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peço licença pra começar esse capítulo deixando o ano de 2022 atropelar o de 2012: as eleições no domingo têm sido o tema inescapável de outubro. e como não, considerando que, mesmo depois de tantos crimes cometidos (e engavetados) pelo governo atual, ainda tem uma boa parcela de brasileiros achando que continuar com essa devassa dos nossos recursos naturais e humanos é a melhor opção pro Brasil.
eu, como artista, mulher, bissexual, defensora dos direitos humanos e da biodiversidade, sou alvo direto desse presidente. e tenho medo de ter que enfrentar mais 4 anos de destruição de direitos, mentiras e ameaças à nossa vida.
criei pouco nas últimas semanas e me senti muito mal por isso. aí ontem a Clau Fusco me acalmou: com que cara eu vou vir aqui e falar pra você, pessoa brasileira em 2022, produzir arte? pois. tá difícil.
mas nem tudo está perdido, Lula ficou em primeiro no 1º turno e as pesquisas indicam que ele ainda está na frente nas intenções de voto. a aliança pela democracia conseguiu unir PT e PSDB (e muitos outros partidos), coisa que há 6 anos seria impensável. temos a esperança de sair do fundo desse poço fedorento que nos enfiaram e é essa esperança que me acalma antes de dormir.
bom, como a proposta deste canal aqui é partilhar o processo de escrita do meu livro, compartilho hoje o que eu consegui escrever. é mais prosa que poesia, não tá tão acabado quanto capítulos anteriores, mas é parte do processo. e, olhando em retrospecto, até que consegui escrever muitas palavras.
vem viajar comigo pela Jordânia de 2012. e vote 13 no domingo.
28 de maio, transporte público (uma van) de Al-Karak para Petra, Jordânia
“você quer ficar na minha casa?” perguntou a mulher de véu e roupas pretas que deixavam à mostra apenas seu rosto e mãos. Besame viaja ao meu lado na van. tem olhos verdes, mão pequenas, 32 anos, mas o rosto curtido de sol e a vida dura fazem com que pareça mais velha. 5 filhos e outro a caminho. tem uma barraca de souvenirs em Petra e fala inglês bem o suficiente para conversarmos para além do what is your name where are you from where are you going. ela teve um sangramento e foi ao obstetra numa cidade maior, está voltando pra casa com a recomendação de repouso absoluto por pelo menos 3 meses.
a paisagem seca, montanhas rochosas e arbustos retorcidos, passa lentamente por nós. no rádio, alguém entoa o Alcorão acompanhado por um tambor. monótono, mas bonito.
“se não for muito incômodo…”
“pelo contrário, a gente adora receber turistas em casa.”
“ah, então eu aceito.”
eu não sabia muito bem o que estava aceitando. achei que iria ficar numa casa (ou apartamento) em Wadi Musa, a cidade ao lado das ruínas da antiga cidade dos Nabateus. pensei: se eu não me sentir segura, eu agradeço, saio e faço check-in num hotel. mas.
chegando em Wadi Musa, primeiro fui na bilheteria de Petra e comprei um passe de dois dias + o show Petra By Night pra hoje à noite. fizemos uma compra de frutas e legumes (Besame não deixou que eu pagasse) enquanto o primo dela vinha nos buscar. ele colocou meu mochilão na carroceria de uma caminhonete grande, me acomodei ao lado das melancias e, para minha surpresa, saímos da cidade por uma estrada esburacada.
a casa da Besame fica no assentamento beduíno Uum Sayhoun. se eu soubesse um pouco mais sobre a Jordânia e suas populações, poderia reconhecer que ela é beduína pelas roupas pretas.
o filho de seis anos, Ali, veio correndo me receber. “come in my lady”, repetiu várias vezes enquanto tentava carregar meu mochilão. 4 dos 5 filhos e Mariam, cunhada da Besame, moram na casa. e o marido, Mohammed, que está trabalhando em Petra. eles têm dois burrinhos e um camelo para levar turistas pelas ruínas. a filha mais velha dela, 16 anos, é de outro casamento e mora com o pai.
a casa, que eles chamam de caverna, tem um salão grande, dois quartos pequenos ocupados por armários grandes, um banheiro e uma cozinha. o único móvel do salão é uma cômoda e sobre ela algumas pedras de diversas cores e fotos do Bob Marley.
a filha de 11 anos, Mariane, virou minha melhor amiga instantaneamente. Besame trocou o lenço e o robe preto e por camiseta e calça coloridas, os cabelos castanhos fartos presos num rabo de cavalo. na vida privada pode. por hora, me sinto segura.
dez anos separam
eu chegando de mochilão às costas, mochila à frente, pochete de couro na cintura e sacola de comidas pendurada no ombro, chapéu de feltro sueco na cabeça, chinelos nos pés pisando a Amsterdam Centraal Station
eu chegando de mala de rodinha cheia de livros, mochila cheia de papéis às costas, pochete de couro cruzada no peito, sacola de roupas que não couberam na mala pendurada no ombro, sandálias nos pés pisando a Amsterdam Sloterdijk Station
nas duas chegadas, encontrei uma photomatic de estação e tirei cinco fotos
olho pressas Lívias que são a mesma e completamente diferentes
um rio nunca é o mesmo rio sempre é o mesmo rio nunca é o mesmo rio sempre é o mesmo rio nunca é o mesmo rio sempre é o mesmo rio nunca é o mesmo rio sempre é o mesmo rio
colocamos a mesma música pra tocar enquanto caminhamos pela mesma cidade à procura do mesmo transporte até as casas onde irei tomar um banho antes de mais nada
dez anos nos separam, dez anos, um bom punhado a menos de colágeno e um punhadinho a mais de melanina frita
muito sol dos três verões de 2012, carnaval em Pernambuco, Maranhão, Pará, Amazônia, Rio de Janeiro, São Paulo, Minas, México, Guatemala, Uruguay, Bahia que não me sai do pensamento
dez anos de sol
sem protetor solar
dá melasma
se a sua dermatologista ainda não te disse, esteja sabendo
talvez daqui 10 anos minha pele seja toda isso que chamam
mancha
um tecido elástico de melanina que dançou e dança sob o sol
entro no tram en tram os entramos
pensamos na jornada
lá vamos nós
beijinhos,
Lívia
capítulo do romance em processo de escrita ~à toa pelo mundo~ (nome provisório), por Lívia Aguiar, que narra em prosa, poesia, imagens e sons uma volta ao mundo vivida em 2012. eu vivi tudo isso, e posso provar.
neste episódio, estamos na Índia.
para ler desde o começo, vá para eusouatoa.substack.com, episódio "tudo começou com um pé na bunda", de janeiro.
