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  • Carla Madeira lança livro em Oeiras em meio à valorização da literatura brasileira em Portugal

    O novo livro de Carla Madeira, “Quando”, chegou às livrarias brasileiras em agosto e já terá sua primeira edição internacional. A obra será publicada na próxima semana em Portugal pela Particular Editora e chega oficialmente ao mercado no dia 26 de setembro, durante a Festa do Livro de Oeiras.

    Luciana Alvarez, correspondente da RFI em Lisboa

    Na terra onde Camões escreveu “Os Lusíadas”, um marco para a origem da língua portuguesa, escritores brasileiros têm ganhado mais espaço nos últimos anos – e sem precisar adaptar a linguagem para o jeito que os portugueses falam o português. 

    Miguel Pereira, editor responsável pelos livros de Carla em Portugal, conta que toda vez que publicam um autor brasileiro, incluem apenas a seguinte nota explicativa: “A presente edição segue a grafia original”.

    “Não há nenhuma vontade ou nenhuma ideia de superioridade relativamente a um português sobre o outro, porque isso não existe. A partir do momento em que estamos a falar de literatura, ou seja, da forma como os autores escrevem, e entendemos isso como manifestação artística pura, entendemos que deixava de fazer grande sentido fazer adaptações”, explicou Pereira.

    O editor executivo lembra que já foram feitas algumas experiências de tentar adaptar a linguagem dos escritores brasileiros para o padrão do idioma em Portugal, mas a ideia acabou abandonada. Os portugueses já habituaram os ouvidos ao jeito de falar brasileiro graças às telenovelas e às músicas, e não estranham mais a literatura produzida com a nossa variante da língua.

    'Autocarro e comboio'

    “O português que se fala no Brasil é tão familiar para os portugueses que não fazia sentido insistir nesse tipo de alteração. Se fôssemos fazer, realmente teríamos que fazer muitas alterações no vocabulário", afirma. "Como alterar o ônibus para autocarro e o e o trem para comboio, mas toda a gente em Portugal sabe o que é um trem.” 

    Além de Carla Madeira, a Particular Editora trouxe para Portugal vários outros autores brasileiros contemporâneos, como Aline Bei, Rafael Montes, Socorro Acioli e Caetano Galindo.

    A presença de uma nova geração de autores é sentida também pelos leitores. A professora Patrícia Cerutti, organizadora de clubes de leitura e mediadora de debates em festas literárias, nota que não é mais preciso viajar ao Brasil para trazer na mala os livros de escritores brasileiros.

    “Quando eu cheguei aqui, há 8 anos, tinha muito menos autores brasileiros nas nas livrarias. Existiam alguns já muito conhecidos, mas não tinha essa profusão de autores que estão chegando e publicando tanto nas grandes editoras, quanto nas menores", ressalta. "Antigamente, se lia aqui muito autor estrangeiro de língua não portuguesa traduzido: muito inglês, muito americano, francês, italiano, espanhol."

    Valorização de autores brasileiros além dos consagrados

    Embora o reconhecimento obtido por Carla Madeira seja especial, ela não está sozinha. Há uma tendência de valorização da literatura brasileira.

    Na festa do livro de Oeiras, onde ela vem fazer seu lançamento, outro grande destaque vem também do Brasil: é a cantora e escritora Zélia Duncan, que vai apresentar seu livro “Benditas coisas que eu não sei”.

    No ano passado, o festival deu destaque para o brasileiro Silviano Santiago, que veio pela primeira vez apresentar um livro em Portugal.

    O curador do evento literário, Jorge Reis-Sá, garante que não se trata de um aceno exclusivo à comunidade brasileira. “Nós queremos atrair toda a gente, portugueses e brasileiros”, disse. Sua ideia é que todos desfrutem de literatura de qualidade em língua portuguesa, independente do lado do Atlântico em que a obra foi produzida.

    6 min
  • Jornadas do Patrimônio Europeu: Jaildo Marinho evoca memórias do sertão e traz leveza ao mármore

    Acontecem neste sábado (19) e domingo (20) as Jornadas Europeias do Patrimônio. O evento abre ao público milhares de lugares, muitos deles normalmente inacessíveis, propondo visitas, exposições, encontros e outras atividades voltadas à descoberta e à preservação do patrimônio histórico do continente. O brasileiro Jaildo Marinho expõe esculturas em mármore evocando lavadeiras de sua infância no sertão pernambucano. 

    Na França, a 43ª edição do evento traz como temas "Patrimônio da fotografia" e "Patrimônio em perigo: reavivar, resistir, reinventar", em um ano que coincide com as celebrações dos 200 anos da fotografia. Em todo o país, a programação reúne habitualmente mais de 25.000 animações e eventos em cerca de 16.000 locais e monumentos históricos.

    Entre os espaços de destaque abertos à visitação está a Orangerie do Domaine National de Meudon, um edifício histórico, antiga propriedade real, onde acontece a exposição Étendre le marbre ("Estender o mármore"), do artista pernambucano Jaildo Marinho.

    A mostra estabelece uma ponte poética entre a criação artística contemporânea e a memória social da cidade. Nos séculos XIX e início do XX, Meudon destacou-se como um importante centro de lavanderia da região parisiense, onde gerações de lavadeiras lavavam e secavam as roupas destinadas à capital.

    Inspirando-se na história dos antigos barcos de lavagem de roupas de Meudon e em suas próprias memórias de infância, Jaildo recorda a origem afetiva do projeto:

    "Tudo surgiu a partir da minha memória em relação à minha avó que lavava roupa para outras pessoas lá no sertão de Pernambuco. Ficou na minha memória aqueles lençóis grandes, brancos, estendidos no varal."

    Para transformar essa lembrança em arte e desconstruir a rigidez do material, o escultor criou peças em mármore atravessadas por dobras monumentais. "Aí me veio a ideia a partir dessa memória da leveza do mármore, que a gente vê o mármore sempre como uma coisa pesada. Eu transformei o que é pesado em leve e suspendi o mármore como um tecido e ficar sempre naquela expectativa: ele vai cair ou não vai cair, o vento balança ou não balança."

    "Eu adicionei a tinta acrílica porque a cor vem representar a vida, que é um tempo determinado, limitado. Eu jogo com isso, com o peso, com a leveza, com o tempo e com a vida", complementa.

    Natural de Santa Maria da Boa Vista, ele conta que sempre gostou de fazer escultura, desde criança. "Comecei com manuseio do barro, depois fiz estudo técnico sobre gemologia e lapidação de pedras preciosas e semipreciosas que existiam na região", relembra.

    Após estudar escultura na Universidade Federal de Pernambuco, estabeleceu-se na capital francesa aos 22 anos.

    A exposição Étendre le marbre pode ser visitada de 3 a 27 de setembro de 2026, de quinta-feira a domingo, das 14h às 19h, com entrada gratuita na Orangerie do Domaine national de Meudon, contando também com a presença do artista para visitas guiadas durante a programação.

