O Mundo Agora

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By RFI Brasil
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  • Espanha e Argentina recolocam o racismo no centro do debate no futebol

    Entre Espanha e Argentina, o futebol mostrou, mais uma vez, que nunca se separa da política. As acusações de racismo contra os dois países não devem deixar esquecer que o esporte deve ser também um espaço de resistência.

    Thomás Zicman de Barros, analista político

    Apesar de só ter marcado no final da prorrogação, não há dúvida de que a Espanha dominou a final da Copa do Mundo contra a Argentina. Muita gente no Brasil comemorou a derrota dos nossos vizinhos.

    Para além da rivalidade e do futebol ruim apresentado pela alviceleste, muitos justificavam a torcida por motivos políticos. Como disse antes mesmo do início do torneio, política e futebol são inseparáveis. Para alguns, torcer pela Argentina significaria legitimar o racismo que marca o país. Houve até quem transformasse essa escolha numa forma conveniente de expiar o racismo brasileiro, apontando o dedo para os outros.

    A Argentina convive, sim, com um grave problema de racismo. Os episódios se repetem nas arquibancadas, nas redes sociais e, por vezes, entre os próprios jogadores. O silêncio de muitos de seus principais atletas diante desse fenômeno também é eloquente. Como se diz hoje, não basta não ser racista: é preciso ser antirracista.

    Neste aspecto, porém, a Espanha também leva cartão vermelho. Trata-se do país onde Vini Jr. foi alvo de uma escancarada campanha racista, que no entanto tentaram apagar. Até mesmo Javier Tebas, presidente da La Liga, em vez de enfrentar o racismo que se abatia contra o jogador, insinuou que era Vinicius que provocava as torcidas.

    Fenômeno atravessa séculos

    O racismo espanhol e argentino vem de longa data. A Espanha foi uma das grandes potências coloniais da era moderna. Ainda que tenha perdido esse protagonismo ao longo do século XX, enfrentando décadas de decadência, conservou por muito tempo uma imagem de si mesma como centro civilizador.

    A Argentina percorreu uma história diferente, mas chegou a um lugar parecido. Desde o século XIX, parte das elites de Buenos Aires procurou apresentar o país como uma espécie de Europa transplantada para a América do Sul. Domingo Faustino Sarmiento, intelectual que viria a ser presidente do país, resumiu esse projeto na fórmula que atravessou gerações: "civilização ou barbárie". A civilização era a Europa. A barbárie eram os povos indígenas, os mestiços, os gaúchos, todos aqueles que não cabiam no ideal de uma nação branca e europeia.

    Mas há algo curioso nessa frase. Se Sarmiento precisou opor civilização e barbárie é porque a chamada “barbárie” não branca existia e resistia. E isso vale para os dois finalistas desta Copa do Mundo.

    A Espanha nunca foi apenas Madri. É, na prática, uma comunidade plurinacional, onde catalães, bascos, galegos e tantos outros disputam há séculos diferentes maneiras de entender o próprio país. Foi também nessas periferias que se organizaram algumas das resistências mais duradouras ao franquismo. E a Espanha do século XXI tampouco é a Espanha sonhada pelos nacionalistas. É um país profundamente transformado pela imigração. Basta olhar para Lamine Yamal, prodígio da seleção espanhola, para perceber isso. Ele é o filho de imigrantes que mostra que a Espanha real é muito mais diversa do que o imaginário construído pelos supremacistas.

    Algo parecido se vê na Argentina. Por trás da fantasia de uma nação exclusivamente europeia sempre existiu outro país: indígena, mestiço, popular. A Argentina dos chamados cabecitas negras, mobilizados pelo peronismo contra as elites portenhas. Uma Argentina que nunca aceitou desaparecer.

    Maradona: a Argentina que resiste

    Maradona talvez tenha sido seu símbolo mais poderoso. Reivindicava sua origem guarani, fazia questão de afirmar sua identidade latino-americana, abraçava causas anti-imperialistas quando isso podia custar muito caro. Era, talvez sem o dizer, a revanche daquela Argentina que Sarmiento havia chamado de “barbárie”.

    É curioso notar que os jogadores argentinos de hoje, tão omissos quando o assunto é racismo, tenham encontrado tanta convicção para defender a soberania argentina sobre as Malvinas. Depois da vitória sobre a Inglaterra, exibiram uma faixa reafirmando a reivindicação do arquipélago. O gesto lembrava algo que Hannah Arendt observou ao analisar o imperialismo moderno: as hierarquias raciais e a lógica imperial nasceram da mesma visão de mundo. Não é possível combater uma e ignorar completamente a outra.

    Nada disso transforma a Argentina em exemplo de antirracismo. Nem absolve a Espanha de sua dificuldade em enfrentar o preconceito arraigado. Agora, se política e futebol são inseparáveis, é preciso celebrar os momentos de resistência. O futebol continuará sendo um campo de disputa. Que seja também um espaço de luta antirracista.

    6 min
  • Copa de 2026 revela que a América do Norte deixou de funcionar como bloco previsível

    A Copa de 2026 carrega uma coincidência geográfica que ninguém na Fifa planejou e que, ainda assim, diz muito sobre o momento da América do Norte. O torneio está sendo disputado exatamente sobre o mapa do único tratado comercial que costura Estados Unidos, México e Canadá, o acordo que substituiu o antigo Nafta, e acontece justamente quando esse arranjo passa pela revisão mais profunda desde que foi assinado.

    Thiago de Aragão, da RFI

    O torcedor que cruzar de San Diego para Tijuana, ou de Detroit para Toronto, estará atravessando a fronteira interna de um bloco econômico que segue formalmente de pé, mas cuja lógica de integração já não se sustenta da mesma maneira na prática.

    Vale começar pelo que o próprio evento pressupõe, porque é nele que a tensão aparece com mais clareza. Uma Copa repartida entre três países só funciona se a circulação entre eles for fluida, já que seleções, torcedores, equipes de transmissão e equipamento precisam transitar entre as cidades-sede como se as três jurisdições formassem um território contínuo. A premissa do megaevento é a integração, e é precisamente essa premissa que a política comercial e migratória do principal anfitrião vem relativizando ao longo do último ano, à medida que tarifas e controles de fronteira reentram no vocabulário das relações regionais.

    A dimensão histórica torna o contraste ainda mais interessante, e poucos se lembram dela. Em 11 de março de 1983, quando a Colômbia desistiu de sediar a Copa de 1986 alegando dificuldades financeiras, foram exatamente três países que se apresentaram para assumir a vaga: México, Estados Unidos e Canadá, com o México escolhido em 20 de maio daquele ano. 

