Minuto Saúde Mental - USP

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  • Minuto Saúde Mental #59: Qual a diferença entre psicólogo e psicanalista?
    No Minuto Saúde Mental desta semana o professor João Paulo Machado de Sousa faz uma distinção entre o psicólogo e o psicanalista em termos legais. No Brasil, diz Sousa, a psicologia é uma profissão reconhecida, ou seja, com formação oferecida por instituições de ensino superior (faculdades e universidades) e práticas regulamentadas por um conselho profissional. “Para que uma pessoa utilize o título de psicólogo, ela deve cumprir um currículo de formação teórica e prática e estágios supervisionados. Para praticar a profissão, o profissional deve estar inscrito em um conselho regional ligado ao Conselho Federal de Psicologia e está sujeito ao código de ética da profissão.” 
    A psicanálise, por outro lado, não é uma profissão regulamentada no Brasil, o que significa que não existem regras ou currículo formalmente reconhecidos para a formação do psicanalista e que a prática deste profissional não é regida por um conselho profissional. “Muita gente relaciona diretamente o psicólogo ao trabalho clínico feito em geral dentro de um consultório e voltado para o tratamento de transtornos mentais, mas essa é apenas uma das várias possibilidades de atuação deste profissional. Existem psicólogos que trabalham em escolas, hospitais, centros de pesquisa, presídios, empresas e até no setor judiciário e cujo trabalho às vezes passa longe do tratamento de transtornos psíquicos.”
    Já a psicanálise, um campo do conhecimento fundado por Sigmund Freud há pouco mais de cem anos, estuda o comportamento de pessoas e grupos que é usado como método de tratamento como uma das várias linhas existentes de psicoterapia. “É aqui que as duas áreas se encontram: os psicólogos geralmente recebem uma formação introdutória em psicanálise durante a graduação e podem optar por trabalhar nesta linha com seus pacientes, assim como acontece com a terapia cognitivo comportamental, entre outras.”
    O professor informa que, com o aumento da procura por tratamentos de transtornos mentais observados nas últimas décadas e com a falta de regulamentação da profissão de psicanalista, surgiram muitos cursos que oferecem formação nesta área, com pouca ou nenhuma exigência de formação anterior para os candidatos. “Apesar deste ser um território sem lei, por assim dizer, existe uma associação psicanalítica internacional, que foi fundada por Freud em Londres, e que estabelece parâmetros uniformes para a formação de psicanalistas para vários institutos espalhados pelo mundo todo – inclusive no Brasil. A Associação Psicanalítica Internacional (ou IPA, na sigla em inglês) concede certificados aos profissionais que completam um longo período de formação baseados em três pilares: análise pessoal com um analista didata, supervisões clínicas (que são um tipo de estágio supervisionado por profissionais mais experientes) e cursos teóricos. No Brasil, as sociedades de psicanálise afiliadas à IPA geralmente aceitam psicólogos e médicos em seus institutos de formação.”
    Sousa lembra que cada pessoa tem o direito de escolher entre os tratamentos disponíveis aquele que julga mais adequado para o seu caso, “mas não custa enfatizar que profissionais com boas formações e vinculados à instituições que acompanham sua prática tendem a oferecer um trabalho mais competente e responsável”.
    Minuto Saúde MentalApresentação: João Paulo Machado de SousaProdução: João Paulo Machado de Sousa e Jaime HallakCoprodução e edição: Rádio USP RibeirãoCoordenação: Rosemeire TalamoneApoio: Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia em Medicina Translacional, iniciativa CNPq e Fapesp
     
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    5 min
  • Minuto Saúde Mental #58: Número de pessoas com transtornos mentais sem tratamento ou inferior ao ideal se repete em muitos países
    O atendimento de planos de saúde de pessoas com transtornos mentais é o tema do podcast Minuto Saúde Mental desta semana, com o professor João Paulo Machado de Sousa. Informa o professor que, na segunda semana de julho deste ano, a versão on-line do conhecido jornal britânico The Guardian trouxe a notícia de que pessoas com depressão estão, para usar o termo do próprio artigo, estagnadas dentro do sistema de saúde do Reino Unido. O artigo explica que, embora parte significativa das pessoas que sofrem de depressão tenha acesso a atendimento primário, poucas chegam a receber tratamento por especialistas, ou seja, o acompanhamento recomendado pela ciência que combina medicação e acompanhamento psicológico para tratar a depressão.
