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By RFI Brasil
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  • Com recorde de brasileiros no exterior, terapia Navegantes oferece apoio a imigrantes em 40 países

    Apesar da onda anti-imigração que se espalha pelo mundo, o número de brasileiros vivendo no exterior não para de crescer e bateu um novo recorde em 2025. Foi para apoiar essa diáspora brasileira espalhada pelo mundo que a psicóloga intercultural brasiliense Barbara Andrade criou, em 2024, a Navegantes.

    O relatório consular anual do Itamaraty, divulgado no início de julho, contabilizou quase 5,3 milhões de imigrantes brasileiros no ano passado, 110 mil a mais do que em 2024.

    Os dados oficiais do governo brasileiro não fazem distinção entre cidadãos em situação regular ou irregular. A contagem se baseia nas estimativas repassadas pelos consulados com base em cadastros e registros locais. Mas a diáspora brasileira seria muito maior porque os chamados “clandestinos”, que não têm visto de residência, costumam evitar o registro oficial com medo de serem deportados.

    Com o aumento do fluxo, os pedidos de assistência consular deram um salto de 55%, atingindo 95 mil atendimentos no ano passado. As demandas evidenciam a complexidade e a diversidade das situações vividas pelos imigrantes brasileiros. Vulnerabilidade social, questões jurídicas, problemas psicológicos, choque cultural e falta de integração são algumas das dificuldades encontradas.

    No ano passado, essa realidade foi ainda impactada pelo endurecimento das regras de imigração em vários países, como os Estados Unidos de Donald Trump, que deportaram milhares de brasileiros.

    Apoio psicológico negligenciado

    Para apoiar a diáspora brasileira espalhada pelo mundo, a psicóloga intercultural brasiliense Barbara Andrade criou, em 2024, a Navegantes.

    O projeto nasceu da percepção de que “a saúde mental, muitas vezes, não é priorizada durante o processo migratório”, explica a psicóloga. Segundo ela, os imigrantes geralmente estão concentrados em questões legais, financeiras e logísticas, o que faz com que o cuidado psicológico seja negligenciado.

    A Navegantes tem uma equipe de 15 psicólogos e oferece atendimento psicoterapêutico intercultural online, sempre em português, em cerca de 40 países. Atualmente, atende regularmente 42 imigrantes. Além das consultas individuais, também tem iniciativas coletivas em três áreas. O Guia de Bordo, em parceria com a BRASA (Rede Global de Estudantes Brasileiros no Exterior), é voltado para jovens que estudam no exterior. O Projeto Farol é direcionado a empresas e expatriados, e a Comunidade CAIS reúne cerca de 200 mulheres migrantes de língua portuguesa. O objetivo do projeto é combater o isolamento e fortalecer redes de apoio.

    A brasileira Dayanne Lopes Vieira, cientista de dados natural de Vitória, Espírito Santo, vive na França há nove anos. Hoje, ela é casada com um francês e mãe de uma menina de 3 anos. Sua trajetória como imigrante foi marcada por desafios de adaptação cultural, profissional e emocional. Os primeiros anos foram difíceis devido às diferenças no ambiente de trabalho e à sensação de solidão. Mais tarde, a maternidade trouxe novos desafios.

    “Ter um filho já é uma coisa que muda você, mas foi difícil porque a minha família não tava aqui, porque era uma cultura diferente, meu marido é francês, então eu tive que me adaptar bastante a uma rotina bem diferente, que seria completamente diferente no Brasil se eu tivesse o apoio da minha família por perto”, conta.

    Dayanne participou de reuniões de apoio da Comunidade CAIS. “Eu tive alguns apoios ao longo da minha estadia aqui na França. Quando eu busquei ajuda na Comunidade CAIS foi mais porque eu queria me conectar com mulheres, eu queria me conectar com mulheres que também eram imigrantes”, detalha.

    Acompanhamento psicológico direcionado

    A paulista Larisse Milato, profissional de marketing, vive fora do Brasil há 13 anos e é paciente da Navegantes há bastante tempo. Depois de passar pela Alemanha, onde teve muitas dificuldades de integração, Larisse mora há pouco mais de um ano em Paris. Ela divide sua vida entre a França e a Arábia Saudita, onde o marido trabalha.

    Para Larisse, o diferencial da Navegantes é o acompanhamento psicológico especializado para brasileiros que vivem no exterior. “O grande diferencial é que elas sabem o que estão fazendo e podem te ajudar, porque já viveram as dificuldades que um imigrante passa. Eu não abro mão da minha terapia semanal. Faz parte da minha rotina”, afirma.

    A paulista se sente integrada à cultura francesa, mas um elemento novo está complicando sua vida em Paris. “O calor está fora da curva”, diz, rindo, ao se referir às repetidas ondas de calor que atingiram a França neste verão.

    Grávida, Larisse pretende se mudar de vez para a Arábia Saudita depois do parto e do fim de seu atual contrato de trabalho. As diferenças culturais no mundo árabe são ainda maiores, mas ela lembra que todo imigrante sai do país para melhorar de vida.

    “Imigrante sai do seu país por dinheiro. Foi o meu caso e o do meu marido. A vida lá não é prazerosa. Você fecha os olhos para algumas coisas em países árabes. Você não gosta, mas está ganhando bem. Tem alguns luxos que tornam a vida um pouco mais fácil e você entra nessa bolha e segue”, relativiza, garantindo que essa vida de imigrante vale a pena. “Eu estou fazendo isso hoje, aos 36 anos, para daqui a 10 anos eu poder parar de trabalhar.”

    A catarinense Júlia Panazzolo vive na França há três anos. Ela morou dois anos em Paris e recentemente se mudou para Nice com o marido. Formada em Direito e ex-advogada, Júlia redirecionou sua carreira para a área criativa e hoje atua como criadora de conteúdo, artista plástica e professora de aquarela.

    A experiência migratória trouxe desafios que ela não esperava enfrentar, e Júlia buscou ajuda no acompanhamento psicológico da Navegantes. “Na minha cabeça eu achava que ia lidar super bem com a migração. Eu falava: ‘vou tirar de letra’, mais uma mudança. Quando eu cheguei aqui, a realidade foi outra”, lembra, citando dificuldades relacionadas à língua, ao clima, à solidão e ao início de um casamento em um novo país.

    A busca por apoio psicológico foi fundamental nesse processo, e a mudança de Paris para Nice, uma cidade menor e mais ensolarada, ajudou ainda mais Júlia a ganhar confiança para falar francês, criar conexões e se sentir mais integrada. Mesmo com os avanços, ela acredita que há um aspecto da imigração que permanece presente. “Eu acho que o fato mais difícil é que eu sempre vou me sentir imigrante”, afirma.

    Mulheres representam maioria dos clientes

    As mulheres, que podem ser mais vulneráveis no contexto da imigração, representam a maior parte da clientela da Navegantes. “As mulheres enfrentam desafios específicos ligados à maternidade, aos relacionamentos interculturais e à adaptação em novos contextos sociais. Elas merecem uma atenção especial”, indica a fundadora Barbara Andrade. A psicóloga da Navegantes acaba de se mudar para Portugal para fazer um mestrado, onde vive sua primeira experiência de imigração, que “tem ampliado sua compreensão do tema”.

    A Navegantes também trabalha voluntariamente com refugiados no Brasil, com retornados e com imigrantes deportados em consequência do endurecimento das políticas migratórias em outros países.

