Vida em França

“A criança desenvolve-se no contacto com o outro, não no virtual”


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O uso das redes sociais prejudica a saúde mental dos adolescentes, em particular a das raparigas. A constatação é da ANSES, Agência Francesa de Segurança Sanitária, numa altura em que o país prepara vários diplomas com vista à proibição das redes sociais a menores de 15 anos. Para Margareth Paulo, psicóloga na região parisiense, não é apenas o tempo passado em frente aos ecrãs que preocupa, mas sobretudo o afastamento progressivo do mundo real e das relações humanas concretas.

Embora não sejam a única causa da degradação da saúde mental dos adolescentes, os efeitos negativos das redes sociais, recentemente proibidas a menores de 16 anos na Austrália, são “numerosos” e “documentados”, afirma a ANSES num parecer publicado esta terça-feira, 13 de Janeiro, resultado de cinco anos de trabalho de um comité de peritos pluridisciplinar.

A organização recomenda “agir na origem”, para que os menores apenas tenham acesso a “redes sociais concebidas e configuradas para proteger a sua saúde”.

Isso implica que as plataformas modifiquem os algoritmos de personalização de conteúdos, as técnicas de interfaces persuasivas e as configurações por defeito, sublinha a agência, cujos trabalhos esclarecem as decisões públicas.

De acordo com a coordenação, “este estudo fornece argumentos científicos ao debate sobre as redes sociais dos últimos anos: baseia-se em 1.000 estudos que foram analisados em detalhe” e documentam “os efeitos na saúde”. O desafio é criar um quadro de governação “à altura dos desafios”.

Para Margareth Paulo, psicóloga na região parisiense, não é apenas o tempo passado em frente aos ecrãs que preocupa, mas sobretudo o afastamento progressivo do mundo real e das relações humanas concretas. Ao mergulharem num universo virtual desde muito cedo, crianças e jovens acabam por empobrecer as suas interacções sociais, fundamentais para o desenvolvimento emocional, cognitivo e relacional.

Segundo a psicóloga, quando a criança cresce afastada do contacto humano e social, o impacto pode ser profundo e duradouro, sublinhando que esta fragilidade pode traduzir-se em dificuldades futuras.

Margareth Paulo recorda que o desenvolvimento cognitivo não acontece de forma abstracta ou isolada. “A inteligência da criança constrói-se na interacção concreta com o mundo e com os outros”, refere, alertando que a vivência num “mundo completamente virtual” não permite consolidar competências fundamentais. Entre elas, destaca a capacidade de pensar antes de agir, antecipar consequências e compreender o outro. “Não vai dar possibilidade de pôr em prática as etapas normais do ciclo de comunicação.

Outro risco apontado é a exposição desregulada a conteúdos para os quais a criança não tem maturidade emocional. Margareth Paulo compara o universo digital a um espaço sem regras claras: “Expor as crianças demasiadamente na internet, sozinhas, é como se a criança estivesse na selva”.

Para Margareth Paulo, o problema não pode ser visto apenas como uma falha individual dos pais, mas como um fenómeno social mais amplo. “É também um problema da sociedade”, afirma, apontando para famílias mais isoladas, menos redes de apoio e níveis elevados de stress. Nesse contexto, “a internet vai servir de baby-sitter”.

O trabalho terapêutico raramente começa com um pedido explícito relacionado com redes sociais. “Começa com queixas de stress, com birras, com isolamento no quarto, com ansiedade”, explica. A intervenção passa quase sempre pela família. “Quando se tira a casca da cebola, fica a ver-se o problema da presença e da relação.”

Na sua prática clínica, Margareth Paulo recorre a meios expressivos como a pintura, o barro, a escrita ou o psicodrama, com um objectivo de “repor a relação no centro da família”. Para a psicóloga, é essencial “reaprender a parar, a estar na presença, no acolhimento do que se passa no instante presente”.

Quanto ao papel dos pais face às redes sociais, a especialista defende equilíbrio: “Não fechar-se ao mundo, a criança precisa de estar conectada também com o mundo”, mas é preciso que a família construa um quadro claro. “Falar dos nossos valores, não com rigidez, mas com amor e determinação.” Porque, conclui, é essa articulação entre escuta, presença e limites que permite às crianças e aos jovens crescerem de forma segura num mundo cada vez mais digital.

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