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com esses chinelos viajei pelo mundo em 2012. à toa, ou seja, à deriva, levada pelas correntes do acaso, da sorte, do destino. ainda me cabem. ainda têm terra de 20 países misturadas nas ranhuras da borracha milhares de vezes pisada amassada raspada.
há 10 anos, eu estava no Laos, onde não se entra de sapatos em casas, lojas, muito menos templos. dá pra saber se um lugar está cheio pela quantidade de sapatos na porta.
muitas vezes fiquei com receio de sair e não encontrar meus ipanema giselle bundchen onde havia deixado, mas estavam sempre lá me esperando.
estão aqui comigo e me lembram que fiz essa viagem com os dedos ao vento
no Laos, se deslocar de um lugar para outro é sempre uma missão com muitas etapas e uma dose de incerteza.
o jeito mais barato de viajar em qualquer lugar é como os locais pobres viajam
e no Laos isso significa ter que fazer baldeação entre songthaews, minivans, ônibus velhos e tuktuks, esperar nas estradas poeirentas sem saber se o transporte certo vai passar, comer lanchinhos como arroz grudento, palitos de carne seca e biscoito industrializado importado da Tailândia, Vietnã ou China, se apertar pra caber mais gente e mais mercadoria.
por mais cansativo que seja, me sinto uma verdadeira desbravadora, dividindo espaços com pessoas tão diferentes de mim, simpáticas e interessadas em trocar algumas palavras, comidas e sorrisos.
estou aqui vivendo todas essas coisas em lugares que nunca tinha ouvido falar antes de partir, fazendo algo por mim que ninguém pode tirar.
6 de março, Souchai Travel Hostel, Vientiane
a estrada de Vang Vieng até Vientiane, a capital do Laos, é horrível. não sei se o asfalto, de tão esburacado, piora ou melhora a situação (sei sim, piora).
chegando na rodoviária, conseguimos encaixar 10 mochileiros e suas mochilas em 1 (um) tuktuk grande. não precisava ser assim, mas tanto o motorista quis ganhar mais colocando mais gente a bordo quanto nós queríamos pagar menos.
foi bom pra fazer amigos,
conheci a Ingrid, uma norueguesa muito gentil. ela é professora de teatro em uma escola infantil, um ano mais velha que eu, e também está viajando com o coração partido. não está fácil nem pras lindas, loiras e magras…
9 de março, homestay, Ban Na
pra chegar a Ban Na, foram 2 songthaews, a caminhonete coberta com bancos dentro, transporte regular entre vilarejos no Laos. os dois estavam bem cheios.
no primeiro, um professor de inglês ficou de papo comigo e com a Ingrid, enquanto mais passageiros vinham chegando. uma senhora com as costas completamente curvadas percebeu a oportunidade e entabulou uma conversa animada com a gente, pelo intermédio do professor, até chegarmos no vilarejo dela. ganhamos um pacote de carne seca em palitos que eu jamais compraria, mas era até gostosinha.
83 anos, 25 netos e saltando pra dentro e pra fora do songthaew sem ajuda!
11 de março, Hotel Sylomyam, Ban Kong Lo
3 songthaews e 6 horas de estrada poeirenta até Tham Kong Lo, uma caverna imensa atravessada pelo Nam Hinboun.
o Ban Kong Lo é minúsculo e só tem uma rua asfaltada: a estrada por onde chegamos, que acaba logo antes da caverna. o caminho continua pelo rio que entra nela e alcança povoados do outro lado.
passamos o dia seguinte inteiro no Nam Hinboun e na caverna que ele atravessa. entramos quatro por canoa, incluindo o canoeiro, pela entrada da caverna, que começa baixa e vai se abrindo no oco da montanha.
em um certo momento, os guias pediram que todos apontassem suas lanternas para cima - nossa luz não conseguiu alcançar o teto da caverna, dezenas de metros acima de nós.
percorremos o quilômetro de rio subterrâneo entre margens de pedras largas. como estamos na estação seca, em dois pontos a canoa não passou de tão raso que estava e tivemos que descer pra carregá-la. em outros pontos, em que os salões de pedra se alargam, a diretoria do parque instalou luzes amarelas e azuis para mostrar aos turistas as estalactites, estalagmites e grossas colunas de calcário, formadas lentamente, gota a gota, pelo suor da caverna.
essas formações rochosas não são novidade pra mim, que cresci fazendo excursões de escola nas grutas de Minas Gerais, mas não deixaram de impressionar pelo tamanho. pensei na guerra da indochina, quando milhares de laosianos se esconderam nas cavernas para fugir das bombas americanas, russas, chinesas e francesas. Kong Lo tinha o potencial para esconder muita gente, e isso provavelmente aconteceu.
sair da Tham pelo outro lado foi como entrar num reino encantado: a vegetação é mais verde, os pássaros cantam mais alto, as cores são mais vivas e o Nam Hinboun corre mais limpo. há um vilarejo cujas estradas são o rio e trilhas na mata sobre a montanha. ali, algumas pessoas estavam empacotando folhas de tabaco em grandes pacotes de lona.
fizemos um piquenique numa área feita pra isso, com mesas e cadeiras. nadamos um pouco no rio e pulamos nas canoas pro caminho de volta. demorou mais por causa da contra-corrente, o que foi ótimo porque prolongou o passeio.
eu poderia ficar mais por aqui, mas tenho muita estrada pela frente e preciso chegar no Camboja ainda em março pra conseguir reencontrar Javi e Clau, catalães queridos que conheci em Bangkok.
11 de março, Hotel Leena, Savannakhet
não fiz nada de mais em Savannakhet. tenho me sentido triste. talvez porque terminei de ler On The Road, que se encerra com muito peso e pesar. talvez porque voltei a me sentir solitária. quero carinho e intimidade com alguém, mas não com quem acha que toda brasileira é puta.
pareço recuperada, mas ainda estou vivendo o luto do fim do namoro com o holandês que impulsionou essa viagem. conhecer lugares e pessoas incríveis não tem sido suficiente. me sinto frágil, quebrada, me faltam partes que eu amava em mim, que agora não consigo acessar. além do mais, estou com três aftas na boca (e talvez TPM).
fui com Ingrid e outros viajantes a um restaurante flutuante sobre o Mekong, vendo o entardecer na Tailândia, que estava logo na outra margem. muito bonito, até que o sol se escondeu atrás de uma camada de poluição, lembrando a gente que estávamos no meio da estação seca e suas queimadas.
15 de março, rodoviária sul de Pakse
acordei às 5h30, comprei um pão com ovo mexido e fui pra rodoviária de Savannakhet. rumo a Pakse numa lata velha com assentos que não reclinam e um altar na parte da frente com flores, esculturas feitas de folha de palmeira, incenso e um copo de cerveja quase cheio, que não derramou nem uma gota, apesar dos buracos e curvas da estrada. reza forte! o motorista usa um bigode fino bem canastrão e fuma dentro do ônibus, mas as janelas estavam todas abertas, então tudo bem.
uma tevê na frente dos assentos mostrava videoclipes de música laosiana, um mix de ladainhas tristes com beats e sintetizadores pop e imagens rurais. em um deles, uma menina sofre por amor montada em um búfalo que se banha no rio. não entendi nada, mas assisti fascinada.
o ônibus começou a viagem com 10 passageiros, mas logo ficou lotado de gente e mercadorias. ofereci pra dividir meu assento com uma senhora pequena, deve ter mais de 80 anos, que se sentou sobre sacos de arroz que ocupavam todo o corredor. uma moto das grandes foi a última a embarcar e bloqueou a entrada de mais pessoas e itens.