    “Eu diria que 2025 foi um dos anos mais desafiadores para a população migrante de modo geral. Nós tivemos inúmeros brasileiros que retornaram dos Estados Unidos para o Brasil. Essas pessoas buscam atendimento porque, apesar de terem voltado, elas ainda estão na condição de migrante, mas agora migrante no seu próprio país”, explica.

    Ondas anti-imigrantes

    As três migrantes brasileiras entrevistadas pela RFI não enfrentaram grandes problemas burocráticos para se instalar na França, mas ouviram muitas histórias de discriminação vividas por amigos ou conhecidos. As ondas anti-imigrantes em vários países, inclusive contra brasileiros como ocorreu recentemente em Portugal, também têm aumentado a busca por apoio psicológico.

    “Há casos de xenofobia, de pessoas que também sofrem racismo e violência institucional. Esse sofrimento psíquico acontece por conta de injustiças em relação ao direito migratório e à possibilidade de legalização”, relata.

    A capacidade de resiliência dos imigrantes impressiona Barbara Andrade. “São pessoas que também, muitas vezes, conseguem transformar essa dor, essas adversidades, em um processo coletivo”, ressalta.

    Processo coletivo

    As comunidades de brasileiros nas redes sociais se multiplicam, e muitas imigrantes criam perfis para contar suas experiências e ajudar os compatriotas, como Dayanne que, além de cientista de dados, virou influenciadora. “Quero mostrar que não é fácil, mas que também vale a pena.”

    O perfil gloriar.te, de Júlia Panazzolo, no Instagram teve “recentemente um boom de crescimento”, depois que ela passou a compartilhar como tem sido a transição entre Paris e Nice. “Muitas pessoas se identificaram com o conteúdo e pretendo continuar trabalhando com essa ideia de mostrar um pouco da minha vida aqui em Nice.” Na sequência, ela criou o Clube Criativo Riviera, uma comunidade que já reúne mais de 70 brasileiras na região para fortalecer laços, promover encontros e incentivar atividades criativas, que Júlia espera transformar em uma associação.

    Muitas ferramentas estão disponíveis para facilitar a integração e o fortalecimento da comunidade brasileira no exterior. Além da Navegantes Psicologia Intercultural, outros serviços também oferecem apoio aos imigrantes, assim como os consulados do Brasil em todo o mundo.

    13 min
  • Horário eleitoral gratuito estreia no rádio e na TV e segue como peça central das campanhas no Brasil

    A propaganda eleitoral nas ruas e na internet já está em vigor desde 16 de agosto. A partir desta sexta-feira (28), porém, começa uma das fases mais visíveis da disputa política brasileira: o horário eleitoral gratuito no rádio e na televisão. Mas, segundo especialistas ouvidos pela RFI, sua influência já não se limita aos minutos reservados na programação das emissoras. Os conteúdos produzidos para a propaganda eleitoral ultrapassam a grade tradicional de transmissão, ganham repercussão nas redes sociais e alcançam novas audiências ao longo de toda a campanha.

    Maria Paula Carvalho, da RFI

    Até 1º de outubro, três dias antes do primeiro turno, os candidatos terão espaço garantido nas emissoras de rádio e TV para apresentar propostas, construir sua imagem pública e responder aos adversários. Embora as campanhas digitais tenham ganhado força nos últimos anos, especialistas avaliam que o horário eleitoral continua sendo um instrumento importante para alcançar milhões de eleitores simultaneamente.

    Para Nina Santos, pesquisadora do Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia em Democracia Digital (INCT.DD), a televisão e o rádio ainda ocupam um lugar relevante no consumo de informação política dos brasileiros.

    “Eu acho que esse ainda é um momento bastante relevante da campanha. Todas as pesquisas sobre consumo de informação e especificamente consumo de informação política mostram que tanto a televisão quanto a rádio ainda têm uma entrada muito grande na vida dos brasileiros, seja no domicílio, seja nos transportes. É claro que não é o peso que tinham antes, mas a gente precisa considerar que essas peças que são exibidas na televisão no horário gratuito de propaganda eleitoral também são usadas para repercussão nas redes”, afirma.

    Como funciona o horário eleitoral

    De acordo com as regras do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), o objetivo do horário eleitoral gratuito é garantir que candidatos e partidos possam apresentar suas propostas e programas aos eleitores.

    A programação é composta por blocos de propaganda em rede, transmitidos simultaneamente pelas emissoras, além de inserções de 30 e 60 segundos distribuídas ao longo da grade normal de programação.

    Nas eleições gerais, as campanhas são exibidas em dias alternados. Às terças, quintas e sábados, o espaço é destinado aos candidatos à Presidência da República e à Câmara dos Deputados. Já às segundas, quartas e sextas-feiras, entram no ar as campanhas para governador, senador e deputados estaduais ou distritais.

    Mesmo com a fragmentação do público e a ascensão das plataformas digitais, o horário eleitoral continua oferecendo uma audiência garantida aos candidatos.

    “Quando você não tinha a internet, era muito diferente você falar no seu próprio programa eleitoral, ou você falar através de uma entrevista, através de um debate. Hoje, com os canais de mídias sociais, você já tem outras oportunidades de falar por si só. O que muda é que o horário eleitoral gratuito tem um espaço garantido para o candidato e um espaço que tem audiência”, observa Nina Santos.

    Da televisão às redes sociais

    Se antes o programa eleitoral era um dos principais canais de comunicação direta entre candidatos e eleitores, hoje ele faz parte de um ecossistema muito mais amplo, que inclui redes sociais, aplicativos de mensagens e plataformas de vídeo.

    Segundo o professor Camilo Aggio, do Departamento de Comunicação Social da Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e pesquisador do INCT.DD, a lógica atual é de integração entre diferentes meios.

    “Nós temos esse sistema que se retroalimenta em muitos ambientes, em muitas instâncias. O mais importante, no final das contas, é gerar discussões nas redes sociais, gerar cortes de vídeos para consumo nas redes digitais e assim alimentar esse ecossistema que é muito mais complexo e extenso do que era na era do rádio e da televisão”, afirma.

    Como é dividido o tempo entre os partidos

    Criado como um instrumento para ampliar o acesso dos candidatos aos meios de comunicação de massa e reduzir as desigualdades provocadas pelo poder econômico nas campanhas, o horário eleitoral gratuito surgiu ainda no contexto da redemocratização do país.

    Pelas regras atuais, 10% do tempo disponível são distribuídos igualmente entre os partidos e federações aptos a participar da eleição. Os outros 90% são repartidos proporcionalmente ao tamanho das bancadas na Câmara dos Deputados.

    Para Nina Santos, apesar de continuar exercendo um papel importante na promoção do pluralismo político, o modelo precisa ser atualizado para acompanhar as mudanças no ambiente de comunicação.

    “Eu acho que ele cumpre essa função justamente de tentar igualar as possibilidades no jogo político e fazer com que os cidadãos e as cidadãs possam conhecer de fato as diversas vozes que estão em disputa no cenário eleitoral, mas a gente precisa começar a discutir uma atualização disso para o mundo da comunicação de hoje. Isso foi feito em um momento em que a comunicação era muito centralizada nos meios de comunicação de massa e hoje a gente sabe que o mundo digital tem uma importância muito grande”, reitera. 

    A pesquisadora sugere que o debate sobre igualdade de oportunidades entre candidatos também avance para o ambiente das plataformas digitais.

