A França está a viver um “momento histórico capital”, resume o filósofo Diogo Sardinha, olhando para os resultados da primeira volta das legislativas em França. O académico diz que “o resultado é muito inquietante” porque “se vê a extrema-direita neofascista às portas do poder”, com graves consequências internas e internacionais, mas acredita que “a esquerda tem margem de manobra” para a segunda volta de 7 de Julho.
“Há momentos históricos que são capitais”, alerta o filósofo Diogo Sardinha ao olhar para os resultados da primeira volta das eleições legislativas deste domingo em França. A União Nacional, de extrema-direita, e os seus aliados, venceu com 33,1% dos votos, ultrapassando a Nova Frente Popular, de esquerda, que obteve 28% dos votos, e o movimento Juntos pela República, do Presidente Emmanuel Macron, que reuniu 20% dos votos.
O filósofo da Universidade de Lisboa avisa que “o resultado é muito inquietante” porque “se vê a extrema-direita neofascista às portas do poder” em França, o que pode levar a “um enfraquecimento da estrutura da União Europeia”. Porém, ainda que esta primeira volta seja “um balde de água fria” para a Nova Frente Popular, Diogo Sardinha acredita que “a esquerda tem margem de manobra” para a segunda volta no próximo domingo, 7 de Julho.
RFI: Cerca de dez milhões de franceses votaram pela extrema-direita. Como descreve este resultado da primeira volta das eleições legislativas em França?
Diogo Sardinha, Filósofo: "O resultado é muito inquietante por dois motivos. Primeiro, por aquilo que expressa em relação ao sentimento da população francesa e, por outro lado, pelo risco que representa de realmente haver uma mudança de governo que seja um governo da extrema-direita neofascista. Só para dar um exemplo, quando se vê o Jordan Bardella, representante da União Nacional - que é o mesmo nome do partido de Salazar em Portugal na ditadura - quando o vemos vestido de fato cinzento escuro, gravata negra, cabelo curto, risca ao lado, ar marcial, isso é a estética fascista e nazi. É preciso dizer as coisas tal como são."
Isso é a forma. Vamos ao conteúdo.
"Mas é que a forma é essencial! Quando se pensa nos regimes fascistas, quando se pensa nos regimes históricos - em Portugal aconteceu o mesmo, aconteceu na Alemanha, aconteceu na Itália - são regimes da estética. Se viu ontem a conferência de imprensa, a primeira parte em que o Bardella toma a palavra, nem a parte vermelha da bandeira francesa aparece. O fundo é cinzento claro, ele está vestido de cinzento escuro, gravata preta. Veja o corte de cabelo dele e compare um bocadinho com o corte de cabelo dos dirigentes nazis: cabelo curto, sem patilhas, risca ao lado. É exactamente a mesma estética e aquilo não é um acaso. Eles sabem que aquele tipo de estética, em certos momentos da sociedade, tem um poder sedutor. Portanto, nós que sabemos isso, quando vemos essa estética reaparecer hoje, temos que saber que há uma reclamação directa da história da parte daquelas pessoas. Aquilo é mais do que uma piscadela de olho ao passado, aquilo é um recuperar, é um assumir de uma estética que é uma estética ligada a um certo regime político."
Qual regime político?
"Um regime político fascista e, em França, um regime político de colaboração com o nazismo. Claro, isso é evidente."
Sociologicamente, o que é que explica esta vitória da extrema-direita? Há pouco disse que expressa algo em relação à população francesa. O que é? Uma crise de representação daqueles que não se sentem representados em França, que se sentem esquecidos?
"Primeiro, deixe-me dizer uma coisa: não é toda a população francesa que vota pela União Nacional. Isto é muito importante dizer. Há um grupo importante de pessoas, um grupo crescente de pessoas que vota e que assume explicitamente as suas escolhas no discurso quotidiano. Nós que estamos ligados ao mundo lusófono, não podemos esquecer-nos do que aconteceu no Brasil nos últimos 10, 15 anos. Houve realmente uma massa de população em conjunto com certos poderes, o poder dos media, o poder judicial que levou Bolsonaro ao poder e o bolsonarismo. Houve muita gente que lutou contra isso e até agora, pelos vistos, conseguiram recuperar. Portanto, não são os franceses que estão a votar pelo fascismo e pela União Nacional."
Ainda assim, é um terço… São 33% dos votos expressos na primeira volta…
"33% de 65% da população. Não foi a população toda que votou. E depois, se juntar os votos da Nova Frente Popular com os votos do partido de Macron, etc, supera largamente os votos da União Nacional. Portanto, não é a maioria dos franceses. Agora, é claro que é uma parte importante dos franceses que vota e que está profundamente descontente. Um descontentamento que vai crescendo há vários anos e que explodiu nos últimos anos com a política seguida pelo Emmanuel Macron. Isso é evidente. Quer dizer, quando ele apresenta o programa dele em 2016, para a primeira eleição de 2017, que é um programa de liberalização de tudo e mais alguma coisa, pronto, aqui estamos, oito anos mais tarde, sete anos mais tarde, a ver os efeitos."