6h depois de sair de Savannakhet, chegamos à rodoviária norte de Pakse. quero ir pra Si Phan Don direto, então precisava chegar na rodoviária sul. o tuk tuk pra lá custa 40 mil kip, o mesmo preço do ônibus que fez mais de 200 quilômetros! resolvi ir até o centro por 20 mil, achando que conseguiria barganhar o preço do segundo trecho, mas não consegui.
acabou que fui a única passageira do songthaew do Khwan, que parou na farmácia, no bar e na casa da sogra antes de me levar onde queria. mas ele é gente boa e fala um inglês razoável, batemos muito papo. ele é de Si Phan Don e disse pra eu ficar em Don Det, a ilha dos mochileiros.
cheguei na rodoviária sul a tempo de pegar um songthaew que parece estar levando todos os legumes do mundo. 40 mil kip. espero não morrer nessa estrada, esmagada por uma melancia.
escrevo enquanto o motorista e dois ajudantes amarram grandes sacos de legumes no teto.
17 de março, Bangalô 6 do Mr. Oung, Rua do Nascer do Sol, Don Det, Si Phan Don
continuando a falar do último songthaew: dividi espaço com muitas mulheres bonitas e, na falta de língua em comum para conversarmos, inventei as vidas delas: uma princesa disfarçada de plebeia, delicada e geniosa, uma cozinheira voluptuosa e alegre, uma agricultora altiva que carrega a velhice com dignidade, uma jovem mãe de cinco filhos, os peitos caídos, que viaja também com a mãe e a sogra.
essa família leva um saco de raízes brancas, que descascam e comem em lascas, sem mais nada. quis provar, mas não me ofereceram, nem depois que dei alguns dos meus biscoitos pras crianças.
cheguei em Nakong logo após o pôr do sol, com a bunda doendo de tantas horas de sacolejo. não havia mais turistas querendo cruzar pra Don Det, logo em frente. paguei 50 e não 15 mil kip pelo trajeto, numa canoa (piragua) só pra mim.
quem estava na beira da praia? Ojee, Jenny, Josh e Chris! parecem uma miragem, porque tinham me falado que de Vang Vieng voltariam pro norte, pra tentar ver orangotangos na província de Bokeo. mas mudaram de ideia e aqui estão há dois dias.
todos os bangalôs da ilha ficam em suas margens, nas ruas do Nascer do Sol e do Pôr do Sol. todos têm varanda e rede, pra gente ficar de pernas pro ar.
meu plano é ficar 4 dias nadando, lendo, andando de bicicleta e escrevendo. então vou atravessar para o Camboja. Angkor Wat me espera.
beijinhos e até lá,
Lívia
é engraçado como os turistas percorrem os mesmos caminhos. estou sempre reencontrando amizades feitas em cidades anteriores, nos hostels, restaurantes, mercados e passeios. gente chata também reaparece, mas essas eu ignoro.
Ojee e Jenny, aliás, chegaram aqui em Vang Vieng um dia depois de mim. agora elas estão viajando com dois ingleses gatos, Josh e Chris. os quatro dividem um bangalô num descampado do outro lado do rio. eu continuo dividindo quarto com a Tracy, que conheci no barco da Tailândia pro Laos.
ontem fomos a uma festa num bar que a pista de dança fica numa plataforma em cima do rio. como em muitos bares no Laos, havia um menu de drogas. mas (eu acho que) meu grupo ficou no álcool mesmo, servido em baldinhos de praia.
pessoas que conheci em Bangkok, Koh Phangan, Chiang Mai, Pai e Luang Prabang dançam juntas em Vang Vieng a “212” da Azaelia Banks e “We found love” da Rihanna. então tocou “Ai se eu te pego”, hit mundial do Michel Teló, e eu morri de rir com os gringos cantando em português.
dançamos muito e à 1h da manhã voltei pra casa, não sem antes cometer uma panqueca de banana com nutella e pasta de amendoim, feita com massa de trigo finíssima e elástica, esticada sobre uma chapa quente.
chamam essa rota de turismo mochileiro aqui no sudeste asiático de Banana Pancake Trail. e é verdade que encontro dessa panqueca em todas as paradas turísticas.
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tubing é como chamam o passeio de bóia de caminhão que desce o rio. em Vang Vieng, ele começou pras pessoas apreciarem a paisagem belíssima dos arredores: montanhas escarpadas, cobertas de mata em diferentes tons de verde, delinadas pelo rio Nam Song, que corre sinuoso e devagar sobre um leito de pedras amarelas.
é preciso alugar uma bóia e subir uns três quilômetros de carro, então descer lentamente pela correnteza até o centro da cidade. alugar a boia custa 50 mil kip e a agência retém 60 mil de garantia pro caso da bóia estourar ou se perder (110 mil kip = 11 euros).
Tracy, Joan e os irmãos alemães Fritz e Franz alugaram boias, mas achei caro e decidi economizar, descer o rio nadando e boiando sem bóia.
não sei se sempre houveram bares por ali, mas hoje são milhões à vista, em ambas as margens, disputando a atenção dos turistas com música alta, shots de álcool duvidoso, escorregadores, tirolesas, vôlei na lama, placas com piadinhas chamando as pessoas descendo o rio, que não era tão pequeno como imaginei quando me contaram sobre o tubing.
muitas das ofertas parecem ser boas ideias só na cabeça de gente bêbada e chapada. no primeiro bar que paramos já nos receberam com um shot grátis de vodka com sei-lá-o-quê vermelho e amarelo e apresentaram o “menu especial” com ópio, maconha, cogumelo, todas péssimas companheiras para viajar descendo um rio, que ainda que seja calmo é também selvagem e imprevisível.
paramos em outros dois bares (no alcohol, thank you, fiquei na rede escrevendo, lendo e cochilando), daí passamos reto pela placa do “The Last Bar” e seguimos boiando (eu nadando) pelas águas escuras e frescas do Nam Song.
depois de uma curva, encontramos uma parte bem rasa. lutei um pouco para nadar entre as pedras até o leito ficar fundo de novo. no segundo ponto mais raso do passeio, Franz me ofereceu carona em sua bóia. no terceiro, estava tão raso que, quando subi na bóia do Franz, atolamos na correnteza. deixei ele ir e fui caminhando pela margem pedregosa até onde deu pra voltar pra água. no quarto, a margem estava cercada de arame farpado e não tinha como continuar.
enquanto eu estava de pé no rio pensando no que faria, em uma curva que se abria para campos cultivados de um lado e morros pontudos de rocha cinza e mata fechada do outro, nenhuma construção humana à vista, passaram dois instrutores de caiaque em um caiaque de três lugares.
where is your tube?
