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Os distúrbios que aconteceram nos últimos dias na periferia de Lisboa levantam, mais uma vez, a questão do racismo e da atitude da polícia nas chamadas "zonas urbanas sensíveis" da capital portuguesa. Yussef, emigrante e activista anti-racista guineense que vive na Grande Lisboa, disse à RFI que, se nada mudar, estes episódios vão acontecer cada vez mais.
O presidente da república de Portugal disse esta quinta-feira que se verifica uma "desescalada da violência" e que a "paz social" está a regressar à Área Metropolitana de Lisboa, depois de três noites de tumultos.
Odair Moniz, 43 anos, cidadão cabo-verdiano, e morador no Bairro do Zambujal, na Amadora, foi baleado mortalmente por um agente da PSP na madrugada de segunda-feira.
A RFI falou com Yussef, emigrante e activista anti-racista guineense que vive na Grande Lisboa, sobre as circunstâncias e as consequências deste caso, que levanta, mais uma vez, a questão do racismo e da atitude da polícia nas chamadas "zonas urbanas sensíveis" da capital portuguesa.
RFI: Não é a primeira vez que acontece uma morte nestas circunstâncias, mas é a primeira vez que há esta reacção. Como é que explica a dimensão dos protestos?
Yussef: Os protestos têm a ver com o contexto político que vivemos, neste momento, em Portugal. Como disse, e bem, não é a primeira vez que esta situação acontece. O policiamento que existe, por exemplo, na Cova da Moura, é diferente do policiamento que existe eventualmente num bairro do centro de Lisboa. Isto tem a ver com os critérios que a PSP alavanca no sentido de designar estas zonas como sensíveis, o que desde já cria um conjunto de problemas, tendo em conta a caracterização e depois o relacionamento que esta instituição que é PSP tem com os moradores dessas zonas. Acredito que a razão principal pela qual nós temos esta indignação, eu diria que a nível nacional, tem a ver com o momento político.
Existem movimentos a partir desses mesmos bairros que dão voz a este protesto, que têm uma dimensão nacional neste momento e, ao mesmo tempo, existe uma solidariedade da parte da sociedade portuguesa através de partidos políticos que têm assento no Parlamento e têm voz na comunicação social. Isto faz com que haja uma outra dimensão do homicídio que aconteceu segunda-feira de madrugada.
RFI: Falou de partidos que estão solidários com estas comunidades, mas também há partidos que utilizam esta situação para fomentar o medo em relação a estes bairros.
Yussef: O “Chega” tem uma agenda clara de polarização no seio da sociedade portuguesa, no sentido de angariar votos e, ao mesmo tempo, colocar em prática o projecto político que tem características claramente fascizantes. O senhor André Ventura disse que o polícia que cometeu o homicídio deveria ser condecorado, mesmo sem existir uma investigação que tenha transitado em julgado, uma decisão final sobre o que aconteceu e o apuramento das responsabilidades. É um discurso típico de regimes em que o Estado de Direito democrático não existe. O “Chega” tem sua agenda e é preciso denunciar. Esta agenda é baseada em preconceito, no racismo e na xenofobia.
RFI: Foram queimados dois autocarros, automóveis e caixotes do lixo. Este tipo de distúrbios vão dar força às ideologias que está a criticar?
Yussef: O ideal na luta é que ela seja consequente e que siga os trâmites normais. Acontece que, por exemplo, aqui em Portugal, a Justiça tem o seu preço, tem o seu timing que, por vezes, não coincide com o timing necessário para que as coisas sejam esclarecidas. Eu creio que os discursos políticos deveriam criar condições para que estes actos não acontecessem. Infelizmente, está a acontecer exactamente o contrário. Estamos a falar de zonas em que a pobreza é uma constante. Hoje, a Rede Europeia Anti-Pobreza revelou que em Portugal a pobreza aumentou. Estamos a falar de um país em que existem cerca de 2 milhões de pobres. E, muito provavelmente, muitos deles vivem nestes bairros. Se nós temos estas situações de violência, temos que entender o contexto político e económico a partir do qual esta violência brota e não propriamente usar discursos que, a meu ver, vão criar mais condições para que estas situações de violência aconteçam.
RFI: Existem bairros como o da Cova da Moura que, para muitas pessoas são inacessíveis e muito perigosos. Quem vive nestes bairros gosta de receber pessoas novas?
Yussef: É preciso, em primeiro lugar, acabar com estas “zonas urbanas sensíveis” e, ao mesmo tempo, é preciso dialogar com as organizações destes bairros legitimamente reconhecidas pelos moradores, porque elas podem fazer uma radiografia dos problemas e, ao mesmo tempo, alavancar as soluções. Creio que é fundamental. É preciso criar espaço onde a voz destas comunidades possa ser ouvida e participar na criação de soluções concretas. Ao mesmo tempo, é preciso uma recolha de dados étnico raciais, no sentido de fazer uma radiografia que permita legitimar a crítica que estas populações e as suas associações de movimentos anti-racistas fazem da situação concreta. Estamos a falar da situação de desemprego, trabalho precário, situações de violência policial, do não acesso a transportes públicos ou acesso com horários extremamente precários.
RFI: Olhando para os distúrbios a que assistimos nos últimos dias, na periferia de Lisboa, existe o risco de se tornarem habituais como acontece noutros países, como em França, por exemplo?
Yussef: É importante entender porque acontecem estes casos em várias geografias e porque acontecem especificamente com comunidades racializadas. Vou dar um exemplo: aqui, a PSP juntamente com certos órgãos de comunicação social, avançou com uma narrativa que, neste momento, já se comprovou que não corresponde à verdade. Isto cria condições para que haja uma revolta, porque estamos a falar de instituições do Estado. Temo que estas situações se possam generalizar. Eu creio que é muito importante divulgar uma palavra de ordem, por parte dos órgãos de comunicação social, que vem das associações destes bairros, dos moradores e dos seus representantes: sem justiça não há paz. E ouso dizer, com o mínimo de consciência deste fenómenos, que se nós continuarmos o debate superficial desta questão, daqui X tempo, infelizmente, vão voltar a acontecer. Já aconteceram demasiadas vezes para aquilo que se diz que é o Estado de Direito Democrático em Portugal.
Milhares de pessoas participaram esta quarta-feira, 23 de Outubro, no funeral de Elvino Dias, advogado do candidato presidencial Venâncio Mondlane. O director executivo do Centro para a Democracia e Direitos Humanos de Moçambique, Adriano Nuvunga, esteve presente nas exéquias, e diz ter visto uma população enlutada mas, simultaneamente, com vontade de lutar pela justiça e pelos direitos humanos. O activista lembra, ainda, que a repressão policial intensificou o medo entre os moçambicanos.
RFI: Em que estado de espírito se encontra e em que estado de espírito se encontram os moçambicanos relativamente a estes dois assassínios, às duas mortes que resultaram da repressão das autoridades. Na segunda-feira, a polícia recorreu à força com disparos de tiros, usou de gás lacrimogéneo contra Venâncio Mondlane, jornalistas e manifestantes?
Adriano Nuvunga: Hoje, no velório e nas exéquias fúnebres, vi o misto de sentimento das pessoas presentes. Por um lado, as pessoas continuam a chorar este assassínio bárbaro e barulho macabro de Elvino Dias e de Paulo Guambe. O estado de choque nas pessoas ainda está presente. Lembra-se que há cinco anos atrás se matou da mesma forma Anastácio Matável. As pessoas estão ainda em estado de choque, mas ao mesmo tempo as pessoas estão a dizer: já choramos este lutador que tombou nas mãos das forças do mal. É preciso honrá-lo, continuar a sua obra e legado, juntando-se para lutar por justiça. Na verdade, fazendo da luta do Elvino a sua luta. A luta pela defesa do povo, a luta pela justiça no geral e justiça eleitoral em particular, que é o meio através do qual a vontade do povo se expressa. Foi este o sentimento e o estado de espírito que eu vi hoje nas exéquias fúnebres.
RFI: Venâncio Mondlane encontra-se em parte incerta. Recaem sobre ele e sobre membros do partido Podemos ordens para o abaterem. Num clima tão tenso, todos temem pela segurança. Há receio e um medo generalizado em Moçambique?
Há medo generalizado em Moçambique: de quem será a próxima vítima? Quem será o próximo sangue a ser derramado, particularmente num contexto em que o sentimento é o de que este é um crime do Estado contra cidadãos. É um crime do Estado contra activistas, contra defensores da democracia e dos direitos humanos. São armas de guerra que estão a matar activistas, estão a matar advogados.
O regime da Frelimo perdeu a face com críticas internas e externas relativamente a irregularidades que teriam sido cometidas aquando das eleições gerais de 9 de Outubro.
Não creio que sejam mais irregularidades. Esse tema não se aplica mais para a situação em Moçambique. Essas eleições são uma charada. São eleições sem credibilidade, eleições que não são o meio através do qual o povo pode falar e as instituições de Moçambique não permitem o respeito pela vontade popular. Por isso não se pode falar em irregularidades. Mas, claro, este regime, que já está ao que se vê a passar para o uso da força, há suspeitas de serem esquadrões de morte ligado ao regime, mas sobretudo na segunda-feira viu-se um regime que saiu a atacar cidadãos indefesos, inclusivamente atacar jornalistas quando estavam a entrevistar o Venâncio Mondlane. Este é um regime que já está a denunciar que não tem mais nada a dar ao povo, que é um regime que já está se a manter pelos meios autoritários e repressivos. Portanto, é um regime que, democraticamente falando, pode-se dizer não ter mais rosto para sair em público.
Chegam-nos imagens e informações de que a capital, Maputo, vive nos últimos dias sob um forte dispositivo policial nas ruas. A Comissão Nacional Eleitoral disse, ontem, que vai declarar os resultados oficiais amanhã, quinta-feira, no dia em que o candidato do Podemos apelou a uma paralisação total no país para amanhã e sexta-feira. Venâncio Mondlane apela a um roteiro revolucionário. A seu ver, existe um receio quanto a um escalar de violência em Moçambique?
As condições todas estão lá para isso. A repressão a que já me referi, as armas que são para defender o povo, estão a ser usadas para atacar o povo. Quando isso acontece, num quadro onde a juventude, que é cada vez mais o maior segmento populacional, está num quadro de falta de esperança pelo seu futuro. Por causa da corrupção, por causa do crime organizado e por causa da acção dos esquadrões da morte, e particularmente, quando a sua vontade, que devia ser expressa pelas urnas, é desrespeitada. As condições estão criadas para que isso aconteça.
A Igreja Católica diz que caucionar uma mentira é sinónimo de fraude. Como é que comenta esta postura por parte da Igreja Católica moçambicana?