    Grau de confiabilidade

    Os mesmos três protagonistas que em 1983 competiam entre si por um torneio dividem agora a organização de outro, o que sugere que a vizinhança norte-americana é uma constante de longa duração, enquanto o que efetivamente oscila, de uma década para outra, é o grau de confiança e de previsibilidade que sustenta a cooperação entre eles.

    O quadro atual ilustra bem essa oscilação. Ao longo do último ano, as travessias terrestres entre os três países passaram a operar com triagem biométrica e tecnologia de comparação facial funcionando no limite da capacidade nos principais portos de entrada, o que revela um anfitrião que, no mesmo gesto, abre as portas para o maior espetáculo esportivo do planeta e reforça o escrutínio sobre quem circula dentro dele. A leitura analítica que interessa não é moral, e sim estrutural: o evento exige fluidez, ao passo que a política regional caminha na direção do filtro, e essa divergência entre o que o calendário esportivo pede e o que a agenda econômica oferece é o dado central a observar.

    A contradição que merece ser nomeada, porque é dela que decorre tudo o mais, está na própria natureza do tratado que une os anfitriões. O acordo nasceu para permitir que mercadorias e pessoas circulassem com o mínimo de fricção, e a revisão tarifária em curso opera em sentido contrário a essa vocação original, de modo que a Copa, ao exigir circulação intensa entre as três jurisdições, acaba expondo na prática a distância entre o discurso da integração e a realidade da fragmentação. Os três países demonstram que conseguem coordenar a logística do maior evento esportivo do mundo, e demonstram, simultaneamente, que coordenar a manutenção do tratado que deveria uni-los é tarefa de outra ordem de dificuldade.

    Para o México, a posição é particularmente delicada, na medida em que o país é coanfitrião e, ao mesmo tempo, o alvo mais direto tanto da pressão tarifária quanto do endurecimento da retórica de fronteira, o que produz a imagem de uma nação que recebe jogos em três de suas cidades enquanto vê seus cidadãos submetidos a controles reforçados para assistir às partidas do outro lado da linha. 

    Para o Canadá, o desconforto é menos visível, porém igualmente concreto, já que Toronto e Vancouver sediam jogos ao mesmo tempo em que Ottawa absorve tarifas e processa uma retórica de Washington que oscila entre a parceria e a rivalidade, convivendo com a tarefa de organizar em conjunto um torneio com o vizinho de quem depende e do qual, ao mesmo tempo, busca se proteger.

    É nesse ponto que a análise interessa diretamente a quem investe e observa a região de fora, e é também onde o Brasil entra. O que a Copa de 2026 revela, para o capital, é que a América do Norte deixou de funcionar como o bloco previsível que o investidor leu durante três décadas, aquele espaço econômico integrado de regras estáveis, cadeia produtiva costurada e fronteira funcional, e passou a operar sob uma camada de aparente continuidade institucional que esconde uma dinâmica real de desconfiança, tarifa e controle. 

    A diferença é decisiva para quem aloca recursos, porque um bloco genuinamente integrado se planeja com horizonte de uma década, enquanto um bloco que oscila entre cooperação e atrito precisa ser navegado trimestre a trimestre, com prêmios de risco e horizontes de decisão inteiramente distintos.

    Daí a lição que o Brasil pode extrair, e que tem valor estratégico evidente. O país que aposta na previsibilidade da relação com os Estados Unidos, seja em comércio, em minerais críticos ou em cooperação de segurança, precisa incorporar à sua análise o fato de que mesmo os sócios formais do USMCA, vinculados por um tratado em vigor, estão sujeitos a revisões tarifárias e a controles de fronteira mais rígidos a depender do ciclo político de Washington. 

    Se a estabilidade da regra oscila até para quem assinou o acordo, é razoável que o Brasil, que sequer dispõe de um tratado de livre comércio com os Estados Unidos, calibre suas expectativas e trate qualquer entendimento bilateral como uma variável sensível ao calendário político americano, e não como um dado permanente sobre o qual se possa planejar a longo prazo.

    Mensagem geopolítica 

    Essa é, no fundo, a mensagem geopolítica que a Copa de 2026 oferece a quem souber ler além do placar. A integração regional ganhou um caráter mais cerimonial do que estrutural, o tratado funciona hoje tanto como moldura simbólica quanto como instrumento operante, e o país que organiza o evento mais universal do mundo o faz num momento em que a previsibilidade das próprias regras regionais se tornou ela mesma objeto de negociação.

     A imagem que fica não exige estádio para ser compreendida, porque três países se uniram para sediar a maior Copa da história sobre o mapa de um tratado que atravessa sua revisão mais incerta, e o desafio analítico, para o Brasil e para qualquer observador externo, está em medir qual das duas forças prevalece no médio prazo, a que pede a fronteira aberta do torneio ou a que reintroduz o filtro, porque é dessa medida que dependerá tanto o rumo da América do Norte quanto o peso real que se deve atribuir às promessas que dela vierem.

    5 min
  • O falso dilema da 'escolha difícil' na eleição presidencial francesa de 2027

    Um possível duelo entre extrema-direita e esquerda radical nas eleições de 2027 reacende o debate sobre normalização do lepenismo e falsas equivalências.

    Thomás Zicman de Barros, analista político

    Falta menos de um ano para a eleição presidencial francesa de 2027, e o tema ocupa cada vez mais o noticiário do país. O curioso é que, apesar disso, ninguém sabe ainda exatamente quem serão os principais candidatos. Nesse mar de incertezas, uma hipótese aparece cada vez mais nas conversas políticas: um segundo turno entre o Rassemblement National (Reunião Nacional), partido de extrema direita de Marine Le Pen, e Jean-Luc Mélenchon, líder da esquerda radical francesa.

    A primeira grande incógnita está justamente na extrema direita. Nesta terça-feira, 7 de julho, Marine Le Pen aguarda uma decisão da Justiça que pode definir se ela poderá disputar a presidência pela quarta vez. Acusada de desvio de recursos públicos no caso dos assistentes parlamentares fantasma no Parlamento Europeu, ela foi condenada à inelegibilidade em primeira instância e corre o risco de ver a sentença confirmada.

    Essa incerteza, porém, é apenas parcial. Um possível impedimento de Le Pen não reduziria necessariamente a força do seu partido nem seu favoritismo para chegar ao segundo turno. A própria Le Pen já indicou que, se ficar fora da disputa, será substituída por Jordan Bardella, o jovem presidente do partido. É verdade que, apesar de carismático e popular nas redes sociais, Bardella tem menos experiência e robustez política do que Le Pen, há quem diga que, se fosse eleito presidente, Marine seria sua “tutora”. Mas o fato é que nunca antes a extrema direita francesa começou uma corrida presidencial tão forte nas pesquisas, independentemente do candidato.

