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Até dia 22 de Novembro, os países reunidos na COP29 em Baku, no Azerbaijão, tentam encontrar o financiamento necessário para ajudar os países em desenvolvimento na transição energética e na adaptação às catástrofes climáticas. Actualmente, os Estados extremamente frágeis recebem apenas cerca de 2 dólares por pessoa em financiamento anual para adaptação climática, um valor muito aquém dos 161 dólares por pessoa atribuídos nos Estados não frágeis.
Até dia 22 de Novembro, os países reunidos na COP29 em Baku, no Azerbaijão, tentam encontrar o financiamento necessário para ajudar os países em desenvolvimento na transição energética e na adaptação às catástrofes climáticas. Negociações difíceis numa COP marcada por ausências de peso, como a França, Alemanha ou Estados Unidos e com o ocidente a alegar dificuldades orçamentais.
Segundo um relatório do ACNUR apresentado esta semana, actualmente, os Estados extremamente frágeis recebem apenas cerca de 2 dólares por pessoa em financiamento anual para adaptação climática, um valor muito aquém dos 161 dólares por pessoa atribuídos nos Estados não frágeis.
As alterações climáticas já forçaram milhões de pessoas, em todo o mundo, a abandonarem as suas casas e o aquecimento global do planeta está a agravar as condições já “infernais” enfrentadas por estes deslocados. O alerta é da agência da ONU para os Refugiados e consta do relatório “No Escape: On the Frontlines of Climate, Conflict and Displacement" ("Sem escapatória - Na linha da frente do clima, conflitos e deslocações”, numa tradução livre), apresentado na terça-feira, 12 de Novembro, na COP 29 em Baku.
À margem do segmento de alto nível da Conferência das Nações Unidas sobre Alterações Climáticas, o Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados (ACNUR) aproveitou para lembrar como o aumento das temperaturas e a multiplicação dos fenómenos meteorológicos extremos impactam a vida dos refugiados e dos deslocados. O ACNUR apela a investimentos mais significativos e eficazes.
No documento, a agência das Nações Unidas para os Refugiados sublinha que as alterações climáticas e os conflitos estão interligados, sujeitando as pessoas já em perigo a situações ainda piores, como no Sudão, na Somália ou na Birmânia.
“No nosso mundo em aquecimento, a seca, as inundações, o calor mortal e outros fenómenos meteorológicos extremos criam situações de emergência com uma frequência alarmante”, ressalva o chefe do ACNUR, Filippo Grandi, no prefácio do relatório. “As pessoas forçadas a fugir dos seus lares estão na linha da frente desta crise”, acrescenta.
O documento indica que 75% dos deslocados vivem em países fortemente ou extremamente expostos aos riscos climáticos e “à medida que a velocidade e a escala das alterações climáticas aceleram, este número só continuará a aumentar”.
Dados recentes do Centro de Monitorização de Deslocados Internos referem que os desastres meteorológicos forçaram cerca de 220 milhões de pessoas a fugir dentro dos seus países na última década. O ACNUR lamenta a grave falta de fundos para apoiar os que fogem e as comunidades que os acolhem: “Estamos a ver uma situação que já é infernal a tornar-se ainda mais difícil”.
Até 2040, o número de países em todo o mundo expostos a riscos climáticos extremos deverá passar de três para 65, a grande maioria destes países acolhe populações deslocadas. Até 2050, a maioria dos campos e instalações de refugiados deverá enfrentar o dobro dos dias com temperaturas perigosamente elevadas em comparação com hoje, alerta o relatório do ACNUR. Um perigo imediato para a saúde e a vida dos refugiados, mas também para as colheitas e o gado.
As alterações climáticas vão também piorar a já difícil situação humanitária na África Austral, onde se situam Angola e Moçambique, avança o mesmo relatório.
Isadora Zoni, responsável do ACNUR em Pemba, norte de Moçambique, sublinha que 75% dos deslocados vivem em países forte ou extremamente expostos aos riscos climáticos. Em entrevista à RFI, a responsável da agência da ONU deu conta das linhas gerais do documento agora publicado e traçou uma radiografia do actual estado dos deslocados em Moçambique.
RFI: Quais são as linhas gerais deste relatório?
Isadora Zoni: Falamos de 120 milhões de pessoas que estão deslocadas à força globalmente, o dobro da última década. 75% dessas pessoas vivem em países com exposição alta a extrema a desastres climáticos. Os desastres climáticos causaram 200 milhões de deslocamentos internos na última década, o que equivale a cerca de 60 mil deslocamentos por dia. Então, quando falamos de clima, estamos a tratar também das pessoas deslocadas, também das pessoas que são forçadas a fugir.
Por exemplo, sobre a África: a mudança climática é a maior ameaça hoje ao desenvolvimento no continente africano, ocupando desproporcionalmente os países mais pobres e agravando outros factores e fragilidades. Embora a África contribua minimamente para as emissões globais enfrenta graves impactos climáticos. Essa situação destaca tanto a vulnerabilidade quanto o potencial de resiliência do continente, à medida que se adapta e transita para um desenvolvimento de baixo carbono.
O relatório do ACNUR indica que estados extremamente frágeis recebem apenas 2 dólares por pessoa anualmente em financiamento para adaptação, enquanto Estados não frágeis recebem 161 dólares, evidenciando uma disparidade no financiamento climático global. Quando falamos desse tema, a importância para o ACNUR é, realmente, que as pessoas deslocadas, refugiadas ou deslocadas internas, façam parte dessa discussão, sejam parte desses meios e desses espaços políticos, para que discutam também o sistema climático e como isso afecta o dia-a-dia delas.
Além dos efeitos evidentes, que são as inundações, as chuvas torrenciais, etc… há outras questões como, por exemplo, a seca, que é um efeito das alterações climáticas e que faz com que as pessoas também se desloquem, além de provocar conflitos.
A exemplo disso, no relatório, diz-se que até 2050 a maioria dos campos de refugiados experimentará o dobro dos dias de calor perigoso, acima de 41 graus Celsius, afectando mais de 600 locais globalmente.
Quando falamos da questão climática, é claro que talvez ao público é mais evidente aqueles que são os impactos directos, as enchentes, os grandes deslocamentos, mas temos que também penar como é que a questão climática agrava já um cenário bastante duro.
Em África, o conflito no Sudão deslocou mais de 11 milhões de pessoas, com o Chade a abrigar 70 mil refugiados sudaneses. Além das dificuldades da resposta humanitária, o Chade é um dos países mais vulneráveis a riscos climáticos.
Outros exemplos são as secas e inundações no Quénia, na Somália e na Etiópia. Em 2022, por exemplo, 1,3 milhões de pessoas foram deslocadas na Somália devido à seca.
Olhando para o sul de África, vemos em Moçambique secas prolongadas, intensificando a migração rural-urbano, e as pressões climáticas aumentando os riscos de conflitos ao longo do corredor migratório, como em Moçambique e na África do Sul. Infelizmente, o cenário parece estar cada vez mais difícil porque os países que enfrentam riscos climáticos extremos devem aumentar de três para 65 até 2040, muitos dos quais hospedam populações deslocadas.
Está baseada em Pemba, em Moçambique, um dos países mais vulnerável às alterações climáticas. Qual é a situação actual?
Realmente, Moçambique está entre os 10 países mais vulneráveis às alterações climáticas no mundo e ocupa o primeiro lugar em África. O país sofre cada vez mais com a grande variabilidade climática, estando exposto a ciclones tropicais, inundações e secas.
Apenas um ano após o ciclone Gombe, que deslocou 130 mil pessoas, o ciclone Fred atingiu Moçambique, afectando oito das dez províncias do país. Deslocou aproximadamente 184 mil pessoas e deixou 1,1 milhão de pessoas necessitando de assistência humanitária. Mais recentemente, agora em 2024, a tempestade tropical Filipo deslocou 48 mil pessoas e causou extensos danos em infra-estruturas, incluindo estradas, centros de saúde e habitações. O cenário é bastante complicado, porque falamos também de um país que, infelizmente, conta com deslocados devido ao conflito [ataques terroristas no norte].
Em Janeiro de 2024, Moçambique contava com mais de 700 mil deslocados internos devido a conflitos e eventos relacionados com o clima. Os deslocados são particularmente vulneráveis aos choques climáticos, muitas vezes carecendo de recursos e apoio para se adaptar.
A população deslocada, especialmente no norte e centro de Moçambique, enfrenta riscos de protecção elevados devido à insegurança alimentar e às limitadas opções de subsistência.
Quando falamos, por exemplo, dos impactos [dos fenómenos climáticos], referimo-nos à infra-estrutura precária dos locais de deslocados internos, com estradas e drenagens inadequadas, que expõe os moradores a um risco contínuo. O desmatamento também é um problema significativo, pois os moradores dependem da lenha e de materiais de construção insustentáveis. Isso aumenta a erosão do solo, agravando os riscos de enchentes e danos ambientais.
Apesar da insegurança contínua, Moçambique tem um outro movimento, que é o movimento de retorno. É um contexto bastante activo de pessoas que se deslocam e de outras pessoas que tentam regressar, mas que vivem expostas a uma situação bastante imprevisível, tanto climática quanto em relação ao conflito.
Traçado este cenário, o que é que se poderia esperar desta COP? Mais financiamento?
Eu acho que existe uma expectativa de que haja maior financiamento, maior responsabilidade dos países que poluem para com aqueles que são os mais vulneráveis. Nós também precisamos entender a componente humana que faz parte da questão climática. Muito se fala sobre mercado de carbono, sobre poluidores e poluídos, quanto tempo temos e se temos tempo. Mas devemos voltar a trazer essa questão humana, das pessoas que são afectadas, como as pessoas mais vulneráveis são cada vez mais afectadas? A questão humanitária não se restringe somente ao assistencialismo, mas em como pensar isso de uma perspectiva de desenvolvimento, numa perspectiva de investimento.
Eu acho que é uma oportunidade para trazermos essas pessoas para o centro dessa discussão, para que elas possam também estar empoderadas e incluídas, para falarem sobre suas necessidades, prover evidências para que fique claro onde e como as intervenções podem ser feitas, para que exista um impacto real.
