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A reeleição de Luiz Inácio Lula da Silva para um quarto mandato foi construída entre as redes sociais, a mobilização popular e a ampliação de sua base eleitoral para além do Nordeste, avaliam o geógrafo Hervé Théry e o cientista político Thomás Zicman de Barros. Em entrevista à RFI, os dois especialistas analisaram os fatores que permitiram ao petista reverter uma desvantagem de 2,2 milhões de votos registrada no primeiro turno e derrotar o senador Flávio Bolsonaro (PL).
Lula foi reeleito neste domingo (25) com 51,79% dos votos válidos, contra 48,21% do adversário, que não reconheceu o resultado. Após encerrar o primeiro turno atrás nas urnas, o petista virou o jogo em três semanas e terminou a disputa com uma vantagem de 4,4 milhões de votos, impulsionado pela conquista da maior parte dos quase 5 milhões de novos votos surgidos entre os dois turnos.
Para Hervé Théry, professor da USP e diretor de pesquisas no CNRS francês, embora o Nordeste tenha mantido seu papel como principal reduto eleitoral petista, a diferença decisiva surgiu em outras regiões do país, sobretudo em Minas Gerais. O geógrafo vê o estado como um retrato das tendências políticas nacionais e considera que ele voltou a desempenhar o papel histórico de fiel da balança das disputas presidenciais.
"O grosso dos votos veio do Nordeste, que é a base principal do PT, e era esperado. O que mudou mais é que teve uma virada e que veio também de outras regiões, especialmente de Minas Gerais. Acho que mais uma vez Minas Gerais foi o pivô do Brasil, o espelho no qual você vê o Brasil", afirma.
A análise converge com a de Thomás Zicman de Barros, membro do Centro de Pesquisa em Ciência Política da SciencesPo Paris e colunista de política internacional da RFI. Para ele, a campanha de Lula conseguiu explorar com eficiência o terreno das redes sociais, tradicionalmente associado ao bolsonarismo. Nesse processo, destaca a atuação do deputado André Janones e o engajamento espontâneo de apoiadores que passaram a se organizar nas ruas e no ambiente digital.
"Foi muito importante para a vitória do Lula as mobilizações nas mídias digitais. O deputado André Janones tem uma responsabilidade muito grande", disse.
Exército do Lula: 'Uma façanha'Na avaliação dos dois especialistas, a ofensiva digital montada após o primeiro turno foi um dos elementos mais importantes da virada. Théry acredita que a experiência brasileira pode servir de exemplo para democracias europeias confrontadas com o crescimento da extrema direita impulsionado pelas redes sociais. Segundo ele, a criação do chamado Exército do Lula mostrou que as mesmas ferramentas utilizadas para difundir discursos radicalizados podem ser empregadas para organizar uma resposta política eficaz. "A criação do Exército do Lula, com 10 milhões de participantes em poucos dias, é uma façanha", resume.
Para Zicman de Barros, a explicação para o resultado também passa pelos erros cometidos pela campanha adversária. O cientista político considera que Flávio Bolsonaro transmitiu a sensação de que a vitória já estaria assegurada após ter terminado o primeiro turno à frente do petista. Essa percepção, segundo ele, foi reforçada pelo desempenho nos debates televisivos.
"Houve equívocos da parte da campanha de Flávio Bolsonaro, que chegou num já ganhou depois do primeiro turno", diz. "Eu acho que ele soou um pouco arrogante também."
Desafios do próximo governoO fortalecimento do bolsonarismo no Congresso é, para Thomás Zicman de Barros, um dos principais desafios do próximo governo. Ele avalia que o movimento chega ao pós-eleição diante de uma "encruzilhada" e de um "paradoxo": "por um lado perderam a eleição presidencial, mas, por outro lado, eles garantiram essa força muito grande no Parlamento".
Na avaliação do pesquisador, a nova correlação de forças tornará a governabilidade mais difícil para Lula. Por isso, o presidente precisará preservar a mobilização que o levou à vitória. "Vai ser muito difícil para o Lula nos próximos anos conseguir governar. Acho que ele vai precisar, como falou ontem na Avenida Paulista, continuar mobilizando essa base, essa base que foi para as ruas, que garantiu essa vitória e a preservação também da democracia no Brasil", afirma.
Zicman de Barros acredita ainda que a derrota eleitoral não encerra a influência do bolsonarismo.
"O bolsonarismo vai continuar forte, vai continuar tentando desestabilizar o governo Lula. E, como Lula disse, vai ter que governar de um jeito diferente do que fez até agora", avalia. "Será que isso é estável no médio prazo? Não sei."
Para o analista de política internacional, o novo cenário também reduz o espaço para uma prática tradicional da política brasileira: a mediação exercida pelo Centrão. Segundo ele, o grupo saiu enfraquecido do processo eleitoral, enquanto a extrema direita ampliou sua influência, especialmente no Senado.
"O grande derrotado das eleições legislativas e das eleições presidenciais de maneira mais ampla foi o chamado Centrão", afirma. Na sua avaliação, o presidente precisará construir uma administração "mais aberta, mais porosa a essas vozes das ruas" para superar as dificuldades que encontrará no Congresso.
Théry compartilha essa avaliação. Embora reconheça que a relação cotidiana entre governo e sociedade tende a se tornar mais difícil após a eleição, ele acredita que Lula possui uma vantagem importante: sua trajetória política e sua capacidade de diálogo com setores populares.
"Ele tem um passado que garante isso. Oriundo dessa população humilde, ele tem diálogo com o Nordeste", observa. Ao mesmo tempo, faz uma ressalva: "As coisas que você diz logo depois de uma eleição é uma coisa, o que você faz durante quatro anos é outra. Tomara que a lição não seja perdida."
Revés para Donald TrumpOs dois especialistas também veem consequências que ultrapassam as fronteiras brasileiras. Para Zicman de Barros, a reeleição de Lula representa um revés para a estratégia de influência regional da direita alinhada ao presidente americano, Donald Trump, e preserva a tradicional autonomia diplomática do Brasil.
"É uma derrota para a administração Donald Trump", resume. "O Brasil, esse país que tem metade do PIB e metade da população da América do Sul, não se alinha automaticamente com os Estados Unidos."
Na frente institucional, Théry considera que um dos aspectos mais relevantes da vitória de Lula foi impedir que Flávio Bolsonaro tivesse a possibilidade de indicar quatro ministros para o Supremo Tribunal Federal ao longo de um eventual mandato. Para o pesquisador, esse era um dos principais riscos apontados por setores que se opunham ao candidato do PL.
"O mais importante é que o pior foi evitado", afirma. "Bolsonaro indicando quatro juízes para o Supremo seria a possibilidade de mudar a Constituição."
Fator 'ideológico' no pânico dos mercadosQuestionado sobre as reações negativas de parte do mercado financeiro ao resultado das urnas, Zicman de Barros relativiza os temores manifestados por investidores. Com formação em economia e passagem pelo setor financeiro, ele sustenta que o mercado nem sempre reage apenas a critérios técnicos.
"O mercado às vezes se apresenta como um agente racional, mas também é um agente bastante ideológico", afirma.
