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O livro "Mário de Andrade écrit sur la musique populaire brésilienne" foi apresentado na Librairie de Paris, uma obra que dá a conhecer ao público francês um autor que pensou o Brasil a partir dos seus sons. O editor Pedro Fragelli descreve a obra como única, um corpo de textos que transforma a música popular num instrumento de leitura cultural, política e histórica, num momento em que essa herança corre o risco de desaparecer.
A edição publicada em francês não é uma tradução é, antes de mais, um gesto de reconstrução. “Este livro reúne uma parte importante dos escritos sobre música popular brasileira do Mário de Andrade”, explica Pedro Fragelli, sublinhando o carácter quase arqueológico do projecto.
A lacuna que vem preencher é dupla. Por um lado, “não existe fora do Brasil nenhuma edição de escritos sobre música do Mário de Andrade”; por outro, “também não existe no Brasil uma edição que reúna o essencial dos escritos musicais”.
O volume torna-se, assim, paradoxalmente, a forma mais completa de aceder a esse pensamento, mesmo para leitores brasileiros. E é precisamente essa reunião que permite algo até agora impossível: “ver uma unidade na diversidade do pensamento do Mário de Andrade”. Ao cruzar ensaio, poesia e ficção, o livro revela um autor que nunca separou formas nem disciplinas, porque também nunca separou a cultura da vida.
A música como chave para decifrar um paísEm Mário de Andrade, a música é mais do que ornamento é um método e um modo de pensar o Brasil a partir do que nele resiste, vibra e transforma. Segundo Pedro Fragelli, Mário de Andrade procurava “identificar o que ele chamava de constantes estruturais” nas múltiplas manifestações musicais do Brasil. Ou seja, não apenas recolher, mas compreender e encontrar “aspectos estruturais” comuns que pudessem sustentar uma ideia de identidade nacional.
Esse esforço tinha um horizonte ambicioso, o “estabelecer esse trânsito entre a música popular e a chamada música erudita”. Não para hierarquizar, mas para fundar uma nova linguagem, “moderna, avançada, mas nacional”.
Mais do que preservar o folclore, tratava-se de o transformar e de o fazer passar de memória a matéria activa de criação. Uma certa forma de ouvir o Brasil para o reinventar.
Contra o museu: tradição como movimentoUma das ideias mais actuais do pensamento de Mário de Andrade reside na sua recusa de uma tradição imobilizada e como sublinha Pedro Fragelli, o autor defendia “um conceito antitradicionalista de tradição”: algo que só faz sentido enquanto processo, nunca como relíquia. A tradição, dizia, deve ser “algo vivo, retrabalhado em sentido inovador”.
Por isso, a tentação de “museificar” a cultura popular surge como uma distorção. “Não se tratava de reproduzir a tradição, mas de utilizá-la em chave moderna”, insiste o editor.
E, no entanto, havia urgência. Já no seu tempo, Mário de Andrade percebia o desaparecimento iminente dessas formas culturais. “Aquela música que ele estava conhecendo naquele momento estava desaparecendo”, recorda Pedro Fragelli. Registar era, portanto, necessário, mas não como uma etapa, antes como o objectivo final: o de criar.
Se no início do século XX Mário de Andrade diagnosticava uma perda, hoje essa perda pode tornar-se maior. “A percepção da destruição da cultura popular […] hoje é muito mais aguda”, afirma Pedro Fragelli. Muitas das práticas que estudou “praticamente já desapareceram”, sobrevivendo apenas de forma residual.
O contexto mudou; a cultura popular contemporânea desenvolve-se sob o peso da indústria cultural, da tecnologia. Já não é a mesma, nem poderia ser. Ainda assim, o núcleo da proposta mantém-se pertinente. “É uma ideia necessária, um pouco esquecida, talvez”, reconhece Pedro Fragelli.
A questão não é regressar ao passado, mas repensar, hoje, o lugar do popular numa cultura cada vez mais homogénea.
Um pensador maior para além da literaturaA edição francesa vem também reafirmar a centralidade de Mário de Andrade na cultura brasileira. Para Pedro Fragelli, ele foi “uma personalidade intelectual decisiva”, não tanto por ser o mais talentoso, mas por ser “o mais interessante pela diversidade dos interesses […] e pela abrangência do pensamento”.
Essa abrangência traduz-se numa obra que atravessa literatura, música, artes plásticas e pensamento social. Mas também numa atitude por ter concebido “produção intelectual como um trabalho colectivo”. Mais do que criar sozinho, mobilizava. Mais do que escrever, Mário de Andrade organizou um campo cultural.
Pensado para leitores franceses “um público que conhece pouco ou simplesmente não conhece” nem o autor nem a música que ele estudou, esta obra não pretende ser definitivo. Pedro Fragelli admite já um próximo passo: uma edição brasileira diferente, ajustada a outro contexto e a outras necessidades. Para já, esta obra editada pela Philharmonie de Pariscumpre uma função essencial: dar a ouvir. Dar a ouvir um Brasil múltiplo, em risco e em transformação. E recordar que, por vezes, compreender uma canção, como quis Mário de Andrade, é começar a compreender um país inteiro.