Penso que é um pronunciamento sábio porque o que a Comissão está a querer dizer. É preciso lembrar que a Comissão Episcopal observou as às eleições através da Igreja Católica, então tem informação bastante substantiva para dizer que se está a negar a verdade eleitoral e negar a verdade eleitoral e cometer injustiça contra o povo. Creio que neste momento, e como em todos os outros contextos de instabilidade, a verdade é que mais sofre. É isto que está a querer dizer à Igreja Católica.
Filipe Nyusi está a ter uma saída atrapalhada e manchada por este processo eleitoral, com mortos a lamentar, sabendo que se receia que não haja no futuro avanços na Justiça para apurar quem foram os autores destes assassínios?
Esse é um déjà vu, não é? Foi sempre assim. São muitos assassínios, alguns deles que marcaram a entrada de Nyusi no poder, que até hoje não foram esclarecidos, foram arquivados. A luta popular é no sentido de haver um esclarecimento muito rápido, célere, antes até de saírem do poder. Porque, como sempre, quanto mais demora depois aparece uma crise atrás da outra e não se esclarece. A luta é isso, mas não surpreenderia se não houvesse um esclarecimento porque esse é o instrumento através do qual esse tipo de crimes se acobertam e que são parte da manutenção do regime da Frelimo no poder.
O que é que se espera para amanhã, Adriano Nuvunga?
O que se espera para amanhã é que a Comissão Nacional de Eleições, que é uma vergonha nacional. A CNE é uma vergonha nacional, vai chancelar esta vitória fraudulenta que desrespeita a vontade popular. Mas espera-se um ambiente de um Estado polícia que vai estar presente nos bairros a ameaçar as pessoas para não saírem à rua. Portanto, as pessoas vão ser contidas pela força policial, mas nunca vimos isso durar para sempre em nenhuma parte do mundo.
Portanto, os moçambicanos vão ser amanhã persuadidos a ficarem calados e em casa e não reagir à proclamação destes resultados oficiais. É o que está a dizer?
Não vão ser persuadidos, vão ser ameaçadas. É isso que a polícia vai fazer: ameaçar as pessoas para não saírem. Quando a polícia sai para a rua com cães, com armas de guerra e usa até meios que nunca vimos. Usou na segunda-feira, helicóptero - Eu nunca tinha visto um helicóptero da polícia. Temos aqui em Moçambique e raptos, temos o conflito em Cabo Delgado e nunca vi a polícia exibir um helicóptero. Vi também snipers em cima dos prédios. Não sabia que Moçambique havia snipers. Estes são instrumentos de repressão, de ameaça à população e não de persuasão.
A cimeira dos BRICS arrancou esta terça-feira, 22 de Outubro, em Kazan, na Rússia. Vladimir Putin procura reforçar alianças estratégicas e mostrar o suposto fracasso das sanções ocidentais decorrentes do conflito na Ucrânia. Pela primeira vez, a cimeira conta com a presença de novos membros: Arábia Saudita, Emirados Árabes Unidos, Egipto, Irão e Etiópia. "Estados que têm divergências profundas entre si", sublinha o investigador do Instituto Português de Relações Internacionais, Carlos Gaspar.
RFI: Esta é uma cimeira marcada pela ausência de Lula da Silva, que tem tido um papel dúbio, sobretudo quanto à guerra na Ucrânia. Vladimir Putin não esteve presente na cimeira na África do Sul o ano passado por causa de um mandato de captura internacional, e conseguiu fazer com que esta cimeira decorresse este ano na Rússia. O que é que se pode esperar desta cimeira?
Carlos Gaspar: O essencial da cimeira é a Rússia poder demonstrar que consegue reunir à volta do Presidente Putin um número importante de dirigentes. Em primeiro lugar, obviamente, o seu principal parceiro, o secretário-geral do Partido Comunista da China, que está presente, mas também o primeiro-ministro indiano Modi, está em Kazan, tal como está o novo Presidente do Irão, o Presidente da África do Sul e Lula está ausente, aparentemente por razões médicas.
O Secretário-Geral das Nações Unidas pela primeira vez, foi convidado e é esperado pelo menos, a agência russa indica que está marcada uma reunião entre ele e o Presidente Putin para tratar dos vários conflitos internacionais e a sua presença, obviamente, seria importante nesta cimeira, que é a primeira cimeira dos BRICS alargados. Os BRICS foram constituídos em 2006, por iniciativa da Rússia e da China, com a Índia e o Brasil. Depois, a África do Sul juntou-se ao grupo cinco anos depois, mas em Janeiro deste ano houve um primeiro grande alargamento a outros Estados relevantes do Médio Oriente, da África e da América Latina. O alargamento inicial previa a participação da Argentina, que, entretanto, depois das eleições, desistiu de pertencer aos BRICS. A Arábia Saudita, que ainda não ratificou a sua participação dos BRICS, mas também a Etiópia, o Egipto, o Irão e os Emirados Árabes Unidos. Ainda não é claro a que nível é que estes novos países se vão representar, excepto no caso do Irão, que envia o seu novo Presidente. A Etiópia e o Egipto, estão à beira de um conflito por causa da nova barragem que a Etiópia está a fazer e que vai condicionar os fluxos do rio Nilo e também por causa das suas divergências no Sudão.
Esta cimeira é uma cimeira que reúne uma série de Estados que têm divergências muito profundas entre si. Desde logo, a China e a Índia também são um caso evidente e o Irão e a Arábia Saudita são outro. Nesse sentido, é uma colecção de estados sui generis que aceitam estar numa cimeira e mesmo numa organização comandada pelas principais potências revisionistas: a China e a Rússia, mas mantém a sua liberdade e a sua autonomia em todas as dimensões relevantes da política internacional e têm conflitos importantes entre si, sendo que os BRICS não contribuem ou até agora não contribuíram, tal como a Organização de Cooperação de Xangai também não contribuiu, para resolver os conflitos graves que opõem os seus membros entre si.
Como é que esta adesão de novos membros influência a dinâmica de poder entre os blocos ocidentais e oriental? E que implicações é que tem esta expansão no equilíbrio do poder global? Que impacto é que, portanto, pode ter nas relações destes países com os Estados Unidos e com a Europa?
Em princípio, não tem nenhum impacto relevante. Os BRICS não formam um bloco. São uma colecção heterogénea de Estados, onde há um centro forte composto pela coligação entre a Rússia, a China e o Irão. Mas os outros Estados; a África do Sul, o Brasil e a Índia são potências intermédias que, de certa maneira, procuram uma equidistância entre as potências revisionistas, a China e a Rússia e os Estados Unidos, por outro lado, com os seus aliados ocidentais. Não tomam partido nem por um lado nem por outro, ou tentam não tomar partido nem por um lado, nem por outro, naquilo que são as principais clivagens internacionais - esse é um padrão de comportamento forte na diplomacia indiana, também do lado do Brasil ou do Egipto, que tem uma longa tradição, provavelmente beneficia o estatuto internacional dessas potências intermédias, do lado da Rússia e da China. O argumento é de que estão a construir uma nova ordem internacional, mas não é nada evidente que os seus parceiros dos BRICS fizessem parte de uma ordem alternativa. à ordem internacional das Nações Unidas.
O Kremlin anunciou que o Putin e Guterres têm encontro marcado para depois de amanhã, quinta-feira. O Secretário-Geral das Nações Unidas não vai à Rússia desde 2022 e pergunto-lhe o que é que procura Putin neste encontro? O que é que procura António Guterres e quais é que são as expectativas da comunidade internacional neste encontro agendado para quinta-feira?
Teremos de ver primeiro se ele efectivamente se confirma. É verdade que a Rússia e a China, que são os pilares dos BRICS, são dois membros do Conselho de Segurança das Nações Unidas. Mas, evidentemente, um encontro entre o Secretário-Geral das Nações Unidas e o Presidente da Rússia, depois do Secretário-Geral das Nações Unidas ter recusado ir à Cimeira da Paz, organizada pela Ucrânia, na Suíça, seria, obviamente, um sinal político forte que diz respeito, evidentemente, apenas à posição do Secretário-Geral das Nações Unidas. Ainda não há uma confirmação definitiva.
Qual é que é o papel da China na cooperação com a Rússia? A crescente dependência mútua entre Moscovo e Pequim pode estar a mudar a natureza da liderança dentro dos BRICS.
Há uma iniciativa importante da Rússia e da China que querem ter à sua volta estas potências intermédias, mesmo que seja apenas numa cimeira que vale o que vale. É uma demonstração, apesar de tudo, que o isolamento da Rússia, mesmo depois da invasão da Ucrânia, é um isolamento muito relativo e que não inclui uma parte importante das potências intermédias, como a Índia, o Brasil ou a África do Sul - isso é o mais importante.
A relação entre a China e a Rússia é uma relação que tem uma forte convergência que se acentuou desde a invasão da Ucrânia pela Rússia e que pode formar, efectivamente, para todos os efeitos, uma coligação das potências revisionistas que contrabalança a posição dos Estados Unidos e dos seus aliados na política internacional e a sua capacidade para chamar à sua volta altos dirigentes destas potências intermédias é um marco importante para a sua reputação internacional, mesmo que não tenha outras consequências.
Vladimir Putin vai usar da cimeira, a seu ver, para alegar que as sanções ocidentais contra a Rússia falharam. E até que ponto é que o apoio dos BRICS pode mitigar estes efeitos económicos e diplomáticos das sanções?
Insisto mais uma vez, os BRICS não são nem um bloco, nem uma aliança formal, nem um conjunto de Estados que tenham entre si uma parceria estratégica. Todos estes Estados têm as suas próprias políticas e incluindo quanto às sanções, a China tem apoiado a Rússia, designadamente no domínio económico e financeiro, mas não há nenhuma evidência, até agora, de que a China, ao contrário do Irão ou da Coreia do Norte, tenha enviado, tenha vendido armas para a Rússia depois da invasão da Ucrânia em violação das sanções internacionais.
Estes Estados não violam as sanções internacionais contra a Rússia. Alguns deles são importantes para, apesar de tudo, comprarem os produtos energéticos da Rússia. É o caso, designadamente da Índia, como é o caso da China. Mas não há, obviamente, uma violação maciça das sanções contra a Rússia. Trata-se de demonstrar que não há um isolamento diplomático da Rússia, apesar de a Rússia ter violado todas as disposições fundamentais da ordem internacional das Nações Unidas quando invadiu a Ucrânia.
No plano económico, está também a vontade de encontrar uma alternativa ao dólar. Pergunto-lhe que alternativa pode haver ao dólar e qual é a importância deste plano económico por parte dos BRICS?
É sobretudo uma estratégia. Do lado da China, Rússia tem uma economia relativamente menor do volume da economia russa é qualquer coisa comparável a Itália ou a Espanha. Mas a China representa um volume importante e a China tem tentado que as suas relações, as suas trocas económicas com outros países, designadamente com a Rússia, se façam nas suas próprias moedas nacionais e não em dólares. É uma tentativa que a China está a seguir há vários anos, mas que até agora tem resultados relativamente pequenos, uma vez que o dólar continua a ser a moeda de referência em 80% das trocas económicas à escala global.