Na sua avaliação, os principais desequilíbrios das contas públicas têm relação com o fortalecimento do poder do Congresso sobre o orçamento nos últimos anos. Por isso, considera injustificada a percepção de pânico observada logo após a divulgação do resultado.
"Acredito que o presidente Lula teria condição, sim, de ajeitar a economia", diz. "Não só a democracia brasileira sai fortalecida com o resultado, mas acho que a própria economia brasileira também pode sair ganhando."
Ao analisar os próximos passos da disputa política, o cientista político considera remota a possibilidade de uma reversão do resultado pela Justiça Eleitoral. Para o ele, a expressiva mobilização registrada entre os dois turnos reforçou a legitimidade da vitória de Lula e dificulta questionamentos institucionais.
O artista brasileiro Gabriel Wickbold está com uma exposição em Genebra, na Suíça, no espaço dedicado às artes da Fundação Paulo Coelho e Christina Oiticica. Em entrevista à RFI, ele falou sobre a mostra, o que representa estar na Suíça, e o que tem de Brasil no seu trabalho.
Valéria Maniero, correspondente da RFI na Suíça
A construção da imagem pessoal, a relação com a natureza, as marcas do tempo e a influência das redes sociais são alguns dos temas presentes na mostra “Immersion and origin: act II” (Imersão e origem: ato II).
“É muito legal essa ideia de poder viajar com a obra", celebra o artista. "Eu estou falando no meu trabalho sobre conexões humanas e quando o meu trabalho também funciona de chave para ser essa conexão, eu fico muito feliz. Encontrar um público novo que nunca viu um trabalho é uma forma também de realimentar toda essa jornada”, diz.
Para esta exposição, o artista apresenta uma instalação inédita em colaboração com a artista plástica Christina Oiticica. A obra explora a passagem do tempo, as marcas que deixa no corpo, na matéria e na experiência humana, numa reflexão sobre memória, permanência e impermanência.
“Vinte anos, duas pessoas separadas por esse espaço de tempo e, no centro, uma Nossa Senhora, que é uma porta, na verdade, um caminho de passagem por onde a fé nos ajuda a atravessar essa jornada da vida”, explica o artista.
Para Christina, “a instalação é um encontro muito bonito entre nossos trabalhos, acrescentando à obra uma dimensão de fé e proteção, em diálogo com o tempo, a memória e as nossas raízes brasileiras”.
Ao ser questionado sobre a influência do Brasil em sua obra, Wickbold conta que, em 2006, fez uma jornada da nascente até a foz do rio São Francisco, que marcou seu início na fotografia. A série que produziu durante aquela viagem o ensinou muito sobre textura, mas também "sobre a relação do homem com a natureza e a relação dos mais velhos cuidando das crianças" nas casas que visitou. "Todo o meu trabalho desdobra dessa grande jornada pelo interior do Brasil”, explica.
A influência das redes sociais nas nossas vidasA relação com a tecnologia também está presente na exposição e ganha diferentes perspetivas ao longo da mostra. Gabriel conta que, em 2016, fez uma série usando linhas que sufocavam a cabeça dos seus modelos, “criando uma instalação imersiva onde a gente também se sente o tempo inteiro construindo essas máscaras para poder sobreviver nas redes sociais”. Ele se refere à série “I Am Online”, que examina a vida mediada pelas redes digitais e o paradoxo de ligações que aproximam, mas também podem limitar e aprisionar.
O artista conta que essa série vem sucedida de outra, que é o oposto. Em “I Am Light”, de 2018, ele fala que o ser humano é luz. “Quando ele olha para dentro, enxerga que é essa explosão. Então, uso o glitter para falar sobre esse desenho da luz no ar”.
Gabriel diz que seu trabalho “é uma grande busca de autoconhecimento” e que vem aprendendo com cada uma das séries que produz. “Durante esses últimos 20 anos, eu trabalhei em oito diferentes séries autorais, sempre reinventando a minha linguagem e a forma estética com que o trabalho se apresenta. Essa grande busca pela identidade é também a grande narrativa do meu trabalho. Entender quem somos no mundo e como que cada uma dessas forças invisíveis influenciam na criação dessas imagens que eu chamo de imagens impossíveis”.
A origem do artistaGabriel Wickbold vem de uma família conhecida no Brasil, de uma empresa do ramo alimentício, que fabrica pães, panetones e outros produtos a base de massas. Mas escolheu outro caminho, o da arte.
“Eu acho que existe uma grande descoberta dentro do artista, que é essa voz original, essa vontade de uma mensagem para o mundo. E foi muito difícil, na verdade, encontrar esse espaço também dentro da minha família", admite. "Vencer essa luta e a história da própria natureza da família também foi um desdobramento. Descolar a marca do meu nome com uma marca que era conhecida por todos os brasileiros também foi uma vitória. E hoje, 20 anos depois, eu sinto que cada coisa está no seu lugar e seguimos felizes criando e podendo produzir arte para o mundo”.
Segundo Gabriel, quem visitar a exposição vai encontrar uma coleção desses 20 anos de trabalho, algumas obras de cada uma das séries, a nova instalação com a Cristina e também os livros que compõem cada uma das fases do seu trabalho.
Interessados podem visitar a mostra, que tem curadoria de Marcelo Mendonça, até o dia 21 de novembro. A entrada é gratuita. O Espaço das Artes da Fundação Paulo Coelho e Christina Oiticica fica na Chemin du Velours 26, em Genebra, na Suíça.
Argentinos oferecem caronas e ajuda com a campanha, incluindo edição de vídeo e hospedagem. A mobilização espontânea a partir de testemunhos pessoais cresceu após o primeiro turno, potencializou a campanha no exterior e influenciou o debate nas redes sociais no Brasil.
Márcio Resende, correspondente da RFI em Buenos Aires
A vitória de Flávio Bolsonaro e do Partido Liberal no primeiro turno das eleições presidenciais e legislativas acendeu o alerta entre muitos eleitores, que temem um projeto hegemônico capaz de comprometer o Estado democrático de direito.
Esse temor, somado à promessa da campanha de Bolsonaro de promover um “tesouraço” no gasto público, tendo como inspiração o ajuste do presidente argentino, Javier Milei, levou muitos brasileiros na Argentina a querer contar aos eleitores no Brasil sobre as dolorosas consequências do modelo argentino de arrocho fiscal.
A esses relatos em primeira pessoa somaram-se os próprios argentinos, que querem alertar os brasileiros sobre os riscos de seguir por esse caminho que, segundo pesquisas, é rejeitado por dois terços da população do país.
A médica psiquiatra brasileira Isla Montalier, que vive na Argentina há 15 anos, publicou um vídeo relatando sua experiência pessoal e a de seus pacientes diante da inflação no país. O modelo econômico argentino tem sido apresentado por Bolsonaro como bem-sucedido, mas a inflação anual ainda gira em torno de 33%, acompanhada por perdas salariais, recessão, desemprego e aumento da pobreza.
“O vídeo nasceu da necessidade de informar os brasileiros sobre a realidade argentina”, conta Isla à RFI. “O objetivo de publicar o vídeo foi alertar e responder a essas pessoas que me perguntam, com fontes e com a realidade do que se vive em consequência desse controle inflacionário. A vulnerabilidade alimentar, o desemprego, os cortes de direitos, o abandono de tratamento de pacientes por não poderem sustentá-lo financeiramente e a desesperança”, descreve Isla.
