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Duas semanas após os terremotos, equipes internacionais deixam a Venezuela e familiares voltam a assumir as buscas por milhares de desaparecidos sob os escombros.
Pedro Pannunzio, correspondente em Caracas
Passadas mais de duas semanas desde o duplo terremoto que destruiu o Estado de La Guaira, no litoral venezuelano, a possibilidade de encontrar sobreviventes sob os escombros praticamente inexiste. Por isso, nesta nova etapa da tragédia, as buscas se concentram principalmente na recuperação dos corpos das vítimas.
Na tarde desta quinta-feira, Scarly Rojas, de 32 anos, buscava, no que restou de um prédio que tinha cinco andares, por sua mãe, uma das milhares de desaparecidas não computadas pelos dados oficiais divulgados diariamente pelo governo venezuelano.
Ela havia se mudado ao prédio desde a operação dos Estados Unidos que resultou no sequestro do então presidente Nicolás Maduro. Mas, no dia 24 de junho, quando os tremores atingiram o país, a jovem estava em Caracas.
“Com tudo que aconteceu no país, eu decidi morar com minha mãe, porque ela morava aqui e eu morava lá em Caracas. Estávamos distantes, então decidimos nos unir e voltar a morar juntas”, conta.
Mãe e filha dividiam um apartamento no primeiro andar de um apartamento na região de Praia Grande, uma das áreas em La Guaira mais atingidas pelos terremotos de magnitudes 7,2 e 7,5. Outros familiares de desaparecidos também buscam por parentes que viviam no edifício. Contra todas as probabilidades, alguns deles ainda mantêm a esperança de encontrar sobreviventes.
Rojas, no entanto, não alimenta o mesmo otimismo. “Desde o primeiro dia, quando cheguei e vi a maneira como o prédio caiu, como nosso apartamento foi afetado, achei quase impossível que ela tivesse sobrevivido.”
Críticas contra lentidão do governoO governo venezuelano é alvo de críticas pela demora no início do resgate de possíveis sobreviventes da tragédia. Rojas diz que, nos primeiros dois dias, cruciais para o resgate de pessoas com vida, eram os próprios familiares que realizavam os trabalhos de buscas – situação que só mudou, segundo seu relato, a partir do terceiro dia, com a chegada das primeiras equipes internacionais de socorristas.
Com a janela para encontrar sobreviventes praticamente fechada, quase todas as equipes já deixaram o país. Os familiares, que haviam conduzido as buscas nos primeiros dias, voltaram aos escombros – desta vez, para procurar os corpos de seus parentes.
“Foi no terceiro, ou quarto dia, que as equipes estiveram aqui para fazer as buscas, mas depois de uma semana, a ajuda parou. Agora não tem ninguém”, lamenta Rojas, que, diariamente vai ao local onde morava com a mãe para, junto com outros voluntários, procurar o que as equipes de resgate não encontraram.
Retorno da missão brasileiraNesta sexta-feira (10), parte da missão brasileira, uma das últimas a permanecer no país, voltará para casa. A previsão é que o voo com as equipes de resgate desembarque em Brasília às 17h no horário local. Inicialmente, a previsão era de permanência até o dia 13, próxima segunda-feira. O hospital de campanha montado em La Guaira pela Marinha, porém, permanecerá na Venezuela por prazo indeterminado.
Ontem, equipes de buscas da Argentina, que devem ficar na Venezuela até sábado, ainda procuravam por sobreviventes. “É verdade que, a esta altura, com os dias que já se passaram, as possibilidades de encontrar alguém com vida diminuem muito. Mas, bem, esse é o trabalho que fazemos. Vamos tentar até o último momento”, disse María Florencia Pizarro, chefe das operações de busca da Brigada ARG 10, durante uma breve pausa nos trabalhos, enquanto esperava uma retroescavadeira remover alguns blocos de concreto para que as buscas pudessem continuar.
Respeito pelos mortosMesmo quando as chances de encontrar sobreviventes se esgotam, Pizarro diz que as operações não perdem a importância. “Talvez não consigamos resgatar alguém com vida, mas também é importante devolver às famílias seus entes queridos, para que possam se despedir e realizar os rituais que cada povo tem para se despedir de seus mortos.”
Apesar da saída de boa parte dos socorristas internacionais, nesta quinta-feira, o Comando Sul dos Estados Unidos anunciou a chegada do USS San Antonio, navio de transporte anfíbio da Marinha norte-americana, que atracou no Porto de La Guaira, para “apoiar as operações de ajuda humanitária.”
No início do mês, o comandante da estrutura militar norte-americana responsável pelas operações na América Latina e no Caribe, general Francis Donovan, havia informado que cerca de dois mil militares dos Estados Unidos tinham desembarcado na Venezuela.
Um dos marcos arquitetônicos da capital francesa ganhou cores brasileiras neste verão europeu. Até 26 de agosto, a tradicional loja de departamentos La Samaritaine, entre o Louvre e a Pont Neuf, recebe uma seleção de marcas de moda, beleza, design e arte em um espaço temporário inspirado no modernismo brasileiro das décadas de 1940 a 1960.
Vitória Barreto, da RFI em Paris
O Appartement Brésil propõe um retrato do país que vai além dos clichês tropicais. Idealizador do projeto, Lucio Fonseca buscou inspiração no modernismo brasileiro para construir um diálogo entre Brasil e França, reunindo moda, design, arte e perfumaria em um mesmo espaço.
A proposta combina marcas já conhecidas do público internacional, como Farm e Água de Coco, com criadores independentes, artistas contemporâneos e casas tradicionais. "Eu quis fazer um diálogo de 360 graus entre Brasil e França", resume Fonseca.
Entre os participantes está a Phebo, marca centenária cuja história faz parte da memória afetiva de gerações de brasileiros. Para Sissi Freeman, diretora de marketing comercial da empresa, apresentar a marca ao público francês significa traduzir uma relação que, no Brasil, dispensa explicações.
"A Phebo é uma marca com a qual o brasileiro nasceu tomando banho, com tanta memória afetiva, o sabonete que o avô usava, que o pai usava, é tão presente na rotina e na cultura brasileira", afirma. "Quando contamos essa história para quem nunca ouviu falar da marca, não tem como não se apaixonar", completa Sissi.
A arte também ocupa um lugar central na programação. A curadoria de Pat Monteiro Le Clerc reúne nomes capazes de estabelecer pontes entre referências brasileiras e o olhar internacional. Entre eles está Maritza Caneca, artista que explora o universo das piscinas em fotografias e vídeos e que criou, para a exposição, uma releitura da piscina da Casa das Canoas, projetada por Oscar Niemeyer. Outro destaque é Jay Boggo, criador que transita entre moda e design e apresenta peças que refletem essa trajetória híbrida.