By RFI PortuguêsO livro "Mário de Andrade écrit sur la musique populaire brésilienne" foi apresentado na Librairie de Paris, uma obra que dá a conhecer ao público francês um autor que pensou o Brasil a partir dos seus sons. O editor Pedro Fragelli descreve a obra como única, um corpo de textos que transforma a música popular num instrumento de leitura cultural, política e histórica, num momento em que essa herança corre o risco de desaparecer.
A edição publicada em francês não é uma tradução é, antes de mais, um gesto de reconstrução. “Este livro reúne uma parte importante dos escritos sobre música popular brasileira do Mário de Andrade”, explica Pedro Fragelli, sublinhando o carácter quase arqueológico do projecto.
A lacuna que vem preencher é dupla. Por um lado, “não existe fora do Brasil nenhuma edição de escritos sobre música do Mário de Andrade”; por outro, “também não existe no Brasil uma edição que reúna o essencial dos escritos musicais”.
O volume torna-se, assim, paradoxalmente, a forma mais completa de aceder a esse pensamento, mesmo para leitores brasileiros. E é precisamente essa reunião que permite algo até agora impossível: “ver uma unidade na diversidade do pensamento do Mário de Andrade”. Ao cruzar ensaio, poesia e ficção, o livro revela um autor que nunca separou formas nem disciplinas, porque também nunca separou a cultura da vida.
A música como chave para decifrar um paísEm Mário de Andrade, a música é mais do que ornamento é um método e um modo de pensar o Brasil a partir do que nele resiste, vibra e transforma. Segundo Pedro Fragelli, Mário de Andrade procurava “identificar o que ele chamava de constantes estruturais” nas múltiplas manifestações musicais do Brasil. Ou seja, não apenas recolher, mas compreender e encontrar “aspectos estruturais” comuns que pudessem sustentar uma ideia de identidade nacional.
Esse esforço tinha um horizonte ambicioso, o “estabelecer esse trânsito entre a música popular e a chamada música erudita”. Não para hierarquizar, mas para fundar uma nova linguagem, “moderna, avançada, mas nacional”.
Mais do que preservar o folclore, tratava-se de o transformar e de o fazer passar de memória a matéria activa de criação. Uma certa forma de ouvir o Brasil para o reinventar.
Contra o museu: tradição como movimentoUma das ideias mais actuais do pensamento de Mário de Andrade reside na sua recusa de uma tradição imobilizada e como sublinha Pedro Fragelli, o autor defendia “um conceito antitradicionalista de tradição”: algo que só faz sentido enquanto processo, nunca como relíquia. A tradição, dizia, deve ser “algo vivo, retrabalhado em sentido inovador”.
Por isso, a tentação de “museificar” a cultura popular surge como uma distorção. “Não se tratava de reproduzir a tradição, mas de utilizá-la em chave moderna”, insiste o editor.
E, no entanto, havia urgência. Já no seu tempo, Mário de Andrade percebia o desaparecimento iminente dessas formas culturais. “Aquela música que ele estava conhecendo naquele momento estava desaparecendo”, recorda Pedro Fragelli. Registar era, portanto, necessário, mas não como uma etapa, antes como o objectivo final: o de criar.
Se no início do século XX Mário de Andrade diagnosticava uma perda, hoje essa perda pode tornar-se maior. “A percepção da destruição da cultura popular […] hoje é muito mais aguda”, afirma Pedro Fragelli. Muitas das práticas que estudou “praticamente já desapareceram”, sobrevivendo apenas de forma residual.
O contexto mudou; a cultura popular contemporânea desenvolve-se sob o peso da indústria cultural, da tecnologia. Já não é a mesma, nem poderia ser. Ainda assim, o núcleo da proposta mantém-se pertinente. “É uma ideia necessária, um pouco esquecida, talvez”, reconhece Pedro Fragelli.
A questão não é regressar ao passado, mas repensar, hoje, o lugar do popular numa cultura cada vez mais homogénea.
Um pensador maior para além da literaturaA edição francesa vem também reafirmar a centralidade de Mário de Andrade na cultura brasileira. Para Pedro Fragelli, ele foi “uma personalidade intelectual decisiva”, não tanto por ser o mais talentoso, mas por ser “o mais interessante pela diversidade dos interesses […] e pela abrangência do pensamento”.
Essa abrangência traduz-se numa obra que atravessa literatura, música, artes plásticas e pensamento social. Mas também numa atitude por ter concebido “produção intelectual como um trabalho colectivo”. Mais do que criar sozinho, mobilizava. Mais do que escrever, Mário de Andrade organizou um campo cultural.
Pensado para leitores franceses “um público que conhece pouco ou simplesmente não conhece” nem o autor nem a música que ele estudou, esta obra não pretende ser definitivo. Pedro Fragelli admite já um próximo passo: uma edição brasileira diferente, ajustada a outro contexto e a outras necessidades. Para já, esta obra editada pela Philharmonie de Pariscumpre uma função essencial: dar a ouvir. Dar a ouvir um Brasil múltiplo, em risco e em transformação. E recordar que, por vezes, compreender uma canção, como quis Mário de Andrade, é começar a compreender um país inteiro.

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