I don’t have one
do you want a ride?
yes! thank you!
me acomodei entre eles.
passamos pelos meus amigos em suas boias e os deixamos para trás, cortando o rio enquanto eu e os guias esgotamos nosso vocabulário em comum. o instrutor da frente é fã do Ronaldinho e também admira Pelé e Romário.
então, eles começaram a cantar. laosiano é uma língua melodiosa e ali ela fez todo sentido.
passamos por crianças brincando na margem, saltando das pedras. depois por um grupo de búfalos, se refrescando mais adiante. um deles olhou pra mim com seus chifres imensos e olhos sonolentos, balançou a cabeça salpicando água enquanto passamos.
apesar da minha decisão burra de não alugar uma bóia, e por causa dela, ganhei esse presente do universo. agradeço!
chegando na cidade, ainda com os dedos enrugados, comi uma panqueca de banana com nutella numa barraca de rua plantada bem na frente da saída do rio, exatamente para pessoas como eu. estava fumegante, cremosa e deliciosa.
beijinhos e até a próxima,
Lívia
todos os dias, barcos compridos apinhados de turistas descem o rio Mekong de Huay Xai a Luang Prabang.
chama slowboat porque o barco não tem motor. os condutores empurram o leito do rio com uma vara comprida, uma grande gôndola descendo o décimo segundo rio mais longo do mundo.
o Mekong nasce da neve derretida nas montanhas do Tibet, desce pela China, cria a fronteira entre o Mianmar e o Laos, então a tríplice fronteira Mianmar-Laos-Tailândia onde pego o slowboat, entra no Laos serpenteando montanhas, faz uma curva para o sul em Luang Prabang e avança formando a fronteira entre a Tailândia e o Laos, volta pro Laos e se espalha, abre um arquipélago de quatro mil ilhas, volta a se ajuntar no Camboja, faz outra curva, desta vez para o oeste, e entra no Vietnã, onde finalmente deságua no Oceano Índico.
águas com cheiro de arroz.
a jornada da fronteira da Tailândia até Luang Prabang dura dois dias, com uma parada para pernoite em Pak Beng. Pak Beng são duas ruas de hotéis e restaurantes que enchem ao cair da noite e esvaziam no alvorecer.
foi difícil conseguir um hotel, tive que me contentar com um quarto com cama de casal, um basculante e paredes quase da largura da cama, que dividi com uma inglesa que conheci no barco. felizmente, Tracy é bem-humorada e organizada.
eu nunca tinha ouvido falar do Laos, país agrário espremido entre China, Tailândia, Camboja e Vietnã. sem saída pro mar. é o Mekong que manda, com suas cheias e baixas.
a paisagem varia pouco ao longo da travessia. descemos o rio largo quase em silêncio, um alívio depois de um três dias dentro de minivans, songthaews e tuktuks barulhentos. montanhas dos dois lados, plantações de arroz às margens, praias de areia, crianças, mulheres, homens e búfalos se banhando nas águas barrentas e tépidas, quase quentes neste março.
poderia ser um cruzeiro chic, mas as alfândegas que são só casinhas de madeira de cada lado do rio, o desconforto das cadeiras de ônibus velhas e mal parafusadas no barco, a ausência de serviço de bordo e o quarto de hotel do pernoite com apenas uma (1) mini janela nos lembram que pagamos muito barato - e que estamos adentrando um dos países mais pobres do leste asiático.
pobre em recur$o$ financeiro$, ressalto, mas riquíssimo em paisagens ribeirinhas tropicais, plantações de arroz e sorrisos, muitos sorrisos de seu povo acolhedor. crianças e adultos acenam para nosso barco, acenamos de volta.
a viagem termina em Luang Prabang.
do rio, primeiro vemos o monte Phou Si, verdejante com um templo encarapitado no topo, então despontam as pagodas douradas e templos de pedra da antiga capital do reino Laosiano. uma cidade-jardim.
seu centro histórico, tombado pela Unesco, tem 33 quarteirões de ruas estreitas e arborizadas. palácios, templos, mosteiros e seus pátios coexistem com casas tradicionais de madeira e casas coloniais de até 2 andares, do tempo de dominação francesa. as vielas estão repletas de orquídeas de diferentes cores e aromas.
penso na mamãe, que tanto aprecia orquídeas, imagino a gente caminhando juntas por essas ruas perfumadas.
por causa dos inúmeros templos, também são inúmeros os monges, quase onipresentes nas ruas com seus trajes e guarda-sóis laranjas. adoro vê-los fazendo coisas normais, como os dois monges crianças na beira do rio brincando com duas bóias de câmara de caminhão.
por causa dos antigos colonizadores, há boas padarias. inclusive uma que tem um excelente pain au chocolat.
mas o normal (e mais barato) é comer arroz soltinho, arroz grudento ou macarrão de arroz, com vegetais, frango, peixe fresco e muitos temperos.
ah, e frutas, muitas frutas. meu suco preferido até agora foi um de mamão, abacaxi, coco, castanha de cajú e muito gelo, porque o calor é menor entre as árvores, mas não dá trégua.
como o país não tem resorts, os turistas vêm pra cá em menor número que na Tailândia. e quem tá afim de festa se decepciona com o toque de recolher à meia noite, estabelecido pelo governo totalitário comunista.
por outro lado, a indústria do turismo resolveu esse “problema” se aproveitando da corrupção e leis menos severas para explorar um comércio de drogas como eu nunca tinha visto.
no bar de mochileiros que fica à beira do rio, com redes e cadeiras de praia muito convidativas, há, além do cardápio normal de bebidas e comidas, um de drogas que oferece ópio, cogumelos, maconha e o insano “disco bucket”, com tudo isso mais uísque e energético. me mantenho longe, porque não quero ficar doidona, nem ter problemas com autoridades por aqui e muito menos sofrer mais um acidente além do de moto, ainda fresco na memória e no joelho. engraçado que até as drogas ilegais aqui são naturais e relaxantes.
aliás, a dupla canadense Ojee e Jenny aportou por aqui dois dias depois de mim, pelo mesmo caminho rio abaixo. a cicatriz da Ojee é só um risquinho comparada com a minha, que ainda é uma ferida que eu tenho que cuidar.
felizmente, aqui é um lugar delicioso para descansar. passo os dias na beira dos rios. um mercado noturno movimentado tem comida boa, variada e barata, artistas tocando e dançando, muitas pessoas indo e vindo, mercadorias lindas e curiosas, mas eu não tenho dinheiro, sorry miss.
hoje eu observo com meu caderninho na mão.
no Laos o tempo passa devagar como o slowboat, bordeando as montanhas.
a cada curva, me apaixono mais.
conversa entre viajantes começa assim
oi meninas
beijinhos e até o próximo episódio,
Lívia
01/02cheguei no aeroporto de Bangkok com o endereço do hostel anotado em tailandês:
201-204 ถนนมหาไชย สำราญราษฎร์เขตพระนคร กรุงเทพ 10100อยู่ตรงสี่แยกสำราญราษฎร์ ใกล้เรือนจําเก่า เสาชิงช้าเเละที่ว่าการกทม
eu amo esses caracteres que parecem minhoquinhas se divertindo. entendo nada.
