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Ao rir de ser chamado de “fascista”, Trump esvaziou a crítica e reafirmou a lógica em que política e entretenimento se confundem – e em que a ameaça autoritária avança sob a capa da piada.
Thomás Zicman de Barros, analista político
Na última sexta-feira, 21 de novembro, assistimos a uma cena que sintetiza muito do que significa viver numa era em que a extrema direita aprendeu a rir de tudo, inclusive do próprio fascismo. O prefeito-eleito de Nova York, Zohran Mamdani, viajou a Washington para seu primeiro encontro com o presidente Donald Trump. Ao final, já diante da imprensa, uma jornalista lembrou que Mamdani o chamara de “fascista”. A reação de Trump, risonho e zombeteiro, revelava algo profundo: a capacidade da extrema direita de converter a política em entretenimento e de usar o humor como arma para neutralizar qualquer crítica.
Há algum tempo, venho insistindo que a extrema direita conseguiu monopolizar a ideia de transgressão. No plano das promessas, a transgressão aparece como ruptura do possível: a capacidade de imaginar outro mundo, ainda que distópico, mas diferente do presente. É uma ironia da história que seja justamente a extrema direita, com seu projeto regressivo, quem hoje ofereça a fantasia de transformação. Já o campo democrático se retraiu. Em vez de transformar a democracia, limita-se a defender a cidadela da democracia liberal, sem encarar seus próprios desfuncionamentos, sem reconhecer que muitos dos “bárbaros” à sua porta são, na verdade, produtos das falhas estruturais dessa mesma fortaleza sitiada.
Esse desequilíbrio também tem um lado teatral. Enquanto candidatos democráticos se apresentam como impecavelmente comportados, a extrema direita assume a rebeldia: gestos provocadores, grosseria, insultos, rompimentos deliberados das regras de civilidade. Trump domina esse repertório: interrompe jornalistas, humilha adversários, testa tabus e observa o que permanece de pé. Usa palavrões, insinuações racistas, piadas misóginas. Tudo isso encenado diante das câmeras para conquistar atenção, impor seu discurso.
Zohran Mamdani também transgride, mas em outro registro. Imigrante, muçulmano, eleito por uma coalizão jovem e diversa, ele rompeu com normas do establishment ao driblar a mídia tradicional e mobilizar redes sociais para amplificar vozes que geralmente permanecem à margem da política. Sua transgressão é inclusiva: abre a política a novos atores, expande quem pode ser ouvido. É justamente o contrário da transgressão de Trump, que reanima velhas hierarquias, revive preconceitos e devolve centralidade a grupos que haviam sido empurrados ao subterrâneo da política.
É por isso que o momento do “fascista” se tornou tão revelador. Ao ser questionado sobre declarações antigas, Mamdani tentou responder com polidez, contextualizando. Trump o interrompeu, rindo, e sugeriu que ele simplesmente dissesse “sim”. Brincou com a acusação. Mamdani, visivelmente desconfortável, sorriu sem graça. Trump, satisfeito, insistiu que era mais simples assim e que ele não se importava. O presidente, que não gosta de capachos, disse ainda que via em Mamdani um líder “promissor”.
Toda a cena teve algo de cômico. Mas é aí que mora o perigo – e a esperteza de Trump. Tanto Trump quanto Mamdani usam do humor, mas Trump o usa de uma forma específica, típica da extrema direita. Ele encarna como poucos o que a pesquisadora brasileira Paula Diehl chama de “politainment”, essa fusão entre política e entretenimento que embaralha a fronteira entre realidade e ficção, entre o sério e a brincadeira. Como observa a produtora cultural Alessandra Orofino, trata-se de um humor ambíguo, que permite flertar com discursos autoritários sem nunca assumi-los frontalmente. É o mesmo mecanismo que vimos no gesto nazista de Elon Musk, seguido do contra-ataque de que seus críticos “estão vendo coisa onde não tem”. É um grande jogo de “apito de cachorro” no qual quem precisa entender, entende, e quem denuncia vira o chato que não sabe rir.
O riso, aqui, não é inocente: é estratégia. Ao rir da acusação de fascismo, Trump desarma a palavra, esvazia seu peso, dissolve sua gravidade num espetáculo farsesco. E, no entanto, a última década mostrou que o perigo é real: a extrema direita cresceu atacando imigrantes, precarizando direitos, corroendo garantias democráticas, limitando liberdades reprodutivas, estimulando a homofobia e protegendo privilégios econômicos consolidados. Rir disso tudo é contribuir para a normalização do intolerável.
O encontro entre Mamdani e Trump simbolizou o contraste entre dois outsiders que caminham em direções opostas. A política exige realismo, e o prefeito de Nova York precisa manter canais abertos com o presidente, sobretudo se pretende avançar uma agenda de reformas profundas. Mas é preciso evitar a acomodação. Nas fotos oficiais do encontro, Trump aparece rindo, satisfeito consigo mesmo. Já Mamdani, habitualmente expansivo, aparece contido, quase sério. Talvez tenha sido melhor assim. Porque rir diante do fascismo, mesmo em sua versão farsesca, é arriscar-se a rir com ele, e dissolver a fronteira entre farsa e tragédia.
O fim do shutdown caiu sobre Washington como aquele momento em que as luzes da festa acendem antes da hora. Todo mundo tenta organizar o próprio discurso, improvisar uma narrativa de vitória e mostrar alguma musculatura política, mas o clima geral é de ressaca institucional. A máquina pública voltou a funcionar, mas algo ficou desalinhado nos bastidores. Democratas e republicanos circulam pelos corredores com aquela segurança performática típica do jogo político, enquanto, internamente, fazem as contas sobre o que realmente ganharam ou deixaram escapar.
