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Santo Antônio, um dos santos mais populares em Portugal, é comemorado de formas muito diferentes em todo o mundo neste mês de Junho. Do Brasil à Índia, do Timor a Macau, a devoção ao religioso foi difundida pelos portugueses. Conhecido como o santo casamenteiro, Santo Antônio é bastante celebrado no Brasil com encenações de casamentos, simpatias, bandeirinhas coloridas e comidas típicas.
Letícia Fonseca-Sourander, correspondente da RFI em Lisboa
Basta entrar o mês de junho para que os brasileiros comecem a se programar para as tradicionais festas juninas. Nesta época, os arraiás se espalham por todo o país, de norte a sul, ganhando contornos e sabores regionais. Santo Antônio é o primeiro a ser homenageado, no sábado, 13 de junho, data em que é aberta a temporada dos festejos dos santos populares, que reúne milhões de pessoas e movimenta bilhões de reais, ficando atrás apenas do Natal e do Carnaval.
São muitas as tradições ligadas ao religioso, e o “pão de Santo Antônio”, costume que vem da França do século XIX, é uma das mais populares em Portugal. O antropólogo Pedro Teotónio Pereira, diretor do Museu de Santo Antônio em Lisboa, explica à RFI que “o pão é vendido nas igrejas de Santo Antônio e deve ser guardado de um ano para o outro para que não falte alimento em casa”.
Santo Antônio, o casamenteiro, ganhou essa fama no século XVII, em Portugal, quando ajudou uma mulher a se casar com quem realmente amava, em uma época em que os matrimônios eram arranjados pelos pais.
Mas os pedidos para que Santo Antônio arranje namorados ou maridos permanecem atuais nos dois lados do Atlântico. Caso eles demorem a ser atendidos, o santo é mergulhado de cabeça para baixo na água, virado para a parede ou colocado em um poço, até que o protetor das moças encontre um amor para as donzelas, ou nem tanto assim.
Vida & obraSanto Antônio, ou Fernando Martins de Bulhões, nasceu em 1191, em Lisboa, em plena reconquista da Península Ibérica pelos reinos cristãos das mãos dos muçulmanos. Segundo filho de uma família burguesa, coube a Fernando escolher entre a carreira militar ou a vocação religiosa. Aos 18 anos, ele decide tomar o hábito de Cônego Regrante de Santo Agostinho e, mais tarde, segue para Coimbra, onde vive mais dez anos, aprofundando os seus estudos e conhecimentos.
Em Coimbra, ele encontra cinco frades franciscanos que iriam evangelizar o Marrocos, mas que são martirizados quando chegam ao país. Os restos mortais dos frades são enviados de volta a Coimbra, e o noviço Fernando fica tão abalado com o episódio que decide passar para a Ordem dos Franciscanos, mudando o seu nome para Antônio.
Santo Antônio tinha uma inteligência fora do comum e um conhecimento extraordinário; ele sabia a Bíblia quase de cor. Segundo Pedro Teotónio Pereira, São Francisco de Assis vai entender que é preciso alguma erudição, além de ajudar os pobres.
“Santo Antônio revela todo o seu conhecimento que tinha das Escrituras e vai ser considerado por São Francisco o primeiro teólogo franciscano”, ressalta.
O Milagre dos PeixesNão se conhecem milagres de Santo Antônio em vida; só depois é que vão sendo revelados. Quando ele morreu em Arcela, nos arredores de Pádua, as crianças nas ruas intuíram e começaram a gritar: Morreu o Padre Santo! Morreu Santo Antônio!
Quando o seu corpo foi transladado para Pádua, três dias depois de sua morte, há relatos de muitos milagres, e são estes milagres que vão acompanhar o seu processo de beatificação.
“Santo Antônio distingue-se como um grande taumaturgo; ele é conhecido pela quantidade de milagres que fez. É curioso porque, no processo de beatificação de Santo Antônio, os seus milagres foram muito ligados à cura de doentes. Só mais tarde vão ser acrescentados, ao longo dos anos, outros tipos de milagres”, comenta o antropólogo.
O Sermão aos Peixes é o milagre mais famoso de Santo Antônio e acontece quando o religioso vai a Rimini, na Itália, para tentar converter os hereges. Sem sucesso, Santo Antônio anda até o mar e fala com os peixes: “vocês também são filhos de Deus e entendem o que eu tenho a dizer”. É quando peixes começam a aparecer, de cabeça de fora, mostrando atenção ao seu sermão. Isso provoca um impacto muito grande junto aos hereges que estavam assistindo à cena e, assim, Santo Antônio consegue convertê-los.
Festas nas ruas de LisboaEm junho, Lisboa traz o seu coração para fora e comemora o Sant’Antoninho, um dos padroeiros da cidade, tratado quase como um membro das famílias portuguesas. Os lisboetas se alegram nos arraiás celebrados nos bairros populares, onde se vendem sardinhas e chouriço assados.
A programação é extensa nesta sexta-feira e sábado, com destaque para os casamentos de Santo Antônio celebrados na Igreja da Sé, a bênção com a relíquia do santo, as missas, as marchas populares na Avenida da Liberdade e a procissão de Santo Antônio, que percorre o bairro de Alfama e convida as imagens de São João, São Miguel, Santo Estevão, São Vicente e São Tiago a participarem da procissão.
O Museu de Santo Antônio de Lisboa é um mergulho na vida e na obra do religioso. É possível acompanhar o percurso deste santo, protetor dos lares e das famílias, padroeiro dos marinheiros, pescadores e animais, entre outros. Também conhecido como Santo Antônio de Pádua, onde viveu os seus últimos anos de vida e onde teve a aparição do Menino Jesus.
Com o torneio de Roland-Garros chegando ao fim, o desempenho do carioca João Fonseca, que alcançou as quartas de final, trouxe entusiasmo aos torcedores brasileiros. Mas não foi apenas no circuito profissional que o país chamou atenção em Paris. A participação consistente das novas gerações, nas categorias juvenis, indica um cenário promissor para o tênis nacional nos próximos anos.
Maria Paula Carvalho, de Roland-Garros
A avaliação é compartilhada por um nome experiente do circuito. O duplista Marcelo Demoliner, que chegou às quartas de final nesta edição do torneio, vê um momento especialmente positivo para o tênis no Brasil.
“Eu acho que o tênis brasileiro está vivendo um momento maravilhoso, tanto no profissional, como isso também faz com que a nova geração acredite mais nela, vendo que os profissionais estão chegando”, disse em entrevista à RFI. "O contato que temos com eles é importante para passar experiência e confiança de que eles também podem chegar. A gente vai ter aí uns dez anos de um bom ciclo no tênis brasileiro”, aposta.
Nas arquibancadas, o entusiasmo também é evidente. A torcedora Gabriela Costa destacou o nível apresentado pelos jovens atletas. “É muito impressionante. O nível dos juniores já é impressionante de ver. A próxima geração está vindo forte, inspirada pelo João”, disse.
Os resultados confirmam essa impressão. Jovens tenistas brasileiros acumulam vitórias importantes em simples e duplas, evidenciando a força da base e a renovação do esporte.
Entre os destaques, o goiano Luis Guto Miguel, de 17 anos e número 4 do mundo no ranking juvenil, alcançou a semifinal, ao vencer, na quinta-feira (4), o austríaco Thilo Behrmann por dois sets a um, com parciais de 6/4, 1/6 e 6/3.
Já Leonardo Storck França avançou após derrotar o americano Jack Kennedy com um tie break nas quartas de final por 6/3 e 7/6 (7-1).
O percurso até esse nível é resultado de anos de trabalho. Eduardo Frick, CEO da Rio Tennis Academy, onde Leonardo treina, detalha essa trajetória. “O Leonardo está conosco desde os 13 anos. Ele chegou de Cuiabá e mora na academia. É um trabalho de quase três anos e meio. Ele conquistou a vaga ao vencer o Roland-Garros Junior Series, um projeto de parceria entre a Federação Francesa de Tênis e a Federação Sul-Americana”, explica.
