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Falar sobre a história das cidades e da arquitetura na América Latina demanda um exercício de desconstrução. A narrativa oficial e mais difundida se concentra na compreensão das consequências da ocupação do continente americano – norte, centro e sul – pelos colonizadores europeus, em detrimento do reconhecimento das diversas culturas, técnicas e economias que há mais de mil e quinhentos anos definiam modos de vida e produção do espaço através de diferentes tradições construtivas, tão pertinentes ao contexto multifacetado do continente mais “vertical”, onde cabem mais latitudes que qualquer outro.
O termo cunhado pelos franceses, “América Latina”, separa aquilo que a geografia define como uma unidade continental, reforçando a leitura de subcontinentes e distinguindo a América do Norte das demais. Mesmo que muitos considerem esta distinção coerente com as histórias dos países e suas heranças culturais, associado ao termo “latino” há velados preconceitos e, acima de tudo, muito desconhecimento. O arquiteto Fernando Lara, um grande estudioso sobre o tema, nos acompanha nessa conversa, buscando trazer a arquitetura e a cultura urbana latino-americanas para o centro do debate.
O conhecimento sobre as culturas pré-colombianas varia bastante entre os países, muito em função das dinâmicas de colonização e da capacidade de resistência dos povos nativos, na medida em que muitos povos foram completamente dizimados, dificultando o acesso à informação sobre os atributos originais do saber fazer em cada localidade, sempre muito relacionado às especificidades geográficas e sociais. Entretanto, a produção arquitetônica contemporânea tem demonstrado crescente interesse em compreender essas raízes, com exemplares de arquiteturas extremamente originais.
Como comenta Fernando Lara, não existe cultura pura. A cultura é sempre um híbrido entre diferentes tradições. E as arquiteturas latino-americanas são, neste sentido, símbolos concretos dessa hibridização, que está longe de resultar homogênea, ainda que num mesmo país. O Brasil é um grande exemplo disso.
Na primeira metade do século XX, época dos preceitos dogmáticos do movimento moderno, a produção em nosso continente se destacou pela interpretação original que fez da doutrina corbusiana, ganhando maior notoriedade no exterior, apesar de ainda haver pouco diálogo entre os arquitetos latino-americanos propriamente. O direcionamento pragmático para a inovação e a necessidade de refletir uma imagem progressista de nação permitiram à arquitetura moderna, em especial a brasileira, um descolamento das preexistências que até então serviam como referencial urbano e arquitetônico.
A troca de conhecimento sobre arquitetura e sobre as práticas no interior do continente é algo bastante recente. Mas, uma vez que se voltem os olhos para ela, nossa cultura arquitetônica se mostra vigorosa, contextualizada e, por isso mesmo, bastante plural. Não faltam bons exemplos para demonstrar isso, e você pode descobrir aqui em nosso programa. Até a próxima!
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O ensino de Arquitetura e Urbanismo, assim como todas as outras áreas do saber, sofreu um grande impacto com a pandemia. Obrigados a ficar em casa, alunos e professores se viram em um tremendo desafio imposto pelo distanciamento físico: como manter a qualidade da prática do ensino?
A maioria das faculdades federais suspenderam as atividades presenciais, mas disponibilizaram seu espaço institucional e parte do corpo docente e de pesquisadores para o enfrentamento da pandemia. Atividades de pesquisa e orientações foram adaptadas para o ambiente remoto e outras atividades complementares foram programadas, de forma a oferecer alternativas à paralisação abrupta da educação presencial. Os cursos que se dispuseram a dar continuidade ao calendário letivo tradicional tiveram que migrar conteúdos e flexibilizar convicções para se adequarem ao ambiente virtual de aprendizagem em um brevíssimo espaço de tempo.
Já os cursos particulares, na necessidade de continuar a oferecer os serviços a que foram contratados, apostaram no ensino 100% à distância, apoiados nas decisões do Ministério da Educação, que reconheceu o momento de exceção. Muitas instituições particulares já ofereciam parte do currículo na modalidade EaD, o que facilitou a transição em termos de organização de conteúdo em plataformas e dinâmicas de interação entre aluno e professor. Mas não sem prejuízo para o corpo docente, em especial, que teve uma ampliação de carga horária imediata sem garantias de remuneração e sob o risco de demissões em massa pela evasão de alunos e queda de arrecadação de seus empregadores.