    “Não valeria a pena a gente discutir como também ter mecanismos de igualdade de armas no jogo político dentro das redes sociais? Seria possível pensar em um horário eleitoral gratuito dentro das redes sociais, evidentemente não no mesmo formato, mas talvez haja maneiras sim de pensar na criação desses espaços. Isso me parece muito necessário para os próximos pleitos”, diz.

    Inteligência artificial deve ganhar espaço

    Além das redes sociais, outra novidade que tende a marcar a propaganda eleitoral de 2026 é o uso crescente da inteligência artificial na produção de conteúdo de campanha.

    Segundo Carla Rodrigues, coordenadora de Plataformas e Mercados Digitais da organização Data Privacy Brasil, a tecnologia já vem sendo utilizada para reduzir custos e ampliar a capacidade de produção de materiais audiovisuais.

    "Tanto na produção de vídeos para lançar uma campanha quanto na criação de jingles, a gente vê hoje um uso muito mais forte da inteligência artificial. Já observamos isso nas eleições municipais de 2024 e vemos essa tendência se repetir agora, em 2026. O uso da inteligência artificial veio para baratear a produção de conteúdo para esses canais, especialmente na televisão, onde esse tipo de produção costuma ser muito mais caro", conclui. 

    Em um ambiente de comunicação cada vez mais fragmentado, o desafio agora é saber como preservar a igualdade de oportunidades entre os candidatos e garantir que os eleitores tenham acesso a informações de qualidade para fazer suas escolhas.

    7 min
  • Luta além dos tatames: trajetória da judoca Edinanci Silva vira livro

    A obra Edinanci Silva: Mulher Forte Sim Senhor, da jornalista Helena Rebello, foi lançada no Rio de Janeiro nesta quarta-feira (26), na Livraria Travessa, na zona sul da capital fluminense. O livro conta a história da judoca brasileira bicampeã pan-americana e relembra fatos que marcaram sua trajetória dentro e fora dos tatames. O evento reuniu personalidades do esporte e amigos de Edinanci, que representou o Brasil em quatro Olimpíadas.

    Marcio Arruda, correspondente da RFI no Rio de Janeiro

    A ex-atleta da seleção brasileira tem um carinho especial por Paris. Além da medalha de bronze no campeonato mundial disputado na capital francesa em 1997, a judoca lembrou a maior conquista em solo francês.

    “A França mora no meu coração porque em 2000 também consegui realizar outro grande feito, conquistar o torneio de Paris, que hoje é chamado de Grand Slam de Paris. Foi a primeira vez que subi ao pódio em primeiro lugar. Aquele resultado rompeu uma barreira nesse âmbito das grandes competições de alto rendimento”, disse Edinanci.

    Presente ao lançamento da biografia, a bicampeã olímpica Fabi Alvim destacou o tamanho de Edinanci para o esporte brasileiro. “Depois que eu comecei a jogar vôlei profissionalmente, entendi a dimensão da Edinanci para o esporte feminino brasileiro numa época em que o Brasil ganhava pouquíssimas ou nenhuma medalha. Eu fiquei muito comovida com a história dela", apontou.

    "As pessoas perderam tempo em não ouvir a Edinanci ao longo desses anos por ignorância e pela falta de sensibilidade. Eu espero que todo mundo que leia esse livro se sinta impactado, como me impactei”, comentou a ex-jogadora de vôlei, que escreveu a orelha do livro sobre a vida de Edinanci.

    Combate ao preconceito de haters

    A história dela vai muito além dos tatames. Nos anos 1990, a paraibana teve de lutar fora das competições contra um duro adversário, às vésperas dos Jogos Olímpicos de Atlanta: a ignorância de algumas pessoas que insistiam em discriminá-la por ela ter descoberto ser uma pessoa intersexo, ao possuir características biológicas masculinas e femininas. Edinanci sofreu ataques de haters numa época em que nem existiam redes sociais.

    “Se você recebe um hater analógico, você ainda consegue respirar porque você volta para casa, às vezes fica magoada, mas tem tempo para respirar e depois voltar e encarar com mais maturidade aquelas brincadeiras de mau gosto. Eu acho que o hater que acontece pelas redes sociais hoje em dia é muito mais danoso, porque a pessoa que sofre o ataque não tem tempo de respirar e fazer uma reflexão sobre o que está acontecendo. Você está sendo constantemente atacado", avalia. "É preciso tomar muito cuidado porque, se você não tem pessoas que te acolhem e te dão um conselho positivo, você acaba sucumbindo”, lembrou.

    A judoca acredita que o caso vivido por ela despertou a reflexão sobre um tema ainda desconhecido no Brasil. Na comparação com os tempos atuais, ela salientou os preconceitos enfrentados pelas pessoas transgênero.

    "Eu acho que cabe um debate da nossa sociedade para acolher essas pessoas. O objetivo não é excluir ou criar uma bolha; é acolher essas pessoas e respeitar o processo que cada um vive”, afirmou Edinanci.

    Mea-culpa da imprensa 

    A autora e jornalista Helena Rebello se formava em jornalismo na época em que a atleta encerrava a carreira profissional. Para ela, faltava um mea-culpa da imprensa sobre a exploração midiática da vida da judoca.

    "Talvez ela não tenha conquistado uma Olimpíada muito por esses holofotes excessivos", observou. "Nesse processo de mais de dez anos tentando entrevistá-la, eu percebi que a história dela é muito mais densa e com muito mais camadas. Para mim, hoje, é uma honra concluir esse processo depois de tantos anos e levar a história da Edinanci para muitas pessoas para que conheçam e valorizem não só a atleta, mas principalmente esse ser humano incrível”, contou.

    Primeira brasileira a disputar quatro Olimpíadas (1996 a 2008), a judoca defendeu a seleção brasileira até 2008. Neste período, Edinanci foi bicampeã pan-americana nos Jogos de Santo Domingo (2003) e do Rio de Janeiro (2007), além de ter conquistado o bronze em Winnipeg (1999).

    A paraibana também coleciona duas medalhas de bronze nos Mundiais de 1997 em Paris e 2003 em Osaka, no Japão, além de ostentar o título do ano 2000 do Torneio de Paris.

    Edinanci no Hall da Fama do COB

    A biografia conta diferentes épocas da vida de Edinanci, desde a infância em Sousa, na região do Alto Sertão, a 430 quilômetros de João Pessoa, até o auge no esporte, passando por questões de gênero e inclusão vividas pela judoca.

    A paraibana, que recentemente completou 50 anos, disse que ainda não leu o livro, que é um verdadeiro documento de sua vida. “O objetivo principal é primeiro ter o retorno do pessoal que está com esse livro em mãos, ver o que todos acham da obra da Helena [Rebello]. A minha família também já me trouxe alguns relatos. Mas eu vou ler mais para frente”, prometeu.

    Em maio do ano passado, Edinanci foi eternizada no Hall da Fama do COB (Comitê Olímpico do Brasil). Ela é a primeira representante do judô feminino a entrar na seleta galeria de ícones do esporte brasileiro.

    “Tudo que faço é sempre tentando motivar pessoas e despertando consciência social. Eu nunca busquei vitrine, mas as homenagens acabam vindo e eu gosto desse reconhecimento, que é uma forma de resgatar a sua história”, disse Edinanci – uma mulher muito forte, sim senhor.

    7 min
  • ‘Apologia à narcocultura’: como grupos armados usam redes sociais para recrutar crianças na Colômbia

    Facebook e TikTok não conseguem impedir a circulação de conteúdos usados por grupos armados para aliciar crianças e adolescentes na Colômbia, e seus algoritmos podem até contribuir para ampliar esse alcance. É o que aponta um relatório da Human Rights Watch (HRW), divulgado nesta segunda-feira (24), sobre o uso das redes sociais no recrutamento de menores de idade para organizações criminosas e guerrilhas no país.