Thiago de Aragão, analista político
Nenhum dos lados sai exatamente derrotado, mas ambos carregam uma sensação incômoda de que o processo expôs fragilidades que eles prefeririam manter fora do alcance do público.
Os republicanos foram rápidos em se declarar vitoriosos. A reabertura do governo sem conceder a principal exigência democrata virou manchete conveniente e ajudou a reforçar o discurso de rigor fiscal que a base conservadora quer ouvir. A narrativa é limpa, direta e eficiente. Só que a política raramente se resume ao texto final da lei.
O país sentiu, de forma concreta, o impacto da paralisação. Voos atrasados, serviços essenciais interrompidos, pagamentos represados, filas, irritação generalizada. A memória coletiva costuma transformar esse tipo de frustração em cobrança. Ao assumirem o protagonismo no desfecho do impasse, os republicanos também assumiram a responsabilidade por fazer a engrenagem voltar a girar com ritmo. Se nas próximas semanas o governo parecer lento, desorganizado ou intermitente, a suposta vitória pode se dissolver em desgaste.
Democratas deixaram escapar o timingDo lado democrata, o cenário é quase um espelho invertido. Eles conseguiram manter a discussão sobre saúde no centro da arena, exatamente onde queriam. A retomada imediata de programas sociais reforça a narrativa de que defendem políticas públicas que tocam a vida real das pessoas. Isso tem valor político tangível.
Mas internamente o sentimento é de que o partido deixou escapar o timing. Muitos democratas avaliam que poderiam ter mantido a pressão por mais tempo para extrair concessões adicionais em subsídios e políticas de acesso à saúde. O tema continua vivo, mas aquele instante perfeito, raro e precioso em negociações dessa natureza, evaporou. E perder o instante certo, na política americana, costuma custar tão caro quanto perder a própria votação.
Por trás dessa disputa de versões está um elemento estrutural que nenhum dos partidos gosta de encarar de frente. A engrenagem orçamentária virou uma sequência permanente de soluções temporárias, gambiarras legislativas e improvisações de última hora. As “resoluções contínuas”, que deveriam ser medidas excepcionais, se transformaram no modus operandi.
A cada ciclo, a confiança no processo se desgasta um pouco mais. A economia sente. O setor público sente. A imagem internacional sente. E tudo isso decorre de um modelo que opera mais pelo medo do colapso do que pela capacidade de governar com previsibilidade.
"Commodity tempo"Nesse contexto, o que o shutdown realmente ofereceu foi uma commodity curiosa: tempo. Não o tempo produtivo, que permite planejar, negociar e avançar. Mas um tempo artificial, comprado às pressas, que apenas empurra adiante a mesma crise de sempre. É a sensação de que o país vive uma coreografia repetida, onde cada partido dança como se controlasse o ritmo, embora ambos saibam que a música está fora de compasso há anos.
Agora, com o governo religando suas funções e o próximo prazo já sinalizando no calendário, democratas e republicanos retomam a arena como se estivessem começando algo novo, quando, na verdade estão prolongando o mesmo impasse. Carregam declarações afiadas, vitórias parciais, promessas de reorganização e um cansaço disfarçado que ninguém admite publicamente.
A verdadeira métrica de sucesso não está no ato de reabrir o governo, mas no que serão capazes de entregar até o início do próximo ciclo orçamentário. Se conseguirem estabilizar serviços, avançar em saúde e aprovar o restante do orçamento sem mergulhar o país em outra turbulência, poderão vender a narrativa de que o custo da paralisação valeu a pena. Caso contrário, o episódio será lembrado como mais um capítulo de um sistema que opera no limite da improvisação.
Washington, no fim das contas, volta ao modo de sempre: funcional por fora, tenso por dentro, tentando passar ao mundo a impressão de que tudo está sob controle. Mas, dessa vez, com a sensação, cada vez mais difícil de esconder, de que o relógio institucional está avançando mais rápido do que a capacidade política de acompanhá-lo.
A vitória de um candidato socialista democrático na maior cidade dos EUA chamou a atenção do mundo. Zohran Mamdani indicou uma estratégia populista que não consiste em moderar discursos, mas em mobilizar os invisíveis.
Thomás Zicman de Barros, analista político
Na última semana, o mundo voltou os olhos para Nova York. A vitória de Zohran Mamdani nas eleições municipais da cidade foi destaque internacional. E o debate não girou apenas em torno das consequências para a política americana, mas também sobre as lições que sua campanha oferece.
Há algo de curioso em ver o mundo acompanhar a contagem de votos em bairros de uma cidade estrangeira – por maior que seja. Mamdani virou a coqueluche no Brasil, mas não só. Aqui na França, todos os políticos de esquerda reivindicaram para si a sua mensagem. Há certa sabujice nisso tudo. Afinal, o mundo não dedica esse tipo de atenção a eleições em grandes cidades da América Latina, da Ásia ou mesmo da Europa. Essa exceção se explica, em grande parte, pela figura de Mamdani: um jovem de 34 anos nascido em Uganda, muçulmano e abertamente socialista. E, de fato, talvez haja lições a aprender.
Mobilização em duas frentesMamdani chamou atenção pela campanha que conduziu – autenticamente populista. Essa palavra, tão maldita, precisa ser desestigmatizada. Foi justamente nos Estados Unidos que ela surgiu, ainda no século XIX, com o Partido do Povo, uma legenda de esquerda, popular e antirracista que se reivindicava “populista” na luta dos debaixo contra as elites.
Mas o populismo não se reduz à oposição entre “povo” e “elites”. Populismo é, antes de tudo, trazer para dentro da política aqueles que estavam fora – os invisíveis. É a capacidade de mobilizar os excluídos. E Mamdani venceu porque soube mobilizar.