Várias entidades, como o IAB-BR, ABEA, FeNEA e o próprio CAU-BR, já faziam ressalvas à adoção do EaD para o ensino de arquitetura e urbanismo antes da chegada da pandemia, por diversos motivos relacionados à natureza disciplinar do curso e aos diferentes alcances que a abordagem pedagógica presencial consegue oferecer. Além disso, as desigualdades sociais e econômicas, já tão agudas, ficam ainda mais evidentes na medida em que aprender remotamente só é uma opção viável para quem dispõe de um lugar adequado para acompanhar as aulas, equipamentos atualizados e muitos dados de internet. Mas a indeterminação quanto ao tempo de duração do isolamento forçou tomadas de decisão e acelerou processos que só poderão ser avaliados no futuro.
O cast desta quinzena traz a experiência e as angústias de três arquitetos que, em diferentes papéis, participam do contexto acadêmico e precisam, no seu dia-a-dia, assumir posturas e adaptar rotinas na busca de compreender o que é possível ser feito pelo ensino de arquitetura neste contexto excepcional e quais aprendizagens esta pausa nos revela sobre a maneira como estávamos ensinando e aprendendo antes da pandemia. Mariana Wilderom (IAB-SP), Carlos Eduardo Nunes-Ferreira (ABEA) e Pedro Fiori Arantes (UNIFESP) são nossos convidados nesta importante conversa, sugerindo boas perguntas para este necessário momento de questionamento sobre a educação do arquiteto e urbanista. Até a próxima!
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Depois de algum tempo ausente, está de volta o Arquicast Entrevista. E para retomar nossa série, convidamos um grupo de jovens arquitetos que, apesar da pouca idade, conseguiram construir um portfólio bastante consistente! Com sete anos de atuação no mercado e sediados na cidade do Rio de Janeiro, o Gru.a Arquitetos contabiliza obras e intervenções em diferentes partes do mundo. São projetos arquitetônicos, urbanos e de instalações artísticas que, em conjunto, qualificam o trabalho do grupo de forma bastante distinta do tradicional.
Além de todos os projetos já construídos, também chama a atenção a produção acadêmica dos sócios Pedro Varella e Caio Calafate, com publicações premiadas no currículo e participação em projetos de pesquisa que tem o processo projetual como objeto de investigação. Essa inquietude criativa pode ser conferida, por exemplo, nos projetos de concurso dos quais participaram, muitos dos quais sendo premiados! Entre eles citamos o 1º lugar no Prêmio de Arquitetura 2015 do Instituto Tomie Ohtake; o 1º lugar no concurso de ideias para o edifício acervo e pavilhão de exposições Casa de Rui Barbosa, em 2013.
O Gru.a conta, além dos sócios-fundadores, com um quadro fixo de arquitetos bastante enxuto e qualificado. Este formato, entretanto, costuma variar em função das demandas dos diferentes projetos, opção pertinente e cada vez mais frequente entre escritórios que priorizam a diversidade programática e a experimentação. Parcerias com outros arquitetos com os quais compartilham afinidades viabilizam a incursão em oportunidades de trabalho pouco convencionais ao mercado, como editais de intervenções temporárias, festivais de arte, entre outros.
A atividade de pesquisa é parte da rotina dos arquitetos, incentivada pela proximidade de ambos com o meio acadêmico, seja na educação continuada em pós-graduação, seja na prática docente em sala de aula. E esta postura curiosa e investigativa parece pautar também a prática projetual do grupo e pode ser percebida na forma com que organizam sua produção, sempre respaldada por textos cuidadosos e diagramas exploratórios das lógicas compositivas e programáticas do partido. A produção textual não se restringe a memoriais explicativos, sendo praticada como uma forma de refletir sobre o projeto para além do desenho e constituindo, por si só, valiosa contribuição.
Acompanhe esta conversa e conheça mais sobre a história e os bastidores do trabalho destes arquitetos.