trem noturno pra Varanasi
gente mergulhando e rezando
assim como a comida coreana e a japonesa
achamos o mercado com seus temperos
uma procissão florida desceu a rua
pessoa querida que assina esta newsletter,
peço desculpas pela redução do volume de envios. o ano de 2022 tem sido bem atribulado e atividades vêm se atropelando. manter a escrita deste projeto no ritmo que me propus tem sido bem mais difícil do que antecipei…
à existência neste ano doido e doído soma-se também a minha dificuldade de escrever sobre a Índia! um país muito complexo e fascinante, onde vivi experiências que, 10 anos depois, ainda estou processando. pra você ter uma ideia, Varanasi é apenas a segunda cidade das 5 semanas intensas que vivi lá, ainda tem MUITA Índia pela frente e muitas histórias que eu quero escrever e compartilhar. espero que esteja gostando, apesar da demora =)
aliás, a leitura do capítulo anterior está aqui.
em setembro irei viajar para Portugal e estou tentando adiantar alguns textos para deixar envios agendados. talvez não consiga… mas olha, meu plano é manter a assinatura do projeto pelo catarse até o final do ano (idealmente antes, mas acho que vai ser até dezembro mesmo). depois disso, se eu ainda estiver escrevendo essa história, vou interromper as assinaturas mas continuar escrevendo e enviando a newsletter, tá bem? você vai continuar recebendo os textos em primeira mão!
pra você funciona se for assim? me conta o que tem achado desse processo e desses atrasos? fico aqui escrevendo no silêncio de casa, gravando as leituras de madrugada ou de manhã cedo antes de começarem as obras em volta de casa, sempre com muito carinho e cuidado, curiosa pra saber como vai a recepção do seu lado da tela.
obrigada por estar comigo nessa jornada nesse ano louco!
beijinhos,
Lívia
16 de abril, Pann Cherry Guesthouse, Nyaung-U
seis dias presa em Bagan: até os motoristas de ônibus têm feriado por causa do Ano Novo Budista / Thingyan / Festival da Água. decidi não lutar contra isso e ficar. um descanso depois de tanta correria de cidade em cidade, ônibus noturnos com karaokê do inferno, TPM monstra que virou menstruação monstra.
agora, dias de calma: passeios de bicicleta entre ruínas fabulosas, passando por famílias e amigos brincando de jogar água uns nos outros - e em mim.
dias de calor, silêncio e solitude. os hotéis estão lotados, mas a grande maioria das pessoas não passa do básico 1 de inglês e a conversa acaba depois de umas frases. aproveito pra ler, escrever, dormir, observar a programação de danças, shows e fogos de artifício do Festival, pedalar com calma e sem destino certo.
são três cidades: Bagan Velha é a cidade principal, antiga, cercada por uma muralha. uma cidade oca, porque antes era uma cidade normal salpicada de templos muito antigos. mas os moradores, que cuidavam e usavam as construções históricas, foram removidos pelo governo e suas casas foram demolidas, pra “preservar” os templos antigos. só tem hotel de rico lá. e os templos mais importantes. e ruínas de casas abandonadas. Bagan Nova é a cidade pra onde as pessoas expulsas da Bagan Velha foram despejadas, sem explicações. quatro mil pessoas, em 1990, tiveram uma semana pra se mudar pra um terreno arenoso, sem eletricidade nem estradas. hoje está melhor, mas tem uma aura triste. e tem Nyaung-U, a outra cidadezinha onde ficam os hoteis mais baratos, como a pousada onde estou hospedada, e restaurantes regionais simples que têm menu em inglês, onde faço minhas refeições. aqui tem mais cara de cidade viva do que as Bagans, a Velha e a Nova. e é entre essas três povoações que ficam os templos legais de visitar.
a planície dos templos fica na curva do rio Irrawaddy, o grande rio do Mianmar. é um campo enorme salpicado de templos piramidais, pagodas cônicas de torres altíssimas, templões grandes com várias salas. e os caminhos entre eles, inesgotáveis. todo nascer e pôr do sol é um espetáculo. sinto que eu sempre falo dos entardeceres laranjas, dessa certeza diária por aqui. é que a beleza deles no Sudeste Asiático é extraordinária. especialmente na estação seca, agora. terra do sol ardente. é a poeira no ar que tinge os raios. poeira da terra seca, das queimadas, da rocha dos templos que dilata e contrai até esfarelar.
por isso, acordo quando ainda está escuro. depois durmo, ao meio dia, quando o calor não permite fazer mais nada. a melhor soneca foi ontem, em um dos templos vazios.
as construções mais importantes de Bagan foram reformadas sem qualquer preocupação com preservação histórica ou restauração do original. esse governo do Mianmar parece uma mistura de sadismo com violência, apagamento da memória, feiúra e burrice, bem o que costumam ser os governos autoritários. os templos históricos estão hoje cobertos de azulejos, espelhinhos, plástico. e estão lotados de fiéis colando folhas de ouro em estátuas de buda, fotografando com flash, rezando, meditando, conversando alto, fazendo seus desejos de ano novo, afinal são templos importantes pro budismo.
todo mundo birmanês e eu, mais alta que todos, me destaco. sou atração turística também. devo estar no álbum de fotos de metade das famílias que foram pra Bagan nesse ano novo. me diverti fazendo caretas. e me deixei pintar com thanaka por duas vendedoras que ficam na porta de um dos maiores templos. essa pastinha de tronco de árvore realmente refresca a pele e disseram que protege do sol.
não sinto necessidade nenhuma de insistir em visitar os templos famosos. fui a dois e já basta. são quatro mil nesse pedacinho da Terra. os melhores pra mim são os que são grandes o suficiente pra ter um terraço no terceiro andar, camarote pra ver o sol no horizonte espetado de torres. e pequenos o suficiente pra não atrair quem tá passando por aqui com pressa. camarote vazio. ou quase, às vezes aparece alguém com uma câmera fotográfica gigante e uma cara de “sou da National Gepographic”.
alguns não têm nem trilha de bicicleta até eles. vou indo pela terra vermelha nua, com poucas touceiras de capim, até o solo estar tão fofo que não dá mais pra pedalar. então, sigo à pé, empurrando a bici. na estação de chuvas deve ser um atoleiro atrás do outro.
sem ter que interagir com ninguém, o tempo passa macio. escrevo meus postais, me delicio com a paisagem, acordo cedo e durmo cedo. me rendo à generosidade dos birmaneses gentis que cruzam meu caminho. ganho banhos d’água, sorrisos vários, suco de morango. anteontem um casal pagou minha conta do almoço junto com a deles, simplesmente pra serem simpáticos. me viram almoçar sozinha, acertaram meu almoço e foram embora. só soube quando pedi a conta.
parece que estou de férias. pode isso no meio de um sabático?
aproveito. meu próximo destino é a Índia e sei que não vai ser fácil.
até lá!
beijinhos,
Lívia
_ você tem que ir pra Pakokku, lá não tem nada. o bonito é ficar na pousada da Mya Yatanar e dar uma aula de inglês na escola do Mr. Collins.