Essa mobilização ocorreu em duas frentes. Por um lado, o foco em questões que afetam diretamente o bolso dos cidadãos: ele propôs congelar aluguéis para combater o alto custo de vida na cidade, além de expandir o transporte público e o sistema de creches.
Por outro, abraçou causas feministas, antirracistas e queer. Em seu discurso de vitória, destacou que deve haver solidariedade entre os trabalhadores precários que não conseguem pagar suas contas e os também precários vítimas de discriminação por gênero ou cor. Tudo isso, é claro, foi amplificado por um uso inteligente das mídias digitais e por uma mobilização impressionante: 90 mil voluntários bateram de porta em porta para registrar eleitores — lembrando que, nos EUA, o voto não é obrigatório.
Houve quem dissesse que a vitória de Mamdani foi fácil porque ele concorreu em Nova York, e que esse discurso não funcionaria em outros lugares. Ezra Klein, colunista do The New York Times, argumentou — com seu tom sempre muito razoável, mas enfadonho — que o Partido Democrata deveria usar todas as estratégias disponíveis para vencer: lançar candidatos populistas em regiões progressistas, mas, em estados conservadores, apresentar democratas pró-armas e contra o aborto – quase “trumpistas moderados”.
Essa estratégia tem problemas éticos e estratégicos. Eticamente, de que vale vencer uma eleição para barrar a extrema direita se o custo é adotar o discurso da extrema direita, normalizando-o? E, do ponto de vista estratégico, a verdade é que quase nunca se ganha assim. Diante de duas opções conservadoras, o eleitor conservador sempre preferirá o candidato “raiz”.
Estratégia populistaO que vimos nos últimos anos foi o colapso da ideia do eleitor mediano. Se ainda havia dúvidas, Kamala Harris as dissipou. No ano passado, Harris conduziu uma campanha – curta, é verdade – em que não apenas evitou explorar o fato de ser mulher, negra e asiática, como também não prometeu mudança alguma.
Encarnou o establishment político, adotou um discurso conservador para conquistar supostos republicanos “democráticos”, e acreditou que a rejeição a Donald Trump seria suficiente para vencer. De fato, muita gente votou contra Trump, mas, enquanto ele manteve a proporção de votos de 2020, os democratas perderam milhões de eleitores entre um ciclo e outro – pessoas desencantadas da política que simplesmente não viram motivo para ir às urnas.
Mamdani mostra que a estratégia populista é, antes de tudo, uma estratégia de mobilização. Sim, Nova York é uma cidade cosmopolita que, nos últimos anos, tende a votar à esquerda. Mas Mamdani produziu a maior mobilização eleitoral da cidade em mais de meio século – e quebrou todos os recordes, com mais de um milhão de votos.
Como se diz em inglês, Mamdani foi 'unapologetic': não pediu desculpas, não moderou suas posições, não fez concessões. Recusou-se a ficar na defensiva. Quando uma campanha de difamação o acusou de antissemitismo e de proximidade com grupos muçulmanos extremistas, sua resposta à islamofobia foi gravar um vídeo em árabe.
Sobretudo, ele prometeu um mundo – ou, no caso, uma cidade – diferente. Se há algo a aprender com sua vitória, é que o desafio das forças democráticas – não apenas do Partido Democrata americano, mas de todos os que acreditam na democracia ao redor do mundo – é reacender a imaginação.
Em outubro de 2025, o ex-presidente Donald Trump anunciou um plano para aumentar substancialmente a importação de carne da Argentina, com o objetivo de reduzir os preços da carne bovina nos Estados Unidos. A medida, além de econômica, tinha também uma faceta diplomática ao favorecer um país aliado em dificuldades econômicas. No entanto, para muitos pecuaristas americanos, o gesto soou como uma traição à agenda de “América Primeiro” e provocou uma onda de indignação no setor agropecuário.
Thiago de Aragão, cientista político, de Washington,
A propalada estratégia consistia em ampliar a cota tarifária para a carne argentina para cerca de 80 000 toneladas por ano, algo em torno de quatro vezes o nível anterior, de modo a permitir que mais carne entrasse nos EUA com tarifas reduzidas.
A justificativa apresentada era clara: os preços da carne bovina estavam em níveis recordes, em parte em razão da redução do rebanho nacional e dos custos elevados de produção, e a importação serviria como alívio rápido para o consumidor. Além disso, an Argentina, fragilizada economicamente, era vista por Trump como um parceiro que merecia apoio externo, uma combinação de política doméstica e diplomacia externa.O anúncio gerou reação imediata entre os pecuaristas e suas associações de representação. A National Cattlemen’s Beef Association (NCBA) declarou que ampliar o acesso da carne argentina ao mercado americano “cria caos em momento crítico para os produtores” e “não reduz os preços no supermercado”.
utro grupo relevante, a U.S. Cattlemen’s Association (USCA), alertou que a medida “enfraquece a base da nossa indústria”.
O mercado também reagiu: os contratos futuros de gado apresentaram queda acentuada logo após os anúncios, sinalizando apreensão sobre o impacto da política no valor do animal antes do abate. Além da dimensão econômica, a insatisfação alcançou o campo político, com parlamentares de estados pecuaristas, tradicionalmente aliados de Trump, questionando a consistência da iniciativa com o discurso “América Primeiro”.
Ceticismo com a estratégiaDo ponto de vista econômico, embora a ideia pareça simples, mais importações para “fornecer mais oferta” e reduzir preços, os analistas são céticos quanto à sua eficácia. A Argentina é responsável por cerca de 2% das importações de carne bovina dos Estados Unidos. Por isso, mesmo que suas exportações aumentem significativamente, é pouco provável que isso tenha um impacto relevante nos preços do bife ou do lombo premium no mercado americano.