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Das privações que temos enfrentado em função da pandemia, uma das mais reconhecidas é, talvez, a da liberdade de usufruir das áreas livres públicas. Caminhar numa rua de pedestre, encontrar com amigos numa praça, se exercitar em grandes parques ou praias, usufruindo de uma natureza que é, também, urbana. Além do desejo de encontrar com alguém, há o desejo de encontrar em algum lugar, para além do espaço de domínio privado e íntimo.
Inúmeras são as atividades sociais que têm como palco os espaços públicos. A própria origem da cidade se relaciona com a vontade de um espaço comum, compartilhado por pessoas diferentes, com diferentes objetivos. O episódio 113 fala sobre essa vontade e sobre as espacialidades onde ela se manifesta. Os arquitetos Nivaldo Andrade e Carlos Alberto Maciel compartilham com a gente reflexões sobre o significado do espaço público para a dinâmica urbana, para o sentido de coletividade e como instrumento da democracia.
As cidades brasileiras nem sempre trataram bem seus espaços públicos. E não é incomum o entendimento de que o que é público não pertence a ninguém e que cabe ao Estado, e somente à ele, a responsabilidade pela manutenção e gestão daquilo que não é privado. Mas até onde vai nossa participação na determinação do sucesso ou do fracasso de um espaço público? Quais desses lugares podem ser apropriados pela população? Qual a função deles na qualidade de vida que temos nas cidades?
Ruas, praças, parques, são diferentes tipologias de espaços públicos. Há quem entenda que também arquiteturas, mesmo configurando áreas de acesso controlado, desempenham papel ativo na viabilização dos encontros que reforçam o sentido de coletividade. A dinâmica urbana não é fenômeno de simples apreensão. Como também não é simples o projeto que a contempla. Diferentemente do projeto arquitetônico, projetar para o urbano implica em lidar com espaços abertos, sem limites claros, sem programa definido e com a pretensão de atender a expectativas diversas, muitas vezes conflitantes entre si.
Apesar dos desafios que impõe ao arquiteto e urbanista, os espaços públicos são elementos fundamentais da vida na cidade e precisam ser compreendidos cada um à sua maneira. Praças secas europeias ativam uma memória afetiva, mas não são desenhos apropriados para todos os lugares; grandes parques arborizados oferecem uma oportunidade única para o lazer, mas não “cabem” em qualquer cidade ou bairro. Cada escala e contexto demanda uma certa abordagem e cabe ao arquiteto ter a sensibilidade de enxergar as diferentes nuances do lugar e da cultura das pessoas que nele convivem. O respeito e compreensão das singularidades é que permitem às áreas públicas serem de fato o palco democrático onde a cidadania se manifesta. E neste sentido, o domínio “público” não se garante apenas no limite legal que a palavra denota, mas também no projeto urbano que amplia o acesso e acata a diversidade ao dar forma concreta aos espaços livres públicos da cidade.
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Num futuro não tão distante, apesar de avanços tecnológicos e científicos significativos, a humanidade ainda estará dividida em grupos sociais de privilegiados e desprivilegiados. A desigualdade social é um dos temas centrais do filme que abordamos neste cast, mas as causas que diferem os que têm muito dos que têm pouco deixou de ser a pertença à uma classe dominante culturalmente, ou o acesso ao capital financeiro. Ao menos, não à primeira vista. É o determinismo genético que cumpre este papel. Estamos falando de Gattaca, filme de Andrew Niccol rodado em 1997.
Parte das questões trazidas pelo filme trata das consequências de uma sociedade oprimida pelo controle genético de sua população: nascimentos, empregos e até relacionamentos são ditados pelo seu DNA. A história que se desenrola neste contexto é exatamente a de um homem comum que, em busca de seu sonho e de maior reconhecimento social, tenta burlar as regras de contratação de uma grande empresa se fazendo passar por uma pessoa geneticamente perfeita. Os “válidos” são exatamente o grupo de indivíduos que tiveram seus genes alterados antes do nascimento, excluindo possíveis imperfeições (físicas e cognitivas) e maximizando características valorizadas pela sociedade e pelo mercado de trabalho.
