Em França, esta sexta-feira marca o fim da campanha para a primeira volta das legislativas antecipadas de domingo 30 de Junho, na sequência da dissolução do parlamento decidida há três semanas pelo Presidente da República, em resposta à pesada derrota do seu campo nas eleições europeias.
Durante esta campanha extremamente curta, surgiu o retrato de uma França profundamente dividida, uma França que assusta os seus vizinhos na Europa, uma França descrente nas políticas até agora conduzida pelos tradicionais partidos de governação e com uma fracção significativa da sua população tentada pelo discurso da extrema-direita.
Nestas três semanas de campanha, também se dramatizaram e se agudizaram as oposições, nomeadamente no campo de Macron que agitou inclusivamente o risco de guerra civil. Por outro lado, à medida que se foram normalizando as ideias e agendas da extrema-direita, diabolizou-se ainda mais a esquerda e algumas das suas figuras, como Jean-Luc Mélenchon.
Estes foram alguns dos fenómenos que analisámos com Álvaro Vasconcelos, antigo director do Instituto de Estudos de Segurança da União Europeia.
RFI: Em paralelo com uma banalização da extrema-direita, tem-se assistido a uma diabolização da esquerda. Qual é a base disso ?
Álvaro Vasconcelos: Creio que, como em muitos sítios do mundo, há duas esquerdas. Há uma esquerda que é representada pelo Partido Socialista e pelos ecologistas, que é uma esquerda alinhada com os valores da integração europeia, alinhada com a ideia de que é preciso criar consensos na sociedade para que exista democracia, porque a democracia baseia-se na criação de um espaço público com alguns consensos essenciais. Depois, há uma esquerda de certa forma representada por um sector da França Insubmissa, muito particularmente por Mélenchon, que olha para esta questão dos consensos nacionais, de criar o quadro da convivência democrática entre diferentes forças, como algo contrário aos seus objectivos e, evidentemente, isto esteve presente na campanha. Por outro lado, nós temos uma particularidade em França hoje, que é, para além de existir uma frente de esquerda, a Nova Frente Popular, e um partido fortíssimo da extrema-direita. Temos ainda um centro, um partido que foi criado por Macron, que alguém chama de "partido do extremo-centro" -o próprio Macron usou essa expressão- e que, encontrando se numa situação extremamente difícil do ponto de vista político, procura chegar mais perto de objectivos que são pouco claros. Qual é o objectivo? Não é certamente de maioria absoluta, porque isso é absolutamente impossível. Mas procura chegar perto desses objectivos dizendo que "somos nós ou o caos". Isto é uma estratégia que já o general De Gaulle tem utilizado noutras circunstâncias e que é uma estratégia também condenada ao fracasso, porque é uma estratégia que radicaliza também a política francesa. Por exemplo, a declaração de Macron que estávamos "perto de uma guerra civil" é uma declaração extremamente grave, porque contribui para essa radicalização da sociedade e para a ideia que há fracturas na sociedade que são irreconciliáveis. Essa estratégia não tem tido sucesso, não terá sucesso e vai, de certa forma, contra os valores com que Macron tinha sido eleito pela primeira vez em 2017, quando apareceu como alternativa aos partidos políticos tradicionais, partidos que estavam desgastados por anos de governação sem resultado e apresentou-se como uma terceira força, o que tem acontecido várias vezes em França. E essa terceira força, para crescer e para existir, vai destruindo os partidos tradicionais e vai radicalizando sectores dos partidos tradicionais. Esse é um dos problemas. Outro problema que eu vejo, que é extremamente grave, é que as ideias da extrema-direita e, por exemplo, a ideia de há uma ameaça à identidade francesa, de que os imigrantes são uma ameaça que os valores e as conquistas como direitos para as comunidades homossexuais e LGBTQ, para os direitos das mulheres, etc, destroem a sociedade. Essas ideias extremamente reaccionárias e conservadoras que dividem profundamente os franceses, foram banalizando-se e aí a responsabilidade é de muita gente. Essa banalização ela dá-se, por um lado, porque a direita tradicional, em perda de velocidade e de eleitorado, sobretudo, foi pensando que teria mais sucesso, se assumisse as ideias da extrema-direita, porque iria retirar eleitorado à extrema-direita. Mas, como dizia o pai (Jean-Marie) Le Pen, as pessoas ao terem que escolher entre o original e a cópia, escolhem o original. O original é o racismo, mas eu acho que há muito mais sectores da sociedade francesa que contribuíram para essa banalização da extrema-direita.