O que é que uma alternativa ao dólar pode criar? Qual é que é o interesse de haver uma alternativa a esta moeda?
A China e a Rússia, mas sobretudo a China, quer criar um sistema económico alternativo ao sistema económico, à economia aberta, liderada pelos Estados Unidos, como quer criar uma ordem alternativa à ordem internacional criada pelos Estados Unidos. É um trabalho de décadas e é uma estratégia de longo prazo para demonstrar que há uma alternativa. E, neste domínio, as relações com as potências intermédias são naturalmente importantes, muito embora os resultados até agora na parte financeira sejam muito decepcionantes para agir, de uma vez que a parte do dólar nas trocas económicas internacionais continua a ser dominante.
Centenas de pessoas saíram esta manhã para as ruas em Maputo, mas também noutros pontos do país, em resposta ao apelo à greve e à manifestação lançado para esta segunda-feira pelo candidato presidencial Venâncio Mondlane, que reclama a vitória nas eleições de 9 de Outubro e pretende igualmente protestar contra o assassínio, no fim-de-semana, do seu advogado, Elvino Dias, e do seu mandatário político, Paulo Guamba.
Ao longo destas últimas horas circularam inúmeras informações sobre situações de extrema tensão em Maputo, mas igualmente noutras partes do país, como por exemplo Pemba, com actos de vandalismo por parte de alguns manifestantes, confrontos, a utilização de gás lacrimogéneo e também tiros para o ar por parte das forças da ordem.
Uma situação que acontece numa altura em que ainda se está em período eleitoral, dado que a CNE deve apresentar até quinta-feira os resultados definitivos das eleições gerais. Segundo dados preliminares, a Frelimo no poder saiu vitoriosa deste escrutínio, mas a oposição rejeita estes resultados alegando fraudes massivas.
É este cenário que analisámos com João Feijó, investigador do Observatório do Meio Rural, que começa por abordar o duplo assassínio na sexta-feira à noite de Elvino Dias e Paulo Guamba. Acontecimentos que, segundo o estudioso, vêm na linha de outras mortes violentas ocorridas em plena luz do dia nestes últimos anos em Moçambique.
RFI: O duplo assassínio do fim-de-semana aconteceu num contexto político já tenso. Qual era o objectivo a seu ver?
João Feijó: Isto é algo aqui que infelizmente, se tornou uma realidade deste último mandato. Esta governação que acontece em Moçambique desde 2014, ficou célebre por diversos assassinatos de indivíduos que faziam a luta política de forma institucional. Logo em 2015, houve o assassinato de Gilles Cistac, que era um constitucionalista, um conhecido professor universitário catedrático da Universidade Eduardo Mondlane, que defendia a existência de espaço na Constituição de Moçambique para a descentralização, que era a reivindicação de Afonso Dhlakama (líder histórico da Renamo). Portanto, ele encontrou na Constituição um espaço que permitia o diálogo. Foi assassinado por causa dessas declarações por esquadrões da morte, por indivíduos que até hoje não estão identificados. E o assassinato foi em plena luz do dia, no centro da cidade, numa zona com câmaras. Portanto, é impossível que não se pudesse investigar. Depois, em 2019, assassinaram Anastácio Matavel, que era um indivíduo que tinha pertencido ao Comité Central da Frelimo, mas que estava agora numa organização da sociedade civil a organizar a observação eleitoral independente na província de Gaza e onde tinha já uma máquina que iria de alguma forma incomodar e perturbar o plano de fraude que existia em Gaza. E agora há este assassinato. Isto aqui foi o 'modus operandi' destes dois últimos mandatos deste Presidente. São factos e que demonstram a dificuldade deste Governo conviver com outras alternativas, outras visões e outras interpretações jurídicas. Ilustra o 'modus operandi' que era de agir de uma forma violenta para com aqueles que faziam oposição jurídica. Portanto, não era oposição nas matas, era oposição jurídica. Tudo isto aqui foi um ataque ao Estado de Direito, um ataque à democracia, um ataque aos direitos constitucionais das pessoas. Então, a leitura que os dados nos dão é que estes assassinatos traduzem uma visão de Estado bastante totalitária, bastante intolerante, onde a vontade de uma minoria deve prevalecer sobre uma vontade de uma maioria. Agora, o próximo Presidente vai ter o desafio de se afastar desta linha e de construir um país mais inclusivo, mais respeitador do Estado de direito e da democracia. É isto que está aqui em causa agora, dentro da Frelimo: o próximo Presidente criar a sua linha de governação que seja diferente desta. Não sei se ele vai ter espaço, se ele vai ter força porque vai enfrentar agora aquelas forças conservadoras retrógradas do anterior Presidente. Não sei se vai ter espaço para poder edificar um novo país.
RFI: À luz dos casos que acaba de enumerar, julga que haverá um dia condições para se saber o que aconteceu exactamente neste fim-de-semana?
João Feijó: Duvido imenso. A forma como estes indivíduos agiram foi semelhante à forma como agiram os indivíduos no assassinato de Gilles Cistac e de Anastácio Matavel, que foi à descarada, sem qualquer preocupação de fazer um crime perfeito, com grande aparato, usando armas militares, denunciando a corporação de onde são originários. Isto demonstra que eles fazem parte de serviços de segurança que são bastante poderosos, que controlam a força e controlam as armas. Então o próximo Presidente, até por uma questão de sobrevivência pessoal, não vai poder coordenar uma investigação independente disto, porque quem for fazer essa investigação, vai ter medo de investigar. Portanto, eu duvido que algum dia seja possível perceber quem foram os mandantes disto. Apesar das pessoas desconfiarem, nunca vai ser possível fazer uma investigação imparcial e responsabilizar estas pessoas, porque isso colocaria em risco o próprio partido. Seria um embaraço para o próprio partido reconhecer publicamente que foi o partido que fez. Isto não faz parte da forma de actuação do partido. Por outro lado, eles têm a obrigação de salvar a face uns dos outros de forma até a garantirem a sua sobrevivência interna dentro do partido e terem aliados dentro do partido. E por uma questão até de segurança dos próprios, porque seriam vítimas económicas ou mesmo mortais destes movimentos sinistros.
RFI: Relativamente ao próprio movimento de greve geral, alguns sindicatos (a OTM-CS e o sindicato patronal CTA) reagiram a esse apelo à greve emitido por Venâncio Mondlane, e disseram não ter rigorosamente nada a ver com esse apelo à greve. Como é que interpreta isso?
João Feijó: Há duas coisas que aqui é preciso ver: primeiro, os sindicatos em Moçambique são sindicatos politicamente controlados. A OTM é uma organização que esteve sempre debaixo do guarda-chuva do partido Frelimo. Aliás, é uma organização democrática de massas criada pelo partido Frelimo na década de 70, com o objectivo de ideologizar e de controlar politicamente as massas. Nos sindicatos independentes também há mecanismos de controlo político. Muitas vezes eles utilizam instalações para as suas sedes, que são instalações do partido Frelimo e conseguem usar aquilo a preços simbólicos. E então são formas de controlo político. Os sindicatos nunca, em Moçambique, convocaram uma greve nacional, não obstante os enormes problemas laborais que existem no sector formal, não obstante o facto do salário mínimo em Moçambique representar menos de um terço da cesta básica, ou seja, daquilo que é necessário para um trabalhador sobreviver. Não obstante todos os problemas laborais em Moçambique, os sindicatos nunca convocaram uma greve geral e sempre que o tentaram fazer foram coagidos, foram intimidados, foram aliciados a formas do controlo político. Os sindicatos jamais irão fazer uma coisa dessas enquanto existir estes mecanismos repressivos ou aliciadores do controlo deste movimento. Por outro lado, é preciso ver o que significa a palavra 'greve' em Moçambique, que é um conceito polissémico na Europa e no mundo formal. 'Greve' significa paralisação das actividades laborais e obedece a um conjunto de regras. Mas a palavra 'greve' em Moçambique tornou-se um outro conceito que significa paralisação das actividades por parte da população. Portanto, as pessoas não se deslocam, as pessoas impedem a circulação de carros, as pessoas perturbam as actividades normais da economia, bloqueando o trânsito. Ou até pode significar manifestação. Pode significar até na mente de muitas pessoas, o saque e a pilhagem. Portanto, a palavra 'greve' é uma palavra que se aplica não tanto ao sector formal, mas ao sector informal da economia e a esmagadora maioria da população está ativa no sector informal da economia. Então, quer dizer, o sector informal da economia não tem sindicatos. As pessoas estão auto entregues nas suas actividades económicas e vivem do 'desenrasca'. Vender bolinhos na rua ou vender recargas de telefone, ou fazem serviços de táxi ou transporte e por aí fora. Então, a palavra 'greve' é uma palavra que normalmente é dirigida a esta população que vive do 'desenrasca', que vive da sobrevivência diária e que não se revê na governação, que sente que a governação não cria políticas que os protejam e que sentem que não só não há políticas que os protegem, como o Estado, quando está presente, está presente para os oprimir. Porque por serem informais, são vistos como marginais e a Polícia Municipal exige-lhes o pagamento de taxas, confisca-lhes os bens. Então são pessoas que sentem uma grande revolta contra o Estado. O Estado não os protege e quando aparece, aparece para os prejudicar. Então, a palavra 'greve' é uma palavra com uma conotação mais política, dirigida a este lúmpen urbano e não tanto uma palavra de luta sindical, que também é política, claro, mas que tem a sua conotação.
RFI: O presidente da Comissão da União Africana pediu hoje calma e "disposição pacífica" aos actores políticos do país. Como é que interpreta estas declarações? Isto é sinal de que Moçambique poderia estar sob escrutínio internacional e que, efectivamente, poderia haver posições mais fortes?
João Feijó: Este apelo vai na linha de todos os apelos feitos de vários quadrantes, dos Estados Unidos, da União Europeia, da Noruega e do Canadá que já vieram mostrar a sua preocupação e os países do continente agora também -neste caso a União Africana- vem na mesma linha mostrar a sua preocupação em relação a esta tensão política que se está a radicalizar. E é um apelo positivo. O apelo ao respeito em relação às regras do jogo democrático, um apelo a não enveredar pela violência. É uma zona de grande investimento internacional. É uma zona que é um corredor energético para o exterior e uma instabilidade no país iria colocar em causa, no fundo, a estabilidade desses investimentos. Portanto, todos os países interessados em investimentos em Moçambique estão a ver esta situação com alguma preocupação.