Frick também destaca características técnicas do atleta: “Ele tem um diferencial que eu gosto muito, que é a esquerda com uma mão. Hoje em dia isso é raro. Mas ele precisa transformar isso em vantagem. É um menino com um jogo bonito, com muita garra e evolução mental.”
Victoria Barros, um talento em ascensãoOutro nome que chamou atenção foi o da jovem Victoria Luiza Barros. A brasileira se classificou para a semifinal nesta quinta-feira, após uma virada sobre a sul-coreana Ha Num Lee, com parciais de 2/6, 6/1 e 6/4 — resultado superior ao desempenho de 2025, quando parou na terceira rodada.
A tenista destaca a importância da consistência no processo.
“Eu sou muito focada no dia a dia, em cada momento na quadra, em cada bola. Venho de bons jogos e de um bom processo. Claro que trabalho para chegar ao profissional, mas é passo a passo. Fico feliz com o reconhecimento, confio em mim, mas preciso seguir no meu ritmo”, disse à RFI.
Essa confiança, sobretudo o talento, chamou a atenção de quem acompanha de perto o tênis feminino latino-americano. Após a carreira como jogadora, Claudia Van der Weck consolidou-se como treinadora internacional, atuando especialmente na formação de atletas e no circuito juvenil. Depois de trabalhar com nomes de destaque do tênis brasileiro, como a gaúcha Miriam D’Agostini, ela afirmou à RFI que viu algo diferente na jovem Vitória.
“Eu fiquei em estado de choque. Assisti ao jogo e não podia acreditar no que estava vendo. Porque eu conheço três ou quatro gerações de brasileiras, incluindo a Maria Esther Bueno, mas nunca vi um talento como Victoria Barros. Além de ter todos os golpes, ela tem uma direita muito forte, talvez como a Sabalenka, quando ela acelera e imprime muita potência”, afirma. "Eu vi isso na Barros e fiquei em choque. Depois vi o saque e fiquei apaixonada, pois é tecnicamente perfeito. Vi algo que não via há muito tempo: ela desfruta do jogo. Eu vi uma quantidade de coisas que, em 15 anos, eu não via em uma juvenil no mundo. Ela é um diamante”, compara.
Mesmo aqueles que não avançaram no torneio mantêm a ambição. O brasiliense Pedro Chabalgoity, 18 anos, sonha com o futuro. “Quero voltar aqui. Tenho o sonho de ganhar esse torneio, mas é pensar no passo a passo. Pensar muito no futuro traz ansiedade”, diz.
O contato direto com o circuito profissional também tem impacto importante na formação dos jovens. Nauhany Vitória Leme da Silva, a Naná, 16 anos, destacou a inspiração ao conviver com atletas de elite. “Fico muito feliz de estar aqui com os profissionais. Ontem a Bia Haddad Maia estava assistindo ao meu jogo. É uma referência. Ver como elas treinam, como se comportam, isso é muito importante”, afirma.
Transição promissoraA edição de 2026 de Roland-Garros já entrou para a história do tênis brasileiro. Até o momento, é o Grand Slam com maior número de vitórias do país: 35 ao todo, superando as 26 registradas no US Open de 2014.
O desempenho coletivo reforça a percepção de que o Brasil atravessa uma fase de transição promissora, com uma nova geração capaz de sustentar resultados no médio prazo e ampliar a presença do país no cenário internacional.
Com temperaturas excepcionalmente altas em Paris, o público tem lotado o complexo de Roland-Garros, na zona oeste da capital francesa, onde são disputados esta semana os torneios de simples e de duplas do Grand Slam francês no saibro. Sob sol forte, os torcedores enfrentam o calor para acompanhar de perto os jogos e também para apoiar os brasileiros na competição.
Maria Paula Carvalho, de Roland-Garros
“Está difícil, mesmo para um carioca está muito difícil, porque a maioria das quadras externas ficam no sol o dia todo e tem uma hora que o carisma acaba”, relatou à RFI a torcedora Júlia Febraro.
Se nas arquibancadas o calor impõe desafios, dentro de quadra as condições também influenciam diretamente o jogo. O carioca Fernando Romboli, número 73 do ranking da ATP de duplas, foi um dos afetados. Ele perdeu na estreia ao lado do australiano John-Patrick Smith, por dois sets a um.
“Está fazendo esse calor aqui em Paris já há uns cinco ou seis dias, então as condições a gente já estava acostumado. A bola quica mais por causa do calor, porque ela fica mais dura. Quando há umidade, mais frio, a bola fica mais macia, então ela anda menos, pica menos na quadra e o jogo fica mais lento”, explicou o tenista.
Além de Romboli, outros três brasileiros entraram em quadra, na quarta-feira (27) pelo torneio de duplas. A única a avançar para a próxima fase foi a paulista Luisa Stefani. Aos 28 anos, número 9 do ranking de duplas da WTA, ela estreou com vitória ao lado da canadense Gabriela Dabrowski, número 4 do mundo na modalidade. A dupla chegou embalada pelo título do WTA 500 de Estrasburgo, conquistado na semana passada, e confirmou o bom momento em Paris, com triunfo em sets diretos, por 6/2 e 6/3, contra a holandesa Isabelle Haverlag e a britânica Maia Lumsden.
“Estou super feliz de estar de volta. Sempre vejo como uma linda oportunidade estar de volta em um Grand Slam, é onde a gente quer ter as nossas melhores semanas. E estou feliz com a estreia também", disse. "Está bem calor e as condições estão mais rápidas, diferente de Estrasburgo. A gente vem de um título lá, então acho que é continuar com as mesmas intenções, melhorando, usando essa confiança, mas sentindo o jogo. Hoje elas acabaram dando muitos pontos de graça, a gente manteve a pressão do começo ao fim, sabendo que impondo o nosso jogo elas teriam que jogar bem, mas a gente fez um jogo bem firme”, analisou Stefani.
"Frustração" nas duplas masculinasJá os gaúchos Orlando Luz e Rafael Matos, que estrearam como cabeças de chave número 16, foram eliminados na primeira rodada. Eles foram superados pela dupla formada pelo americano Evan King e o sueco Andre Goransson, em dois sets. Os brasileiros chegaram a sair na frente, mas viram os adversários levarem o primeiro set ao tiebreak e dominar o restante da partida.
Após a derrota, Orlando Luz lamentou o resultado e destacou a expectativa da dupla em torneios desse nível.
“Não tem como entrar num torneio sem expectativa. A gente queria fazer um bom torneio, uma boa semana, como todos os outros. A gente fez quartas de final na Austrália, ano passado eu tinha feito quartas aqui, o Rafa fez quartas em Wimbledon. Em Grand Slam a gente sempre imagina chegar na segunda semana, é o objetivo. Então fica um pouco a frustração”, disse à RFI.
Rafael Matos volta à quadra nesta quinta-feira (28) para a disputa de duplas mistas, ao lado da espanhola Cristina Bucsa. O tenista ressaltou a importância de virar a página após a eliminação.
“Melhor de três tem que ganhar dois sets, perder o primeiro vai acontecer muitas vezes, hoje a gente deixou cair nesse início e eles aproveitaram, fizeram a quebra e mantiveram até o final", avaliou. "Agora vamos esquecer hoje e amanhã é um novo dia, uma nova competição. Assim é o tênis, uma nova semana, jogo a jogo”, afirmou.
João Fonseca enfrenta DjokovicA grande expectativa do Brasil em Roland-Garros segue sendo o carioca João Fonseca. Na quarta-feira, ele venceu de virada o croata Dino Prizmic, número 72 do ranking da ATP de simples. O brasileiro vai enfrentar, pela primeira vez, o sérvio Novak Djokovic, na sexta-feira (29), pela terceira rodada do torneio.