por email, me informaram que o jeito mais barato de chegar era pegar o skytrain do aeroporto até a estação Phaya Thai e de lá um tuktuk de 80 baht (1 dólar tava 35 baht em 2012). e anexaram as instruções em tai pra mostrar ao motorista.
cheguei a tempo do último metrô, sorte! mas descendo na estação, que difícil parar um motorista! eles passavam a mil! quando consegui parar um, comecei a falar em inglês e ele foi embora. quando consegui parar o segundo, eu disse Saô Tchin Tchá e ele negou com a cabeça enquanto acelerava. o terceiro até olhou o papelzinho em tailandês, mas não entendeu o que estava escrito. uff.
duas senhoras da limpeza urbana viram minhas tentativas frustradas, a cara e a mochilona de gringa perdida e me salvaram.
onde faltava inglês sobrava amabilidade. eu disse: My hotel is in Saô Tchin Tchá. a cara de ahn?!. então mostrei o papel em tailandês. เสาชิงช้า! Tsáo Tchín Chaaaaaa! aí sim.
mais rápidas que a velocidade da luz, chamaram um tuktuk, explicaram o endereço, negociaram o preço da corrida e, sorridentes, me ajudaram a colocar a mochila no chão do veículo.
lá fui eu Bangkok adentro, num carro de três rodas, o interior iluminado com led azul, motor de moto roncando alto, cortando os carros, passando em sinal vermelho, thai pop martelando no rádio, o motorista de bigodinho com semblante tranquilo. mais um dia de trabalho.
pra mim não, tudo novo. olho pra cima fascinada: um viaduto pra carros passando em cima de um viaduto pro aerotrem, por cima da avenida por onde eu passava. asterisco de viadutos. embaixo, ruelas estreitas, o rio Chao Phraya, motos zunindo nas calçadas, luzes neon gritando em tailandês, um visual ainda mais Blade Runner que Hong Kong, cheiro de comida apimentada, outdoors de cores vibrantes, noite cálida refrescada pelo vento, pelo movimento daquele veículo frágil costurando o trânsito sem paciência. buzina, motor, rádio, todos os outros carros. sinfonia urbana.
me sinto em casa.
05/02no ônibus-armadilha de Bangkok a Koh Phangan, conheci duas canadenses, Ojee e Jenny. muito gente boas.
armadilha porque o ar condicionado parou de funcionar quando a gente ainda tava em Bangkok. as janelas não abriam. tentamos falar com o motorista, mas a porta entre a gente estava trancada e ele nem olhava pra trás. a saída de emergência do teto estava fechada com tábuas e pregos: presos numa lata de ferro quente e úmida. como vim parar aqui? resposta: comprando a passagem mais barata da agência mais barata da Khao San Road, a rua dos mochileiros em Bangkok.
convenci uns fortões a empurrar a portinhola. deram muitos socos até que ela abriu. o motorista percebeu e finalmente parou o ônibus - pra reclamar que estávamos estragando o veículo! amigão, é impossível continuar sem ventilação e sem saída de emergência. não existe lei nesse país?! parece que não.
rodamos por alguns quilômetros com a porta do ônibus aberta (e a chaminé escancarada a murros) até uma oficina mecânica. o ar voltou a funcionar. seguimos viagem (ainda com medo).
06/02acidente de moto na ilha (só pra assinantes).
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13/02mercúrio devia estar retrógrado*, penso enquanto me acomodo na cama de viúva do trem para o norte da Tailândia. trem maravilhoso, tranquilo, espaçoso e barato ainda por cima. a urucubaca passou. estou viva, estou bem, estou em movimento. dos males, um menor. parece que acidente de moto é parte essencial do pacote turístico tailandês. no hospital eu jurei que não andaria mais de moto. no dia seguinte já estava na garupa de uma, de novo. desculpa, mãe. as montanhas do norte me aguardam.
um beijo e até a próxima cartinha,
Lívia
* não estava
Alô, mãe? Tudo bem?
Tudo bem, quer dizer, mãe, caí de moto. Mas tá tudo bem! Tô no hospital esperando o médico me liberar.
Eu só me ralei, um enfermeiro já me atendeu. Não precisei nem de ponto, não quebrei nada! Tô em Koh Phangan, é uma ilha no sul da Tailândia, na costa leste.
Então, a gente alugou uma moto pra andar pela ilha, porque o taxi é muito caro. Não, eu não tava dirigindo, mãe, você sabe que eu não sei pilotar moto! Eu tava na garupa, por isso também que eu não machuquei mais.
A Ojee, uma amiga canadense, que tava dirigindo. Ela tá ok, não machucou muito, mas vai ter que ser atendida num hospital maior, em outra ilha. A pele do joelho dela ficou no asfalto, deu pra ver o branco do osso antes de começar a sair um mundo de sangue.
Desmaiei não, só fiquei gritando Hospital em português, inglês e espanhol, pro povo que juntou em volta da gente fazer alguma coisa, aí chamaram uma ambulância e a gente veio pra cá. Um enfermeiro muito gentil limpou meus machucados. O joelho que tá pior, mas acho que consigo andar meio mancando sim.
Mãe, a ambulância que apareceu era só uma caminhonete branca com uma cruz pintada. Mas o hospital aqui é muito bom, talvez o melhor que eu já fui.
O hospital de Koh Samui, pra onde a Ojee tá indo, diz que é ainda melhor, é tipo um resort, os quartos têm até vista pro mar. Descobri que os hospitais aqui são bons porque tem muita gente que vem fazer turismo médico. Ah, o povo vem fazer terapia especial, plástica, implante de cabelo, tratamento de dente, essas coisas que plano de saúde não cobre. Aqui é bem mais barato e é bom.
A Ojee? Acho que não te falei dela, nem deu tempo. A gente se conheceu no ônibus de Bangkok pra cá, ela e a Jenny. As duas são canadenses. A Ojee machucou mais porque tava pilotando, né?
Ah, mãe, foi bem ridículo na verdade. A gente tava saindo do estacionamento perto de uma cachoeira que fica no meio da ilha, aí a Ojee acelerou demais a moto, um cachorro passou na nossa frente, aí ela desviou meio sem jeito, derrapamos na areia do estacionamento e batemos numa árvore.
Pois é. Não, a Jenny tava em outra moto, tá tudo bem com ela. A gente num devia tar nem a 10km/h. É, dos males o menor…
Agora vou ter que ficar um mês sem entrar no mar, também não posso tomar sol nem deixar entrar areia no curativo. Um saco. Tô indo pra Bangkok depois de amanhã, aí vou pro norte, porque não faz sentido nenhum estar na praia e não poder ir na praia. Em Chiang Mai tem montanhas bonitas e as coisas são mais baratas.
As praias aqui nem achei nada de mais, viu, o Brasil é melhor.
Claro que vou me cuidar, mãe! Eu me cuido, mãe!
Foi, foi muito besteira ter subido na moto com ela, mas ela disse que sabia pilotar… hahaha é, não sabia.