Novos olharesNa fronteira entre arte, artesanato e design está a ceramista Lilian Malta. Especialista em bone china, técnica rara no Brasil, ela desenvolve peças delicadas inspiradas em ritmos e padrões encontrados na natureza. Em vez de reproduzir formas reconhecíveis, a artista prefere investigar esses elementos de maneira abstrata, explorando as possibilidades de um material conhecido pela brancura e pela leveza.
O projeto também abre espaço para marcas de menor porte já consolidadas no mercado brasileiro. É o caso da Missinclof, das designers Silvia Freitas e Tathiana Ventre. Desde a chegada a Paris, as criações da marca têm despertado a curiosidade de passantes, atraídos principalmente pelas texturas e pelos tecidos. Segundo as estilistas, o interesse não se limita à comunidade brasileira: as primeiras vendas foram realizadas para clientes europeus, um indicativo da receptividade do público local.
À frente da organização do evento, a agência franco-brasileira Onélia assina a curadoria ao lado de Lucio Fonseca. A seleção privilegiou marcas autorais, produções artesanais e nomes que representam diferentes facetas da criação contemporânea brasileira.
"Nossa intenção é mostrar que somos mais do que a imagem do Brasil tropical", afirma Dayana de Moraes Bandini, fundadora da agência. "Temos um design de muita qualidade e uma mao de obra impecável."
Até 26 de agosto, a Samaritaine recebe esse recorte da produção brasileira contemporânea em um ambiente que combina referências modernistas, moda, arte e design. Uma exposição temporária que convida o visitante a descobrir um Brasil menos previsível e mais diverso, em um dos marcos arquitetônicos de Paris.
Na saída do MetLife Stadium, os torcedores brasileiros, maioria entre os mais de 80 mil presentes no local, deixaram o estádio profundamente decepcionados com a derrota da Seleção Brasileira neste domingo (5).
Elcio Ramalho, enviado especial da RFI a Nova Jersey,
Tanto os brasileiros que vivem nos Estados Unidos quanto aqueles que vieram do Brasil na esperança de ver a equipe avançar às quartas de final retornam para casa com críticas ao desempenho da seleção.
“Faltou intensidade. Quando a gente vê outras equipes jogando, fica evidente que falta intensidade nessa seleção”, diz o torcedor Rubens.
O mineiro Marcos também não gostou da postura dos jogadores em campo. “Eles deveriam ter jogado mais. O sentimento é de decepção. A gente esperava mais. O Ancelotti deveria pegar mais no pé dos jogadores”, opina.
Para Andrei Trestivo, brasileiro que mora no estado do Missouri, Carlo Ancelotti, que tem contrato até 2030, deve permanecer no cargo para dar uma nova oportunidade às novas gerações de atletas. “Se ele tiver mais tempo, vai desenvolver uma seleção imbatível”, acredita.
Carol não escondeu a decepção, mas manteve a esperança que se renova a cada Copa. “Daqui a quatro anos vamos voltar de novo com a expectativa. A gente achava que o hexa viria, é muita frustração. Mas faz parte, e daqui a quatro anos estaremos de volta.”
“Momento de muita dor”A frustração da torcida potencializou o sentimento de tristeza que tomou conta dos jogadores. Cenas de muita desolação no gramado se seguiram até a saída do estádio.
O atacante Matheus Cunha revelou que o momento é de grande dor. “É uma frustração e uma dor muito grandes, porque emocionalmente é difícil imaginar o quanto seria bonita e orgulhosa a festa. Do fundo do coração, é o que mais dói.”
Matheus Cunha foi o atacante derrubado na área no lance que resultou no pênalti para a Seleção Brasileira ainda no início do primeiro tempo. Bruno Guimarães, escolhido por Ancelotti para a cobrança, desperdiçou a oportunidade ao bater fraco, facilitando a defesa do goleiro Nyland, um dos heróis da classificação norueguesa.
Muito abatido por ter desperdiçado a melhor chance do Brasil na partida, Bruno Guimarães falou sobre o lance.
“Fui infeliz no pênalti. Tinha estudado muito o goleiro deles e achei que deveria bater no canto, mas ele pegou. Todo mundo está muito triste, é uma dor muito forte. Ninguém estava esperando por isso”, declarou.
O lateral Danilo também ressaltou a tristeza com a eliminação, mas não quis comentar o ciclo conturbado vivido pela seleção até a Copa, marcado por sucessivas trocas de treinadores antes da chegada de Carlo Ancelotti, há pouco mais de um ano.
“É claro que, quando um trabalho é desenvolvido por mais tempo, isso ajuda bastante em todos os sentidos. Agora, o que me cabe é ser um apoiador máximo, porque precisamos olhar para a frente e construir um futuro melhor. Temos muitos jogadores de qualidade. O desejo é que eles consigam fazer aquilo que nós não conseguimos.”
Apoio à nova geraçãoA Seleção Brasileira teve apenas 35% de posse de bola, um número raro para uma equipe tradicionalmente conhecida pelo talento e pela capacidade ofensiva. A estratégia adotada não funcionou, e o Brasil pagou caro por conceder espaços ao gigante Haaland, que decidiu a partida com um gol de cabeça e outro em chute cruzado. Neymar descontou de pênalti, mas tarde demais para uma reação.
Capitão da equipe, Marquinhos reconheceu as falhas, lamentou a falta de eficiência nas oportunidades criadas e pediu paciência da torcida com os jogadores que iniciarão o novo ciclo da seleção. “A gente sabe que o futebol hoje está muito equilibrado. Eu, como capitão, e os mais velhos temos que assumir a responsabilidade para que as próximas gerações tenham tranquilidade para trabalhar”, disse ele.
“Um novo ciclo começa a partir de agora. Não sabemos o que vai acontecer, mas peço paciência com os mais jovens e o apoio da torcida desde já, para que eles possam conquistar grandes coisas na próxima Copa.”
Em entrevista coletiva, Carlo Ancelotti afirmou que o Brasil não merecia a derrota. Para o treinador, a seleção criou oportunidades suficientes e tinha potencial para chegar à final do torneio.
“Saímos tristes porque a equipe não fez um Mundial espetacular, mas fez um bom Mundial. No jogo de hoje, merecíamos ganhar. Em um momento assim, é preciso entender que uma derrota pode representar o começo de uma nova aventura.”
O técnico defendeu que a tristeza pela eliminação precoce deve servir de combustível para a reconstrução da equipe em um novo ciclo, que seguirá sob seu comando até a Copa do Mundo de 2030. “Temos que continuar trabalhando, evoluindo e encontrando novas ideias. Não é o fim. Essa derrota é o início de um novo ciclo”, afirmou.
Missão brasileira mantém buscas por sobreviventes dos terremotos, reforça atendimento médico em La Guaira e oferece apoio ao processo de reconstrução das áreas atingidas.
Pedro Pannunzio, correspondente da RFI em Caracas
Nesta quinta-feira (2), um milagre aconteceu na Venezuela. Depois de oito dias debaixo dos escombros, Hernan Gil, um vigilante do estacionamento de um centro comercial em Catia La Mar, no Estado de La Guaira, foi resgatado com vida por socorristas de sete países.