A Amnistia Internacional defende que os líderes da COP29 devem dar ouvidos às exigências de justiça climática, colocando os direitos humanos no centro das tomadas de decisão. A organização alarga a análise e aponta o dedo ao ataque contínuo do Governo do Azerbaijão à sociedade civil. Diz a Amnistia que deve ser feito mais do que foi feito nos Emirados Árabes Unidos ou no Egipto para garantir a segurança, a protecção e os direitos de todos”
A Amnistia Internacional defende que os líderes da COP29, reunidos em Baku, Azerbaijão, devem dar ouvidos às exigências de justiça climática, colocando os direitos humanos no centro das tomadas de decisão.
A organização alarga a análise e aponta o dedo ao ataque contínuo do Governo do Azerbaijão à sociedade civil. A AI lembra que Baku tem historial “terrível” em termos de respeito pela liberdade de expressão e dissidência e pede aos estados medidas para proteger a liberdade de expressão e de protesto pacífico para todos os participantes na COP29.
Diz a Amnistia que deve ser feito mais do que foi feito nos Emirados Árabes Unidos ou no Egipto para garantir a segurança, a protecção e os direitos de todos”
Em declarações à RFI, Miguel Marujo, director de comunicação da Amnistia Internacional Portugal, avança que a “A Amnistia Internacional espera que nesta COP29, os líderes dos Estados representados, dêem ouvidos às exigências de justiça climática, uma exigência que coloque também os direitos humanos no centro de todas as tomadas de decisão e que haja um compromisso em aumentar massivamente aquilo que é o financiamento climático baseado nas necessidades e apoiando uma eliminação total, rápida, justa e financiada dos combustíveis fósseis em todos os sectores de actividade.”
Ao mesmo tempo, a Amnistia Internacional “espera que haja uma protecção aos direitos e à liberdade de expressão, de associação e de reunião pacífica de todos os participantes nesta COP29, que se realiza no Azerbaijão, que é um país que tem uma prática muito complicada em termos de direitos humanos, onde as liberdades de expressão, associação e reunião pacífica são severamente restringidas e por isso, a amnistia também apela nesse sentido que haja uma protecção à liberdade de expressão e de reunião e manifestação durante a Conferência das Nações Unidas”, acrescenta.
A COP29 decorre até dia 22 de Novembro em Baku, no Azerbaijão.
Aisha Dabo, co-fundadora do movimento Africtivistes, que reúne activistas dos direitos humanos em cerca de 40 países, falou à RFI sobre a situação em Moçambique e disse que é preciso uma intervenção da SADC e da União Africana que leve ao apaziguamento entre Governo e oposição.
Aisha Dabo, co-fundadora do movimento Africtivistes, esteve em Paris para participar no Forum da Paz, onde falou sobre os perigos da desinformação e como a sociedade civil tenta combater este mal que se acelerou com a disseminação de informação nas redes sociais. Esta activista instalada no Senegal considera que a situação em Moçambique é "deplorável" e que deveria haver transparência em relação aos resultados eleitorais, assim como respeito pelos direitos dos manifestantes que saem diariamente às ruas.
"Estamos a acompanhar a situação com muita preocupação e é realmente lamentável que em 2024 haja uma crise a seguir às eleições, não digo que um grupo está certo ou o outro está errado, mas penso que as eleições devem ser organizadas de forma transparente para evitar situações de questionamento, porque a oposição está neste momento a dizer que houve fraude e que há situações em que os seus representantes não puderam assistir à contagem por diferentes razões. Portanto, esta é de facto uma situação deplorável e esperamos que haja um fim pacífico para a crise. Estamos a apelar à calma porque já existe uma crise com os grupos terroristas em Cabo Delgado. Por isso, não devemos agravar a situação, o que irá desestabilizar ainda mais o país. E é verdadeiramente deplorável que se tenha chegado a este ponto", indicou Aisha Dabo.
O movimento Africtivistes lançou na semana passada um comunicado sobre a situação em Moçambique e Dabo pede agora uma intervenção da SADC, Comunidade de Desenvolvimento da África Austral, e da própria União Africana para apaziguar o clima de tensão no país, promovendo o diálogo entre Governo e oposição.
"Cada grupo económico regional deve ser o primeiro a tratar dos problemas da sua região. Por isso, a SADC tem de fazer mais para garantir que esta situação seja resolvida e que se ponha fim a esta situação, porque se ela continuar, haverá mais pessoas deslocadas que se tornarão refugiados nos países vizinhos. Por isso, precisamos de um maior envolvimento da SADEC e, claro, da União Africana para podermos falar com os dois grupos, tanto com a oposição como com o partido no poder e os seus representantes", declarou.
Também no espaço lusófono, o movimento Africtivistes está preocupado com a situação na Guiné-Bissau, onde as eleições legislativas foram adiadas. Para Aisha Dabo deve haver uma reflexão profunda sobre o futuro do sistema de governação neste país africana.
"Devem estar reunidas todas as condições para a realização de eleições pacíficas, livres e transparentes. O Presidente Embaló já deu a entender que não se vai candidatar, o que é positivo. Agora, deve pensar no legado que deixará ao país, assegurando a organização de eleições transparentes, livres, sem violência nem agitação, para que possa partir com dignidade e tranquilidade. E na minha opinião, e esta é a minha opinião pessoal, penso que talvez depois das eleições, as várias instituições na Guiné-Bissau, incluindo a sociedade civil, toda a sociedade civil, sejam confissões religiosas, sindicatos, movimentos, organizações comunitárias, devem decidir se este sistema de governação funciona para eles. Porque não é a primeira vez que há uma crise entre um chefe de Estado e o Parlamento. Se é um sistema que funciona para eles, devem encontrar formas de evitar que as pessoas sofram sempre que há desentendimentos entre o executivo e o legislativo. Se é outro sistema que precisam e querem pôr em prática, tem necessariamente de ser através de um sistema de consulta com todos os cidadãos e decidir que forma de governação querem escolher para si próprios, são eles que decidem. Cabe ao povo da Guiné-Bissau decidir se quer mudar o sistema ou mantê-lo", concluiu a activista.
Arrancou esta segunda-feira, 11 de Novembro, a Conferência das Nações Unidas para as Alterações Climáticas. A COP 29 decorre este ano em Baku, Azerbaijão. Carlos Lopes, professor na Universidade do Cabo, sublinha a necessidade de se repensar o financiamento climático e defende que os países africanos não deveriam ter de pedir dinheiro emprestado para resolver os problemas climáticos que não causaram.
Arrancou esta segunda-feira, 11 de Novembro, a Conferência das Nações Unidas para as Alterações Climáticas. A COP 29 decorre este ano em Baku, Azerbaijão. Já conhecida como a conferência dos financiamentos, em Baku, espera-se que as partes - mais de 200 países divididos em grupos - acordem um novo montante para ajudar os países em desenvolvimento a se adaptarem e a atenuarem os efeitos das mudanças climáticas.
A cimeira inicia-se duas semanas após a publicação de um relatório da Organização Meteorológica Mundial, que indica que os níveis dos três principais gases com efeito de estufa (GEE) que contribuem para o aquecimento global do planeta - dióxido de carbono, metano e óxido nitroso - voltaram a aumentar em 2023.
África é responsável por apenas 4% das emissões globais de gases de efeito estufa, mas grande parte do financiamento que recebe para transição energética, adaptação e mitigação acontece sob a forma de empréstimos, agravando a dívida dos países.
Carlos Lopes, economista, professor na Universidade do Cabo, África do Sul, sublinha a necessidade de se repensar o financiamento climático e defende que os países africanos não deveriam ter de pedir dinheiro emprestado para resolver os problemas climáticos que não causaram.
O actual momento político de “grandes convulsões”, aliado a um anfitrião da COP29 - Azerbaijão - apenas preocupado em assegurar o bom funcionamento logístico do encontro, faz prever o ‘chutar a bola’ para a COP 30. A verificar-se uma não conclusão deste imbróglio do financiamento climático, Carlos Lopes, que preside o Conselho da Fundação Africana para o Clima, alerta que no próximo ano, no Brasil “a situação vai ser ainda mais complicada”.
RFI: O que é que a África pode esperar desta COP 29?
Carlos Lopes: Temos grandes esperanças de que os posicionamentos da África possam demonstrar que temos uma crise de financiamento climático que precisa de ser resolvida a um outro nível que as promessas que são feitas COP após COP.
Na realidade, depois da COP 28 [Dezembro 2023] há um determinado número de promessas que foram feitas pelos Emirados Árabes Unidos e por outros países intermédios, que não tinham obrigações no Acordo de Paris de contribuir para essas soluções climáticas nos países menos desenvolvidos, que foram cumpridas. Mas, as promessas feitas pelos países que tinham essas obrigações, os países desenvolvidos, nomeadamente membros da OCDE, não se cumpriram e continua a ser um acumular de déficits vários de promessas não cumpridas.
Isto leva a que exista, neste momento, uma situação de tal desconfiança em relação ao sistema multilateral, que seguramente não vai poder ser resolvida em Baku, até porque o Azerbaijão decidiu posicionar-se mais como um hóspede da COP do que um actor para tentar levar a uma conclusão deste imbróglio do financiamento climático.
Em relação ao financiamento, levantam-se várias questões: que tipo de financiamento? Empréstimos? Doações? Investimentos privados? Há falta de clareza. Além da vontade da redefinição dos países doadores e dos beneficiários, os países ditos desenvolvidos querem vincular novos poluidores, como a China, a Rússia, Arábia Saudita ou a Índia, entre outros. E esses países, apesar de já contribuírem, não querem essa vinculação.
O Acordo de Paris é bastante claro nestas matérias, mas tem havido tentativas de reinterpretação do Acordo de Paris que são rechaçadas pelos países em desenvolvimento. Por exemplo, no que diz respeito às promessas de financiamento e os tais 100 bilhões de dólares de contribuições anuais para a questão climática, segundo a OCDE, teriam já sido atingidos a partir do ano passado, depois de vários anos de déficit em relação a essa promessa. Acontece que esses 100 bilhões têm que ser contabilizados como ajuda ao desenvolvimento.
Quando incluem na estatística os empréstimos em taxas comerciais para vários países, como fazendo parte dos 100 bilhões, estamos a confundir ‘alhos com bugalhos' e, portanto, estamos muito longe dos 100 bilhões em termos de ajuda ao desenvolvimento.