Furar a bolhaA publicação teve uma repercussão inesperada, sendo compartilhada pela comunidade brasileira na Argentina e por artistas no Brasil, furando a bolha.
“O vídeo acabou furando várias bolhas, chegou a mais de um milhão de visualizações, mais de 90 mil curtidas, mais de 11 mil comentários e mais de 65 mil compartilhamentos. Realmente, não busquei engajamento ou viralização com esse vídeo”, conta.
Mas, na realidade polarizada do Brasil, também veio o ódio, um dos recursos mais incentivados pela extrema direita.
“Eu recebi muitas mensagens de ódio, de ameaça. Colocaram minha foto e a do meu namorado no Twitter. Disseram que iam à minha casa, que iam me deportar, que eu ia ter de morrer por ser comunista. Ainda bem que as mensagens de apoio, de amor e de entendimento do que eu estava compartilhando foram muito maiores do que as de ódio”, compara Isla, uma referência na comunidade brasileira na Argentina.
“Mas eu não me arrependo de nada. Eu sempre vou defender a Democracia e a liberdade de poder falar sem medo”, sublinha.
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“Eu venho do futuro”Rapidamente, nasceu uma campanha denominada “Eu venho do futuro”, em referência aos três anos de Milei que Bolsonaro quer copiar. O lema lembra o “efeito Orloff”, baseado no comercial de uma marca de vodca lançado na década de 1980 e que tinha como slogan “Eu sou você amanhã”.
O bordão da publicidade virou uma expressão popular usada para descrever a tendência de o Brasil repetir medidas econômicas que já haviam sido implementadas antes na Argentina. Foi assim com o Plano Cruzado, o Plano Verão, o Plano Real e até com o confisco das poupanças pelo ex-presidente Fernando Collor de Mello.
No Núcleo do Partido dos Trabalhadores na Argentina, Mayara dos Santos explica à RFI que a reação da comunidade brasileira neste segundo turno é orgânica.
“Isso acaba surpreendendo a gente porque aconteceu de maneira espontânea, por parte de diferentes pessoas, argentinas, brasileiras, da comunidade em geral. Pode até parecer que há uma grande campanha armada por trás, mas isso parte das experiências individuais das pessoas. É o desejo de contar sobre um modelo que não vem funcionando. É o desejo de mostrar o modelo falido que vem empobrecendo as pessoas aqui”, avalia Mayara.
“Vemos isso de uma maneira espetacular. Pedimos e incentivamos que as pessoas continuem fazendo. O Brasil precisa receber esses relatos daqui. As pessoas não estão vivendo bem. Estão afetadas”, pede.
Influência na campanha do BrasilOs vídeos e relatos em primeira pessoa deram visibilidade à campanha do PT na Argentina e influenciaram o debate nas redes sociais brasileiras sobre as consequências do modelo de ajuste fiscal de Milei.
“Aumentamos muito o nosso engajamento nas redes sociais. Houve também uma descentralização da comunicação, porque ela parte de pessoas individuais. Isso vem dando ainda mais alcance à campanha. O partido no Brasil também vem recebendo, adotando e olhando para a Argentina de outra maneira. As nossas redes sociais, desde que começamos a campanha, aumentaram 80% em número de seguidores e o engajamento com as publicações cresceu quase 90%. Já temos publicações com mais de um milhão de visualizações”, celebra Mayara.
A secretária do Núcleo do PT na Argentina também destaca o sentimento de pertencimento em um momento crítico para o sistema democrático.
“Parte da nossa campanha foi ‘Ainda estamos aqui’, porque nós também fazemos parte da democracia do Brasil e mantemos a conexão com o nosso país. Então, como militantes ou não militantes, o nosso desejo é fortalecer a Democracia porque ela está em risco neste momento”, adverte.
Argentinos oferecem ajudaE como ficam os argentinos nessa reação? Muitos também gravam vídeos, até em português. Eles também participam ativamente de outra modalidade de apoio: a carona.
No primeiro turno, em Buenos Aires, Córdoba e Mendoza, havia 12.901 eleitores aptos a votar. Mas somente 5.927 pessoas compareceram às urnas, representando 45,9% de participação e 54,1% de abstenção. Foram registrados 5.788 votos válidos, 81 votos em branco e 58 votos nulos. Lula recebeu 3.738 votos, mais do que o dobro dos 1.663 votos obtidos por Flávio Bolsonaro.
Em Buenos Aires, o maior colégio eleitoral da América Latina, Lula venceu com 66% dos votos, mas a abstenção foi a grande vencedora. Isso porque o centro de votação na capital argentina abrange 12 províncias com cidades localizadas a centenas e até milhares de quilômetros de distância.
Por isso, o professor universitário argentino Ramiro Bertoni ofereceu carona para que brasileiros fossem até o centro de votação.
“É uma maneira de colaborar. Esta é uma batalha voto a voto da qual estamos todos pendentes e também angustiados com o resultado do primeiro turno. Eu ainda não sei de onde sairão as pessoas nem aonde terei de ir para buscá-las. Veremos quantas viagens poderei fazer no dia”, explica Ramiro à RFI.
O voluntário está disposto a dirigir mais de 100 quilômetros por trecho para buscar eleitores brasileiros apenas para ampliar os votos em Lula. Mas por que tanto esforço para virar o resultado?
“É importante que Lula ganhe estas eleições. É crucial, fundamental. Esta é uma das batalhas mais relevantes devido à situação do mundo e da região. E também acho que será uma bofetada em Trump, que se mostra como o machão querendo pisar no Brasil e ameaçando o país”, afirma Ramiro, evidenciando o sentimento de solidariedade regional.
“Lula é um dos grandes líderes mundiais, sem dúvida. Seria uma loucura que perdesse para alguém que nunca administrou nem um clube de bairro. Seria uma tragédia para a Democracia. Com Bolsonaro, o Brasil passaria a fazer parte do ‘Escudo das Américas’ e toda a América do Sul ficaria subordinada a Trump”, conclui, em tom de preocupação.
Uma preocupação que serve como motivação para o professor. Há também quem ofereça casa para eleitores que moram longe passarem a noite, outros oferecem ajuda para organizar eventos nesta reta final e até serviços gratuitos de edição de vídeo.
A Maison de l’Amérique latine de Paris (MAL) está comemorando 80 anos. A instituição foi criada em outubro de 1946 pelo general De Gaulle, com a participação determinante do embaixador brasileiro Luiz Martins de Souza Dantas. Mas, após oito décadas promovendo o diálogo entre a França e os países latino-americanos, a casa corre o risco de desaparecer.
A Casa da América Latina de Paris foi fundada logo depois da Segunda Guerra Mundial pelo general Charles de Gaulle, em reconhecimento ao apoio dado pela América Latina e pelo Caribe à França Livre e à Resistência durante a ocupação nazista. O objetivo da nova instituição era promover a aproximação entre a França e as repúblicas latino-americanas e contrabalançar a influência dos Estados Unidos. Mas a história da casa é, antes de tudo, franco-brasileira.