    7 min
  • Estudantes estrangeiros enfrentam crise de moradia em Paris

    Encontrar um apartamento em Paris virou uma corrida de obstáculos para estudantes estrangeiros, que enfrentam exigência de fiadores franceses, aluguéis em alta e uma oferta de imóveis cada vez mais reduzida.

    Vitória Barreto para RFI Brasil  

    Entre golpes on-line, seguros pagos para servir de garantia e o fim do auxílio-moradia para quem não tem bolsa do governo francês, universitários relatam a saga de enfrentar a burocracia para conseguir um teto na capital francesa. A RFI ouviu três estudantes estrangeiros que encontraram formas diferentes de vencer essa maratona. 

    Procurar um apartamento em Paris é um drama para muitos estudantes. Depois de provas e longos processos de aplicação para as universidades do país, o mais temido dos desafios é encontrar um teto. 

    A demanda por um pequeno estúdio charmoso na capital francesa já aumentou 4,3% em um ano. Segundo um estudo de 110 mil ofertas e demandas de moradias pelo serviço de aluguel LocService, registradas no último ano, um terço dos estudantes na França procura um imóvel na região parisiense. 

    Já é uma guerra conseguir um apartamento como francês, mas para estudantes estrangeiros pode ser uma odisseia longa e cara encontrar onde morar.  

    Exigências

    Proprietários exigem uma série de documentos, como comprovantes de renda e, muitas vezes, um fiador francês, e, em alguns casos, aceitam os pais estrangeiros.  

    Amanda é um exemplo dessa longa trajetória para encontrar um lar fixo. A estudante brasileira se mudou para Paris para fazer um mestrado e, em dois anos e meio, trocou de apartamento quatro vezes, quase sempre em sublocações, incluindo um ano num apartamento em que a proprietária se recusou a fornecer documentos formais, o que complicou a renovação do visto da aluna.  

    Agora, sem um emprego fixo, ela finalmente fechou um contrato de aluguel de longo prazo: um estúdio de 18 m² no centro da cidade, por 700 euros (cerca de 4 mil reais). Para isso, comprovou renda de trabalhos temporários e pediu ao pai que assinasse como fiador. 

    "Como estudante, eu sempre fui mostrar que eu era bolsista, que eu recebia um salário. Só que, nesse caso, o que me fez conseguir foi eu ter tido uma conversa franca com meu pai, que não me sustenta há muitos anos. [...] vou precisar da sua assinatura para um termo dizendo que você se responsabiliza financeiramente por mim", explicou Amanda.  

    Existem alternativas ao fiador tradicional. O Visale, por exemplo, é uma garantia gratuita oferecida pelo governo francês: se o estudante não conseguir pagar o aluguel, o programa cobre a dívida junto ao proprietário e depois cobra o valor do locatário. Já o GarantMe funciona de forma semelhante, mas é um serviço privado e pago, que pode sair bem caro.  

    Nos dois casos, o estudante ainda precisa comprovar sua capacidade financeira, geralmente apresentando informações sobre a renda dos pais e o apoio financeiro que recebe deles. Isso ajuda a demonstrar ao proprietário que haverá recursos suficientes para cobrir o aluguel todos os meses, reduzindo o risco de inadimplência. 

    Corrida contra o tempo entre o Visale e o GarantMe 

    O estudante suíço Dominik viveu esse dilema na prática; sabe bem o custo da crise imobiliária e quão importantes são esses documentos para muitos proprietários. Enquanto esperava pelo Visale, o fiador gratuito do governo, que pode demorar para avaliar o dossiê do locatário, ele acabou pagando pelo GarantMe para não perder o apartamento que estava fechando contrato.  

    "Mandei mensagem para mais de 80 pessoas. A maioria nem respondeu. Recebi talvez umas dez respostas e consegui visitar apenas três apartamentos,” afirmou Dominik.  

    Os 200 anúncios mais populares em Paris recebem, em média, mais de 700 mensagens por imóvel em poucos dias, segundo o site francês de aluguel direto com o proprietário, Particulier à Particulier.  

    Então, para ir contra essa estatística e conseguir um estúdio de 12 m², por 800 euros (cerca de 5 mil reais), o mestrando pagou pelo seguro do GarantMe por 500 euros (cerca de 3 mil reais).  

    E a hospedagem no Airbnb, durante o mês de procura, custou 1.200 euros, equivalente a mais de 7 mil reais.  

    Mas Dominik explica que valeu a pena passar pela burocracia e conseguiu o apartamento que desejava.  

    “Morar em Paris e ter o seu próprio apartamento acaba sendo uma conquista. Acaba sendo uma experiência que aproxima as pessoas na cidade." 

    Do golpe online ao fim do auxílio-moradia  

    Como muitos estudantes, Lyubov, cazaque, que fez a graduação no norte da França, começou a procurar moradia para o mestrado em Paris ainda à distância. Durante a busca, quase caiu no golpe de um anúncio falso. 

    “Eu cheguei a enviar meus documentos para o que parecia ser um anúncio de aluguel. Só depois percebi que era um golpe. Felizmente, não perdi dinheiro, mas fiquei muito preocupada, porque eram dados pessoais. Minha identidade, informações sobre mim e meus pais.” 

    Em 2026, esse tipo de fraude registrou um aumento entre 20% e 30%, segundo o portal oficial do governo francês dedicado à prevenção e ao combate a crimes cibernéticos. 

    Hoje, Lyubov paga 650 euros, quase 4 mil reais, por um quarto de 8 m² dentro de uma residência num subúrbio de Paris. 

    Desde uma lei aprovada em maio, alunos estrangeiros sem bolsa do governo francês perderam o acesso ao auxílio-moradia. 

    "Como estudante de um país fora da União Europeia, os aluguéis já pesam no orçamento. E, quando vi que ia mudar para uma cidade maior, descobri que perdi também a ajuda do Estado. Não tinha muito o que fazer, porque a lei já foi aprovada e já está em vigor. Mas fiquei decepcionada, porque contava com essa ajuda. Vou ter que conciliar os estudos com um trabalho de meio período. Acho que vai ser difícil, principalmente porque acabei de começar o mestrado." 

    O fim de incentivos fiscais para investidores e a dificuldade crescente dos franceses para comprar a casa própria ajudaram a reduzir a oferta de imóveis para aluguel em Paris. 

    O número de imóveis disponíveis para aluguel caiu 37% nos últimos sete anos na capital francesa, segundo dados da plataforma Bien'ici, publicados no jornal francês France-inf 

    6 min
  • 25 anos depois, sobreviventes do 11 de Setembro ainda sofrem efeitos da exposição no Marco Zero

    Aristide Economopoulos, fotógrafo e fotojornalista americano radicado na região metropolitana de Nova York que registrou os ataques às Torres Gêmeas, recebeu neste ano o diagnóstico de câncer de próstata. Novos documentos mostram que vestígios de amianto ainda eram encontrados na área do World Trade Center dez meses após a tragédia.