    Segundo a ONG, embora o recrutamento de crianças e adolescentes faça parte da realidade do conflito armado colombiano há décadas, as plataformas digitais passaram a desempenhar um papel cada vez mais importante nesse processo nos últimos anos.

    De acordo com dados oficiais compilados pela HRW, cerca de 1.500 menores foram aliciados por grupos armados desde 2021. Mais de 30% tinham entre 10 e 14 anos e quase metade pertencia a comunidades indígenas. As meninas, que representam 40% dos casos registrados, estão especialmente expostas a situações de violência sexual.

    Para Martina Rapido, autora do relatório, as redes sociais se transformaram em uma ferramenta estratégica para os grupos armados. "Diferentemente do que acontecia antes, quando havia muita coerção direta para recrutar as crianças, cada vez mais se usam as redes sociais", afirma a pesquisadora à RFI.

    A ONG informou ter alertado a Meta, proprietária do Facebook, e a ByteDance, controladora do TikTok, sobre os conteúdos encontrados durante a investigação. Segundo o relatório, as duas empresas afirmaram ter removido publicações denunciadas e reforçado mecanismos de combate ao recrutamento de menores por grupos armados.

    "Ambas as plataformas nos disseram que suas políticas proíbem a difusão desse tipo de conteúdo. Infelizmente, o que estamos vendo é que as medidas não são suficientemente rápidas e eficazes para identificar, prevenir e mitigar esse tipo de conteúdo. O que deveriam fazer é estabelecer mecanismos mais claros e rápidos para identificar e responder quando houver publicações do tipo, incluindo o encaminhamento desses casos às autoridades colombianas", sugere.

    Falsas promessas de emprego 

    Segundo Nini Johana Daza, conselheira principal do Conselho Regional Indígena do Cauca (CRIC), departamento do sudoeste colombiano, as comunidades indígenas estão entre as mais afetadas pelo fenômeno. Para ela, o fato de os jovens estarem cada vez mais conectados em grupos com outros amigos via WhatsApp e TikTok facilita o aliciamento.

    "As pessoas que se dedicam justamente ao trabalho de recrutá-los desenvolvem toda uma estratégia para identificar quem pode ser recrutado. Quais jovens têm mais vulnerabilidades, como situações em que a família talvez não tenha recursos ou não tenha estabilidade psicológica para fazer uma denúncia. Então eles chegam e levam esses jovens", diz.

    Como exemplo, Daza relata o caso de uma mãe que só procurou o CRIC um mês após o desaparecimento do filho.O adolescente teria avisado na vizinhança que iria trabalhar em Cali, e a mãe acreditava que ele tinha ido por vontade própria. Mas, depois que o jovem iniciou um acompanhamento psicológico, contou que "não foi porque quis".

    "O rapaz revelou que, quando disse que não tinha interesse, responderam: 'Não importa. Em tal horário, você vai se apresentar em tal lugar e nós vamos buscar você'", detalha Daza.  

    “Apologia à narcocultura” preocupa ONGs de proteção à infância

    O relatório aponta que os grupos armados utilizam publicações que glorificam a vida nas organizações criminosas e promovem falsas oportunidades de emprego para atrair jovens em situação de vulnerabilidade. Entre os conteúdos identificados pela ONG estão vídeos e fotografias de integrantes exibindo maços de dinheiro, joias e armas. Em outras publicações, os membros dos grupos aparecem em acampamentos ou ouvindo os chamados narcocorridos, um subgênero musical mexicano cujas letras e videoclipes frequentemente exaltam traficantes, cartéis e o estilo de vida associado ao universo do narcotráfico.

    O fenômeno também preocupa entidades dedicadas à proteção de crianças e adolescentes na Colômbia. Para María Mercedes Liévano, diretora da Save the Children Colômbia, o avanço das redes sociais criou novos desafios para a prevenção do recrutamento infantil.

    "Esses grupos estão ocupando as redes em uma velocidade impressionante para seduzir crianças e adolescentes nos territórios onde atuam, promovendo uma verdadeira apologia à narcocultura, ao poder, ao dinheiro e ao uso de motos. Esse é um fator que nos preocupa muitíssimo", afirma a diretora. 

    A Human Rights Watch alerta que o recrutamento não se limita à participação direta em confrontos armados. Muitos jovens são utilizados para coletar informações, vigiar territórios ou operar drones. Entre os principais recrutadores estão o cartel Clan del Golfo, as dissidências das antigas Farc, as Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia, além da guerrilha ELN, o Exército de Libertação Nacional.

    "O conflito armado na Colômbia se agravou e atualmente está presente em mais de 78% do território nacional. Isso é muito alarmante. Se observarmos os números, vemos que o efetivo desses grupos armados ilegais praticamente dobrou nos últimos anos. Em 2025, já havia mais de 28 mil integrantes nessas organizações. E, infelizmente, são as crianças e os adolescentes que estão reforçando esses grupos e também sendo usados para diferentes tarefas", explica María Mercedes Liévano.

    O tema toma força em um momento de endurecimento da política de segurança na Colômbia. O presidente Abelardo de la Espriella, da extrema direita, no poder há menos de um mês, defende uma ofensiva militar contra essas organizações com apoio dos Estados Unidos e de Israel.

    Leia tambémEUA encerram parceria antidrogas histórica com Colômbia e acusam Venezuela de narcoterrorismo

    8 min
  • Fotolivro faz levantamento de itens de ajuda humanitária para Gaza rejeitados por Israel

    O fotolivro “Rejected Items” (Itens Rejeitados), criado pela Tiratura, dos designers Walter Costa e Talita Virgínia, reúne imagens de produtos destinados à ajuda humanitária em Gaza que foram rejeitados por Israel. Desenvolvido no estúdio de criação sediado em Ravena, na Itália, o projeto converte essa lista de restrições em um manifesto visual sobre a crise humanitária no enclave palestino. 

    Patrícia Moribe, da RFI em Paris

    A obra cataloga objetos de ajuda humanitária, de alimentos e equipamentos médicos a outros itens de primeira necessidade. Segundo os autores, esses produtos foram impedidos de entrar no enclave palestino pelas autoridades israelenses sob a justificativa de “duplo uso”, ou seja, de que poderiam ter aplicação tanto civil quanto militar.

    O fotolivro foi selecionado para a shortlist do Author Book Award dos Prêmios do Livro 2026 do festival Encontros de Arles, no sul da França, uma das principais premiações internacionais dedicadas à edição fotográfica.

    A ideia do livro surgiu da palestra de um representante da ONG italiana EducAid, que atua com projetos humanitários e educacionais na região. Segundo Walter Costa, a experiência despertou um sentimento de impotência e levou o grupo a buscar uma forma de contribuir por meio da publicação.

    O design do livro adota uma estética de relatório, em formato A4, e utiliza imagens encontradas na internet que remetem a catálogos de compras online. Segundo Costa, a escolha procura evitar que o espectador se proteja emocionalmente diante de imagens explícitas de violência. “Quando imagens violentas são mostradas, desenvolvemos um mecanismo de defesa; então utilizamos imagens assim higienizadas para cruzar esse escudo”, explica.