    A questão é que outro político que tem aparecido bem nas sondagens surge justamente do lado oposto do espectro político: Jean-Luc Mélenchon. O líder da esquerda dita "radical" já aparece em condições de disputar uma vaga no segundo turno – uma hipótese reforçada pelo fato de que, historicamente, suas candidaturas acabaram sendo subestimadas pelas pesquisas.

    Esquerda dividida

    O resto da esquerda francesa continua dividida. Socialistas, ecologistas e comunistas discutem alternativas. Muitos gostariam de superar Mélenchon. Mas, hoje, ele é o único candidato claramente colocado nesse campo político. Já iniciou sua campanha com um comício reunindo dezenas de milhares de pessoas em Saint-Denis, cidade da periferia de Paris governada por Baly Bagayoko, popular prefeito de seu partido. Mélenchon tem uma militância organizada e um programa definido que tem pautado boa parte do debate à esquerda. Mesmo adversários reconhecem a força de uma campanha até agora sem falhas.

    Nesse cenário, enquanto o campo macronista tenta encontrar um sucessor – muitas vezes com dificuldade para defender o próprio legado de dez anos de Emmanuel Macron –, cresce a possibilidade que muitos no mainstream dizem temer: uma disputa direta entre a extrema direita e Mélenchon. E começa a surgir na França um discurso que os brasileiros infelizmente conhecem bem: a ideia de que estaríamos diante de uma “escolha muito difícil”.

    A frase parece apenas expressar uma rejeição aos "extremos". E é verdade que tanto o partido de Le Pen quanto o movimento de Mélenchon se apresentam como “antissistema” e costumam ser classificados como “populistas”. Contudo, a força desse discurso, que constrói uma simetria entre os dois e apresenta a eleição como uma escolha entre polos igualmente perigosos, revela uma transformação preocupante da política francesa.

    Há dois movimentos acontecendo ao mesmo tempo.

    De um lado, o Rassemblement National vive há mais de quinze anos um processo de normalização. Desde que assumiu o partido fundado por seu pai, Marine Le Pen tentou apagar a imagem extremista da antiga Frente Nacional. Mudou o nome, suavizou o discurso e buscou apresentar a extrema direita como uma alternativa comum de governo. Mesmo o antissemitismo histórico do partido foi escondido debaixo do tapete, com a instrumentalização do apoio a Israel. Como já indiquei aqui no passado, essa normalização também acompanha uma transformação do ambiente midiático francês, cada vez mais dominado pelos temas e pelo vocabulário da própria extrema direita, sobretudo em torno da imigração, da identidade nacional e da segurança.

    Do outro lado, Mélenchon passa pelo movimento inverso: uma crescente demonização. Seu estilo confrontacional, sua estratégia política e algumas de suas posições são criticadas inclusive dentro da esquerda.

    Mas o problema começa quando essas críticas, e a falsa equivalência que produzem, nos fazem perder de vista o abismo que separa Mélenchon da extrema direita.

    Falsa equivalência

    Uma coisa é contestar instituições defendendo mais redistribuição econômica, participação popular e reconhecimento de desigualdades historicamente ignoradas. Outra é construir um projeto político baseado na oposição entre nacionais e estrangeiros e na ideia de que parte da população representa uma ameaça à identidade do país.

    Aliás, parte do incômodo provocado por Mélenchon vem justamente do fato de ele tocar em temas que a França muitas vezes prefere evitar: desigualdades sociais profundas, discriminações e racismo estrutural. Já a extrema direita responde frequentemente a essas tensões reforçando as próprias divisões que as produzem.

    A França já foi vista como um exemplo a ser seguido. Quando a extrema direita estava às portas do poder no Brasil, lembrava-se que, nas três vezes em que ela chegou ao segundo turno na França – em 2002, 2017 e 2022 – houve a formação de uma “frente republicana” para barrá-la.

    Mas há uma diferença importante: nessas três ocasiões, a extrema direita enfrentava candidatos vindos da direita ou do centro, Jacques Chirac em 2002 e Emmanuel Macron nas duas últimas eleições. O que se vê agora é como, quando a alternativa à extrema direita surge da esquerda, sobretudo em um ambiente de normalização de ideias reacionárias, crescem as hesitações, os discursos sobre “escolhas muito difíceis” e até aqueles que defendem que a frente republicana deveria ser feita contra a esquerda – apresentada como o verdadeiro perigo.

    Ainda faltam vários meses para as eleições francesas, e o espírito resistente deste país ainda pode despertar. Mas, diante da degradação do debate público, temos motivos para nos preocupar.

    7 min
  • Copa 2026 expõe fissuras do tratado comercial entre EUA, México e Canadá

    A Copa de 2026 carrega uma coincidência geográfica que ninguém na FIFA planejou e que, ainda assim, diz muito sobre o momento da América do Norte. O torneio é disputado exatamente sobre o mapa do único tratado comercial que costura Estados Unidos, México e Canadá, o acordo que substituiu o antigo Nafta, e acontece justamente quando esse arranjo passa pela revisão mais profunda desde que foi assinado.

    Thiago de Aragão, analista político

    O torcedor que cruzar de San Diego para Tijuana, ou de Detroit para Toronto, estará atravessando a fronteira interna de um bloco econômico que segue formalmente de pé, mas cuja lógica de integração já não se sustenta da mesma maneira na prática.

    Vale começar pelo que o próprio evento pressupõe, porque é nele que a tensão aparece com mais clareza. Uma Copa repartida entre três países só funciona se a circulação entre eles for fluida, já que seleções, torcedores, equipes de transmissão e equipamento precisam transitar entre as cidades-sede como se as três jurisdições formassem um território contínuo. A premissa do megaevento é a integração, e é precisamente essa premissa que a política comercial e migratória do principal anfitrião vem relativizando ao longo do último ano, à medida que tarifas e controles de fronteira retornam ao vocabulário das relações regionais.

    A dimensão histórica torna o contraste ainda mais interessante, e poucos se lembram dela. Em 11 de março de 1983, quando a Colômbia desistiu de sediar a Copa de 1986 alegando dificuldades financeiras, foram exatamente três países que se apresentaram para assumir a vaga: México, Estados Unidos e Canadá, com o México escolhido em 20 de maio daquele ano. Os mesmos três protagonistas que em 1983 competiam entre si por um torneio dividem agora a organização de outro, o que sugere que a vizinhança norte-americana é uma constante de longa duração, enquanto o que efetivamente oscila, de uma década para outra, é o grau de confiança e de previsibilidade que sustenta a cooperação entre eles.