O que existe são 100 bilhões, segundo as estatísticas que nos foram apresentadas, de contribuições para as questões climáticas. Mas é muito diferente do que diz o Acordo de Paris. Idem em relação às responsabilidades de emissões, porque existem as responsabilidades de emissões históricas - que têm a ver com o acumular que levou à crise que vivemos. Confundir isso com o estado de desenvolvimento de certos países que começaram a emitir há muito pouco tempo a taxas elevadas, não é a mesma coisa que o princípio estabelecido, mesmo antes da Conferência de Paris, de responsabilidades partilhadas, mas diferentes. Diferentes, porque se aceita que existe uma responsabilidade histórica que não é a mesma para todos os países.
Se queremos agora actualizar essa interpretação, temos que fazê-lo também em termos políticos. O mundo não mudou só em matéria climática e de emissões, mudou em todos os sentidos e, se continua a haver por parte das Nações Unidas no Conselho de Segurança, por parte das instituições de Bretton Woods, o sistema de votação, um sistema de poder que não condiz com a realidade actual, não é só em matéria de emissões que se deve fazer a actualização. Portanto, é isto que dizem os países em desenvolvimento: ou se faz uma reviravolta completa na forma como nós concedemos a assimetria de poder dentro do sistema multilateral ou não se pode estar a actualizar só em relação às emissões, porque não se quer pagar o custo das promessas que foram feitas em Paris.
A questão do financiamento foi precisamente o que fez com que a COP 16 da biodiversidade terminasse sem acordo. As baterias viram-se agora para a Baku, provavelmente vai sair-se da COP 29 também sem acordo, precisamente por causa da falta de consensos no financiamento entre Norte e Sul.
Sim, porque estamos num momento geopolítico de grandes convulsões. Se olharmos, por exemplo, para o grupo do G7: as posições de um país com a importância dos Estados Unidos; se olharmos para a França, está com um Governo que está ainda para ser confirmado pelo Congresso; o Japão está numa situação idêntica à da França; a Alemanha está no seu pior momento económico e com grandes repercussões na sua indústria automobilística, que é a que emprega mais gente por causa, justamente, da reconversão energética que implica a mobilidade verde. Temos aqui um conjunto de países do G7 e podemos até incluir os outros que não mencionei, que estão numa situação um pouco melhor do ponto de vista político, mas também difícil do ponto de vista económico, que não é muito convidativa para fazer grandes saltos em matéria de clima. Por isso é que vemos que a União Europeia está a reduzir um pouco a sua ambição, o plano verde da Grã-Bretanha também diminuiu consideravelmente a ambição com este novo governo e por aí vamos…
Portanto, não se pode exigir que, no momento em que há uma retracção dos países mais ricos, que sejam os países mais pobres a fazer mais esforço. Quer dizer, se eles cumprissem o que já prometeram, seria mais fácil exigir também um maior nível de ambição por parte dos países mais vulneráveis, mas não é isso que está a acontecer. Nem há perspectivas, do ponto de vista multilateral, que isso venha a acontecer.
E, portanto, nós estamos numa COP que está um pouco refém desta situação e que está com um hóspede, neste caso o Azerbaijão, que tem uma atitude muito diferente dos Emirados Árabes Unidos do ano passado. Os Emirados, no conjunto, puseram 23 bilhões de dólares, de dinheiro próprio, para tentar salvar um pouco a imagem da COP 28 e lançar uma série de iniciativas que eles mesmos financiaram.
O Azerbaijão até tem essa capacidade do ponto de vista económico, mas não está de maneira nenhuma interessado nessa atitude e, portanto, vai-se comportar um pouco como o que se ocupa da logística. Portanto, se os países não estiverem de acordo, não vão assumir a responsabilidade.
Acontece que toda a gente vai depois ‘chutar a bola’ para a COP 30 e para o Brasil e, aí, a situação vai ser ainda mais complicada, porque nós vamos ter esta crise de confiança multiplicada com a impossibilidade, em 2025, de poder alterar significativamente a rota de colisão que se vai estabelecer por razões várias entre os países mais poderosos do planeta.
O problema das alterações climáticas continua a ser empurrado, mas as consequências não são empurradas e existem. O ano passado foi o ano mais quente desde que há registo. Este ano vamos pelo mesmo caminho. Os efeitos agressivos das alterações climáticas sentem-se a cada dia. África é o primeiro continente a senti-lo. Mas também é quem menos contribui para o aquecimento global do planeta. Portanto, a África vai ter que tomar aqui uma posição nesta COP provavelmente mais forte para tentar inverter os papéis.
Esta questão da justiça climática é uma questão que preocupa muitos africanos, que estão no centro do furacão, já com consequências drásticas. As pessoas todas viram imagens do que se passou em Valência, Espanha, mas viram muito poucas imagens das 5 milhões de pessoas que foram deslocadas por causa de cheias, só na Nigéria. Temos essa situação praticamente em todo o Sahel e é apenas uma manifestação das várias que o continente tem vindo a registar, que são dramáticas e que levam a essa situação de grande desespero.
Acho que os negociadores africanos têm sido bastante vocais. Mas é evidente que há uma assimetria de poder e eles não conseguem nada destas COP’s e já começa a haver uma certa descrença de que as coisas vão acontecer.
Os combustíveis fósseis são os responsáveis pelas emissões de gases com efeito de estufa e automaticamente são os responsáveis pelo aquecimento global do planeta. De que forma é que os africanos devem olhar para os seus próprios combustíveis fósseis?
Da seguinte maneira: nós somos os que emitimos menos e mesmo que se explore todos os recursos de combustíveis fósseis, com excepção do carvão - que é, de facto, um combustível fóssil com grande perigo por ser o mais poluente, mas também por ter uma matriz industrial poderosa, com efeitos colaterais no sítio onde é explorado e sobretudo, olhando para o gás, explorando todos esses recursos novos que estão sendo descobertos - a África aumentaria marginalmente a sua contribuição para o problema. Marginalmente. A nível mundial, somos responsáveis por cerca de 3,8% das emissões. Passaríamos, talvez, para 4% e, portanto, isto não é nada.
Acontece que a maior parte dos grandes investimentos em combustíveis fósseis continuam a ser feitos pelos países ricos e mesmo os combustíveis fósseis que estão a ser explorados em África são, em grande parte, para exportação, não são para a industrialização do continente africano. Portanto, estar a exigir a África fazer mitigação, que é, no fundo, o que a sua pergunta implica, é hipócrita da parte daqueles que o pedem, porque a África tem sim necessidades de adaptação e para isso precisa de financiamentos. Se os financiamentos não vêm, é obrigada a recorrer aos recursos que lhe podem dar algum sustento.
Sem acesso a liquidez, que a África está impedida de obter, sem que as promessas de ajuda ao desenvolvimento se materializem, não há outra hipótese para os africanos se não tentar rentabilizar qualquer recurso que tenham à mão, porque eles não podem ser responsáveis pelos problemas que os outros criaram e que os outros não querem resolver.
Mas devem ou não os africanos esperar por financiamento externo para promoverem a sua transição energética? Ou, pelo contrário, devem ser eles próprios a taxar mais as empresas estrangeiras que estão a explorar os combustíveis fósseis em África, de forma a que consigam, pelo menos, financiar a parte da transição energética.
É um pouco mais complexo. Quer dizer, nós temos uma situação em que as empresas que estão presentes em África, são empresas que têm um regime de actuação e um sistema de financiamento na cadeia de valor, que os países africanos são demasiado vulneráveis para poder contornar completamente. Podem até, de uma certa forma, aumentar a sua eficiência fiscal, podem exigir algumas coisas laterais, mas não o fundamental do negócio, que é, de facto, dominado por empresas cujo montante em capital é superior ao PIB dos países. Não estamos aqui perante uma relação equitativa.
Acontece que os países que têm a possibilidade de regular esse mercado não o querem fazer porque essas empresas são suas e querem protegê-las. Portanto, temos aqui um segundo problema. Mas, posto de outra forma, é simples dizer que os africanos devem, sem nenhuma dúvida, optar pelas energias renováveis. Só que para o fazerem precisam de financiamento. Não é uma questão de ambição, é uma questão de ter pragmatismo. Portanto, se houver financiamento para as energias renováveis, passa a ser a única opção.
Tem que se olhar para onde o financiamento vai. Infelizmente, o financiamento continua a ir, em grande parte, para os combustíveis fósseis.
Os mercados de carbono devem voltar a ser debatidos na COP29. Há aqui uma série de dúvidas que se levantam. A disparidade dos preços dos créditos de carbono, que é desfavorável ao continente africano. Por exemplo, uma tonelada de carbono, que equivale a um crédito de carbono, tem como preço médio 10 dólares em África, 90 na Europa e 140 nos Estados Unidos. Além disso, há a falta de transparência. Depois, a perda de soberania dos Estados, que podem ceder grandes parcelas de território a empresas privadas para reabilitação de florestas e captura de carbono. Por fim, a questão essencial: os créditos de carbono servem, neste momento, para os poluidores continuarem a poluir e não para resolverem o problema das emissões.
Infelizmente, essa análise é correctíssima. Nós estamos perante uma situação em que o mercado de carbono - que tem um grande potencial se for utilizado com uma approach [abordagem] universal e ética - passa a ser apenas uma desculpa e um argumento para os grandes poluidores continuarem a poluir e para os intermediários beneficiarem, como sempre fizeram, com as várias formas de extracção da África, sendo que o mercado de carbono passa a ser um pouco mais do mesmo, ou seja, são os intermediários que beneficiam e não necessariamente aqueles que podem ter o crédito inicial.
Portanto, nós temos aqui uma situação que pode ser definida da seguinte forma: há países que beneficiaram do desenvolvimento económico que tivemos ao longo destes séculos, que não é de negligenciar e que permitiu a acumulação de riqueza, mas também permitiu uma grande diminuição da pobreza no mundo, etc. Mas, essa utilização dos recursos, da forma como foi feita, contraiu um enorme custo em termos de regeneração ambiental e, portanto, esse custo significa, em termos práticos, que os países que mais beneficiaram têm uma dívida de carbono e os países que não contribuíram para o problema, mas que foram extraídos de uma grande riqueza natural, têm um crédito de carbono.
Como é que balançamos esta dívida em relação a este crédito? Deveria ser através de financiamento climático, através de uma resposta comum, que são as tais responsabilidades diferenciadas com objectivo comum. Se isso não for feito, vamos ter no mercado de carbono, como noutras frentes, a mesma demonstração de desigualdade.