    Mecanismo perverso

    Para Talita Virginia, a arbitrariedade dos bloqueios é um dos aspectos mais perversos da situação. “Não existe uma lista oficial. Um item pode entrar hoje e ser bloqueado amanhã”, afirma. Entre os exemplos mencionados por ela estão produtos como gengibre, chocolate, brinquedos, papel A4 e uma incubadora.

    O livro tem preço sugerido de €15, e a receita das vendas, descontados os custos de produção, é destinada à ONG EducAid, segundo a divulgação do projeto.

    Hub de engajamento cívico e impressão sustentável

    A Tiratura, um espaço dedicado à pedagogia da imagem, à narrativa visual, ao design gráfico e à produção editorial, foi fundada em 2023, em Ravena, Itália, pelo italiano Walter Costa e a brasileira Talita Virgínia. 

    O estúdio de criação abriga uma biblioteca especializada com quase 2 mil publicações relacionadas à fotografia, às artes gráficas e ao design, além de uma oficina Risograph, tecnologia japonesa de impressão sustentável.

    Em dezembro, Walter Costa e Talita Virginia ministrarão um laboratório de criação coletiva inspirado no cordel durante o Festival Solar de Fotografia, em Fortaleza. O workshop terá como resultado uma publicação produzida coletivamente pelos participantes.

    7 min
  • Ultrarricos avançam sobre o litoral de Portugal apesar de lei garantir praias públicas

    Neste verão europeu de calor extremo e incêndios, Portugal volta a enfrentar a polêmica das praias privadas e da falta de acesso ao mar. Um dos casos com maior repercussão midiática envolve os donos da Herdade da Comenda, uma área com 600 hectares no Parque Natural da Arrábida, no município de Setúbal. Eles contestam na Justiça a posse de cinco praias: Rasca, Comenda, Rainha, Maria Esguelha e Albarquel.

    Letícia Fonseca-Sourander, correspondente da RFI em Portugal

    A ação movida contra o Estado português e a Agência Portuguesa do Ambiente (APA) foi refutada por ambos no tribunal de Setúbal, mas o processo continua. A família Mirpuri, que detém a Herdade da Comenda desde 2019, reclama a posse das praias por meio de um antigo documento de venda da propriedade em leilão público.

    No século XIX, D. Luís I, rei de Portugal e Algarves, assinou um decreto declarando domínio público hídrico, as águas do mar e seus leitos e margens, os portos, as praias, os rios, canais e docas. São bens que não se vendem nem se compram. No entanto, quem conseguir provar que já era dono de uma parcela de leito ou margem do mar antes de 1864 pode ter seus direitos reconhecidos.

    O presidente do Conselho Diretivo da APA, José Pimenta Machado, reafirma este princípio. “Em Portugal as praias são públicas. É verdade que há um processo em curso, mas as praias são públicas e, presume-se que são públicas, mesmo que haja alguém contestando que são privadas, como é o caso da Herdade da Comenda”, ressalta.

    Recentemente, centenas de manifestantes protestaram em defesa do usufruto público destas praias e contra a falta de acesso ao mar por caminhos que foram usados desde sempre pela população. João Cruz, da iniciativa “Deslarrrguem a Arrábida”, acusa a Câmara Municipal de Setúbal de passividade.

    “O que a Herdade da Comenda fez foi cercar com arame farpado, com grades e com redes ao longo da estrada de um lado e de outro, impedindo a circulação da população para dentro do que eles acreditam ser o direito exclusivo deles de propriedade”, denuncia.  

    No mês passado, a Associação dos Cidadãos pela Arrábida e Estuário do Sado entregou mais uma petição pedindo a intervenção do Estado e da Câmara Municipal de Setúbal para que mobilizem todos os esforços para remover as vedações ilegais e repor os acessos indevidamente cortados pelos proprietários da Herdade da Comenda.

    Uma cancela no meio do caminho

    Na imensidão do azul do mar, bem em frente à Serra da Arrábida, se encontra um dos trechos mais bonitos do litoral português, que começa na península de Tróia e se estende até a praia de Melides, no município de Grândola. Porém, estes 40km de areias brancas e praias paradisíacas têm cerca de 80% dos acessos limitados ou inexistentes.

    Com a explosão da especulação imobiliária de alto luxo na região, a passagem pública até o mar é uma verdadeira odisseia. São inúmeras cancelas e muros que impedem o acesso livre às praias. Além disso, falta sinalização adequada e há poucos estacionamentos disponíveis. O luxo tornou a área inacessível a quem não é famoso nem poderoso.

    Em recente entrevista ao jornal Expresso, o filósofo Viriato Soromenho-Marques fez um alerta. “Vivemos uma situação em que o poder do dinheiro tenta sobrepor-se aos direitos constitucionais dos cidadãos.”

    Segundo a ativista Diana V. Almeida, do movimento “Reabrir a Galé”, é impossível chegar à praia da Galé-Fontainhas por causa da construção do resort residencial Costa Terra, da empresa americana Discovery Land Company. O empreendimento imobiliário é considerado o mais exclusivo de Melides.

    “Os seguranças impedem as pessoas de avançar pelas estradas públicas, já não estamos falando no acesso à própria propriedade”, diz Diana. Segundo ela, isso acontece também em outras áreas, como por exemplo na Comporta e na zona dos Brejos, onde as estradas públicas tem cancelas e as pessoas não podem passar e mesmo quando chamam a GNR – força de segurança pública de Portugal. “É impossível esta cancela ser levantada”, protesta a ativista.

    No mês passado, a ministra do Ambiente e Energia, Maria da Graça Carvalho, foi a seis praias de Grândola para conferir se as irregularidades encontradas pela APA foram corrigidas. De acordo com a ministra, os trabalhos de remoção de cancelas, colocação de sinalização e construção de estacionamento estão sendo feitos, mas o cenário ainda está longe do ideal. A Quercus, uma das faces mais visíveis do ativismo ambiental em Portugal, aguarda há dois meses uma resposta do governo sobre quando as obras serão concluídas.

    Litoral VIP

    Ao se firmar como destino de luxo e refúgio de milionários, este trecho da costa alentejana tem atraído nos últimos anos celebridades como Madonna, Angelina Jolie, Nicole Kidman e mais uma fila de ultrarricos dispostos a investir milhões de euros e dólares em fortalezas de luxo com pouca ética ambiental, como denunciam com frequência ONGs portuguesas de defesa da natureza.

    Com grande parte de Portugal sob seca severa, os campos de golfe atraem atenções por ainda usar pouca água residual para regar os espaços verdes. Em entrevista à RFI, a presidente da Quercus, Alexandra Azevedo, critica esse descaso. “Muitas vezes os campos de golfe destes empreendimentos de luxo são regados com água potável dos aquíferos em uma região que sofre uma crise de abastecimento de água”, condenou.

    Uma das mulheres mais ricas da Espanha, Sandra Ortega, herdeira do império Zara, inaugurou recentemente o seu resort de luxo, o Na Praia, em Tróia, com diárias que podem chegar a € 5.700. O projeto teve as obras suspensas por causa de uma medida cautelar movida por associações ambientalistas, que apontaram irregularidades, como a eliminação total da vegetação e a terraplanagem das dunas. Apesar disso, a Justiça portuguesa considerou a paralisação improcedente e liberou a conclusão das obras.

    8 min
  • Proibição de redes sociais a menores de 15 anos gera diálogo saudável entre pais e filhos na França

    Em 1º de setembro, no início do ano letivo na França, entra em vigor a lei que proíbe redes sociais a menores de 15 anos. Pais e filhos ouvidos pela RFI opinaram sobre a medida. É consensual que o modo de funcionamento dos algoritmos das plataformas causa impactos negativos para os jovens.