RFI: Nomeadamente a comunicação social, por exemplo. Há órgãos de comunicação social que partem do princípio de que a extrema-direita vai ganhar. Há também, inclusivamente canais de televisão que fazem campanha de forma assumida pela extrema-direita. Isto, no fundo, não vai contribuir também para orientar o voto dos franceses?
Álvaro Vasconcelos: Sem dúvida que houve um papel importante e muito significativo daquilo que podemos dizer o "marketing da sociedade do espectáculo", em que um político radical, um político de certa forma "Bouffon", um político que cria controvérsia e que diz coisas violentas, aumentaria as audiências. E aí, evidentemente, nós sabemos que há canais de televisão francesa, como a CNews, que foram, digamos, empoderados por essa corrente e que hoje estão ao serviço claramente da Frente Nacional. Mas há outros sectores. Por exemplo, há uma série de intelectuais franceses que ainda gostam de se chamar de intelectuais. Eu dou o exemplo de Alain Finkelkraut que escreveu há já vários anos um livro que se chamava "L'identité malheureuse" (a identidade triste) em que ele dizia, apesar de ele ser filho de imigrantes, que no seu tempo, integrava completamente os valores franceses, que agora há comunidades que não integram plenamente os valores franceses e que vivemos num momento de uma "Identidade triste". A teoria da "grande substituição" também é uma teoria de um intelectual. Ou seja, nós temos que pensar que a produção intelectual tem impacto também nessas questões. Evidentemente que isto se dá num contexto que facilita o desenvolvimento dessas ideias reaccionárias e o voto contra, embora o voto contra assumiu essa ideologia como sendo a ideologia que lhe pode dar um outro tipo de vida -o que é absolutamente falso- como já se viu em muitos sítios do mundo. Mas o contexto favorável é o contexto da consciência de enormes desigualdades na sociedade. Foi também toda a política agora, nos últimos anos, do Banco Central Europeu aumentar as taxas de juro, a inflação provocada pela guerra e a falta de resposta a nível europeu, mas também global, a especulação financeira, tudo isso a que se chama, e com razão, o triunfo da ideologia económica neoliberal, para o qual não há alternativa. Isso criou uma consciência muito grande na sociedade francesa da desigualdade numa sociedade onde o valor da igualdade é extremamente forte. Lembremos que a França, tem como lema a Liberdade, Igualdade e a fraternidade. Os grandes princípios da Revolução Francesa. Mas a desigualdade tem uma força muito grande na sociedade francesa. É a consciência da desigualdade. Depois, a crise de 2008, acho que também contribuiu para o crescimento da extrema-direita.
RFI: Estava a falar do neoliberalismo. Ele é, de certa forma, personificado e cristalizado na personagem de Emmanuel Macron. E, por oposto, temos também Jean-Luc Mélenchon, que também é uma figura que divide a sociedade francesa. Ambas essas figuras foram, de certa forma, rejeitadas pelos seus próprios aparelhos partidários durante esta campanha. Apesar disso, eles não respeitaram o seu "dever de reserva". Julga que isto pode também contribuir para orientar o voto dos franceses?