François Vitrani, diretor-geral da MAL desde 1984, lembra que “a ideia inicial era criar um local de acolhimento para os militares brasileiros da FEB que haviam combatido ao lado das forças aliadas” na Europa.
Vitrani destaca o papel decisivo na criação da Casa do “célebre embaixador Souza Dantas, que representou o Brasil por muitos anos na França”.
Durante a Segunda Guerra Mundial, Luiz Martins de Souza Dantas era o decano do corpo diplomático em Paris. Ele foi nomeado para o posto em 1922 e nunca abandonou o cargo durante a ocupação nazista, quando concedeu dezenas de vistos e salvou pessoas perseguidas pelo nazismo, principalmente judeus, contrariando inclusive as normas do governo brasileiro da época.
Diplomacia culturalSouza Dantas foi preso pelos alemães em 1942 e, quando foi libertado em 1944, era uma das pessoas de maior prestígio em Paris. Ao longo de sua carreira, sempre buscou promover a cultura brasileira na França, ressalta o historiador Fabio Koifman, biógrafo do embaixador e autor do livro "O Quixote nas Trevas".
“Desde que chegou a Paris, no final de 1922, ele esteve muito empenhado em fazer a diplomacia cultural do Brasil na França, por meio da promoção de eventos culturais, da recepção de intelectuais e artistas brasileiros. Ele já vinha, ao longo dos anos, bolando alguma coisa (...). Em 1946, ele tinha muito bons contatos no governo francês e conseguiu, com um grupo, abrir a Maison de l’Amérique Latine”, relembra o historiador.
O embaixador brasileiro foi presidente de honra da Casa da América Latina até pouco antes de sua morte, em 1954. O prestígio de Souza Dantas foi confirmado na badalada festa de seu jubileu diplomático, em 1951, na Casa da América Latina.
Segundo Fabio Koifman, foi “uma homenagem muito bonita. A participação dele em relação aos refugiados perseguidos pelo nazismo foi a parte final da carreira, mas antes ele já era uma pessoa muito prestigiada, não só formalmente, em razão da capacidade de agregar pessoas, estabelecer contatos e representar o Brasil, mas também na vida social. Ele usava esse contato, essa abertura, para desenvolver o que entendia como diplomacia, especialmente a diplomacia cultural”.
Uma história, dois momentosA casa funcionou inicialmente como um clube privado fechado, financiado principalmente pelas contribuições de seus membros e por uma modesta subvenção do Ministério das Relações Exteriores francês. Era um local de encontro para diplomatas credenciados em Paris e de acolhimento para personalidades latino-americanas de passagem pela França.
Foi somente após sua quase falência, na virada para os anos 1980, que a instituição se abriu ao grande público. A MAL foi salva graças à intervenção do presidente François Mitterrand. Depois de superada a crise, o governo socialista exigiu que a Casa, administrada por uma associação sem fins lucrativos, fosse autossuficiente financeiramente e se tornasse a “vitrine da cultura e da criatividade latino-americanas na França”.
Nessa segunda etapa, “a Casa da América Latina deixou de ser um clube para se tornar uma instituição aberta a todos os latino-americanos”, conta François Vitrani. Para atingir esse objetivo, “a instituição contou com a ajuda de um jovem assessor de Mitterrand, François Hollande, que anos mais tarde se tornaria presidente da República e, por sua vez, ajudaria a Casa a dar continuidade às suas atividades”, indica o diretor-geral.
A fórmula deu certo. A instituição recebe uma subvenção anual de € 25 mil (R$ 150 mil) do Ministério das Relações Exteriores da França e aluga os salões e jardins de sua histórica sede no Boulevard Saint-Germain, no coração de Paris, para financiar sua ação cultural e diplomática.
Futuro ameaçadoMas o Banco da França, proprietário do imóvel, resolveu vender seu patrimônio por € 100 milhões (R$ 600 milhões). O edital de venda não obriga os potenciais compradores a manter o funcionamento da instituição no local. A Casa da América Latina, que tem em seus salões um importante acervo de obras, entre elas um quadro com o retrato do embaixador brasileiro Souza Dantas, pintado por Jean-Dominique Van Caulaert, pode ser despejada e corre o risco de fechar.
O local também é um lugar de memória da relação franco-latino-americana dos últimos 80 anos. Por exemplo, a festa que comemorou o fim da ditadura brasileira, em 1985, aconteceu nos salões da sede do Boulevard Saint-Germain. Um abaixo-assinado pedindo a intervenção do presidente francês, Emmanuel Macron, para preservar a Casa da América Latina em sua sede histórica já recolheu mais de 26 mil assinaturas.
Uma eventual vitória do candidato do PL à Presidência da República, Flávio Bolsonaro, diante do presidente Luiz Inácio da Silva no segundo turno das eleições de 25 de outubro, poderá acelerar uma transformação profunda do regime político brasileiro. O alerta é do sociólogo Gabriel Feltran, especialista em violência urbana e crime organizado, para quem setores da extrema direita defendem um projeto que ultrapassa o autoritarismo. "A palavra certa é totalitário, não é apenas autoritário", afirma.
A entrevista foi concedida à RFI após um debate realizado na Assembleia Nacional francesa sobre os resultados do primeiro turno das eleições brasileiras. O encontro foi promovido pela deputada socialista Céline Hervieu, presidente do grupo de amizade França-Brasil, pela deputada ecologista Dominique Voynet e pela associação Autres Brésils.
Atual diretor de pesquisa no CNRS, o maior organismo público de pesquisa da França e um dos mais importantes da Europa, e pesquisador da Sciences Po, Gabriel Feltran é reconhecido por seus trabalhos sobre violência, crime organizado, periferias urbanas e a expansão das facções criminosas no Brasil. Segundo ele, a disputa eleitoral revela uma divergência cada vez mais profunda sobre o próprio significado da democracia.
"Se você pegar o discurso da direita extrema no Brasil, bolsonarista, esse discurso fala o tempo todo de democracia. Mas a concepção de democracia que eles têm é muito clara, explícita e significa a vontade da maioria."
De acordo com o sociólogo, nessa lógica, os direitos das minorias deixam de ser um princípio fundamental da vida democrática. "Se há uma maioria que votou por eles, essa maioria tem o direito de fazer o que quiser." E resume: "Quem é minoria que se exploda."
Para Feltran, essa visão se opõe frontalmente ao pacto democrático estabelecido pela Constituição de 1988. "Do outro lado, a gente pensa democracia justamente como a capacidade das minorias se expressarem num ambiente saudável", afirma.
'Inimigo comum'O pesquisador avalia que o discurso da extrema direita se organiza em torno da construção permanente de um inimigo comum. "Há sempre o cidadão contra um bandido idealizado", observa Feltran. Nessa narrativa, a promessa de restaurar a ordem passa pela exclusão dos grupos apresentados como responsáveis pelos problemas do país.
"Nós estamos na mão do crime, mas vamos redemocratizar o Brasil, entregando o país para os cidadãos de bem, produzindo a eliminação daqueles que são, na perspectiva da extrema direita, a causa de todos os nossos problemas, os bandidos", afirma o sociólogo.
O problema, segundo Feltran, é que a categoria dos inimigos tende a se expandir. "A esquerda é criminosa e, portanto, é bandido e, portanto, tem que ser eliminado."