    Vitória Barreto, para a RFI em Paris

    A França se tornou o primeiro país na União Europeia a estabelecer uma lei de idade mínima para o acesso às redes sociais em âmbito nacional. A iniciativa faz parte de um movimento crescente de governos que buscam limitar a exposição de crianças e adolescentes às plataformas digitais diante de preocupações com saúde mental, privacidade e segurança online.

    O texto, aprovado em julho pela Assembleia e pelo Senado, ainda requer um detalhamento sobre o método de verificação de idade dos usuários. Mas já está definido que, para as contas existentes, o prazo de verificação da idade mínima termina em dezembro.

    Alain Bleu, supervisor técnico de transmissão de rádio e TV, pai de um adolescente de 14 anos, vê a nova legislação com reservas. Embora reconheça os riscos associados ao uso das redes sociais por jovens, ele questiona a eficácia de uma proibição implementada abruptamente.

    “Já existe um sistema em que as pessoas vivem com as redes sociais. Impor um controle de repente, acho que surpreende, e não sei se é a resposta certa fazer desse jeito", disse Alain. “Acho que os políticos não tiveram a reflexão necessária quando essas redes sociais começaram, porque já havia evidências, os psicólogos já falavam dos perigos, dos problemas”, acrescentou.

    Saúde mental em jogo

    Uma das principais justificativas para a implementação da lei é a proteção da saúde mental dos jovens. Segundo a agência de saúde francesa, um em cada dois adolescentes passa entre duas e cinco horas por dia conectado a um smartphone.    

    Um relatório mostrou que o uso de redes sociais traz uma série de efeitos negativos: a queda da autoestima dos adolescentes e o aumento da exposição a conteúdos ligados a comportamentos de risco.

    Inès Legendre, assessora jurídica da e-Enfance, organização francesa de proteção de menores no ambiente digital, afirma que a associação recebe frequentemente ligações de pais que se sentem desamparados diante do tempo que os filhos passam em frente às telas e nas redes sociais. Segundo ela, os jovens ficam expostos muitas vezes a “conteúdo que promove a magreza extrema, ou posts ligados ao suicídio”.

    Críticos apontam que a lei pode ser utópica, já que os próprios jovens podem encontrar formas de contorná-la.

    Na Austrália, por exemplo, mais de 80% dos adolescentes com menos de 16 anos continuaram nas redes sociais três meses após a proibição nacional entrar em vigor, segundo pesquisa do órgão regulatório do país.

    Ainda assim, para a jurista francesa, a lei é um passo importante para a regulamentação das redes no bloco europeu.

    “Como os próprios parlamentares que votaram o texto final da lei já disseram, ela é, na verdade, simbólica. Serve, antes de tudo, para pressionar a União Europeia a agir. O bloco até já fez bastante coisa nessa área, mas, no momento, quem tomou a frente mesmo foi a França,” enfatizou.

    Leia tambémFrança aprova veto às redes sociais para menores de 15 anos e lidera movimento inédito na UE

    As redes como espaço de refúgio

    O filho de Alain, de 14 anos, cuja identidade foi preservada por ser menor de idade, afirma que passa bastante tempo nas redes sociais, onde acompanha principalmente conteúdos relacionados a temas de seu interesse, como política.

    Apesar do hábito de usar essas plataformas com frequência, ele diz ser favorável à nova lei. Na sua avaliação, diferentemente dele, muitos de seus amigos enxergam as redes sociais como um espaço de refúgio, mas nem sempre seguro.

    “Eles pensam que a rede social é uma forma de escapar da vida real e que agora estão tirando essa válvula de escape de pessoas que vivem, por exemplo, em um ambiente familiar difícil ou cercadas de relações tóxicas”, afirma.

    O adolescente reconhece, no entanto, que os benefícios das redes convivem com riscos importantes.

    “Quando você percebe que o mesmo algoritmo que pode ajudar alguém a encontrar apoio também pode expô-lo a conteúdos ligados ao suicídio, por exemplo, os efeitos negativos acabam sendo ainda maiores. É por isso que considero essa lei uma boa medida”, acrescenta.

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    A importância da educação em casa

    Para o empreendedor Jonathan Kiloso, pai de uma menina de 11 anos, a lei é um passo importante, mas acredita que a verdadeira solução está na comunicação entre pais e filhos.

    “O verdadeiro caminho seria ensinar as crianças a cuidar dos próprios dados, pensar na imagem que deixam na internet e entender que certas atitudes têm consequências tanto para os outros quanto para elas mesmas. E também ajudá-las a entender como os algoritmos funcionam,” disse o pai.

    “Quando esses pontos já estiverem bem trabalhados, dentro de um diálogo aberto e transparente entre pais e filhos, aí sim dá para pensar em limitar o acesso delas”, acrescentou.

    A filha pré-adolescente de Jonathan é a favor da lei, porque sente que não teria a mesma infância se usasse as redes sociais.

    “Quando você tem menos de 15 anos e não tem redes sociais, pode ficar mais aberto ao que está ao seu redor. Já a maioria dos jovens de 15 anos vive grudada no celular e não se abre para o mundo. Não estou dizendo que isso vai acontecer comigo, mas, se tivesse redes sociais, talvez passasse meu tempo nelas, e não é isso que eu quero."

    Um dos principais críticos da lei é o partido de esquerda radical França Insubmissa. Apesar de concordar com a necessidade da proteção de menores, defende que as redes sociais são um espaço importante de socialização, acesso à informação e na introdução dos jovens ao debate público.

    Até setembro, o governo francês deve detalhar os possíveis métodos de verificação da idade dos adolescentes. Entre as opções em estudo estão a estimativa de idade por selfie, analisada por algoritmo, ou por apresentação de um documento de identidade. 

    Na volta às aulas, a França também amplia as restrições ao uso de smartphones no ensino médio, oito anos depois da adoção da medida no ensino fundamental.

    Segundo o governo francês, pesquisas realizadas em escolas que restringiram os aparelhos mostraram efeitos positivos sobre a concentração dos estudantes, o clima escolar e a redução de episódios de bullying nas redes.

    7 min
  • De La Espriella reforça guinada à direita na América Latina e aproxima Colômbia dos EUA

    A chegada de Abelardo De La Espriella à presidência da Colômbia reforça a guinada à direita na América Latina e a crescente influência dos Estados Unidos na região. Em seu discurso de posse, na última sexta-feira (7), em uma base militar em Cali, no sudoeste do país, o novo presidente sinalizou a intenção de estreitar as relações com Washington e alinhar sua política de segurança às prioridades dos Estados Unidos.

    Pedro Pannunzio, especial de Cali para a RFI

    No fim de semana, De La Espriella ordenou operações militares em várias regiões do país contra dissidências das Farc e o Clã do Golfo, marcando o início de uma estratégia de combate frontal aos grupos armados.  As ações conduzidas pela Força Pública resultaram em mortes, prisões e na apreensão de armas e material de inteligência.

    Durante a posse, o presidente afirmou que um dos primeiros atos de seu governo seria aderir ao "Escudo das Américas", para "fortalecer a ação conjunta das nações livres diante das ameaças que afetam a segurança regional". A declaração foi feita diante de centenas de militares perfilados em posição de sentido.

    A organização, que reúne países liderados por políticos de direita alinhados a Washington, foi criada em março deste ano pelo governo de Donald Trump com o objetivo de estabelecer uma cooperação militar no continente americano.