    O quadro atual ilustra bem essa oscilação. Ao longo do último ano, as travessias terrestres entre os três países passaram a operar com triagem biométrica e tecnologia de comparação facial funcionando no limite da capacidade nos principais portos de entrada, o que revela um anfitrião que, no mesmo gesto, abre as portas para o maior espetáculo esportivo do planeta e reforça o escrutínio sobre quem circula dentro dele. A leitura analítica que interessa não é moral, e sim estrutural: o evento exige fluidez, ao passo que a política regional caminha na direção do filtro, e essa divergência entre o que o calendário esportivo pede e o que a agenda econômica oferece é o dado central a observar.

    Vocação original comprometida

    A contradição que merece ser nomeada, porque é dela que decorre tudo o mais, está na própria natureza do tratado que une os anfitriões. O acordo nasceu para permitir que mercadorias e pessoas circulassem com o mínimo de fricção, e a revisão tarifária em curso opera em sentido contrário a essa vocação original, de modo que a Copa, ao exigir circulação intensa entre as três jurisdições, acaba expondo na prática a distância entre o discurso da integração e a realidade da fragmentação. Os três países demonstram que conseguem coordenar a logística do maior evento esportivo do mundo, e demonstram, simultaneamente, que coordenar a manutenção do tratado que deveria uni-los é tarefa de outra ordem de dificuldade.

    Para o México, a posição é particularmente delicada, na medida em que o país é coanfitrião e, ao mesmo tempo, o alvo mais direto tanto da pressão tarifária quanto do endurecimento da retórica de fronteira, o que produz a imagem de uma nação que recebe jogos em três de suas cidades enquanto vê seus cidadãos submetidos a controles reforçados para assistir às partidas do outro lado da linha. Para o Canadá, o desconforto é menos visível, porém igualmente concreto, já que Toronto e Vancouver sediam jogos ao mesmo tempo em que Ottawa absorve tarifas e processa uma retórica de Washington que oscila entre a parceria e a rivalidade, convivendo com a tarefa de organizar em conjunto um torneio com o vizinho de quem depende e do qual, ao mesmo tempo, busca se proteger.

    Controle e desconfiança

    É nesse ponto que a análise interessa diretamente a quem investe e observa a região de fora, e é também onde o Brasil entra. O que a Copa de 2026 revela, para o capital, é que a América do Norte deixou de funcionar como o bloco previsível que o investidor leu durante três décadas, aquele espaço econômico integrado de regras estáveis, cadeia produtiva costurada e fronteira funcional, e passou a operar sob uma camada de aparente continuidade institucional que esconde uma dinâmica real de desconfiança, tarifa e controle. A diferença é decisiva para quem aloca recursos, porque um bloco genuinamente integrado se planeja com horizonte de uma década, enquanto um bloco que oscila entre cooperação e atrito precisa ser navegado trimestre a trimestre, com prêmios de risco e horizontes de decisão inteiramente distintos.

    Daí a lição que o Brasil pode extrair, e que tem valor estratégico evidente. O país que aposta na previsibilidade da relação com os Estados Unidos, seja em comércio, em minerais críticos ou em cooperação de segurança, precisa incorporar à sua análise o fato de que mesmo os sócios formais do USMCA, vinculados por um tratado em vigor, estão sujeitos a revisões tarifárias e a controles de fronteira mais rígidos a depender do ciclo político de Washington. Se a estabilidade da regra oscila até para quem assinou o acordo, é razoável que o Brasil, que sequer dispõe de um tratado de livre comércio com os Estados Unidos, calibre suas expectativas e trate qualquer entendimento bilateral como uma variável sensível ao calendário político americano, e não como um dado permanente sobre o qual se possa planejar a longo prazo.

    Mudança geopolítica

    Essa é, no fundo, a mensagem geopolítica que a Copa de 2026 oferece a quem souber ler além do placar. A integração regional ganhou um caráter mais cerimonial do que estrutural, o tratado funciona hoje tanto como moldura simbólica quanto como instrumento operante, e o país que organiza o evento mais universal do mundo o faz num momento em que a previsibilidade das próprias regras regionais se tornou ela mesma objeto de negociação.

    A imagem que fica não exige estádio para ser compreendida, porque três países se uniram para sediar a maior Copa da história sobre o mapa de um tratado que atravessa sua revisão mais incerta, e o desafio analítico, para o Brasil e para qualquer observador externo, está em medir qual das duas forças prevalece no médio prazo, a que pede a fronteira aberta do torneio ou a que reintroduz o filtro, porque é dessa medida que dependerá tanto o rumo da América do Norte quanto o peso real que se deve atribuir às promessas que dela vierem.

    7 min
  • Como a China trocou a dependência pelo protagonismo estratégico na economia do futuro

    Visto da China, o G7 parecia girar em torno de uma questão: será que as economias mais avançadas do Ocidente podem reduzir sua dependência de Pequim?

    Thomás Zicman de Barros, analista político

    Foi-se o tempo em que os carros chineses pareciam feitos de papelão. Em Xangai, a regra são os modernos veículos elétricos que cruzam silenciosamente as avenidas da cidade. Ao mesmo tempo, milhões de pagamentos são feitos por QR Code e trens de alta velocidade ligam metrópoles distantes em poucas horas. O presente chinês parece, de fato, coisa do futuro.

    Foi dessa China que acompanhei as notícias do G7 – o clube das economias mais avançadas do Ocidente – reunido em Évian, na França. Sim, mesmo estando longe de Paris, onde moro, continuo falando da atualidade francesa. Mas agora a observo pelo olhar chinês.

    Oficialmente, a China não era o tema central do encontro. Mas ela estava presente em quase todas as conversas.

    A principal iniciativa econômica anunciada pelos líderes do G7 foi o reforço da cooperação para reduzir dependências em áreas consideradas estratégicas, especialmente os minerais críticos e as chamadas terras raras, indispensáveis para baterias, carros elétricos, semicondutores e equipamentos militares.

    O comunicado do G7 evitou apontar um alvo. Ainda assim, ninguém teve dúvidas sobre quem estava sendo discutido.

    A China ocupa uma posição dominante em diversas etapas da cadeia de produção desses materiais. Para a Europa, sobretudo, o equilibro não é fácil: diante da administração errática na Washington de Donald Trump, os europeus observam a China, por um lado, como parceiro mais confiável do que os Estados Unidos, mas com o qual se estabelece cada vez mais uma relação de dependência.

    Nos últimos meses, restrições impostas por Pequim às exportações de alguns deles aumentaram a preocupação de governos e empresas ocidentais. O objetivo do G7 é simples: reduzir vulnerabilidades e diminuir a dependência em relação à China.

