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O candidato presidencial Venâncio Mondlane que reivindica vitória nas eleições gerais de 09 de Outubro regressou hoje ao país. Um aparato policial foi montado e medidas de segurança reforçadas no aeroporto e em toda a cidade de Maputo onde os cidadãos lamentam a atitude das forças de defesa e segurança que através de disparos impediram que estes se fizessem ao aeroporto internacional de Maputo.
O dia nasceu chuvoso na cidade de Maputo, mas nem por isso impediu que os cidadãos aos milhares se dirigissem ao Aeroporto Internacional de Madalena para a receção do candidato presidencial Venâncio Mondlane. As ruas de acesso foram todas bloqueadas e com recurso a disparos de gás lacrimogéneo e balas verdadeiras, a polícia impedia qualquer movimentação, o que abriu espaço para a troca de mimos entre os cidadãos anónimos e as forças de defesa e segurança.
“Estão a matar os irmãos. Isto cria revolta, cria revolta. Porquê? É que estamos num país em que estamos a ser matados com polícia. O polícia é funcionário do Estado. O Estado é o quê? O Estado é Moçambique. Por mais que a Frelimo saia do poder, o polícia vai manter polícia. Está a ver meu pai ? E eu falo zangado assim não porque sou funcionário do Estado. Eu não tenho nada, mas eu estou a lutar para o país”, realçou um simpatizante de Venâncio Mondlane.
O sentimento de revolta tomou conta da população.
“Nós estávamos aqui, nas proximidades. Eles... qualquer atentado... Nós simplesmente estávamos a tentar aproximar à estrada e a reacção deles é simplesmente disparar. E eles estão a disparar para matar. Isso é muito, muito mau. Onde é que o nosso país vai assim? Nós precisamos de um conserto, precisamos de um arranjo”, insistiu um outro apoiante de Mondlane.
Nem por isso desistiram.
“Nós votámos no Venâncio Mondlane. Ele é o nosso Presidente!”, atirou uma pessoa presente à chegada do candidato presidencial.
Venâncio Mondlane chegou, a imprensa saudou e deixou claro que regressava ao país para lutar pela verdade eleitoral.
“O meu regresso não resulta de nenhum acordo político, caro amigo. É uma decisão unilateral, é uma decisão em que, como vocês sabem, já tinha feito um ofício ao Presidente da República a dizer que para nós irmos ao diálogo, para irmos à mesa das conversações, havia uma série de pré-condições. Independentemente da falta de resposta do Presidente da República, eu disse. "Mesmo com todos os riscos, eu vou a Moçambique", frisou Venâncio Mondlane.
No seu percurso do aeroporto ao Mercado Estrela Vermelha, o candidato presidencial, que não reconhece os resultados das eleições gerais de 9 de outubro e que dão vitória à Frelimo e ao seu candidato presidencial, Daniel Chapo, teve a companhia da população que inundou por completo as longas e abertas avenidas, como a Joaquim Chissano e Acordos de Lusaka.
“O sentimento é de muita alegria de ver o nosso Presidente eleito pelo povo a estar connosco nesse momento de muita angústia, de muito sangue derramado, de muita gente que luta por essa paz que é muito contestada pelo regime da Frelimo”, começou por dizer um apoiante.
“É muito sentimento. Chegou o pai grande, o moçambicano Venâncio! O homem que fundou a Frelimo foi o Mondlane! O homem que volta a tornar a Frelimo é o próprio Mondlane de novo. Acabou. Acabou”, prosseguiu um outro simpatizante.
“Nós estamos muito felizes com a presença do nosso presidente. O presidente que o povo elegeu. Não o presidente que a CNE, o Conselho Constitucional elegeu ou seleccionou. Nós estamos muito felizes, mesmo se ele não governar. Mas nós estamos muito felizes em saber que ele está bem e está, está com vida”, finalizou uma pessoa presente na chegada.
E como é que caracteriza este dia?