    O dado de que pessoas que sofrem de transtornos mentais permanecem sem tratamento ou com tratamento inferior ao ideal se repete em muitos países, inclusive no Brasil. No entanto, uma nova regulamentação da Agência Nacional de Saúde (ANS) brasileira que começou a valer neste dia 1º de agosto pode ajudar a mudar alguma coisa neste cenário.
    Já faz algum tempo que as sessões com psicólogos, terapeutas ocupacionais e alguns outros profissionais passaram a ser cobertas pelos planos de saúde particulares, mas estes tratamentos estavam sujeitos a algumas limitações importantes. No caso da psicoterapia, por exemplo, os planos cobriam tratamentos indicados por um médico afiliado e que envolvessem um mínimo de 12 e um máximo de 40 sessões por ano, de acordo com o diagnóstico do paciente. A partir de agora, não há mais limite para o número de sessões a serem realizadas por psicólogos, terapeutas ocupacionais e fonoaudiólogos, mas permanece a necessidade do diagnóstico e indicação de um médico.
    Esta medida deverá ter impacto sobre os custos dos planos de saúde para o consumidor final, mas, do ponto de vista de pesquisadores e profissionais, é o caminho certo para que haja um impacto positivo maior ainda para um grande número de pessoas que seguem sem tratamento ou com tratamentos insuficientes para suas necessidades específicas.
    Minuto Saúde MentalApresentação: João Paulo Machado de SousaProdução: João Paulo Machado de Sousa e Jaime HallakCoprodução e edição: Rádio USP RibeirãoCoordenação: Rosemeire TalamoneApoio: Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia em Medicina Translacional, iniciativa CNPq e Fapesp
     
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  • Minuto Saúde Mental #57: O que é compulsão alimentar?
    Compulsão alimentar é um termo usado para descrever situações em que uma pessoa ingere muito mais comida do que seria necessário para satisfazer sua fome em uma determinada refeição ou durante um certo período de tempo. Além disso, a pessoa sente que não tem controle sobre o quanto está comendo durante esse período. No Minuto Saúde Mental desta semana o professor João Paulo Machado de Sousa fala sobre quem pode sofrer do transtorno, os tipos mais conhecidos e o tratamento.
    Episódios de compulsão alimentar podem acontecer com qualquer pessoa, como é o caso dos exageros que cometemos em certas situações como nos feriados de fim de ano, por exemplo. Se essas ocasiões são isoladas e não causam maiores problemas ou preocupações não há necessidade de se procurar ajuda, mas a compulsão alimentar pode fazer parte de diferentes quadros que são agrupados sob o nome de transtornos alimentares. Os dois transtornos alimentares mais famosos, por assim dizer, são a anorexia e a bulimia.
    Um transtorno menos conhecido e que também merece atenção é o transtorno de compulsão alimentar periódica, ou binge eating disorder em inglês. Esse transtorno é diagnosticado quando a pessoa vive episódios frequentes de compulsão alimentar (ou seja, comer demais com sensação de perda de controle) que estão associados com sensações de comer muito rápido, sentir-se excessivamente “cheio” e ingerir grandes quantidades de comida sem estar de fato com fome. Outros dois critérios importantes que podem acompanhar os episódios de compulsão são o costume de se alimentar longe de outras pessoas por vergonha de que elas vejam a quantidade que se está comendo e sentimentos de culpa, depressão ou desprezo por si mesmo.
    “Se você tem experimentado sensações como essas que descrevemos aqui com frequência, procure um profissional que possa lhe ajudar a avaliar se seus episódios são mesmo de compulsão alimentar e, caso sejam, qual o melhor acompanhamento para o seu caso específico, já que a internet está cheia de informações desencontradas que podem atrapalhar o tratamento correto”, avalia o professor João Paulo Machado de Sousa.