Este futuro nada improvável é retratado pelo diretor através de uma estética do passado, em que carros e roupas da primeira metade do século XX se harmonizam com arquiteturas minimalistas, com destaque para o edifício-sede da empresa onde a trama se dá, projeto de F.L. Wright para o Marin County Civic Center, feito em 1957 pouco antes de sua morte. O grande edifício é caracterizado por uma linguagem de extrema racionalidade, com espacialidades e elementos construtivos compondo cenários de grande pureza geométrica. O resultado final reflete a visão de F.L.W. sobre como seriam as cidades no futuro. Tal uso da racionalidade compositiva também pode ser observado no edifício residencial onde moram os protagonistas. Projeto de Antoine Predock, o CLA Building é parte do campus universitário da California State Polytechnic University, mas, apropriado por Niccol e seus personagens, transmite a objetividade e certa imparcialidade de blocos residenciais que abrigam o habitar como atividade meramente protocolar.
Com uma arquitetura “do passado” cumprindo seu papel como elemento representativo de determinada cultura, Gattaca explora questões futuras que já se fazem importantes nos debates atuais de nossa sociedade, como a ética na ciência, a exclusão social e o papel da tecnologia mediando as relações entre os homens.
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Perfil Instagram: @oscarniemeyerworks | Perfil Rolando Piccolo Figueiredo: @rpfigueiredo
Surgido a partir do encantamento e interesse genuíno de um engenheiro mecânico na obra de Oscar Niemeyer, o perfil “Oscar Niemeyer Works”, da rede social Instagram, é hoje uma referência sobre o arquiteto modernista e também sobre como comunicar conteúdos teóricos em arquitetura sem ser maçante. O agora estudante de arquitetura Rolando Figueiredo é o responsável pela façanha e conseguiu unir dois mundos aparentemente distantes: pesquisa científica e entretenimento. Não por acaso, sua conta acumula mais de 87 mil seguidores, entre pesquisadores, instituição de ensino, escritórios de renome e críticos de arquitetura.
Abordar o trabalho de Niemeyer sem cair no clichê é um dos méritos de Rolando, que traz a público obras menos conhecidas, mas com abundante documentação, as quais muitas vezes demandaram um verdadeiro trabalho de investigação científica e patrimonial. Muitas das informações que se vê nas postagens, incluindo os textos explicativos sempre valiosos das legendas, constituem material de valor histórico reconhecido que não estava facilmente acessível, sendo o esforço em recolher, organizar e recuperar tais documentos uma grande contribuição à história da arquitetura moderna brasileira. Certamente, não se trata de “mais um blog”.
A paixão pela pesquisa arquitetônica tornou-se vocação e está em vias de se tornar atividade profissional, uma vez que Rolando, apesar de graduado em engenharia mecânica, está no último período do curso de arquitetura. O estudo dedicado à obra de autor trouxe para o pesquisador um olhar atento sobre o valor dos detalhes, do contexto em que a obra foi realizada, da mão-de-obra empegada em cada projeto, do acompanhamento da execução. Muito dos bastidores do processo de projeto e construção de alguns ícones da carreira de Niemeyer estão registrados no cast, na fala cuidadosa de quem reconhece a importância da experiência presencial e do saber histórico para a valorização do trabalho do arquiteto.
Outra curiosidade é o impacto da própria ferramenta, a rede social, na construção de uma identidade profissional reconhecida e respeitada pelos colegas de diferentes áreas. Entre tantos perfis disponíveis, na abundância de imagens e informações superficiais a que estamos submetidos, não é simples se destacar. O trabalho sério é recompensado pelo acesso à oportunidades de relacionamento e parcerias com profissionais de peso, no Brasil e exterior, que compartilham um mesmo interesse: o amor pela arquitetura.
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A cidade brasileira está no centro dos debates atuais sobre qualidade de vida e justiça social em função do quadro pandêmico generalizado em que se encontram nossos núcleos urbanos. Há muito tempo, tanto a relevância do planejamento urbano, quanto o valor do bom projeto habitacional, não tinham o protagonismo que estão tendo hoje, para além dos ambientes sociais e técnicos onde atua o arquiteto. É como se tivéssemos esquecido que a cidade em que vivemos é de nossa responsabilidade e que o descaso é também uma forma de projeto. Agora a realidade cobra o seu preço.