_ aula? de inglês? faz tempo que não ataco de professora... o que eu tenho que preparar?!
_ não, não, você vai lá só pra bater-papo. é um jeito dos alunos praticarem conversação, ganhar vocabulário e trocar ideia com pessoas de outros países. e pra você é ótimo porque pode perguntar sobre o Mianmar. sobre a língua, comidas, budismo, tatuagem… e até sobre política.
_ ah, entendi. uai, gostei, hein. tá bem, vou. anotando aqui… Mya Yatanar com y nos dois is?
9 de abril
cheguei em Pakokku eram duas da manhã. o motorista disse “sleep here” e então dormi aconchegada sobre os sacos de arroz que cobriam o chão do ônibus. peguei um sono pesado e gostoso até o sol me acordar. meio atordoada, saí andando com minha mochila perguntando “Mya Yatanar?” e as pessoas apontavam a direção. da quarta vez que perguntei, o moço falou “I can take you”, e ainda bem porque eu ainda estava longe. ele tirou a caminhonete da garagem de casa pra me levar e isso diz muito sobre o que eu vivi em Pakokku.
Mya Yatanar tem idade suficiente pra se lembrar da Birmânia, Colônia, e seu inglês fluente, muito melhor do que o de todos que conheci até agora, comprova isso.
pequena, magrinha, cabelos compridos mais pretos que brancos. rosto enrugado de muitos sorrisos. me recebeu vestida com várias camadas de roupas estampadas. fiquei impressionada com o casaco preto, todo bordado de flores multicor e espelhinhos. calor? o casarão é fresco até ao meio dia deste último mês da estação das secas. fica na beira do rio, numa rua arborizada e tranquila. é uma casa de três andares pintada de verde com um terraço no topo, onde são servidas refeições simples, gostosas e fartas. a pousada está aberta desde os anos 80, quando os turistas só tinham direito a 7 dias de visto e viajavam correndo desesperados, parando em Pakokku só pra esticar as pernas na jornada entre Mandalay e Bagan.
todos os quartos estavam disponíveis. peguei um no último andar e, como em todos os hotéis até agora, dormi as horas que me faltavam para descansar.
acordei, almocei e fui atrás do Mister Collins.
na verdade, chegou um novo hóspede na pousada enquanto eu dormia (Archie, inglês, 18 anos) e saímos juntos em busca da escola. a segunda pessoa que encontramos na rua nos entregou um panfleto divulgando a Mr. Collins English School. foi exatamente assim, juro.
o feriado do Festival da Água tinha acabado de começar, então, quando chegamos, encontramos só o Mr. Collins e outro professor, Han Nyent, limpando a escola: um barracão instalado no quintal de uma casa.
assim que nos viu, Han saiu pra buscar mais alunos enquanto ajudávamos o Mr. Collins a arrumar as cadeiras e o quadro branco da sala de aula.
começamos a conversar e logo chegaram 3, 8 pessoas, cheias de perguntas no bolso. eles já sabem muita coisa sobre a Inglaterra, então eu fiz bem mais sucesso.
sou a primeira brasileira que conhecem. a aula durou a tarde toda, eu nem vi as horas passarem.
birmanês é uma língua tonal cheia de nuances, então todo mundo da escola adota um nome ocidental. fiquei mais amiga da Monalisa, adolescente muito gentil e curiosa. nos ensinaram as palavras mágicas: olá, bom dia, boa noite, obrigada, por favor. as que eu já conhecia mingalaba (oi) e chezutinbadê (obrigada) tenho certeza que ainda estou pronunciando errado. as outras, esqueci segundos depois de aprender, tão anotadas em algum lugar.
falamos da Floresta Amazônica, as parecenças entre o Amazonas, que não conheço pessoalmente, e o Irrawaddy, que passa aqui perto. os dois têm botos, mas os daqui são cinza e estão quase desaparecendo.
falamos de tatuagem, mostrei a minha e os homens mostraram as suas (nenhuma das mulheres tem tatuagem). cada desenho tem suas propriedades mágicas: um pássaro mitológico no braço significa “strongness for my heiny” (fertilidade masculina), uma cobra nas costas é um encantamento de proteção “if an enemy strikes, I can strike back stronger”.
Mr. Collins explicou que tradicionalmente os homens tatuavam as coxas como prova de masculinidade, mas hoje muito menos gente se tatua, por causa do risco de contrair HIV.
agulha descartável é artigo raro por aqui.
mais um motivo pra não me acidentar de jeito nenhum.
falamos de política. todos amam, amam mesmo, a Aung San Suu Kyi. ela ganhou o prêmio nobel da paz por ter passado décadas em cárcere privado lutando pelo fim da ditadura no Mianmar (que ainda governa). ela acabou de ser eleita como deputada e o partido dela levou 44 dos 45 assentos nas primeiras eleições democráticas do país em 30 anos.
nem todos acreditam que agora vai ter democracia, mas a esperança é palpável no ar.
depois da aula, fomos jantar numa casa de chá e comemos uma panqueca com temperos que lembram o curry indiano, recheada de vegetais. gostoso toda vida. não nos deixaram pagar, o Mr. Collins pagou a conta quando ninguém estava olhando.
nos convidaram para dar um passeio pela cidade amanhã. eu decidi ficar mais um dia.
como é que dorme depois de uma tarde tão gostosa, regada a chá preto?
Archie e eu esticamos a noite no terraço da Mya Yatanar, com ela contando histórias de outros tempos. depois nos mostrou os livros de mensagens dos hóspedes anteriores e pediu que escrevêssemos a nossa, à luz de velas por causa do racionamento de energia.
Mya disse que o governo quer revogar a licença para hospedar estrangeiros dela, falam que a pousada não está dentro dos “padrões de qualidade”, tipo ter banheiro dentro dos quartos e ar condicionado. isso seria um crime contra a instituição que ela mantém há décadas. no livro de hóspedes de 1985, tem uma foto 3x4 do David Duchovny, o Agente Fox Mulder do Arquivo X, e a mensagem: “probably the best shower in southeast asia and a wonderful meal. so friendly, you’ll want to overstay your visa”.
naquele tempo, turistas só tinham direito a 7 dias no Mianmar. quem ficasse mais tinha que pagar multa.
eu tenho mais sorte, vou ficar 15 dias. tenho mais 10 pela frente.
me sinto tranquila e segura, baixando a guarda pela primeira vez neste país.