Segundo o governo da presidente Delcy Rodríguez, alvo de críticas pela demora para iniciar as buscas, equipes de 30 países atuam na Venezuela para auxiliar nas operações de resgate. Com o passar dos dias, porém, diminuem as chances de encontrar sobreviventes sob os escombros dos edifícios que desabaram após os dois terremotos que atingiram o país.
Na Venezuela desde a sexta-feira da semana passada, a equipe brasileira mantém a procura por sobreviventes, apesar das chances reduzidas. "A gente ainda tem expectativa de encontrar pessoas com vida. O Brasil vai continuar nesse esforço por mais alguns dias, até que a gente pare de encontrar sinais de vida”, afirmou Armin Braun, chefe da missão brasileira na Venezuela.
Braun reconheceu, no entanto, que o tempo para localizar sobreviventes está se esgotando e que os trabalhos devem começar a ser direcionados para outras frentes de atuação.
"Como há outras demandas, como assistência à saúde, assistência humanitária e providenciar acesso à água, a gente já está conversando com a proteção civil da Venezuela para poder abrir outras frentes. Já fizemos, por exemplo, uma avaliação de hospitais, porque eles precisam voltar a funcionar rapidamente", disse. Ao menos 38 hospitais do país foram afetados pelos dois tremores de magnitude 7,2 e 7,5.
Sobrevivente não resisteNesta semana, parte da equipe brasileira, formada por agentes dos Corpos de Bombeiros de São Paulo, Minas Gerais e Paraná, além da Defesa Civil Nacional, trabalhou em conjunto com equipes de outros países na tentativa de resgatar um sobrevivente sob os escombros de um prédio de 12 andares que desabou após os terremotos.
Cães farejadores e equipamentos de detecção de sinais vitais haviam indicado a possível presença de uma pessoa com vida, que estaria dentro de um veículo quando o edifício desabou. Após mais de 35 horas de trabalho, porém, os sinais vitais desapareceram.
"A gente estava no caminho certo, mas infelizmente faltou um pouco mais de tempo para que a gente conseguisse chegar na vítima. A gente conseguiu chegar no carro, em dois pontos diferentes, mas, como tinha muito escombro e concreto, não conseguimos chegar a tempo", lamentou o tenente-coronel Rafael Neves Cosendey, do Corpo de Bombeiros de Minas Gerais.
Hospital de campanhaAlém das operações de resgate, o Brasil montou um hospital de campanha para atender moradores de La Guaira. Nesta quinta-feira, uma longa fila de venezuelanos aguardava atendimento, que se estende a pacientes que não foram feridos pelos terremotos.
"Trouxemos uma estrutura médica com ortopedistas, pediatras, cirurgião, anestesista e uma série de profissionais da área de enfermagem para que a gente possa fazer o melhor atendimento aqui, não somente na parte de urgência, mas também de acolhimento e distribuição de medicação", disse a comandante Marisa Baltar, diretora da Unidade Médica Expedicionária da Marinha.
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Na terça-feira (30), o governo brasileiro enviou o quinto voo humanitário à Venezuela com equipamentos para ampliar o hospital de campanha instalado na cidade litorânea.
No mesmo dia, o ministro da Defesa, José Múcio, viajou ao país, onde se reuniu com a presidente interina Delcy Rodríguez. Após o encontro, ele disse que o Brasil está "à disposição" para contribuir com o processo de reconstrução das moradias na região atingida pelos terremotos da semana passada.
Livros, discos de vinil, obras de artistas brasileiros e um café para quem deseja mergulhar na cultura do país. Foi com essa proposta que o paulista Anderson Vital abriu a Sabiá Arte e Cultura, a primeira livraria 100% brasileira de Paris. Instalado no bairro do Marais, o espaço combina literatura, música, artes visuais e eventos culturais para apresentar ao público francês e internacional uma visão "mais aprofundada" do Brasil, com destaque para as culturas afro-brasileira e indígena.
Luiza Ramos, da RFI em Paris
Embora Paris abrigue desde 1986 a tradicional Livraria Portuguesa e Brasileira, a Sabiá Arte e Cultura é o primeiro espaço dedicado exclusivamente à produção cultural do Brasil. O local de 14m² possui uma área externa calma e agradável, onde o empreendedor paulista compartilha vários elementos que lembram o Brasil sem parecer burlesco.
Anderson Vital realiza um sonho cultivado desde a adolescência. Nascido na zona leste de São Paulo, ele vive na França há seis anos, onde trabalha como iluminador de espetáculos teatrais. O projeto da Sabiá nasceu da combinação entre a paixão pelos livros e a saudade do Brasil.
"Eu comecei a sentir falta da minha cultura brasileira, porque fiquei trabalhando muito tempo com os franceses", conta. "Também trabalhei num sebo na adolescência e sou apaixonado por livro, literatura".
Para concretizar a ideia, Vital contou com um programa da Prefeitura de Paris voltado para a ocupação comercial de espaços da cidade. Após apresentar um projeto cultural e passar por entrevistas, recebeu a autorização para ocupar uma pequena loja no Village Saint-Paul, n° 25, Rue Saint-Paul, no coração do bairro do Marais.
Uma extensão da própria casa"Eu gosto de falar que a loja Sabiá Arte e Cultura é um pouco minha sala de casa, porque está cheia de livros, cheia de discos e obras de arte", diz.
O espaço reúne, além dos clássicos, obras oriundas da parceria de Anderson com seis artistas brasileiros, além de trabalhos de uma fotógrafa. A proposta é servir de vitrine para criadores brasileiros e criar conexões com a comunidade artística do país que vive na França.
A seleção de títulos, discos e artistas é feita pelo próprio fundador. E a curadoria segue uma linha bem definida.
"Eu quero trazer mais a nossa cultura afro-brasileira, nossa cultura indígena, a nossa floresta, a nossa cultura popular, que é muito rica", explica. "Quero mais profundidade. Quero mostrar para os franceses e para o público internacional a nossa cultura social, a nossa antropologia brasileira".
Franceses e turistas descobrem o BrasilApesar de ter aberto as portas há apenas algumas semanas, a Sabiá já atrai um público bastante diverso. A localização, em uma área turística de Paris, favorece a chegada de visitantes de várias nacionalidades.
"Tem russo, americano, canadense, chinês e tem o público francês também", afirma. Segundo ele, os franceses têm demonstrado um interesse especial pela cultura brasileira.
Nawell, um turista canadense que passeava com a esposa em Paris, encontrou a Sabiá por acaso e se interessou ainda mais pela cultura brasileira.
"É muito legal, muito legal! Eu conheço muito pouco da cultura e música brasileira, mas eu acho bem legal este espaço. É bem bonito e bastante tranquilo. Eu tenho um amigo que foi ao Brasil e disse que foi fantástico para férias. Eu nunca fui ao Brasil, mas está na minha lista. Este espaço é genial!", diz.