O que é que o terceiro lugar do movimento do Presidente, “Ensemble pour la République” [Juntos pela República], representa? O Presidente Emmanuel Macron abriu as portas do poder à extrema-direita?
"Bom, isso já sabíamos que ele estava a abrir as portas do poder à extrema-direita no momento em que ele decidiu dissolver a Assembleia, portanto, isso não é propriamente uma novidade. Ele é intocável, ele é Presidente da República, será Presidente da República até 2027, de qualquer modo, não pode ter novo mandato. Agora, a política dele, a política de liberalização de tudo, dos serviços, de tudo pôr em concorrência a todos os níveis, essa política vemos bem que não era aquilo de que a França precisava e não é aquilo que torna as pessoas satisfeitas. Pelo contrário, a França não precisava daquilo. Repare até nos défices orçamentais franceses que explodiram e que são censurados pelas instâncias da União Europeia. Por outro lado, a população continua descontente e tão descontente que se volta agora para o extremo oposto, digamos assim."
A Nova Frente Popular aparece em segundo lugar na primeira volta. Juntou todas as forças de esquerda, ainda assim, não foi suficiente para bater a extrema-direita. Isto é o quê? Um balde de água fria? Era o esperado? Ou os dados ainda não estão todos jogados e ainda se pode esperar uma mudança na segunda volta?
"Eu penso que é tudo isso ao mesmo tempo. Em relação ao que vai acontecer, por um lado, não podemos saber e, por outro lado, como disse quando falei há pouco do exemplo do Brasil e há outros exemplos, é preciso nunca perder a esperança que há a possibilidade de a situação não se tornar completamente dramática. E é preciso bater-se para isto. As pessoas desses partidos da esquerda da Nova Frente Popular batem-se, com certeza, nesse sentido. Claro que é um balde de água fria porque se vê a extrema-direita neofascista às portas do poder e, ao mesmo tempo, tudo isto já era esperado. Quer dizer, é uma receita que já está sendo cozinhada há bastante tempo. Nós sabemos que, a dada altura, o prato vai estar pronto e o prato agora está pronto e está prestes a ser servido. Vamos ver se ainda conseguimos impedir a coisa ou não."
As projecções dos institutos de sondagens antecipam uma larga maioria relativa de, pelo menos, 240 assentos parlamentares para a extrema-direita ou mesmo uma curta maioria absoluta [que começa com 289 deputados em 577]. Isto são só projecções, mas o que é que se pode esperar da segunda volta no domingo? A esquerda ainda tem margem de manobra?
"A esquerda tem margem de manobra. Resta agora saber como é que se vai comportar o eleitorado do centro, os 20% de pessoas que votaram pelo partido de Macron. Há algumas outras, de menor percentagem, que votaram pelo centro-direita, por aquela direita republicana. Essa própria direita republicana está muito dividida. Uma parte delas vai votar na União Nacional e depois vamos ver como é que se comportam as pessoas.
Agora repare, há muita gente que faz política e que está na política institucional, que já está a dizer que não vai inteiramente apoiar a união de esquerda por vários motivos que eles vão explicando. É claro que alguns desses motivos podem até ser sérios, mas há outros motivos que são tácticos. São pessoas que já estão a ver que a União Nacional vai governar ou vai ter um peso importante e elas querem estar bem com essas pessoas. Algumas dizem-no explicitamente - como o presidente d’Os Republicanos, o antigo partido de Sarkozy, que rompeu e levou uma parte do partido para a União Nacional. E depois há outros que moderam o discurso porque, no fundo, não se querem comprometer."
À esquerda, os líderes políticos apelaram aos candidatos para abandonarem, no caso de triangulares, para evitarem a vitória da extrema-direita. Ao centro e direita, o partido de Macron apelou a uma “frente republicana” contra a extrema-direita, mas sem precisar se isso inclui a França Insubmissa, que faz parte da Nova Frente popular, quando no seu partido e também n’Os Republicanos, várias personalidades se manifestaram contra o voto na França Insubmissa. Isto mostra uma grande divisão que também deve deixar os eleitores confusos. Que comentário faz?
"O comentário que isto merece e que há momentos históricos que são capitais. Na vida quotidiana, as coisas vão andando um bocadinho mais à direita, um bocadinho mais à esquerda, muita gente vai sofrendo com problemas económicos, etc. Depois, há momentos capitais, há momentos em que as coisas - de repente e infelizmente para nós todos - começam a aparecer entre o branco e o negro. E nesses momentos é preciso saber de que lado é que estão as pessoas. Estamos a viver um momento desses e veremos o que acontece, como é que cada um tomará as suas posições. Há muita gente de um centro direita clássico, como o Dominique de Villepin, que foi primeiro-ministro de Jacques Chirac, que já disse que é preciso votar contra a União Nacional. Depois há outros que dizem é preciso votar, mas não votando na França Insubmissa… São maneiras de distrair e dizer que eu estou do lado dos bons, mas também não em excesso. São pessoas que estão a pensar no que virá depois e que não querem estar em más relações com a família Le Pen. A política também é feita disso. A política também é feita dos interesses comezinhos de uns e de outros, para quem a história não é muito importante, o que é importante são as suas carreiras e os seus estatutos e os seus salários."