Portanto, estamos perante um dilema em que até aqui falamos de desenvolvimento e nos últimos 20, 30 anos começamos a falar de clima, como se fossem duas coisas diferentes: financiamento para o desenvolvimento e financiamento para o clima. Acontece que não existe nenhum financiamento para o clima, do ponto de vista dos países em desenvolvimento, que não seja também financiamento para o desenvolvimento, ou seja, o envelope é o mesmo. Nós estamos a mudar um pouco a linguagem. E será que esse envelope está a aumentar? Não, está a diminuir, no seu conjunto está a diminuir. Portanto, existe um discurso que é de emergência planetária e existe um comportamento que é o de passar um pouco para um 'status quo' ou até uma retracção em relação às promessas que foram feitas anteriormente.
A ilha de São Vicente acolhe até este sábado, o festival internacional de teatro do Mindelo, o Mindelact, que este ano é dedicado ao tema "Pérola", para marcar os 30 anos do maior festival de teatro de Cabo Verde e um dos eventos de artes cénicas mais célebres do continente africano. A RFI conversou, no Centro Cultural do Mindelo, com a actriz, Zenaida Alfama, produtora da 30ª edição do festival de teatro Mindelact. Zenaida Alfama disse que os 30 anos do evento são muito especiais.
“É edição especial porque estamos a fechar um ciclo, digamos assim. 30 anos, não é brincadeira, tendo todas as dificuldades, mas temos conseguido manter o festival, mesmo na época mais difícil que foi a época de Covid, é um festival que não parou, fizemos o festival mesmo com todas as dificuldades. Este ano é um sabor maravilhoso porque é como ver algo a crescer a cada dia que passa, mesmo se temos sempre algumas dificuldades, porque somos ilhas, para trazer pessoas. Ás vezes as pessoas ficam retidas, qualquer dificuldade que temos, mas é sempre uma satisfação depois ver o público alegre, o público a relembrar. Fizemos uma exposição que é dos 30 anos do festival e as pessoas a relembrar, eu vi, eu já lembro, e é como ver uma criança que cresceu e agora está num patamar de adulto. Agora a esperança é que continue sempre nesse patamar e que melhore as condições de espaço e essas coisas que precisam ser melhoradas, que consigamos melhorar tudo isso para que o festival continue. Essa exposição que está ali a marcar os 30 anos, em foto, fica aqui com alguma nostalgia, é essa ideia mesmo de tocar o coração das pessoas”, disse Zenaida Alfama.
A responsável do Festival também deu conta da satisfação que é ter artistas de vários países a passarem pelos palcos do Mindelact,“como uma senhora de 81 anos de idade que veio do Brasil para apresentar um espectáculo, já que está com previsão, do próximo ano, voltar na trilogia, no final da trilogia, porque já o primeiro foi só uma actriz, agora é dois, no trilogia vão ser três actrizes. Então é isso, o construir de toda uma equipa, de todo um público, de todo um espectáculo, de uma rede, de saber que o Festival Mindelact na África é um dos mais reconhecidos a nível internacional, é saber que voam a um festival, a um outro festival, em um encontro de contador de história, por exemplo, que as pessoas falam, é do Mindelact. Então é criar essa vontade das pessoas virem para o Mindelact, ver o espectáculo e participar no festival”.
A actriz brasileira de 81 anos referenciada por Zenaida Alfama, produtora da 30ª edição do festival de teatro Mindelact é Dja Martins que fez a sua estreia internacional, em Cabo Verde, com a peça “Mãe baiana” que conta a história de uma avó que sofre a dor da perda do filho. Dja Martins partilhou a alegria de estar no continente africano.
“Eu estou estreando internacionalmente com 81 anos e eu acho que isso não é para qualquer um, eu sou uma abençoada. Vim para a minha terra de origem, me senti aqui indo na casa da minha tia, vou ali na casa da minha tia Antónia, me senti assim aqui, como se eu estivesse o tempo todo aqui na África”, afirmou a actriz Dja Martins
Também, no festival internacional de teatro do Mindelo, o Mindelact, há espectáculos nas praças da cidade, uma medida para socializar cada vez mais o teatro, aquele teatro feito para o povo, que vai onde o povo está. Assim, desde 2017, o Festival Mindelact aposta em levar o teatro às praças da ilha de São Vicente, todos os dias do evento.
Na ponta da areia, kontam um storia! (conta-me uma história em português) Do núcleo teatral Arte33, de Portugal foi um dos espectáculos apresentados na Praça Amílcar Cabral no centro da cidade do Mindelo no festival de teatro - Mindelact. Uma peça constituída por 6 caixas de Teatro Lambe Lambe (três histórias recolhidas junto da comunidade da Trafaria e histórias recolhidas e contadas por gente de São Vicente). Uma história contada de forma animada como explica actriz Ana Nave do Núcleo teatral Aarte33
“Fizemos este espectáculo, que se chama Na Ponta da Areia, numa vila piscatória, que fica do outro lado, fica em frente a Lisboa. Fomos descobrindo, com a ajuda do historiador Francisco Silva, que há uma relação muito grande entre a Trafaria, e por isso se chama Na Ponta da Areia, e Cabo Verde, por variadíssimas razões. Também porque há uma grande comunidade de cabo-verdianos por ali, e porque temos aqui uma das participantes, que é a Glória Lima, que também é de Cabo Verde. As histórias que fomos construindo foram a partir de histórias locais, mas que arranjamos, de alguma maneira, uma ponte neste mar que nos une e que nos separa, e fomos arranjando uma ponte com Cabo Verde. E por isso estamos muito honrados de estar aqui nesta edição do Mindelact, é a primeira vez que cá vimos, esperemos poder visitar mais vezes este festival”, afirmou a actriz, Ana Nave.
E, neste sábado, encerra-se o Festival Internacional de Teatro do Mindelo – Mindelact é apresentado na Praça Currents de Acting for Climate da Noruega. Um espectáculo sobre simbiose, explorando o cuidado mútuo entre diferentes culturas, seres humanos e o mundo mais do que humano.
Vejam aqui algumas imagens do Mindelact:
Quem já passou pelo Mindelact é a nova companhia luso-cabo-verdiana Saaraci que levou ao palco 1 do festival internacional de Teatro do Mindelo, a peça Dona Pura e Os Camaradas de Abril. Fruto da adaptação da obra do escritor cabo-verdiano, Germano Almeida, com o mesmo nome.
O espectáculo Dona Pura e Os Camaradas de Abril de uma hora e meia transita sobre a memória de 25 de Abril na perspectiva do colonizado. Uma encenação e direcção artística de João Branco, um dos fundadores do festival internacional de teatro do Mindelo
“'Dona Pura e os Camaradas de Abril' é uma adaptação de uma obra original do Germano Almeida e é a 4ª vez que eu, como encenador, faço a mim mesmo o desafio de colocar obras do Germano em palco. Nós fizemos Dois Irmãos, fizemos Os Agravos de um Artista, As Mulheres na Laginha, que foi feita a partir excertos do Mar da Laginha, livro dele também, e agora com Dona Pura e os Camaradas de Abril, que foi uma obra escolhida porque, como sabes, em Portugal está a comemorar os 50 anos do 25 de Abril, desde o ano passado, e continua-se a comemorar essa importante efeméride de meio século da Revolução dos Escravos e surgiu esta oportunidade de concorrer para um edital para conseguir financiamento e obviamente que eu, tendo a minha identidade, como eu digo sempre, a minha identidade teatral, a minha identidade enquanto artista, ela é absolutamente de cabo-verdiana e eu, para falar do 25 de Abril, tinha que falá-la numa perspectiva crioula, numa perspectiva cabo-verdeana, daí que eu acho que o que pode sintetizar este espectáculo muito bem é o que nós fizemos foi introduzir o Capitão Ambrósio dentro do Grande Vila Morena, ou seja, introduzir o Cabo Verde dentro dessa revolução, uma perspectiva cabo-verdiana que foi feita a partir, obviamente, de um relato que eu acredito que é biográfico, eu nunca perguntei ao autor directamente, mas eu acredito que este estudante cabo-verdiano foi o próprio Germano, que conheceu uma senhora chamada Dona Pura, que ficou alojado na casa dela enquanto foi estudante de Direito em Portugal. E é isso, nós quisemos assinar lá o 25 de Abril dessa maneira, a equipa é praticamente toda ela cabo-verdiana, só o Pedro Lamares não é, mas é uma pessoa que gosta muito de Cabo Verde, apaixonado pelo Mindelo, e como o livro original tinha vários personagens que eram não cabo-verdianos, eram portugueses, ele acabou por ter esse desafio de fazer três personagens diferentes, todos eles europeus, dois portugueses e um italiano. Este espectáculo estreou no Alentejo, em Maio, depois foi apresentado na cidade do Porto, esteve em Montemor, outra vez no Alentejo, foi apresentado em Gaia, também perto da cidade do Porto, vai estar agora em Viana do Castelo, no Festival de Viana do Castelo, e encerramos essa circulação em Lisboa, dias 14 e 15 de Dezembro, e fechando este ciclo das apresentações do Dona Pura e os Camaradas de Abril”, disse João Branco.
Ao longo dos nove dias do festival internacional de teatro do Mindelo decorre a Teatrolândia que inclui um Ciclo Internacional de Contadores de História, no qual artistas e contadores de histórias de diferentes partes do mundo compartilham narrativas de forma interactiva, estimulando a imaginação e o desenvolvimento da escuta nas crianças.
E, na última noite da edição 30 do Festival de Teatro do Mindelo – o Mindelact encerra com uma homenagem a Amílcar Cabral no ano do centenário do Nascimento de Cabral, com a peça Cabral, a última lua de homem grande. Adaptada do romance do escritor cabo-verdiano Mário Lúcio Sousa. O enredo parte do último dia de vida de Amílcar Cabral para falar do seu pensamento e da sua obra, numa co-produção Sikinada - Companhia de Teatro (Cabo Verde) e Teatro Art'Imagem (Portugal), dirigida por Flávio Hamilton e com uma equipa formada por artistas dos dois países.
Para além de espectáculos de Teatro, o festival Mindelact tem ainda formações e exposições de fotografia.
A 30ª edição do festival internacional de Teatro do Mindelo encerra na noite deste sábado com homenagens aos vários parceiros.