    Neste imbróglio, a reação de Pequim foi clara. Autoridades chinesas acusaram o G7 de politizar questões econômicas e defenderam seus controles de exportação como uma prática legítima para proteger interesses nacionais.

    O episódio revela uma inversão histórica interessante

    Durante décadas, a ascensão chinesa foi interpretada como consequência de sua integração a uma ordem econômica internacional dominada pelo Ocidente. A rigor, se formos mais atrás na história, a China parecia ocupar uma posição subalterna no arranjo das nações desde as Guerras do Ópio, em meados do século XIX, que inauguraram o chamado Século das Humilhações. Derrotas militares, tratados desiguais e intervenções estrangeiras reduziram drasticamente a autonomia do país diante das potências ocidentais.

    Mesmo nas últimas décadas, a China dependia dos mercados externos, dos investimentos estrangeiros e do acesso às cadeias globais de comércio para sustentar seu desenvolvimento.

    A ironia é observar, em Évian, o que parece ser uma inversão de papéis. As potências que durante muito tempo moldaram as regras da economia internacional discutem hoje como reduzir sua dependência em relação à China. Pequim não substituiu o Ocidente no comando do mundo, mas conquistou uma posição estratégica em setores considerados essenciais para a economia do futuro.

    Observando os carros elétricos que cruzam as ruas chinesas, fica difícil não pensar que essa é uma das questões centrais do nosso tempo. Não apenas quem produz mais ou quem cresce mais, mas quem depende de quem.

    5 min
  • EUA transformam facções em variável de campanha presidencial no Brasil

    Toda medida externa que cai num ano eleitoral deixa de ser o que era. A designação do Primeiro Comando da Capital (PCC) e do Comando Vermelho (CV) como organizações terroristas pelos Estados Unidos nasceu instrumento de segurança e de risco financeiro. Mas a quatro meses da eleição, se transformou em variável de campanha. E o que a torna interessante é que ela rende para os dois lados ao mesmo tempo.

    Thiago de Aragão, analista político

    Antes dos efeitos, um ponto que precisa ficar de pé, porque a leitura preguiçosa já contaminou o debate: a designação não é obra de Flávio Bolsonaro (candidato do Partido Liberal à presidência) nem da família. O Departamento de Estado vinha costurando isso há pelo menos dois anos, dentro de uma lógica própria de Washington, a de jogar a moldura de contraterrorismo sobre o crime organizado latino-americano. O lobby da oposição acelerou e se pendurou ruidosamente num movimento que já corria. Não o criou. Quem troca coincidência de calendário por causa atribui a Brasília um poder de pauta sobre Washington que ela nunca teve.

    Dito isto, a sequência importa. No dia 28 de maio, horas depois de o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, receber Flávio Bolsonaro na Casa Branca, o secretário de Estado norte-americano, Marco Rubio, anunciou a classificação das duas facções. A designação plena entrou em vigor em 5 de junho. O calendário enfia a medida dentro da disputa, e é isso que a torna analiticamente rica.

    Comece pela leitura óbvia. Segurança pública é a maior preocupação do eleitor brasileiro, e é o terreno em que o campo de Flávio Bolsonaro historicamente joga em casa. Pela lógica de campanha, equiparar PCC e CV ao Hamas e ao Estado Islâmico reforça a narrativa de mão firme e ainda projeta um aliado externo poderoso no combate ao crime. Para esse cálculo, a designação é ativo.

    O eleitor não lê uma medida externa só pelo prisma da segurança. Lê, ao mesmo tempo, pelo prisma da soberania. Uma classificação decidida fora do país, sobre facções nacionais, aciona um reflexo antigo, a desconfiança de tutela estrangeira. Para o governo do presidente brasileiro, Luiz Inácio Lula da Silva, isso abre espaço para puxar o discurso de defesa da soberania. Pela mesma medida, pelo mesmo motivo, a designação também é ativo para o outro campo.

    Aqui está o nó. A mesma variável alimenta os dois discursos centrais da eleição. Ordem contra o crime de um lado, soberania nacional do outro. Quem ganha não depende do fato, depende de qual chave de leitura prevalece no eleitor entre hoje e outubro. Disputa de enquadramento, não de dado.

    A partir daí, os desdobramentos se ramificam. Vale mapeá-los com frieza.

    Se a chave da segurança vencer, o tema mantém a eleição no terreno onde a oposição é mais forte, e a cooperação com Washington vira credencial. Se a chave da soberania vencer, o tema escorrega para o terreno onde o governo articula melhor, e a medida vira símbolo de ingerência a ser repelido. Os dois cenários são plausíveis, e a pesquisa de hoje vale pouco para dizer qual prevalece em outubro.

    Lente do bolso pune quem governa

    Há um terceiro desdobramento que costuma passar batido, porque mistura economia com política. A designação não vem sozinha. Vem acompanhada da proposta de tarifa de 25% e da exposição do sistema financeiro brasileiro ao risco de sanção secundária.

    Enquanto esses efeitos forem abstratos, a briga fica no campo simbólico, onde soberania e segurança rendem voto. No instante em que virarem concretos, custo mais alto, atrito bancário, pressão sobre o emprego industrial, o eleitor larga a lente simbólica e pega a lente do bolso. E a lente do bolso, historicamente, pune quem governa, não quem se opõe. Esse vetor corre contra o governo, ainda que a chave da soberania o favoreça no curto prazo.

    Some os vetores. A designação é uma variável de sinal trocado. Ajuda a oposição no eixo segurança, ajuda o governo no eixo soberania, e tende a prejudicar o governo se e quando o custo econômico se materializar. Nenhum dos dois lados controla qual desses efeitos domina, porque o que decide não é a medida. É a ordem em que os impactos chegam ao eleitor.

    E existe um desdobramento que sobrevive à eleição e não escolhe vencedor. Classificar facções brasileiras sob a moldura de contraterrorismo cria um precedente que passa a integrar a relação Brasil-Estados Unidos de forma permanente. Vale para quem sair das urnas em outubro, seja quem for. O candidato que hoje trata a medida como aliada é o mesmo que amanhã, no poder, herda o precedente e o que vem com ele, inclusive o que não previu.

    A conclusão é simples e incômoda para os dois campos. A designação foi incorporada à eleição como se fosse ativo de mão única. Não é. É variável que rende para quem souber enquadrá-la melhor no curto prazo, e que cobra de quem estiver governando quando a conta econômica chegar. Quem a trata como vitória certa, de qualquer lado, está confundindo o efeito que deseja com o efeito que a medida produz. Em ano eleitoral, essa confusão pode sair cara.