    Luciana Rosa, correspondente da RFI em Nova York

    Ele tinha 30 anos e havia acabado de chegar a Nova York quando, na manhã de 11 de setembro de 2001, recebeu a missão que mudaria sua vida. Fotógrafo, Economopoulos nunca tinha estado na região sul de Manhattan, onde ficavam as torres do World Trade Center.

    Vinte e cinco anos depois, as consequências daquela manhã ainda fazem parte de sua vida. Em maio deste ano, Economopoulos foi diagnosticado com câncer de próstata, uma das doenças associadas à exposição às substâncias tóxicas liberadas no colapso das Torres Gêmeas.

    “No início de julho, passei por uma cirurgia e agora, dois meses depois, tudo indica que eu possa estar livre do câncer”, contou.

    A história de Economopoulos é também um retrato de uma dimensão do 11 de Setembro que se estendeu muito além das quase 3 mil mortes provocadas diretamente pelos ataques. Milhares de socorristas, trabalhadores, jornalistas, moradores e outras pessoas expostas à poeira e aos destroços do Marco Zero, inclusive brasileiros, desenvolveram doenças ao longo das décadas seguintes.

    Uma ligação às 8h22

    Economopoulos lembra com precisão de como começou aquele 11 de setembro. “O dia começa às 8h22. Eu sei exatamente o horário porque minha mãe me ligou e eu pensei: ‘Por que você está me ligando tão cedo?’”, recorda.

    Ele voltou para a cama. Cerca de meia hora depois, o telefone tocou novamente. 

    “Por volta das 8h52, recebo uma ligação do meu editor: ‘Um avião atingiu a torre’. Eu penso que deve ser um Cessna, algum avião pequeno, sabe?”

    A dimensão do que estava acontecendo ainda não estava clara. Enquanto milhares de pessoas tentavam deixar Manhattan, Economopoulos recebeu a missão de fazer o caminho contrário.

    De Jersey City, em Nova Jersey, pegou uma balsa em direção à região do World Trade Center. Coberto pela poeira dos escombros, registrou com sua câmera cenas de uma manhã em que o céu do centro financeiro de Nova York foi tomado por uma enorme nuvem de fumaça, cinzas e destroços.

    Pouco antes da queda da Torre Norte, Economopoulos encontrou outro fotógrafo que trabalhava na área. Os dois nunca haviam se visto antes. Ao saber que Aristide estava ficando sem filme, o colega lhe entregou um dos dois últimos rolos que ainda tinha.

    Deu apenas um conselho: “Shoot smart” – algo como “fotografe com inteligência”, escolhendo cuidadosamente cada imagem. Pouco depois, os dois seguiram caminhos diferentes.

    “Eu comecei a andar um pouco mais para o norte. Foi quando a Torre Norte desabou, e ele achou que eu tinha ficado soterrado nos escombros”, conta.

    Consequências em etapas

    Os primeiros efeitos da exposição apareceram imediatamente. No dia do ataque, o fotógrafo sofreu lesões nos olhos provocadas pela poeira e os destroços.

    “Eu perdi parcialmente a camada mais superficial da córnea do olho direito e tive uma lesão bem grave no olho esquerdo”, relata.

    A visão ficou comprometida durante alguns dias. O impacto, no entanto, não foi apenas físico. Nos anos seguintes, Economopoulos também buscou ajuda profissional para lidar com o trauma provocado pelo que havia testemunhado.

    Durante décadas, ele não procurou os programas de assistência destinados às pessoas afetadas pelo 11 de Setembro. Isso mudou neste ano, quando recebeu o diagnóstico de câncer de próstata.

    A doença está entre os tipos de câncer associados à exposição no World Trade Center e cobertos pelo programa federal criado para acompanhar e tratar pessoas afetadas pelos ataques.

    O câncer de pele não melanoma é o mais comum entre socorristas e civis expostos às substâncias tóxicas do Marco Zero, com 18.380 casos. Em seguida aparecem o câncer de próstata, com 13.170 casos; o câncer de mama em mulheres, com 4.830; o melanoma, com 3.860; e o linfoma, com 2.560 casos, segundo dados dos Centros de Controle e Prevenção de Doenças dos Estados Unidos (CDC) atualizados até 30 de junho.

    Fotografias se transformaram em provas

    As imagens registradas por Economopoulos naquele dia também acabaram adquirindo uma função que o fotógrafo não poderia imaginar quando apertou o obturador. Anos depois, algumas delas serviram para comprovar que pessoas que desenvolveram doenças associadas ao 11 de Setembro realmente estiveram na área contaminada.

    Ao mostrar uma de suas fotografias, Economopoulos aponta para três homens cobertos de poeira caminhando pelas ruas de Manhattan. Um deles se chamava Frank.

    “Ele morreu de câncer de pâncreas, que é um dos tipos de câncer associados ao 11 de Setembro. Anos depois, recebi uma ligação de um advogado que representava a família. Eles estavam entrando com um pedido de indenização para vítimas, mas precisavam provar que ele tinha estado lá.”

    A fotografia feita por Economopoulos ajudou a demonstrar exatamente isso.

    Marco Zero teve o ar contaminado

    Documentos recém-revelados também lançam nova luz sobre a extensão da contaminação na região do World Trade Center. Após o 11 de Setembro, moradores de Nova York receberam repetidas garantias de que era seguro respirar o ar nas proximidades das torres destruídas. Mas registros obtidos pelo The New York Times mostram que, dez meses depois dos ataques, autoridades de saúde ainda encontravam vestígios de amianto a até cerca de 800 metros do local.

    Os documentos fazem parte de mais de 170 mil páginas de relatórios sobre qualidade do ar, registros de contaminação e correspondências entre autoridades municipais. Segundo autoridades da cidade, o material permaneceu armazenado em caixas em um escritório municipal, fora do alcance do público por mais de duas décadas, e só foi descoberto no ano passado.

    A documentação acrescenta uma nova dimensão às dúvidas sobre os riscos aos quais foram expostas as milhares de pessoas que trabalharam, viveram ou participaram das operações de resgate e recuperação na região.

    Além das 2.753 pessoas mortas no World Trade Center no dia dos ataques, outras 9.677 morreram, nos 25 anos seguintes, de doenças relacionadas ao atentado, segundo dados do Fundo de Compensação das Vítimas, atualizados até 31 de julho deste ano.

    Jovens desconhecem o trauma

    Para Economopoulos, as consequências que continuam aparecendo duas décadas e meia depois são também uma razão para preservar a memória do 11 de Setembro. “O que me incomoda é que, 25 anos depois, existe toda uma geração que não sabe o que aquele dia representou”, afirma.