Em entrevista aos jornalistas após a partida, disse:
“Vai ser duro. Quero aproveitar essa experiência, mas chegar à terceira rodada já é um sonho. Eu o respeito, mas farei o máximo para vencer”.
Fora das quadras, o jovem tenista mobiliza torcedores.
"Fomos buscar, brasileiro é guerreiro. Estamos aqui no sol, mais de 5 horas em pé, mas o João mereceu muito", disse Gabriel Batista, médico de passagem por Paris.
Uma família que veio de São Paulo acompanhou de perto um treino do brasileiro e comemorou o contato com o jogador.
“Muito quente, mas muito legal. Muitos jogos importantes. Acabamos de ver o João Fonseca treinando com as crianças e eles ficaram muito felizes de vê-lo. Ele autografou a bola, e hoje até os pais viraram crianças”, contou um dos integrantes.
O entusiasmo se repete entre brasileiros que vivem em Paris. Para Bernardo, professor carioca radicado na capital francesa, o apoio das arquibancadas pode ser um diferencial.
“Eu acho que ele tem carisma, ele é do Rio, a gente também, isso conta. E o estilo de jogo dele: tem um saque e uma direita impressionantes. A energia que ele passa é muito legal”, avaliou.
Com o respaldo da torcida e em meio a condições desafiadoras, João Fonseca tenta avançar no torneio e confirmar o bom momento do tênis brasileiro em Roland-Garros.
A nova Lei da Nacionalidade, que acaba de entrar em vigor em Portugal repleta de alterações, mudou o destino de milhares de pessoas, entre elas, os descendentes de judeus sefarditas, agora impedidos de obter a cidadania portuguesa. Desde 2015, quem comprovasse a descendência dos antigos judeus ibéricos perseguidos podia se naturalizar no país sem os habituais requisitos de residência e domínio da língua. Mais de 400 mil processos de nacionalidade pela via da descendência sefardita ainda aguardam resposta do governo português.
Letícia Fonseca-Sourander, correspondente da RFI em Lisboa
Há mais de 500 anos, Portugal expulsou milhares de judeus de seu território e obrigou os que ficaram a se converter ao catolicismo. Uma reparação histórica foi aprovada em 2015, mas as portas se fecharam agora com a nova Lei da Nacionalidade. Para a comunidade, o fim do regime especial de concessão da cidadania portuguesa pela ancestralidade sefardita inviabilizou bem mais do que um meio de adquirir a nacionalidade. A mudança impediu um retorno simbólico às raízes dos antepassados que viveram em Portugal antes da diáspora.
A antropóloga Marina Pignatelli, professora de antropologia da Universidade Técnica de Lisboa (ISCSP) e pesquisadora do CRIA, Centro em Rede de Investigação em Antropologia, diz que “muitos requerentes ao fazerem a busca genealógica encontraram essas raízes judaicas e se encantaram com elas. Eles acabaram por desenvolver uma ligação forte com Portugal, com as terras onde os antepassados tinham origem”.
Pignatelli tem uma impressão ambivalente sobre as mudanças na lei. “Por um lado a lei foi justa, devia continuar aberta, porque se é uma reparação histórica não deveria ter um limite temporário. Mas por outro lado, a lei foi toda mal feita desde o início, e os quesitos de como as pessoas deviam fazer o processo foram bastante arbitrários”, esclarece.
“Então, isso permitiu que as comunidades judaicas em Portugal criassem critérios diferentes para as pessoas se habilitarem ao passaporte", aponta a antropóloga. "Essa duplicidade criou confusão, dúvidas sobre o processo e começaram a haver críticas em nível político ao governo português por estar 'vendendo' os passaportes. E isso nunca devia ter acontecido. Isso é um processo de reparação histórica que não devia ter a ver com política, nem com mercantilização”, conclui.
A advogada Ana Pacheco Araújo, especialista em imigração e direito internacional afirma que as pessoas que foram afetadas pela extinção desta via sefardita vão sofrer consequências em muitas décadas. “Nós vamos ter famílias inteiras em que metade é portuguesa, metade não é. Ou que o pai é, e o filho não é; que o filho é, e o pai não é. Então, é necessário também algum tipo de legislação para resolver estas questões mal resolvidas pela Assembleia da República”, pondera.
Pacheco Araújo chama a atenção para a forma abrupta da mudança do sistema. "Não se trata de término de direito por limitação da própria reparação ou que a reparação histórica já foi realizada. A limitação se dá pela ingerência estatal em não conseguir analisar os milhares de processos que estão sendo submetidos, em não criar regulamentação da lei, e com isso, a grande culpa foi jogada aos descendentes, e não na falta de estruturas mais rígidas de análise, o que é muito complicado porque o objetivo pelo qual a lei foi criada simplesmente foi esvaziado.”
Quando o presidente português, António José Seguro, promulgou a nova Lei da Nacionalidade, no início do mês, ele pediu que os processos pendentes não fossem afetados. Com a publicação da lei e suas alterações no Diário da República, o Instituto dos Registos e do Notariado (IRN), órgão do Ministério da Justiça de Portugal, confirmou que o que irá definir a aplicação ou não das novas regras é a data de submissão do pedido de cidadania na plataforma online do IRN. Há cerca de 700 mil processos em curso no IRN, sendo a maioria de brasileiros. Mais da metade dos pedidos de nacionalidade portuguesa pendentes são de descendentes de judeus sefarditas.
O empresário mineiro Sérgio Mendes conseguiu comprovar suas raízes judaicas ainda quando morava no Brasil. No ano passado, quando recebeu o título de residência, decidiu mudar para Portugal com a família; mas assim como milhares de pessoas, Sérgio está aguardando a cidadania portuguesa pela via sefardita. “No início, fiquei decepcionado com as mudanças da lei, mas mesmo assim vou continuar morando aqui em Portugal esperando o meu processo avançar”, conta.
Jordania Benevides, presidente da Associação dos Descendentes de Judeus Sefarditas em Portugal, comenta que o fim da concessão da cidadania portuguesa provocou decepção na comunidade, que se mobiliza. "Nós protocolamos uma petição junto ao Parlamento e os descendentes não a estão assinando porque estão descrentes com a nova lei. Eles acreditam que não tem como retornar, e isso gera um sentimento de tristeza e uma grande decepção", relata.
Origem
Os judeus sefarditas são descendentes das antigas e tradicionais comunidades judaicas da região de Sefarad, na Península Ibérica. A presença deste povo na Ibéria – nome dado à região pelos romanos em homenagem ao rio Iberus, o Ebro – é anterior à formação dos reinos ibéricos cristãos como Portugal, que foi criado no século XII.
A partir do final do século XV, essas comunidades judaicas começaram a ser perseguidas pela Inquisição espanhola e muitos de seus integrantes se refugiaram em Portugal. Na época, o rei D. Manuel I promulgou uma lei que garantia proteção dos judeus sefarditas. Porém, em 1496 o monarca determinou a expulsão de todos os que não se sujeitassem ao batismo católico. Foi quando muitas famílias hebraicas abandonaram o país e se estabeleceram em outras nações mais tolerantes, entre elas, o Brasil que acabava de ser colonizado.
Com a conversão forçada, decretada por D. Manuel I, deixaram então de existir oficialmente judeus em Portugal. A denominação cristãos-novos escondia a origem judaica. Os judeus sefarditas de origem portuguesa e seus descendentes mantiveram não só a língua portuguesa mas também seus sobrenomes.
Os sobrenomes dos judeus sefarditas mais frequentes no Brasil e que constavam nos arquivos da Inquisição são: Albuquerque, Almeira, Álvares, Azeredo, Barros, Bragança, Branco, Cardoso, Carneiro, Carvalho, Castelo Branco, Chaves, Coelho, Correia, Cruz, Cunha, Dantas, Espírito Santo, Ferreira, Fonseca, Henriques, Jesus, Leão, Lobo, Lopes, Macedo, Melo, Mendes, Menezes, Miranda, Monte, Moreno, Negro, Noronha, Oliveira, Pacheco, Paredes, Pereira, Pinheiro, Raposo, Rios, Rodrigues, Santarém, Santos, Serra, Silva, Silveira, Valle, Vasconcelos e Ximenes.