Radicalização da violênciaAo comentar o avanço eleitoral de políticos ligados aos setores mais radicais da segurança pública, Feltran afirma que a violência passou a ser apresentada como uma ferramenta legítima da ação política. "Nós estamos vendo esse discurso da violência crua como forma de fazer política."
Segundo ele, essa lógica transforma agentes da repressão e da justiça informal em referências positivas para parte do eleitorado. "Eles vão mobilizar o mundo policial e o mundo dos justiceiros, dos milicianos, dos grandes matadores, como um mundo ideal. É para limpar a sociedade, para que nós possamos viver bem."
Por isso, sustenta, o fenômeno não pode ser descrito apenas como autoritário. "A palavra certa é totalitário, não é apenas autoritário, porque precisa eliminar uma parte da população para a gente ter o nosso projeto realizado."
Exclusão política e socialNa avaliação do sociólogo, o discurso do combate ao crime acaba servindo de base para uma dinâmica mais ampla de exclusão política e social. "Todo mundo que é contra o nosso projeto também é um traidor, portanto um lesa-pátria, portanto um criminoso."
O mesmo mecanismo, afirma, pode se voltar contra outros segmentos da sociedade. "A ciência, quando ela vai contra o nosso projeto, ela passa a ser contra a religião da nossa maioria." Como consequência, segundo Feltran, "o pensamento minoritário em geral tende a ser esmagado."
Após décadas pesquisando organizações criminosas e forças de segurança, Feltran diz enxergar uma radicalização preocupante do debate público brasileiro.
"Não estamos falando nesse espaço de algo que é moderado. Estamos falando efetivamente de grupos que estão dizendo: nós precisamos eliminar isso."
Ao encerrar sua reflexão, o sociólogo recorre a uma tira da personagem Mafalda para sintetizar sua preocupação com os rumos da violência política no Brasil. Na história, a menina pergunta ao pai: "Quando a gente tiver matado todos os bandidos, vão sobrar só os bons?"
A resposta, diz Feltran, resume o alerta que procura fazer: "Nessa hora vão sobrar só os assassinos."
O futuro da Casa da América Latina de Paris, que comemora 80 anos nesta quinta-feira, está ameaçado. A entidade corre o risco de ser despejada de sua sede histórica, que está à venda. A comunidade latino-americana na França se mobiliza e um abaixo-assinado que pede a intervenção do presidente Emmanuel Macron para garantir a permanência da instituição no local já recebeu mais de 25 mil assinaturas.
Os dois palacetes do Boulevard Saint-Germain, no coração de Paris, que abrigam a Casa da América Latina desde 1965, foram colocados à venda por € 100 milhões (R$ 600 milhões) pelo Banco da França, proprietário do imóvel. A transação deve ser concluída antes do fim do ano. A maison, vitrine da diplomacia e da cultura latino-americana na França, que aluga o imóvel, não é contra a venda.
O abaixo-assinado pede "solenemente ao Presidente da República, que chancela a instituição desde sua criação em 1946 pelo general de Gaulle, e ao ministro da Europa e das Relações Exteriores, que favoreçam uma solução capaz de garantir a continuidade das missões da Casa da América Latina em sua sede histórica".
A artista brasileira Livia Melzi frequenta a Casa da América Latina desde que se mudou para a França, em 2012. Ela, que também já teve obras expostas no local, durante a mostra "Le Brésil illustré. L'héritage postcolonial de Jean-Baptiste Debret" (Brasil Ilustrado. O legado pós-colonial de Jean-Baptiste Debret), lamenta a situação.
"Eu acho uma tragédia o que está acontecendo, porque o prédio já é um lugar histórico. Foi a casa do médico Charcot, foi frequentado por Sartre. Eu fico preocupada. O que vai acontecer com essa arquitetura? E para onde vai a Casa da América Latina? Para onde vai o acervo? Onde será esse novo lugar de encontro para os artistas latino-americanos?", questiona.
Redução de verbas para a culturaA ex-deputada francesa de origem argentina Paula Forteza frequenta e colabora com a Casa da América Latina há anos. A fundadora da galeria Artivistas já organizou várias exposições e encontros no local, todos com entrada gratuita, como determina o regimento da instituição. Ela salienta que a venda do imóvel pelo Banco da França se insere em um contexto de redução de verbas para a cultura.
"Essa é uma decisão orçamentária, considerando o contexto financeiro e fiscal da França. Mas é uma decisão que pode ser contestada. Os orçamentos da cultura estão sendo reduzidos e inúmeros espaços culturais estão fechando em toda a França. Não podemos esquecer que todas essas atividades são abertas e gratuitas", informa.
O deputado Benoit Larrouquis, do grupo macronista na Assembleia Nacional e representante dos franceses que moram na América Latina, diz que vários parlamentares do país também estão mobilizados para salvar a instituição.
"Estamos dialogando com o governo e pretendemos levar o assunto ao presidente da República. Petições foram lançadas e têm obtido grande sucesso. Parlamentares [representantes] dos franceses que vivem no exterior e outros que conhecem bem a América Latina estão mobilizados para que uma solução seja encontrada", revela.
Impacto do abaixo-assinadoLivia Melzi espera que o abaixo-assinado impeça o fechamento da Casa da América Latina de Paris. "Eu assinei. Recebi a petição de vários amigos artistas também. Esse documento está circulando bastante entre a comunidade latino-americana. É importante fazer o possível para impedir a saída da Casa da América Latina desse lugar e entender o que isso significa politicamente para a nossa comunidade", ressalva.
Paula Forteza espera que o presidente francês irá intervir e garantir o futuro da Casa da América Latina. "Eu acredito que Emmanuel Macron acabará ouvindo a razão. Do ponto de vista geopolítico, seria um erro fechar um lugar como este. A França sempre foi defensora do multilateralismo, num momento em que a Europa tem dificuldades para afirmar seu papel no mundo", contextualiza.
O Banco da França é uma instituição independente. Mas, segundo o deputado Benoit Larrouquis, o presidente da República, que chancela a Casa da América Latina desde sua fundação, pode interferir no processo de venda.
"O Banco da França é soberano em sua decisão. Mas continua sendo o Banco da França, e isso tem um peso simbólico importante. Por isso, acredito que essas pressões acabarão produzindo resultados. Não acredito, e sobretudo não espero, que Emmanuel Macron venha a ser o presidente que fechará a Casa da América Latina", pondera.
Segundo a imprensa francesa, os 20 embaixadores latino-americanos na França, que se reúnem mensalmente na Casa da América Latina, teriam redigido uma nota alertando Emmanuel Macron sobre os riscos que ameaçam a instituição. Procurado pela RFI, o embaixador do Brasil em Paris, Ricardo Neiva Tavares, não quis conceder entrevista. Fontes diplomáticas brasileiras, que pediram anonimato, afirmaram que o Brasil não foi informado sobre a nota mencionada pela mídia francesa.
Num momento em que a pobreza, a insegurança alimentar e a violência seguem no centro do debate público, iniciativas comunitárias em Fortaleza procuram responder a desafios que as estatísticas não conseguem captar. No São João do Tauapé e no Grande Jangurussu, dois projetos atuam em frentes distintas, mas movidos pelo mesmo objetivo: oferecer acolhimento a pessoas invisíveis às políticas públicas, entre elas adolescentes, idosos, moradores de rua e famílias em extrema vulnerabilidade social.