Álvaro Vasconcelos: Certamente que essa é a questão-chave das eleições francesas. Como nós sabemos, são eleições com duas voltas. E o que será decisivo para voltar atrás? A extrema-direita e a resistência republicana e os votos a serem orientados para o candidato em melhores condições para derrotar a União Nacional, seja ele de que partido for. E é a demonização recíproca, a demonização que foi feita de Macron durante estes anos por um sector da França Insubmissa, e agora a campanha que é feita contra a França Insubmissa nesse período eleitoral em particular, não facilitarão que na segunda volta das eleições, quando for um candidato da França Insubmissa ou do partido do presidente, que os votos se canalizem de um para o outro. E isso junta-se ao facto de o anti-semitismo ter reaparecido em França. Isso é algo que nós não podemos negar. Quer dizer, a França é um país onde as correntes islamofóbicas são extremamente fortes. Mas se nós formos na nossa própria análise -e eu me incluo- menosprezamos a força que o anti-semitismo histórico tem ainda nas sociedades europeias. E com a crise, nós não nos podemos esquecer que nós acabamos de viver a crise do covid, que foi uma crise extremamente grave. A crise da pandemia afectou profundamente as pessoas e apareceram as teorias mais absurdas, isto muito antes da Guerra de Gaza. Isto começou a ganhar uma dimensão significativa, durante a crise do covid, quando se começou a equacionar a vacina e a própria epidemia com os interesses da finança internacional, ligando essa finança internacional a várias teorias conspirativas sobre os judeus. Isso eu ouvi em vários sítios, até em Portugal, onde o anti-semitismo é latente, mas não tem essa dimensão. De repente, teve em França, por causa das circunstâncias actuais, e isso contribui para que uma parte da população olhe para os judeus como uma ameaça, além de olhar para os muçulmanos, o que torna a questão do racismo extremamente complexa e extremamente grave. Porque, para ser coerente, nós temos que ser claramente contra a islamofobia e contra o anti-semitismo. E aí não há dúvida que o líder da França Insubmissa, Jean-Luc Mélenchon, não foi claro sobre essa questão, inclusive ao dizer que (o anti-semitismo) era "um problema residual". Ora, parecia-nos um problema residual, dado a dimensão da islamofobia, mas deixou de ser um problema residual. E não se deve desvalorizar nenhuma forma de racismo. Todas as questões que têm a ver com os direitos das pessoas, nomeadamente os direitos a não serem discriminados pela sua origem étnica, religiosa, nacional, etc. têm que ser tratados com enorme rigor, porque se contaminam uns aos outros e acabam por legitimar o horror, o absurdo do racismo.
RFI: Relativamente à diabolização que tem havido, tanto de um lado como do outro, tem havido apelos para que, depois da primeira volta, os candidatos que fiquem em terceiro lugar nos seus círculos eleitorais, desistam da sua candidatura para fazerem barragem à Frente Nacional, no caso de ela estar presente na segunda volta. Todos os partidos concordaram, excepto o partido de Macron. Ou seja, a estratégia do "Ni-ni", como se diz aqui em França. É uma estratégia perigosa?
Álvaro Vasconcelos: É uma estratégia muito perigosa, embora me pareça que é uma estratégia para a primeira volta das legislativas. É uma estratégia para tentar que o partido do Macron saia da situação extremamente difícil em que se encontra, aparecendo como o único partido que não teria nenhuma corrente extremista, que seria um partido do centro. Mas eu acho que na segunda volta, as coisas vão se colocar de forma muito diferente, algo que eu estou absolutamente convencido. Temos que relembrar que se a nova Frente Popular concorre com essa sigla, é que cada um dos partidos tem os seus próprios deputados em círculos diferentes e as pessoas sabem quem é o seu respectivo deputado. E quando forem candidatos, o Partido Socialista, os Ecologistas e o Partido Comunista, a transferência de votos do partido de Macron para esses candidatos vai passar e vice-versa. Quando forem candidatos da França Insubmissa e do partido do Macron, vai já ser muito mais difícil a transferência de votos. Mas eu penso que vai ter muito mais a ver com os candidatos específicos do que com os partidos em geral. Embora nós tenhamos visto, nos últimos dias, uma série de políticos e até intelectuais franceses a fazer abaixo-assinados a dizer que nunca votariam na extrema-direita, nem na França Insubmissa. Evidentemente que dizer isso hoje é extremamente perigoso, é grave. Estou a pensar como, por exemplo, em Manuel Valls e o caso e outros dirigentes. Hoje, eu penso que estes responsáveis não vão mudar de posição. Mas acho que os eleitores e mesmo os candidatos, quer do partido de Macron, quer do Partido da França Insubmissa, nos sítios em que tiver um candidato da extrema-direita pela frente, muitos deles irão apelar ao voto contra a extrema-direita. Vamos ver. Isso aí é um grande ponto de interrogação, mas não está bem encaminhado para que essa frente republicana exista. Mas temos que pensar que são em duas voltas as eleições e que estamos na primeira volta.
RFI: Mencionou há pouco o risco de guerra civil que foi agitado nestes dias pelo Presidente da República. Julga que este é um risco plausível?