    5 min
  • Copa do Mundo de 2026 revela choque entre a integração do futebol e política migratória de Trump

    Entre vistos negados, controles migratórios reforçados e tensões diplomáticas, o Mundial de 2026 expõe o contraste entre a promessa de integração do futebol e a política de fronteiras de Donald Trump.

    Thomás Zicman de Barros, analista político

    Na próxima quinta-feira (11), será dado o pontapé inicial da Copa do Mundo de 2026. Como todo brasileiro, parto do pressuposto de que o hexacampeonato é apenas uma questão de tempo. Mas não é por isso que menciono o torneio. Alguém pode perguntar, de fato, o que uma competição de futebol está fazendo numa crônica de política internacional. A história, porém, não deixa mentir: competições esportivas são permeadas por política. Das Olimpíadas de Berlim em 1936 ao boicote ocidental aos Jogos de Moscou em 1980, passando pelas ditaduras sul-americanas que buscaram legitimidade em grandes torneios, o esporte sempre refletiu disputas que o ultrapassam.

    Poucas Copas ilustram tão bem essa realidade quanto a que começa agora. Pela primeira vez, o torneio será compartilhado entre três países da América do Norte. O primeiro jogo será na Cidade do México, haverá partidas em Vancouver e Toronto, no Canadá, e o maior número de duelos – inclusive a final, nos arredores de Nova York – acontecerá nos Estados Unidos governados por Donald Trump.

    A ideia de dividir a Copa entre diferentes países se explica, em parte, pelo tamanho do novo formato da competição, assim como pela perda de atratividade de sediar grandes eventos esportivos que implicam custos elevados e frequentemente provocam protestos – como se viu inclusive no México nesta edição. Mas havia também o desejo de superar fronteiras. O lema da candidatura conjunta era “United 2026”. Muito além dos “United States”, a proposta era simbolizar a integração entre os povos.

    Ocorre que esse discurso entra cada vez mais em choque com a retórica anti-imigrante do presidente americano. Desde sua primeira campanha republicana, há dez anos, Trump tem atacado imigrantes latino-americanos, e mexicanos em particular. Segundo ele, seriam “bad hombres”, responsáveis por trazer drogas, crime e violência para os Estados Unidos. “Alguns poucos, eu acredito, devem ser boas pessoas”, dizia então o candidato.

    Seu grande mote de campanha era construir um inexpugnável muro na fronteira mexicana, alimentando fantasias de uma supremacia branca americana supostamente ameaçada pela substituição demográfica por um povo que fala espanhol e que, por coincidência, também gosta de futebol.

    Restrição à imigração

    De volta ao poder, Trump tem adotado políticas ainda mais restritivas em relação à imigração. E não apenas contra mexicanos. Vistos têm sido negados, e muitos viajantes veem sua entrada barrada pelos serviços de imigração com base em critérios frequentemente arbitrários. Estrangeiros nos Estados Unidos vivem preocupados com o fortalecimento do ICE, a temida polícia migratória, que por vezes detém e deporta até imigrantes em situação regular.

    Houve queda no número de viajantes para o país, numa combinação entre dificuldades para obter autorização de entrada e a simples desistência de visitantes diante dos inconvenientes.

    Como receber o mundo inteiro para uma Copa do Mundo em um ambiente assim? Os Estados Unidos criaram o chamado FIFA PASS, que prometia priorizar entrevistas para concessão de vistos a torcedores com ingressos. Ao mesmo tempo, porém, a própria administração americana deixou claro que não hesitaria em vetar rigorosamente visitantes considerados indesejáveis. Em especial, torcedores de países sujeitos a restrições, como Haiti, Irã, Senegal e Costa do Marfim, têm enfrentado obstáculos.

    Em tese, haveria exceções para atletas e delegações. Mas mesmo aqui os incidentes se multiplicam. A seleção do Irã só obteve seus vistos na última semana e decidiu realizar sua concentração no México para evitar mais dores de cabeça. No último fim de semana, o atacante da seleção do Iraque foi detido e interrogado por sete horas no aeroporto de Chicago.

    Enquanto isso, a FIFA segue acusada de complacência com Trump, cujo ego o presidente da entidade, Gianni Infantino, parece empenhado em massagear. Um exemplo foi a criação do Prêmio FIFA da Paz, feito sob medida para agradar o presidente americano, primeiro e único agraciado com tão distinta honraria.

    Como se vê, futebol e política são inseparáveis. E as próximas semanas prometem deixar claro o contraste entre um evento que prometia união e integração e um governo que transformou o controle das fronteiras na sua principal bandeira.

    5 min
  • Da soja ao petróleo: como viramos o plano B de Pequim e por que isso deveria nos deixar em alerta

    Existe um tipo de elogio que devia acender o sinal amarelo de quem o recebe. O Brasil acaba de ganhar um desses. Em abril, segundo o levantamento do PRC Leader sobre a estratégia chinesa para o sul global, o país virou o segundo maior fornecedor de petróleo da China. Não por mérito comercial nosso. Foi porque o Estreito de Ormuz estava bloqueado, o Golfo travado, e Pequim precisava de barril rápido vindo de um lugar que não dependesse do humor de Washington, nem de Moscou.

    Thiago de Aragão, analista político

    Some a soja a isso. Desde que a China reativou o boicote aos grãos americanos, ela realocou pedidos para o Brasil e para o resto da América Latina e fez o trabalho burocrático fino de garantir que nossos exportadores cumprissem as exigências fitossanitárias para vender em escala.

    O resultado é um Brasil que, em 2026, acumulou duas funções ao mesmo tempo: o posto de gasolina e o celeiro de emergência da segunda maior economia do planeta.

    Para o investidor, o número de curto prazo seduz. A demanda chinesa firme sustenta o preço das commodities, o superávit comercial e o fluxo que mantém o real ancorado. Petrobras, as graníferas, o agronegócio do Centro-Oeste, todos colhem o prêmio de serem o fornecedor que apareceu quando o resto do mundo fechou a porta.

    O problema mora numa palavra: reposição

    A China não comprou petróleo brasileiro em abril porque escolheu o Brasil como parceiro estratégico de longo prazo. Comprou porque o fornecedor preferido estava indisponível.

    Reposição é o que se usa enquanto a peça original não chega. No dia em que Ormuz reabrir, e Ormuz sempre reabre, a pergunta é se o barril brasileiro continua na cesta de compras de Pequim no mesmo volume ou se volta a ser a segunda opção que era antes da crise.

    A Venezuela já viveu esse filme, e convém olhar para o final dele. Durante a Segunda Guerra, Caracas se tornou o grande supridor de petróleo dos Aliados, a ponto de expandir a produção em 42% só entre 1943 e 1944 para cobrir o que a guerra exigia. Parecia consagração. Durou enquanto durou a escassez alheia.