Mas nem sempre foi assim. A história nos mostra que o campo da arquitetura e do urbanismo no Brasil pode sim produzir mudanças estruturais positivas para a sociedade, quando se articula na priorização de um projeto de nação que tem como foco o interesse da coletividade e a valorização da plural cultura nacional.
O Arquicast 110 traz como tema a lembrança da atuação multidimensional de Lucio Costa (1902-1998), arquiteto e urbanista franco-brasileiro mundialmente conhecido pelo projeto do Plano Piloto de Brasília, e cujos ensinamentos vão muito além da brilhante capacidade de síntese projetual expressada nos traços gráficos precisos que desenharam a capital federal. Quem nos acompanha nesta imersão sobre a ampla contribuição de Lucio à cultura arquitetônica, urbana e patrimonial brasileira são os arquitetos e historiadores Ana Luiza Nobre (link lattes) e Guilherme Wisnik (link lattes), ambos autores essenciais na bibliografia que contempla o arquiteto.
Filho de pais brasileiríssimos (o pai, de Salvador; e a mãe, de Manaus), Lucio Costa nasceu em Toulon, na França, onde pode naturalizar muito da cultura urbana europeia, o que certamente lhe permitiu cultivar um olhar atencioso à importância da construção identitária do Brasil através de seu patrimônio material e imaterial. Suas raízes brasileiras se revelaram desde cedo, tanto na valorização de nosso passado arquitetônico, manifesta em sua atuação junto ao SPHAN, quanto na busca de um futuro moderno para o Brasil, através de sua atuação na tradicional Escola Nacional de Belas Artes, onde propõe, quando diretor, a reforma curricular da faculdade de arquitetura, introduzindo novas disciplinas, técnicas e lógica compositiva.
Sempre competente e firme em suas opiniões, através de sua formação historicista e curiosidade inata, atuou como um arquiteto eclético por vários anos em escritório próprio e de parceiros, tornando-se um profissional de muito prestígio entre seus pares e clientes. Tudo isso muito cedo na carreira, quando ainda não havia adotado o modernismo como paradigma para sua visão sobre arquitetura e sobre a cidade. Quando decide se “converter” ao Movimento Moderno, o faz de forma abrupta e definitiva, negando aos clientes os projetos historicistas pelos quais era conhecido, ao ponto de faltar-lhe trabalho por alguns anos.
O concurso de Brasília, sua amizade e parceria com Oscar Niemeyer, o projeto para o Ministério da Educação e Saúde, são apenas parte da abundante produção de Lucio Costa. Sua sensibilidade para com os fundamentos da arquitetura e do urbanismo e sua função civilizatória nos servem hoje como motivação para refletir nossa contribuição na transformação da realidade. Não perca nenhum detalhe dessa história.
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Em meio à pandemia, estima-se que 900 milhões de pessoas estão ou já estiveram em situação de quarentena domiciliar neste primeiro semestre de 2020. A quarentena, imposta pela necessidade do distanciamento físico, demandou uma reorganização da rotina, das relações de trabalho e, consequentemente, dos espaços que até então acomodavam essas dinâmicas. O home office – trabalhar de casa – não é novidade em muitas profissões, inclusive para parte dos arquitetos, adaptados à pratica autônoma de projeto ou à pesquisa. Entretanto, a excepcionalidade do contexto da epidemia trouxe uma série de desafios ao desempenho de diferentes funções que agora precisam ocorrer num mesmo local, ao mesmo tempo e, muitas vezes, por diferentes membros da família (pais, filhos, avós).
O Archdaily Brasil recentemente publicou o artigo “Conselhos para trabalhar em casa durante a pandemia de COVID-19”. Este episódio parte dos tópicos sugeridos pelo texto e traz ainda as experiências pessoais de 3 arquitetos nesses dois meses de adaptação programática e espacial do espaço habitacional à complexidade de nossa rotina urbana. Participaram conosco os arquitetos Alexandre Pessoa, doutor em urbanismo e professor da FAU/UFRJ; e o casal Victor Caixeiro e Natália Torres, que trabalham com projetos comerciais e residenciais.