Álvaro Vasconcelos: Acho isso um absurdo. Quando estive no Brasil nas vésperas da eleição do Bolsonaro, escrevi um artigo em que falei de "uma guerra civil fria", ou seja, uma guerra em que não há batalha, não há sangue, mas há uma destruição política significativa, como no Brasil, com a vitória do Bolsonaro. Uma guerra civil fria é possivelmente aquilo a que nós estamos a assistir em França, com uma sociedade extremamente polarizada como era a do Brasil, com a subida do Bolsonaro e seus apoiantes e com os partidos e pessoas a colocarem-se em dois campos absolutamente irredutíveis. A gravidade de se dizer "guerra civil" sem explicar o conteúdo, é que se está a dizer que amanhã os franceses se podem matar uns aos outros. É muito possível, perante a vitória da extrema-direita que haja em França manifestações que ganhem alguma dimensão violenta. Mas isso não tem nada a ver com uma guerra civil. Tem a ver com a revolta que a vitória da extrema-direita vai provocar e depois, como é que a polícia vai reagir. Tudo isso pode criar uma situação extremamente difícil. Mas dizer que se está em situação de guerra civil é também um velho discurso extremamente perigoso, porque é um discurso que foi usado pela extrema-direita para dizer que o que se passava nos bairros periféricos de Paris era um ambiente de guerra civil entre os franceses e os muçulmanos. Não era disso que Macron estava a falar. Estava a falar da clivagem entre a extrema-direita e a esquerda mais radical. Mas ele está a deitar fogo sobre o fogo. E não se percebe como é que um político eleito com uma política centrista (diga isto), a não ser numa situação de desespero, porque aquilo que ele tinha pensado que ia acontecer ao dissolver a assembleia, não se deu. Ele pensaria que a esquerda não se iria unir porque era o que tinha acontecido durante as europeias e portanto, o seu partido apareceria como sendo a única alternativa face à extrema-direita. Não foi assim. Criou-se uma nova Frente Popular, que é hoje a verdadeira alternativa à extrema-direita, embora esteja convencido que sem uma aliança entre a esquerda e o centro, em França, não se derrota a extrema-direita, mas não se pode polarizar a situação política ainda mais do que ela está.
RFI: No fundo, com esta dissolução, a vítima colateral de tudo isto não terá sido o próprio campo de Macron que aparece ainda mais isolado depois desta refundação política?
Álvaro Vasconcelos: Eu acho que o campo de Macron já estava extremamente fragilizado, que a dissolução foi uma tentativa um pouco desesperada para dar ao campo centrista uma força nova que falhou, mas se vir o resultado das europeias em que o partido de Macron teve 14,6%, já estava um partido com muitos problemas numa Assembleia Nacional extremamente dividida, em que o Partido de Macron tinha cada vez mais dificuldade em aprovar fosse o que fosse. Possivelmente havia outras alternativas, como dizem alguns dos políticos do campo de Macron, até o primeiro-ministro Gabriel Attal. Eu diria que, em tempos normais, o apelo ao voto dos eleitores é o fundamento da democracia e, portanto, isso acontece em imensos países do mundo em que, perante um impasse político significativo, se pede ao eleitorado para votar. Isso funcionava bem quando a democracia liberal era um regime que não era contestado de uma forma radical por forças iliberais de extrema-direita. Hoje, pelo contrário, esta situação, que é extremamente perigosa para a democracia. Nós hoje temos medo do voto e temos razão para ter medo do voto. Isto, para além da questão do timing, acho que é uma questão mais de fundo. Eu lembro que quando o Berlusconi perdeu pela primeira vez as eleições em Itália, houve uma discussão sobre convocar novas eleições e o presidente do Conselho Europeu, Herman Van Rompuy, foi à Itália para dizer "não façam eleições, porque se houver eleições, será o partido Cinco Estrelas que vencerá". E não houve eleições. Puseram um tecnocrata, o Mario Monti, a governar a Itália e depois houve eleições, o Cinco Estrelas governou em aliança com Salvini e hoje temos a Meloni e a extrema-direita no poder na Itália. Ou seja, o medo das eleições é um problema grave da democracia. Mas a gente percebe porquê. Agora, onde eu seria crítico em relação à dissolução, não é que a dissolução da assembleia não seja um acto legítimo. É um acto que devia ser clarificador da