    Minuto Saúde MentalApresentação: João Paulo Machado de SousaProdução: João Paulo Machado de Sousa e Jaime HallakCoprodução e edição: Rádio USP RibeirãoCoordenação: Rosemeire TalamoneApoio: Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia em Medicina Translacional, iniciativa CNPq e Fapesp
     
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    3 min
  • Minuto Saúde Mental #56: O uso de medicação psiquiátrica só deve ser interrompido com orientação médica
    No Minuto Saúde Mental desta semana, com informações do médico e doutorando da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto (FMRP) da USP, José Diogo Souza, o professor João Paulo Machado de Sousa fala sobre a interrupção do tratamento com medicações psiquiátricas.
    Segundo Souza, a psiquiatria é uma especialidade médica como outra qualquer e, embora haja um aumento da difusão do conhecimento nessa área, muita gente ainda tem medo de consultar um psiquiatra e de tomar medicações psiquiátricas. Algumas perguntas comuns que aparecem, diz o médico, são: Será que vou ficar dependente? Esses remédios vão me deixar dopado? Mudarão quem eu sou? Terei que tomá-los para o resto da vida? Posso suspendê-los quando quiser?
    Souza esclarece que a imensa maioria dos psicotrópicos não causa dependência; há uma parcela muito pequena que tem esse potencial, que são os benzodiazepínicos (usados em quadros agudos de ansiedade e insônia) e os psicoestimulantes (usados para déficits de atenção). O objetivo dos tratamentos nunca é dopar os pacientes, sendo este um efeito colateral em certos casos. Além disso, também não é verdade que tais medicações alterem a nossa personalidade e nem sempre é preciso usá-los por toda a vida, embora isso possa ser necessário dependendo do quadro. Por último, e respondendo a pergunta específica de hoje, não se pode parar de usá-los sem a indicação do psiquiatra.
    Os transtornos psiquiátricos são diferentes entre si e vários deles são crônicos. Assim, é de extrema importância entendermos que o tratamento medicamentoso é individualizado, variando de pessoa para pessoa e em cada momento do acompanhamento do paciente.
    No caso da esquizofrenia, que é um transtorno crônico, os antipsicóticos são fundamentais e devem ser usados por toda a vida em razão de sua capacidade de diminuir sensivelmente os sintomas, aumentando a qualidade de vida dos pacientes. Uma vez que o paciente pare de usar essas medicações, há grandes chances de sintomas como alucinações e delírios retornarem, prejudicando a funcionalidade do indivíduo, expondo-o a maiores riscos e fazendo com que o tratamento fique mais difícil.
    Quadros de depressão, por outro lado, podem não ser crônicos e o paciente deve, em geral, continuar com os remédios por pelo menos seis a nove meses depois da remissão dos sintomas para diminuir a chance de um novo episódio depressivo. Os sintomas mais comuns da interrupção repentina do tratamento com antidepressivos são náusea, dor de cabeça, tremores e pioras agudas dos sintomas.
    Estes são apenas dois exemplos, mas que já traduzem a necessidade do seguimento psiquiátrico para todos os diferentes casos. Por definição, o objetivo do tratamento é sempre alcançar a melhor qualidade de vida para o paciente, usando a menor dose possível de medicamentos. Além disso, é importante ressaltar que o tratamento farmacológico é apenas uma parte do tratamento, que deve ser complementado com psicoterapia, atividade física, cuidados com sono e alimentação e interrupção do uso de álcool, tabaco e outras drogas. “Portanto, se você faz uso de medicamentos psiquiátricos e pensa em suspendê-los, por alguma razão, ou é familiar de um paciente que está nessa situação, converse com o psiquiatra responsável. Uma conversa franca entre paciente e médico é essencial para a melhor avaliação do caso e a melhor conduta, tendo como finalidade sempre cuidar da sua saúde.”
    Minuto Saúde MentalApresentação: João Paulo Machado de SousaProdução: João Paulo Machado de Sousa e Jaime HallakCoprodução e edição: Rádio USP RibeirãoCoordenação: Rosemeire TalamoneApoio: Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia em Medicina Translacional, iniciativa CNPq e Fapesp
     
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    5 min
  • Minuto Saúde Mental #55: O que é narcisismo?
    O termo narcisismo é muito difundido hoje em dia e é usado com frequência quase como um sinônimo de egoísmo, mas há muito mais nessa história, como conta o professor João Paulo Machado de Sousa, no podcast Minuto Saúde Mental desta semana.