    Quando o petróleo do Oriente Médio entrou no mercado em peso na metade dos anos 1950 e os Estados Unidos impuseram cotas de importação, a Venezuela viu o preço desabar e descobriu que tinha construído um país inteiro sobre uma demanda que era circunstancial. A resposta veio em 1960, quando Juan Pablo Pérez Alfonzo ajudou a fundar a Opep justamente para não depender mais da bondade de comprador nenhum. O fornecedor de emergência tem poder de barganha exatamente enquanto dura a emergência. Depois, ele negocia do chão.

    Aqui está o ponto que Brasília celebra e não examina. Ser indispensável numa emergência alheia não é a mesma coisa que ser estratégico. O fornecedor de ocasião manda no preço enquanto o fogo está aceso. Apagado o fogo, sobra a capacidade que ele instalou, a logística que ele montou e a dependência fiscal que ele criou em cima de um pedido que nunca foi para ficar.

    E a dependência é a parte que ninguém quer discutir.

    Quanto mais o orçamento da Petrobras, a balança comercial e a arrecadação passam a contar com o comprador chinês, menos margem o Brasil tem para dizer não a Pequim em qualquer outra mesa, seja 5G, seja porto, seja a próxima licitação de metrô que uma estatal chinesa vai ganhar, como ganhou a Linha 1 de Bogotá.

    O comprador que te salva numa crise é o mesmo que apresenta a fatura política depois.

    Repare no padrão, porque a estatal chinesa não improvisa. Ela compra petróleo quando precisa de petróleo, compra soja quando precisa contornar Washington e financia infraestrutura quando precisa de presença. Cada movimento chega ao lado brasileiro com cara de oportunidade isolada. Vistos juntos, formam uma arquitetura de dependência que o Brasil ajuda a erguer, um contrato de cada vez.

    O governo Lula trata a aproximação com a China como contrapeso aos Estados Unidos, e há lógica nisso enquanto Trump mantém a tarifa de 40% e a investigação da Seção 301 sobre a mesa. Mas contrapeso pressupõe que você consiga equilibrar os dois lados. Quem vira peça de reposição de um deles perde exatamente o equilíbrio que dizia procurar.

    Fica então a pergunta para quem olha o Brasil de fora com o cheque na mão. Você está comprando um país que diversificou seus compradores ou um país que está trocando uma dependência por outra e chamando isso de soberania? A China sabe a diferença. Falta saber se Brasília também sabe.

    6 min
  • Cuba, Estados Unidos e os 'Estados delinquentes

    Ao chamar Cuba de “Estado delinquente”, Donald Trump convida o mundo a desconstruir essa expressão – e a refletir também sobre a delinquência na própria ação dos Estados Unidos.

    Thomás Zicman de Barros, cientista político

    Na última quarta-feira, 20 de maio, as relações entre Cuba e os Estados Unidos voltaram aos holofotes. Donald Trump recorreu a uma expressão antiga, mas que continua funcionando como uma espécie de senha moral da política internacional: “Estado marginal”, “Estado bandido”, “Estado delinquente”. Em inglês, se diz rogue state. A fórmula sugere uma oposição binária: existiriam países civilizados, responsáveis, defensores da ordem mundial, e outros que viveriam fora dela, como criminosos internacionais. Cuba, segundo Trump, pertenceria ao segundo grupo.

    A expressão foi mobilizada pelo presidente americano para justificar o indiciamento, pela Justiça dos Estados Unidos, de Raúl Castro. O antigo revolucionário cubano, hoje nonagenário, governou a ilha socialista entre 2008 e 2018 e é irmão de Fidel Castro, líder histórico da revolução cubana. A acusação soa estranha por retomar o já esquecido caso de dois pequenos aviões de ativistas anticastristas abatidos no Caribe há quase trinta anos. O episódio torna-se mais preocupante por ocorrer em meio à mobilização de embarcações de guerra americanas na região. Cresce, assim, o temor de que Cuba possa se tornar alvo de uma escalada semelhante às intervenções recentes na Venezuela e aos bombardeios contra o Irã.

    “Os Estados Unidos não tolerarão que um Estado delinquente abrigue operações estrangeiras de caráter militar, de inteligência e terrorista a apenas 150 quilômetros do território americano”, declarou o presidente americano. Cuba volta, assim, ao velho repertório geopolítico dos “Estados delinquentes”.

    À primeira vista, a frase pode parecer banal. Afinal, regimes autoritários existem. Ditaduras existem. Estados repressivos existem. Mas a questão mais interessante talvez seja: quem possui o poder de decidir quem é um “Estado delinquente”?

    Foi exatamente essa a questão colocada pelo filósofo francês Jacques Derrida, conhecido sobretudo como o grande pensador da desconstrução. Em um livro menos conhecido do grande público, Voyous, publicado em 2003, logo após o 11 de Setembro e o início da “guerra ao terror”, Derrida interrogava justamente aquilo que a ideia de “Estado delinquente” apresenta como evidente. Ele desconfiava profundamente de expressões que reproduzem um simplismo moral. E poucas lhe pareciam tão suspeitas quanto rogue state.

    Segundo Derrida, o problema não era apenas a existência de Estados violentos ou autoritários. A questão era outra: quem tem o poder de nomear os outros como “delinquentes”?

    Ao observar a política internacional, Derrida percebia que as grandes potências tendiam a se colocar, ao mesmo tempo, dentro e acima da lei internacional. Por um lado, apresentavam-se como guardiãs da ordem global, com autoridade para denunciar adversários como “delinquentes”, como um policial que dá voz de prisão ou um juiz que pronuncia uma sentença. Por outro, reivindicavam para si o direito de suspender essa mesma ordem quando considerassem necessário.

    É justamente aí que Derrida identifica a lógica do “Estado delinquente”. Ele nos convida a reparar na delinquência precisamente daquele Estado que, pela força, se coloca no direito de nomear os outros como delinquentes.

    Após o 11 de Setembro, Derrida via os Estados Unidos como essa potência em delinquência. O filósofo morreu em 2004 e não viveu para ver Trump dar nova atualidade às suas análises. A captura de Nicolás Maduro em janeiro deste ano, sob a acusação bastante oca de comandar um esquema narcoterrorista, e os ataques recentes realizados em coordenação com Israel contra o Irã, à revelia das Nações Unidas e também a partir de acusações de terrorismo, ilustram como Trump e seus aliados transformam a linguagem da luta contra os “Estados delinquentes” em justificativa para contornar a própria ordem internacional que afirmam defender.