Marimba é o nome de um instrumento e é também o nome de um projecto que visa impulsionar o resgate da identidade cultural de Angola, Guiné-Bissau, Moçambique e Timor-Leste.
É através da pesquisa, digitalização, promoção e distribuição de produtos fonográficos dos artistas dos países parceiros que o projecto Marimba pretende valorizar a produção musical, promover o emprego e gerar rendimento.
Um projecto todo-o-terreno, que vai desde a formação de profissionais até à apresentação de um produto final, onde a inclusão socioeconómica das mulheres é merecedora de uma atenção particular.
Para se conhecer melhor o projecto Marimba, os diferentes campos de acção, como está a ser implementado e qual o balanço que se pode fazer do seu impacto, a RFI falou com Miguel Ângelo, Administrador da SoundsGood, que faz a coordenação geral do Projecto Marimba.
Site do projecto Marimba: https://marimba.art/
Após um dia de mais caos e manifestações por todo o país, que terão feito pelo menos três mortos e dezenas de feridos, não há ainda abertura para qualquer negociação por parte da Frelimo, com Venâncio Mondlane, candidato apoiado pelo Podemos, a continuar a apostar nas manifestação e o MDM a pedir a recontagem dos votos ou a anulação das eleições.
Após mais um dia de protestos e a determinação da oposição de se manter nas ruas, o politólogo João Feijó não antevê para já a possibilidade de acalmia nas ruas moçambicanas, já que esta é a única forma de exercer pressão sobre o Conselho Constitucional, o órgão máximo do país que vai decidir brevemente sobre a legitimidade dos resultados das eleições gerais de 09 de Outubro.
"Eu acho que no curto prazo não vai haver nenhum apaziguamento. Vai persistir esta pressão nas ruas que Venâncio Mondlane está a criar, com vista a equilibrar a pressão sobre o Conselho Constitucional. Em qualquer parte do mundo estes órgãos supremos são bastante politizados, não é? Os tribunais de primeira instância geralmente são mais técnicos e mais independentes, mas quando chegamos aos níveis mais supremos, a interferência política é mais evidente e Moçambique não é excepção. Até porque o nível de partidarização das instituições aqui é mais evidente. Então, consciente que as decisões do Conselho Constitucional serão de validar legalmente estes resultados que transmitem inúmeras dúvidas à população, a reacção de Venâncio Mondlane é colocar o povo na rua para tentar equilibrar essa pressão", explicou o investigador em entrevista à RFI.
Mesmo contabilizando mais de 30 mortos em todo o país e e centenas de feridos durante várias manifestações nas últimas semanas, para João Feijó a Frelimo continua sem abertura ao diálogo, havendo apenas apelos ao respeito das instituições - instituições essas controladas pelo própria Frelimo.
"Não houve até agora nenhuma vontade política de haver um diálogo assertivo e construtivo capaz de enfrentar o cerne do problema que está aqui em causa. O Presidente da República continua sem fazer um único discurso à Nação. [...] Depois houve um discurso do Presidente Chissano e da Graça Machel, em que fazem um pequeno vídeo que circula nas redes sociais e quer ser um discurso de reconciliação, mas nem toca na violência da polícia nem no assassinato de 30 indivíduos devido à violência policial. Não fazem nenhum apelo ao funcionamento das instituições de investigação criminal, não fazem nenhum apelo à investigação de fraudes eleitorais que omitem por completo e fazem apenas um apelo ao respeito pelas instituições, que são o problema central. Mas a reconciliação implica a verdade e, portanto, qualquer tentativa de fazer uma reconciliação tem que partir sempre da verdade, depois vem a reconciliação", concluiu Feijó.
Maputo é esta quinta-feira o epicentro de uma marcha popular e o símbolo de uma semana de greve geral e manifestações. Há receios de “um banho de sangue”, depois de mais de uma dezena de pessoas terem morrido nos protestos de contestação eleitoral. Quitéria Guirengane, activista política e social e membro da Geração 18 de Março, pede ao Estado para pedir desculpas aos moçambicanos e “evitar banhos de sangue com uma mensagem de reconciliação e a reposição da verdade”. A activista não acredita que o povo esteja na rua apenas “porque houve uma convocação de Venâncio Mondlane”, mas porque a população “despertou do sono profundo do autoritarismo”.
Esta quinta-feira, Maputo é palco de uma mega-concentração, depois de uma semana de greve geral e de protestos convocados pelo candidato presidencial Venâncio Mondlane, naquela que ele chamou de “terceira etapa” da contestação aos resultados das eleições gerais de 09 de Outubro, anunciados pela CNE. Outros protestos tinham sido realizados nos dias 21, 24 e 25 de Outubro.
Quitéria Guirengane é activista política e social, lidera o Observatório das Mulheres, é membro da Geração 18 de Março e dirige uma linha de recepção de apoio às vítimas da violência policial. É também uma voz muito seguida nas redes sociais, onde tem partilhado testemunhos que lhe chegam de todo o país.
RFI: Como é que encara, antes de mais, este 7 de Novembro?
Quitéria Guirengane, activista política e social: Com uma dor muito forte no coração, com uma apreensão pelo número de vidas humanas, pela quantidade de sangue que se está a jorrar e que vão marcar de forma indelével a bandeira e a história de Moçambique. Como cidadãos moçambicanos e, acima de tudo, como parte de uma geração que não viveu a luta de libertação nacional, que não viveu a guerra dos 16 anos, viver este período difícil da nossa história é, sem dúvida, um abalo, mas, ao mesmo tempo, é uma convicção inabalável de que estamos diante de ausência de Estado e de ausência de liderança porque a existência de uma liderança é para que nos momentos difíceis saiba o que deve ser feito, saiba ouvir a voz do povo e saiba evitar banhos de sangue com uma mensagem de reconciliação, mas acima de tudo, com a reposição da verdade para que não tenhamos que chegar a estes níveis.
O que é que o povo espera destas manifestações e desta marcha para Maputo esta quinta-feira? Recorde-nos porque é que o povo está na rua?
O povo está na rua porque percebeu que nós estamos a viver uma colonização disfarçada, um sistema autoritário que é incapaz de dialogar. Eu não creio que o povo esteja na rua apenas porque houve uma convocação de Venâncio Mondlane, apesar de estar claro para todo o cidadão moçambicano que Venâncio Mondlane teve uma prestação na urna que foi negada, uma verdade que foi pisoteada e escamoteada. Diferente de anos anteriores, as redes sociais permitiram que os cidadãos acompanhassem ‘in loco’ a manipulação da verdade. Os cidadãos estão cansados da arrogância e, acima de tudo, do emburrecimento, da forma humilhante como têm sido tratados.
Disse que o regime não é capaz de dialogar, mas o Presidente de Moçambique disse, na terça-feira, que não tem dificuldades para dialogar e que é preciso esperar pela validação dos resultados eleitorais pelo Conselho Constitucional. Para evitar o “banho de sangue” de que você falou, porque é que não se opta pela via do diálogo? Porque é que não se espera pelo pronunciamento do Conselho Constitucional?
Eu não convoquei estas manifestações, mas eu percebo a indignação geral dos cidadãos moçambicanos. Moçambique vive um terrorismo eleitoral que não começou este ano. Vou-lhe trazer o exemplo das eleições do ano passado. Durante muito tempo se dizia que a oposição reclamava da fraude eleitoral, mas não trazia provas desta fraude. No ano passado, eu participei na elaboração de vários recursos eleitorais e foram entregues ao Conselho Constitucional evidências, vídeos feitos por cidadãos, de polícia a disparar dentro da assembleia de votos para impedir o eleitor de votar. Enviou-se material com evidência da falsificação de editais. Enviou-se material de evidência da negação do direito de reclamar na mesa de voto, enviou-se provas da obstrução da vontade popular, mas, mais do que isso, enviou-se provas de que havia pessoas que ganharam eleições e que a Comissão Nacional de Eleições substituiu a soberania que reside no povo, estabelecido pelo artigo 2 da Constituição da República, por um grupinho de pessoas que passou a decidir quem tem competência para governar ou não. Na altura, dizia-se “Vocês, como cidadãos moçambicanos, devem confiar nas instituições. Não reclamem, esperem o Conselho Constitucional se pronunciar. Depois vão reclamar porque o processo ainda não terminou…”
Ou seja, o povo não confia no Conselho Constitucional e não quer esperar?
Tem uma experiência porque no ano passado 40 recursos entraram no Conselho Constitucional e quando o Conselho Constitucional decidiu, disseram que as decisões do Conselho Constitucional são irrecorríveis, então, a partir daqui, quem sair à rua vai ser baleado porque é desobediência, nos termos da Constituição, desobedecer a uma decisão do Conselho Constitucional. Então, é o mesmo jogo se está a fazer este ano, está-se a dizer às pessoas: “Esperem pelo Conselho Constitucional". Quando o Conselho Constitucional se pronunciar, vão dizer às pessoas "Olha, é desobediência questionar o Conselho Constitucional”.
As pessoas estão a dizer que a verdade não se negoceia. No final do dia já não é sobre o resultado eleitoral apenas, é sobre a polícia ter entrado em casa de pessoas, lançar gás lacrimogéneo, matar pessoas só porque essas pessoas estavam a manifestar pacificamente na rua. Todos os vídeos em que vemos cidadãos a atirarem pedras, cidadãos a queimarem garrafas é consequência e reacção a uma brutalidade policial e militar que começou desde os primeiros minutos que as pessoas pacificamente foram à rua manifestar. É uma precipitação da violência.
Tanto o Presidente da República, o comandante geral da polícia, o ministro da Defesa, entre outros actores, sempre que vêm a público, começam um discurso de diálogo e depois falam de infiltrados, grupinhos, instrumentalizados, vândalos. Esses são os termos que quem quer dialogar nunca usa! Numa negociação, nunca se trata as pessoas que estão indignadas, cansadas, saturadas, como pessoas que estão a ser agitadas, como pessoas que estão a ser instrumentalizadas. Então, é preciso começarmos a pensar numa linguagem de reconciliação que não pisque à esquerda e vire à direita.
O ministro da Defesa Nacional de Moçambique admitiu que houve “excessos” por parte das forças de segurança para conter as manifestações, mas avisou que a corporação vai reagir “na medida” dos actos desenvolvidos por manifestantes. Não teme que a violência se possa empolar ainda mais?