Pelo menos a gente tava devagar e não caiu na estrada. O enfermeiro disse que ontem uma menina chilena perdeu a patela num acidente de moto, coitada.
Acionei o seguro sim, mas a franquia é 100 dólares e não paguei nem 90 com ambulância e atendimento.
Ih, a cachoeira? É só uma quedinha de água num pocinho, mãe, nem valeu a pena. É, o Brasil é incrível mesmo, a gente fica desacostumada. As gringas achando ótimo e eu pensando na Serra do Cipó.
Mãe, o médico tá me chamando, vou receber alta e voltar pro hotel, tá?
Depois te dou mais notícias, tá bem?
Não preocupa não, viu? Beijo procês aí de casa também.
Tchau, te amo.
Alô, mãe?
Tô bem sim, cheguei tranquila aqui em Bangkok. O joelho tá recuperando bem, super bem. O pé eu nem lembro que machuquei e o cotovelo só tem um raladinho agora.
Nossa, mãe, aqui tem muita gente machucada de moto, agora que eu tô reparando. O povo de muleta, com o joelho enfaixado, pé quebrado. É muito comum ter acidente, eles alugam moto pra qualquer pessoa. Super, super perigoso.
Mãe, cê não vai acreditar. Anteontem eu saí da ilha, né? Peguei barco, depois um ônibus até uma rodoviária bem tosca de onde ia sair o ônibus praqui pra Bangkok. E quem é que aparece na rodoviária pra pegar o mesmo ônibus que eu?! As canadenses! Elas resolveram ir embora da ilha lá do hospital-resort no mesmo dia que eu na outra ilha e compraram passagem com a mesma empresa e pro mesmo horário que o meu! Mundo pequeno demais, nossa.
Elas não, já foram pra Chiang Mai direto. Eu vou amanhã, de trem. Diz que o trem é super confortável, comprei passagem com cama e tudo.
Reservei o mesmo hostel que as meninas, que aí vou ter companhia pra ficar de molho com a perna pra cima. A Ojee teve que dar um monte de ponto no joelho, mas vai ficar uma cicatriz bem menor que a minha. Pois é, rs, mas tudo bem.
Ontem conheci um espanhol-português, o Ramon, muito gente boa, e ele me apresentou pra um casal de enfermeiros de Barcelona muito legal, Claudia e Javier. Os dois me ensinaram a trocar o curativo e ver se tá infeccionado, tal. Eles falaram que o machucado tá cicatrizando super bem. É, agora não preciso ficar indo em clínica toda hora, chega de gastar dinheiro com isso.
Os três tão indo pro Mianmar amanhã, já anotei várias dicas deles pra quando eu for. Talvez a gente se encontre no Laos ou no Camboja, o Javi e a Clau vão pra lá depois mais ou menos na mesma época que eu. Aham, todo mundo viaja mais ou menos pros mesmos lugares. Também, todo mundo usa o Lonely Planet! Nem tem como escapar.
Ó, fala pro papai que eu tô bem sim viu, tô me cuidando direitinho. Já nem dói pra andar mais.
Chato é ter que ficar cuidando de curativo e usar roupa de manga comprida. É, não quero tomar sol na cicatriz mesmo não. Comprei duas calças e duas blusas de algodão bem leve pra poder ir revezando.
Nossa, aqui tá muito calor e no norte faz mais calor ainda, parece.
Pelo menos o acidente foi do lado direito, né? Vantagem de ser canhota.
Aham, tá tudo bem sim. Ah, eu não saio muito, mas aqui perto tem várias coisas interessantes pra fazer. Ontem à noite eu fui na rua com o Ramon, o Javi e a Clau e a gente comeu vários insetos. Tive nojo não, tava tudo fritinho. Era tipo um self-service, pegamos vários tipos.
Gafanhoto é o típico, mas achei meio grande, desajeitado de comer e a casca gruda no dente. Mas eu gostei das larvinhas, é crocante por fora e macia por dentro, sabe? Parece batata frita.
Haha desculpa, não sabia que já era hora do almoço! Aqui daqui a pouco vou sair pra jantar.
Eu almocei salada de mamão verde, é super fresquinha mas muito apimentada. A cozinheira prepara na hora, na rua mesmo: rala o mamão no ralo de lágrima e mistura com uns molhos, limão, pimenta e amendoim. Eu pedi sem pimenta, mas só o restinho que tava na bacia que preparou o meu já me deixou com a língua ardendo. Mãe, cê precisava ver, eu falei tantas vezes que era sem pimenta que ela morreu de rir do meu desespero. Pra ela não tava forte, mas o papai não daria conta de comer. Eu quase não dei…
Aham, pedi um suco de manga e tomei junto, super ajudou a cortar a ardência. As mangas aqui são docinhas e sem fiapo, super super gostosas. Comi melancia amarela ontem também. É uma melancia igual à vermelha, o mesmo gosto docinho, semente igual, só que é amarela. A vermelha é mais bonita.
Então tá, vou indo então, mãe!
Beijão pro papai e pras meninas também. Tchau.
Depois eu dou mais notícia, tá?
Beijo,
Lívia
aportei em Macau de ferry, com o bilhete da volta pro mesmo dia. esperava encontrar uma cidade como a que tinha acabado de deixar e já não aguentava mais:
prédios altos espelhados, movimento frenético, talvez indícios portugueses num edifício ou outro… e os cassinos que trazem milhões de chineses à península todo ano.
ainda no barco descobri que os cassinos estão concentrados em uma ilha mais afastada, tipo uma disneylândia do dinheiro. não tenho interesse na tal ilha das apostas onde The Venetian construiu canais navegados por gôndolas. prefiro gastar meu dia e minhas poucas patacas na cidade velha.
no restaurante do porto, peço uma sopa de pé de galinha. café da manhã que é iguaria, disseram. discordo. pé de galinha é só pele e ossos articulados, como que eu mastigo isso? mas o caldo estava bom.
então, vou atrás das ladeiras estreitas serpenteantes com suas igrejas imponentes e edifícios coloniais incrustados em templos taoístas, banquinhas de amuletos da sorte, reverências, nihao, xie xie.
cidade estranhamente familiar. haja saudade pros portugueses reconstruírem seu Portugal onde quer que fossem. Macau é tipo Diamantina, tipo Ouro Preto. tipo Olinda ou Parati, com o mar logo ali na beira.
Macau é a Lisboa que a China permitiu ter. a Lisboa que os portugueses conseguiram construir na China.
por causa da ocupação por 486 anos, as placas nas ruas macaenses estão em chinês e português. mas não são traduções. em chinês, o nome pode ser uma tentativa fonética do lusitano. ou não. tipo a Avenida de Almeida Ribeiro que é “San Mar Lo”. nova rua para cavalos. rua para cavalos é avenida, herança do tempo das carruagens.
perambulo sem mapa pelas ruazinhas estreitas calçadas de pedra. ares mediterrâneos, não fosse o cheiro do peixe seco exposto nos armazéns.
entrelugar.
aqui, como em Hong Kong, as celebrações do ano novo tomam as ruas neste começo de fevereiro. lanternas coloridas enfeitam calçadas, os templos estão cheios de fiéis e seus incensos, fogos de artifício explodem em frente a casas e lojas para afastar os maus espíritos.