A coprodução brasileira "Seis Meses no Prédio Rosa e Azul", do diretor mexicano Bruno Santamaría Razo, estreou em Cannes na mostra paralela Semana da Crítica. O longa é inspirado nas memórias do cineasta, mais precisamente no momento em que ele tinha 11 anos, nos anos 1990, quando o pai foi diagnosticado com o vírus HIV.
Adriana Brandão, enviada especial da RFI a Cannes
O longa foi elogiado pelo jornal Libération. “A memória vibrante do mexicano Bruno Santamaria Razo tem uma audácia incrível”, escreve o diário francês. Rodado em 16 mm, “Seis Semanas no Prédio Rosa e Azul” é um filme híbrido, que mistura ficção e documentário.
Com cores vivas e muita alegria, Bruno Santamaría Razo relembra a época de seu aniversário de 11 anos, quando começava a descobrir sua sexualidade e não compreendia completamente a situação após o diagnóstico do pai. A tensão do momento foi esquecida, como um trauma, durante quase 30 anos e veio à tona durante a pandemia de Covid-19.
“Durante a pandemia, eu tinha uma sensação de medo, de estranhamento, de incômodo no corpo, e senti que isso tinha relação com a memória do passado. Entrevistei minha família para tentar entender e, depois de entrevistá-los, fiquei muito comovido, muito tocado por algo que tem a ver com a desconfiança. Fiquei muito mais confuso”, conta.
Para entender melhor o que estava sentindo, começou a escrever as lembranças que tinha.
“Ao escrever, percebi que a memória não era suficiente, como se eu não conseguisse acessar uma emoção real. E, de repente, percebi que comecei a inventar, a inventar deliberadamente, a imaginar. Entrelaçava memória, imaginação, entrevistas. Continuei fazendo isso repetidamente e percebi que estava escrevendo um roteiro de ficção. Naquele momento, me encantei com a ideia de fazer um filme para, a partir da imaginação, voltar a olhar algo que, de outra maneira, seria impossível”, lembra.
Bruno Santamaría Razo revela que a tensão entre afeto e sofrimento foi retratada no filme com muita alegria, música e festa, muito presentes em sua família e na cultura mexicana.
“Cresci ouvindo muita música salsa. Sou fascinado pela salsa, gosto de dançar, de ouvir. E algo que me emociona muito, que me arrepia, é que as letras falam de sofrimento, de traição, de dor, de morte, mas nós dançamos, cantamos, nos movimentamos. E essa sensação, para mim, era central para entender como vivemos na minha família. Apesar da dor e do sofrimento, colorimos as paredes e nos pusemos a dançar”, afirma.
Passado e presente“Seis Semanas no Prédio Rosa e Azul” tem duas camadas. O passado, reconstruído pela ficção, e o presente em uma linguagem documental, feito de entrevistas com a família de Bruno Santamaría Razo. O mexicano já trabalhava no cinema como diretor de fotografia e assina com “Seis Semanas no Prédio Rosa e Azul” seu primeiro longa-metragem.
“Queria deixar claro que o filme não é apenas compartilhar uma história, mas mostrar que existe alguém que quer voltar a olhar o passado, que está buscando, que está tentando sentir algo que de outra forma seria impossível no próprio corpo, mas também pela relação entre passado e presente. Ou seja, a encenação é o passado e as entrevistas são o presente. Então esse espaço tão grande de 30 anos entre a lembrança e o momento em que esse jovem decide fazer um filme me interessava muito que estivesse no centro da história”, explica.
Rachel Daisy, da produtora Desvia, produziu o longa “Seis Semanas no Prédio Rosa e Azul”.
“A gente chegou ao projeto em 2023. Já tínhamos trabalhado com o Bruno Santamaría, que foi diretor de fotografia em outro filme. Eu me apaixonei imediatamente pela história e pela maneira como ele queria contar essa história muito pessoal da família dele. Conseguimos acessar um fundo de coprodução no Brasil nessa altura, ganhamos e seguimos”, conta.
Projeto coletivoO longa é uma coprodução do México (Ojos de Vaca), Brasil (Desvia) e Dinamarca (Snowglobe). A pós-produção de “Seis Semanas no Prédio Rosa e Azul” aconteceu principalmente no Brasil, concluindo um projeto “coletivo e colaborativo”, segundo a produtora.
“Eu acho que fazer coprodução é muito bonito, porque temos essa possibilidade de troca, de olhares, cultura e maneiras de trabalhar que eu percebo que, no nosso trabalho, sempre beneficiam muito os projetos. O fato de ter uma participação grande brasileira na pós-produção, tanto na montagem quanto no som e nos efeitos especiais, traz a possibilidade de troca, de pensar o filme com um alcance maior. Com certeza contribuiu para o resultado tão lindo do filme”, diz Rachel.
Os vencedores da Semana da Crítica foram anunciados nesta quarta-feira, 20. O grande vencedor foi “La Gradiva”, da francesa Marine Atlan. “Seis Semanas no Prédio Rosa e Azul” não foi premiado na mostra paralela, mas o longa de Bruno Santamaría Razo ainda concorre a dois prêmios em Cannes, o Queer Palm e o Caméra d’Or, que recompensa o melhor primeiro filme apresentado em todas as mostras do festival.
O mistério que rondava a convocação da seleção brasileira para a Copa do Mundo acabou. O técnico Carlo Ancelotti definiu nesta semana os 26 jogadores que vão disputar o Mundial deste ano. E no grupo que vai vestir a amarelinha está Neymar.
Marcio Arruda, da RFI em Paris
O camisa 10 do Santos vai se juntar a um seleto grupo de brasileiros que jogaram quatro Copas. Só Pelé (1958/62/66/70), Ronaldo Fenômeno (1994/98/2002/06), Cafu (1994/98/2002/06), Nilton Santos (1950/54/58/62), Djalma Santos (1954/58/62/66), Castilho (1950/54/58/62) e Emerson Leão (1970/74/78/86) jogaram quatro Mundiais.
O técnico Ancelotti, que convocou Neymar pela primeira vez desde que assumiu a seleção, explicou a escolha pelo camisa 10 do Brasil nas últimas três Copas.
“Vimos a evolução do Neymar durante o ano e vimos que, nesse último período, ele melhorou sua condição física. O Neymar tem a possibilidade de jogar, de não jogar e de estar no banco e entrar”, explicou Ancelotti.
A convocação de Neymar dividiu opiniões por ainda não ter voltado a apresentar o futebol que o mundo já viu.
1% de chance e "100%" de féO jornalista Carlos Eduardo Mansur, que cobre Copas do Mundo desde 1998, falou sobre a convocação do jogador do Santos.
“No fundo, o que me parece é que, diante de uma lista de atacantes do Brasil que não tem tanto peso, ou não tem o peso de outros tempos, prevaleceu uma fé de que, no grande palco, esse talento que está aprisionado num corpo que no momento não permite ao Neymar executar os movimentos técnicos de outros tempos, esse talento vai aflorar e que algo genial, ou algum lampejo, possa acontecer e ser decisivo”, disse Mansur.
“Enfim, é um exercício de fé mesmo porque é algo que não vem acontecendo nos jogos do Neymar, mas que se espera que numa Copa do Mundo ele, por ter uma qualidade ainda que guardada ou adormecida, e que outros não têm, possa executar isso.”
Seleção é extensão do povoO jornalista Eric Faria, que cobre Copas desde o Mundial disputado na África do Sul, disse que a convocação de Neymar está atrelada à vontade popular.
“Nesse ano, o Neymar fez jogos espetaculares a ponto de todo mundo se comover e falar que ele precisaria ir para a Copa do Mundo? Eu não acho. A figura que o Neymar representa para o torcedor brasileiro e a festa que foi feita aqui no Brasil pela convocação dele faz com que a gente tenha de olhar com bons olhos para esta convocação, sabe? Em algum momento, eu achei que ele não deveria ir para a Copa”, declarou Eric.