    Uma geração inteira nasceu depois das imagens que Economopoulos registrou com os rolos de filme que conseguiu naquela manhã. Ao relembrar o atentado, ele diz que preservar essa história significa não apenas recordar o horror provocado pelos ataques, mas também aqueles que morreram e as pessoas que arriscaram a própria vida para ajudar desconhecidos.

    “Naquele dia, vimos o melhor da humanidade e também o pior dela.”

    8 min
  • Cerâmica do Vale do Jequitinhonha chega a Paris com força feminina e leitura contemporânea

    A exposição A Terra Modelada Pela Arte, aberta na quarta-feira (9) na Galeria Ricardo Fernandes, no Marais, apresenta em Paris a cerâmica do Vale do Jequitinhonha, tradição mineira marcada por técnicas transmitidas entre gerações, sobretudo por mulheres. Com 17 artistas do Coletivo do Vale, a mostra destaca a linhagem iniciada por Izabel Mendes da Cunha e reúne obras que combinam memória, identidade territorial e criação contemporânea.

    A exposição A Terra Modelada Pela Arte leva à capital francesa a cerâmica do Vale do Jequitinhonha, em Minas Gerais, em leitura assumidamente contemporânea. São 17 artistas reunidos em torno de uma tradição que nasceu em comunidades rurais e hoje ocupa espaço em circuito internacional de arte.

    O Vale do Jequitinhonha, no nordeste mineiro, costuma aparecer nas estatísticas por seus indicadores socioeconômicos desfavoráveis. Mas, muito antes de qualquer política pública, já havia ali uma prática consolidada de modelagem do barro, transmitida entre mulheres, dentro de casa, como parte da rotina.

    É nesse contexto que se inscreve a trajetória de Izabel Mendes da Cunha (1924–2014). Nascida em Itinga, ela aprendeu a trabalhar com o barro com a mãe e, inicialmente, produzia moringas para complementar a renda familiar. Ao longo dos anos, passou a transformar esses objetos utilitários em esculturas femininas de grande presença visual, criando as célebres bonecas-moringas que se tornariam sua assinatura artística.

    A curadoria de Ricardo Fernandes parte dessa história para reposicionar a cerâmica da região. “Eu já venho pesquisando arte popular brasileira há muitos anos e penso que a arte popular brasileira é a origem da nossa expressão artística atual, principalmente no âmbito da arte contemporânea”, afirma. Para ele, a distinção rígida entre artesanato e arte não dá conta do processo criativo dessas comunidades.

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    Arte popular em chave contemporânea

    Fernandes chama atenção para a dimensão feminina dessa tradição e lembra que a história do Vale começa com mulheres em situação de sobrevivência, que transformam o barro em renda e, depois, em afirmação estética. “Eu acho que essas bonecas mesclam resistência e se tornam resiliência. A resistência são duas forças opostas e a resiliência é quando uma encontra penetração na outra, quando uma consegue conciliar com a outra essas duas forças e criar algo positivo”, diz. Para ele, as bonecas representam esse movimento: “Elas criam uma verdadeira escola do saber, do conhecer.”

    Entre os artistas presentes em Paris está Augustto Ribeiro, que participa pela primeira vez de uma exposição internacional. Ele começou a trabalhar com barro aos quatro anos de idade. “A inspiração vem desde cedo. Minha mãe e minha tia foram minhas mestras, a Dona Izabel também, que foi quem iniciou, foi a anfitriã da arte dessas bonecas, foi quem criou, pela primeira vez, de uma moringa utilitária a cabeça de uma dessas obras”, diz. 

    Hoje, aos 27 anos, ele tenta preservar a sensibilidade da infância no trabalho. “Quando eu era criança, não tinha muita distinção de pessoas para as bonecas, eu via elas com a mesma energia de uma pessoa, tanto que quando acontecia alguma quebra numa queima, eu chorava como se um parente tivesse falecido”, lembra.

    Da comunidade de Campo Buriti, na Associação dos Artesãos de Coqueiro Campo, Adriana Gomes Xavier reforça a centralidade das mulheres na construção estética do Vale. “A gente se inspira nas mulheres do Vale. Inspira muito nas roupas das mulheres para fazer os vestidos das bonecas, no rosto também”, afirma. 

    Quatro gerações de barro

    Da comunidade de Santana do Araçuaí, Andréia Andrade traz a perspectiva de quem nasceu dentro da linhagem iniciada por Izabel Mendes da Cunha. “Eu falo que tive o privilégio de nascer em berço de barro. Que a minha avó, a nossa grande ceramista do Vale do Jequitinhonha, a Izabel Mendes, abriu todas as portas dessa tradição de fazer as bonecas de barro”, afirma.

    Para Andréia, estar em Paris é extensão de uma história familiar. “Para mim é um privilégio, uma honra estar nessa família e que a gente contar a nossa história e trazer a tradição dessas bonecas do Vale, que são peças que a gente representa sentimentos, que traz toda a beleza do Vale do Jequitinhonha através do barro”, diz. “É a quarta geração da minha família fazendo as bonecas, as noivas, mas cada uma com a sua identidade.”

    Ela destaca o uso de materiais simples, oferecidos pela natureza. “A gente só trabalha com pigmentos naturais, de vários pigmentos do próprio barro, que tem várias cores. São pedrinhas que a gente cata para poder tirar os pigmentos, vermelho, amarelo”, explica. “A natureza nos oferece tudo, né, para a gente criar.”

    De Cachoeira do Fanado, Alice Costa resume o que considera essencial na criação. “Não pode faltar espontaneidade”, afirma. “A pessoa tem que estar bem ciente do que ela vai fazer, né? Ela vai fazer uma boneca, traça o jeito da boneca. A gente costuma dizer que as bonecas são parecidas muito com cada artesã, têm o traço de cada artesã.”

    Trabalho, renda e permanência

    A cerâmica do Vale não mudou apenas a paisagem estética da região, mas também a vida das comunidades. Priscila Lins, gerente de Agronegócios e Artesanato do Sebrae Minas, que acompanha esse processo há duas décadas, aponta mudanças concretas. “Muita coisa mudou de 20 anos para cá. Os maridos não vão embora mais, os filhos não saem das casas e a arte delas, estando aqui hoje, quer dizer que muita coisa mudou na vida delas”, diz. 

    Da cidade de Turmalina, Anísia Lima lembra o período em que as peças não tinham mercado. “A gente fazia as peças, não eram tão valorizadas, às vezes ficava muito tempo sem vender”, conta. “Há uns 20 anos, se fosse alguém lá e perguntasse qual era a dificuldade da comunidade, a gente queria mercado, queria expor as peças e vender.”

    Para Andréia Andrade, estar na França é também reconhecimento de um percurso coletivo. “A gente fica muito feliz de estar podendo participar de uma exposição na França. É um privilégio a gente sair do Vale e mostrar a nossa riqueza para Paris”, diz. “Eu me sinto muito honrada de estar fazendo parte dessa exposição. É uma honra e uma responsabilidade muito grande.”