    Segundo Sousa, o conceito surgiu a partir do mito grego de Narciso, um jovem muito bonito que rejeitou o amor de uma ninfa chamada Eco e acabou por se apaixonar pela própria imagem, que admirava por horas sem fim refletida em um lago. Ali, Narciso teria morrido e dado origem a uma flor que carrega o seu nome.
    Embora não tenha sido o primeiro a usar o termo no contexto da saúde mental, diz Sousa, foi Freud quem o tornou conhecido para designar um estado onde a atenção do indivíduo está voltada para si próprio, tendo como consequência a rejeição das particularidades e necessidades dos outros. “Na psicanálise, o narcisismo descreve tanto um momento normal do desenvolvimento da mente quanto um estado patológico onde a relação com outras pessoas e com o mundo fica prejudicada.”
    A psiquiatria atual descreve um quadro que tem o nome de transtorno de personalidade narcisista cujos sintomas incluem, entre outros, sentimentos de grandiosidade, forte convicção de ser uma pessoa única, pouca empatia, arrogância e a tendência de colocar ganhos pessoais acima das necessidades das outras pessoas.
    “Como é fácil deduzir a partir destes critérios, uma pessoa que sofre do transtorno de personalidade narcisista pode ter sérias dificuldades de relacionamento em todas as áreas da vida, com perdas e perturbações importantes para si mesmo e para as pessoas com quem convive. Juntando todas essas informações, podemos perceber que também não é fácil para qualquer um de nós sentir empatia por alguém com características narcisistas, mas é importante destacar que todos esses comportamentos são resultado de sensações profundas de fragilidade e do pouco valor que o indivíduo narcisista atribui a si mesmo.”
    O diagnóstico e o tratamento do transtorno de personalidade narcisista devem ser feitos por um profissional de saúde mental e a principal forma de intervenção recomendada nesses casos é a psicoterapia, ocasionalmente acompanhada de remédios para o controle de determinados sintomas.
    Minuto Saúde MentalApresentação: João Paulo Machado de SousaProdução: João Paulo Machado de Sousa e Jaime HallakCoprodução e edição: Rádio USP RibeirãoCoordenação: Rosemeire TalamoneApoio: Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia em Medicina Translacional, iniciativa CNPq e Fapesp
     
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  • Minuto Saúde Mental #54: É verdade que os antidepressivos podem causar problemas de memória?
    Como os antidepressivos estão entre as medicações mais usadas no mundo, é comum – e até importante – as pessoas ficarem preocupadas com seus efeitos colaterais e os pesquisadores têm tentado sanar dúvidas sobre eles com vários estudos no mundo todo. Neste episódio do Minuto Saúde Mental o professor João Paulo Machado de Sousa responde a pergunta de um ouvinte, se os antidepressivos podem causar problemas de memória. E é objetivo: sim, os antidepressivos pode causar problemas de memória e analisa a questão.
    Segundo Sousa, um problema enfrentado pelos pesquisadores nesta área é diferenciar entre os efeitos dos antidepressivos e os efeitos da própria depressão. “A depressão é uma doença que altera o funcionamento cerebral em vários níveis e existem estudos que sugerem que ela esteja relacionada a um aumento nos casos de demência; ou seja, pessoas que sofrem de depressão parecem ter mais chance de desenvolver quadros como a doença de Alzheimer, por exemplo. Esses estudos também mostram que a depressão afeta não somente a memória, mas outras funções importantes como o raciocínio e a atenção.”
    Os antidepressivos usados hoje, diz o professor, têm menos efeitos colaterais que seus “irmãos” mais velhos e, de forma geral, costumam causar pouca ou nenhuma sedação. “A sedação é um estado onde a atenção pode ficar significativamente reduzida, atrapalhando o registro de informações que, consequentemente, não poderão ser recuperadas depois pela memória.”
    Sousa alerta que, um antidepressivo específico, a paroxetina, age em receptores no cérebro que são responsáveis pelas tarefas cognitivas e, por isso, seu uso deve ser reconsiderado se aparecerem dificuldades de raciocínio e memória, entre outras.
    O professor informa ainda que além da depressão há outras causas possíveis para problemas de memória em pessoas que não estão com demência. Dentre as mais comuns, e que afetam muita gente atualmente, estão a falta de sono, o uso abusivo de álcool e o estresse ou a ansiedade. Além disso, problemas de tireoide também podem estar relacionados a prejuízos cognitivos e podem causar quadros muito semelhantes à depressão.