10 de abril
o professor Han Nyent passou de moto logo pela manhã. fomos pra escola para mais uma “aula”, com o dobro de alunos na sala.
tem gente de todas as idades, de crianças a velhos. os mais velhos falam inglês com mais fluência, herança dos colonizadores. um dos alunos tem o sonho de estudar ciências políticas em Oxford, espero que consiga.
depois partimos em 4 motos, 8 pessoas passeando pelos pontos turísticos de Pakokku. um templo na beira do rio, uma confecção de chinelos de palha, outra de charutos, outra de tecidos, com vários teares de madeira e mulheres trabalhando animadas. o mais maravilhoso do passeio foi conversar com as pessoas. os alunos da escola atuaram como intérpretes entre moradores que pareciam nunca ter visto um estrangeiro na vida, oportunidade premiada de me aproximar da cultura do Mianmar.
alguns alunos foram para seus afazeres, outros continuaram o passeio. passamos na casa da Monalisa para tomar suco de limão geladinho e pintar o rosto com thanaka, um pó de tronco de árvore que refresca e protege a pele do sol. tem que moer o pó, misturar água e passar a laminha nas bochechas e testa. pedi pra passar no nariz também, porque o meu é grande e muito exposto, elas riram do meu pedido, mas atenderam.
o thanaka deixa a pele fresca mesmo no calor do meio-dia.
depois do almoço, fomos a um mosteiro enorme. esse mosteiro é importante porque foi um dos grande focos da Revolução Açafrão, em 2007, em que os monges se revoltaram contra a ditadura militar. depois de tudo, esse mosteiro foi reduzido e só tem permissão pra abrigar 4 monges e 10 noviços. por causa do Thingyan, está em sua capacidade máxima de novo.
atrás dos pavilhões de moradia há um morro e um templo encarapitado nele, bonito. voltando de lá, puxei o assunto político com o abade enquanto tomávamos chá.
ele participou da revolução e não acredita que há democracia (eu também não), acha que os militares não vão largar o osso assim tão fácil.
mostrei um trecho do documentário sobre a revolução, que carrego no celular. o abade reconheceu algumas pessoas no vídeo e pediu para ter uma cópia.
claro!
fomos de moto até uma loja de assistência técnica de celular que ele confia.
deixei também os arquivos de três livros sobre a história política do Mianmar.
ao nos despedirmos, ele me deu um tecido tradicional, roxo com detalhes coloridos, feito à mão. meu novo bem precioso.
imagino todos aqueles monges vendo o documentário juntos, depois viajando pras suas cidades e espalhando mais a mensagem, se reconhecendo e fortalecendo.
minha pequena contribuição para um país que merece governantes bem melhores.
fim de tarde na beira do rio, o sol refletiu seu espetáculo na abóbada dourada do templo ao lado.
depois, jantar na mesma casa de chá de ontem. de novo não me deixaram pagar, e a dona do restaurante ainda me deu duas barras de thanaka de presente.
hospitalidade tem limite?!
o bairro todo está sem luz, Mya me deu uma vela assim que cheguei. tomei banho na companhia de uma perereca amarela, que ficou quieta no canto dela, ainda bem.
meu ônibus pra Bagan é amanhã, às 11h, fica aqui perto.
feliz que não vou passar mais uma noite espremida num noturno.
acho que eu acordei
beijinhos,
Lívia
5 de abril, 10h da manhã, Hotel Espelunca em Yangon
aconteceu comigo. as histórias de gente que leva golpe são sempre de um amigo, um conhecido, me contaram. no caso, sou eu mesma a burra que trocou dinheiro com cambista no meio da rua e já começou a viagem se fudendo.
meu orçamento para viajar pelo Mianmar por 15 dias era 450 dólares, 9 notas de 50 novinhas que saquei na Tailândia exatamente pra isso. lembra que eu falei que no Mianmar não tem caixa eletrônico? trouxe o dinheiro todo em espécie.
30 dólares por dia são 20 a mais que a minha média de gastos nos países vizinhos, mas eu sei que aqui é um cadinho mais caro e trouxe a mais por segurança. a ideia era trocar 350 por kyat e continuar com 100 em dólar mesmo, pra emergências.
eu já aterrissei mal, porque cheguei em Yangon, a maior cidade do país e ex-capital, sem reserva de hotel. normal pra mim que tô viajando bem livre, mas pense que todos os turistas chegam no Mianmar às 17h35 no voo diário da Air Asia, e não existem tantos hotéis assim, muito menos hostels pra mochileiros. eu não pensei nisso.
quando cheguei no bairro onde fica a maioria dos hotéis baratos de Yangon, as melhores opções estavam lotadas. procurei em um, outro e mais outro, até achar um quarto livre, 10 dólares a noite, o mais caro da viagem até agora. chamar de quarto é bondade minha. o espaço é da largura da cama e um pouco mais comprido que ela, três das quatro paredes são de plástico, sem janelas.
enquanto eu fazia check-in, uma francesa chegou procurando acomodação e, como o meu era o último quarto vago na espelunca, ofereci pra dividirmos a cama de casal. pelo menos ficou 5 dólares pra cada. a Anne Catherine está no meio da viagem pelo Mianmar e, como eu ainda não tinha dinheiro local, se ofereceu pra pagar o jantar e ainda me deu 2 mil kyat (2 dólares e pouco) pro café da manhã.
achamos uma barraca de rua lotada de clientes (ótimo sinal) e comemos mexido de arroz com frango e lahpet, uma pasta de folha de chá fermentada, ácida e gostosa. depois fomos atrás da sobremesa num lugar indicado por outra hóspede francesa.
Nilar Win é uma iogurteria raiz. lugar simples todo azulejado por dentro que só vende iogurte caseiro, puro ou com salada de frutas, maduras e suculentas. estava bem cheio quando chegamos. o dono é um ex-lutador de kung fu e na TV só passam filmes do Bruce Lee. o próprio iogurteiro atuou como coadjuvante nas cenas de luta de alguns, o que ele nos contou com muito orgulho quando fomos ao balcão. cara muito simpático, magro de ombros largos, que puxou conversa e abriu um sorrisão ao saber que eu sou brasileira.
a luz do bairro inteiro acabou enquanto voltávamos pro hotel. um grupo de homens seguiu jogando futebol mesmo sem ver a bola direito. cortes de energia são bem comuns por aqui, o hotel até tem um gerador, barulhento. tão barulhento quanto o ar condicionado do quarto. dormimos de porta aberta e um zumbido a menos no ouvido.
no dia seguinte, acordei cedo. fui ao mercado ver o movimento. comi uma panqueca branca recheada de legumes e outra marrom, meio doce. gostei mais da salgada.
depois, fui visitar o templo que fica em frente a uma agência do banco nacional pra esperar a hora de trocar meus dólares.
antes de viajar, me falaram várias vezes “não faça”, mas quando uma menina de uns 13 anos se aproximou enquanto eu saía do templo, timidamente oferecendo trocar cada dólar por 850 kyat, eu achei que a cotação estava muito boa e que seria seguro.