“Agora, talvez olhando para o que foi toda a manifestação popular, acho que é uma convocação justa porque a seleção é também um pouco a extensão do povo. A seleção joga para o torcedor brasileiro. E se o torcedor brasileiro está feliz com a convocação do Neymar, então eu acho que o Ancelotti acertou na ida dele para a Copa”, completou.
"Agora, se ele vai jogar, quanto tempo ele vai jogar e como ele vai jogar, aí é uma discussão para os próximos capítulos."
Carlo Ancelotti afirmou que Neymar só entrará em campo na Copa se merecer.
“Quero ser claro, limpo e honesto. Ele vai jogar se merecer jogar. É importante não focar toda expectativa sobre um jogador. Temos uma responsabilidade comum, como equipe. Cada um tem de mostrar suas próprias qualidades com um objetivo: ajudar a seleção a ganhar a Copa do Mundo”, afirmou o treinador do Brasil.
Colunista do jornal O Globo, Carlos Eduardo Mansur lembrou que a convocação de Neymar sacrificou um jogador que está em grande fase no futebol inglês.
“É curioso como o futebol, por vezes, também satisfaz o desejo de muita gente, né? Havia uma mobilização popular aguardando a convocação ou não do Neymar. Mas, ao mesmo tempo, o futebol pode ser cruel, né? É o que deve estar pensando agora o João Pedro, do Chelsea”, ressaltou.
“Ele foi o grande derrotado desta convocação. Após um ciclo de Copa do Mundo em que o João Pedro viu a carreira crescer, brilhou no Brighton, chegou ao Chelsea, tendo impacto imediato na Copa do Mundo de clubes e terminando a temporada com 20 gols e seis assistências pelo time inglês, acabou ficando de fora da convocação. Ele deu lugar a um jogador que, nos últimos três anos, jogou poucas partidas, viveu uma dura tentativa de se recuperar de lesões e, quando conseguiu ter sequência de jogos, não podemos dizer que foram atuações acima dos seus principais concorrentes; atuações de um jogador de elite internacional. É um jogador que tenta retomar a sua carreira, que é o caso do Neymar”, falou Mansur, que também é comentarista dos canais Globo.
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Meia da seleção brasileira pentacampeã na Copa de 2002, Ricardinho também citou o atacante João Pedro.
“Lógico que, se tratando de convocação da seleção brasileira, sempre vai haver discussões. A principal, desta vez, foi a ausência do João Pedro, até pelo número de gols que ele fez na Premier League. Mas eu acho que foi uma questão de opção do treinador. Ele tinha alguns nomes para convocar e também tinha o retorno do Neymar, até pela melhora da condição física do Neymar. O João Pedro teve algumas oportunidades na seleção e acabou não conseguindo performar da mesma forma que performou no Chelsea. E aí houve essa opção”, opinou Ricardinho.
Escassez no meio-campoTitular da zaga da seleção brasileira pentacampeã em 2002, Roque Júnior destacou a escassez de meio-campistas que vão jogar pelo Brasil na Copa deste ano.
“Um setor que hoje o Brasil tem dificuldade é o meio de campo.”
“De maneira geral, nós temos produzido menos jogadores de meio-campo com características que desequilibram da intermediária para frente; jogadores que têm essa qualidade para desequilibrar mais perto do gol”, opinou Roque Júnior.
Meio-campista de criação na última conquista do Brasil em Copas, Ricardinho explicou a escassez de meias brasileiros.
“O futebol brasileiro não tem revelado muitos meio-campistas clássicos, que são aqueles meias de criação. O [Lucas] Paquetá tem uma característica, que é um articulador de jogadas, mas ele não é esse meia clássico; um meia organizador de jogadas. Eu acho que ele é mais um jogador tático e isso é reflexo também da nossa formação, tanto é que os jogadores com essa característica que jogam no futebol brasileiro são, na maioria, de fora do país”, opinou o camisa 7 da seleção na Copa de 2002.
Experiência no golAlém de Neymar, outra novidade na lista de Carlo Ancelotti foi o goleiro Weverton. Ricardinho explicou a escolha do treinador italiano da seleção brasileira pelo goleiro do Grêmio.
“Devido às condições do Alisson, que essa temporada teve alguns problemas de lesão, e do Ederson, que acabou trocando o Manchester City pelo Fenerbahçe, da Turquia, e que não fez uma grande temporada, o Ancelotti optou por não ter um terceiro goleiro jovem e com pouca experiência de Copa do Mundo. Por isso, ele escolheu o Weverton, que é um grande goleiro”, opinou o campeão mundial.
Comentarista do Grupo Globo, Eric Faria lembrou que alguns jogadores que vão à Copa foram chamados pela primeira vez por Ancelotti na lista anunciada em março deste ano.
“Algo que me chamou muito a atenção foram sete jogadores que ganharam vagas na seleção tendo sido chamados pelo Ancelotti pela primeira vez em março. Então, os amistosos contra a França e contra a Croácia foram muito decisivos nessa montagem final da lista. O Ibañez, o Léo Pereira, o Bremer, o Danilo, o Endrick, o Igor Thiago e o Rayan só foram chamados pelo Ancelotti em março”, lembrou Eric.
“Todos eles se saíram bem e ganharam essa chance de ir à Copa do Mundo. Lista de Copa do Mundo se faz com oportunidades aproveitadas”, completou.
FavoritismoO Brasil vai ter nesta Copa mais uma oportunidade para conquistar o hexa. Com a experiência de quem foi campeão com a seleção brasileira em 2002, o ex-zagueiro Roque Júnior falou do peso da camisa amarelinha.
“O Brasil, como camisa, como tradição, e por ser ainda o único país que tem cinco títulos mundiais, sempre vai para uma Copa do Mundo como favorito. Se a gente fizer um comparativo com a seleção de hoje, tem outras equipes melhores, que eu aponto como favoritas: a Argentina, que ganhou o último Mundial, a Espanha e a França estão num patamar acima. Mas depois vem o Brasil”, afirmou o zagueiro da conquista do penta brasileiro.
Ricardinho, que também levantou a taça ao lado de Roque Júnior em 2002, ano do último título do Brasil em Copas do Mundo, concorda com o ex-zagueiro. E foi além.
“Eu colocaria hoje a França e a Espanha numa primeira prateleira. Um pouquinho abaixo, Argentina e Portugal. Os portugueses são, inclusive, uma seleção muito boa, com um meio de campo de altíssimo nível, dois bons laterais, e o Cristiano Ronaldo na frente para finalizar. Depois destas seleções favoritas, eu colocaria o Brasil. Mas é lógico que a prática é o que vai nortear, né? Estou falando tudo isso na teoria, embasado nos processos que as seleções realizaram nesse ciclo de Copa. Vamos ver a partir do dia 11 de junho se essas previsões se confirmam ou se a gente vai ter alguma surpresa na Copa ”, opinou Ricardinho.
Retrospecto desde 1938Apesar das últimas frustrações em Copas do Mundo, a seleção brasileira tem um retrospecto invejável. O país é o maior vencedor da história das Copas do Mundo e o único a ter cinco títulos do torneio.
Além disso, o Brasil tem sido um osso duro de roer. Desde a terceira Copa do Mundo, disputada em 1938 na França, um cenário curioso se repete. Ou o Brasil termina o Mundial como campeão, como aconteceu em 1958, 62, 70, 94 e 2002, ou acaba eliminado por uma seleção que encerra sua participação na Copa entre os três primeiros colocados. Ou seja, desde 1938 o Brasil fica com o título ou perde para um país que, se não termina campeão, chega muito perto.