RFI: São esperados resultados definitivos por parte da Comissão Nacional de Eleições até 24 de Outubro, ou seja, daqui a muito poucos dias. Quais são as perspectivas, a seu ver?
João Feijó: A avaliar pelas experiências anteriores, a CNE vai fechar os olhos a todas as evidências de fraude. Vai fechar os olhos aos problemas denunciados de enchimento de urnas, de editais que não estão assinados, editais falsos produzidos irregularmente, de situações de denúncia de corrupção de membros da assembleia de voto ou de expulsão de membros da assembleia de voto. Vai fechar os olhos a editais com 'números norte-coreanos' de vitórias de 100% de um partido em mesas de voto, em que 100% dos eleitores inscritos foram votar, inclusive em zonas transfronteiriças, como se ninguém tivesse morrido, como se ninguém tivesse viajado e todos os indivíduos recenseados fossem votar, ainda por cima no mesmo partido. Vai fechar os olhos a todas estas situações e vai simplesmente validar os resultados. A CNE é um órgão partidarizado onde todos os partidos estão presentes, mas onde a Frelimo está sobrerrepresentada e vai vencer sempre nas resoluções. O Presidente da CNE, mesmo que não concorde, talvez para salvar a sua face, até pode votar 'neutro', mas não vai impedir que estes resultados sejam validados e que a Frelimo vença com maioria absoluta. Desconfio que não vai haver nenhuma revisão de resultados e que simplesmente vão legitimar esta vitória da Frelimo com mais de 70% dos votos. São números que não convencem as pessoas, sobretudo a população urbana, que hoje vota sobretudo na oposição. Na verdade, não acho que haja algum partido que possa reivindicar a vitória, porque o nível de fraude, o nível de ilícitos eleitorais foi tão grave, tão omnipresente e foi desde o período de recenseamento até ao período de contagem dos votos, que os resultados estão tão 'martelados', que se torna muito complicado alguém poder reivindicar que venceu as eleições, porque na verdade houve tanta adulteração da vontade eleitoral. Começa a ficar complicado dizer que o partido A ou o partido B deve ter ganho as eleições. Vai ficar esta incógnita. Ninguém vai poder demonstrá-lo com evidência estatisticamente que ganhou ou vai ter dificuldades para o fazer. E assim gastou-se muito dinheiro em eleições para no final não haver um resultado que espelhe a vontade da população. Vai ficar a desconfiança de que estes escrutínios são ineficientes e inúteis e que é só um simples processo de gastar dinheiro, vai se tornar depois complicado no futuro Moçambique pedir financiamento para estes escrutínios. Eu penso que vai haver mais pressão no futuro para a revisão das regras eleitorais. Espero que o próximo Presidente tenha a capacidade de alterar essas regras, mas eu acho que ele não vai fazer. Até pode demonstrar alguma vontade política, mas nesse sentido de fazer reformas, mas mantendo sempre o controlo das regras do jogo. Porque o partido Frelimo sabe que a única hipótese de sobrevivência económica é através do acesso ao Estado, através do qual depois conseguem ter acesso aos recursos do Estado, aos concursos, às licenças de exploração de recursos naturais, aos empregos, às comissões destes negócios internacionais que têm sempre estas rendas que são distribuídas pela nomenclatura nacional. Então, por isso é que as lutas pelo acesso ao Estado são tão acesas, são tão incendiárias e por isso é que eu desconfio que o partido faça esta despartidarização das organizações eleitorais. Já vi esta promessa com Nyusi, mas depois não se concretizou, porque sabem perfeitamente que são estas regras do jogo manipuladas que garantem a sobrevivência do partido num contexto em que eles têm noção que estão a ser cada vez mais impopulares. Têm noção disso porque estão sempre rodeados de segurança. Porque se não tivessem medo da população, não estavam sempre tão rodeados de segurança.
RFI: Julga que o sentimento de revolta que existe entre os apoiantes de Venâncio Mondlane possa de facto alastrar para outras categorias da sociedade e que isto possa eventualmente resvalar para algo mais grave?
João Feijó: Atenção que a maior parte dos sectores da sociedade hoje em dia apoia a oposição. Há 20 anos atrás, os funcionários públicos eram os grandes apoiantes do partido Frelimo. Maputo, que era uma cidade onde se empregavam muitos funcionários públicos no aparelho central do Estado, votava claramente no partido Frelimo. Hoje é o contrário. Percebe-se claramente que em Maputo e Matola, a maioria da população vota na oposição, apesar de os resultados oficiais das eleições não transmitirem isso. O que a gente vê é que muitos funcionários públicos, hoje, votam na oposição. Eu conheço muitos funcionários públicos extremamente descontentes com a introdução da tabela salarial única, coisa que gerou muita frustração entre os funcionários públicos. Isto é evidente nos professores, no pessoal da saúde, no pessoal da Justiça, nas Forças de Defesa e Segurança. Durante estas eleições, houve muitas imagens que circularam de elementos das Forças de Defesa e Segurança a votarem ou até mesmo a apoiarem Venâncio Mondlane, onde na urna de voto tiravam foto ao seu distintivo junto ao X que marcavam em Venâncio Mondlane ou no 'Podemos'. Portanto, isto mostra que muitos sectores da sociedade hoje apoiam Venâncio Mondlane. Não é só aquela juventude urbana com muitos problemas de integração socioeconómica. É também a população empregada no sector formal da economia do Estado, mas também do sector privado, que vê este desgaste todo que teve a Frelimo e toda a trapalhada que a Frelimo fez nos últimos dez anos, desde o escândalo das 'dívidas ocultas' até passando pelo TSU, passando pela forma como foi gerido a guerra em Cabo Delgado, etc. Então, o Estado está muito fragilizado, o governo está muito fragilizado e perdeu o apoio de muitos sectores da população. Agora estes sectores não estão organizados, a oposição não está organizada. A Frelimo está organizada. Quando tomou o poder, em 1974, a Frelimo tinha grupos. Era um partido leninista que tinha uma estratégia. Tinha indivíduos que estavam infiltrados em Portugal a seguir ao 25 de Abril, que identificaram sectores da sociedade portuguesa que apoiavam os movimentos de libertação. O Aquino de Bragança teve essa missão e identificou no MFA, aliados que poderiam apoiar durante as negociações que depois aconteceram em Lusaka. Em Maputo tinha células já bastante organizadas nas escolas, nos bairros, nos locais de trabalho, onde orientavam as populações politicamente e usavam as pessoas politicamente e conseguiam, depois, sem telemóveis, sem redes sociais, transmitir o seu manifesto, as suas orientações, a sua estratégia política. Mas hoje a oposição não está ainda organizada desta forma. A Frelimo tem este lema de que a vitória prepara-se, a vitória organiza-se. Este princípio leninista e este princípio aplica-se inclusivamente à desorganização da oposição. Portanto, a oposição também não se organiza porque a Frelimo não deixa que a oposição se organize. Portanto, a primeira tarefa da Frelimo é desorganizar o seu adversário, bloquear verbas para campanha partidária, eliminar e criar obstáculos àqueles candidatos que possam ser mais desafiadores e incómodos ao partido. Proibindo estas marchas, estas organizações de manifestações, inclusivamente de marchas pacíficas. Então fica muito complicado para a oposição transformar este descontentamento estrutural num projecto organizado e alternativo de governação. Portanto, é um movimento de indivíduos que dão o peito às balas, que dão o peito ao gás lacrimogéneo, que queimam os pneus na rua, que provocam o medo, que paralisa, mas que não provocam mudança estrutural. Não é uma alternativa ainda, mas não é uma alternativa, porque a Frelimo não permite que seja uma alternativa. E o problema disto é que isto está a dar razão àquele princípio que a Renamo tinha de que a única hipótese de transformação política em Moçambique era através da via militar, através da existência de uma guerrilha nas matas. Aquela ideia de que, como dizia Samora, o poder não se conquista, arranca-se. Ou seja, ao impedir a forma de participação democrática, ao assassinarem juristas, mandatários de partidos da oposição, a informação que estão a dar à população é que a única hipótese de participar politicamente é através da guerrilha agora urbana, porque houve já o DDR. Moçambique não pode ser construído desta forma. E esta músculo, esta musculatura toda, só vai contribuir para a instabilidade política, económica e social. E a Frelimo tem que perceber uma coisa: a população hoje não está com a Frelimo.
O vocalista e guitarrista Capitão Fausto, Tomás Wallenstein, está em Paris a participar no MaMA Music & Convention para ouvir e conhecer novos artistas, mas também para representar a banda e apresentar o projecto a futuros parceiros. Tomás Wallenstein explica, ainda, que a internacionalização surge após anos de consolidação em Portugal e está convencido de que conhecer outros artistas e novos públicos pode enriquecer o processo criativo.
RFI: Como é que está a ser a experiência de participar no festival MaMA Music & Convention, não só no lado dos artistas, mas no lado do público?
Tomás Wallenstein: Em primeiro lugar, Paris está a tratar-me muito bem. Cheguei ontem, tem valido muito a pena estar aqui e não é uma coisa rara para mim e para os Capitão Fausto, em geral, estarmos do lado do público, estarmos do lado de quem vai ver e ouvir música. E a principal razão pela qual eu vim ao Mama este ano foi para isso: para ouvir, para ver o que é que está a acontecer e para conhecer artistas e conhecer um bocadinho mais por dentro o tecido da música aqui da cena musical francesa. Está a ser muito interessante. Ontem, vi concertos muito interessantes, vi salas e está a ser interessante conhecer as salas e ir aprofundando o meu conhecimento. Vamos fazendo amigos e portanto está a ser uma boa experiência até agora.
Está do lado do público e, inevitavelmente, está a representar o grupo Capitão Fausto. E é também esse espaço que vai ocupar nestes próximos dias que é fazer contactos?
É evidente que temos alguns planos para o próximo ano e que envolvem a cidade de Paris e, portanto, faz todo o sentido vir conhecer pessoas e apresentar o nosso projecto e os nossos planos e ficar com parceiros que possam fazer este caminho connosco, que de certeza que vai correr muito bem. Até agora as pessoas várias que conhecemos ficamos muito impressionados e acho que estamos com boas perspectivas.
Os Capitão Fausto preservam e reinventam a música portuguesa mantém o idioma como parte central das canções, abordam questões sociais, pessoais, sempre em diálogo com a realidade portuguesa. Vocês têm mostrado que é possível criar música original, autêntica na língua portuguesa e parece ser fácil de quem vê de fora na forma como o fazem. Como é que os Capitão Fausto são vistos fora de Portugal e conseguem ter essa perceção da vossa música no exterior?