    A exposição A Terra Modelada Pela Arte fica em cartaz até 18 de setembro na Galeria Ricardo Fernandes, em Paris..

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  • França aposta no Brasil para expandir rede de ensino no exterior, mas plano divide governo e sindicatos

    A França quer ampliar sua presença educacional no mundo e enxerga o Brasil como um dos países prioritários dessa estratégia. No centro desse projeto está a reforma da Agência para o Ensino Francês no Exterior (AEFE), responsável por uma rede de mais de 600 estabelecimentos em 138 países, que atende cerca de 400 mil alunos. Criada há quase quatro décadas, a agência é um dos principais instrumentos da diplomacia de influência francesa. Mas seu futuro virou tema de um intenso debate político na França.

    Parlamentares, sindicatos e associações de pais discutem como expandir a rede internacional sem comprometer sua sustentabilidade financeira ou aumentar excessivamente os custos para as famílias e sem descaracterizar um modelo que ajudou a consolidar a presença cultural e educacional francesa em dezenas de países. 

    O debate ganhou força após críticas ao modelo de crescimento adotado nos últimos anos. Como destacou uma reportagem do jornal Le Monde, desde que o presidente Emmanuel Macron lançou, em 2018, a meta de dobrar o número de alunos matriculados na rede até 2030, a expansão passou a depender cada vez mais dos chamados estabelecimentos parceiros, já que os recursos públicos destinados à AEFE não acompanharam o crescimento. 

    Para Xavier Auger, secretário-geral do sindicato CFDT Éducation Monde, que representa profissionais das escolas de gestão direta da AEFE em uma das principais centrais sindicais da França, a expansão está sendo conduzida sem as verbas necessárias. "A estratégia de aumento do número de alunos está sendo realizada sem qualquer acréscimo no financiamento público. Pelo contrário, há uma redução dessa verba", afirma. 

    Segundo ele, a agência também foi obrigada a absorver custos adicionais relacionados às aposentadorias dos funcionários públicos franceses enviados para atuar na rede no exterior. 

    "Esse custo é repassado diretamente e distribuído entre as diferentes escolas, o que provoca um aumento expressivo, entre 5% e 15%, nas mensalidades pagas pelos pais. Isso resulta em uma fragilização dos estabelecimentos de ensino e da própria rede", opina Auger. 

    O secretário-geral do sindicato CFDT Éducation Monde também critica a redução do número de professores enviados pela França para atuar no exterior: "Esta reforma é acompanhada por uma redução drástica no número de postos de professores enviados pela Educação Nacional francesa". 

    Para o sindicalista, o modelo enfraquece gradualmente a vocação de serviço público da AEFE e aumenta o risco de dependência de operadores privados para garantir o crescimento da rede. Ele alerta ainda para dificuldades de formação e recrutamento de docentes, e teme que isso possa afetar a qualidade pedagógica oferecida pelas escolas.

    Governo fala em modernização e estratégia internacional 

    O governo francês argumenta que quer aumentar subvenções para a presença dos liceus (ensino médio) em países considerados prioritários. Algo que, na época da criação da agência, não teria sido pensado de forma estratégica. Além do Brasil, entre os países no centro da reforma da rede de liceus franceses da AEFE estão Estados Unidos, Costa do Marfim, Nigéria, República Democrática do Congo e Egito.

    Para a ministra encarregada da Francofonia, Parcerias Internacionais e dos Franceses do Exterior, Éléonore Caroit, a reforma é uma modernização necessária para adaptar a agência às transformações demográficas e educacionais das últimas décadas. 

    "O que está acontecendo hoje não é uma crise da AEFE, mas uma reforma desejada, decidida pelo governo, porque é uma agência do Estado que recebe o maior financiamento do meu ministério", afirma Éléonore Caroit. 

    Segundo a ministra, a rede de ensino no exterior constitui uma das principais ferramentas da política externa francesa. "Para nós, esta é a política exterior mais importante; é uma política de influência, de transmissão da francofonia, dos valores da educação francesa".

    No entanto, ela compreende as preocupações levantadas pelos mais críticos às mudanças. "Eu entendo que toda reforma pode ser vista com certa preocupação e que é muito importante falar, ouvir e trabalhar com todo o ecossistema, o que nós estamos fazendo", diz. 

    Brasil entre os países prioritários 

    Dentro dessa nova reforma, o Brasil aparece entre os chamados países prioritários identificados pelas autoridades francesas para o desenvolvimento da rede. Caroit detalha que a intenção é reforçar a atuação francesa em mercados considerados estratégicos para a francofonia e para a influência cultural da França. 

    A ministra também rebate críticas sobre um eventual aumento generalizado das mensalidades. Ela conta que o objetivo é oferecer previsibilidade às famílias interessadas na educação francesa. "A ideia da reforma é garantir a todo pai, seja francês ou estrangeiro, que decida escolher o ensino francês para seus filhos, saber quanto esse ensino vai custar a longo prazo." 

    Éléonore Caroit garante que bolsas escolares destinadas às famílias francesas continuarão sendo financiadas pelo governo. 

    Liceu Francês de São Paulo aposta em crescimento gradual 

    Um dos maiores estabelecimentos da rede na América Latina e o maior do Brasil, o Liceu Internacional Francês de São Paulo registrou mais 36% de procura por vagas nos últimos semestres letivos e pretende aumentar o número de alunos de 1.250 para 1.500 em 2027, após passar por uma fase de fortalecimento com mudanças administrativas ocorridas nos últimos anos. 

    Bruno Hirm-Martin, diretor da instituição, defende melhorias de base para um crescimento qualitativo da unidade. "O projeto da Fundação do Liceu Francês de São Paulo e da AEFE é desenvolver o liceu aqui em São Paulo. Mas primeiro quisemos fortalecer o estabelecimento de ensino, que estava em dificuldades financeiras devido à cisão da antiga mantenedora. Vamos primeiro desenvolver os prédios e a oferta educativa, com o objetivo de crescimento de alunos qualitativo. Pois queremos primeiro a capacitação dos funcionários e dos professores", destaca.  

    Ele confirma que o governo francês vê o Brasil como um potencial mercado de expansão de sua rede de influência por meio da educação. "O Ministério e a agência decidiram focar em 11 países prioritários, entre os quais está o Brasil. A França considerou e segue considerando que o Brasil tem um potencial para desenvolver o ensino francês”, indica.

    O caso brasileiro ilustra um dos principais dilemas enfrentados atualmente pela AEFE. De um lado, a demanda crescente pelo ensino francês e a ambição de ampliar a influência da França em países estratégicos. De outro, as críticas de sindicatos e parte dos parlamentares, que temem que a expansão da rede dependa cada vez mais de operadores privados e de um enfraquecimento gradual do modelo historicamente associado ao serviço público francês no exterior. 