Este é o primeiro Mundial que será disputado por 48 seleções; serão 104 partidas nesta Copa. O regulamento prevê que os dois melhores de cada um dos 12 grupos avancem para a segunda fase, além dos oito melhores terceiros lugares. Depois desta fase, que é o primeiro mata-mata da Copa, as seleções que se classificarem disputarão as oitavas, quartas, semifinais e final, caso superem seus adversários.
O país que alcançar o título terá feito uma campanha de oito jogos, um a mais do que era jogado nas últimas sete edições.
Campanha do hexa?O Brasil está no Grupo C e vai estrear contra o Marrocos em 13 de junho, em Nova Jersey. Seis dias depois, a seleção vai encarar o Haiti, na Filadélfia. Em 24 de junho, os brasileiros fecham a fase de grupos contra a Escócia, em Miami.
Leia tambémAncelotti analisa estreia do Brasil contra o Marrocos e alerta para grupo desafiador na Copa de 2026
Se avançar em primeiro no Grupo C, o Brasil vai encarar o segundo colocado do Grupo F, que tem Holanda, Japão, Suécia e Tunísia. Passando por esta fase, a seleção chegará às oitavas. A torcida do Brasil espera que a seleção brasileira não pare por aí e alcance a sua oitava final de Copa do Mundo.
O ministro do Ensino Superior da França, Philippe Baptiste, anunciou em 20 de abril que o aumento das taxas de matrícula para estudantes internacionais de fora da União Europeia, decretado em 2018, deverá ser efetivamente aplicado pelas universidades. A medida gera preocupação entre estudantes brasileiros na França, que sentem que deixaram de ser "bem-vindos" no país.
Ana Carolina Peliz, da RFI em Paris
A decisão integra o plano Choose France for Higher Education (Escolha a França para o Ensino Superior), do Ministério do Ensino Superior e da Pesquisa. Embora tenha sido instituída há oito anos, a política provocou forte reação de associações estudantis e reitores contra a medida. Em resposta, muitas instituições criaram mecanismos de isenção que poupavam os alunos estrangeiros das taxas.
Agora, apesar da autonomia das universidades, o governo pressiona para que o preço diferenciado para estrangeiros seja aplicado já na matrícula para o ano letivo de 2026–2027, com início em setembro. Segundo o ministério, um decreto obrigará as universidades a adotar a medida, sem detalhar prazos. Apenas 10% dos estudantes poderão ser isentos, em situações específicas, como aqueles oriundos de países em grave dificuldade.
Pela regra, alunos de fora da União Europeia terão que pagar € 2.895 (cerca de R$ 16 mil) para cursos de graduação, contra € 180 atualmente, e € 3.941 (aproximadamente R$ 21.700) em nível de mestrado, contra os € 250 atuais. Os estudantes franceses e europeus continuarão pagando os valores mais baixos, enquanto o doutorado não sofreu aumento. “Isso representa apenas 30% do custo real da formação”, afirma Baptiste, destacando que os valores ainda são inferiores aos praticados em destinos como Estados Unidos e Reino Unido.
O governo sustenta que a medida visa reforçar a atratividade da França como polo de ensino e pesquisa, além de melhorar o acolhimento de estudantes estrangeiros. A justificativa, no entanto, não convence Matheus Morandini, presidente da Associação de Estudantes e Pesquisadores Brasileiros na França (Apeb-Fr).
“É contraditório com a própria política de atrair mais brasileiros para o país”, diz, referindo-se ao compromisso firmado em 2024 durante visita de Lula à França. Na ocasião, o presidente brasileiro e Emmanuel Macron estabeleceram a meta de elevar o número de estudantes brasileiros de cerca de 5 mil para 8 mil até 2026. Dados da Campus France indicam, porém, uma queda de 1% em cinco anos, entre 2019 e 2024.
Para Morandini, o aumento das taxas caminha na direção oposta. “É uma espécie de convite para não vir. Não condiz com a política de promoção do ensino superior francês no Brasil”, afirma. Ele também aponta outras medidas que desestimulam a permanência de estrangeiros, como o fim do auxílio-moradia para estudantes de fora da UE, restrito agora a bolsistas. “A impressão é de que essas pessoas deixaram de ser bem-vindas”, diz.
Faculdades sob pressão financeiraA justificativa apresentada pelas universidades difere da versão oficial do governo.
“Alguns alunos contribuirão mais para o financiamento da universidade no próximo ano. Por razões orçamentárias, somos obrigados a aumentar essas taxas”, afirma Christine Neau-Leduc, presidente da Universidade Paris 1 Panthéon-Sorbonne, em dezembro. “Os valores são definidos por decreto de 2019. Não temos autonomia sobre isso”, acrescenta.
Em resposta à RFI, a instituição citou sua deterioração financeira. “Há anos sofremos os efeitos de decisões do Estado que foram apenas parcialmente compensadas”. Diante do déficit, a universidade recebeu da autoridade regional a tarefa de implementar um plano de economia de € 13 milhões até o fim do ano.
A situação da prestigiosa universidade não é isolada. Diversas instituições enfrentam dificuldades semelhantes, o que ajuda a explicar o recuo em relação a um princípio histórico do ensino francês: a gratuidade para todos. Diferentemente de países como Estados Unidos, Reino Unido e Canadá, esse sempre foi um dos pilares do sistema universitário na França.
Desde o início do ano, dirigentes universitários vêm alertando para a crise orçamentária. Segundo relatos, cerca de três quartos das instituições operam no vermelho. Embora o orçamento para 2026 preveja um acréscimo de € 175 milhões, o montante é considerado insuficiente para compensar a inflação, de acordo com a Federação de Educação, Pesquisa e Cultura, ligada à CGT.
“As universidades estão à beira do colapso”, conta à RFI a professora e pesquisadora em Ciências Política da Universidade Paris 1 Panthéon-Sorbonne. “Cortamos 90% dos investimentos; já não compramos livros”. Ainda assim, ela critica a medida: “Essa diferenciação por origem é inaceitável. Esses estudantes terão as mesmas condições de ensino que outros que pagam poucas dezenas de euros”, opina.
A proposta do governo é controversa e, segundo entidades estudantis, pode agravar ainda mais a situação financeira dos alunos estrangeiros.
Incerteza entre estudantesMuitas universidades ainda não confirmaram se aplicarão integralmente a medida ou se manterão isenções, o que aumenta a incerteza entre os estudantes.
“Perguntei se serei afetada, mas ainda não tive resposta”, relata Alice Machado, que deve iniciar uma graduação em psicopedagogia em Paris, um curso realizado pela Escola de Formação em Psicopedagogia, em parceria com a Universidade de Nanterre. “Estou muito preocupada”, completa.
A estudante explica que, após mudar de tipo de visto, ficou impedida de trabalhar por meses. “Vou ter que me reorganizar e talvez buscar um emprego de verão para conseguir pagar a universidade. Mas posso trabalhar no máximo 20 horas semanais, e isso não é suficiente”. Segundo ela, o dinheiro que pretendia usar para visitar a família no Brasil deverá ser destinado à matrícula.
Ela ressalta que o custo é elevado para muitas famílias. “Vou ficar em uma situação bem apertada. Não é qualquer família que pode disponibilizar € 2 mil ou mais para estudar fora”, declara.
Caio Dério, mestrando em Desenvolvimento e Ação Humanitária Universidade Paris 1 Panthéon-Sorbonne, vive situação semelhante. Ele foi surpreendido pela decisão da universidade no meio do curso. “Fiquei muito preocupado, mas, após pressão dos estudantes, a cobrança não foi aplicada para quem já estava inscrito”, conta.
“Quem entrou em 2025 poderá concluir pagando as taxas anteriores" segundo ele, que sublinha que a decisão só foi revertida após mobilização. Ele lamenta que não foi alertado sobre um possível aumento quando se inscreveu na universidade. “Planejei tudo com base nos valores informados. Deixei meu emprego no Brasil, usei minhas economias e organizei minha mudança contando com esses custos”. Caso a cobrança fosse mantida, Caio não teria condições de permanecer e teria que abandonar o curso.