Isso é a pergunta que nós também estamos a começar a fazer nós próprios. Mas eu acredito que a linguagem é cada vez menos uma barreira. Acho que nós estamos cada vez mais habituados a ver cinema, a ver televisão, a ver coisas no telemóvel legendadas na sua língua original, o cinema falado nas línguas mais dos sítios dos países de onde vêm com maior exposição é a música também. Existe um lugar que é o lugar que nós também queremos procurar, em que as coisas existem, como elas nasceram no sítio e que se junta no mesmo palco, no mesmo festival, num mesmo circuito. Vários interlocutores a falar da maneira que sabem melhor. E é essa a principal razão pela qual eu escrevo em português. E nós e nós fazemos as canções que fazemos por ser, evidentemente, a maneira de comunicar mais prática.
A língua portuguesa não é o entrave neste caso e até pode ser uma descoberta de novas sonoridades para um público francês, por exemplo?
Eu acredito que sim. Se eu tivesse só a fazer literatura também existe maneiras da literatura atravessar fronteiras através da tradução e por aí fora. E a música é uma linguagem universal e eu acredito que os Capitão Fausto conseguem mostrar-se num concerto e extravasar o primeiro confronto com uma língua que não se percebe imediatamente. Acho que depois acrescenta camadas à experiência musical e isso tem me acontecido muito com música italiana que vou ouvindo e sueca e é holandesa e francesa - que eu percebo muito bem - mas de outras línguas que não percebo e só à quinta ou sexta escuta é que eu vou retirando cada vez mais camadas e vou descobrir a letra, ao ir ver traduções e perceber o que é que ali está dito. Eu acho que é uma experiência enriquecedora. Acredito piamente que muita gente, muito público esteja esteja para aí virado.
Capitão Fausto publicou cinco álbuns, o grupo foi criado em 2009. Por que é que a internacionalização acontece agora?
A nossa primeira digressão com a nossa formação original, justamente em 2009 ou em 2010, não foi em Portugal, foi em Ibiza a tocar covers de Elvis e de Beatles e não sei o quê por bares. É sempre uma questão de momento. Nós fizemos uma escolha na nossa carreira de investir muito no nosso país e de investir e consolidar a nossa posição dentro de Portugal. E tivemos a sorte de conseguir criar um público que é muito próximo, que nos acompanha, nos acarinha e que nos dá muita energia para continuar a trabalhar. O momento da internacionalização vem a seguir e esse, vem num gesto de procurar mais público. Vem num gesto de nós podermos conhecer, crescer como artistas, conhecer realidades diferentes. É preciso ter sempre um sentido de oportunidade. E surgiu este. É evidente que os anos da pandemia atrasaram tudo numa gestão de carreira. Qualquer carreira, calculo eu, mas uma carreira artística mais ainda, ficou um bocadinho estagnada com a altura da pandemia. E foi também o nosso caso. Mas felizmente está tudo caminhar bem.
Como dizia, conhecer novos artistas vai influenciar e vai criar novas vias, novas estradas para um grupo?
Inevitavelmente, conhecer novos artistas sem dúvida é a parte da colaboração, quando se faz colaborações por fora, nós saímos um bocadinho da nossa zona de conforto e estamos a ouvir ideias de outras pessoas, mas também conhecer públicos diferentes, conhecer salas diferentes, cidades diferentes. Tudo isso influencia. A arte é a ciência que estuda a condição humana é o que explica o que é que é nós estarmos vivos e, portanto, qualquer vivência é um acrescento à construção do trabalho artístico.
Como é que o público pode influenciar o público?
O público influencia de muitas maneiras; da maneira como reage, da maneira como nos dá feedback no fim do concerto, na maneira como aparece ou não aparece. Uma ausência de público também influencia; e eu acho que nós temos de ser seres muito ativos e muito atentos ao que está à nossa volta.
O músico brasileiro Tim Bernardes colaborou com vocês neste novo álbum, editado este ano, Subida infinita. Tim Bernardes esteve recentemente nos nossos estúdios, onde falou desta colaboração e da admiração que tem por vocês, por Capitão Fausto. Como é que foi trabalhar com Tim Bernardes e em que medida é que participar neste festival também pode criar novas colaborações?
Em primeiro lugar, o Tim seria a pessoa mais óbvia para haver uma primeira colaboração numa gravação de uma música original e que foi o que aconteceu. Em nenhum disco nosso aparece algum featuring, alguma outra voz. O Tim é a escolha mais óbvia, porque nós temos uma amizade que já tem muitos anos e já trabalhamos muito juntos e temos uma espécie de uma vida paralela, separada pelo Oceano Atlântico. O Terno e o Capitão Fausto nasceram no mesmo ano, fizeram faculdade nas mesmas alturas, atravessaram as mesmas fases de vida. Começa a se ver as letras e falam mais ou menos das mesmas coisas em cada fase. Portanto, tivemos assim um crescimento em paralelo e quando nos fomos conhecendo e percebendo estas coincidências, aproximámo-nos muito e trabalhámos muito bem juntos. Tocámos umas versões das músicas do Tim, numa das vezes que ele esteve lá no nosso estúdio em Alvalade, fizemos um concerto em conjunto no Rio de Janeiro com o Terno que foi uma das experiências mais marcantes porque montámos em quatro dias um espetáculo de uma forma que nunca tínhamos feito antes: duas bandas a fazerem repertório em conjunto, tudo em duplicado, duas baterias, dois baixos e portanto foi um espetáculo muito curioso de montar, muito imediato. E depois viveu só ali e ali aconteceu. Um dia há de ser repetido, espero eu.
Editado, quem sabe?
Talvez, talvez ... Por acaso não sei se foi gravado, mas pelo menos vamos replicar esse concerto e talvez aqui em Paris. Fausto- Terno, Capitão Fausto é o terno. O Terno que por acaso está a vir a Portugal agora em digressão. A participação do Tim foi muito fácil em termos de trabalhar e calhou numa altura em que ele estava a fazer um concerto no Coliseu, em Janeiro do ano passado, e que já tinha vindo antes.Acompanhou um bocadinho o processo de não estarmos a acabar o nosso disco e nós reservamos este lugar para ele e foi bastante evidente. Parece pelo menos que para ele foi muito fácil, ouvi-lo a cantar parece me que é fácil, parece muito natural, uma naturalidade invejável.
E ouvir vos a cantar também parece que é sempre fácil. É fácil?
Dá muito trabalho. Eu acho que nós somos um bocadinho exigentes. Há uma tendência crescente quando se trabalha em coisas criativas. Os critérios começaram a ficar cada vez mais apertados e nesse aspecto, acho que a parte que começa a dificultar começamos a por complicações na tomada de decisões, geralmente. A ser cada vez mais exigentes e começa a torna-se difícil encontrar uma ideia de que gostemos à partida. E é com isso que nós temos lidado ultimamente. E eu acho que isso o que faz estende os períodos de criação um bocadinho mais e torna nos um bocadinho mais exaustivos. No entanto, é fácil fazer aquilo que fazemos na perspectiva em que aquilo que gostamos de o fazer e fazemo-lo com alegria. E dar um concerto que continua a ser uma fase alta da nossa semana, estar em conjunto a acabar uma música e a ter a sensação de que cumprimos ainda é uma das grande alegrias e portanto, essa parte sim, é fácil.
Como é que tem sido a evolução de Capitão Fausto nos últimos dois álbuns? Neste e no penúltimo álbum dá ideia que se estão a desligar um pouco do rock que se estão a aproximar mais da música portuguesa, com arranjos modernos, mas sempre guardando sons nostálgicos dos anos 60, 70, 80 da música portuguesa. Quem não viveu esses anos consegue ainda assim sentir essa nostalgia. Como é que é possível sentir uma nostalgia de um tempo que não foi vivido?
É como ver um filme de Ficção científica (Sci-Fi) ou como ver um filme da Idade Média. Uma pessoa consegue transportar-e para lá, se calhar com mais detalhe e mais realismo do que quando temos uma memória muito fresca. Porque aí não é um mito, é uma realidade, não é? A música dos anos 60 e 70 foi sempre aquilo que nos motivou mais e onde nós regressamos sempre numa espécie de manifesto da música popular, da música pop e do rock. Há muitos períodos da minha vida em que eu já não estou a ouvir propriamente muito estes discos, mas ciclicamente regresso aos Beatles e regresso ao Elvis e regresso ao Zé Mário Branco e ao Fausto e ao Zeca Afonso, para depois voltar às coisas do presente.
Mas há uma vontade de reinventar estas sonoridades?
Sim, eu acho que existe ali um manifesto nessa época, um manifesto entre aspas, mas existe uma receita basilar que é aquela que se pode sempre aplicar para a música popular, acho eu. Existe uma estética muito cunhada, muito vincada dessa altura que continua a fazer muito sentido em termos de transmitir emoções e transmitir sentimentos e pensamentos. É-nos muito natural e também não é muito escolhido. Acho que é talvez aquilo que nós podemos dizer que é mais constante na nossa música, que já foi feito e que há de vir. É um bocadinho termos uma referência vaga dessa época.
Subida Infinita foi lançado no início deste ano. Em média, têm produzido um disco todos os três anos. Há novos planos para breve?
Há sem dúvida novos planos. Ainda é cedo para falar no plano mais imediato, mas posso dizer que é uma coisa onde nós saímos um bocadinho mais do nosso contexto e um bocadinho mais fora do nosso universo habitual e um projecto muito grande que já estamos a fazer há muitos anos e que vem para o próximo ano. Eu falarei dele com todo o gosto quando estiver na altura. Temos um projecto também, um projecto que é uma coisa que está a acontecer há dez anos, que é a nossa editora, que é a Cuca Monga, que trabalha com muitos artistas emergentes da de cena, principalmente de Lisboa, mas de Portugal. Isso também tem evoluído nos últimos anos, cresceu muito e criámos um espaço de encontro onde temos um estúdio e temos a editora a trabalhar já com pessoas a tempo inteiro e, portanto, também tem sido um ponto de encontro de pessoas, de pensamentos, de artistas. Temos conhecido muita gente à volta da Cuca Monga e também é um projecto para os próximos tempos que nos ocupa muito. E fazer música nova de há de acontecer. Estamos. Estamos em estúdio todos os dias agora. Portanto, quando puder, virei cá falar sobre isso.
O grupo musical Ayom esteve em Paris a promover o novo trabalho intitulado Sa.Li.Va. Em entrevista à RFI, quatro dos seis elementos do grupo, falaram das linhas gerais deste novo trabalho, dividido em três capítulos distintos - “SA-grado”, “LI-berdade” e “VA-lentia”. O disco conta ainda com a participação de Juliana Linhares, Paulo Flores e Salvador Sobral.
O antropólogo moçambicano Anésio Manhiça está a desenvolver um projecto chamado “Empreender com Orgulho”. Trata-se de uma iniciativa que promove o empoderamento económico de jovens LGBTQIA+ em Moçambique, no intuito de criar abordagens mais inclusivas nos negócios e “ajudar a mudar mentes”. Depois de ter realizado a 1ª Conferência do Empoderamento Económico LGBTQIA+, a iniciativa vai promover, em Novembro, a 1ª competição de ideias de negócios inclusivos.