é fácil encontrar o Grand Lisboa na paisagem. o primeiro cassino de Macau e um dos poucos na cidade velha. edifício arredondado coberto de painéis de led, com torres altas que vão se abrindo em leque lá no alto. não tem janelas. não me interessa.
já o templo de Matsu, de pé antes muito antes dos tugas aportarem e confundirem tudo, tem free wifi. pessoas rezam e fazem pedidos em frente a estátuas coloridas enquanto turistas tiram selfies com as enormes espirais de incenso penduradas no teto. elas queimam sem parar durante os 15 dias de ano novo. crianças brincam na A-Ma Gao e seus pais tentam evitar que entrem na água, um casal namora no banco ao lado enquanto eu atualizo o facebook com os pés descalços e vista pro mar.
sigo caminhando nas ruas simpáticas salpicadas de faixas vermelhas e douradas que desejam feliz ano novo aos passantes, em português e chinês. admiro as ruínas da Catedral da Igreja Madre de Deus e do Colégio de São Paulo. uma escadaria larga e interminável termina numa imensa fachada de pedra. o que restou do último incêndio domina a paisagem. imagino como seria o edifício inteiro. imponente, com certeza.
pastelarias de um lado e do outro da ladeira oferecem não o nosso pastel de feira e sim pastéis de nata. pastel de Belém. de Macau. restaurante perto de atração turística raramente é bom. como um pastelzinho pra ter certeza de que aquele não é uma exceção. seco e doce demais.
pro almoço sei que mereço uma pratada de sopa de fitas. fitas? fitas. macarrão é palavra de outro continente.
um pequeno estabelecimento de comidas na Travessa do Pagode parece convidativo. as paredes cravejadas de recortes de jornal em português de Macau informam que a sopa de fitas é especialidade na casa, Com cogumelos, por favor. digo, mas ninguém entende. Mushrooms, então me indicam uma mesa e preparam meu prato, este sim totalmente delicioso.
sem mapa, me perco pelas ruas que parecem paralelas, mas não são. estreitas, os edifícios chegando até a borda da calçada, muitas varandas e aparelhos de ar condicionado e a aguinha que chove deles. as vielas de pedra têm placas que parecem feitas pelo google translator: “Sala de explicações”, “Escola de condução”, “Estabelecimento de comidas”, “Companhia de construção e cimento”, “Estacionamento de motociclos”, “Passagem para peões”.
eu sou um peão. e rodopio. me esbaldo!
a tarde vai se estendendo. ouço um ritmo, um chiado, um jeito de falar entre dentes que não é nada asiático. os amigos, ou seriam amantes?, conversavam alto na Praça do Lilau. não resisti e puxei assunto usando o nosso idioma.
felizmente, os dois gostaram de mim de cara: Uma brasileira, quem diria! Que alegria! e trocamos histórias de vida. ela jornalista portuguesa radicada em Macau, ele macaense de ascendência portuguesa, tem uma empresa de transportes de luxo.
dizem que viver em Macau é bem melhor do que lutar pelas poucas oportunidades em Portugal. seu lugar é na Ásia.
será que eu tenho um lugar?
por agora prefiro seguir à toa pelo mundo, à deriva, flutuando nas correntes do acaso. foi assim que cheguei até aqui. e encontrei essas pessoas amáveis.
por meia hora, a gente poderia estar tagarelando em Tiradentes, Salvador ou no Porto. os casarões de dois andares, a calçada de pedras portuguesas desenhando ondas, um quiosque de ferro, três árvores frondosas e um chafariz. água jorrando da boca de um anjinho gordo.
me convidam a jantar com eles, beber um vinho, passar a noite, nem pense em hotel. mas recuso com aperto no coração. meu ferry de volta a Hong Kong sai em uma hora e minha passagem para Bangkok é amanhã.
neguei com muito desejo de aceitar.
Quem beber da água do Lilau, nunca esquecerá Macau*, recitou então a jornalista cujo nome esqueci. ela me olha e olha pro anjo de bochechas inchadas.
abraço os dois e bebo três goles fartos de água fresca.
então, preciso correr. a caminho do ferry, com pressa para não perder minha passagem, a noite chega e todas as lâmpadas neon do cassino Gran Lisboa iluminam o lago Nam Vam. lembro do seu apelido, que aprendi no Lilau: Grand Abacaxi.
só não combina mais porque abacaxis não brilham no escuro.
beijinhos,
Lívia
*em patois: quim bebê agua do Lilau, nádi esquecê Macau
Macau se chama Macau por causa de Matsu, deusa dos mares chineses, protetora de marinheiros e pescadores.
Matsu, que em Macau é chamada de A-Ma (Grande Mãe ou Vovó), é uma das diversas faces de Yemanjá. a sua face protetora, a que ama, gesta e salva do afogamento.
como hoje é o dia da Rainha do Mar e também Ano Novo Chinês, preparo o capítulo sobre Macau que será enviado às assinantes em breve. o postal sobre o Ano Novo em Hong Kong 🐲 também tá ficando pronto e semana que vem deve chegar para quem apoia o projeto com R$20 ou mais.
assinando até hoje, 2 de fevereiro (ok, até 3/fev meio dia), dá tempo de receber o primeiro postal da viagem em sua casa :)catarse.me/atoapelomundo.
voltemos a A-Ma, Macau e a origem de seu nome
imagine a cena:um navio português aporta em certa península chinesa pela primeira vez.
desceram, as pernas ainda bambas de tanto balançar nas caravelas, atravessaram uma praia curta e avistaram um templo de telhados pontudos encarapitado entre pedras altas que se erguem como barreiras.
desceram já perguntando aos cantoneses com redes nas mãos: Que lugar é este?
A-Ma Gao, responderam os pescadores, apontando a baía (Gao) do templo da deusa A-Ma.
Amagao, repetiram.
e os portugueses entenderam errado. acharam que era o nome do povoado, uma simplificação de quem se acha superior.
Magao, Macao, Macau, tanto faz. vamos começar aqui um cumércio, pensaram com a petulância própria dos colonizadores.
Macau é a Lisboa que a China permitiu ter. a Lisboa que os portugueses conseguiram fazer do outro lado do mundo.
aqui, algumas fotos do templo de A-ma, um dos mais antigos ainda de pé em Macau:
o templo começa na beira da praia e sobe morro acima. tem dois portões imponentes, um no nível do mar e outro ao final das escadas cercadas de natureza.
ao chegar lá em cima, vemos o mar e as ilhas que formam Macau.
durante os 15 dias do ano novo, o templo a A-Ma fica salpicado de espirais de incenso enormes, pontes entre o terreno e o divino.
Odoyá, grande mãe Yemanjá, que banha todas as terras dos mundos visível e invisível com suas águas férteis!
e feliz ano novo pra nós! que tenhamos a bravura, sabedoria e força do tigre, sob as bênçãos de Yemanjá.
beijinhos,
Lívia
Estamos indo pra Lan Kwai Fong tomar umas, alguém anima?