São cinco os conselhos que o artigo sugere para contribuir na manutenção da integridade física e mental das pessoas, durante à forçada adaptação dos modos de vida num cenário de pandemia. São eles: siga as diretrizes apontadas pela Organização Mundial de Saúde (OMS); limite a quantidade de notícias que acessa ao longo do dia; mantenha uma rotina de horários e funções; mantenha-se conectado socialmente; e promova a tranquilidade. Não é simples, mas parece factível, certo? Só faltou “combinar com os russos”! Para quem não mora sozinho, qualquer cronograma precisa ser acordado e seguido por todos, o que nem sempre acontece, como relatam nossos convidados sobre a vivência com os filhos, por exemplo.
Há relatos sobre ganho de tempo útil trazido pela condição de quem trabalha em casa. O tempo gasto com deslocamentos, necessários e desnecessários, é um fato da vida urbana contemporânea que agora pode ser revertido para outras atividades. As tarefas relacionadas à manutenção da casa, na medida em que vão sendo automatizadas, também permitem um tempo de reflexão sobre o trabalho a ser feito, como organizá-lo. Ao mesmo tempo, a não separação física dos ambientes domésticos e de trabalho pode gerar um excesso de horas mentalmente dedicadas às responsabilidades profissionais, ocasionando um cansaço maior. A tecnologia minimiza algumas ausências, como a perda da conexão social com amigos e familiares, e facilita algumas dinâmicas de trabalho. Mas também aumenta a quantidade de informação recebida, a qual é mais difícil de ser filtrada quando estamos o dia todo diante do computador e do celular.
Novas oportunidades de trabalho também serão geradas pela necessidade de ficar mais em casa, como o aumento da demanda de projetos residenciais e de reformas adaptando o espaço da casa ao trabalho e ensino remoto. O mercado deve mudar, apesar de ainda ser cedo para qualquer previsão. Mas, para além de toda preocupação relativa ao futuro profissional, o presente nunca esteve tanto em nossas reflexões e conversar sobre isso ajuda a acalmar a mente e compartilhar angústias e esperanças.
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Está no ar o Arquicast 108 que traz para o debate temáticas de grande relevância na atualidade: o desafio da desigualdade que caracteriza o contexto urbano brasileiro, a importância do papel social do arquiteto e a necessidade de gerar maior engajamento por parte da população, a começar pelos próprios arquitetos, no compromisso de construir cidades mais justas e preparadas para o futuro incerto que se avizinha. Certo é que a cidade é e ainda será o locus preferencial das trocas sociais, culturais e econômicas. Por isso é fundamental falarmos sobre ela. Quem nos acompanha neste episódio é o arquiteto e urbanista Washington Fajardo
Nesta proposta de refletir sobre a cidade, buscamos na produção bibliográfica do arquiteto e antropólogo Carlos Nelson Ferreira dos Santos o apoio teórico e metodológico oferecido em sua obra “A cidade como um jogo de cartas”. O livro é resultado do trabalho de Carlos Nelson e sua equipe à frente do Centro de Pesquisas Urbanas, pertencente ao Instituto Brasileiro de Administração Municipal (IBAM), na oportunidade de desenhar 6 novas cidades no ainda virgem Território de Roraima na década de 80. O livro, que tem edição esgotada, é de 1988, mas é importante voltar às experiências prévias que muito explicam a visão do autor sobre a atuação do arquiteto. Visão esta refletida nas suas obras escritas, na prática docente e na sua prática projetual.
Carlos Nelson formou-se pela Faculdade Nacional de Arquitetura da Universidade do Brasil, em 1966, no Rio de Janeiro. A institucionalização da FNA em 1945 se deu com a extinção da anterior Escola Nacional de Belas Artes e foi marcada pela reforma do ensino proposta por Lucio Costa nos anos 30, com a introdução de conteúdos de Urbanismo e Paisagismo na grade curricular. Esse movimento em direção a um maior conhecimento sobre a cidade se explicava pelo contexto de intensa urbanização do território brasileiro, acompanhado por um adensamento habitacional nas principais capitais. Era tal o cenário para essa geração de profissionais do urbano.