RFI: O que é este projecto “Empreender com Orgulho”?
Anésio Manhiça, Coordenador do Projecto “Empreender com Orgulho”: “Empreender com orgulho” é um consórcio constituído por três organizações moçambicanas: INCLUSÃO, KUTCHINDJA e a Associação do Sistema de Monitoria Orientada para Gestão que decidiram juntar-se para promover o empoderamento económico de jovens LGBT, mas também influenciar para que haja espaços profissionais que respeitem as diferenças baseadas na identidade de género, assim como na orientação sexual.
Há quanto tempo é que começou o projecto e qual é o conceito?
Este projecto começou em Março através do apoio da Other Foundation, que é uma fundação baseada na África do Sul e que tem apoiado diferentes movimentos ao nível da região Austral. Com este projecto, o que nós queríamos é tentar alterar ou mostrar ao nível de Moçambique que existem outros campos ou outras formas de desenvolvimento e transformação e apoio à mudança social para pessoas LGBT, que não sejam questões ligadas ao HIV, à prostituição, à doença. Então, é mais sobre economia porque nós acreditamos que um apoio baseado na economia pode, de alguma forma, reforçar as outras abordagens de apoio às pessoas LGBT e pensamos que também esta é uma metodologia que pode ajudar a mudar mentes, a mudar a forma como as pessoas olham para pessoas LGBT.
Qual é a forma como as pessoas olham?
O que nós temos visto é que, de alguma forma, uma ênfase em abordagens de saúde, de HIV reforça uma narrativa e um imaginário da pessoa LGBT como alguém que é do risco, como alguém que é da doença, tudo do lado negativo. Este é um imaginário já muito antigo, associado às pessoas LGBT. Então, pensámos que apoiando as pessoas a terem negócios, a terem negócios estáveis, empregos dignos, outras pessoas vão olhar para estas pessoas LGBT como pessoas normais que contribuem para a economia, pessoas que contribuem no sector criativo, no sector de hotelaria. A ideia é pensarmos do económico como essa abordagem que vai ajudar nesta mudança social de forma bem mais abrangente.
O que é que têm feito até agora concretamente? E o que é que vão fazer?
Agora, nós desenvolvemos uma pesquisa para compreender quais são as barreiras económicas que as pessoas LGBT têm na área metropolitana de Maputo e que prácticas económicas têm. Fizemos uma pesquisa, que era qualitativa e quantitativa, em que acabámos concluindo que a maior parte das pessoas LGBT acaba desenvolvendo actividades como intermediários, que em Maputo chama-se “nhonguistas” que é uma forma de estar na práctica económica, mesmo sem ter um produto, mesmo sem ter um recurso para adquirir um produto e comercializar, então ficam sempre entre quem produz e quem comercializa.
Então, muitos são “nhonguistas”, que são intermediários, e outros acabam sendo criativos, ficam neste espaço criativo porque é um espaço socialmente construído como um espaço para a pessoa LGBT, mas também é o espaço onde se sentem com maior liberdade de expressar a sua identidade e orientação sexual porque já assim é percebido. É um espaço que já foi conquistado ao longo do tempo.
Também fizemos a primeira Conferência do Empoderamento Económico em Moçambique, que foi um grande marco até a nível da região Austral, onde juntámos empreendedores moçambicanos, brasileiros e sul-africanos. Vamos fazer anualmente esta grande conferência para criar esta sinergia.
Agora, no mês de Novembro, vamos fazer a primeira competição de ideias de negócios inclusivos, em que a ideia é colocarmos pessoas LGBT e não LGBT a apresentarem aquilo que são as suas ideias de negócio, que são baseadas numa abordagem inclusiva. Elas vão passar por um treino para entenderem o que é isso e, no final, vão apresentar estas ideias com melhor precisão. Vamos premiar duas iniciativas e vamos também tentar dar visibilidade aos negócios dos que participaram e talvez sensibilizar aos que aspiram ser empreendedores a caminharem por este lado e a adoptarem abordagens mais inclusivas.
O objectivo, no fundo, é quebrar barreiras e fazer com que todos os empreendedores, em todas as profissões, sejam mais inclusivos?
O que nós constatamos, primeiro, é que vários movimentos LGBT, ao nível de Maputo e um pouco pelo mundo, acabam caminhando por um espaço que acaba sendo segregacionista, que é um movimento que acaba agindo por si. Nós pensamos que tratando-se de uma abordagem económica, é super importante termos o envolvimento de todos os actores porque quem pode dar emprego é, às vezes, alguém que não é LGBT. E se nós conseguirmos fazer com que este empresário perceba que tendo uma abordagem mais inclusiva, pode trazer ganhos à própria empresa, ele vai abrir-se e vai empregar mais pessoas LGBT. Assumimos que nem todas as pessoas têm capacidade de gerar emprego, então é importante envolvermos, buscarmos vários aliados para que realmente criemos este equilíbrio.
Falou em barreiras económicas. Eu suponho que também haja barreiras sociais e culturais. Moçambique está preparado para ser realmente inclusivo também no mundo profissional?
Eu penso que sim, que Moçambique está preparado. Pelo menos, temos a Lei do Trabalho que já prevê a não discriminação contra a orientação sexual. Mas também podemo-nos reforçar muito a partir da legislação que foi feita para a questão do empoderamento da mulher, que prevê questões de género. A questão da Lei do Trabalho é bem categórica em não haver discriminação. Uma das coisas que também prevemos fazer é divulgar massivamente esta lei e tentar trabalhar com as empresas para ver se realmente garantem que dentro do seu espaço profissional não há esta discriminação. Eu acho que está super preparado. O que precisa realmente é de pessoas que estão interessados na causa e que mostrem aos empreendedores e aos empresários a potencialidade de termos espaços de trabalhos mais inclusivos.
Com este projecto, “Empreender com Orgulho”, pensa que alguma coisa pode mudar, que já está a mudar? Que vão quebrar alguns silêncios?
Sim, muitas coisas vão mudar e estão a mudar. Primeiro, esta perspectiva de projectos LGBT que sejam mais de comunidade, agora, estamos a optar por uma dimensão mais nacional, uma voz que é bem mais ouvida. Participamos em diferentes eventos de cariz nacional e que são espaços que convidam outras pessoas a uma participação que sai do nível de bairro, de comunidade, e participamos em discussões mais globais.
Também o facto de termos esta conferência, a Conferência de Empoderamento Económico, em que tivemos uma audiência de mais de cem pessoas, em que tivemos diferentes actores políticos – falo tanto da cooperação internacional, como de alguns membros do governo - mesmo que não se queiram presentar como tal - mas que foi visível e estavam lá.
Há este interesse visível, sim, e há uma outra coisa. Notámos que os outros movimentos também estão a começar a olhar esta abordagem económica como importante e como algo que realmente merece uma super atenção. Estamos a ter este resultado, estamos a influenciar pessoas a optarem por esta abordagem económica e estamos a mostrar aos outros que são decisores políticos que a abordagem económica é super importante e estamos a conseguir também interagir com algumas instituições que se apresentavam como instituições que diziam que não podiam se associar a este grupo alvo.
Houve eleições gerais em Moçambique. Até que ponto é que os candidatos incluíram as reivindicações do eleitorado LGBTQIA+? Foram suficientemente ouvidos?
A questão dos manifestos dos candidatos em relação à causa LGBT, parece-me que ainda é uma continuidade do que vimos em termos históricos, que é uma ambiguidade em termos de identificar-se ou de se prever a questão do público LGBT nos seus manifestos. O que notámos é um silêncio. Eu estava inclusive em dois eventos de debate com os candidatos e com os membros de partidos e, uma das vezes, alguém que estava na audiência de forma muito clara questionou e notámos que o candidato passou pela pergunta como se a pergunta não tivesse sido feita. Era “como é que olha para a questão das minorias sexuais? O que o seu manifesto prevê?”. E simplesmente o candidato não disse nada.
Também estivemos num outro debate que era com os representantes da camada jovem de cada partido, em que também uma pessoa questionou e também houve um total silêncio. Há um receio dos políticos em olhar com maior clareza para a questão das minorias no geral porque são assuntos que ainda são totalmente ambíguos. Há um receio de perda de eleitorado, mas também não sabem se vão ganhar, então preferem um silêncio.
Mas este é um silêncio que já vem desde há muito tempo. No geral, as pessoas podem ser LGBT desde que não digam, que não mostrem. Não haverá nenhuma violência física, não haverá nenhuma sanção, é simplesmente não demonstrar publicamente. Ninguém te vai criminalizar por isso, ninguém te vai violentar por isso, simplesmente não podes viver em espaços públicos e demonstrar em espaços públicos. Então, a ideia dos políticos também vem vincando esta perspectiva. Foi um total silêncio.
Mas também não é só por esta questão, eu acho que isso denuncia uma fraqueza dos próprios partidos em conhecerem temáticas específicas, em conhecerem o seu eleitorado no geral. Então, acho que não é só pelo tema, mas também pela fraqueza do perfil dos candidatos e dos próprios partidos em termos de investimento, em conhecer, de facto, a realidade do país e das pessoas que vão governar.
O pugilista Bruno Fernandes nasceu em Portugal, cresceu em França e representa Cabo Verde. Falhou por pouco o apuramento para os Jogos Olímpicos de 2024, mas tem esperança de uma qualificação para Los Angeles 2028 agora que conta com o apoio do Comité Olímpico de Cabo Verde nesta disciplina que este ano deu ao país a primeira medalha olímpica da sua história.
Bruno Fernandes cresceu nos arredores de Paris e por ser "um rapazinho um bocadinho agitado" começou cedo a praticar o boxe, disciplina que o seu irmão mais velho já praticava, acabando por desenvolver uma carreira profissional. Após vários anos de combates amadores, em 2023 foi identificado pelo Comité Olímpico de Cabo Verde após um terceiro lugar numa competição internacional, começando aí a sua relação com a equipa olímpica cabo-verdiana.
Este foi um apoio que mudou a trajectória deste atleta luso-cabo-verdiano.
"Tive apoio da parte de pessoas que não conhecia mesmo e que hoje em dia sem eles é difícil seria difícil continuar, porque já hoje estou a sentir mesmo o apoio que Cabo Verde com o Comité Olímpico atrás de mim. Então é uma força a mais que antigamente eu não tinha força", descreveu Bruno Fernandes em entrevista à RFI.
Mesmo fazendo já uma carreira profissional no boxe e tendo uma rotina de treino intensa, Bruno Fernandes mantém um outro trabalho que lhe permite manter-se financeiramente. No início de 2024, Bruno Fernandes abriu mesmo uma recolha de fundos para ajudar a custear as despesas ligadas à sua participação em torneios internacionais, tendo tido um retorno da diáspora cabo-verdiana e de franceses que o surpreendeu.