    “Resumindo, os antidepressivos podem estar relacionados a dificuldades de memória, mas a depressão em si causa prejuízos cognitivos, dentre outras perdas importantes, e deve ser tratada por um profissional competente – e com todos os recursos disponíveis – assim que seus primeiros sinais forem detectados.”
    Minuto Saúde MentalApresentação: João Paulo Machado de SousaProdução: João Paulo Machado de Sousa e Jaime HallakCoprodução e edição: Rádio USP RibeirãoCoordenação: Rosemeire TalamoneApoio: Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia em Medicina Translacional, iniciativa CNPq e Fapesp
     
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  • Minuto Saúde Mental #53: O que faz com que uma pessoa seja considerada psicopata?
    Para responder a essa pergunta, o professor João Paulo Machado de Sousa, no Minuto Saúde Mental desta semana, ouviu o psicólogo judiciário Ildebrando Moraes de Souza. Segundo Ildebrando Souza, os psicopatas ou sociopatas são personagens que despertam medo e curiosidade em muita gente. Frequentemente destacados pela imprensa em casos criminais famosos ou em obras de ficção como filmes e séries de televisão, são apresentados como pessoas com características que combinam inteligência, charme pessoal, falta de empatia e a capacidade de estabelecer relações disfuncionais, cometer crimes ou causar prejuízo a outras pessoas sem sinais de remorso.
    Ainda de acordo com Ildebrando Souza, os manuais que descrevem e classificam os transtornos mentais (DSM e CID) não utilizam mais as expressões psicopatia ou sociopatia para se referir a esse quadro (há controvérsia quanto a serem sinônimos e sobre possíveis diferenças entre um termo e outro, mas nenhum deles é considerado adequado em termos clínicos). “O descritor clínico atualizado é Transtorno de Personalidade Antissocial (TPAS). Há estudos que consideram a psicopatia uma categoria à parte, que foge à classificação clínica ou que vai além dela (uma forma maligna de TPAS) e que se afilia puramente ao campo criminal, por isso não considerada nos manuais clínicos.”
    Sobre a evolução, diz o psicólogo, o consenso atual é que esse tipo de transtorno é crônico, frequentemente com manifestações percebidas desde a infância (crueldade com animais ou pessoas, agressividade, oposição e quebra de regras como padrão), que são intensificadas na juventude e idade adulta e que podem apresentar declínio à medida que o indivíduo envelhece.
    Pessoas com TPAS tendem a não procurar ajuda ou tratamento para sua condição e há razões importantes contribuindo para isso. Uma delas é que, assim como ocorre com outros transtornos de personalidade, o problema é melhor identificado por outras pessoas que convivem com a pessoa afetada e sofrem o incômodo causado por seu comportamento. Na verdade, mesmo que seja identificado pelo portador, o TPAS pode ser interpretado como vantajoso ou prazeroso e, por isso, o indivíduo não pretende curar-se.
    Em sentido contrário à valorização dessa condição psíquica na mídia, é importante ter clareza de que todo transtorno traz prejuízo à vida do indivíduo, ao grupo do qual faz parte e à sociedade e por isso precisa ser tratado. Ainda que a adesão e a resposta clínica aos tratamentos para o TPAS sejam ruins, parece possível que intervenções precoces possam minimizar os danos à pessoa que sofre do transtorno e àqueles ao redor e mudar sua trajetória de vida.
    Ouça no player acima o episódio na íntegra.
    Minuto Saúde MentalApresentação: João Paulo Machado de SousaProdução: João Paulo Machado de Sousa e Jaime HallakCoprodução e edição: Rádio USP RibeirãoCoordenação: Rosemeire TalamoneApoio: Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia em Medicina Translacional, iniciativa CNPq e Fapesp
     
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    6 min
  • Minuto Saúde Mental #52: Tratamento da depressão durante a gravidez exige avaliação cuidadosa dos riscos e benefícios
    No podcast Minuto Saúde Mental desta semana, o professor João Paulo Machado de Sousa responde sobre tratamento para depressão durante a gravidez. Segundo o professor, os tratamentos para depressão baseados em evidências científicas são sempre importantes para que o transtorno não se agrave e traga ainda mais prejuízos para o paciente. “Isso é ainda mais verdadeiro quando uma mulher está prestes a se tornar mãe, já que este é um daqueles períodos que envolvem muitas mudanças físicas, psicológicas e na vida como um todo. No entanto, é importante que alguns pontos sejam considerados com bastante cuidado e sempre com ajuda adequada.”