No entanto, importações adicionais podem pressionar o mercado de carne moída, já que muitos cortes importados são magros e destinados à mistura. Para os pecuaristas, o risco é duplo: além de pressão sobre o preço recebido pelo gado, há desalento para reinvestir e recompor um rebanho que ficou comprimido durante anos.
Politicamente, a iniciativa revela fissuras na base rural do Partido Republicano e lança dúvidas sobre a fidelidade de certas políticas do Estado à defesa dos produtores domésticos. O risco para Trump é perder credibilidade entre aqueles que, até então, lhe davam suporte incondicional.
ControvérsiaA controvérsia envolvendo a carne argentina expõe de forma clara a tensão entre manter os preços baixos para o consumidor, defender a produção doméstica e conduzir política externa de forma estratégica. Não há vilões claros: consumidores buscam alívio, produtores querem renda justa, governo tenta mostrar ação. Mas a elegância da boa política está justamente em conciliar essas demandas.
Aqui, o que se vê é uma tentativa de atalho que pode sair caro, um gesto de curto prazo que desvia prioridades estruturais e compromete suporte num setor sensível. O episódio serve de lembrete de que segurança alimentar e prosperidade rural caminham lado a lado: negligenciar um em favor do outro é convite à frustração e à instabilidade.
As eleições legislativas argentinas revelaram uma crise compartilhada. Javier Milei venceu nas urnas, mas perdeu o ímpeto populista que o tornara símbolo dos descontentes. O peronismo, por sua vez, resistiu sem recuperar o fôlego. O país parece cansado, dividido entre dois projetos em crise.
Thomás Zicman de Barros, analista político
O clima no comitê de Javier Milei era de celebração. Com cerca de 40% dos votos, o presidente argentino saiu das eleições legislativas parciais deste domingo consolidado como a principal força política do país, à frente de um peronismo que se reduz a 31% do eleitorado. Mas, por trás da vitória, o que se vê é um país cansado, marcado por uma abstenção recorde e um clima de desânimo generalizado.
As eleições, que renovavam um terço da Câmara e do Senado, registraram uma taxa de comparecimento de apenas 68%, a mais baixa desde 1942. O dado é eloquente: a Argentina parece exausta. O mileísmo sobreviveu e se expandiu no Parlamento, obtendo uma bancada suficiente para proteger seus decretos e resistir a tentativas de destituição, mas num ambiente de retração da participação. Os 40% de hoje garantem poder, mas estão longe dos 55% que o consagraram em 2023, num cenário de maior mobilização popular. O entusiasmo libertário de então deu lugar à simples rejeição ao peronismo.
Naquele ano, Milei não venceu apenas como candidato das elites tradicionais, hostis à herança de Perón. Venceu como figura de transgressão, um outsider que falava a linguagem dos desencantados. Conseguiu atrair parte dos trabalhadores precários, dos jovens sem perspectivas e de uma população exausta do Estado e descrente dos partidos. Seu estilo anárquico, feito de improviso e fúria, parecia disputar com o peronismo o monopólio de representar “os de baixo” contra “a casta”. Era um populismo de extrema direita, o primeiro capaz de desafiar o tradicional populismo peronista em seu próprio terreno.
Reorganização do voto antiperonistaO que se viu neste domingo foi outra coisa. Milei demonstrou fôlego, venceu em províncias importantes como Santa Fé, Córdoba, Mendoza e na Cidade de Buenos Aires. Sobretudo, empatou na província de Buenos Aires, a mais populosa do país, onde vive cerca de 40% do eleitorado, revertendo a vantagem de dois dígitos que o peronismo havia conquistado há apenas um mês. O que explica esse desempenho, porém, não é o fervor de 2023, mas a reorganização do voto antiperonista.
Ao longo do mandato, Milei alienou parte da base popular que o levara ao poder. Assumiu prometendo ajustes dolorosos em nome de uma futura prosperidade, mas o que se viu foi recessão, inflação ainda persistente e cortes sociais que corroeram o pouco apoio entre os setores populares. A isso se somaram dois escândalos que abalaram sua imagem moralista: o caso da criptomoeda promovida pelo próprio presidente, cujo valor disparou após suas declarações antes de o dinheiro sumir, e o das propinas de 3% em programas sociais que teriam beneficiado sua irmã e chefe de gabinete, Karina Milei.
Os setores populares em que Milei se enfraquece o deixaram restrito à base que antes orbitava o PRO de Mauricio Macri e aos grupos mais à direita da União Cívica Radical, partidos que encolheram no Parlamento e hoje veem seu eleitorado migrar para La Libertad Avanza. O medo substituiu o entusiasmo. Parte dos argentinos votou nele não por convicção, mas por rejeição ao retorno do peronismo, visto como sinônimo de estagnação e crise.
Mas se o populismo de extrema direita perdeu vitalidade, o peronismo está ainda mais combalido, incapaz de capitalizar o desgaste do governo. A abstenção o atingiu em cheio. Apesar de conseguir preservar sua bancada na Câmara, o movimento que por décadas encarnou o populismo argentino perdeu força no Senado e vive talvez sua crise mais profunda.
O fracasso do governo Fernández, a prisão domiciliar de Cristina Kirchner e as divisões internas esvaziam seu apelo popular. No mês passado, Axel Kicillof, governador da província de Buenos Aires, comemorava uma vitória arrasadora nas eleições provinciais. Agora, vê-se diante de um empate que mina seu impulso e reabre espaço para Cristina, cuja liderança é, ao mesmo tempo, carismática e profundamente rejeitada.