"Para mim foi um bocadinho estranho pedir ajuda às pessoas porque eu sou uma pessoa que gosta de fazer as coisas por mim mesmo. Não gosto de pedir ajudas porque eu penso que as pessoas também têm os seus próprios problemas, então acho que as pessoas não vão me ajudar, mas estava totalmente errado porque eu pedi uma ajuda e tantas pessoas me deram um apoio. Nunca imaginei isso. Então, isso é uma força, mas também que me dá determinação para ir mais para frente", indicou.
Tendo falhado por pouco o apuramento para os Jogos Olímpicos de Paris 2024, Bruno Fernandes, que se situa na categoria dos 71 quilos, prepara-se agora para Los Angeles 2028 e mesmo se há quem diga que o boxe pode não vir a ser modalidade olímpica daqui a quatro anos, este atleta não acredita nessa possibilidade.
"É verdade há uma polémica e que estão a dizer que se calhar já não vai haver boxe nos Jogos Olímpicos de 2028. Mas eu não acho. Porquê? Porque vai ser nos Estados Unidos e é o país onde há mais atletas de boxe e não acho mesmo que isso vai ser possível. Mas tudo é possível no mundo. Eu acredito que o boxe vai estar ainda nos jogos de 2028 e que vamos ainda ter mais espectáculo", concluiu.
Bruno Fernandes já tem agendado o seu próximo combate, no fim de mês de Novembro, em Villepinte, nos arredores de Paris.
O antigo Presidente de São Tomé e Príncipe, Fradique de Menezes, defende que o presidencialismo é uma solução para o país. A questão foi recentemente colocado pelo primeiro-ministro, Patrice Trovoada, admitindo propor a mudança para um regime presidencialista antes das eleições gerais de 2026. Fradique de Menezes considera que o presidencialismo pode clarificar alguns conflitos, quando a instabilidade política e a elevada dívida externa continuam a adiar o desenvolvimento do país.
RFI: O senhor mostra-se preocupado com aquilo que considera ser a " dívida externa terrível" de São Tomé e Príncipe e diz que o país, após a independência, não soube fazer as escolhas certas. O que o leva a fazer estas afirmações?
Fradique de Menezes, ex-chefe de Estado de São Tomé e Príncipe: Os países que tinham meios para sobreviverem tiveram a sua independência e conseguiram singrar . São Tomé e Príncipe quis fazer o mesmo, mas não nos preocupamos muito com o sector económico para a sustentabilidade da soberania, da independência do país.
Quando assumi [o cargo de chefe de Estado], em 2001, o país já tinha uma dívida de quase 400 milhões. Negociamos essa dívida e conseguimos o perdão. Hoje, estamos outra vez mergulhados numa dívida que ronda os 400 milhões de dólares.
Mas como é que se explica esse endividamento?
O país não produz, não exporta, não tem os mecanismos para procurar meios financeiros adequados. Não soubemos desenvolver outros sectores que nos pudessem ajudar economicamente.
Mas refere-se a que sectores?
Poderíamos tentar -como falamos tanto sobre as possibilidades deste país- transformar São Tomé e Príncipe num "Hub" para acolher os grupos económicos. Grupos esses que pudessem implemetar uma série de políticas destinadas ao comércio aqui da zona geográfica onde nos encontramos. Esta é uma das possibilidades de um país insular como o nosso, porque o consumo interno é muito fraco.
Mesmo se tivéssemos um poder de compra elevado, não seria suficiente para poder fazer funcionar as indústrias locais. Porém não nos preocupamos muito com isso e nem fizemos os devidos investimentos no sector agrícola, nas chamadas roças.
O país continua a comprar comida, a comprar medicamentos...
Compramos quase tudo. Produzimos, evidentemente, aqueles produtos agrícolas tradicionais como a banana, a fruta-pão, a mandioca e o milho. Mas muito pouco, até porque muitas vezes não encontramos esses produtos no mercado.
Isto tudo faz com que hoje, com uma população que não cessa de crescer, uma juventude ávida em ter acesso à educação - como é normal- não consegue ter bolsas de estudo. Ainda continuamos a receber uma ou outra bolsa de estudos, em alguns países, mas tem sido muito difícil.
Faltam medicamentos no mercado, peças para fazerem funcionar o aparelho produtivo. Hoje podemos dizer que não adoptamos uma política económica ao mesmo nível da política social e política de discussão [diplomacia]. Porque aí somos bons.
Desde a entrada em funções, em Dezembro de 2022, que o Governo são-tomense tem estado a negociar um programa de crédito alargado com o Fundo Monetário Internacional- FMI- num entendimento difícil. Em Setembro, o primeiro-ministro Patrice Trovoada disse que esperava que as negociações evoluíssem. O que espera destas negociações?
Segundo as informações que o senhor primeiro-ministro nos trouxe, no seu regresso há dias ao país, parece que as negociações estão a seguir bem e que há uma solução para a assinatura de um acordo. É evidente que esse acordo é importante para São Tomé e Príncipe, um acordo para continuar a ter acesso ao mercado financeiro e para que os possíveis investidores possam continuar a vir ao país.
Defende ser necessário um apoio das Nações Unidas para a definição de um programa para transformar o país. Que programa seria esse? Um programa que acabasse com a dependência do país?
Exactamente. Penso na ilha das Seicheles, um pequeno Estado, em termos de tamanho São Tomé e Príncipe vem logo a seguir. As coisas que eles fazem. É extraordinário. Se nós próprios não conseguimos, com todos os estudos que fizemos [fazer avançar o país] temos que pedir apoio às instituições. Eu pensei nas Nações Unidas, ou outras instituições que possam ajudar bilateralmente.
No passado, Portugal também já tentou, fez vários estudos sobre vários sectores. A França também fez e os Estados Unidos. O problema é aceitar aplicar [aquilo que os países nos aconselham].
Mas o problema também não é muitas vezes que o Estado seja o maior empregador num país tão pequeno?
Aí está o âmago da questão. O facto de o Estado estar envolvido na gestão económica do país faz com que isto aconteça. O Governo está repleto de funcionários e cada um centraliza também o poder.
Por exemplo, o código de investimentos. O investidor chega ao país e ele lê o código de investimentos e vai assinar um acordo com o Governo para investir num sector qualquer. Quando chega o primeiro navio com mercadoria, começa logo a ter problemas na alfândega porque o funcionário diz que desconhece completamente esse código. O próprio investidor vai ter de arranjar as cópias exemplares para ir discutir com o director das alfândegas...
Está a dizer que há demasiada burocracia?
Muita burocracia e a falta de abertura da pessoa para ter mentalidade que de facto o país precisa que as coisas avancem.
O primeiro- ministro de São Tomé e Príncipe, Patrice Trovoada, afirmou querer alterar a Constituição e adoptar o presidencialismo. Acha que o presidencialismo é a solução para São Tomé e Príncipe?
Eu acho que é uma solução para São Tomé e Príncipe, pelo menos no que diz respeito [à gestão] dos conflitos.
Neste momento, por exemplo, está aí no ar a hipótese de um conflito entre o senhor Presidente da República, Carlos Vila Nova, e o senhor primeiro-ministro, Patrice Trovoada. Isto porque o senhor Presidente da República acaba de vetar cinco leis para o sector judiciário que foram aprovados pela Assembleia Nacional e propostas pelo Governo. O senhor primeiro-ministro, ao chegar ao país, fez uma declaração que não foi lá muito abonatória em relação à pessoa do senhor Presidente da República.
[ Patrice Trovoada defendeu que "tecnicamente, é um veto político, porque se há um problema de constitucionalidade existem prazos para que se possa fazer uma fiscalização preventiva para que o Tribunal Constitucional, que é o único que julga questões de constitucionalidade, pudesse dizer se é constitucional ou não é constitucional"].
O senhor considera que um regime presidencialista iria esclarecer este tipo de situações?
Ao menos neste aspecto, porque nesse regime o Presidente da República seria também o chefe do Governo. Também seria importante que conseguíssemos, de facto, que o sector judiciário desempenhasse o seu papel verdadeiro. O regime presidencial é importantíssimo, porque os países têm esse regime presidencial não têm esses problemas.
O advogado de são-tomense, Mike João, apresentou uma denúncia no Ministério Público contra o primeiro-ministro Patrice Trovoada, assegurando que tem provas "muito contundentes e claras" de que este participou na execução de quatro cidadãos no quartel militar em 2022. O primeiro- ministro são-tomense já veio dizer que espera que o advogado seja condenado por difamação. O senhor já foi Chefe de Estado de São Tomé e Príncipe Que comentário lhe merece esta situação?
É mais um dos nossos problemas. O advogado de defesa faz o seu papel e o primeiro-ministro nega as acusações, dizendo que não tem nada a ver com isso.Tentei evitar fazer comentários sobre esta polémica. Dizer que o senhor primeiro-ministro está envolvido nisto ou não? Francamente, não sei. Não tenho informações claras, nem precisas sobre isso.
Mas está preocupado com esta situação?
Sim, preocupo-me. Alguns políticos querem tirar algum dividendo desta situação, não há dúvida nenhuma que isto continua a ser um dos assuntos muito falados no país. Ao mesmo tempo, esta situação não vem beneficiar a imagem de São Tomé e Príncipe, sobretudo se pensarmos no sector económico e nos investimentos. O investidor nem quer ouvir falar destas coisas.
São Tomé e Príncipe preside actualmente à presidência rotativa da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa-CPLP. Recentemente, o secretário-executivo, Zacarias da Costa- mostrou-se preocupado com aquilo que está a acontecer na Guiné-Bissau. Acredita que neste momento São Tomé e Príncipe se devia posicionar?
Com certeza. Não se compreende aquilo que está se a passar na Guiné-Bissau. Quando eu era Presidente da República dizia-se, na altura, que existiam dois países na CPLP -Guiné-Bissau e São Tomé e Príncipe- onde havia instabilidade política constante.
Em São Tomé e Príncipe tentou-se tudo para evitar as situações de instabilidade, mas a Guiné-Bissau continua instável. O actual Presidente, Umaro Sissoco Emabaló, tem um feitio, cada um tem o seu feitio, mas o problema é a falta de respeito pela Constituição.
O Bairro da Mafalala é uma zona histórica, berço de resistências políticas e culturais. Daqui saíram os antigos presidentes moçambicanos Samora Machel e Joaquim Chissano, o futebolista Eusébio, os escritores José Craveirinha e Noémia de Sousa, e tantas outras personalidades, algumas das quais retratadas em murais pelo bairro. Em 2019, nasceu o Museu Mafalala que tem promovido actividades para continuar a dinamizar a história deste bairro. Fomos à descoberta deste “caldeirão cultural” com Ivan Laranjeira, o director do museu.