situação política, mas devia ter sido feito noutras circunstâncias, não no momento em que a extrema-direita saía de umas eleições europeias muito reforçada. E o Presidente tinha esse poder de decidir quando dissolver a Assembleia e não com o impulso que a extrema-direita já tinha das europeias de fazer o país ir a eleições. Só mesmo com base naquele cálculo de que a esquerda não seria unida é que Macron pode ter pensado que faria sentido fazer eleições. Eu não entro naquelas análises psicológicas que estão hoje na moda em França, que é que o Macron se quis suicidar. Há uma série de análises que são do domínio psicológico. Eu acho que foi uma opção política, uma opção política feita no timing errado, uma opção política que era, penso eu, inevitável, cedo ou tarde. Porque se não houver uma clarificação política antes, há um problema muito mais grave para a democracia francesa, que é a vitória da Marine Le Pen em 2027. Então a extrema-direita tem a presidência e o Parlamento e aí estamos noutra França, noutra Europa e estamos numa numa situação de extrema gravidade. Travar o caminho da Marine Le Pen para a presidência é um objectivo essencial da política. Agora, para fazê-lo, tem que se fazer de forma que, de facto, trava o caminho. Porque mesmo que o partido da Marine Le Pen tenha a maioria absoluta, a coabitação não vai desgastar o partido da Marine Le Pen, na minha opinião, porque eles vão passar os três anos e tal do governo a dizer que não podem governar e não podem fazer aquilo que querem, porque o Presidente não deixa, porque o Tribunal Constitucional não deixa, porque não podem fazer referendos que alterem a Constituição e que todas as suas propostas, algumas delas extremamente perigosas, como retirar direitos aos franceses com dupla nacionalidade, todas essas propostas não avançam porque são bloqueadas pelo Tribunal Constitucional e que é preciso fazer um referendo e só podem fazê-lo se tiverem a presidência. Portanto, será extremamente perigoso.
RFI: Entretanto, esta semana, o chanceler alemão expressou os seus receios relativamente ao desfecho destas eleições, que têm implicações também para a Europa.
Álvaro Vasconcelos: Sem dúvida. E aí estamos num capítulo em que, com todas as críticas que podemos fazer e devemos fazer, à incapacidade que o Macron teve de unir a sociedade francesa e de, apesar de ele ter tido que enfrentar a crise do covid, que foi extremamente difícil, a crises dos "coletes amarelos" etc... o balanço do ponto de vista interno é claramente negativo, porque senão também nós teríamos uma situação em que estamos. Mas ao mesmo tempo, e no domínio europeu, a França foi um país extremamente importante nestes anos. Macron, desde o discurso da Sorbonne, tem uma visão para a Europa, visão que faltava aos outros Estados-Membros. Foi muito importante para o plano de recuperação e resiliência a seguir ao covid. A Europa construiu-se e tem-se construído desde a sua fundação no eixo franco-alemão. Ora, se a França for controlada pela extrema-direita, só será totalmente controlada se essa tragédia acontecer em 2027. Mas com um governo de extrema-direita, a dinâmica europeia da França e a capacidade da França de influenciar a política europeia será muito diminuta. O eixo franco-alemão será muito mais frágil e temos que pensar que o chanceler alemão também saiu enfraquecido das eleições europeias, para tornar a questão mais complicada. O partido da extrema-direita foi o segundo partido mais votado, os partidos da coligação ficaram todos atrás quer da CDU, quer da extrema-direita. E quando se olha para os Landers de Leste -é um susto- a extrema-direita é dominante nos landers da antiga Alemanha do Leste. Depois, há a Itália. O terceiro maior país europeu tem um governo de extrema-direita. Portanto, se tiver um governo de extrema-direita em França e uma Itália dominada pela extrema-direita e uma Alemanha enfraquecida, teremos um problema gravíssimo para a Europa. Ou seja, eu diria que o chanceler alemão não está preocupado apenas com a situação francesa. Deve estar preocupado com a sua própria situação, com o peso da Meloni na Itália, e espero que ele tenha o mesmo nível de preocupação que eu tenho. E, evidentemente, com a situação francesa. Embora no domínio da coabitação, o Presidente francês continuará a ter muito peso nas questões europeias, mas muito enfraquecido.