Crise duplaO resultado deste domingo mostra que Milei ainda é o nome forte da política argentina, mas que sua capacidade de mobilização está debilitada. Seu diferencial era dar voz aos descontentes, aos precarizados e aos que se sentiam deixados para trás. Essa parte do eleitorado, hoje, parece ter preferido ficar em casa.
A Argentina vive, assim, uma crise dupla: a do populismo de extrema direita, que perdeu o fôlego transgressor, e a do populismo peronista, que perdeu a capacidade de encantar os de baixo. Milei governa um país cansado, e o peronismo o enfrenta sem vigor. Nenhum dos dois parece capaz, por ora, de devolver sentido à política.
A ideia de uma intervenção militar dos EUA na Venezuela parece simples: derrubar Maduro e garantir petróleo. Mas o país é um labirinto geográfico e político, com características que poderiam arrastar o conflito por meses, talvez anos, como explica o cientista político Thiago de Aragão.
Thiago de Aragão, analista político
De tempos em tempos, volta à mesa de alguns estrategistas em Washington a ideia de uma intervenção militar na Venezuela. O raciocínio, à primeira vista, parece simples: derrubar Maduro, instalar a democracia e garantir o fluxo de petróleo. Mas basta olhar um pouco mais de perto para perceber que isso seria tudo, menos simples. Na prática, uma invasão americana à Venezuela seria um pesadelo militar, político e humanitário. Um erro que começaria fácil e terminaria impossível.
O primeiro grande inimigo seria o próprio território. A Venezuela é um labirinto natural: selvas úmidas, montanhas que rasgam o horizonte, planícies que viram pântanos e cidades caóticas à beira do Caribe. Tentar mover tropas por esse terreno seria como marchar contra a natureza. O calor e as doenças tropicais fariam parte do combate, e cidades como Caracas e Maracaibo se transformariam em campos de batalha urbanos, onde cada esquina pode virar uma emboscada. Os Estados Unidos já aprenderam (e de forma dolorosa) que dominar o mapa não é o mesmo que dominar o país.
Mas o terreno é apenas parte do problema. A Venezuela construiu, ao longo dos anos, uma estrutura militar que vive mais de lealdade política do que de hierarquia formal. Além do exército, existem milhares de milicianos e “coletivos” espalhados por bairros e cidades, armados e organizados em rede. Eles conhecem o terreno, têm base social e não enfrentariam os invasores de frente. Sumiriam nas comunidades, atacariam de surpresa, arrastando o conflito por meses, talvez anos. Seria uma guerra de desgaste, e ninguém aguenta um pântano desses por muito tempo.
LogísticaA logística também seria um pesadelo. Apesar da proximidade geográfica, a Venezuela é de difícil acesso. Poucos portos, estradas precárias e infraestrutura mínima. Sustentar tropas em um país quase duas vezes maior que o Iraque exigiria um esforço gigantesco e caro. Cada avião, cada navio, cada caminhão de suprimentos seria um alvo em potencial. E sem aliados regionais dispostos a ceder bases, os EUA teriam de bancar sozinhos uma operação longa, vulnerável e impopular.
O petróleo, que à distância parece o grande prêmio, na verdade seria o estopim de novos problemas. As principais reservas estão em áreas frágeis, tanto do ponto de vista ambiental quanto político. Combates na região do Lago de Maracaibo ou na Faixa do Orinoco poderiam gerar desastres ambientais catastróficos e destruir boa parte da infraestrutura petrolífera. E mesmo que os poços fossem “tomados”, retomar a produção levaria anos. Em vez de financiar a reconstrução, o petróleo viraria uma fonte de corrupção, sabotagem e instabilidade.
E, se por um golpe de sorte, Maduro caísse rápido, o verdadeiro caos começaria no dia seguinte. O país não tem instituições sólidas, a economia está arruinada e as divisões políticas e sociais são profundas. Sem um governo legítimo e funcional para assumir o controle, a Venezuela se fragmentaria em pedaços, entre facções chavistas, grupos criminosos e líderes locais disputando território. Os Estados Unidos se veriam presos em um tipo de ocupação que já conhecem bem: longa, cara e sem final feliz.
Invadir a Venezuela não seria um ato de força, mas de ingenuidade. O país é uma armadilha disfarçada de solução: um território difícil, com redes armadas entranhadas e uma crise estrutural que não se resolve com tanques. Em vez de um troféu, seria um abismo político e moral. E talvez a maior lição de tudo isso seja justamente essa: algumas guerras são tão complexas que o verdadeiro gesto de poder é não começá-las.
Quatro dias bastaram para que o primeiro-ministro da França caísse — e voltasse, como se nada tivesse acontecido. A crise se arrasta, entre alianças movidas pelo medo e um presidente que repete a mesma estratégia, à espera de um resultado diferente.
Thomás Zicman de Barros, analista político
No domingo, 5 de outubro, após 26 dias de negociações, o primeiro-ministro Sébastien Lecornu anunciou seu governo. Havia dúvida se a oposição — sobretudo o Partido Socialista — tentaria censurá-lo, mas nem foi preciso. Em apenas doze horas, o gabinete implodiu. O golpe veio de dentro: aliados do próprio campo presidencial se rebelaram, a começar pelo líder da direita tradicional e ministro do Interior Bruno Retailleau — um aspirante à sucessão de Macron que parece ter reinventado a lógica política. Se já se conhecia o “apoio sem participação” no governo, Retailleau inaugurava a “participação sem apoio”.