Bem-vindos ao Museu Mafalala, no coração de Maputo. Um labirinto vibrante de vozes, pessoas e cores que sobressaem das ruelas e becos, barracas e bancas, casas precárias com chapas de zinco e alguns murais a homenagearem personalidades locais. Aqui vivem cerca de 20 mil pessoas de diferentes etnias e religiões.
Estamos no Bairro da Mafalala, uma zona histórica que foi - e é - berço de resistências políticas e culturais. Daqui saíram, por exemplo, os antigos presidentes moçambicanos Samora Machel e Joaquim Chissano, o futebolista Eusébio, os escritores José Craveirinha e Noémia de Sousa.
Ainda hoje, o bairro continua a ser um caldeirão cultural que cozinha páginas de história e, para as concentrar, nasceu, em 2019, o Museu Mafalala, dirigido por Ivan Laranjeira, um filho do bairro, que nos levou por caminhos inesperados até aos murais de homenagem às persononalidades históricas.
Ivan Laranjeira resume que o bairro é que é o museu e o museu que ele dirige é simplesmente o guardião da memória que acolhe exposições, actividades culturais e uma biblioteca. É neste edifício que conversámos sobre a importância da Mafalala para o país.
RFI: O que é o Museu Mafalala?
Ivan Laranjeira, Director do Museu Mafalala: O Museu Mafalala é um centro de interpretação, é um lugar onde as pessoas podem interagir com a história do bairro da Mafalala e podem, sobretudo, ter um contacto nas várias épocas em que o bairro e a cidade foram evoluindo. Ter uma noção mais concreta daquilo que é a história da Mafalala e das pessoas e das personalidades que daqui saíram.
Quais foram essas personalidades que daqui saíram? Há muitas importantes para a história de Moçambique e algumas estão representadas em murais aqui no bairro...
A Mafalala é orgulhosa em dizer que produziu dois presidentes de Moçambique, Samora Machel e Joaquim Chissano, um primeiro-ministro Pascoal Mucumbi, o maior jogador de futebol de todos os tempos, Eusébio da Silva Ferreira, os maiores músicos e poetas de Moçambique, casos de Fany Mpfumo, de José Craveirinha, Noémia de Sousa, Rui de Noronha e o toureiro Ricardo Chibanga. Todos da Mafalala para mencionar alguns porque é uma lista interminável e até hoje o bairro continua a produzir grandes personalidades do país, gente que cria tendência e que ajuda a criar este orgulho da moçambicanidade.
Como é que se explica que haja esta efervescência que faz com que daqui saiam estas personalidades que vão marcar a história de Moçambique?
Penso que tem muito a ver com a característica do próprio bairro. É um autêntico caldeirão cultural. Temos aqui gente de toda a parte de Moçambique, da região austral, da costa suaíli, pessoal de Zanzibar, das Comores. Isto contribui imenso para a forma de ser, de estar do bairro da Mafalala e para a capacidade inventiva e criativa dos que aqui vivem. Tudo isto foi sempre assim ao longo dos anos e dos tempos e continua a ser sempre uma referência, a Mafalala, por ser também o único bairro na periferia que dialoga com o centro e com o resto. Portanto, a sua localização também é estratégica e faz com que toda a gente queira cá estar. Isto contribui para a miscigenação e dessa miscigenação cria-se este sentido de nação e criam-se também grandes homens.
Esses grandes homens marcaram a resistência. Este bairro é conhecido por ter sido também um foco de resistência contra o colonialismo e eu queria que fôssemos à história do bairro…
Nós temos dois grandes momentos políticos na história de Moçambique: um que é a queda do Império de Gaza, no final do século XIX, e outro que é a criação da Frente de Libertação de Moçambique em 1962. Entre uma coisa e outra, há um hiato de perto de 70, 80 anos que é preenchido precisamente por estes movimentos que têm lugar na Mafalala, que são movimentos de consciência política, são movimentos nacionalistas, diria até proto-nacionalistas, que começam a discutir a ideia de Moçambique independente e de Moçambique como nação, que trabalham na questão da cidadania e dos direitos civis e influenciam uma geração mais nova que mais tarde cria a Frente de Libertação de Moçambique.
Esse é que é o grande contributo da Malala para este processo independentista. Anos depois, quando começa a luta armada, o bairro também albergou aqui várias bases clandestinas do movimento de libertação e tem lugares que são históricos, que desempenharam um papel importante, sobretudo no 7 de Setembro [de 1974]. Temos aqui a Base Galo, que é uma base que teve um papel extremamente importante após a assinatura dos Acordos de Lusaka em 1974, em que há um levantamento de alguns colonos portugueses que não concordavam com a passagem do poder para a Frelimo e, nesse processo, há uma tentativa de golpe de Estado e é daqui da Mafalala que sai um grupo de guerrilheiros na clandestinidade, com a missão de apaziguar a situação. Só depois dessa missão é que o Presidente Samora Machel faz a viagem triunfal do Rovuma a Maputo e proclama a independência em Junho de 1975. Portanto, é um espaço que reverbera um pouco de história por todos os poros e que mantém viva essa tradição e esse orgulho. Esse é que é o grande contributo para o processo nacionalista, mas acho que o sentido de identidade, de moçambicanidade, é o grande contributo que a Mafalala faz para o processo anticolonial.
Tantos anos depois, como é que nasce o museu?
Nós, na verdade, achamos que o museu é o bairro, é o museu vivo. Esta instalação que aqui está é um centro de interpretação e de documentação, onde se pode interagir e ter um ponto de referência sobre aquilo que é a história da Mafalala. Nós começámos há 15 anos, a trabalhar no âmbito do património no seu todo. Desenvolvemos uma rota que é o “Mafalala Walking Tour”, onde vamos explicando e passando por vários pontos de interesse histórico e cultural do bairro da Mafalala. Falo das casas onde estas personalidades todas viveram, falo de lugares de convívio social e religioso, como mesquitas, igrejas, o campo de futebol e todos esses lugares que representam a história e a dinâmica social aqui da comunidade.
A partir desse pressuposto, nós embarcámos num compromisso de preservar a história da Mafalala e de garantir o restauro, de certa forma, desse passado e legado histórico. Isso contemplou acções para o reconhecimento do bairro como sendo um conjunto patrimonial histórico e protegido da cidade de Maputo - fizemos isso em 2016 - e mais tarde, a própria construção do museu que iniciou em 2018 e concluímos em 2019. Portanto, o museu já tem cinco anos de vida, é uma criança que já fala, que está para entrar para a escola primária e que tem muitos sonhos e ambições e que vê cada vez mais um futuro risonho a partir do trabalho que a gente desenvolve.
Desenvolvem também actividades no próprio museu, não é?
Sim, sim, claramente. O museu é uma infra-estrutura ecléctica, tem aqui vários serviços disponíveis para a comunidade e não só. Tem a componente de museu, temos uma galeria de arte onde recebemos vários artistas. Temos um espaço para concertos, música, teatro, dança. Temos uma biblioteca e temos igualmente um restaurante e um serviço de acomodação. As pessoas podem-se hospedar aqui. Estamos também no booking.com - passo a publicidade - e estamos no mundo, não é?
Há muitos grupos de turistas, de pessoas interessadas em conhecer a Mafalala e ter uma experiência no bairro, que vêm e hospedam-se aqui no museu. Temos também muitos pesquisadores que vêm cá com interesse de estudar a Mafalala e outros temas que também vêm e se hospedam cá. Há muitos artistas que vêm em residência e ficam cá também para se inspirar. Nós, como museu, também damos alguma orientação nesse sentido. É um espaço que é transversal naquilo que é a sua missão e naquilo que é a possibilidade de acolhimento que a gente dá.
Além de ser um bairro muito vivo pelas pessoas, pelas crianças, pelos ruídos, pelos cheiros, também é muito apelativo pelas cores e pelos murais. Como foi o processo de criação dos murais?
Nós temos um projecto que é o Mafalala Artivismo e é um projecto que surge no âmbito da ideia de garantir e manter viva a memória do bairro da Mafalala. A Mafalala é este lugar com muita história, é um lugar culturalmente rico, com heróis moçambicanos que por aqui passaram, mas ao andar pelo bairro, nós não temos nenhuma referência, nenhum símbolo, nenhum monumento que personifique essa história, esse passado cultural importante.
Como museu, como associação Iverca, nós iniciámos um trabalho com a comunidade, que era precisamente o Mafalala Artivismo em que convidávamos artistas plásticos para dialogar com a comunidade sobre o que é que a Mafalala representava para esta comunidade. As pessoas diziam que a Mafalala é um lugar de craques da bola, é um lugar da marrabenta, é um lugar de diversidade cultural, é um lugar de poetas, de revolucionários e por aí fora. Com cada uma destas respostas nós assumimos um compromisso de fazer intervenções artísticas em espaços públicos que pudessem reflectir este sentimento da comunidade. Estas intervenções seriam, então, os nossos monumentos informais. Nós fizemos até ao momento três murais.
Temos o Mural dos Poetas, que tem lá representados José Craveirinha, Noémia de Sousa, Rui de Noronha e João Albasini, e que muito recentemente, em 2022, foi restaurado por ocasião dos 100 anos de José Craveirinha. E depois fizemos um mural que é o mural do desporto, em que temos representado o Eusébio, o Hilário da Conceição, o Arsénio Esculudes e o Ricardo Chibanga. Este mural está localizado precisamente no campinho da Mafalala e também reflecte esta heroicidade do desporto e dos desportistas aqui da Mafalala que é uma cultura que se mantém bastante viva. Finalmente, fizemos uma ode às mulheres e, sobretudo, a esta diversidade cultural que está presente no bairro e que se reflecte muito na cultura macua da ilha de Moçambique. Este mural é uma pintura do Tufo da Mafalala.
Todos estes murais têm curadoria do museu Mafalala e foram um processo participativo em que a comunidade também deu a sua opinião, tendo sido colocados estrategicamente em zonas também simbólicas que representam muito para o conteúdo que aí está.
Agora, estes murais, para além deste papel simbólico e cultural, têm igualmente um papel ambiental e urbanístico muito grande porque à volta deles o ambiente muda, transforma-se para o positivo. Escolhemos de propósito os lugares que eram degradados e , a partir do momento em que houve esta intervenção, ganharam vida, temos pequenos negócios à volta, tornaram-se lugares de referência, as pessoas concentram-se, juntam-se aí. Então, é um ganho a dobrar naquilo que é a missão da arte. E a arte cura, não é? Sentimos que, de certa forma, este objectivo foi alcançado.
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De segunda a sexta-feira (ou, quando a actualidade o justifica, mesmo ao fim de semana), sob forma de entrevista, analisamos um dos temas em destaque na actualidade.

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