“Festa ! Festa! Festa! O nosso presidente está vivo. Vimos que ele tem saúde. E é o que nós queremos, mesmo que ele não governe. Nós estamos cientes que temos um líder, um grande líder que não é covarde, um grande líder que luta pelo povo. E o que nós mais queremos”, respondeu uma mulher presente.
Ao apoio da população Venâncio Mondlane prestou juramento.
“Eu, Venâncio Mondlane, Presidente eleito pelo povo moçambicano, Juro pela minha honra defender a pátria dos moçambicanos, defender a Constituição, usar todas as minhas forças para que este país seja uma das maiores nações do mundo!”, afirmou Venâncio Mondlane.
E também deixou uma garantia.
“Se eles quiserem tomar posse no dia 15. Então em Moçambique vamos ter dois presidentes. Todos juntos tem o presidente da CNE e outro presidente de quem?“, questionou Venâncio Mondlane.
“Do povo!”, respondeu a população presente.
Seguiu-se uma conversa entre Venâncio Mondlane e o povo.
“Vamos ter um presidente do Conselho Constitucional e outro presidente de quê?”, “Do povo!”.
“Vamos ter um presidente da PRM [Polícia da república de Moçambique] e outro presidente de quem?”, “Do povo!”.
“Vamos ter um presidente dos blindados e outro presidente De quem?”, “Do povo!”.
“Vamos ter um presidente de gás lacrimogênio e outro presidente de quem?”, “Do povo!”.
“Vamos ter um presidente de assassinos e outro presidente de quê?”, “Do povo!”.
“Vamos ter um presidente dos sequestradores e outro presidente de quem?”, “Do povo!”, “Quem manda é o povo!”
Venâncio Mondlane, o segundo candidato presidencial mais votado nas eleições gerais de 9 de outubro, de acordo com os resultados oficiais, não realizou o comício que tinha agendado para esta quinta feira na Praça da Paz, depois de a sua comitiva e apoiantes terem sido dispersados pela polícia no Mercado Estrela Vermelha.
Apoiante:É doloroso.
Jornalista: Acredita num futuro melhor para Moçambique?
Apoiante: Se mudasse o regime, se mudasse o regime que a gente vem com ele já há anos. Eu acredito que sim, porque é sempre bom experimentar os novos partidos, novos presidentes. Eu acredito que pode-se.
Jornalista:E acredita nessa mudança de regime?
Apoiante: Eu quero acreditar que sim. Quero acreditar que sim. Quero acreditar que sim. Eu tenho fé nisso.
Enquanto isso, na sala do gabinete do Presidente da República, Filipe Nyusi, já em fim de mandato, e os presidentes dos partidos políticos, Ossufo Momade da Renamo, Lutero Simango, do MDM, Daniel Chapo, na qualidade de secretário-geral da Frelimo, Salomão Muchanga, do Partido Nova Democracia e ainda Albino Forquilha, do Partido Podemos, alcançavam consensos em vários domínios, segundo deu conta o porta-voz do encontro, Daniel Chapo.
“Estamos a falar de reformas relacionadas com a lei eleitoral, a reforma relacionada com o aprimoramento do processo de descentralização que já começou e que precisamos de continuar a aprimorar. E as reformas que possam-nos levar à revisão da Constituição para acomodar os interesses do povo moçambicano e outras reformas que forem necessárias. Já existe um consenso no sentido de que é altura de formarmos grupos de trabalho que vão fazer parte da comissão técnica, que vai aprimorar cada vez mais estes aspectos todos que nós aqui fizemos referência e outros. Por isso, nesta primeira fase, foi e continua a ser um diálogo interpartidário. Portanto, as plataformas são partidárias, partidos com assento parlamentar, mas também com assentos a nível da Assembleia provincial, ou a nível das assembleias municipais. Por isso que temos aqui a Nova Democracia. A mesa de diálogo que está aqui presente está em aberto. Mas, como nós dissemos, inicialmente, o que está aqui presente são plataformas partidárias. E sendo plataformas partidárias, era portanto, o que nós estamos aqui a trabalhar e a pensar. Mas reitero que a mesa de diálogo está em aberto”, realçou Daniel Chapo.