Para Anderson, um dos aspectos mais gratificantes é apresentar artistas e autores brasileiros a pessoas que, muitas vezes, têm pouco contato com a produção cultural do país. "Às vezes o pessoal não conhece muito, mas eu ofereço essa oportunidade de descobrir. Mostro os livros, mostro os discos, faço escutar também", descreve.
De sebo paulistano a livraria em ParisA relação de Anderson com os livros começou cedo. Aos 14 anos, ele conseguiu o primeiro emprego em um sebo de São Paulo, experiência que considera decisiva para o surgimento da Sabiá. Durante quatro anos, trabalhou ao lado do proprietário do estabelecimento, aprendendo não apenas a comprar e vender livros, mas também a restaurar obras antigas.
"Foi o meu grande lugar", recorda. "Tinha pessoas que chegavam para falar só de cinema e ficavam horas conversando comigo. Outras traziam livros e diziam: 'Você tem que ler isso'. Era um grande aprendizado."
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Cartola lidera as vendas de discosEntre as preciosidades disponíveis na loja estão edições dedicadas a artistas como Carybé, Miguel Rio Branco e Sebastião Salgado, além de uma seleção de discos de música brasileira garimpada pessoalmente por Anderson em feiras de vinil em São Paulo: "Eu acordava às quatro da manhã para ir à feira de discos e tentar encontrar boas peças", conta.
Nas prateleiras, há nomes como Tom Zé, Jards Macalé, Caetano Veloso, Antônio Carlos Jobim, Heitor Villa-Lobos e Cartola. O sambista carioca, aliás, tornou-se uma surpresa para o livreiro.
"O Cartola é o nosso campeão de vendas aqui. Todo mundo adora o Cartola", diz.
Programação e eventosA ambição de Anderson nunca foi limitar a Sabiá ao universo dos livros. Desde a inauguração, o espaço recebeu o lançamento de uma obra da escritora Dora Fund, uma leitura de poemas de Walt Whitman conduzida por Ed Flanders, vocalista da banda Vanguart, e atividades ligadas à Festa da Música, celebrada anualmente na França.
Os próximos planos incluem o lançamento de um álbum de um músico brasileiro radicado na França e a organização de um festival de cinema brasileiro." Nossa busca e nossa curadoria vão nesse caminho: teatro, cinema, música, literatura brasileira".
Enquanto amplia a programação, Anderson segue fiel ao objetivo que motivou a criação da Sabiá: compartilhar com franceses, turistas e brasileiros um retrato mais amplo da riqueza cultural do país.
"Eu acho que minha missão é compartilhar com o público a minha paixão, o nosso Brasil e tudo que a gente tem de bom."
Como a cultura pode ser uma ferramenta de transformação durável? De que forma ela colabora para o desenvolvimento social, ambiental e econômico? Foi para responder a essas perguntas que pesquisadores, artistas, empresários e instituições associativas franco-brasileiras se reuniram, nesta quinta-feira (25), em um evento preparatório do Fórum do Amanhã, que acontece no final de setembro na capital francesa.
Maria Paula Carvalho, de Paris
Organizado pela associação “Os Aprendizes da Esperança” (Les Apprentis de l’Espérance), o encontro na Faculdade de Direito de Malakoff, na Grande Paris, permitiu uma troca de experiências de sucesso nos ramos da sustentabilidade, inovação tecnológica, turismo, patrimônio, ativismo e engajamento social.
O painel foi aberto por representantes da CSSC, a rede Corporate Sustainability in Support of Culture, que tem como objetivo ajudar empresas a integrar a cultura e a diversidade cultural em suas estratégias de desenvolvimento suntentável.
“Avaliamos que tipo de iniciativas a empresa adota para promover mais diversidade nas relações com os empregados, entre eles, e também como a empresa interage com a sociedade nesse aspecto cultural”, explica Lilian Hanania, advogada e professora, uma das fundadoras da CSSC. “A empresa tem ligações com comunidades locais? Influencia políticas públicas? Financia artistas ou a indústria criativa do local onde atua?”, questiona, apontando alguns padrões a serem medidos para a obtenção do selo IDC, que distingue empresas que integram a diversidade cultural em suas estratégias de sustentabilidade.
“Ainda há poucas empresas que têm essa visão de que a cultura faz parte da sustentabilidade”, continua. “Hoje, temos duas empresas brasileiras que receberam esse selo: o escritório de advocacia Machado Meyer, com sede em São Paulo, e uma microempresa, a franquia de sorvetes Mister Mix”, de Mogi Guaçu, também em São Paulo, revela. Na França, uma das empresas que aceitaram o desafio de incluir a cultura em suas estratégias é a fabricante de pneus Michelin.
“Existe essa preocupação aqui na França, mas o Brasil está em um momento particularmente favorável para discutir essas questões”, explicou Hanania, em entrevista à RFI.
Cadeias de valor na AmazôniaO engenheiro e consultor Tobia Ferraro atua em projetos de inovação social na Amazônia brasileira, com foco na estruturação de cadeias produtivas locais. Em Santarém, iniciativas desse tipo vêm organizando agricultores familiares e comunidades tradicionais em torno de cooperativas e pequenas agroindústrias, permitindo agregar valor à produção, como derivados da mandioca, frutas e produtos da floresta, e conectar essas cadeias ao mercado.
“Um exemplo vem dos seringais do Pará, que decaíram muito e deixaram de ser competitivos em relação ao mercado asiático e mesmo à borracha plantada em São Paulo. Esse setor ficou dormente por muito tempo”, conta. Até que uma organização de Santarém, chamada Saúde e Alegria, retomou a produção com o uso de recursos do Fundo Amazônia, explica. “Hoje eles consolidam a borracha extraída pelos seringueiros do território e exploram cadeias de valor amazônicas, como sementes florestais, óleos e manteigas vegetais extraídos de frutos brasileiros”, completa.
“É muito importante poder agregar valor a esse tipo de produto agroextrativista, que sustenta 400 famílias da região, espalhadas por 60 comunidades”, calcula. “Entre essas comunidades há quilombolas e indígenas, que têm uma riqueza cultural muito grande e que agora podem contar com geração de renda para prosperar”, comemora.
Outros saberesA filósofa brasileira Caroline Isidoro Marinho trabalha na aproximação de diferentes tipos de saberes, como o acadêmico e o popular. Atualmente morando em Toulouse, no sul da França, ela estuda como facilitar o diálogo cultural por meio de ferramentas artísticas, da dança, da música e da oralidade. “Um dos pontos em comum entre Brasil e França são os afetos”, continua a pesquisadora, que na França se interessa especialmente pelo universo associativo.
“A minha pesquisa investiga como a forte experiência francesa em trabalho associativo e comunitário pode se unir aos conhecimentos populares para facilitar o diálogo entre os dois países, dentro de práticas pedagógicas”, conclui.