Na manhã seguinte, diante da desintegração da base e da impossibilidade de aprovar o orçamento, Lecornu apresentou sua demissão. Era o quarto chefe de governo a cair em menos de dois anos. Seu antecessor, François Bayrou, havia durado dez meses antes de perder um voto de confiança. Michel Barnier, o anterior, caíra por uma moção de censura.
A origem dessa instabilidade é conhecida. Após sua reeleição em 2022, Emmanuel Macron conseguiu apenas uma maioria relativa no Parlamento. Em 2024, buscando recuperar o controle, decidiu dissolver a Assembleia Nacional de surpresa. Mas o tiro saiu pela culatra: o presidente voltou das urnas com ainda menos deputados. Desde então, cada governo nasce minoritário, dependente de alianças contraditórias e fadado à implosão.
A crise, que começou como um impasse parlamentar, tornou-se uma espécie de paralisia estrutural. Com a saída de Lecornu, reacendeu-se a hipótese de uma nova dissolução — e, junto dela, o coro pela renúncia do próprio Macron. Segundo as pesquisas, 73% dos franceses querem que ele deixe o cargo. Até Édouard Philippe, ex-primeiro-ministro — e outro provável candidato a sucedê-lo — declarou que a solução poderia ser uma eleição presidencial antecipada.
O medo como métodoNa segunda-feira, Macron foi visto caminhando sozinho pela beira do Sena. Àquela altura, o presidente parecia encenar sua própria solidão política. Pediu a Lecornu 48 horas para “consultar as forças políticas” e trazer opções.
Na noite de quarta, o premiê demissionário deu uma entrevista melancólica: disse sair frustrado, mas satisfeito por ter “feito o possível”. E deixou escapar o diagnóstico mais preciso da semana: não há maioria para governar, mas há maioria absoluta contra uma nova dissolução.
É esse medo que sustenta o sistema. Nenhum partido — exceto a extrema direita, favorita nas pesquisas — quer voltar às urnas. Os macronistas temem ser varridos. A esquerda, dividida e em crise, também teme perder terreno. Quando o espectro da dissolução voltou a pairar, Jean-Luc Mélenchon propôs uma reunião de toda a esquerda. Os socialistas recusaram. Assim, a Nova Frente Popular foi finalmente enterrada, em meio a acusações mútuas de traição e irresponsabilidade. A esquerda francesa, que havia se unido em torno da esperança de uma alternativa, agora se esfarela diante do ressentimento.
Na sexta-feira à noite, o país recebeu embasbacado a notícia de que Macron havia renomeado Lecornu. O mesmo primeiro-ministro que havia renunciado quatro dias antes voltou ao cargo, como se nada tivesse acontecido. A política francesa entrou oficialmente em modo “Dia da Marmota”, como no filme com Bill Murray: as mesmas cenas, as mesmas falas, os mesmos personagens, revividos até a exaustão. O presidente tenta repetir a fórmula — um governo de “união” sustentado pelo medo da dissolução — esperando resultados diferentes. É improvável que dê certo.
A nova versão do gabinete já nasce sob ameaça: 269 deputados se declararam prontos a votar uma moção de censura, e faltam apenas 21 para que Lecornu caia — de novo. Um simples gesto, à direita ou à esquerda, bastaria para ejetá-lo do cargo pela segunda vez. Após uma reunião marcada por ofensas, Retailleau e seus aliados decidiram não integrar o governo, mas tampouco censurá-lo. Já os socialistas, fiéis à sua reputação, parecem sempre prontos a sentar-se à mesa com os macronistas em busca de concessões que jamais vêm. A última delas — a ideia de suspender temporariamente a reforma da previdência — não convenceu ninguém: irritou os aliados, dividiu o governo e reacendeu o fogo sob a cadeira do primeiro-ministro.
Um impasse que se repeteLecornu governa sobre escombros, tentando erguer uma “coalizão negativa”, unida apenas pelo medo de novas eleições. Mas o país parece exaurido. De forma cada vez mais acelerada, novos gabinetes nascem e morrem um após o outro, em um ritual de desgaste que já não surpreende ninguém.
“É preciso que tudo mude para que tudo continue como está”, dizia O Leopardo, de Giuseppe Lampedusa. Na França de Macron, a fórmula parece ter se invertido: nada muda para que nada mude. O presidente sobrevive por inércia, à frente de um sistema que já não governa — apenas se prolonga. E a pergunta que paira sobre Paris é se essa paralisia poderá resistir aos dezoito meses que faltam para o fim do mandato — ou se, antes disso, será o próprio Macron a cair.
A decisão do presidente Donald Trump de nacionalizar a Guarda Nacional da Califórnia reacendeu um debate jurídico e político sobre os limites da autoridade federal. Em meio a protestos em Los Angeles contra operações migratórias, a Casa Branca ordenou a mobilização de cerca de 300 guardas, sem o consentimento do governador Gavin Newsom. Uma tentativa de Trump de instrumentalizar a segurança pública e testar a resistência do federalismo nos EUA.
Thiago de Aragão, analista político
O governador classificou a medida como uma violação da soberania estadual e anunciou ações judiciais. O caso lembra o uso da Guarda Nacional em Portland, quando o governo Trump tentou justificar o envio de tropas sob o argumento de garantir a segurança pública, apesar de autoridades locais afirmarem que a situação estava sob controle. Em ambos os casos, o tema central foi o conflito entre poder federal e autonomia estadual.
A Guarda Nacional é uma força híbrida, sob comando estadual em tempos normais, mas sujeita à federalização em situações excepcionais. TTrump invocou o Título 10 do Código dos EUA e a Lei da Insurreição, alegando enfrentar rebeliões internas. Juristas consideram essa interpretação excessiva, pois a Lei Posse Comitatus limita o uso das Forças Armadas em atividades de polícia interna. Historicamente, a federalização ocorreu para proteger direitos constitucionais, como em Selma em 1965 ou em Little Rock em 1957. No caso atual, a intervenção buscou conter protestos políticos, o que muitos especialistas consideram um uso distorcido da legislação. O precedente preocupa governadores e analistas pela possibilidade de ampliação indevida do poder presidencial.