    No caso de Cuba, há pouca dúvida de que a ilha rebelde enfrenta uma série de desafios. Os avanços em direitos sociais como saúde e educação não apagam a existência de presos políticos, mesmo que coexista um sistema local de assembleias e conselhos que em algum grau oxigenam a gestão da ilha.

    A crise econômica também se arrasta. Ela decorre em parte das limitações do próprio modelo cubano e do governo de Miguel Díaz-Canel. Mas o peso de décadas de embargo americano tampouco pode ser ignorado. Trump resolveu apertar o torniquete, levando ao desabastecimento total de combustível da ilha – outra vez, contra o direito internacional.

    Derrida nunca afirmou que todos os Estados são equivalentes, nem que democracias e ditaduras funcionam da mesma forma. Ele perguntava o que acontece quando uma potência – e, no caso americano, podemos falar de uma potência em vias de autocratização – passa a ocupar ao mesmo tempo o papel de juiz, polícia e carrasco global.

    O sistema internacional foi moldado para acomodar os interesses das grandes potências, e dos Estados Unidos em particular. Ao longo do último século, a delinquência dessas potências nunca deixou de se manifestar. Mas, com o enfraquecimento dos fóruns multilaterais, vemos avançar cada vez mais uma lógica em que cada país proclama sua própria lei internacional – e decide sozinho quando ela deve deixar de valer.

    5 min
  • Acordo sino‑americano pressiona soja brasileira e expõe falta de estratégia

    Quando Donald Trump pousou em Pequim, na última quinta-feira (14), a coreografia já estava pronta nos mínimos detalhes. Os roseirais de Zhongnanhai foram escolhidos a dedo — aqueles mesmos canteiros que pertenceram à liderança imperial e depois ao regime comunista. Ali o presidente americano caminhou ao lado do líder chinês, Xi Jinping, em um passeio que mais parecia ensaio de filme do que uma reunião entre os dois homens mais poderosos do planeta.

    Thiago de Aragão, analista político

    Houve almoço sem agenda divulgada, sementes oferecidas a Trump para que florescessem no jardim da Casa Branca, e a frase de Xi sobre uma "nova relação bilateral de estabilidade estratégica construtiva" recebida do outro lado com a palavra amigo.

    Quem viu aquilo e achou que era só teatro perdeu o que importava, porque diplomacia de superpotência é sempre um pouco teatro e o que vale mesmo é ler o roteiro nas entrelinhas. E o roteiro, para o Brasil, é desconfortável.

    Faz dois anos que o agronegócio brasileiro vive uma das melhores janelas da sua história recente, e essa janela se abriu quase por acidente. A guerra tarifária aberta por Trump no segundo mandato fechou o mercado chinês para a soja americana, e nós entramos nesse vácuo com a velocidade de quem encontra a porta destrancada e simplesmente passa.

    Em 2016, antes da primeira guerra comercial, os Estados Unidos forneciam 41% da soja consumida pela China. No ano passado, esse número despencou para 15%.

    A diferença, em larga medida, é brasileira: foram quase US$ 37 bilhões em soja exportada em 2025, com mais de 60% desembarcando em portos chineses. A tentação imediata diante de números desse tamanho é interpretá-los como conquista, como se o Brasil tivesse finalmente descoberto uma vocação que sempre esteve ali esperando, como se houvesse uma estratégia coordenada por trás de tudo isso. Não há, e talvez seja melhor falar isso em voz alta antes que mais alguém suba em um palco para fazer discurso bonito sobre o assunto.

    De Iowa ao Mato Grosso

    O que aconteceu não foi vitória brasileira, foi penalização americana, e essa distinção parece pedante até o momento em que deixa de ser. O produtor de Iowa apanhou da política tarifária do seu próprio presidente e o produtor de Mato Grosso colheu o que não plantou. A vitória construída pertence a quem construiu, enquanto janela aberta pela imprudência alheia fecha no instante em que a imprudência cessa.

    Foi exatamente isso que saiu de Pequim na semana passada, com o acordo que Trump e Xi costuraram prevendo a retomada das compras chinesas de soja americana em volume crescente até chegar a 25 milhões de toneladas anuais em 2028, o que corresponde a mais de um terço de tudo que o Brasil exporta hoje para o mercado chinês. O compromisso pode não se cumprir por inteiro porque a história das relações sino-americanas é uma coleção generosa de promessas que evaporam no caminho, mas o vetor político mudou, e mudou contra o nosso interesse.

    Quem acompanha o setor mais de perto sabe que existe ainda uma segunda camada, mais lenta e mais profunda, e que tem a ver com a decisão chinesa de reduzir gradualmente a dependência de proteína vegetal importada para ração animal. Não é que vão comer menos carne, é que vão produzir essa carne com uma matriz proteica menos dependente de soja, dentro daquela obsessão crescente de Pequim com soberania alimentar que atravessa todos os planos quinquenais recentes.

    Para o Brasil, é uma curva que se desenha no horizonte de 2030. Quando se soma essa curva à reaproximação americana o quadro fica difícil de ignorar: o pico da nossa exposição à demanda chinesa de soja talvez já tenha ficado para trás sem que a gente tenha percebido.

    Nada disso configura tragédia iminente, porque o Brasil continua sendo fornecedor central e a sazonalidade da safra sul-americana garante mercado entre fevereiro e agosto independentemente do humor de Washington ou Pequim.

    O problema não é o colapso, é a complacência, e ela tem nome no vocabulário diplomático brasileiro: pragmatismo, uma palavra que ficou perigosa de tão usada e que do jeito que aplicamos virou eufemismo educado para ausência de estratégia. Vendemos para a China o que ela precisa enquanto ela precisa, sem verticalizar indústria, sem diversificar destinos com a agressividade que o momento exige, sem montar uma diplomacia comercial proporcional ao tamanho do nosso superávit agrícola, tratando uma posição privilegiada conjuntural como se fosse paisagem permanente quando ela nunca foi mais do que um momento.

    Aviso entre rosas

    O que aconteceu em Pequim na semana passada foi, no fundo, um aviso entregue entre rosas. Os dois maiores compradores e produtores de commodities do planeta sinalizaram com sorrisos largos que pretendem voltar a fazer negócios um com o outro.

    Isso não destrói o Brasil mas reduz drasticamente a folga que o país vinha tendo para confundir sorte com mérito. Brasília que entender essa diferença antes de outubro chegará mais preparado para a década que vem.

    O país que não entender vai continuar celebrando recordes anuais sem perceber que qualquer um deles pode ter sido o último.

    4 min

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Crônica semanal de geopolítica internacional. Os fatos que são notícia no mundo analisados por Thiago de Aragão, direto dos Estados Unidos, e Thomás Zicman de Barros, da Europa. 

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