assim que concordei, ela chamou o pessoal dela. 6 homens me rodearam e ficavam falando o tempo todo, apressados e aparentemente caóticos enquanto contavam dezenas de notas de mil. 170 notas, pra ser mais exata, pelos 200 dólares que eu tinha na mão. fiquei de olho neles durante todo o tempo que contavam e recontavam o dinheiro, passando os maços de mão em mão.
assim que o turbilhão foi embora, um senhor que assistiu a cena de longe se aproximou e disse:
conte seu dinheiro, aqueles homens te roubaram.
agradeci e fui pro hotel tentando manter a calma, mas já me xingando burra burra burra burra burra burra burra burra burra burra burra burra burra burra burra burra. contei as notas. ao invés dos 170 mil kyat, eu tinha 100 mil. me roubaram 80 dólares.
e agora?!
escrevo e choro e o nariz escorre e limpo com a barra da blusa e olho pros maços de dinheiro amassado em cima da cama e choro mais e me sinto desamparada longe de casa no pior quarto de hotel do mundo. choro e escrevo e molho o diário de lágrimas e meleca, choro, choro, choro até esgotar o pânico.
pronto.
respira fundo, Lívia. o banco está aberto, vai lá e troca mais 200 dólares ao invés de 150. vão ficar 50 pra reserva. vai dar certo. cê nem vai usar esse dinheiro. nada de ruim vai acontecer daqui pra frente. o pior já foi.
5 de abril, 5h30 da tarde, rodoviária em Aung Mingalar
o pior já foi.
o pior já foi. repito. mas viajar nesse país não tá sendo nada fácil.
fui trocar o dinheiro no banco. 810 kyat por dólar. pelo menos recebi em notas de 5 mil, menos papel pra carregar na doleira. depois, me encontrei com a Anne Catherine e andamos até o lugar que vende passagens de ônibus pra várias cidades do Mianmar.
o trajeto é longo e seria muito melhor se pudéssemos ir de bicicleta, mas veículos de duas rodas são proibidos em Yangon. a justificativa oficial é que as motos estavam causando muitos acidentes e eram muito barulhentas, então foram banidas. e sei lá como as bicicletas entraram no bolo. a verdade é que ninguém sabe direito o porquê dessa proibição arbitrária.
no caminho, um senhor nos abordou e disse que estava indo na mesma direção que a gente. como a grande maioria dos homens, ele não usa calças e sim o longyi. uma saia masculina tradicional feita de um tecido tubular, presa na cintura por uma dobra que precisa ser reamarrada constantemente. as mulheres também usam uma saia tradicional, longa, sem zíper nem elástico, feita com um tecido retangular com uma amarração diferente do longyi.
o senhor insistiu não era guia de viagens e sim entalhador de madeira, mas passou o caminho todo falando sobre os monumentos, templos e praças por onde passávamos. apesar de intrometido, ele dizia coisas interessantes, então seguiu com a gente.
não fomos pra rodoviária e sim pra uma área ao lado da estação central de trens. terra batida coberta por um toldo onde representantes das agências de ônibus fazem negócios. é um mercado, mas ao invés de frutas, legumes e carne, os vendedores têm grandes cadernos espiral com tabelas e listas de passageiros escritas à mão, e se comunicam por sms. Anne queria ir pra praia, no sul, e eu ia pra Mandalay, no norte.
ia. porque… lembra que eu falei que daqui uns dias vai rolar o Festival da Água, o ano novo budista? então. todo mundo tem folga nessa época, é um dos poucos feriados longos do ano. por isso, os ônibus pra Mandalay, a segunda maior cidade do Mianmar, estão todos, todos lotados.
na verdade, não tem passagem pra vários destinos, tive que mudar completamente o meu roteiro. decidi ir pra Hsipaw, uma cidade nas montanhas perto da Tailândia, um dos poucos destinos a norte disponíveis. o ônibus sai hoje às 18h. meu passeio por Yangon ficou pra volta.
acabou que o guia-não-guia que nos acompanhou foi muito útil na intermediação entre os agentes de viagem, que não falam inglês, e nós, que tentávamos achar rotas alternativas pra sair de Yangon antes do Festival da Água. depois que compramos as passagens, ele pediu um presente. preocupada com grana, só dei os thai bahts que eu ainda tinha comigo e a Anne deu vinte mil kyat. ele seguiu seu rumo, sei lá pra onde.
a rodoviária fica longe, em Aung Mingalar, outra cidade. são 2h de ônibus pra chegar aqui. encarei como um city tour não guiado. só deu tempo de caminhar rapidinho de volta pro hotel, empacotar o mochilão, almoçar na mesma barraca de ontem, então rumar pra cá.
escrevo enquanto espero a chegada do noturnão que vai me levar pra Hsipaw, a cidade mais a norte que turistas podem visitar. ela fica perto da zona que ainda tem guerra civil. não dá pra viajar pra qualquer lugar no Mianmar. o governo controla as idas e vindas dos estrangeiros de perto, pra que não vejam as atrocidades que estão cometendo. desafiando essa restrição, o passeio mais popular pra quem vai pra Hsipaw é uma caminhada pelos vilarejos ao redor, onde pessoas ainda vivem seus modos tradicionais das montanhas e resistem ao governo fascista desde o golpe militar de 1988.
divido espaço na rodoviária com várias crianças, freiras budistas de uns 8 anos de idade. todas de cabeça raspada e vestidas de túnica rosa. muito silenciosas e comportadas pra idade. duas freiras adultas estão com elas. vão pro norte também.
eu nem sabia que existia freira no budismo. me olham com a mesma curiosidade que tenho por elas. transformei um panfleto em um tsuru que bate asas. elas ficaram fascinadas!
sob o olhar de aprovação das tutoras, recolhi mais papéis soltos pela rodoviária e, usando gestos, dei uma oficina de origami pras mais atrevidas. estão brincando com os pássaros agora.