    Os Estados Unidos, por sua vez, anunciaram a intenção de enviar a Colômbia uma ajuda financeira de US$ 1 bilhão “como parte de um pacote de segurança para apoiar o governo do Presidente De La Espriella na conquista de objetivos comuns”, de acordo com um comunicado divulgado pelo Departamento de Estado no dia da posse do novo dirigente sul-americano.

    No domingo (9), a presidência colombiana divulgou uma nota em que afirma ter recebido “com profunda satisfação” o anúncio da intenção de financiamento. O comunicado diz, ainda, que o pacote fortalece o uso de “tecnologia norte-americana de alto nível” pelas forças armadas do país agora comandado por De La Espriella.

    Para Vladimir Rouvinski, professor de relações internacionais da Universidade Icesi, em Cali, a nova configuração da relação entre os dois países guarda semelhanças com uma experiência do passado.

    “O que nós provavelmente veremos é uma espécie de Plano Colômbia 2.0. O Plano Colômbia inicial buscava, em várias frentes, enfrentar a questão do narcotráfico na Colômbia a partir do fortalecimento das Forças Armadas colombianas.”

    O Plano Colômbia foi um acordo de cooperação bilateral em conjunto com os Estados Unidos criado em 1999. O projeto combinou ajuda financeira em larga escala e apoio militar norte-americano para combater o narcotráfico e enfraquecer grupos guerrilheiros de esquerda, como as FARC.

    A chegada de De La Espriella ao poder ocorre em um momento de fortalecimento de lideranças de ultradireita na região. O novo presidente colombiano, que nunca havia ocupado um cargo público, tem entre suas promessas a construção de megapresídios inspirados no modelo adotado pelo presidente de El Salvador, Nayib Bukele.

    Austeridade e política linha-dura

    Na área econômica, ele deve implementar medidas de austeridade. Em seu primeiro discurso como presidente do país, prometeu publicar um decreto para congelar os gastos públicos, sem explicar exatamente como a medida funcionaria. “O regime que deixa o poder promoveu um crescimento desmedido dos gastos, baseado em um endividamento que enfraqueceu as finanças nacionais”, alegou. Por outro lado, disse que iria eliminar o imposto ao patrimônio.

    Carlos Ortiz, professor da Universidade del Valle, acredita que as políticas do governo colombiano devem levar o país “novamente a um conflito social”. Para ele, as medidas anunciadas pelo novo governo representam um retrocesso em relação aos avanços democráticos durante a gestão de Gustavo Petro, antecessor de De La Espriella e primeiro presidente de esquerda a governar a Colômbia.

    “Evidentemente, é um movimento que tende a reduzir os avanços democráticos alcançados no passado e a fortalecer o papel do Estado em favor das grandes corporações e dos grandes oligarcas. Esse afastamento das necessidades dos setores populares, para insistir sempre nos benefícios dos mais ricos, é algo que voltará a se impor com este governo.”

    Enquanto a direita avança em boa parte da América Latina e a influência de Washington cresce na região, o Brasil permanece sob um governo de centro-esquerda, sem alinhamento com os Estados Unidos. Para o professor Vladimir Rouvinski, o país, no entanto, não está isolado e ainda exerce um importante peso político sobre os vizinhos sul-americanos.

    Para ele, caso Lula vença as eleições de outubro, o Brasil poderia atuar como uma espécie de contrapeso ao aumento da presença de Washington na América do Sul. “Eu diria que, nesse caso, o Brasil pode desempenhar um papel. Se Lula vencer, o país pode atuar como uma espécie de contrapeso, em muitos sentidos, ao aumento da presença dos Estados Unidos na América do Sul.”

    5 min
  • Apoio de Infantino a Trump foi além de qualquer sede de Copa, diz ONG que pede investigação ao COI

    A organização internacional de direitos humanos FairSquare apresentou uma denúncia ao Comitê Olímpico Internacional (COI) contra o presidente da Fifa, Gianni Infantino, acusando o dirigente de violar as regras de neutralidade política previstas na Carta Olímpica ao demonstrar apoio público ao presidente dos Estados Unidos, Donald Trump.

    Luciana Rosa, correspondente em Nova York

    Segundo a entidade, Infantino, que também é membro do COI desde janeiro de 2020, está sujeito às normas de neutralidade política e ao Código de Ética da organização olímpica. Para a FairSquare, sua atuação durante a preparação e a realização da Copa do Mundo de 2026 ultrapassou os limites da relação institucional entre a Fifa e o país-sede.

    "O que vimos durante a presidência de Infantino é um padrão de aproximação política com governos como os da Rússia, do Catar e, agora, dos Estados Unidos. Mas, no caso da Copa de 2026, ele foi ainda mais longe", afirmou Alex Carlen, diretor de Pesquisa e Advocacy da FairSquare.

    Segundo Carlen, a proximidade entre Infantino e Trump representa uma escalada em relação ao comportamento adotado pelo dirigente em torneios anteriores. A denúncia cita como principais evidências a entrega do Prêmio da Paz da Fifa, em dezembro de 2025, durante o sorteio da Copa do Mundo de 2026 em Washington, e a participação de Infantino no chamado "Conselho da Paz", evento promovido por Trump em fevereiro.

    Na ocasião, Infantino apareceu usando um boné com as inscrições "USA" e "45-47", referência aos dois mandatos presidenciais de Trump. "No caso de Trump, ele foi além. Passou a endossar a agenda política do presidente", disse Carlen.

    Caso Balogun reforçou a denúncia

    A FairSquare afirma que outro dos principais pilares da denúncia envolve o atacante americano Florin Balogun durante a Copa do Mundo de 2026.

    Segundo a organização, após Trump pedir publicamente a Gianni Infantino que revisasse a expulsão do jogador, a suspensão automática decorrente do cartão vermelho foi revertida, permitindo que Balogun voltasse a atuar na competição. Para a ONG, o episódio levanta dúvidas sobre uma possível interferência política em decisões disciplinares da Fifa.

    Carlen afirma que esse caso foi incorporado à denúncia apresentada ao COI porque ainda não havia ocorrido quando a organização acionou o Comitê de Ética da Fifa.

    "Apresentamos essa denúncia ao Comitê de Ética da Fifa em dezembro e, até hoje, não recebemos qualquer resposta. Não houve sequer uma indicação pública de que uma investigação tenha sido aberta", afirmou.

    Segundo o diretor da FairSquare, o episódio envolvendo Balogun e a entrega do Prêmio da Paz a Trump são hoje "as duas principais evidências" que fundamentam a denúncia apresentada ao Comitê Olímpico Internacional. 

    Relação com países-sede

    A organização sustenta que manter boas relações com governos anfitriões é parte do trabalho da Fifa, mas afirma que isso não exige manifestações públicas de apoio político.

    Como exemplo, Carlen cita Canadá e México, que também sediaram a Copa do Mundo de 2026 ao lado dos Estados Unidos.

    "A Fifa conseguiu manter boas relações com Canadá e México sem promover a agenda política de seus líderes. Isso mostra que é possível organizar uma Copa do Mundo sem apoiar um político específico", disse.

    Para a FairSquare, a proximidade entre Infantino e Trump representa uma ruptura com a postura adotada pela Fifa em outras sedes de Mundiais e reforça a necessidade de uma investigação independente.

    O que a FairSquare pede?

    A organização solicita que o Comitê Olímpico Internacional investigue a conduta de Gianni Infantino como membro do COI e determine se suas ações são compatíveis com as regras de neutralidade política previstas na Carta Olímpica e no Código de Ética da entidade.