    8 min
  • Brasileiros residentes no sul da França poderão votar em Marselha nas eleições de outubro

    Pela primeira vez, os brasileiros residentes na França terão uma nova opção de local de votação nas eleições brasileiras. Além de Paris, os eleitores terão a opção de Marselha, segunda maior cidade francesa e sede, desde 2024, de um segundo consulado-geral do Brasil. A novidade atende a uma demanda antiga da comunidade brasileira instalada no sul do país europeu.

    Maria Paula Carvalho, da RFI

    Segundo a cônsul-geral do Brasil em Marselha, Vera Cíntia Alvarez, os preparativos para a realização do pleito estão em fase avançada. 

    "Já há quase um mês estamos fazendo os cursos que o Tribunal Superior Eleitoral nos disponibiliza e já recebemos parte das urnas. Estamos muito entusiasmados e contentes com esse momento de reunir a comunidade brasileira aqui no nosso consulado", afirmou. 

    De acordo com a cônsul, 2.669 eleitores estão inscritos para votar na nova zona eleitoral. A expectativa é receber entre 1.300 e 1.500 votantes. 

    "Geralmente as pessoas se inscrevem, mas depois a vida vai acontecendo e acaba aparecendo cerca de 50% dos inscritos", explicou. 

    Para atender os eleitores, serão instaladas sete seções eleitorais, com quatro urnas eletrônicas. Ao todo, 24 mesários e agentes eleitorais atuarão no dia da votação. 

    "Também há muita gente que chega até nós querendo colaborar de alguma forma", destacou Alvarez. 

    A criação da zona eleitoral em Marselha foi recebida com entusiasmo pela comunidade brasileira da região. Segundo a cônsul, muitos eleitores comemoram a possibilidade de exercer o direito ao voto sem precisar se deslocar até a capital francesa. 

    Votar mais perto, com menos custos

    Uma das beneficiadas pela mudança é a professora de português Fabiana de Albuquerque, que mora em Nîmes, na região da Occitânia, há dez anos. Para ela, votar em Marselha representa uma economia significativa de tempo e dinheiro. 

    "É muito mais prático, muito mais rápido e até mais econômico, porque eu posso ir de trem ou de carro. O trem de Nîmes para Paris é bem mais caro do que ir a Marselha", relatou. 

    "Para mim é muito importante, não só como cidadã brasileira que vive fora. É um poder e uma conquista tardia na nossa história enquanto República, pois nós mulheres votamos há pouco tempo. É muito importante porque garante o nosso direito e a nossa cidadania", afirmou.

    Além do aspecto político, ela destaca o caráter de confraternização que costuma marcar os dias de eleição entre os brasileiros que vivem na França. 

    "A gente espera esse dia ansiosamente, porque é um reencontro da brasilidade. Nos anos anteriores, quando íamos a Paris, sempre tinha amigos tocando música brasileira, amigas vendendo comida brasileira. Era muito festivo, muito alegre, e estamos com a mesma expectativa para Marselha em outubro, de reencontro de todo mundo que mora no Sul", contou. 

    Democracia além do dia da eleição

    Fabrício Pereira, marido de Fabiana, também inscrito para votar em Marselha, acredita que a descentralização da votação facilitará a participação dos eleitores. 

    "Isso garante que a gente tenha maior facilidade de votar nos dois turnos. É mais fácil de locomoção e talvez também na questão das filas. Na eleição anterior, a fila estava enorme, com quatro a cinco horas de espera", lembrou o professor e engenheiro hospitalar baseado no Centro Hospitalar Universitário (CHU) do Hospital Caremeau, de NÎmes. 

    Para ele, o exercício do voto mantém o vínculo dos brasileiros no exterior com a vida política do país. 

    "É a forma como a gente consegue de opinar sobre os próximos dirigentes. Infelizmente, aqui na França, é somente a eleição para presidente. Mas ainda assim ela é importante, é fundamental porque isso mantém alguma identidade nacional e algum tipo de atuação na política nacional brasileira", avaliou. 

    A votação ocorrerá nas instalações do consulado-geral do Brasil em Marselha, localizado na Avenida Robert Schuman, nº 56, próximo à Place de la Joliette. Segundo Vera Cíntia Alvarez, a estrutura do local permitirá receber os eleitores com conforto. 

    "É um imóvel bastante grande e nós temos corredores para fazer fila, salas amplas para poder abrigar até duas seções, se for necessário. Venham votar, porque vai ser uma grande festa cívica e democrática", convidou. 

    A Justiça Eleitoral lembra que os dois turnos são considerados eleições independentes. Assim, o eleitor que não votar no primeiro turno poderá participar normalmente do segundo.

    O voto é obrigatório para brasileiros aptos a votar, inclusive no exterior. Quem não comparecer deverá justificar a ausência para evitar pendências junto à Justiça Eleitoral. A justificativa pode ser feita pelos canais digitais do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) no dia da votação ou até 60 dias após cada turno. 

    7 min
  • Festival de Veneza começa com coprodução brasileira ‘Retorno a Buenos Aires’ na disputa

    A coprodução brasileira ‘Retorno a Buenos Aires’ está na disputa pelo Leão de Ouro do importante Festival de Veneza de 2026, que começa nesta quarta-feira (2). O longa é dirigido pelo ítalo-chileno Marco Bechis, que viveu entre a Argentina, o Brasil e a Itália.

    “Retorno a Buenos Aires” acompanha a volta de Mariano Guerra à Argentina depois de 33 anos vivendo na Itália. Ele regressa ao país para depor no julgamento dos ex-militares que o sequestraram, torturaram e escravizaram durante a ditadura militar.

    O filme de Marco Bechis é uma coprodução da Itália e do Brasil. Pelo lado brasileiro, três produtores assinam o longa: Patrick de Jongh, da 34 Filmes, Cibele Amaral, da Neocórtex, e André Ristum. O filme é estrelado pelo italiano Adriano Giannini e conta, entre outros atores, com os brasileiros Paula Cohen e Eduardo Hoy em papéis de destaque.

    O diretor de “Terra Vermelha” e “Garage Olimpo” retoma, com essa nova obra, “um pouco as suas origens, ao abordar essa temática tão significativa e tão importante em toda a vida e na formação dele”, destaca André Ristum, amigo de Marco Bechis, que deu o pontapé inicial para a realização do projeto.

    “A gente estava tendo a volta dos financiamentos no Brasil e, depois de ter lido o roteiro maravilhoso, eu apresentei para o Patrick e para a Cibele. Eles adoraram e nasceu essa relação, esse casamento em torno desse projeto que está sendo realmente muito feliz”, lembra.

    Tema importante para o Brasil

    Patrick de Jongh é o fundador e diretor da 34 Filmes. A produtora independente de Brasília venceu o edital de coprodução internacional de 2024 da Ancine para financiar o filme que trata, segundo ele, de um tema importante para o Brasil.