Eu tinha algum apreço em relação ao ministro da Defesa, mas devo dizer, com toda a contundência, que o ministro da Defesa também faltou à verdade porque as Forças Armadas não vão reagir, as Forças Armadas já estão a reagir! E entraram num processo de manifestação desde o primeiro minuto, quando, nos termos da lei, a questão da manifestação não é governada pelas forças militares. Nós costumamos gozar em Moçambique e dizer que nós estamos a assistir ao comandante geral da polícia a dirigir as operações do terrorismo em Cabo Delgado e o ministro da Defesa a dirigir as manifestações em Maputo. Quer dizer, é um inverter de responsabilidades.
A segunda questão é que o ministro da Defesa, quando foi questionado sobre a questão dos militares que se têm estado a pronunciar, incluindo a questão dos cidadãos que se têm estado pronunciar, ele usou o termo “infiltrados”. Ele disse que pode existir um e outro infiltrado nas corporações. A partir do momento que você diz que todo aquele que discorda de si é um infiltrado, é porque você vai fazer uma caça às bruxas a seguir. A partir do momento em que os cidadãos se permitirem silenciar, vai começar um momento de vingança sem precedentes na história de Moçambique porque não há uma intenção real de “Olha, nós percebemos que provavelmente há um e outro militar que está insatisfeito ou que há militares insatisfeitos, e a nossa preocupação, como moçambicanos, é encontrar uma resposta ousada para unir estas vozes, percebemos que fizemos algo de errado e são esses erros que nós precisamos corrigir”.
Não é dizer “Ah, sim, houve alguns excessos”. Não houve alguns excessos, está a haver excessos! Eu que estou a dirigir uma linha de recepção de vítimas, estou a receber vítimas que estão a ser arrancadas no hospital. A polícia está a andar nos distritos, a ir a camas de hospital e a levar gravemente feridos para as celas. Está a tirar o direito à saúde que a Constituição da República e a Declaração Universal dos Direitos Humanos prevê. A polícia está a entrar na casa das pessoas, a lançar gás lacrimogéneo e a disparar. A história registou pessoas a baterem panelas nos seus prédios e a polícia lança gás lacrimogéneo porque as pessoas não podem bater panelas. Que tipo de Estado é este? Como é que nós chegámos a esse nível? Nós, como cidadãos moçambicanos, assusta-nos descobrir que as pessoas que nos estavam a dirigir têm ódio em relação aos moçambicanos porque isto não pode ser descrito de outra forma.
Então, não basta dizer que as forças vão reagir, as forças já estão a reagir e nós temos vídeos, temos evidências que as entidades internacionais e os tribunais locais e internacionais vão julgar um dia, que é de militares, que é de polícias, que é de indivíduos estranhos, aliás, até civis armados como se fossem milícias a disparar contra os cidadãos moçambicanos. Isto não devemos em nenhum momento tolerar.
Nós, como cidadãos moçambicanos, precisamos de um recomeço e não vai ser possível recomeçar o Estado - porque o Estado está destruído - se não houver uma abordagem de dizer “Falhámos, pedimos desculpas”. Um pedido de desculpas aos cidadãos moçambicanos porque não é um cidadão membro de um partido político, eu não sou membro do Podemos, não são os cidadãos dos mesmos partidos que estão a pagar. Todo o cidadão moçambicano, neste momento, está a ser afectado por este conflito.
Venâncio Mondlane, nas redes sociais, pediu ao povo que se defenda se for atacado no dia 7 de Novembro. Ele exortou o povo a exercer o seu direito de autodefesa com todos os meios disponíveis, caso as suas vidas estejam em risco. Como é que olha para este apelo e até que ponto não poderá empolar ainda mais a violência?
Eu, neste momento, estou com uma incapacidade de julgar a reacção popular, como faria em outros momentos. Eu sempre tenho aconselhado as pessoas para nos defendermos e agirmos com base na nossa Constituição da República, conhecendo os seus limites e garantindo que o exercício dos direitos seja feito com consciência de deveres.
Agora, a nossa Constituição da República prevê previsões para o direito de resistência, para a legítima defesa, tem previsões específicas para a tutela privada dos direitos, o que significa que qualquer cidadão que está numa situação de ameaça, existem artigos específicos da Constituição da República que permitem que a pessoa evite um dano maior que o sistema judicial vai ser incapaz de repor a posteriori.
Quando eu vejo um cidadão, eu começo a imaginar-me a mim. Se eu vejo um polícia, um civil armado e ele disparar contra o meu irmão, eu vou assistir esse civil. Quer dizer, é muito difícil para mim julgar neste momento porque ao mesmo tempo que eu não quero entrar em uma acção de incitação à violência, eu também não sou capaz de julgar como é que eu, como humana, haveria de reagir num tipo de situações desta natureza.
Por isso, eu não sou capaz de julgar o comportamento dos cidadãos, apesar de que há vozes que gostariam de nos ver acusar os cidadãos, na realidade, a nossa consciência de humanidade não nos permite tolerar ver um Estado que intencionalmente vai disparar contra os cidadãos, não porque esses cidadãos fizeram algum mal, mas só porque esses cidadãos estão a reivindicar um direito constitucional e nós todos nos posicionarmos do lado da cobardia. Este discurso vem depois de um ciclo enorme de polícias a mostrarem o seu poderio, alguns com uma arrogância determinada a irem a casa das pessoas.
Como cidadãos moçambicanos - o mundo está a testemunhar o que Moçambique está a passar neste momento - dói-nos a alma e temos o coração apertado. O que é que vai ser Moçambique amanhã? E como é que as partes se vão encarar? Porque o diálogo pode chegar tarde demais, pode chegar quando vidas já não são possíveis de recuperar. As pessoas não são números, não são estatísticas. Cada uma das pessoas que está a perder a vida tinha uma história, tinha um sonho e o nosso Estado, as partes, não estão a conseguir perceber que é possível evitar o banho de sangue e não é sobre uma parte cancelar, mas é sobre o Estado decretar um cessar-fogo e pedir desculpa aos moçambicanos por tudo o que aconteceu até este momento.
Falou várias vezes em banho de sangue. Venâncio Mondlane, nos seus directos no Facebook, apelou várias vezes aos militares e aos polícias para, passo a citar, “ficar do lado certo da história”. Acredita na possibilidade de os militares se juntarem ao povo? Isto não daria razão ao ministro da Defesa que fala em “sinais de intenção firme e credível de alterar a ordem constitucional” e não poderia isto legitimar o uso da força pelos militares?
Primeiro quero dizer que há militares e polícias todos os dias que pelos seus meios nos enviam sinais de que eles também são moçambicanos e que eles também não concordam com a abordagem de matar os seus próprios irmãos. Nem tudo está perdido neste país. Alguns se vêem reféns das ordens superiores, mas há muitos que até quando pegam um manifestante, ou mesmo que tenham que bater para o chefe ver, eles próprios dão sinal para os manifestantes poderem fugir. E isto marca-nos.
Agora, é importante dizer que quando se fala da alteração da ordem constitucional, a nós nos dói, como moçambicanos, perceber que a alteração da ordem constitucional não começa hoje. Nós já subvertemos a ordem constitucional e já subvertemos a vontade do povo. A partir do momento em que você tem presidentes de municípios não eleitos que fizeram golpes de Estado para poder se posicionar numa cadeira que o povo não lhe quer, isso não é uma subversão da vontade popular e da ordem constitucional?
O ministro da Defesa, a procuradora geral da República só estão a ver subversão da ordem constitucional hoje. Quer dizer, nós temos de ser um país mais preventivo, não reactivo e as forças de defesa e segurança têm que parar de ser milícias do partido Frelimo porque é sobre isso. É o partido Frelimo que jogou este país no pior lugar da história deste mundo e o partido Frelimo, com a sua arrogância, não está a ter pessoas de bom senso que se estão a levantar publicamente, não em segredo, publicamente, para vir dizer “Basta, nós queremos continuar a ser respeitados pelo povo, nós estamos a assistir ao que está a acontecer e não podemos continuar coniventes com isto”.
Não se venha amanhã [quinta-feira], no dia 8, no dia 9, atirar este banho de sangue a quem convocou as manifestações porque o povo está consciente de quem tem o poder de prevenir. A subversão da ordem constitucional já aconteceu. O Conselho Constitucional até deveria acelerar o seu papel e vir dizer “desculpem, perdoem-nos, nós estamos a ver o que está a acontecer e nós temos documentação que prova que não houve eleições”. Anule-se isto, encontre-se um governo de reconciliação, faça-se qualquer solução.
O Conselho Constitucional tinha a prerrogativa de, antes do dia 7, vir a público e dizer “não vamos continuar a brincar com o sangue das pessoas, vamos resolver este problema, a subversão da ordem constitucional em Moçambique já está, não está para haver. O que nós estamos a dizer é que a partir de hoje, esse Estado não tem pessoas para governar, não há governados aqui. Um governo humilde haveria de se demitir e dizer basta.
Como é que se evita um banho de sangue em Moçambique neste momento?
Reconciliação, verdade e liberdade. Pedir desculpa aos moçambicanos, vir uma atitude do Conselho Constitucional. Eu acho que já não é uma coisa que o Presidente Nyusi esteja em condições para fazer porque os cidadãos já perderam toda a confiança e perdeu toda a legitimidade governativa. É o Conselho Constitucional que deveria vir a público e dizer “Nós compreendemos o que está a acontecer neste país.”
Enquanto não houver verdade ou enquanto não houver um pedido de desculpas reais e não haver perdão, mesmo que os militares disparem contra todo o povo, mesmo que consigam eliminar 32 milhões, ainda vão continuar gotas de sangue nas estradas, nas avenidas, na história. Enquanto não houver esta atitude a dizer “falhámos e precisamos de reconstruir juntos”, não se pode aventar uma solução melhor para os cidadãos moçambicanos. Pior porque nós recebemos todos os dias mensagens de pessoas que nos dizem “nós estamos dispostos a morrer por este país” e ninguém deve se culpar pelo sangue jorrado porque ninguém nos agitou, nós apenas despertámos deste sono profundo que o autoritarismo nos causou.
Contra todas as expectativas, com analistas a anteverem dias de incerteza quanto aos resultados das presidenciais de ontem nos Estados Unidos, o candidato republicano Donald Trump venceu o escrutínio com um resultado nítido, acima do patamar simbólico dos 270 grandes eleitores necessários para garantir a vitória face à candidata democrata Kamala Harris.