Márcia Bechara, enviada especial da RFI a Fortaleza
A poucos quilômetros da avenida Beira Mar, cartão-postal da capital cearense, indicadores de desenvolvimento social considerados elevados convivem com uma realidade menos visível. Em bairros oficialmente inseridos em áreas de alta renda ou de bom desempenho socioeconômico, moradores enfrentam insegurança alimentar, moradia precária, dependência química e dificuldades de acesso a serviços públicos. Em outros pontos da cidade, a violência segue moldando trajetórias de crianças e adolescentes.
É nesse cenário que atuam o Instituto Sanitas, no São João do Tauapé, e o Meninos de Deus, no Grande Jangurussu. Com perfis distintos, as duas iniciativas lidam diariamente com consequências de problemas estruturais que atravessam décadas.
No São João do Tauapé, o trabalho desenvolvido pelo Instituto Sanitas nasceu de uma decisão que alterou a trajetória de Frei Nailson. "Quando eu fundei a iniciativa, a minha ordem religiosa não acolheu a ideia e desejou me transferir, desejou me enclausurar, então eu abri mão desses direitos religiosos para ficar com o Sanitas."
A instituição está localizada numa região com indicadores positivos de desenvolvimento. Para o religioso, no entanto, os números escondem realidades bastante distintas dentro do mesmo território. "Quando você olha o IDH, é alto. Mas quando você adentra as comunidades, você olha verdadeiros bolsões de miséria."
Na avaliação dele, essa discrepância produz um efeito direto sobre a formulação de políticas públicas. "Essas pessoas acabam sendo invisibilizadas, porque não têm dados estatísticos que comprovem pobreza."
O instituto atende diariamente entre 250 e 300 pessoas por meio de uma cozinha solidária que distribui refeições pela manhã e sopa no período da tarde, para um público de moradores de rua, idosos, mulheres e famílias em situação de vulnerabilidade. Ao redor do serviço de alimentação, foram sendo incorporadas outras atividades, como atendimento psicológico, qualificação profissional e ações na área da saúde.
A expansão dessa atuação ocorreu sobretudo a partir da pandemia. Frei Nailson associa aquele período ao agravamento da fome e da exclusão social observadas nos bairros atendidos pelo projeto. "Nós não queremos voltar de onde viemos, do Brasil que estava no mapa da fome, das pessoas que não tinham o que comer."
Recentemente, a cozinha foi selecionada para participar de um projeto-piloto nacional voltado à sustentabilidade ambiental de equipamentos comunitários. A iniciativa prevê o uso de energia solar, biodigestor para reaproveitamento de resíduos orgânicos e produção de biofertilizante destinado a uma horta urbana. O programa envolve parceria entre a Cáritas Brasileira, órgãos do governo federal e a Itaipu Binacional.
Apesar da estrutura ampliada, o ponto mais sensível do trabalho continua sendo o atendimento de pessoas que encontram poucos espaços de acolhimento. Entre elas estão usuários de álcool e outras drogas. "Eu prefiro eles aqui dentro, bêbados, tendo uma oportunidade, do que eles na esquina abandonados."
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Violência como ponto de partidaSe no São João do Tauapé a principal demanda gira em torno da insegurança alimentar e da exclusão social, no Grande Jangurussu a violência aparece como o ponto de partida da história contada por Paulinho Uchoa. Há cerca de 30 anos envolvido com ações comunitárias, ele afirma que o trabalho que mais tarde daria origem ao Instituto Meninos de Deus nasceu da convivência com um grupo de adolescentes envolvidos em conflitos territoriais. O desfecho daquela experiência moldaria toda a sua atuação posterior. "Eram 43 adolescentes e jovens com idade de 12 a 25 anos. Desses 43 que aterrorizavam a região, 36 deles foram mortos, assassinados", afirma.
As mortes ocorreram em disputas entre gangues e conflitos ligados ao controle de territórios numa região historicamente marcada por altos índices de vulnerabilidade social. A sequência de homicídios levou Paulinho a direcionar sua atuação para a prevenção da violência entre crianças e adolescentes.
Mais do que uma atividade temporária, diz ter transformado a experiência numa missão pessoal. "Eu disse que mais ninguém iria morrer."
O Instituto Meninos de Deus hoje mantém quatro núcleos em Fortaleza. Segundo o fundador, cerca de 800 crianças e adolescentes participam regularmente das atividades desenvolvidas pela organização. O trabalho busca criar vínculos duradouros num território onde a presença de referências positivas nem sempre ocorre.
Uma das estratégias adotadas consiste em estimular os jovens a assumirem responsabilidades dentro do próprio projeto, à medida em que crescem. "Aqui, quando eles completam 12, 13 anos, eles têm uma missão: virarem voluntários. É entregar aquilo que recebeu", diz Paulinho.
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Ausência de referênciasA fragilidade dos laços familiares aparece como um dos elementos mais recorrentes entre as crianças acompanhadas pela instituição. Advogado, servidor público federal e voluntário do projeto há cerca de um ano, Igor afirma que boa parte dos jovens atendidos convive com situações de abandono, encarceramento ou ausência de figuras parentais. "Cerca de 90% dessas crianças, eu ousaria dizer, talvez um pouco mais, ou não tem pai, ou não tem mãe, ou não tem pai e mãe, ou o pai está preso, ou a mãe está presa", afirma.
Segundo ele, a busca por pertencimento ajuda a explicar a importância que o instituto assume na rotina desses adolescentes. Em muitos casos, o espaço funciona não apenas como local de atividades esportivas e convivência, mas como ambiente de construção de referências pessoais. Ao descrever o que observa no cotidiano da organização, Igor afirma que muitas crianças chegam "querendo procurar um norte, procurar alguém com quem elas possam se identificar".
A observação ajuda a compreender por que iniciativas como o Meninos de Deus e o Instituto Sanitas acabaram assumindo funções que ultrapassam seus objetivos originais. Em contextos marcados pela sobreposição entre pobreza, insegurança alimentar, violência e desestruturação familiar, as organizações passaram a funcionar também como pontos de apoio social, orientação e proteção cotidiana para populações frequentemente ausentes das estatísticas que orientam parte das políticas públicas no estado.
A visita do papa Leão XIV à França mobiliza multidões e provoca mudanças na rotina de Paris. Neste sábado (26), 600 mil fiéis são esperados para a missa na Praça da Concórdia e na avenida Champs-Élysées, ponto alto da passagem do sumo pontífice pela capital francesa. Entre os católicos brasileiros da região parisiense, a expectativa é grande para acompanhar o evento. Leão XIV é o primeiro papa a realizar uma visita oficial à França em 18 anos.
Luiza Ramos, da RFI em Paris
Segundo Paulo César Santana, organizador do grupo de oração Embaixadores de Cristo, na periferia da capital francesa, a procura por informações e inscrições para os eventos papais foi intensa nas últimas semanas entre os brasileiros da região.