    “Os tribunais militares aconteceram na Argentina, mas acabaram não acontecendo no Brasil. Eu acho que é uma maneira de trazer esse assunto à tona de novo, justamente em vista de tudo o que tem acontecido após a polarização política dos últimos anos no Brasil”, diz.

    A seleção para Veneza consolida a atuação internacional da 34 Filmes e coloca Brasília pela primeira vez no mapa do cinema mundial.

    “Nosso objetivo não é só uma estratégia da produtora de abraçar essas coproduções internacionais, mas também sacramentar essa estratégia federal dos arranjos regionais. A gente ganhou o edital pela cota regional e ter conseguido, já de cara, colocar o filme num festival tão importante só mostra que esses programas precisam continuar. Investir nesses mercados fora do eixo Rio-São Paulo é importantíssimo. São novas narrativas, novas possibilidades, para trazer um outro Brasil também para o mundo”, ressalta Patrick de Jongh.

    Política pública de sucesso

    “Retorno a Buenos Aires” é o único representante brasileiro na competição principal de Veneza. Em Cannes, em maio, o Brasil também só esteve presente na disputa pela Palma de Ouro com coproduções internacionais. Cibele Amaral, da Neocórtex, acredita que essa política de coproduções internacionais é uma estratégia de sucesso.

    “Hoje em dia, você precisa fazer um pacote realmente poderoso para ter êxito de bilheteria e também nos festivais. Esse modelo de coprodução traz uma força grande para o projeto e, com certeza, traz o Brasil para um protagonismo. É uma política pública que está dando seus resultados”, avalia.

    O filme de Marco Bechis custou € 2,5 milhões, financiados majoritariamente por quatro produtoras italianas: Fandango, 39Films, Karta Film e Rai Cinema. O Brasil entrou com € 700 mil (R$ 4,2 milhões), cerca de 25% do total, e o retorno para a indústria cinematográfica do país já foi significativo.

    O longa se passa na Argentina, mas foi rodado durante quatro semanas em Porto Alegre, no Brasil, e mais três semanas em Turim, no norte da Itália, com participação destacada de técnicos, atores e atrizes brasileiros. Paula Cohen, filha de uruguaios, faz o papel da juíza no processo dos ex-militares argentinos.

    “Eu fui criada entre esses países e foi muito especial. O Marco foi sequestrado, foi torturado. Ele viveu essa história muito de perto. Ele é um diretor excepcional e trabalhar com ele, ouvi-lo, foi, para mim, realmente um aprendizado maravilhoso. Acho que me expandi como atriz nesse projeto”, revela a atriz.

    Paula Cohen participa pela primeira vez do Festival de Veneza. Ela está “felicíssima” por estar na disputa “contando essa história tão importante, tão necessária de ser contada”, salienta.

    Estreia mundial

    A coprodução brasileira “Retorno a Buenos Aires” integra uma lista de 21 filmes assinados por grandes nomes do cinema mundial que concorrem ao prestigioso Leão de Ouro do Festival de Veneza. Entre os concorrentes estão diretores como o britânico Danny Boyle, o alemão Werner Herzog, o japonês Kore-eda e o italiano Nanni Moretti.

    Esta 83ª edição do Festival de Veneza será dominada por temas políticos. A disputa será acirrada, mas a seleção já é festejada pela equipe.

    “Para nós é um sucesso, um enorme êxito poder estar nessa competição. Vamos para Veneza e vamos curtir esse momento dessa viagem de um filme do cinema brasileiro, por meio de um filme internacional, na disputa com grandes realizadores e equipes talentosíssimas do mundo inteiro. Realmente vai ser uma emoção muito grande estrear esse filme em Veneza”, antecipa André Ristum.

    “Retorno a Buenos Aires” estreia no Festival de Cinema de Veneza em 11 de setembro, com a presença dos três coprodutores brasileiros, da atriz Paula Cohen e do ator Eduardo Hoy. O filme de abertura na noite desta quarta-feira é “Ink”, de Danny Boyle.

    8 min
  • Lisboa se torna o maior colégio eleitoral brasileiro no exterior da história

    O consulado do Brasil em Lisboa registrou um número recorde de eleitores inscritos para votar para presidente este ano: quase 79 mil pessoas. É o maior colégio eleitoral brasileiro no exterior. 

    Luciana Alvarez, correspondente da RFI em Portugal

    Em segundo lugar vem Boston, nos Estados Unidos e, em terceiro, aparece outra cidade portuguesa, o Porto. Houve um grande crescimento dos votantes: nas últimas eleições, em 2022, estavam registrados em Lisboa 45 mil eleitores brasileiros, o que significa um aumento de 86%.

    Para o cônsul-geral do Brasil em Lisboa, Alessandro Candeas, uma somatória de fatores levaram a uma subida tão expressiva. Um deles é o aumento no total de brasileiros vivendo em Portugal, mas há também aspectos como a necessidade de ter documentos brasileiros válidos para regularizar a residência na agência portuguesa das migrações, a AIMA, assim como a vontade de participar da vida política brasileira.

    “Ter o comprovante eleitoral é um pré-requisito para a retirada de documentos como o passaporte. Muitos brasileiros que moram aqui, tendo a necessidade de ter o passaporte para regularizar sua situação imigratória, precisam do certificado de eleitor", explica. "Mas, evidentemente, há um interesse de vinculação com a política brasileira, com a renovação dos mandatos”, explica ele.

    Operação logística

    A presença de tantos eleitores exige uma operação logística de peso. A equipe do consulado brasileiro tem trabalhado para aumentar a infraestrutura e evitar alguns dos problemas como registrados na eleição passada. Em coordenação com autoridades locais, conseguiram um reforço nos transportes públicos e no policiamento.

    Desta vez, serão 103 urnas, distribuídas em três prédios da Universidade de Lisboa – na eleição anterior, eram 58 urnas e apenas um prédio disponível, o que levou à formação de longas filas, em corredores apertados. No primeiro turno de 2022, o fim da votação teve que ser adiado em duas horas, para que todos que estavam à espera pudessem exercer o direito ao voto.

    Para o dia 4 de outubro deste ano, o cônsul promete mais “fluidez”. Além de aumentar os locais de voto, o consulado desenvolveu um chatbot que vai funcionar por Whatsapp para indicar exatamente para que prédio e sala cada eleitor deve se dirigir.

    “A nossa ideia é que o processo de se deslocar até a universidade, entrar no prédio, entrar numa fila e finalizar o processo de votação seja algo confortável e seguro. A gente quer que o eleitor venha, compareça e participe da forma mais tranquila e alegre possível, porque é uma festa”, afirma Candeas.

    A “festa da democracia” tem grandes proporções. “Estamos falando de 79 mil leitores, que significa um Maracanã cheio, para dar a dimensão. Além disso, mais de 400 mesários, mais um outro número de voluntários e também contratamos duas empresas de segurança para organização das filas”, diz Candeas.