A estratégia da direita e da extrema-direita tem consistido, de certa forma, em “diabolizar” Jean-Luc Mélenchon, o líder da França Insubmissa, apresentado como uma ameaça. Não seria mais simples que ele se retirasse, por exemplo, dos nomes possíveis para primeiro-ministro em caso de vitória da esquerda?
"Não sei e não creio que ele o faça. O que é importante é ver o seguinte: claro que a extrema-direita tem que encontrar inimigos para dizer: “Atenção, aqueles são o perigo, o senhor Mélenchon é o perigo, ele e os dele, os da França Insubmissa. Isso é o papel da extrema-direita, encontrar o seu inimigo, seguindo a velha lógica da política como amigo inimigo, encontra o seu inimigo e depois tenta destruí-lo. Ora, o que é preocupante é que as pessoas que não estão ainda na extrema-direita ou que não querem estar na extrema-direita não rompam com este discurso, que é o discurso do Macron que diz que “há dois extremos e um ou outro nos conduz à guerra civil”. Isto é falso! Isto é uma estratégia politiqueira que não funciona e ainda por cima é falsa. Isto só serve para aumentar a inquietação e as tensões na sociedade. E isto prejudica claramente a política nacional e, por conseguinte, porque se trata da França, a política europeia e internacional também."
Quando começámos esta conversa, começou por falar do perigo que poderia representar um governo de extrema-direita em França. Ora, pela primeira vez na história, em França, os franceses estão a ponto de escolher pelas urnas um primeiro-ministro de extrema-direita. O que é que isto representa para a História de França?
"Bom, para a História da França, o que pode representar, no curto prazo, é um endurecimento das políticas em vários domínios: o endurecimento da política da imigração, o endurecimento da política de estabilização da sociedade pela atribuição de subsídios e de apoios aos mais desprotegidos. De qualquer modo, quem for governar vai ter um défice orçamental importante e eu não sei como é que vai resolver isso.
Eu penso que vai haver um enfraquecimento da estrutura da União Europeia. A França é um dos países-chave da estrutura da União Europeia e nós sabemos que esta extrema-direita neofascista não é apologista da União Europeia porque é precisamente apologista do nacionalismo. É por aí que eles fundam os seus argumentos e é por aí que conseguem também captar votos. Muita gente cai no erro de pensar que é voltando à nação de antigamente e acabando com a imigração que se resolvem os problemas dessas pessoas, quando não é. Qual é o país europeu hoje da Europa ocidental, que pode viver sem imigração? Os nacionais não têm mais filhos, têm um filho, têm dois. Quem é que vai trabalhar na construção civil? Quem é que vai trabalhar nas limpezas? Quem é que vai fazer esses trabalhos pouco qualificados? São os imigrantes. Como é que um país funciona hoje sem esse tipo de trabalho e sem esse tipo de mão-de-obra que, ainda por cima, é mão-de-obra explorada e mal paga?"
Em termos internacionais, esta é a primeira vez que há esta possibilidade de um grande país europeu fundador poder adoptar um partido anti-europeu à frente do Governo. Já tínhamos, por exemplo, a Itália, a Hungria, agora temos o espectro norte-americano do regresso de Donald Trump. Que consequências para a Europa e para o mundo, nesta altura, se a França tiver um Governo e um Primeiro-Ministro de extrema-direita?
"Falar do mundo é uma coisa muito vasta que não podemos fazer em três minutos, mas podemos falar um pouco da Europa. Houve um momento de abertura, de estabilização, de construção de um Estado social relativamente forte, com uma segurança social, com apoios. Porque o drama da guerra foi imenso, a Primeira Guerra Mundial, a Segunda Guerra Mundial, mas consideremos, como fazem alguns historiadores, que é uma guerra de 30 anos que começa em 1914 e termina em 1945. Houve tantos milhões de mortos, houve tantos crimes, houve tantos extremos que depois disso, conseguimos ter 70 anos de paz e de, mais ou menos, tranquilidade. Pode ser que esse ciclo, que nunca se viveu na história da Europa, esteja a terminar. Quer dizer, não vai terminar hoje ou amanhã, mas há cada vez mais sinais de que, por diversos motivos, há um fechamento da Europa, um fechamento de alguns países sobre si mesmos. As consequências que daí advirão, a médio e longo prazo, receio que sejam trágicas. Mas, cada dia é um dia e é, por isso, que é preciso não antecipar os resultados das eleições francesas que ocorrerão no domingo."