“Em torno de umas 100 pessoas, a gente tem certeza de que vão. E eu sei que fora, há outros católicos que não frequentam a nossa comunidade, mas que vão a paróquias francesas perto da casa deles, que também vão [à missa]. Então a expectativa de brasileiros vai ser grande, vai ter muitos!”, afirma.
O père Welly, como é conhecido o padre Wellington Santos Pires, titular da Paróquia Saint-Saturnin, acredita que a visita pode deixar memórias duradouras nos fiéis e relembra a Jornada Mundial da Juventude de 1997 na França.
“Eu converso com pessoas que acolheram o papa João Paulo II para a JMJ e me falam com brilho nos olhos. Pessoas que eram muito jovens e que foram tocadas pelas palavras do papa na época. Ele tem essa capacidade de tocar, sobretudo individualmente, as pessoas. A presença do papa não deixa as pessoas indiferentes, tanto as católicas quanto as contrárias à fé”, conta.
O sacerdote brasileiro, natural do sul da Bahia e residente na França desde 2016, espera que a passagem de um papa pelo país possa renovar o interesse pela vida religiosa e estimular reflexões dentro e fora da Igreja.
“Para mim, a visita papal tem potencial de uma boa provocação”, resume.
Fé em português ajuda a manter vínculos com o BrasilPara muitos brasileiros que vivem na França, a fé também se tornou uma forma de manter laços com o país de origem. Alguns, como o goiano Paulo César Santana e sua esposa Fernanda, encontram na língua portuguesa um espaço de acolhimento e pertencimento.
Eles organizam juntos há 11 anos o grupo de oração Embaixadores de Cristo, na Capelania Brasileira de Paris, administrada pelo padre Júlio Peixoto, na Paróquia Sainte Marie du Plant, em Champigny-sur-Marne. Paulo conta que a iniciativa surgiu depois das dificuldades enfrentadas nos primeiros anos de adaptação à França, quando ainda não falava bem o francês.
“Eu falei para o Senhor: ‘O que eu passei, eu não quero que ninguém passe’. E foi quando a gente começou o grupo de oração”, recorda.
O grupo também atua como uma pastoral social, auxiliando com cestas básicas e apoio a pessoas recém-chegadas ou que enfrentam dificuldades no país.
As reuniões semanais em português acontecem às quartas-feiras e reúnem um número variável de participantes ao longo do ano. Segundo Paulo, o grupo pode receber desde duas ou três pessoas até dezenas de participantes em um mesmo encontro.
Missa de domingo “é dia de estar no Brasil”Já as missas celebradas em português aos domingos na Capelania Brasileira costumam ficar lotadas.
“Você está em um país, você tem que se adaptar àquele país. Mas, quando você tira um domingo e fala: ‘o domingo é do Senhor’ e vai se reunir com pessoas que falam a mesma língua. É como se fosse dizer que ‘o meu domingo é o dia de eu estar no Brasil’. Então isso ajuda muito o imigrante”, explica.
Padre Welly concorda que a língua ocupa um papel importante na vivência religiosa dos imigrantes.
“Eu penso que a capelania existe para atender aqueles fiéis que, do ponto de vista pastoral, eclesial e espiritual, têm dificuldade de se conectar com o jeito francês de rezar, de se conectar com Deus. Daí a importância da língua na nossa relação com Deus”, afirma.
Ao mesmo tempo, ele considera importante que os fiéis também se abram para a realidade local: “para mim, o desafio consiste em não se fechar em uma comunidade. Não devo me fechar às experiências do próprio país em que eu me encontro”, enfatiza o sacerdote.
Visita histórica do papa Leão XIVA dimensão histórica também ajuda a explicar o entusiasmo dos católicos. Será a primeira visita apostólica de um papa à França em 18 anos, embora Francisco tenha passado pelo país em três ocasiões durante seu pontificado. Antes dele, Bento XVI esteve na França em 2008. Já João Paulo II visitou o país sete vezes, tornando-o seu destino internacional mais frequente fora da Polônia.
A mobilização é tamanha que a Igreja Católica francesa elevou para cerca de € 27 milhões o orçamento logístico destinado à recepção dos peregrinos e visitantes.
O interesse em torno da viagem de Leão XIV é reforçado por sua relação com a cultura local. Diferentemente de alguns antecessores, ele fala francês e, desde o início do pontificado, faz referências frequentes à espiritualidade do país e demonstra interesse pelos desafios enfrentados atualmente pela Igreja Católica francesa.
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Enquanto a França se prepara para receber o papa Leão XIV entre os dias 25 e 28 de setembro, um grupo de brasileiros já percorre alguns dos principais locais de peregrinação católica do país. Vindos do estado de São Paulo, os 24 integrantes da viagem participam de missas em português e visitam santuários históricos em busca de uma experiência espiritual.
Luiza Ramos, da RFI em Paris
A viagem foi organizada meses antes do anúncio da visita do pontífice à França. Ainda assim, a notícia despertou entusiasmo entre os peregrinos.
“Quando se fala do papa, todo mundo fica eufórico, fica a mil”, conta Evangevaldo Avelar, diretor da Praxis Viagens, agência especializada em turismo religioso.
“Eu sinto isso quando estou em Roma com o grupo na audiência com o papa. Na hora em que o papa aparece, eu vejo a emoção de cada pessoa. É uma coisa indescritível”, diz. Com mais de quatro décadas de experiência no setor, ele lamenta que a visita de Leão XIV não coincida com a peregrinação do grupo.
Segundo Avelar, o turismo religioso católico vive um momento de crescimento no Brasil. Tradicionalmente associadas a fiéis mais velhos, as peregrinações também têm atraído novos públicos, especialmente após eventos como a Jornada Mundial da Juventude.
“O turismo religioso católico no Brasil vem em um grande crescimento. Nos anos 1980 e 1990 tinha uma, duas agências. Hoje, só no estado de São Paulo, deve ter pelo menos umas 20 agências especializadas nesse tipo de turismo. As pessoas têm procurado muito porque se sentem mais seguras na peregrinação e acolhidas em grupo”, explica.
A Terra Santa segue sendo o destino mais desejado pelos peregrinos, mas a guerra no Oriente Médio levou muitos grupos a buscar alternativas. França, Portugal, Itália e Espanha ganharam espaço nos roteiros organizados por agências especializadas.
Apesar da tradição laica francesa, o país abriga alguns dos locais mais importantes do catolicismo. Paris, Lourdes, Chartres e Lisieux estão entre os destinos mais procurados pelos brasileiros.
Uma viagem diferente do turismo convencionalEntre os participantes da peregrinação está a analista financeira Sandra Guardalben, moradora de Santo André, no ABC Paulista. Católica desde a infância, ela participa da terceira viagem internacional com motivação religiosa.
Antes da França, Sandra percorreu sozinha o Caminho de Santiago de Compostela, na Espanha, e visitou santuários italianos com a mesma agência. Para ela, a grande diferença está no propósito da viagem.
“A gente acaba deixando de lado as compras, os shoppings, os restaurantes importantes, a moda, e foca mais na parte religiosa da fé”
Ela afirma que a presença de um padre brasileiro com o grupo é o que diferencia o turismo católico.