    Vínculo com o país, apesar da distância

    O voto é obrigatório para os brasileiros com mais de 18 anos e até os 70 anos, mesmo para aqueles que moram no exterior. Mas, mais do que uma obrigação, para muitos é uma oportunidade de se manter vinculado ao país e dar exemplo de cidadania.

    Leandro Takeda se mudou para Portugal há 9 anos e tem dois filhos que nasceram em Lisboa. Ele fez questão de votar para presidente nas eleições passadas e, agora, está ainda mais satisfeito porque foi chamado para ser mesário. “Recebi a confirmação de realmente estar convocado. Vou com prazer e muito orgulhoso de ajudar meu país. Mesmo morando fora, o Brasil vai ser sempre nosso país, um país que a gente ama muito”, conta o eleitor.

    O cônsul-geral defende que a grandiosidade da votação em Portugal transforma o Brasil em um exemplo internacional de democracia e pode ajudar a promover uma visibilidade positiva da comunidade brasileira no exterior. “Mostra a pujança da nossa democracia. É uma vitrine para o próprio processo, para a qualidade tecnológica das urnas eletrônicas, e para o engajamento do povo", salienta. "Há um engajamento efetivo da comunidade brasileira aqui. Dá visibilidade para a comunidade brasileira, que é uma comunidade não só integrada a Portugal, mas que continua integrada ao Brasil, participando do momento político do seu país.”

    6 min
  • Venezuela: um cemitério para os mortos que ninguém veio reconhecer

    Com os olhos marejados, Javier Monteverde se ajoelhou diante da cruz que leva o nome de Ashley Pino, uma das mais de 6.500 vítimas do terremoto duplo que devastou a Venezuela, sepultada no Cemitério da Esperança, em Carayaca, no Estado de La Guaira. Em silêncio, ele amarrou um bichinho de pelúcia na lápide da mulher desconhecida.

    Pedro Pannunzio, correspondente da RFI na Venezuela

    Monteverde, por alguma razão, sente-se atraído por aquela sepultura. No cemitério onde repousam centenas de pessoas não identificadas, o simples fato de encontrar um nome já é significativo. As lápides, porém, não trazem outras informações além da data da morte. “Me disseram que ela tinha 36 anos”, diz, sem ter certeza. Ele não tem qualquer pista sobre como eram seus traços físicos, sobre sua história, nem sobre o paradeiro de sua família.

    “Meus companheiros dizem que estou louco. Que me apaixonei por uma morta. Mas não é isso. De noite, quando caminho por aqui, meus pés me trazem a esse lugar. Algo me chama. Chego aqui e converso com ela”, contou o operador de máquinas que teve de deixar a construção civil para abrir covas para as vítimas do terremoto.

    Ele diz que chegou ao cemitério em 26 de junho, dois dias após o início da tragédia. Desde então, os mortos levados ao enterro se tornaram sua principal companhia, ao lado dos outros três colegas com quem divide uma barraca transformada em casa temporária, montada em frente às covas. “Trabalhamos desde cedo até a hora em que os mortos chegam. Às vezes, eles chegam às 7h da noite, e é preciso enterrá-los às 7h, 8h da noite.”

    O operador de máquinas que virou coveiro da noite para o dia foi um dos responsáveis por abrir, na semana passada, o espaço onde agora repousam 40 crianças e adolescentes não identificadas, que, durante quase dois meses, permaneceram no necrotério improvisado no porto de La Guaira à espera de algum familiar que pudesse fazer o reconhecimento dos corpos.

    “Talvez o pai e a mãe deles estejam ali, onde estão os outros enterrados. Os avós deles podem estar ali. Entende? É difícil, dói muito”, disse, às lágrimas, enquanto apontava para um dos lotes onde estão sepultados centenas de vítimas sem identificação.

    Ao menos 800 pessoas foram enterradas no Cemitério da Esperança sem terem sido reconhecidas, afirmou um rapaz que se apresentou como um dos coordenadores do local. Ele pediu para não ter o nome divulgado. O número equivale a mais de 10% do total de vítimas da tragédia. Segundo ele, não há valas comuns no cemitério, e cada pessoa é sepultada com o máximo de dignidade possível. “Colocamos cada cadáver com uma separação de 70 centímetros entre eles. Não há um cadáver sobre o outro. Isso não existe aqui.”

    Em cada lápide, há um número associado aos dados do falecido registrados no Serviço Nacional de Medicina e Ciências Forenses (Senamecf), órgão vinculado ao Ministério do Interior, Justiça e Paz. Posteriormente, familiares que procuram pessoas desaparecidas podem fazer exames de DNA para verificar se há compatibilidade com alguma das vítimas sem identificação.

    “Cada cadáver enterrado tem um código:123, por exemplo. Esse código, que corresponde a um falecido ou a uma falecida, está registrado no Cemitério da Esperança, em determinada área, em determinado setor, sepultado em determinada posição”, explicou um dos coordenadores do local.

    No cemitério, há lotes distintos para as pessoas reconhecidas e para aquelas que foram enterradas sem identificação. Nas sepulturas das vítimas sem nome, foram colocados pedaços de grama, algumas pedras e um pequeno arranjo de flores. Entre as dezenas de cruzes marcadas apenas por números e códigos, raríssimas são as que receberam decorações que revelam sinais de uma história: um retrato e um nome. Trata-se de casos em que os familiares conseguiram fazer o reconhecimento das vítimas após o sepultamento. 

    40 crianças

    As 40 crianças, por outro lado, estão enterradas, por ora, em uma extensa área de terra recém-remexida. As sepulturas ainda não têm grama, flores ou qualquer identificação. Segundo os funcionários, as lápides devem ser instaladas em breve. Por enquanto, cada sepultura é marcada apenas por uma fina haste metálica fincada no chão. Desde o final de semana, brinquedos infantis, levados por uma voluntária, foram colocados diante de cada uma delas. Uma semana depois do sepultamento coletivo, os funcionários dizem que nenhum familiar foi ao local para reconhecer ou reclamar os corpos.

    Passados mais de dois meses da tragédia, vítimas ainda chegam ao cemitério. Ao redor das crianças sem nome, há dezenas de outras covas abertas, à espera de novos corpos. “Nós estamos nos preparando para qualquer quantidade de falecidos que possa surgir”, disse o funcionário.

    O governo venezuelano não divulga o número total de pessoas que ainda estão desaparecidas. Fora do cemitério, as operações para recuperação dos corpos acontecem sem data para serem encerradas.

    “Vai levar tempo. Aqui está sendo retidada laje por laje. Se a gente entrar com máquina, não vai ser possível reconhecer os corpos”, disse Hernán José Paredes, trabalhador vinculado ao Ministério do Poder Popular de Obras Públicas, que tentava, neste final de semana, quebrar um dos enormes blocos de concreto de um edifício que desabou na cidade de Caraballeda, também em La Guaira, distante há pouco mais de uma hora em carro do Cemitério da Esperança.

    6 min

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