    O tratamento da depressão, diz Sousa, é feito basicamente com remédios e psicoterapia e, embora exija alguns cuidados, o tratamento medicamentoso pode, sim, ser recomendado durante a gravidez. “Se você toma um remédio antidepressivo, pode ser necessário fazer mudanças na dose e até no tipo de remédio que você está tomando. As pesquisas mostram que a maioria dos antidepressivos mais utilizados hoje em dia não causa problemas para a mãe ou para o bebê durante e após a gravidez. Apesar deste dado, há estudos que mostram associações entre o uso de antidepressivos e mudanças de peso e parto prematuro.”
    O professor esclarece que antidepressivos menos comuns ou mais antigos, como os antidepressivos chamados tricíclicos e a bupropiona podem causar aborto ou defeitos no feto, como problemas cardíacos congênitos e, portanto, seu uso deve ser considerado com muita cautela durante a gravidez. “É importante falar aqui de um outro dado que não está diretamente relacionado ao uso de medicações: pesquisas na área da psicologia mostram que mães deprimidas tendem a ter mais dificuldade para cuidar e se vincular aos seus filhos após o nascimento e que estas crianças, por sua vez, têm maior probabilidade de desenvolver depressão e outros transtornos ao longo da vida.” 
    Para finalizar diz que o tratamento da depressão durante a gravidez, embora exija uma avaliação cuidadosa dos riscos e benefícios, não só é possível como pode ser seguro e importante para que a maternidade tenha início dentro das melhores condições para todos os envolvidos.
    Minuto Saúde MentalApresentação: João Paulo Machado de SousaProdução: João Paulo Machado de Sousa e Jaime HallakCoprodução e edição: Rádio USP RibeirãoCoordenação: Rosemeire TalamoneApoio: Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia em Medicina Translacional, iniciativa CNPq e Fapesp
     
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    4 min
  • Minuto Saúde Mental #51: USP em Ribeirão Preto é um centro de referência mundial na pesquisa com as substâncias da "Cannabis"
    O professor João Paulo Machado de Sousa, neste episódio do Minuto Saúde Mental, traz informações do médico e pesquisador na área dos usos medicinais da maconha e seus derivados, José Diogo dos Santos Souza, sobre o canabidiol, o CBD.
    Segundo Santos Souza, o canabidiol foi isolado pela primeira vez na década de 1960 em Israel. Na década seguinte, um grupo brasileiro encontrou pela primeira vez um efeito antiepilético desse derivado da planta Cannabis, popularmente conhecida como maconha, e, hoje, a USP em Ribeirão Preto é um centro de referência mundial na pesquisa com essas substâncias.  
    O canabidiol, mais conhecido como CBD, é um dos componentes mais abundantes e mais bem conhecidos e estudados até o momento. Ao contrário do THC, substância psicoativa da maconha, o CBD não deixa o indivíduo “chapado”. Ele atua em receptores específicos de um sistema do nosso organismo chamado sistema canabinoide, que participa de uma série de processos do nosso organismo. Hoje existem estudos com o CBD para o tratamento de epilepsia, dor, doença de Parkinson, ansiedade, depressão, esquizofrenia e distúrbios do sono, entre outros. Santos Souza alerta, no entanto, que quando se fala em ciência é fundamental atentar para os níveis de evidências existentes. “Até o presente momento, o dado mais robusto sobre o CBD refere-se à sua eficácia no tratamento de alguns tipos de epilepsias raras na infância, e resultados sobre seus efeitos no controle da dor estão ganhando cada vez mais força.” Entretanto, diz, isso não significa que o uso do medicamento deva ser reduzido a estas duas finalidades específicas; a questão é que os dados estão sendo construídos à medida que as pesquisas avançam sobre o uso em outras situações. 
