para Viviane Dias, a iniciativa surgiu do desejo de apresentar aos jovens franceses outras referências para além do repertório europeu tradicional. 

    “A gente fala das invenções do Teatro de São Paulo, das invenções de linguagem”, explica. “Fazemos um caminho que começa desde o modernismo, nesse primeiro momento em que se buscou uma arte emancipada da Europa. Em que foram formuladas questões mais próprias da cultura brasileira. Seguimos até o momento em que essas ideias acabaram se materializando na cena por meio do José Celso e do Teatro Oficina, que é uma grande referência, e que oferecem uma cena completamente diferente do que eles estão habituados a ver.” 

    Segundo a professora, muitos alunos buscam o curso justamente porque sentem “saturação” de referências tradicionais e precisam de novos estímulos. “Normalmente, eles vêm de formações muito logocêntricas. Tento deslocar um pouquinho essa percepção”, conta. 

    Perspectiva decolonial e o ensino do Sul Global 

    A professora ressalta que compreender melhor a produção do Sul Global é fundamental para jovens que, no futuro, atuarão em novas cenas culturais da Europa. Nesse sentido, autores como o contemporâneo Ailton Krenak, o modernista Oswald de Andrade e artistas como Tarsila do Amaral têm gerado grande interesse entre os estudantes. “Eles têm poucas referências sobre o Brasil, e quando têm, é muito raso, às vezes o clichê do Brasil, do carnaval”, afirma.

    “É importante falar do Brasil e mostrar que a gente é ótimo para fazer festa, mas a gente também é excelente em fazer teatro, cinema e artes visuais.  Além disso, a gente produz pensamento, que é muito interessante e pode nos ajudar a pensar melhor o século 21”, afirma Viviane Dias.

    Alunos veem o curso como abertura de horizontes 

    Entre os inscritos está Kayij Baku‑Carlos, de 18 anos, estudante de Cinema e francês de origem angolana. Ele considera essencial compreender outras tradições artísticas para construir sua identidade profissional. “Aqui na França, muitas vezes, quando aprendemos História na escola recebemos, inevitavelmente, um ponto de vista mais eurocêntrico e francocêntrico”, diz. 

    “Na universidade, somos expostos a diferentes percursos culturais ligados à arte de vários países. Preciso ampliar meu olhar e entender como esse trabalho é feito em outros lugares. Como sou angolano por parte de pai, pensei que o curso poderia me ajudar a compreender melhor uma parte da minha cultura e da minha herança lusófona, de um país PALOP”, conclui o jovem. 

    Para Ryod Caldas, de 19 anos, estudante de Teatro, o impacto é semelhante: “Quase nunca vemos o que acontece fora do nosso próprio país. Geralmente ouvimos falar de Shakespeare e dramaturgos europeus. Explorar outras referências amplia nossa visão e nossas inspirações”. 

    A única brasileira da turma, Mayara Marçal, de 25 anos, destaca a importância de mostrar à universidade que há interesse por temas ligados ao Brasil e a outros continentes. 

    “Aqui a gente costuma estudar muito autores franceses. Quando vi que tinha um curso na grade curricular ministrado por uma professora brasileira, um curso de descolonização do teatro, eu achei incrível! É uma forma de mostrar para a universidade que a gente se interessa por professores de outros países, por aulas que falem sobre arte de outros continentes, não só da França”.

    Um curso em Paris e São Paulo ao mesmo tempo 

    O alcance do trabalho fez com que a formação chamasse a atenção da pós-graduação em Artes Cênicas da USP. Com isso, o curso será oferecido simultaneamente na Universidade Paris 8 e na ECA‑USP, em parceria com o professor Ferdinando Martins – algo inédito, segundo Viviane. 

    “É a primeira vez que um curso dedicado às invenções cênicas brasileiras contemporâneas é oferecido ao mesmo tempo em uma universidade parisiense e na USP”, afirma. 

    Para ela, essa articulação reflete um espírito do século 21 de ampliação de caminhos possíveis e inovadores para a educação. “Vivemos entre mundos e espaços, mas ainda somos muito caretas na nossa maneira de pensar processos pedagógicos. Espero que eu possa fazer mais pontes entre as coisas do Brasil e daqui. Eu também faço uma pesquisa de criação. Eu sou uma artista e pesquisadora. As duas coisas são importantes e andam juntas na minha vida”, conclui Viviane Dias.

    8 min

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