6 de abril, 10h da noite, pousada do Mr. Kid em Hsipaw
ônibus lotado, ar condicionado gelado e televisão no volume altíssimo passando filmes de ação em birmanês. 16 horas de sacolejo desconfortável sentada na última fileira.
no meio da noite, todo mundo teve que descer e apresentar as autorizações de viagem. saí sonolenta e desorientada e, ao me ver, mandaram de volta pra dentro. era um checkpoint apenas para birmaneses.
quando o pessoal voltou pro ônibus, a senhorinha simpática que estava do meu lado trocou de lugar com o moleque que trabalha ajudando o motorista.
ele parecia gentil. dividiu o cobertor comigo, ao que agradeci com um sorriso e aceno de cabeça. alguns minutos de viagem depois, senti a mão dele pousar suavemente na minha perna. chacoalhei ela pra longe, talvez fosse um mal entendido. um tempo depois, de novo. tirei a mão dele com a minha e fuzilei aquela cara de bobo com olhar de raio-laser. na terceira investida dele, arrastei bruscamente o cobertor pra que ficasse entre nós, e ainda coloquei meu saco de dormir em cima, fazendo uma barricada. se já estava difícil dormir com todas as adversidades anteriores, ficou impossível com o medo de assédio e o frio.
tinham me falado maravilhas do Mianmar, mas até agora me sinto estressada, insegura e sozinha. devo estar exalando mau humor por todos os poros.
chegando, fui direto pra hospedaria do Mr. Kid, recomendada pela Clau, e dormi a manhã toda, mas não consegui dissipar o mal estar. pra piorar, em cada hotel, tenho que preencher um formulário do departamento de imigração sobre meus planos de viagem e os empregos que já tive no Brasil. toda vez tiram uma cópia do meu passaporte e escrevo as mesmas mentiras: sou tradutora de livros infantis, meus dois últimos empregadores foram as editoras Santillana e FTD. jornalistas não são bem-vindos, inventei essa profissão para tirar o visto e tenho que manter a farsa, com medo de ser descoberta.
Hsipaw é uma cidadezinha plana com montanhas roliças e verdejantes ao redor. saí pra almoçar e encontrei uma livraria minúscula que funciona na garagem de uma casa. o dono é muito simpático. não dá pra entrar na livraria, ela é pequena demais pra isso. os livros ficam empilhados na frente, em cima e atrás do balcão.
tentei comprar um, mas o dono negou e explicou que ela não é bem uma livraria e sim uma espécie de biblioteca. as pessoas pagam para ler os livros e depois devolvem. são todos feitos com o mesmo design simples, impressos em papel branco, capa colorida, miolo costurado e lombada quadrada. todos escritos em birmanês, com o misterioso e simpático alfabeto de caracteres arredondados. os títulos estão escritos à mão, em caneta azul, nas três laterais das páginas.
durante meu breve passeio, comprei o bilhete de ida pra Mandalay. parto amanhã bem cedo. foi o único horário que ainda tinha vaga, tudo lotado por causa do feriado. mais uma vez, tive a sorte de conseguir uma passagem.
começou a chover, então voltei pro hotel e desisti da caminhada pelos vilarejos vizinhos. a hospedaria fica numa casa grande, com um pequeno quintal e redes penduradas na sala. passei boa parte da tarde em uma delas, dormindo e lendo “The Snowman”, um romance policial norueguês. engraçado ler sobre inverno e neve enquanto aqui está extremamente calor e seco. a chuva de hoje foi uma ótima surpresa, e ainda me deu a desculpa perfeita pra ficar quieta, no meu canto. este foi meu único dia aqui e eu deveria estar lá fora, aproveitando, mas não quero.
acabei a leitura quando anoiteceu. saí pra escovar os dentes e no corredor conheci Gabriela, da República Tcheca. ela tem um namorado indiano que também é simpático, esqueci o nome dele. fomos jantar num lugar aqui perto e foi gostoso conversar pra além do inglês básico. eles fizeram a caminhada e não acharam nada de mais, o que me deixou menos culpada por não ter ido.
porque o namorado da Gabriela é indiano, eles conseguiram alugar uma moto e estão viajando mais livres do que eu. fora de Yangon, estrangeiros até podem alugar bicicletas, mas cicloviagens são proibidas e o uso de motocicletas é restrito a cidadãos asiáticos. é muito estranho estar num lugar com tantas restrições ao turismo e exceções que não fazem sentido pra mim.
6 de abril, 10h da manhã, Hotel Nylon em Mandalay
às 5h da manhã, a mãe do Mr. Kid abriu a porta da hospedaria e ficou esperando o ônibus comigo, muito querida. bateu um arrependimento por estar indo embora tão rápido, mas agora já era. fui.
o ônibus estava cheio, mas não lotado. um homem sorridente, sentado na fileira da frente, me cumprimentou como se me conhecesse. eu sorri de volta.
você é a Lívia, do Brasil, disse sorrindo por trás dos óculos. quando notou meu espanto, explicou que é do departamento de migração. abri um sorriso forçado e fiquei na minha.
boa estada em Mandalay, desejou casualmente enquanto recolhia a mala pra saltar na primeira parada. sim, tem mesmo gente de olho em tudo que eu faço aqui.
chegando em Mandalay, comi uma panqueca de legumes de café da manhã (já virou favorita) e peguei o ônibus urbano que me levou pro centro.
consegui um quarto enorme, com três camas, por 8.000 kyat. é o primeiro quarto “normal” que eu fico na viagem: cama box, TV, frigobar, janelas amplas com cortinas, um banheiro só pra mim, mesa e cadeira onde escrevo este diário. pena que eu não tenho com quem dividir o quarto, sairia mais barato.
foi só deixar a mochila na cama que senti a menstruação descer. ufa, parte do meu incômodo era TPM!
foi embora junto com o primeiro sangue.
o hotel tem bicicletas pra alugar, vou sair pra dar uma volta e sacudir o restinho de tristeza.
um beijinho e até a próxima,
Lívia
Grin
expatex-pátriaexterno à pátria aquele que sai sem saber se pousaaquele que fica sem desfazer as malas
só pode ser expat se for gringrin go home grin go far grin go f**k yourself
gringo é expatchiquemigrou e não é grin: imigrincom todo aquele pesotodos aqueles murose torcidas de narizde onde sai meleca grin
spitspatexpat
colonialismo líquidosalário bomsó se for grin
deu ruim é só voltaré só mudar
bom é passaporte grincheio de carimbine sim sinhozin
brasileira brancana Ásia e na África é grinna Europa e na Oceania é imigrinna América Grin, imigrine na Latina, hermana
bem melhor ser irmãa gente tinha que ser tudo irmã
sem fronteirasem passaportesem machis racis moralis
em trânsito ou estacionadas rodando esse planeta existências residênciastodas são temporárias entrepassam e brotamirmães de todosirmães de mim
estou no aeroporto Suvarnabhumi em Bangkok. espero meu voo pro Mianmar. talvez você já tenha ouvido falar da Birmânia? esse era o nome do país durante a colonização inglesa. Burma > Mianmar.
agora lá é ditadura militar, cheia de olhos e restrições. por exemplo: só pode entrar no país voando, as fronteiras por terra estão fechadas. nas montanhas entre o Mianmar e a Tailândia ainda tem guerra civil, com violações de direitos humanos que o governo não quer que o resto do mundo saiba (muito menos veja).
no formulário da embaixada eu disse que sou uma inofensiva tradutora de livros infantis. é que não dão visto pra jornalistas de jeito nenhum, então tenho que mentir.
no celular, levo dois livros em PDF que com certeza são proibidos. e um documentário sobre a revolução açafrão. a que os monges fizeram, lembra? os militares atiraram contra os manifestantes. passou na tevê, eu lembro.