    Nos últimos anos houve um grande aumento do uso do CBD ao redor do mundo e milhares de pessoas estão usando a medicação para outras condições além das já citadas, como ansiedade, depressão e insônia. Com esta alta demanda e em tão pouco tempo, determinar a melhor regulação do medicamento é um grande desafio. Isso porque os produtos de CBD vêm em diferentes formulações e vias de administração, além de a grande maioria não ter o controle de qualidade adequado para fabricação, com alguns produzidos de forma artesanal. Isso é perigoso, uma vez que não sabemos exatamente o quê e quanto de cada substância está contido em cada dose. 
    No Brasil, até o momento em que este episódio está sendo produzido, a Anvisa aprovou 11 produtos com CBD para uso medicinal. Alguns desses produtos podem ser encontrados nas principais farmácias em todo o País. E para seu uso, é claro, a indicação e a prescrição médica são necessárias. “Se você ficou curioso sobre o tema e acha que o CBD pode lhe auxiliar em alguma das condições descritas, procure um médico psiquiatra ou neurologista de confiança para avaliação da possibilidade da indicação de seu uso terapêutico.” 
    Minuto Saúde MentalApresentação: João Paulo Machado de SousaProdução: João Paulo Machado de Sousa e Jaime HallakCoprodução e edição: Rádio USP RibeirãoCoordenação: Rosemeire TalamoneApoio: Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia em Medicina Translacional, iniciativa CNPq e Fapesp
     
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  • Minuto Saúde Mental #50: A probabilidade de Alzheimer em adultos jovens é pequena e outras explicações devem ser consideradas
    No podcast Minuto Saúde Mental, o professor João Paulo Machado de Sousa responde a um ouvinte que, aos 42 anos, reclama de estar sempre cansado e esquecendo muitas coisas e questiona se pode estar com Alzheimer. O professor inicia a resposta com um ditado de autoria desconhecida: quando ouvir o bater de cascos, pense primeiro em cavalos, e não zebras. “Traduzindo para o caso em questão, embora seja até possível que nosso ouvinte esteja com Alzheimer, a probabilidade é pequena e outras explicações devem ser consideradas antes desse diagnóstico.”
    A doença de Alzheimer é uma doença neurodegenerativa, que tem como sintoma mais característico a perda de memória recente. Ou seja, o paciente com Alzheimer começa a se esquecer de onde deixou as chaves do carro ou de diálogos acontecidos pouco antes, por exemplo. É uma doença que atinge principalmente pessoas acima dos 65 anos e que tende a se tornar mais frequente de acordo com o avanço da faixa etária. “Embora atinja sobretudo idosos, a doença de Alzheimer pode, sim, ocorrer em pessoas nas faixas dos 30 ou 40 anos, mas isso é bastante raro.”
    Sobre a perda de memória descrita na pergunta, o professor diz esse sintoma faz parte dos processos cognitivos e uma série de transtornos diferentes podem afetar estes processos, que também incluem a atenção e a capacidade de interpretar emoções, por exemplo. “Especificamente, pessoas com transtornos de ansiedade, depressão e uso e abuso de substâncias como o álcool podem sofrer de problemas cognitivos. Além disso, o burnout também parece ter impactos importantes sobre a capacidade de raciocínio, a atenção e a memória.”
    O Alzheimer é uma doença grave que acontece por causa do acúmulo de placas ou aglomerados de duas proteínas dentro das células cerebrais, ou neurônios. Esse processo patológico tem influências genéticas e ambientais que ainda não foram completamente esclarecidas pela ciência. Embora certas medidas como a convivência social, o hábito da leitura e dietas saudáveis como a mediterrânea possam ajudar na prevenção, o Alzheimer continua sendo uma doença progressiva e sem cura.
    Sousa termina reforçando que, embora o número de queixas venha aumentando em populações mais jovens, o Alzheimer não é comum fora de populações idosas e que pessoas com menos de 60 anos que estejam com queixas de memória devem considerar outras explicações possíveis e, se o problema for grave, procurar ajuda qualificada para fazer uma avaliação abrangente de cada caso específico.
    Minuto Saúde MentalApresentação: João Paulo Machado de SousaProdução: João Paulo Machado de Sousa e Jaime HallakCoprodução e edição: Rádio USP RibeirãoCoordenação: Rosemeire TalamoneApoio: Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia em Medicina Translacional, iniciativa CNPq e Fapesp
     
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