    A FairSquare afirma que seu objetivo principal é obter uma decisão formal sobre a conduta de Infantino e estabelecer um precedente para futuros dirigentes esportivos, deixando ao COI a decisão sobre eventuais sanções.

    Até o momento da publicação desta reportagem, nem a Fifa nem o Comitê Olímpico Internacional responderam aos pedidos de comentário sobre a denúncia.

    8 min
  • Argentina vive onda de patriotismo entre Copa do Mundo e celebrações da Independência

    A atual seleção da Argentina talvez não encante tanto quanto a equipe campeã da Copa do Mundo no Catar, mas segue conquistando a torcida pela capacidade de superar adversidades. Para o confronto deste sábado (11) contra a Suíça, pelas quartas de final, os argentinos depositam confiança não apenas na qualidade técnica do time, mas também na determinação dos jogadores. O momento coincide com as comemorações da Independência do país, ampliando o sentimento de orgulho nacional.

    Márcio Resende, correspondente da RFI em Buenos Aires

    “Argentina! Argentina! Argentina! Vamos, Argentina! Vamos ganhar!”. As palavras poderiam soar como ordens de batalha, mas são versos entoados por uma torcida que não desiste de acreditar nem de incentivar a seleção.

    Alguns dos cantos mais tradicionais das arquibancadas ecoam nesta semana em um lugar inusitado: o Festival de Bandas Militares, realizado como parte das celebrações do Dia da Independência, em 9 de julho. Entre hinos e marchas, as bandas executam músicas populares da torcida argentina, levando o público a cantar e se levantar das arquibancadas no Campo Argentino de Polo, em Buenos Aires.

    Nesta semana patriótica, diferentes elementos se misturam para reforçar o orgulho nacional: os 210 anos da Independência, a esperança pelo tetracampeonato mundial e a histórica virada sobre o Egito, na terça-feira (7), quando a Argentina reverteu uma desvantagem e mostrou ao mundo sua capacidade de reação.

    O major Alan Nuñez, diretor da banda militar Tambor de Tacuarí, do Regimento de Infantaria 1 Patrícios, o mais antigo do Exército argentino, afirma que há paralelos entre as batalhas históricas do país e a forma como a seleção se comporta em campo.

    “Como argentino, sinto uma grande emoção quando a seleção demonstra esse espírito de luta que acompanha nosso povo desde a independência. Vemos essa característica também no futebol, essa capacidade de não nos darmos por vencidos até o último momento”, diz.

    Conhecido popularmente como Regimento dos Patrícios, o grupo militar foi criado em 1806 em resposta às invasões inglesas e teve participação importante nas guerras de independência iniciadas após a Revolução de Maio de 1810. Também atuou, em 1827, na Guerra da Cisplatina, na Guerra do Paraguai, em 1865, e na Guerra das Malvinas. 

    Em tempos de paz, porém, a principal arena das emoções nacionais parece ser o futebol.

    “Quando a seleção conquista vitórias como essas, une todos os argentinos, independentemente de posições políticas ou diferenças sociais. E, quando isso acontece durante as comemorações da pátria, a emoção é ainda maior”, afirma o major.

    Euforia popular

    Nas arquibancadas do festival, o professor de educação física Lucas Bonilla, de 24 anos, diz viver uma semana especial.

    “É emocionante. Dá vontade até de chorar. Temos a Independência, temos a Copa do Mundo. É uma combinação incrível. Como argentino, me emociono vendo a seleção e também celebrando a pátria”, afirma, vestindo a camisa da equipe nacional.

    O último confronto entre Argentina e Suíça em uma Copa do Mundo ocorreu no Brasil, em 2014, quando os argentinos venceram por 1 a 0.

    “Vai ser um jogo muito duro. A Suíça é um adversário complicado, mas acho que vamos ganhar. Minha fé está mais viva do que nunca. E tomara que isso nos leve à semifinal contra a Inglaterra. É o que nós argentinos mais queremos”, diz Lucas.

    Ao seu lado, Martín Juárez, de 25 anos, carrega uma bandeira argentina em homenagem tanto à data nacional quanto à seleção.

    “Para os estrangeiros, explico que isso é a Argentina. Apoiamos o time incondicionalmente, e os jogadores respondem com muita garra e vamos todos com fé. Tenho muita fé em uma vitória da Argentina contra a Suíça”, afirma.

    Estado de graça

    Lucio Molina, de 58 anos, também acredita na vitória contra Suíça neste sábado, mas reconhece que a equipe tem pontos fracos na zaga. “Como argentino e tendo fé porque sou um homem de fé, acredito que vamos ganhar. Vejo uma partida muito difícil. Precisamos prestar atenção nos erros que tivemos na defesa. Estamos fracos nesse ponto. Temos de corrigir isso e sermos inteligentes”, analisa.

    Para ele, a virada épica contra o Egito, quando em pouco mais de dez minutos, virou o placar para três a dois, deixou o país em estado de graça.

    “É uma mistura de tudo que nos dá orgulho nacional e que nos deixa mais contentes. Quando temos vitórias no futebol, todos ficam alegres, ficamos alegres como nação. Quando a Argentina jogou estávamos tristes porque estávamos perdendo. Mas, de repente, apareceu esta força argentina e nos salvou. Ganhamos, graças a Deus. E nos alegrou como nação”, celebra.

    Ao lado dele, María Salguero, de 54 anos, também confia numa vitória na base da raça. “Esperamos um triunfo da Argentina neste sábado, mas precisamos ter cuidado. Todas as seleções que chegaram a esta fase são fortes. Ainda assim, temos muita fé porque nós latinos temos muita força e esta seleção argentina tem garra”, afirma. 

    Professora de informática e biologia, María diz usar a trajetória da equipe como exemplo em sala de aula.

    “Acredito que a mensagem que a seleção argentina nos ensina a ter fé até o último minuto e a trabalhar em equipe. A Argentina vence coletivamente, não pela individualidade. Esse é o exemplo que damos também aos alunos: de que devemos trabalhar em equipe. E, quando você pensa que já está derrotado, ainda restam dez minutos para reverter tudo”, ensina.

    Comunhão nacional

    Essa mensagem a pequena Antonella, de 11 anos, já entendeu. Depois da virada sobre o Egito, ela acredita que a Argentina pode conquistar mais um título mundial.

    “Suponho que a Argentina vá ganhar porque tem bons jogadores. A Argentina fez três gols e nos salvou contra o Egito porque, num momento em que não confiávamos que íamos ganhar, a Argentina fez três gols. Sim, acho que podemos ser campeões", diz. 

    Os argentinos estão em comunhão em torno da euforia, mas também do sofrimento. “Fiquei muito feliz com a vitória da Argentina. Quase morri. É uma forma de sofrer. É um sofrimento”, desabafa Antonella.

    O major Alan Nuñez vê nessa mobilização uma expressão do patriotismo argentino. “Desde criança eu sonhei em estar aqui numa banda militar. E hoje, ao sair e escutar as marchas militares, fico arrepiado e cresce no público o fervor patriótico”, diz.

    A seleção e a torcida parecem compartilhar a mesma característica: a insistência em seguir adiante mesmo diante das dificuldades. Há mais de dois séculos, a figura inspiradora era o general José de San Martín. Hoje, para muitos argentinos, esse papel cabe a Lionel Messi, símbolo de um país que volta a sonhar com mais uma conquista mundial.

    6 min

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