Segurança pública como ferramenta políticaA reação dos governadores democratas foi imediata. Vinte e três deles emitiram uma declaração conjunta chamando a ação de abuso de poder e advertindo que a medida compromete a missão militar da Guarda Nacional. O episódio aprofunda o conflito federativo entre a Califórnia e a Casa Branca, já marcado por disputas sobre clima, imigração e meio ambiente. A crise também reacende o debate sobre até que ponto um presidente pode intervir em políticas estaduais sob o argumento da segurança nacional. O resultado imediato é o enfraquecimento da coordenação entre forças locais e federais e o aumento da polarização institucional.
O episódio expõe o uso político da segurança pública. Trump concentrou ações em estados democratas, reforçando seu discurso de lei e ordem e apresentando cidades como Los Angeles e Portland como símbolos do caos. Governadores e prefeitos democratas afirmam que o presidente distorce os fatos e militariza questões civis. Para o Partido Democrata, o episódio serviu como fator de união em torno da defesa do Estado de Direito e da autonomia estadual. A narrativa de cada lado reforça a divisão política e transforma a segurança interna em campo de disputa eleitoral.
O embate entre federalismo e poder presidencialGavin Newsom emergiu como o principal antagonista de Trump. Sua postura firme contra a federalização da Guarda Nacional o projetou como potencial líder nacional dos democratas. Ele tem se posicionado como defensor dos direitos dos estados e da Constituição, explorando a crise para construir capital político. Ao assumir o papel de opositor ativo, Newsom tenta ocupar o vácuo de liderança no partido e consolidar-se como nome viável para 2028. Sua estratégia combina enfrentamento jurídico e discurso institucional, reforçando sua imagem de gestor combativo e pragmático.
A disputa pela Guarda Nacional vai além de uma divergência operacional. Ela revela um embate sobre o alcance do poder presidencial e a integridade do federalismo norte-americano. O episódio redefine os limites da autoridade executiva e coloca em evidência a fragilidade das fronteiras entre segurança nacional e política partidária. Em última instância, a crise serve como teste à resiliência das instituições democráticas diante da crescente instrumentalização das forças de segurança nos Estados Unidos.
O ex-presidente Nicolas Sarkozy se envolveu num enredo rocambolesco: corrupção, dinheiro sujo vindo da Líbia e até uma guerra vista como queima de arquivo. Sua condenação é justa. O risco é que casos assim alimentem o descrédito da política e o moralismo.
Thomás Zicman de Barros, analista político
Nicolas Sarkozy foi condenado — e por organização criminosa. Não é o primeiro ex-presidente francês a ser sentenciado, mas é o primeiro a receber pena de prisão efetiva: cinco anos, parte deles em regime fechado. Ele se diz perseguido e pode apelar, mas a Justiça decidiu que, como reincidente, deve começar a cumprir a pena já. O caso, com elementos extraordinários, nos faz pensar para além da França, sobre o papel da moral e do moralismo na política.
Mas comecemos pela condenação de Sarkozy. O caso é rocambolesco, quase inacreditável. Se um roteirista apresentasse esse script a um produtor, seria rejeitado por falta de verossimilhança. Sarkozy, então ministro do Interior em 2005 e 2006 — um ministro que se dizia implacável contra o crime, defensor de penas pesadas e crítico do “laxismo” judicial — preparava sua candidatura presidencial. Para financiá-la, enviou seu chefe de gabinete e amigo próximo, Claude Guéant, a captar fundos irregulares. O que no Brasil chamaríamos de “caixa dois”. Até aí, infelizmente, nada fora do comum.
A narrativa muda de tom quando vemos onde o colaborador de Sarkozy foi buscar o dinheiro: em Trípoli, capital da Líbia, e não com qualquer figura. Ele procurou Abdallah Senoussi, genro e braço direito do “Guia da Revolução”: Muammar Kadafi. Não era apenas um genro qualquer. Senoussi era chefe dos serviços secretos militares e um dos responsáveis pelo atentado ao voo UTA 772, que ligava Brazzaville, na República do Congo, a Paris, com escala em N’Djamena, no Chade. Em dezembro de 1989, o avião explodiu em pleno ar, matando 170 pessoas — entre elas, 54 franceses.
Recapitulando: o futuro presidente da França mandou buscar recursos para sua campanha junto a um regime excêntrico, marcado por ligações com terrorismo. Em troca, Sarkozy teria prometido favorecer a reabilitação da Líbia no concerto das nações.
Catorze anos de apuraçõesCatorze anos de apurações comprovaram que valores foram transferidos em malas, intermediadas pelo empresário franco-libanês Ziad Takieddine. O montante exato é incerto: Takieddine fala em cerca de € 5 milhões, e documentos líbios mencionam até € 50 milhões. Seja como for, foi um mau investimento para o coronel Kadhafi. Ainda não sabemos quando a relação azedou, mas é certo que Sarkozy esteve entre os líderes que, em 2011, conduziram os bombardeios da OTAN contra a Líbia durante a chamada “Primavera Árabe”, ajudando a derrubar o regime e matar o chefe beduíno.