Quatro anos depois de sair da Casa Branca em atmosfera de insurreição, após o assalto ao Capitólio, Donald Trump regressa vitorioso para quatro anos na presidência da República. Quatro anos durante os quais, já disse que pretende operar uma série de reformas a nível da administração do seu país e da sua economia, sendo que ele anuncia igualmente uma inflexão da sua política externa, nomeadamente no que tange à Ucrânia, ao Médio Oriente, ou ainda à questão do meio ambiente.
Aspectos que abordamos com Álvaro Vasconcelos, antigo director do Instituto de Estudos de Segurança da União Europeia, com quem começamos por analisar a dimensão da vitória de Trump, inclusivamente com os votos de camadas da sociedade que habitualmente votam nos democratas.
RFI: Como se pode explicar que Trump tenha beneficiado nomeadamente dos votos de camadas da sociedade como os afro-americanos, o eleitorado latino e as mulheres?
Álvaro Vasconcelos: As primeiras análises mostram que os afro-descendentes, em particular as mulheres, votaram por Kamala Harris em larga maioria. O Trump progrediu no sector dos afro-descendentes e progrediu porque eles também são vítimas da inflação. Também há muitos afro-americanos que são sexistas, que vêem com preocupação o aumento dos direitos das mulheres. Nós estamos a assistir àquilo que eu tenho chamado uma "contra-revolução cultural", ou seja, todos aqueles direitos que foram conquistados desde a Segunda Guerra Mundial, em particular desde os anos 70, da igualdade dos direitos reprodutivos das mulheres, o direito ao aborto. Todas essas conquistas extraordinárias que desconstruíram a sociedade patriarcal afectam as convicções, as tradições, a identidade, de homens que não são necessariamente todos brancos. Também os afro-americanos sentem essa transformação da sociedade. Também foram educados numa sociedade patriarcal. E quando a inflação e o covid -porque lembremos que Biden foi presidente também ainda com o covid- quando o convite e a inflação atingem esse sector da sociedade, eles sentem-se reforçados na sua oposição àqueles que, estando no poder, defendem direitos que eles consideram que diminuem os seus direitos. O que é extraordinário é que o Trump aparece ao lado de Elon Musk, como um candidato libertário, aliás, como a Milei na Argentina, ou a extrema-direita europeia, até em França. Fala-se de liberdade de expressão. E qual é a liberdade de expressão? é a liberdade para ser racista, para ser sexista. E tudo isso, acho eu, explica que não basta ser negro para votar contra o racismo.
RFI: Um dos projectos de Donald Trump é reformar completamente aquilo que ele chama de 'Deep State'. Mudar todas aquelas camadas intermédias da administração americana. Para já, isto é concretizável? E o que é que isso pode implicar?
Álvaro Vasconcelos: Isso é o que torna ainda mais inquietante esta segunda vitória de Trump. É que da primeira vez que Trump foi eleito, Trump tinha que lidar com um Partido Republicano que, no essencial, era tradicional. Nem era trumpista. Trump era um candidato anti-sistema, anti-sectores poderosos do Partido Republicano e que foram contrapoderes em relação a Trump, inclusive na sua própria administração. Lembre-se que o vice-presidente de Trump, o Mike Pence, um conservador, opôs-se ao que o Trump tentou a 6 de Janeiro (de 2021), quando perdeu as eleições, o assalto ao Capitólio, e o chefe do gabinete de Trump deu uma entrevista recentemente a dizer que Trump era um fascista. Ou, portanto, os sectores do Partido Republicano com quem Trump teve que se relacionar em 2016 eram sectores do Partido Republicano que não eram trumpistas. Hoje, Trump domina o Partido Republicano e vai ter uma maioria no Senado e na Câmara dos Representantes. Portanto, já mudou uma série de juízes do Supremo. Possivelmente ainda irá mudar mais. Tem como programa transformar a administração americana, ou seja, colocar homens "leais" em todos os lados. Ou seja, o projecto de Trump é um projecto autocrático e o projecto de transformar a América, uma grande democracia e uma das primeiras democracias do mundo, numa autocracia tem um conjunto de condições, com apoio em sectores dos oligarcas americanos. Hoje existe uma autêntica oligarquia também nos Estados Unidos. Tem apoio desses oligarcas e, portanto, estamos numa situação extremamente perigosa.
RFI: E lá está, mencionou que, de facto, Donald Trump poderia também ter a maioria no Senado e também uma posição muito confortável na Câmara dos Representantes. Isto significa que, no fundo, restam poucas protecções a nível do Estado e a nível da lei nos Estados Unidos para travar eventuais projectos autocráticos de Donald Trump.
Álvaro Vasconcelos: O que é que resta é a sociedade civil, o movimento das mulheres, o movimento anti-racista, uma sociedade civil muito forte, como constatámos mesmo nestas eleições. A capacidade de mobilização dos apoiantes do Partido Democrata, dos apoiantes de Kamala Harris, era muito maior que os de Trump, os indivíduos que iam as bocas das urnas tentar orientar o voto no sentido favorável ao Trump, por exemplo, na Pensilvânia -que foi um estado fundamental para a vitória de Trump- esses indivíduos eram pagos por Musk. Não eram activistas da sociedade civil. A campanha democrata era baseada num número impressionante de activistas. Portanto, a sociedade civil americana é uma sociedade civil muito forte. Eu diria mesmo que é a sociedade civil mais forte do mundo, em termos de activismo, de associações, de capacidade de mobilização. Lembre-se da Marcha das Mulheres depois da vitória de Trump em 2016: um milhão de mulheres nas ruas de Washington. Há uma grande capacidade. Lembremos o movimento Black Lives Matter. Têm uma capacidade enorme de mobilização da sociedade civil americana. É aí que está alguma capacidade de oposição a Trump.
RFI: Um dos projectos de Trump é baixar os impostos e também aumentar os direitos aduaneiros para os produtos importados, o que pode significar, a nível interno, menos serviços públicos, e a nível externo, uma economia também bastante mais fragilizada para os parceiros dos Estados Unidos e, nomeadamente a União Europeia.
Álvaro Vasconcelos: Sem dúvida, Trump é um proteccionista e um nacionalista. É algo que nós ainda não falamos. Mas Trump é, em primeiro lugar, um nacionalista. "Make America Great Again" é um slogan nacionalista. O que Trump está a dizer aos americanos? Está a dizer "nós podemos ser de novo a nação hegemónica, a nação que não tem rival e, sobretudo, que não tem rival na China e na União Europeia". Mas hoje Trump considera a China um adversário muito mais poderoso do que a União Europeia, que tem mostrado, de facto, alguma incapacidade para se afirmar do ponto de vista político. E neste momento também está fragilizada com a subida da extrema-direita em muitos países europeus e, portanto, a política económica de Trump vai ser uma política económica que vai ser terrível para os sectores mais pobres da América, que vão perder parte da pouca protecção social que têm e vai agravar as desigualdades, com a facilidade que vai dar aos oligarcas americanos. Mas vai fazer uma guerra comercial terrível, nomeadamente contra a China, mas também contra a União Europeia. No fundo, a questão que hoje se coloca à Europa é uma questão existencial, porque tem a guerra da Ucrânia de um lado, tem o Trump do outro, que deixará de apoiar a Ucrânia, certamente. Mas sobretudo, terá um Trump claramente antieuropeu e procurando enfraquecer a União Europeia e enfraquecer as democracias europeias. E, portanto, estamos num momento, digamos, quase que existencial para a União Europeia. Eu diria existencial mesmo que, no fundo, haja uma esperança. Mas os dados não mostram que seja esse o caminho provável, que a União Europeia irá acordar. Hoje também há enormes fracturas na União Europeia, inclusive no campo democrático. É o momento de nos unirmos para enfrentarmos a ameaça existencial que Trump representa para a União Europeia.
RFI: Mencionou, nomeadamente, o conflito na Ucrânia. Donald Trump não esconde qual é a sua posição relativamente ao conflito na Ucrânia: deixar de ajudar Kiev e fazer as pazes com a Rússia muito rapidamente.
Álvaro Vasconcelos: Sem dúvida que Trump é um amigo de Putin. Tem uma relação boa com Putin há muitos anos. Putin apoiou a sua campanha eleitoral de 2016. Segundo a imprensa americana, também nesta campanha eleitoral houve uma série de acções de desinformação na Geórgia e de supostos ataques à bomba que eram notícias completamente falsas que tiveram a sua origem na Rússia. Trump quer que a guerra na Ucrânia acabe, já que ele não quer fazer nenhum esforço do ponto de vista económico ou militar para apoiar os ucranianos e acabar já a considerar que a Rússia, os territórios que já conquistou, devem ficar sob controlo russo e obrigar os ucranianos a um acordo de paz que termine a guerra com uma parte do território ucraniano conquistado pelos russos. E nem estou a falar da Crimeia ou dos territórios que a Rússia já tinha conquistado em 2014. Estou a falar do que conquistou no Donbass, nos últimos anos. E depois a Rússia irá consolidando a sua posição ali e logo veremos o que se passa a seguir, porque tudo isto é muito imprevisível.
RFI: Está a pensar nomeadamente na Moldova e na Geórgia?
Álvaro Vasconcelos: Hoje, se eu fosse moldavo ou georgiano, estaria altamente inquieto com a facilidade com que Putin vai poder, de facto, transformar a situação política interior desses países, apoiando os partidos que lhes são próximos e fazendo, no caso da Moldova e da Geórgia, uma extraordinária pressão exterior.
RFI: Outro dossier que espera também Donald Trump a nível das relações externas é o dossier do Médio Oriente. Netanyahu já felicitou Donald Trump. Ele, de facto, tem motivos para celebrar?