Literatura de Cordel como ferramenta de integraçãoJá a francesa Sophie Foray encontrou na literatura de cordel uma ponte entre a educação no Brasil e na França. Ela promove intercâmbios entre alunos de escolas públicas dos dois países em torno desse tipo de poesia popular brasileira, muito ligada ao Nordeste, feita em versos rimados e tradicionalmente publicada em pequenos folhetos vendidos em feiras.
“O Brasil ainda sofre com uma visão no exterior que é muito estereotipada, especialmente no que diz respeito às culturas do Nordeste”, afirma, em entrevista à RFI. “Essas culturas não são reconhecidas como deveriam, apesar de sua riqueza e de serem um exemplo de cultura viva”, continua. “Sempre olhamos para o Brasil com um olhar exótico, como se houvesse apenas praias, samba, futebol, mulheres e festas”, diz, acrescentando que “o Brasil tem uma história de miscigenação e de antropofagia”.
“Eu uso a literatura de cordel como mediação entre as crianças”, explica, "pois ela é uma ferramenta muito potente de instrução e de circulação de narrativas populares”.
Há mais de uma década, as chamadas ameaças híbridas deixaram de ser apenas um conceito acadêmico para se tornar uma realidade capaz de influenciar sociedades em todo o mundo. Entre os momentos mais vulneráveis a esse tipo de ação estão os períodos eleitorais. Segundo especialistas, os seis meses que antecedem um pleito concentram os maiores riscos de interferência no debate público e na confiança dos eleitores.
Júlia Valente, Correspondente da RFI em Helsinque
Em uma sociedade cada vez mais digital e interdependente, os conflitos também assumem novas formas. Não se trata mais apenas de bombardeios, invasões ou ataques militares convencionais. Ciberataques, campanhas de desinformação e pressões econômicas também podem ser utilizados para influenciar países e sociedades. Esse conjunto de estratégias é conhecido como ameaças híbridas, ações capazes de comprometer a estabilidade política, a segurança nacional e a economia de países em todo o mundo.
Em Helsinque, na Finlândia, está localizada a sede do Centro Europeu de Excelência para o Combate às Ameaças Híbridas (Hybrid CoE). Criada em 2017 em parceria com a União Europeia e a Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN), em um contexto de crescente preocupação dos governos com o avanço desse tipo de ação, a instituição apoia seus 35 países membros com pesquisas, treinamentos e análises voltados à prevenção e ao combate dessas ameaças.
Martha Turnbull, diretora da área de Influência Híbrida do Hybrid CoE, ressalta que um dos cenários que mais tem registrado o aumento de ameaças híbridas é o período eleitoral. “Vemos uma grande quantidade de desinformação nos cerca de seis meses que antecedem a eleição. Isso se encaixa em um padrão mais amplo que temos observado, no qual esses atores procuram minar a confiança do público no sistema eleitoral e no governo atual”, afirma.
Turnbull explica que, à medida que a eleição se aproxima, essas atividades passam a se concentrar em partidos políticos e candidatos específicos, além de tentar desencorajar a participação dos eleitores. “Isso não termina no dia da eleição. Essas atividades continuam nas semanas seguintes, buscando desacreditar os resultados”, complementa.
Não são apenas atores externos que impõem ameaças, mas também internos. “No contexto eleitoral atual, observamos que existe uma ligação entre ameaças externas e atores domésticos em muitos países", afirma Turnbull. "Em alguns casos, essa ligação é direta, quando o ator externo orienta diretamente grupos ou indivíduos que estão dentro do país realizando algum tipo de atividade. Em outros casos, a ligação não é tão clara, mas, de forma geral, o que estamos vendo é uma conexão cada vez maior entre esses atores”, diz a especialista.
O principal alvo das ameaças híbridas durante períodos eleitorais são justamente os eleitores. Por isso, de acordo com o Hybrid CoE, combater esse fenômeno também envolve fortalecer a educação midiática da população, para que as pessoas consigam identificar e resistir à desinformação.
IA muda o cenário das ameaças híbridasAlém do cenário eleitoral, o avanço da inteligência artificial (IA) vem transformando a forma como ameaças híbridas são produzidas e combatidas. Segundo Turnbull, atores envolvidos nesse tipo de atividade utilizam modelos de linguagem e outras ferramentas de IA para ampliar sua capacidade de atuação, aumentar a escala das operações e acelerar respostas.
“Isso, obviamente, é muito desafiador. Além disso, algumas dessas tecnologias tornam essas atividades muito mais difíceis de rastrear e, consequentemente, mais difíceis de atribuir responsabilidade e de responder a elas”, ressalta.
Também existe, no entanto, um aspecto positivo. Governos e instituições vêm utilizando a IA para fortalecer sistemas de monitoramento e resposta a ameaças híbridas. O saldo dessa transformação, porém, ainda é incerto. “Acho que, neste momento, a balança ainda não pendeu claramente para um lado ou para o outro", avalia Turnbull.
Europa vê Rússia como principal preocupaçãoO Hybrid CoE está localizado em um ponto simbólico. Helsinque fica a menos de 200 quilômetros da fronteira com a Rússia, país apontado por especialistas como a principal fonte de ameaças híbridas ao continente europeu na última década. “Consideramos que a principal ameaça para a Europa vem da Rússia, mas também observamos o aumento de ameaças por parte do Irã e da China”, afirma Martha Turnbull.
Desde a invasão em larga escala da Ucrânia pela Rússia, em 2022, o Hybrid CoE afirma ter observado um aumento significativo das atividades relacionadas a ameaças híbridas. “Temos observado uma atividade concentrada, particularmente por parte da Rússia, no campo da desinformação, que busca enfraquecer o apoio à Ucrânia e minar a disposição do país de continuar lutando com o apoio que recebe de seus aliados”, diz Turnbull.
Essas ações podem assumir diferentes formas. “Pode ser propaganda para tentar desgastar a população e conquistá-la para o seu lado. Também pode envolver ataques cibernéticos. Pode incluir ainda atividades militares de pequena escala, como cruzar fronteiras, violar espaços aéreos ou interferir em sinais de GPS”, ressalta.
Brasil: a desinformação no centro das ameaças híbridasNo Brasil, o tema também vem sendo acompanhado por pesquisadores. O professor de antropologia da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar), Piero Leirner, autor do livro “O Brasil no espectro de uma guerra híbrida”, afirma que, no contexto político brasileiro, a principal preocupação está em dinâmicas de desinformação.
“Os principais atores que manejaram estratégias híbridas de desinformação e de manipulação política aqui são atores 100% internos, embora ligados a atores externos. Eu acredito que a desinformação não é apenas no sentido de fake news. Isso é uma parte ínfima do problema. Na verdade, é uma estrutura geral que eu chamo de dissonância cognitiva e que muita gente chama de polarização”, diz Leirner.