Não cabe aqui reconstituir cada detalhe do processo. Estas crônicas não buscam apenas narrar fatos, mas também propor análise. E a primeira chave para essa análise está na reação pública: para muitos cidadãos, a condenação de um ex-presidente reforça o descrédito da política. Myriam Revault-d’Allonnes — minha orientadora à época do mestrado — discutiu esse risco com grande lucidez em um livro que já traz no título a pergunta-chave: Devemos moralizar a política? (Doit-on moraliser la politique?, publicado pelas edições Bayard, 2002).
Revault-d’Allonnes defende que a corrupção deve ser combatida por uma Justiça independente, mas alerta para os riscos de transformar a política em uma cruzada moral — o que, paradoxalmente, acabaria por corroê-la.
O moralismo anticorrupção abre espaço para o que ela chama de “despotismo moral”, que destrói não a corrupção, mas a própria política enquanto espaço legítimo de disputa entre desejos.
Pânico moralNão por acaso, a extrema direita sempre soube transformar o moralismo em pânico moral: um dispositivo que pinta os adversários como ladrões, parasitas ou obscenos e promete a ilusão de uma sociedade purificada pela virtude. No fundo, é disso que se trata quando alguns falam de “polarização”.
Longe de ser simples disputa entre polos legítimos, ela é fruto da radicalização da extrema direita, que nega a pluralidade e transforma o adversário em inimigo infrequentável. O debate público deixa então de ser confronto entre perspectivas diferentes e passa a opor, de um lado, quem busca calar as demais vozes e, de outro, quem ainda luta por preservar uma sociedade aberta, plural e inclusiva.
No Brasil, a pauta da moralidade sempre teve peso e volta agora ao centro do debate. O cenário, no entanto, mudou: fragilizada por processos judiciais e alianças com redes corruptas, a extrema direita perdeu fôlego em seu próprio terreno, e o discurso anticorrupção passou a ser impulsionado também pela esquerda. Isso pode ser útil não apenas para expor privilégios e esquemas ilícitos, mas também para enfrentar a extrema direita em sua ofensiva contra a democracia.
O risco, porém, é reproduzir a gramática da pureza. O desafio é construir antagonismos claros contra os corruptos e contra a extrema direita — inclusive recorrendo a estratégias “populistas” em seu sentido original, de mobilização do povo contra aqueles que o calam — mas sem reduzir a política ao moralismo.
No fim, a trajetória de Sarkozy — marcada pelo surreal caso de corrupção e pelo descrédito da política que reforçou — é também um lembrete: quando a política se deixa capturar pelo moralismo, não é a corrupção que desaparece. É a própria democracia.
O assassinato de Charles Kirk, ocorrido em um momento já marcado por tensões políticas nos Estados Unidos, tem consequências que vão muito além do ato em si. Mais do que um crime contra uma figura pública, ele se insere em um cenário no qual a polarização política encontra novos combustíveis para se intensificar. A ausência de um espaço comum entre republicanos e democratas, que já vinha se tornando mais restrita, agora enfrenta mais uma barreira simbólica e psicológica para qualquer tentativa de convergência.
Thiago de Aragão, analista político
A ciência política tem mostrado que a polarização não se limita a discordâncias sobre políticas públicas: trata-se também de identidades sociais e culturais profundamente enraizadas. Republicanos e democratas hoje se percebem menos como adversários políticos e mais como inimigos existenciais. O assassinato de uma liderança carismática de direita tende a reforçar esse quadro, ao alimentar a percepção, no campo republicano, de que seus valores e representantes estão sob ataque. Do outro lado, democratas interpretam o episódio de forma distinta, seja relativizando suas implicações políticas, seja destacando riscos de retaliação e de vitimização discursiva por parte da direita.
A psicologia social ajuda a compreender como tragédias dessa magnitude cristalizam narrativas opostas. O fenômeno conhecido como motivated reasoning leva indivíduos a interpretar os mesmos fatos a partir de predisposições ideológicas prévias, o que significa que cada lado tende a reforçar suas crenças ao invés de se aproximar do outro. Para republicanos, o assassinato pode ser narrado como prova de um ambiente hostil fomentado por elites culturais e midiáticas; para democratas, o mesmo acontecimento é visto como um alerta sobre os perigos de extremismos e discursos incendiários que circulam à direita. A consequência prática é a ampliação do abismo entre os “Estados Unidos vermelhos” e os “Estados Unidos azuis”.
Nesse contexto, qualquer perspectiva de pacificação nacional fica ainda mais distante. O campo republicano provavelmente se mobilizará em torno de uma retórica de martírio e perseguição, buscando coesão interna e pressão sobre instituições. Já os democratas, em sua maioria, tenderão a defender que o episódio exige mais vigilância contra a radicalização política. Essas duas leituras dificilmente se encontram em um terreno comum, pois não partem de premissas compartilhadas.
O resultado é um reforço da lógica de soma zero que domina a política americana atual: se um lado ganha terreno narrativo, o outro lado automaticamente se sente ameaçado. Sem convergência, não há como construir compromissos que reduzam a temperatura política do país. E sem compromissos, os Estados Unidos permanecem presos a uma dinâmica em que cada eleição é percebida como uma batalha existencial, e cada tragédia, como munição adicional para a guerra cultural em curso.
O assassinato de Charles Kirk, portanto, não deve ser lido apenas como um episódio dramático da vida pública americana, mas como um ponto de inflexão que aprofunda tendências já presentes. Ele reforça a lógica da divisão, dificulta qualquer processo de reconciliação e torna mais improvável que republicanos e democratas encontrem o caminho da convergência. A ausência desse caminho, por sua vez, prolonga a era de fragmentação política e social que tem moldado os Estados Unidos do século XXI.
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Crônica semanal de geopolítica internacional. Os fatos que são notícia no mundo analisados por Thiago de Aragão, direto dos Estados Unidos, e Thomás Zicman de Barros, da Europa.

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