“A gente tem a oportunidade de participar de uma missa diária com um ‘professor’, que, além do lado espiritual, ensina para a gente o verdadeiro sentido das histórias de cada local, dos santos, dos milagres. Isso é muito importante, é um diferencial grande”, conta.
Além de visitas aos santuários, missas e momentos de aprendizado religioso, os católicos também passam por pontos turísticos clássicos de Paris, como a Torre Eiffel, o Arco do Triunfo, e passeiam de barco no rio Sena.
Peregrinação como experiência espiritualO grupo, acompanhado pela reportagem da RFI, é orientado pelo padre Fernando Rocha Zapaterro, da Diocese de Santo André. Segundo ele, o objetivo vai além do turismo.
“Em geral, os brasileiros quando saem do Brasil, em primeiro lugar, querem viajar. Mas todas as vezes que eu faço uma peregrinação, todos os que viajam comigo já sabem que é para ter um momento de uma experiência religiosa profunda”, explica.
“Para poder viver nos santuários um pouco daquilo que aconteceu naqueles lugares, que são lugares para conversão. Para uma nova mudança de vida, para um aprofundamento na fé. Eu normalmente falo isso para os peregrinos e, de algum modo, tento imprimir isso também no coração deles”, diz.
Para o sacerdote, as peregrinações oferecem aos participantes uma oportunidade de reflexão e até de transformação pessoal.
“Já teve casos de gente que se converte em peregrinações. Gente que vai porque alguém convidou, um familiar, alguém indicou. Acaba indo junto e, no fim das contas, acaba tendo uma grande conversão.”
Enquanto a chegada de Leão XIV mobiliza católicos na França, os brasileiros que já estão no país seguem o caminho das peregrinações que terminarão com uma missa no Duomo de Milão, a famosa catedral de estilo gótico, na Itália, local histórico da fé cristã. E, de volta para casa, levarão a mesma expectativa que acompanha a chegada de um papa: fortalecer a fé.
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A expectativa pela visita do papa Leão XIV à França é grande entre as freiras que vivem na Casa-Mãe da Companhia das Filhas da Caridade de São Vicente de Paulo, convento localizado no Palacete de Châtillon, na Rue du Bac, no centro de Paris. Instaladas ao lado da Capela Nossa Senhora da Medalha Milagrosa, um dos locais de peregrinação mais frequentados por católicos do mundo inteiro, elas acompanham diariamente a chegada de grupos de todas as nacionalidades, inclusive muitos brasileiros em busca de oração, graças e renovação da fé.
Luiza Ramos, da RFI em Paris
A congregação, fundada na França por São Vicente de Paulo e Santa Luísa de Marillac, está presente em 97 países. A casa-mãe atualmente reúne cerca de 150 religiosas de mais de 20 nacionalidades, além de abrigar o centro internacional de formação e a administração da instituição.
Natural do Paraná e há quase oito anos na França, a irmã Isel explica que muitas religiosas passam por Paris para conhecer a história da congregação e aprofundar sua formação espiritual. “A casa-mãe é o centro internacional e também é um lugar onde as irmãs vêm primeiramente para receber uma formação de 15 dias a um mês. Como a congregação surgiu aqui na França, elas têm a oportunidade de ir às cidades onde nasceram e viveram os fundadores”, detalha.
“Esta casa é o reflexo dessa internacionalidade da congregação. As irmãs vêm para poder servir nos diversos serviços de que nós temos necessidade, tanto no nível da acolhida das irmãs nessa parte de formação quanto para acolher os peregrinos que vêm à capela”.
Enquanto algumas freiras permanecem apenas algumas semanas em Paris, outras são enviadas para missões mais longas, como é o caso das religiosas brasileiras que atuam no acolhimento dos peregrinos na Capela da Medalha Milagrosa.
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Brasileiros chegam em busca de oração e agradecimentoEntre elas está a irmã Roselena, mineira que vive na França há dois anos e meio. Ela conta que os visitantes brasileiros costumam chegar à capela já cientes da presença de freiras conterrâneas e as procuram diretamente para se aconselhar e pedir informações. “Eles sempre procuram: ‘Tem alguma brasileira? Ah, fiquei sabendo, já perguntei se tinha uma brasileira. É você?’”, conta ela.
“Eles vêm mesmo para agradecer a Deus e para pedir também alguma coisa. Porque nós precisamos sempre de alguma coisa, sobretudo da ajuda do alto. E eles vêm com muita fé, bem entusiasmados. Eles dizem que saem daqui diferentes. Muitos chegam a chorar, ficam emocionados”, relata Roselena.
A religiosa observa que excursões vindas do Brasil chegam diariamente ao local. Além de participar de missas em português ou mesmo em francês, os peregrinos brasileiros são os que costumam comprar mais medalhas e objetos religiosos na lojinha da capela para familiares e amigos.
A irmã Eriane, paraense da Ilha do Marajó, há três anos em Paris, percebe uma diferença marcante entre os brasileiros e muitos visitantes estrangeiros. “O peregrino brasileiro é barulhento”, brinca. “Mas quando entra na capela, se recolhe”.
“No momento de oração, a gente percebe essa piedade muito grande. Enquanto os outros entram por curiosidade para olhar o que tem na capela e perguntam, o brasileiro não; ele vem com essa vontade de rezar e de encontrar Deus e encontra de fato ali na capela”, afirma Eriane.
Segundo ela, muitos peregrinos chegam esperando visitar um grande santuário dedicado a Nossa Senhora das Graças, mas se surpreendem com a simplicidade da Capela da Medalha Milagrosa, conhecida mundialmente pelas aparições marianas a Santa Catarina Labouré, em 1830.
Visita do papa Leão XIV à FrançaA proximidade da visita do papa Leão XIV a Paris alimenta ainda mais a mobilização da comunidade religiosa. Os eventos, que passarão também pelas cidades de Lourdes e Metz, devem reunir cerca de 1 milhão de pessoas no total, segundo os organizadores.
Para a irmã Conceição, de Fortaleza, no Ceará, “a vinda do papa renova a fé e desperta outras pessoas para descobrir Deus”. “É uma alegria que nos emociona”, diz, referindo-se à missa aberta ao público na praça da Concórdia e na Avenida Champs-Élysées em 26 de setembro, que deve receber pelo menos 500 mil fiéis.
A presença do pontífice representa uma oportunidade de renovação espiritual para a Igreja na França, mas a programação de dois dias na capital não contempla passagem pela Capela da Medalha Milagrosa.
“A gente lamenta que ele não venha aqui, mas a gente sente que todas as irmãs de todas as línguas, de todas as nações aqui reunidas, vibram por esse momento de se encontrar com o papa”.
A freira recorda que, apesar de ser um país frequentemente associado à laicidade, as inscrições para os eventos abertos ao público e gratuitos esgotaram rapidamente, enquanto estima-se que outras 150 mil pessoas devam acompanhar o percurso do papamóvel em Paris. Em um contexto de declínio da prática religiosa na França, ela vê a visita como uma oportunidade de renovação para a Igreja Católica no país.
“A quantidade de pessoas que se inscreveu é imensa. Mesmo em um país em que a fé católica já diminuiu bastante. Eu acho que a vinda do papa aqui na França serve para renovar a religião católica aqui”, conclui irmã Conceição.
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