Naturalmente influenciado pelo contexto nacional, Carlos Nelson dedicou-se ao urbanismo de diferentes formas. Após experiências em favelas, nas quais trabalhou junto com outros arquitetos (Quadra Arquitetos Associados Ltda.) rompendo os paradigmas da política habitacional no Brasil, ingressou no Mestrado em Antropologia. As ciências sociais são uma marca de sua atuação como arquiteto, ao ponto dele se autonomear como um “antropoteto”. Além disso, foi docente ativo do curso de Arquitetura da Universidade Federal Fluminense, o que transparece na forma didática como teoriza sobre assuntos complexos em suas diversas produções textuais.
O livro “A cidade como um jogo de cartas” se propõe a um duplo desafio: dar subsídio técnico para os profissionais atuarem no campo do planejamento urbano; e traduzir de forma didática os processos de formação das cidades para estudantes do ensino fundamental. A analogia com o jogo de cartas, associada a um profundo conhecimento teórico explicitado nos capítulos iniciais, consegue cumprir os objetivos propostos e, por isso mesmo, fez da obra uma referência nas escolas de arquitetura no Brasil. Não poderia ser mais atual.
Quer saber um pouco mais? Escute o cast! Bom proveito e até a próxima!
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Em 2014, um documentário chamado “Archiculture” apresenta em 25 minutos o funcionamento de um ateliê de projeto. Nele, acompanhamos a vida dos estudantes de uma faculdade americana no processo de aprendizado e desenvolvimento de projeto: noites mal dormidas, dificuldade com as maquetes, vida social afetada e duras críticas a que são submetidos. Impactante no documentário é perceber como arquitetos, desde cedo, estão extremamente envolvidos em um processo de muita dedicação física e mental.
Apesar de ser um registro de uma faculdade norte-americana, qualquer estudante ou professor brasileiro se identifica em grande parte com o que é documentado, nos levando a refletir sobre os desafios do ensino e da aprendizagem em projeto, arquitetônico ou urbanístico.
O episódio começa a discutir sobre as metodologias das aulas de projeto, mostrando que o processo de aprendizagem pode ser múltiplo, afinal, os temas e os problemas enfrentados pelos alunos podem ser de natureza muito distintas, por exemplo, questões de tecnologia, de compreensão social, de aspectos históricos e artísticos. Além disso, a discussão sobre criatividade e capacidade de inovação impacta nas escolhas de quais procedimentos serão desenvolvidos em sala de aula.
Um dos assuntos debatidos diz respeito à necessidade urgente de compreender que projeto é processo, ou seja, que o desenvolvimento contínuo das habilidades pode ser infinitamente mais eficaz do que a busca pela execução de um produto pronto para o mercado. Fica evidente, nesse momento, uma contradição que o documentário aponta: estamos formando arquitetos que desconhecem a realidade da profissão? Estamos priorizando uma formação que estimula a criação de uma consciência crítica, esquecendo que futuramente esse aluno irá trabalhar, na maioria das vezes, com pequenas partes de grandes projetos.
Por outro lado, transformar o ambiente acadêmico de ateliê em um simulacro de um escritório de arquitetura reduz drasticamente as possibilidades de desenvolver no aluno uma autonomia crítica, necessária para que ele seja capaz de enfrentar o mercado de forma mais competitiva.
Como comentado anteriormente, apesar do documentário retratar a realidade norte americana, muitos dilemas e embates são similares aos vivenciados nas escolas brasileiras, tal como, lidar com a avaliação do seu projeto sem que isso interfira na relação interpessoal é tarefa quase que impossível.
Por fim, a conversa indica que, em tempos de distanciamento social, novas práticas de ensino remoto mudarão drasticamente as rotinas dos ateliês. Se você quiser acompanhar mais sobre esse assunto clique aqui e escute o episódio. Até lá!
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