À medida que o Brasil se aproxima das eleições presidenciais de 2026, marcadas para outubro, a desinformação retorna ao centro das atenções no cenário político. Embora as redes sociais tenham ampliado seu alcance e velocidade, o uso dessa estratégia para influenciar o debate público faz parte das campanhas há décadas. Para Leirner, em especial, ataques à credibilidade do sistema eleitoral devem voltar a ocupar espaço no debate público.
O pesquisador avalia ainda que as instituições brasileiras não estão preparadas para prevenir e responder a esse tipo de ameaça. “A principal ameaça é o fato de que as nossas principais instituições políticas estão embebidas nesse ambiente, e elas próprias fazem uso disso [da desinformação]”, ressalta.
Paris celebra neste domingo (21) a Festa da Música, evento gratuito que ocupa ruas, praças e espaços culturais com programação diversa e descentralizada, marcada nesta edição 2026 pela presença de culturas urbanas, cenas afro‑europeias e a já tradicional participação brasileira. Criada em 1982, a iniciativa mantém a proposta de transformar a cidade em palco aberto no início do verão europeu, sem concentração em um único espetáculo e com ampla circulação de público entre bairros.
Neste domingo (21), Paris volta a organizar a Festa da Música, com uma programação que se espalha por toda a cidade e transforma o espaço urbano em um circuito contínuo de apresentações. O evento ocorre simultaneamente em diversos bairros, sem centralização, com acesso gratuito e livre circulação do público ao longo do dia e da noite.
Criado em 1982, o evento ocorre sempre no início do verão no hemisfério norte e se baseia na ocupação simultânea de diferentes espaços urbanos. Ruas, praças, museus, igrejas e edifícios históricos recebem concertos e intervenções musicais ao longo do dia e da noite. Desde então, a festa se consolidou como uma das maiores manifestações culturais do país.
Democratizar o acesso à músicaMais de quatro décadas depois, o modelo permanece praticamente inalterado, sustentado pela ideia de democratizar o acesso à música ao vivo e integrar diferentes práticas culturais no espaço urbano. Concertos ocorrem em ambientes diversos, incluindo museus, igrejas e edifícios institucionais. A edição de 2026 confirma essa escala abrangente, com centenas de apresentações distribuídas entre ruas, parques, centros culturais e margens do Sena. A cidade se transforma em um grande palco aberto, com programação contínua ao longo do dia.
A lógica do evento difere da adotada em grandes festivais comerciais. Não há hierarquia rígida entre atrações, nem um palco principal que concentre o público. Artistas emergentes e nomes mais conhecidos coexistem em condições semelhantes. A proposta segue centrada na democratização do acesso à música ao vivo. Artistas amadores e profissionais compartilham a programação espalhada pela capital francesa, em um formato que privilegia a circulação do público e a descoberta de apresentações fora dos circuitos tradicionais.
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Culturas urbanas e diásporas africanasA edição de 2026 se destaca pela presença ampliada de expressões ligadas às culturas urbanas e às diásporas africanas na Europa. No centro cultural La Place, em Châtelet, no coração de Paris, um encontro entre o coletivo parisiense AFRO LIVE e o londrino ADA Collective reúne artistas associados às cenas afro‑europeias contemporâneas.
A programação evita a lógica de um espetáculo central. Em vez disso, privilegia a diversidade de formatos, com apresentações que vão da música eletrônica e afro a concertos em espaços históricos, além de festas de bairro e performances espontâneas. Projetos internacionais também integram a programação, aproximando artistas de diferentes regiões. Parcerias conectam cenas mediterrâneas e latino‑americanas, ampliando o intercâmbio cultural presente na festa.
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Funk brasileiro no Louvre?Um dos exemplos dessa convivência entre linguagens ocorre na igreja Saint‑Germain‑l’Auxerrois, em frente ao Louvre. Das 16h às 23h59, hora local, o espaço recebe o Baile da Euro, com apresentações de DJs e presença marcante do funk brasileiro. A utilização de um edifício histórico para música urbana contemporânea sintetiza a proposta de ressignificação dos espaços. A festa busca transformar temporariamente o uso dos locais, sem romper com seu valor patrimonial.
A programação de 2026 também destaca iniciativas ligadas à cena independente e a projetos multidisciplinares. No bairro do Marais, o novíssimo espaço Sabiá Arte & Cultura reúne música, artes visuais e intervenções urbanas. Para Anderson Vital, também conhecido como DJ Sabiá, a iniciativa exigiu um set list caprichado. “Preparei um set com música brasileira, de São Paulo, de Adoniran Barbosa, até o carimbó do Pará, na voz de Eliana Pittman. Então vai ter samba, vai ter groove, vai ter tropicália, forró, carimbó, e algumas surpresas da variedade francesa”, disse à RFI.
O espaço também recebe o coletivo Casa Moyo, voltado à promoção de artistas emergentes e à criação de projetos colaborativos. A organização define sua atuação como a construção de uma comunidade criativa baseada em encontros e experimentação artística. Segundo Julia Vital, cofundadora do centro cultural, os organizadores decidiram “[se] aproximar da Casa Moyo, que é um coletivo de artistas, uma casa criativa que gera uma comunidade artística. Esse coletivo defende a ativação dos espaços, a conexão entre culturas e a criação de experiências”.
Ela conta ainda que “há pintores, grafiteiros, músicos, DJs, criadores de moda, fotógrafos e designers. A ideia é que nada seja fixo e que as culturas dialoguem, e as estéticas se misturem”. Vital reforçou que o coletivo reúne artistas de áreas diversas e propõe ativar espaços, conectar culturas e criar experiências.
"Vamos apresentar várias disciplinas nesta edição do evento. Haverá exposição de imagens com fotógrafos, há designers gráficos, e há também produção de eventos. Para eles, a ideia é de que nada é fixo e que as culturas dialogam, e as estéticas se misturam. Isso fez muito sentido para nós quando os encontramos, e, como acabamos de abrir a loja, quisemos fazer algo juntos", conclui.
CirculaçãoEm parques como o Parc des Buttes‑Chaumont, a expectativa é de grande circulação ao longo do dia. A dinâmica da festa incentiva deslocamentos sem roteiro definido, permitindo ao público alternar entre apresentações. A prática de percorrer diferentes bairros é parte central da experiência. Sem programação centralizada, o evento valoriza a descoberta e o contato direto com manifestações variadas.
Embora inspiradora para iniciativas internacionais, a Festa da Música não tem equivalente nacional com a mesma abrangência no Brasil. Ainda assim, cidades brasileiras realizam programações gratuitas e eventos que se aproximam da proposta original.
A principal diferença está na escala e na ocupação simultânea do espaço urbano, mais estruturada na França. Ao fim da jornada musical, a cidade reafirma a capacidade de se transformar em palco aberto, reunindo estilos, origens e formatos diversos em uma mesma celebração.