dia 1º de abril rolaram as primeiras eleições democráticas em décadas. uma meia-mentira, pra preencher poucas vagas no parlamento. quase todas foram ocupadas pelo partido de oposição. inclusive a Aung San Suu Kyi, que ficou 15 anos em prisão domiciliar e ganhou um Prêmio Nobel da Paz pelo seu papel na resistência.
mas os militares continuam tendo maioria e mandando em tudo.
por causa do bloqueio econômico dos países da Europa e dos Estados Unidos, no Mianmar não tem coca-cola nem caixa eletrônico de banco ocidental. estou levando o dinheiro que pretendo gastar em notas de 50 dólares novinhas. não podem ter nem uma dobra, nem uma marca, nada, se não as casas de câmbio não aceitam.
apesar dos senões, parece que viajar no Mianmar é sensacional. Clau e Javi amaram e passaram várias dicas, inclusive pra evitar dar dinheiro pro governo genocida (por exemplo nunca andar de trem, que é estatal). disseram que as pessoas normais do Mianmar compensam os perrengues oficiais com muita simpatia e interesse nas notícias do mundo aqui fora.
outra coisa que me anima é que estarei lá pro Festival da Água, Thingyan. é o Ano Novo Budista, meu terceiro reveiom nesse 2012. feriado durante quatro dias e todo mundo brinca de jogar água uns nos outros. na Tailândia e no Laos fazem uma festa parecida na mesma época.
meu embarque começou, tenho que ir.
confesso que me sinto um pouco apreensiva, mas o desejo de conhecer um país sem turismo fast-food é maior. estou cansada dos gringos festeiros que vêm fazer merda no país dos outros. sinhozinhos do mundo.
no Mianmar vai ser diferente, tenho certeza.
daqui a pouco vou entender melhor. ou pelo menos vou estar lá pra tentar entender. pra sentir.
nos falamos em breve!beijinhos,
Lívia
pai, mãe e demais leitores des-insteressados na minha vida sexual, neste episódio TEM (finalmente!)
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suíço, 2,10m de altura, olhos azuis, músculos fortes, voz grave e melodiosa, pés descalços. conheci o Joel saindo de Don Det a caminho da rodoviária de Nakong (quer dizer, no ponto de ônibus na calçada da estrada que termina em Nakong). a gente era vizinho de cabana na Rua do Nascer do Sol.
Don Det, oásis tranquilo na fronteira entre Laos e Camboja que também é um dos últimos lares do boto do sudeste asiático. desfrutei do paraíso deitada na rede observando o nascer e o pôr do sol, reencontrando amigos que conheci nas estradas tailandesas e laosianas, escrevendo e nadando no rio.
mas meu visto pro Laos estava expirando e os amigos espanhóis Claudia e Javier estavam pedalando no Camboja a caminho do Laos. eu queria encontrá-los em Siem Reap, onde ficam as ruínas da antiga cidade de Angkor. era hora de seguir viagem.
eu só tinha trocado saudações à distância com o Joel antes da nossa partida pro Camboja. esperando o barco que ia nos tirar da ilha, puxei conversa perguntando Are you traveling barefoot?
ele explicou que tinha perdido seu par de chinelos nalguma noite muito chapada no Reggae Bar e não encontrou nenhum outro que coubesse nos seus pés-lancha tamanho 52. ficou por isso mesmo. seus dedos e solas calejados por escaladas em rochas nos Alpes não precisam de sapatos numa ilha de trilhas de terra. seguia viagem sem eles.
Joel trabalha como pedreiro-demolidor em Zurique durante metade do ano e viaja para paraísos de mochileiros maconheiros na outra metade, gastando as economias até precisar ganhar mais francos suíços. seu sonho é largar a Suíça de vez e abrir um hostel no sudeste asiático, provavelmente no Laos, plantar a própria maconha e viver uma vida de boas.
ele estava há 50 dias em Don Det e teria ficado mais, mas a erva tinha acabado e ele resolveu comprar só quando chegasse no país vizinho. o plano era ir direto para a Lazy Beach, em Koh Rong, ilha ao sul do Camboja, como tinha feito nas duas outras viagens pra região. eu fiquei indignada que, por duas vezes, ele tinha passado reto por Angkor, um dos poucos pedaços de história cambojana que o Khmer Rouge não tinha apagado.
puxei papo pra ser simpática, mas descobrimos que gostávamos da companhia um do outro, mesmo que tivéssemos prioridades diferentes.
o ônibus estava atrasado, sem nenhuma previsão de chegada, então comprei um baralho na lojinha ali perto, dessas típicas de beira de estrada no Laos que vendem o essencial para viajantes: comida, água, badulaques, dramin e valium (sim, valium, no balcão, sem receita. no, thank you). ele nunca tinha jogado cartas na vida (!), então eu ensinei alguns jogos simples e passamos as 3 horas de atraso no meio-fio da “rodoviária” envolvidos no carteado e batendo papo, formando laços.
sentamos juntos no ônibus e seguimos trocando experiências de viagem, anseios, sonhos pro futuro. em algum momento passamos a trocar também olhares, carinhos e beijos tímidos. nossas realidades tão diferentes cruzadas na estrada.
na minha vida não tem lugar pra esse homem bonito, grande e doce, mas sem sapatos nem ambição. exceto aqui, chacoalhando num ônibus Laos abaixo e Camboja adentro, mãos se cruzando, se esbarrando, se entrelaçando, jogando cartas.
dos dois lados da estrada, muitas terras abandonadas, cercadas com arame farpado e, em alguns trechos, fios elétricos, com o aviso escrito em inglês e cambojano do not cross, landmine field. armas da guerra contra os Estados Unidos ainda estão ali, desmembrando pessoas e famílias há mais de 50 anos. ao chegar em Siem Reap, não me surpreendi, mas me entristeci com a quantidade de pessoas mutiladas pedindo dinheiro nas ruas.
à meia noite, chegamos na parada de ônibus em que nossos destinos se dividiriam. eu seguiria para o oeste e ele para o sul, pra capital Phnom Penh e de lá pro litoral. Joel perguntou o que eu achava se ele mudasse de roteiro e fosse comigo pra Siem Reap. e se eu gostaria de dividir um quarto com ele lá. respondi com um sorriso safado, deslizando minha mão pela parte interna de sua coxa.
nossos beijos ficaram mais intensos madrugada adentro num ônibus voador, que avançava rompendo todos os limites de velocidade numa estrada poeirenta e esburacada. quando chegamos, lá pras 3 da manhã, meu corpo formigava de tesão.
meus amigos espanhóis estavam no Garden Village e fomos pra lá também. é o hostel mais barato e roots que já me hospedei na vida. um colchão no chão com mosquiteiro, no pátio, sem paredes em volta custa 1 dólar por noite. no calor cambojano, até que faz sentido. mas por 3 dólares, a gente podia ter um quarto com teto, piso e paredes de bambu. melhor.
o chão se curvou sob nosso peso e balanço, mas não tivemos acidentes. Joel se mostrou um amante generoso, carinhoso e cheio de energia. de vez em quando eu até tinha que pedir uma pausa para me recuperar! que delícia encontrar um homem desses! especialmente depois de dois meses recusando investidas de gringos que achavam que eu transava com qualquer um, só por ser brasileira.
passamos a primeira manhã dormindo e transando. então, nos sentimos na obrigação de procurar meus amigos. por sorte, os dois estavam na recepção do hostel e fomos almoçar os quatro no restaurante ao lado do mercado público ali perto.