Tem dois lugares no carro.
a área comum do Hong Kong Hostel é uma sala comercial maiorzinha no terceiro andar de um arranha-céu na Paterson Street. há uma chaleira elétrica, um microondas, balcões pregados às paredes e bancos altos. não lembro de ver janelas. sim há luz, branca vinda do teto e amarela do microondas quando aquece um prato congelado ou faz pipoca.
eu tomava um chá de botões de rosa com a Angela* depois de um dia de muitas andanças quando um casal de ruivos altos fez o convite de passeio a todos que estivessem ali de bobeira.
Estamos indo pra Lan Kwai Fong tomar umas, alguém anima? Tem dois lugares no carro.
um menino de cabelos pretos e pele muito branca disse que topava. eu olhei pra Angela*, ela olhou pra mim como se dissesse Vai lá com os jovens e disse You go have fun, fui.
em Não brinque com fogo, de 1980, é na Lan Kwai Fong que a máfia honconguesa se reúne. a rua continua a mesma, ladeira estreita com portinhas abertas pra rua, de onde sai música pop e luz neon. talvez na época do filme do Tsui Hark fossem menos bares, mas a vibe, a vibe era a mesma. não vi nenhum mafioso, mas o primeiro drink de cada bar era grátis.
os ruivos eram irlandeses desses sem limites para o álcool. se juntaram a mais 3 cabeças-de-fogo e se revezavam pagando bebidas pra mim e pro Simon, o inglês que também não sabia como tinha parado nesse rolê.
saltando de bar em bar, lembro de um shot de gelatina de morango com vodka servido numa seringa gigante, de virar doses de tequila e de um mojito refrescante, finalmente alguma água, a água do gelo. lembro de dançar tecno farofa nas pistas minúsculas desses bares até que a hora avançou e a rua foi fechando pouco a pouco.
alguém sabia de uma boate que ficava aberta até tarde. subimos a rua até chegar numa trilha de terra, à esquerda um morro cheio de mato e uma cerca de arame farpado, à direita a cidade acesa, até que chegamos numa casa, uma casa! com jukebox e um bar aberto. eu e Simon nos revezamos na escolha do set de rock inglês: Smiths, Strokes, Rolling Stones. dançamos, ele um pouco desengonçado.
pensei Poderia me apaixonar.
a gente se seduzia e ria dos irlandeses virando mais doses de sei-lá-o-quê.
então a polícia chegou muito educadamente cortando a luz e entendemos que era hora de ir embora.
embora pra onde? ninguém queria dormir. tomamos um táxi até Wan Chai, disseram que lá a noite ainda existia. ao desembarcar, foi o tempo de darmos a volta no quarteirão pro Simon sacar dinheiro no ATM para os irlandeses desaparecerem.
achávamos que estavam dentro do bar, então entramos.
tinha que pagar, então pagamos já achando que não ia valer a pena.
Escape, no subsolo de um edifício comercial tão alto quanto a maioria na ilha, pouca iluminação. um bar com música ao vivo frequentado por prostitutas asiáticas e homens brancos de meia idade. mulher com mais de meio metro de pano no corpo, só eu, que nem sou recatada.
no palco ao lado da entrada, uma girl band tocou Avril Lavigne, depois Alanis Morissette e U2.
tentei filmar um trecho, mas o segurança disse bruscamente No Pictures e eu ficava cada vez menos à vontade. o Simon também, então decidimos ir embora e que se explodam os leprechauns que nos abandonaram no meio do caminho. vamos pra casa.
na estrada, sua casa é onde seu mochilão está.
na saída, Simon pediu um cigarro pra uma versão grega do Pepe Mujica que fumava ao lado da porta. ele perguntou se Simon queria algo mais com o tabaco e bolou pra ele um fumo com haxixe enquanto reclamava que as mulheres asiáticas eram todas interesseiras, menos a esposa chinesa dele, 25 anos mais nova.
agradecemos e Simon fumou o cigarro batizado enquanto caminhamos os 2 quilômetros que nos separavam do Hong Kong Hostel. eram 4 da manhã, a avenida Lockhart é larga, estava vazia e eu me sentia estranhamente segura. não havia ninguém morando na calçada.
Simon já tinha trabalhado em uma locadora e conversamos tanto sobre filmes, livros, música, sobre tudo, que o caminho foi curto pra tanto papo. hoje me pergunto se ele já tinha visto o filme do Tsui Hark**, acho que não, eu só vi depois.
o passeio terminou conosco no elevador. eu doida pra tascar um beijo naquele inglesinho tímido e inteligente, de lábios carnudos e olhos de raposa que ficam ainda menores quando sorriem. combinamos de nos encontrar na recepção do hostel na manhã seguinte, quem sabe tomar um café juntos antes que ele fosse pro aeroporto. o voo dele pra Taiwan era às 4 da tarde.
eu acordei às 9h e me plantei na recepção com meu chá e biscoitos. fiquei ali até as 2 da tarde escrevendo no meu diário, com alguma esperança de revê-lo.
mas nos desencontramos, talvez.
não nos vimos mais.
é em New Territories que fica Ping Shan, uma das vilas antigas que sobraram em Hong Kong. ali era remoto o suficiente pra sobreviver à modernização da cidade-estado. uma comunidade tradicional à beira do rio com seu templo-torre de três andares, casas, pátios, prensa de tofu, escola.
em 1987, ano que nasci e data da foto exibida no alto da pagoda em homenagem ao deus Hung Shing, ainda havia um rio, uma curva de rio caudaloso. hoje um pântano tomado de plantas aquáticas filtrando a sujeira e rodeado por promessas de condomínios espelhados, ainda esqueletos. aqui também é assim.
as casas-museus fecham para visitação às 5 da tarde, não faça como eu e Angela*, que chegamos às 4h30, ou melhor, ou melhor, faça.
porque foi depois que as portas se fecharam que perambulamos pelas ruelinhas admirando apenas as fachadas com muito interesse, tentando fazer a viagem até New Territories valer a pena, e um senhor de cabelos prateados e óculos de aro fino abriu as portas da escola para nós.
Venham, disse com as mãos, e entramos no edifício de 142 anos construído pelo trisavô desse senhor sem usar nem um pedaço de metal. paredes, colunas e dois andares de uma escola laica com salões e salinhas de tijolinhos de cerâmica escuros e detalhes em madeira pintada de vermelho, azul, ocre e verde. de pé graças a encaixes de madeira inteligentemente engenhosos.
com ele ultrapassamos a placa Não Ultrapasse até o gabinete dos professores e chegamos ao terraço de onde um dia as pessoas viam o rio e ainda dá pra ver os telhados repletos de detalhes dos casarões da vila.
os limites físicos de gerações de memória.
na despedida, este senhor salvador, guia de poucas, mas certeiras palavras, virou pra mim e disse
You are brazilian
Como ele soube?, perguntei e ele respondeu
You smile a lot
e o meu sorriso que já estava aberto rasgou o rosto de orelha a orelha.
A viagem continua!