A Cooperativa-Museu Cérès Franco, no sudoeste da França, abriga a coleção de arte única e excepcional da crítica de arte, curadora e galerista brasileira. Depois de três anos fechada para reforma, a instituição, instalada em uma antiga cooperativa vinícola de Montolieu, reabre a partir de 20 de junho.
Adriana Brandão, enviada especial da RFI a Montolieu
A gaúcha Cérès Franco (1926-2021) foi uma pioneira. Ela inovou a cena artística parisiense depois de se instalar na França nos anos 1950, inicialmente como crítica de arte. Ao organizar uma primeira exposição, em 1962, intitulada "L’oeil de Boeuf", ou Olho de Boi, ela pediu aos artistas que realizassem somente obras em formato redondo ou oval, rompendo com o padrão quadrado vigente e desafiando a estética burguesa.
O princípio norteou o seu percurso. Em 1972, ela foi a primeira brasileira a abrir uma galeria de arte em Paris, batizada naturalmente de L’Oeil de Boeuf. Cérès Franco, que conhecia e frequentava todos os grandes artistas da época, de Picasso a Cocteau, defendia uma arte sem fronteiras. Ela também foi uma das primeiras a divulgar na França a arte bruta e naïf brasileira, na época ainda pouco conhecida e marginalizada.
A galerista estabeleceu um diálogo entre artistas populares e autodidatas com as vanguardas artísticas do Brasil, da Europa e de outras regiões. Para o diretor da Cooperativa-Museu Cérès Franco, Maximilien Fortier, a “liberdade” define a singularidade da colecionadora brasileira.
“O destino de Cérès Franco é particular e muito pessoal. Raramente uma pessoa na história da arte misturou tanto o pessoal e o profissional, especialmente no que diz respeito aos seus amigos, que eram quase todos artistas, para os quais ela solicitava produções com muita frequência. O que também é bastante original é o fato de ela apreciar muito a figuração, a cor e o aspecto internacional. Um termo que a define, e com o qual ela mesma se definia, é, acima de tudo, a liberdade”, afirma Fortier.
Em 1995, a brasileira fechou a galeria em Paris e instalou sua vasta e singular coleção de arte moderna e contemporânea em duas casas em Lagrasse, no sudoeste da França, que abriu ao público. Seis anos antes de morrer, ela doou, em 2015, a coleção de 1763 quadros, de artistas de 39 nacionalidades, a Montolieu, um vilarejo de apenas 800 habitantes, mas com 16 livrarias, conhecido como cidade do livro e das artes. A coleção foi instalada em uma antiga cooperativa vinícola. O belo prédio, em estilo art déco, passou por reformas durante três anos para melhorar sua acessibilidade. Antes da reabertura, a instituição ganhou, em dezembro de 2025, o selo de Museu da França.
“Integrar a grande rede dos 1.200 museus da França, presentes em todo o território francês, era algo que Cérès Franco desejava conceder à sua coleção para poder preservá-la, especialmente garantindo sua transmissão às gerações futuras”, salienta o diretor. “Temos também a missão de dinamizar a cultura no meio rural e mostrar que todas as nossas regiões possuem pequenos tesouros, como o nosso museu”, acrescenta.
Duas exposições na reaberturaA Cooperativa-Museu Cérès Franco reabre com duas exposições. A mais importante delas, “Les aventuriers de l’oeil-de-boeuf” ou Os aventureiros do Olho de Boi, reúne 185 obras, de 100 artistas, para retraçar parte de seu percurso e homenagear a colecionadora brasileira.
“'Les aventuriers de l’œil-de-bœuf' é uma exposição que reconstrói a trajetória de Cérès Franco entre 1962 e 1972, ou seja, o período em que ela foi curadora e em que vemos que, partindo da crítica de arte e da escrita, ela acabará se tornando galerista”, explica Maximilien Fortier.
Artistas de 25 nacionalidades estão representados nessa primeira mostra, entre eles cerca de vinte artistas de origem brasileira. “Essa é uma característica da Cérès Franco, que expôs bastante a arte naïf brasileira e buscou, por meio do 'L’œil de bœuf' e de diversas outras exposições, valorizar as obras de seu país natal”, detalha o diretor do museu.
Entre os brasileiros expostos ou que integram a coleção estão Frans Krajcberg, Flávio Shiró, Waldomiro de Deus, Eli Heil, Pedro Paulo Leal e Gontran Netto, que fez o retrato de Cérès Franco no círculo central da bandeira do Brasil. Gontran era um exilado político brasileiro e, assim como ele, outros artistas refugiados da América do Sul ou da Europa do Leste também integram a coleção eclética de Cérès Franco.
“Corneille, Chaïbia, Cérès Franco des poèmes pour le monde” ou poemas para o mundo é a segunda exposição montada para a reabertura da Cooperativa-Museu de Montolieu.
Desconhecida no Brasil"Estou bastante surpresa e bastante feliz com essa visita", comentou a jornalista brasileira e editora da revista francesa "Beaux Arts" Débora Bertol, que não conhecia muito bem o trabalho de Cérès Franco.
“Ela foi uma pioneira da crítica de arte aqui na França, e mesmo na história da crítica de arte, essa galeria L’Oeil de Boeuf foi realmente um lugar superimportante para as vanguardas artísticas da escola de Paris, nos anos 70 e 60”, ressalta a jornalista.
Débora Bertol acredita que a reinauguração do Museu Cérès Franco irá contribuir para o devido reconhecimento da brasileira.
“Eu acho que a gente vai ouvir falar bastante dela agora, nesses próximos meses. É interessante porque os franceses também vão redescobrir essa personalidade que é interessante não só para o Brasil, em termos de história da arte, da crítica de arte brasileira, mas da França e internacional também, porque ela trabalhava com artistas do mundo todo”, espera.
A jornalista, que estudou história da arte e crítica de arte, é categórica ao afirmar que nem no Brasil, onde fez exposições importantes na época da Ditadura Militar, Cérès Franco “é tão conhecida como deveria ser. E talvez esse seja o primeiro passo para restabelecer o papel dela na crítica de arte mundial, como uma brasileira”, torce.
Mulher e brasileiraCérès Franco também foi singular ao se impor como mulher e estrangeira em um meio artístico ainda dominado por homens franceses, ressalta Maximilien Fortier.
“O fato de ela ser uma mulher extraeuropeia em um ambiente masculino e francês, na Paris dos anos 1960, entre 1962 e 1972, marcou profundamente sua trajetória e fechou muitas portas. No entanto, podemos dizer que tudo terminou bem, já que hoje sua coleção está preservada e integra o patrimônio francês, acessível a todos”, relativiza.
Para Débora Bertol, a curadora e galerista brasileira teve uma coragem extrema “porque realmente se lançar numa aventura dessas, sendo estrangeira, sendo mulher, é muito corajoso, é bastante impressionante o percurso dela. Ela deve ter batalhado muito para se impor e conseguir fazer valer a visão dela. Mas ela conseguiu e construiu uma coleção excelente”.