Joel nem olhou pra barraca que vendia chinelo, mesmo estando agora numa cidade movimentada, com ruas de asfalto quente. quando uma criança veio pedir dinheiro na nossa mesa, ele respondeu no money, no shoes, apontando pros próprios pés empoeirados. ela ficou horrorizada, como eu também ficaria se já não tivesse me acostumado. acho que ele decidiu ver até quando conseguiria viajar descalço.
Javi e Clau são enfermeiros e tiraram dois anos de licença do trabalho pra viajar. pegaram o trem que atravessa a Sibéria, foram voluntários numa escola no Nepal e estão viajando de bicicleta desde a Tailândia. nós nos conhecemos em Bangkok pouco antes da partida deles pro Mianmar, graças ao Ramon, um espanhol-português simpatiquíssimo que ia com eles e que eu conheci na embaixada, tirando visto. é pro Mianmar que eu vou depois do Camboja. foi o Javi que me ensinou a limpar e trocar o curativo do joelho depois do acidente de moto, já falei dele, e ficou bem feliz com o estado da cicatriz um mês e meio depois. Ramon já voltou pra Europa, mas os dois planejam pedalar o máximo que puderem até chegar na Espanha. dá pra entender porque admiro eles, né?
tinham pensado em ir embora de Siem Reap no dia seguinte, mas adiaram a partida para passear comigo (Joe a tiracolo). para acompanhar Javi e Clau em um passeio pro lago Tonle Sap, imenso, a sul de Siem Reap, eu e ele alugamos bicicletas, 1 dólar por dia. sim, o Camboja é dolarizado e ridiculamente barato.
no caminho, a cidade dá lugar a casas precárias de madeira, construídas sobre palafitas. muitas crianças brincando. atendendo a pedidos, Joe e Javi desceram das bicis para jogar futebol com elas por um tempo. eu e Clau ficamos observando. a maioria das casas tem uma placa com o nome de algum gringo que doou o material e o dinheiro pra construí-la.
o Camboja parece ser ainda mais pobre que o Laos. o país viveu um século inteiro de devastação. primeiro a guerra de independência da França, então a guerra da Guerra Fria (a Guerra do Vietnã, que aconteceu também no Laos, no Camboja e indiretamente na Tailândia, que não viveu a guerra em si, mas hospedou os soldados americanos), aí entrou no poder o terrível Khmer Rouge (Khmêr Krâhâm), governo genocida que matou 2 milhões de pessoas (25% da população) em quatro anos. como se não bastasse, depois ainda se desenrolaram várias guerras civis, que só acabaram em 1998.
um país de órfãos que ainda sofre com as minas terrestres ativas e o turismo sexual infantil. há cartazes contra pedofilia espalhados em todas as áreas turísticas. penso na quantidade de terras interditadas pela presença de minas terrestres que vimos no caminho pra cá. lugares que antes deviam ser campos de arroz férteis e cheios de vida. a guerra ainda não acabou.
paramos em frente a uma área do lago cheia de lótus. as folhas redondas cobrem uma parte do lago e sobre elas flutuam as delicadas flores rosas de miolo amarelo que eu só tinha visto em alto-relevos em templos antigos e em tatuagens de jovens místicos.
depois de observar o movimento das flores na água, tomamos uma cerveja em um dos bares na beira do lago antes de voltar.
seguindo a dica dos espanhóis, que já conheciam tudo por ali, eu e Joe seguimos pedalando pro complexo arqueológico de Angkor, pra comprar nossas entradas. em 20 minutos, chegamos no guichê que dava acesso ao que restou da maior cidade pré-industrial do mundo.
dá pra comprar ingressos pra 1 dia, 3 dias ou 5 dias de visitação, que não precisam ser consecutivos. escolhemos o de 3 dias e ganhamos uma visita extra para ver o pôr do sol, que estava pra acontecer. entramos a tempo de uma pedalada rápida por alguns templos e vimos o entardecer sentados numa ponte com várias esculturas de soldados, um em cada pilar que mergulha no rio. parecem brincar de cabo de guerra.
aqui, cada pôr do sol é um espetáculo de cores quentes e mutantes. o Sudeste Asiático os produz como nenhum outro lugar.
depois de dois dias de passeios conosco, Javi e Clau seguiram para o Laos. Clau me passou um roteiro completo pro Mianmar, recomendando que eu puxasse conversa com as pessoas e andasse de bicicleta sempre que pudesse. eu dei alguns milhares de kip laosianos que ainda tinha na bolsa, recomendei que parassem em Don Det e fizessem a volta do Bolaven Plateau, que não consegui visitar.
meu romance com Joel durou os sete dias que estive no Camboja. com curiosidade, exploramos ruínas centenárias cobertas pela floresta em Angkor e nossos corpos, alternando dias do lado de fora e do lado de dentro da cabana de bambu.
em alguns momentos, fiquei preocupada que ele estivesse se apaixonando por mim (eu não estava), mas a iminência da nossa separação me tranquilizou. aproveitamos tudo que a gente tinha de bom sem preocupar com futuros. meu voo pro Mianmar, partindo de Bangkok, é dia 4 de abril. e ele tem os amigos doidões para encontrar na Lazy Beach.
na nossa última noite, um cara que estava indo pro Laos deu um saco enorme de flores pro Joel, que não tinha fumado desde que nos conhecemos. ele disse que nem procurou e não sentia falta, que eu era inebriante o suficiente. por causa desse presente, descobri que existem lugares no mundo que sempre tem maconha grátis pra quem souber procurar. geralmente hostels liberais onde fumadores deixam o que têm pra não cruzar fronteiras carregando substâncias ilegais. ser pêgo sai bem mais caro do que comprar maconha fresca do outro lado. ou ganhar de alguém.
nossa despedida foi carinhosa, como todos os momentos com ele. dei uma choradinha durante o último beijo. mas foi só entrar na van lotada em direção à Tailândia que voltei a sentir aquele frio na barriga, querido amigo, que aparece quando estou prestes a começar uma nova aventura.
mando notícias de lá.
até breve,
Lívia
Este é um episódio de à toa pelo mundo, livro em processo de escrita graças a apoiadores do projeto.
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