Na avaliação do aluno, a medida pode empurrar estudantes para empregos e formações fora de suas áreas. Ele questiona ainda a lógica da política. “Parece que a qualidade do estudante está sendo associada ao quanto ele pode pagar. Isso não faz sentido. O governo acaba fechando portas para pessoas talentosas”, aponta.
Morandini, da Apeb-Fr, também relata a importância das isenções. Ele chegou à França em 2021 e só conseguiu estudar graças a esse mecanismo. “Eu não teria vindo se tivesse que pagar esses valores”.
Para ele, o cenário indica uma mudança de orientação. “O governo caminha para uma política que precariza estudantes estrangeiros de fora da União Europeia, especialmente os estudantes de países do Sul Global e com menor poder econômico”, conclui.
As empresas brasileiras se preparam para a entrada em vigor, neste mês, da nova versão da Norma Regulamentadora número 1 (NR-1), que torna obrigatória a identificação e o gerenciamento de riscos psicossociais no trabalho. A atualizão ocorre após o Brasil ter registrado um novo recorde de afastamentos por transtornos mentais, com mais de 546 mil licenças concedidas pelo INSS em 2025.
Daniella Franco, da RFI
Até hoje, a NR-1 estabelecia disposições gerais de Segurança e Saúde no Trabalho sem considerar os problemas de saúde mental do trabalhador. A atualização deveria ter entrado em vigor no ano passado, mas foi adiada, por pressão das próprias empresas e dos sindicatos patronais.
Para a psicóloga Luciana Gisele Brun, especialista em avaliação de transtornos mentais e depressão no trabalho e professora de Psicologia nas Faculdades Integradas de Taquara (Faccat-RS), a nova norma chega com atraso, mas é extremamente necessária.
"Essa responsabilidade já existia anteriormente e só foi endurecida e esclarecida, gerando a necessidade de fiscalização a partir de 26 de maio", observa. "A norma mostra que as organizações também precisam se preocupar com a saúde mental. Então, vai começar a haver um reposicionamento, em alinhamento com a Justiça do Trabalho, de forma sistemática, para manutenção de um ambiente de trabalho saudável", prevê.
Em 2025, as licenças no trabalho por problemas na saúde mental cresceram 15% em relação ao ano anterior, gerando um prejuízo de R$ 3,5 bilhões ao INSS. Segudo Luciana, uma série de fatores explica o aumento, como fenômenos climáticos - a exemplo da enchente no Rio Grande do Sul, entre abril e maio de 2024 - a instabilidade econômica, os deslocamentos nas grandes cidades, a falta de infraestrutura para o trabalho remoto e as próprias tecnologias, que impedem o equilíbrio entre trabalho e vida pessoal.
"Quando as pessoas concluem a sua jornada de trabalho, muitas vezes, através dos celulares, seguem em contato com clientes ou com colegas, ou resolvendo demandas de trabalho em geral", exemplifica. "Essa característica já era própria de algumas categorias profissionais, mas essa dificuldade da divisão entre a vida privada e o trabalho tem se agravado nos últimos anos", destaca.
Mudança de cultura nas empresasUm dos maiores desafios na aplicação da atualização da NR-1 será a mudança de cultura dentro das empresas. Muitas organizações ainda demonstram resistência em considerar a saúde mental de seus colaboradores.
O Ministério do Trabalho lançou, no ano passado, uma cartilha para orientar as empresas e, no início deste ano, um manual de interpretação e aplicação da norma. Mas, para a advogada e especialista em Direito do Trabalho, Amanda Caputo, ainda faltam informações sobre as novas diretrizes.
"A atualização da NR-1 determina que as empresas têm obrigação legal, a partir de agora, de mapear os riscos à saúde mental do trabalhador. Para isso, precisam lançar programas de prevenção, aprender e implantar regras internas para conseguir liderar com trabalhadores que estão adoecendo com essas doenças psicossociais", explica. "Essa é uma grande inovação, porém falta a informação sobre como a norma será implantada e como será fiscalizada", reitera.
Apesar de todos os ajustes necessários na nova regra, Amanda Caputo acredita que a atualização das diretrizes serão benéficas para ambos os lados, evitando a evasão e o presencialismo de trabalhadores. A advogada lembra que empregados com saúde mental em dia geram maior lucratividade para as empresas.
"Hoje nós temos o exemplo de grandes multinacionais que investem mais de R$ 1 milhão em programas para fomentar o bem-estar, com treinamentos econômicos, sociais, interpessoais para tentar equilibrar o ambiente de trabalho. Pessoas felizes produzem mais: isso é um benefício inegável para as empresas", conclui.
840 mil mortes por ano no mundoOs riscos psicossociais (RPS) mais comuns no trabalho são sobrecarga de trabalho, pressão excessiva por metas, assédio (moral ou sexual), conflitos internos, falta de autonomia, clima organizacional tóxico e ausência de reconhecimento. Eles se manifestam como mal‑estar, sensação de esgotamento profissional (burnout) ou sofrimento mental e/ou físico.
Segundo a Organização Internacional do Trabalho (OIT), os RPS são responsáveis por cerca de 840 mil mortes anuais no mundo. O balanço, publicado no último 28 de abril, indica que os transtornos mentais são a segunda maior causa de óbitos no trabalho e representam uma perda anual equivalente a 1,37% do produto interno bruto (PIB) mundial.
Com menos voos, escassez de combustível e redução no número de visitantes, Cuba perde uma de suas principais fontes de receita e agrava dificuldades de trabalhadores que dependiam do setor. Entre janeiro e março, a ilha recebeu 298.057 visitantes estrangeiros, 48% a menos que no mesmo período de 2025, segundo números divulgados pelo Escritório Nacional de Estatística e Informação.
Pedro Pannunzio, de Havana, especial para a RFI
A queda do turismo tem ampliado os efeitos da crise econômica em Cuba e afetado a rotina de moradores da ilha. A redução no número de visitantes atinge empregos, diminui a circulação de dólares e impacta setores que dependiam diretamente da presença de estrangeiros. Em março, apenas 35.561 turistas chegaram ao país, um dos níveis mais baixos dos últimos anos.
O turismo é a segunda fonte de receitas em divisas e até janeiro empregava mais de 300 mil pessoas na ilha de 9,6 milhões de habitantes.
Em Havana Velha, no centro histórico da capital do país, que costumava ficar cheia de turistas, o cenário mudou. Restaurantes continuam abertos, mas agora recebem poucos clientes. Bares tradicionalmente frequentados por turistas operam com movimento reduzido. Lojas de souvenires permanecem vazias durante boa parte do dia.
Período EspecialO turismo ganhou importância estratégica para Cuba nos anos 1990, depois do colapso da ex-União Soviética, quando o país enfrentou uma grave crise econômica conhecida como Período Especial. Naquele momento, a entrada de divisas por meio de visitantes estrangeiros se tornou uma das principais fontes de receita da ilha e também uma alternativa para muitos moradores enfrentarem as dificuldades cotidianas.
Nos anos seguintes, o turismo manteve papel estratégico para a economia cubana. Desde a pandemia, porém, o número de visitantes começou a cair. Agora, a retração se aprofundou. No início de fevereiro, o governo cubano anunciou que não conseguiria mais abastecer aeronaves nos aeroportos da ilha. A medida levou algumas companhias aéreas a suspender operações.
Segundo um funcionário de um hotel no centro histórico de Havana, após o cancelamento dos voos, turistas que já tinham viagens marcadas entraram em contato para cancelar reservas. Com a baixa ocupação, parte dos hotéis administrados pelo Estado foi fechada para concentrar hóspedes nos estabelecimentos que permaneceram abertos.
A queda atingiu todos os principais mercados emissores. O Canadá, historicamente o maior fornecedor de turistas à ilha, registrou 124.794 visitantes no trimestre, 54,2% a menos que um ano antes. As chegadas da Rússia caíram 37,5%, enquanto as da comunidade cubana residente no exterior, em sua maioria radicada nos Estados Unidos, diminuíram 42,8%.