As duas exposições de reabertura da Cooperativa-Museu Cérès Franco em Montolieu ficam em cartaz de 20 de junho de 2026 a 3 de janeiro de 2027, quando outras mostras, revelando novos aspectos da coleção e do percurso singular da galerista e curadora brasileira, serão montadas.
Para saber como chegar e visitar o Museu Cérès Franco clique no link. A descoberta da região e do museu vale a pena.
Armas, munições, veículos blindados e drones. Em um momento de aumento dos gastos militares e de intensificação das tensões internacionais, a Eurosatory 2026 reúne em Villepinte, na Grande Paris, um dos maiores encontros da indústria de defesa do mundo. Ao circular pelos pavilhões do evento, não é difícil imaginar como é o front.
Maria Paula Carvalho, da RFI
Em um cenário internacional cada vez mais tenso, países ampliam investimentos em defesa sob o argumento de garantir a paz, impulsionando um mercado em plena expansão. Segundo o Instituto Internacional de Pesquisa para a Paz de Estocolmo (SIPRI), os gastos militares globais atingiram 2,7 trilhões de dólares em 2024, o maior valor já registrado, com aumento de 9,4% em relação ao ano anterior.
A Eurosatory coincide com a cúpula do G7 na França, que reúne líderes mundiais, incluindo Donald Trump, para discutir os principais conflitos internacionais.
"Os gastos e os orçamentos estão aumentando significativamente em todos os países, principalmente na União Europeia. Isso é o que eu chamo de oportunidade", analisou em entrevista à RFI o secretário de Produtos de Defesa do Ministério da Defesa brasileiro, tenente-brigadeiro Heraldo Luiz Rodrigues, que veio a Paris participar da Eurosatory. O Brasil marca presença, ele destaca.
"São 24 empresas brasileiras de defesa expondo nesta feira, que é gigante — talvez a maior do mundo nessa área — e tenho certeza de que vamos fazer bonito e ter resultados expressivos."
O setor já movimenta cifras relevantes para o país.
"Nós temos muita capacidade, muita tecnologia, empresas excelentes para produção de armamento. Temos cerca de US$ 4 bilhões em exportações por ano — não é uma coisa trivial — e esperamos aumentar esse volume com o passar do tempo", completou. "A indústria de defesa brasileira está preparada para acompanhar esse aumento da produção global," concluiu o tenente-brigadeiro Heraldo Luiz Rodrigues.
Com mais de 2 mil expositores de 65 países, a Eurosatory reúne o que há de mais avançado em tecnologia militar. Até sexta-feira (19), empresas e delegações buscam ampliar contatos e fechar negócios.
"Ver e ser visto"Entre os brasileiros, a Cinadra aposta na internacionalização. A empresa fabrica componentes para bombas e munições e atua nos estados do Rio de Janeiro, São Paulo e Santa Catarina. O CEO Marcello de Brito Meira destaca a importância da visibilidade no evento:
"É o famoso ver e ser visto, num mercado global. O Brasil já foi um grande player e está voltando a se projetar nesse mercado. Então, para a gente, estar aqui é muito importante."
Ele ressalta o modelo de atuação da companhia: "Nós fabricamos no Brasil componentes para bombas, munições de artilharia, infantaria e carros de combate, tudo exportado para o mundo, tecnologia brasileira."
E completa: "Vendendo componentes, eu tenho acesso a mais mercados. Eu não sou competidor de ninguém, então consigo fornecer para várias empresas da mesma área."
O coronel Antônio Ribeiro, diretor de promoção comercial da Abimde — a Associação Brasileira das Indústrias de Materiais de Defesa e Segurança — afirma que as empresas vêm à feira em busca de diferentes oportunidades: contratos, novos fornecedores, representantes comerciais no exterior e também para fazer benchmarking de seus produtos, avaliando se estão alinhados com a demanda do mercado.
"A França é um ponto de encontro. Iremos receber aqui delegações da África, da Ásia e até da América do Sul", completa.
"Não somente a França, mas todo esse entorno geográfico acaba refletindo e ressentindo essa movimentação política e geopolítica que a Europa está vivendo, desde o conflito na Ucrânia até essa mudança de postura de outros players. Há também a questão da migração descontrolada, que gera um problema não apenas de defesa, mas de segurança pública. Então, este é um local muito adequado para discutir todos esses aspectos", conclui.
"Espaço Brasil"O Espaço Brasil reúne empresas de áreas como comunicação, comando e controle de drones, cibersegurança, engenharia de sistemas e suporte logístico. O estande conta com apoio também da ApexBrasil, agência de promoção de exportações.
Para o especialista em negócios internacionais da entidade, Daniel Pirola, a feira tem alcance global:
"É a principal feira da Europa. Daqui, a gente consegue vender não só para a Europa, mas também para o Oriente Médio e boa parte da Ásia. Esta feira é uma referência mundial e, para nós, é uma baita oportunidade."
Ele destaca ainda o crescimento da participação brasileira: "Este ano, estamos batendo um recorde de expositores." E avalia o contexto internacional: "O mundo inteiro está se armando, isso já é um fato, e tem sido bom também para as empresas brasileiras de defesa."
Segundo Pirola, o país oferece uma ampla gama de produtos: "Desde software de sistemas até logística, armas e equipamentos, como coletes à prova de balas. O Brasil tem praticamente tudo o que um Exército precisa."
Realizada a cada dois anos, a Eurosatory combina feira comercial, demonstrações militares e debates, refletindo as tensões do cenário geopolítico atual.
Em meio a conflitos como a guerra na Ucrânia e a instabilidade no Oriente Médio, a demanda por equipamentos militares cresce no mundo todo. Nesse contexto, o Brasil tenta se posicionar como fornecedor competitivo.
Para o general de brigada Diógenes de Souza Gomes, o principal diferencial do país é o capital humano:
"A nossa maior capacidade, a nossa maior força é o nosso pessoal. Temos um recurso humano diferenciado (...) quando falamos que estamos um pouco atrasados em tecnologia, talvez seja por falta de investimento."
Ele ressalta, no entanto, as limitações orçamentárias. "O Exército tem restrições que acabam limitando esse avanço tecnológico", aponta.
Apesar disso, destaca avanços concretos: "Hoje, o Brasil detém a tecnologia de um míssil anticarro fabricado totalmente no país, no estado da arte, com um custo muito reduzido."
E reafirma o papel institucional da força: "O Exército brasileiro mantém sua missão de defesa da soberania e da segurança das nossas fronteiras, protegendo um país gigantesco, com riquezas incontáveis."
Restrita a profissionais credenciados, entre militares, autoridades e representantes da indústria, a Eurosatory inclui conferências, demonstrações ao vivo e espaços dedicados à inovação. No conjunto, o evento se consolida como uma das principais vitrines globais do mercado de defesa.
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