Beijinhos e até a próxima,Lívia
*Angela: canadense muito amável, 28 anos mais velha que eu, que mora em Chengdu ensinando inglês pra crianças. com ela dividi as aventuras do Ano Novo Chinês e graças ao seu mandarim nível básico me ajudou a decifrar alguns dos mistérios dos cardápios dos restaurantes
**Tsui Hark: agradeço ao Cineclube Comum, que em 2015 exibiu “Não brinque com fogo” (1980) no Sesc Palladium, Belo Horizonte
***se você reconhece o Simon de algum lugar, conta pra ele que eu fiquei esperando durante cinco horas naquela recepção sem janelas? e passa meu email, please.
Oi, este é o 1º capítulo do romance em prosa, poesia, imagens e sons à toa pelo mundo: um ano de aventuras sozinha pelo mundo que existia em 2012. Seja bem-vinde.
eu queria estar alegre eu queria respirar fundo empolgada e exclamar Estou na China estou fazendo uma volta ao mundo! eu queria celebrar o começo a primeira parte da viagem a parte mais longa a grande pernada da América até a Ásia
eu queria mas pra quê tanto
barulho a voz que anuncia as estações do metrô dentro do aeroporto sim aqui tem metrô entre o desembarque e a alfândega e a voz que anuncia as estações em cantonês e inglês penetra no cérebro e os avisos de fechar portas estridentes e as meninas ouvindo música sem fone de ouvido e as portas que batem ao fechar
barulhentos os carros as motocicletas o motor do ônibus Airport Express até a ilha de Hong Kong zumbindo nos ouvidos os motores dos cinco aviões do Brasil até aqui
os primeiros acordes da música-tema do Esqueceram de Mim tocaram várias vezes os avisos de apertar os cintos os chamados pelos comissários o carrinho de comida
Chicken or pasta, miss?
Eggs or yogurt, miss?
Can you please close your window, miss?
não eu não posso fechar as janelas
há um espetáculo lá fora o nascer do Sol mais longo que já vi a senhora comissária talvez esteja acostumada mas eu não é a minha primeira vez
nós voando fugindo do Sol rápido mas não tão rápido quanto a rotação da Terra e ainda sim bem rápido tanto que quando saímos de Santiago era 11 da noite e fomos voltando no tempo cruzando o Pacífico não vi nenhuma ilha porque estava escuro mas sei que elas estão lá e há muitos vulcões às vezes um tsunami mas de cima tudo na paz quase nenhuma turbulência o que eu vi sim foi uma longa madrugada um voo de onze horas e vinte minutos de duração sobre o maior oceano de todos
primeiro eram 23h em Santiago então veio o jantar Chicken please e tive que fechar as janelas mas logo abri de novo e logo surgiu um filetinho de luz lá no leste atrás de nós tão lindo o Sol ficou ameaçando a noite todo o tempo que a gente seguia firme pra oeste até que nós nós eu e o avião ganhamos chegamos antes do Sol chegamos ontem!
mas ao pousar descobri que hoje não era ontem, hoje era amanhã porque existe uma linha a linha de mudança de data entre Tonga e Samoa
cruzamos esse pontilhado imaginário e apesar de termos ganhado do Sol o calendário gregoriano trapaceou ele disse que na verdade o Sol é que girou uma vez inteira e chegou do outro lado passou por nós enquanto eu comia meu frango esquentado no microondas de janelas fechadas porque a moça me obrigou
nesse momento pode ser talvez foi nesse momento que o Sol correu pra frente e ao invés de estarmos voltando nos fuso-horários apesar de termos enfrentado o Sol com nariz empinado e velocidade de cruzeiro
perdemos
eu não fiz nada tive que aceitar
afinal o Sol é o rei desse sistema
e o calendário é seu capataz
cheguei no aeroporto de Auckland no sábado dia 21 e a sexta-feira passou entre o jantar e o café da manhã sem happy hour sim porque
1) nunca foi sexta-feira 6 da tarde dentro daquele avião
2) mesmo se tivesse sido eu não aceitaria no thank you não quero uma garrafa de vinho nem se for dessa garrafinha de 250ml que dão pros passageiros beberem o suficiente só pra ficar de pilequinho sem desidratar demais muito menos despertar alguma inconveniência
No thank you, I want orange juice e eu odeio suco de laranja de caixinha mas é melhor que vinho quando se está com dor de cabeça eu quero suco de laranja e um paracetamol please ainda que eu saiba eu sei que essas drogas não vão aplacar o meu cansaço meu stress de sessenta e uma horas e vinte minutos de viagem cinco voos por três continentes
então é isso que chama jet lag
essa sensação essa mistura de mau humor com estranhamento social tonteira cansaço e não conseguir dormir
eu não consigo dormir nesse quarto do hostel mais barato da ilha um quarto que é uma sala comercial de um prédio de dezenas de andares com um beliche uma cama uma mini penteadeira e um banheiro que só cabe a privada e o chuveiro
um quartinho com uma janela minúscula compartilhado com duas meninas que não sei quem são elas estão dormindo apesar das cortinas cor de vinho não abafarem o som do semáforo para cegos apitando incessante lá embaixo uma rua famosa pelos outlets cheia de compradores subindo e descendo escadas rolantes eu pergunto
pra quê tanta pressa?
fez sentido quando marquei as passagens afinal queria chegar a tempo do ano novo chinês
a Nova Zelândia e o Chile ficaram pra depois
eu tinha um compromisso marcado com a terra da pólvora do papel e do vermelho
lá fui eu quicando de aeroporto em aeroporto São Paulo Montevidéu Buenos Aires Santiago Auckland Hong Kong onde tem um ano novo meu segundo ano novo de 2012
acontece que quando perguntei à comissária da última parte da jornada eu perguntei When is the chinese new year? ela disse The chinese new year is now miss
agora, ela disse que é agora
o reveiom dura 18 dias e eu achei que começava mesmo só no dia 23 mas a moça cantonesa que trabalha nos corredores de aviões da Cathay Pacific disse que hoje dia 21 já era o ano novo era agora e eu correndo descabelada pra chegar a tempo
será que o ano novo se adiantou enquanto eu perdia a sexta-feira? eu só sei que preciso dormir e não consigo o cansaço é maior que o sono ele deu um duplo twist carpado e pesa sobre meu corpo de um jeito insuportável
amanhã talvez depois de amanhã eu já descansada e humana de novo possa sentir o júbilo que eu deveria estar sentindo que eu quero sentir
eu estou do outro lado do mundo mais longe do que qualquer familiar por parte de pai e de mãe já esteve
tudo que eu tenho cabe numa mochila
estou muito longe de casa livre de cabeça pra baixo
dentro do ano novo que não tem contagem regressiva
mas tem
dragões que dançam ao som de muitos
muitos fogos de artifício
Bilhetinho que mamãe deixou escondido na mochila:
“Lívia, minha querida,
Acima de tudo, te admiro muito!
Pela sua coragem, ousadia e determinação. Você com certeza irá muito longe.
O que desejo para você? Toda a conspiração do Universo para realizar seus desejos.
Te amo =)
Mamãe”
Do quarto do hostel mais estranho que já vi,Beijinhos e até breve,Lívia
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