'Efeito Trump'O trabalhador rural Calisto Aguilar, que vive entre Havana em uma propriedade localizada a quarenta quilômetros da capital, aluga quartos na casa que mantém no centro da cidade. Ele afirma que a procura praticamente desapareceu.
“Há alguns anos, havia gente na rua procurando lugar para ficar e não tinha vaga. Depois que Donald Trump chegou à Casa Branca, tudo isso acabou”, afirma.
Calisto diz que o turismo já havia sido afetado durante o primeiro mandato do republicano. Em 2019, o governo norte-americano proibiu cruzeiros dos Estados Unidos para Cuba, medida que desfez a abertura promovida durante o governo de Barack Obama
“A entrada de cruzeiros foi interrompida e, de forma geral, o turismo parou. Todas as medidas que tinham sido planejadas desde o governo Obama foram interrompidas. Lembro que via cruzeiros desembarcando em Havana pela manhã quando saía para trabalhar.”
A redução no número de turistas afeta também quem dependia das vendas diretas aos visitantes. O professor aposentado Rafael Rosa afirma que a pensão mensal que recebe do governo não é suficiente para comprar alimentos no mercado privado, uma das alternativas diante do desabastecimento nos estabelecimentos subsidiados pelo Estado. Para complementar o orçamento, ele passou a vender souvenires nas ruas.
Rafael relata que, quando consegue vender alguma peça, o dinheiro costuma ser usado para comprar comida. “Tenho essa atividade que, às vezes, quando tenho sorte, me rende algum dinheiro para a comida.”
Ao falar com a reportagem, Rafael disse que não conseguia vender nada havia duas semanas.
“Cada vez me sinto mais cansado, porque preciso caminhar horas atrás de turistas para que comprem de mim. Sorrio muito pouco porque minha mãe está velha e fico triste com o que está acontecendo comigo. Estou doente e ainda não encontrei solução para o meu problema”, lamentou.
Na avaliação de Calisto Aguilar, a situação de Cuba não deve melhorar tão cedo. Ele reconhece que a recuperação será lenta, mas afirma que ainda mantém esperança, sobretudo por causa dos filhos.
“Se você analisar o panorama, percebe que as coisas não vão mudar de um dia para o outro. Isso demora anos. Mas tenho esperança, sempre. Quem tem filhos precisa ter esperança.”
Sem combustível, com menos voos e com a forte redução no número de visitantes, Cuba vê desaparecer uma importante fonte de receita. Durante décadas, o turismo ajudou o país a atravessar períodos difíceis. Hoje, com o setor esvaziado, a ilha ainda procura caminhos para reagir a uma das mais duras crises de sua história.
A 64ª edição do Salão do Móvel de Milão começou na terça-feira (21) e deve receber mais de 319 mil visitantes até domingo (26), dos quais 62% estrangeiros. O estande brasileiro destaca o valor da madeira nacional e de peças que incorporam a assinatura de seus criadores.
Júlia Valente, correspondente da RFI em Milão
O Salão do Móvel de Milão, a principal feira internacional do setor de móveis e design, foi criada inicialmente com o objetivo de promover o design italiano, mas se transformou ao longo do tempo em um evento global, reunindo profissionais da arquitetura e do design de interiores de diversas partes do mundo. Neste ano, são mais de 1.900 expositores de 32 países.
Pelo 10º ano, o Brasil conta com um estande próprio, uma iniciativa da Associação Brasileira das Indústrias do Mobiliário, a Abimóvel, em parceria com a Apex Brasil – Agência Brasileira de Promoção de Exportações e Investimentos. Em 2026, a Abimóvel traz ao Salão de Milão 70 marcas e designers brasileiros.
O tema escolhido para o estande do Brasil foi “Conexões”. “É a conexão da indústria com as matérias-primas. A gente traz produtos assinados mostrando a madeira brasileira, os revestimentos brasileiros que nos distinguem, as tramas, os fios, o couro brasileiro, algo tipicamente do Brasil”, explica Cândida Cervieri, diretora executiva da Abimóvel.
Para a edição de 2026, o Salão do Móvel reforça a valorização dos materiais e dos processos de produção no design, um campo em que o Brasil se destaca no exterior, especialmente pelo uso da madeira nacional.
“Temos mais de 20 mil espécies de madeira e a gente sabe que esse é um produto procurado, desejado pelo mundo. Então este é um ativo que nos distingue nos nossos produtos e que faz a diferença”, diz Cervieri.
Uma das novidades da participação brasileira neste ano é a presença de peças vencedoras do 1º Prêmio Design da Movelaria Nacional, promovido pela Abimóvel no ano passado e que contou com participantes de diversos perfis, desde designers já no mercado a estudantes. A premiação era exatamente ter a peça exposta na feira em Milão.
Um dos vencedores do prêmio foi Alexandre Kasper. A cadeira que ele assina, batizada de Zé, está exposta na feira. Natural do Paraná, o designer afirma que a participação no evento abre portas no Brasil e no exterior.
“Como criativo, o design brasileiro tem uma autenticidade muito singular. O brasileiro se arrisca mais, ele cria produtos, gosta de experimentar. Muitas lojas, tanto do Brasil quanto da Europa, já vêm nos procurando justamente por causa dessa identidade. Nosso estande foi muito percorrido hoje, muitos clientes passaram por aqui, a gente está abrindo para novos clientes e isso é muito positivo”, celebra o designer.
Identidade do designer se integra à indústriaAs principais indústrias do mobiliário global estão presentes no Salão do Móvel de Milão, que se espalha por 22 pavilhões. No entanto, a presença do designer é cada vez mais forte em cada uma das marcas. O designer Tiago Curioni destaca que já não há interesse no setor em produzir algo sem relacioná-lo ao criador.
“Não existe criar um produto sem ter alguém por trás assinando, alguém pensando. (Sem) o designer como alguém que vai tratar não só da estética do produto, mas de todo o conceito de como a matéria-prima chega na fábrica, como ela é armazenada, até como esse produto vai ser comunicado”, defende.
Por isso, investir em identidade se tornou central para o setor. O designer Michael Milhomem, natural de Roraima, apresenta no estande brasileiro uma poltrona inspirada nos indígenas Warao, de origem venezuelana, que hoje estão presentes na Amazônia roraimense. O design remete a um barco e é composto por uma rede sustentada por uma estrutura de aço e madeira.
“A palavra Warao significa povo das águas. Utilizo a rede deles de fibra de buriti, extremamente resistente. Uma única rede leva dois meses pra ser feita e é produzida dentro da floresta Amazônica a mão pelas indígenas. É um projeto de 50 unidades apenas, uma edição limitada, feita por amazônidas para o mundo”, afirma Milhomem.
A criação de Milhomem reflete o contexto ao seu redor, algo que, agora, ele apresenta ao mundo. “Para mim é um divisor de águas. Eu saí de Roraima, [de onde] produzo dentro da selva, para poder mostrar meu valor fora do país. Isso pra mim é sensacional, pois a visibilidade que temos aqui é única.”
A diversidade do design brasileiro chama a atenção de quem visita o estande, até mesmo de quem vem do Brasil. “Um brasileiro olhar essa peça com um olhar exótico, uma estranheza, como um gringo olha, é sinal de que o design alcançou um ponto muito interessante. Porque geralmente o que impacta um gringo não impacta um brasileiro e vice-versa”, aponta Milhomem.
Atrações fora da feiraDurante a mesma semana do Salão do Móvel, Milão também vive a chamada Semana do Design. Além da feira, voltada à indústria de móveis, a cidade recebe mais de 1.850 instalações artísticas espalhadas por diferentes bairros. É o chamado Fuorisalone, ou “Fora do Salão”, quando marcas, lojas e designers organizam suas próprias exposições e eventos, criando oportunidades de conexão entre profissionais e apaixonados pelo design de todo o mundo.
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