Álvaro Vasconcelos: Sim. Netanyahu agora terá todo o apoio de Trump para o seu projecto do "Grande Israel". Nós devemos dizer que esse foi um grande fracasso da administração Biden: o de não ter sido capaz de travar Israel e de apoiar os palestinianos como deveria. Depois do 7 de Outubro, a administração americana colocou-se, aliás como muitos líderes europeus e Estados europeus, ao lado de Israel, na indignação do 7 de Outubro. Mas depois daquilo que se passou em Gaza, do assassinato em massa de palestinianos, de um processo de limpeza étnica que leva ao genocídio dos palestinianos em Gaza e também do que se passa na Cisjordânia, a administração americana foi incapaz de travar Netanyahu. Sabemos que Biden dizia a Netanyahu que ele devia conter-se, que ele devia chegar a um acordo com o Hamas para a libertação dos reféns e para um cessar-fogo, mas nunca utilizou o instrumento, o único instrumento verdadeiramente poderoso que os Estados Unidos têm sobre Israel, que é acabar com a venda de armas a Israel. Isso nunca fez. E nunca fez por razões também de política interna, porque o lobby evangélico nos Estados Unidos, que é poderosíssimo e que dá um grande apoio a Trump, é o lobby mais poderoso pró-Israel. É muito mais poderoso do que o lobby judaico, onde há muitas correntes liberais que se opõem a Netanyahu e gostariam que Netanyahu caísse. Se Kamala Harris tivesse ganho as eleições, Netanyahu não teria em Kamala Harris uma pessoa de que é próximo. Pelo contrário, ela é uma pessoa que considera que Netanyahu é de extrema-direita e que era preciso contê-lo. Também não sabemos até onde é que ela iria nessa contenção, mas sabemos que teríamos um mundo diferente, em que as possibilidades de haver alguma coisa contra o Estado de Israel, nomeadamente contra Netanyahu, era muito mais forte. Hoje nada disso acontece. Pelo contrário, Trump e Netanyahu são da mesma corrente política, são da mesma ideologia e da mesma barbaridade na violência contra o outro e a mesma desumanização dos palestinianos. Nem mesmo as questões humanitárias estarão na agenda. E Trump terá uma capacidade maior de ligação às ditaduras do Golfo e do Médio Oriente. Porque aqui a maior parte dos países árabes do Médio Oriente são ditaduras que gostariam de terem uma boa relação com o Estado de Israel, mesmo com Netanyahu, apesar do que se passa na Palestina. Portanto, Netanyahu hoje tem o caminho aberto para a criação do "Grande Israel", o que é evidentemente uma tragédia para os palestinianos, uma tragédia para a defesa dos direitos humanos e uma tragédia, evidentemente, para todos nós, que acreditamos no direito dos palestinianos a viverem em liberdade e em dignidade.
RFI: Outro aspecto que não mencionamos até agora é a questão do meio ambiente. Donald Trump já disse que tenciona impulsionar as energias fósseis, o que significa, como no primeiro mandato, um recuo em termos de defesa do meio ambiente.
Álvaro Vasconcelos: Está a fazer, no fundo, a lista de todas as tragédias anunciadas, ou seja, do mundo apocalíptico em que nós parecemos estar a entrar. Porque se olharmos para a questão ambiental, com o aumento das temperaturas médias, nos últimos 16 meses, de um grau e meio, que era aquilo que os Acordos de Paris apontavam para se tentar prevenir que acontecesse apenas em 2050, percebemos como é urgente tratar da questão climática, como é urgente ter uma política global. E não pode ser só a política europeia ou americana, mas uma política global que faça do clima estável um património comum da humanidade. Ou seja, que se comece não só a cumprir o Acordo de Paris, mas de facto, a ir mais longe com o Acordo de Paris, que é começar a retirar CO2 na atmosfera. Ora, tudo isso é contrário à visão que o Trump tem da economia americana e do lugar da América no mundo. Passa exactamente como ele dizia na campanha por "furar, furar, furar", ou seja, abrir mais poços de petróleo sempre que for possível. Portanto, não só a nível interno americano, a transição energética que começou com Biden estará em sério risco, como a nível internacional, não há dúvidas nenhumas de que a administração Trump não irá favorecer respostas multilaterais para a questão ambiental. E isso, evidentemente, coloca-nos noutro domínio: no domínio apocalíptico. Evidentemente que nós hoje não podemos cair no pessimismo absoluto e temos que pensar como sair deste futuro tão sombrio que nos parece que será o nosso, o nosso sobretudo, o dos nossos filhos e dos nossos netos. Evidentemente que há caminhos para ir. É bom que a gente converse sobre eles também, mas evidentemente que neste momento é um momento de enorme preocupação.
RFI: Relativamente à África, no seu primeiro mandato, Donald Trump não teve propriamente uma política externa dirigida ao continente africano. A seu ver, que consequências é que esta eleição pode ter para o continente africano?
Álvaro Vasconcelos: É difícil dizer porque, de facto, não é uma prioridade da administração Trump. Também não foi uma grande prioridade da administração Biden e não tem sido uma grande prioridade das instituições americanas. E na competição com a China, certamente que a África aparecerá no radar da administração Trump. O que é que significa para a administração Trump? Significa que os autocratas em África podem ser parceiros importantes porque ele olha para o mundo pela visão da autocracia, pela visão dos homens fortes que impõem a sua vontade à população. E o que pensa Trump? Infelizmente, penso que há cada vez mais gente para quem é o caminho para o desenvolvimento económico e, portanto, o modelo a que podemos chamar o "modelo chinês", que vai ser o modelo de Trump. E isso é interessante. Trump revê-se no "modelo chinês" do ponto de vista político. Para o desenvolvimento económico, olhará para África, possivelmente, olhando para os ditadores africano, como olha para os ditadores do Médio Oriente, da Arábia Saudita em particular, como um aliado preferencial. O que significa para a África? Pensemos, por exemplo, no que se passa neste momento em Moçambique, com grandes manifestações pela democracia, depois do roubo terrível que foram as eleições e o assassinato de uma série de opositores. Temos assistido a enormes manifestações pela democracia em Moçambique. Elas não terão nenhum eco em Washington. E se nos lembrarmos que quando Bolsonaro tentou um golpe, depois de ter perdido as eleições e que Biden interveio para dizer imediatamente que Lula tinha ganho as eleições, com Trump isso não acontecerá. Não acontecerá na América Latina, como não acontecerá em África, como não acontecerá em lado nenhum.
Na Pensilvânia está tudo empatado nas sondagens entre Kamala Harris e Donald Trump. Quem tiver mais votos consegue 19 votos para o Colégio Eleitoral que decide o Presidente. De todos os estados de desfecho incerto é o que vale o maior número de votos. O jornalista José Pedro Frazão esteve no clube português mais antigo da Pensilvânia onde encontrou as mesmas divisões que existem no país.
Com 94 anos, o mais antigo clube de portugueses da Pensilvânia ainda é um local de encontro da comunidade, mas a política fica fora das conversas, mas não por falta de interesse destes imigrantes.
"Nós, tentamos, especialmente amigos, nós tentamos sempre manter os políticos um bocadinho à parte aqui, porque senão havia até, se calhar, havia aqui barulho. O nosso clube sempre foi bom nisso. O nosso clube sempre manteve um pouco de silêncio", diz Mário Fernandes, 76 anos.
Este cidadão luso radicado nos Estados Unidos conta que o regulamento do Clube Português de Bethlehem tem mesmo uma regra que proíbe a instituição de expressar apoio a políticos. A conversa junta também José Carlos, o presidente que mais tempo esteve à frente do clube, numa zona tradicionalmente democrata. Hoje, a comunidade portuguesa reflecte a divisão do país entre os dois campos políticos.
"Eu penso que é 'metade-metade'. Às vezes eu penso que é um bocadinho talvez de maioria republicanos, mas outras vezes eu penso que não", diz Mário Fernandes.
"Eu penso que é o contrário. Eu penso que até recentemente tem sido a maioria. Os democratas, são maioria. Agora estou a começar a ver mais republicanos", considera José Carlos.
Foi Donald Trump que começou a dar a volta às preferências dos portugueses. Quem apoia o antigo Presidente diz que a sua passagem pela Casa Branca deixou saudades, explica Ana Viçoso, que também presidiu ao clube.
"Quando ele foi Presidente, a América correu melhor. As pessoas puderam guardar dinheiro. Pudemos comprar casas. Hoje, as casas, tudo está tão caríssimo", queixa-se Ana Viçoso que passou o testemunho a Arnaldo Jorge, de 52 anos, um apoiante declarado de Donald Trump. As contas feitas em casa tornaram a sua decisão muito fácil de tomar.
"Porque a minha mulher tem um salão de cortar cabelo e o Trump estava na Casa Branca naqueles quatro anos que ele esteve lá. A gente nunca teve que subir os nossos preços, porque o nível de vida está mais barato. E agora, estes quatro anos agora passados, já tivemos três aumentos dos preços, porque tudo está mais caro. A electricidade, a água, o produto que ela tem, lá no salão, para pintar o cabelo das mulheres", diz o dirigente do clube.
Relativamente à questão da imigração. Uma das maiores críticas dos apoiantes de Trump, como José Carlos, passa por uma alegada facilitação da entrada de imigrantes por parte da administração Biden, onde Camila Harris foi peça-chave.
"É totalmente errado o que esta o que esta presidência fez. Totalmente errado abrir as portas das fronteiras. (...) Isto é difícil. Nós também fomos imigrantes. Nós viemos legalmente e tem muita gente em Portugal e noutras partes do mundo que, precisam de ter um visto. Você tem que esperar dez, 15 anos. Portanto, eu não sou contra a imigração, mas não da maneira como está", diz José Carlos.
A forma de Trump se expressar é, apesar de tudo, um problema para muitos eleitores, mesmo se não for o próprio a ir longe nas palavras. Nesta zona da Pensilvânia caiu muito mal a crítica aos porto-riquenhos num comício de Trump. Ana Viçoso é a prova de que são sobretudo as mulheres que não aceitam a forma como o candidato a elas se dirige.
"Ele talvez seja bom para a nação. Mas a língua dele estraga tudo. Eu não aguento a língua dele. Ninguém gosta da maneira de ele falar, como ele fala sobre mulheres", diz Ana Viçoso.
A maioria das mulheres apoia Kamala Harris. Apesar de ser democrata desde sempre, Ana permanece indecisa. Admite, contudo, que talvez acabe por votar a favor de Kamala Harris. "Não sei. Eu vou votar para ela quando chegar a hora. Eu penso para mim que vai ser o melhor. E vou pedir que ela faça o melhor que pode para mudar a nação para melhor", conclui Ana Viçoso.
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De segunda a sexta-feira (ou, quando a actualidade o justifica, mesmo ao fim de semana), sob forma de entrevista, analisamos um dos temas em destaque na actualidade.

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