Venâncio Mondlane, no seu regresso a Moçambique, de onde partira para lugar desconhecido, a 21 de Outubro, deixando para trás o país num ambiente de crise pós-eleitoral caracterizado por manifestações de estar aberto a dialogar e estando no país que vai continuar a lutar pela verdade eleitoral.
Ouça a Reportagem de Orfeu Lisboa, o nosso correspondente.
Com a entrada em vigor da nova divisão política e administrativa, a Icolo e Bengo, desanexada da capital Luanda, a par do Cuando oriunda do Cuando-Cubango e do Moxico Leste, que saiu do Moxico, foi elevada esta semana a província. Neste caso, Angola passa a contar com 21 províncias, contra as anteriores 18, resultado da institucionalização de mais três novas províncias.
Na vila de Catete, sede da província de Icolo e Bengo, a RFI conversou com Domingos Passarinho e Celso Manuel, dois moradores da localidade, que enumeram as dificuldades que a região atravessa.
Dizem que, apesar das dificuldades, estão expectantes quanto ao futuro da região que carece de energia eléctrica, água potável, escolas e hospitais públicos, assim como de mais emprego para os jovens.
Vivo em Catete desde o meu nascimento. Desde 2002 até hoje, nasci e cresci aqui. Um dos problemas da Icolo e Bengo é a falta de infra-estruturas.
Do novo governador da nossa província, já que Catete se tornou uma província, queremos mais melhorias em termos de energia, água e infra-estruturas para gerar mais empregos. Temos muitos jovens desempregados.
Há poucas infra-estruturas na questão da educação. Apesar de ser um município que passou agora a província, não tem universidade. É necessário deslocamento e esse deslocamento gera muitos gastos.
O formador Kiel Maria é morador do Zango, um dos municípios mais habitados da província Icolo e Bengo. Para o jovem, uma das dificuldades que o actual governador vai enfrentar nesta localidade tem a ver com o saneamento básico e as vias de acesso que, praticamente, não existem.
Claramente que o novo governador da província de Icolo e Bengo terá grandes desafios, porque existem grandes dificuldades. Um dos desafios será a água, energia, saneamento básico e as vias de acessos.
Infelizmente, para nós moradores do Zango e moradores do Calumbo, temos problemas nas vias de acesso para a província de Luanda, visto que a maioria de nós trabalha, exactamente, na província de Luanda e vivemos na província de Icolo e Bengo.
Esperemos que o novo governador preste maior atenção a estas questões que afligem a população do Zango e do Bengo, porque essa é a maior dor de cabeça.
Por sua vez, Auxílio Jacob, governador da província de Icolo e Bengo, está ciente dos desafios que tem pela frente, mas avisa que conta com o contributo de todos para definir as prioridades da região.
Nesta fase não devemos prometer nada, devemos sim perceber bem onde estamos, o que queremos e para onde queremos ir.
Se formos capazes, em conjunto, com as autoridades tradicionais, as comissões de moradores, os partidos políticos, os empresários, os fazedores de opinião, se todos nós em conjunto conseguirmos perceber o que é que a província de Icolo e Bengo, com os seus sete municípios, vamos poder determinar aquilo que são as acções prioritárias que vamos levar a cabo.
É importante que se oiçam as pessoas, de forma a que consigamos perceber que estamos a fazer aquilo que o povo quer, para evitar falsas expectativas.
O governante também sinaliza que, neste momento, trabalha na identificação dos problemas da província para depois responder às necessidades da população.
O que é importante agora é perceber a dimensão da província e identificar os grandes problemas que a província tem.
O que vamos fazer é rentabilizar as vantagens que estes territórios têm, fazer com que estas vantagens se reflictam na vida das pessoas, porque uma das coisas que lutamos sempre, enquanto servidores públicos, é fazer o bem.
Se conseguimos unir as pessoas, discutir as nossas diferenças, realizar aquilo que é a necessidade de todos nós, vamos ter uma província de Icolo e Bengo a brilhar nos próximos tempos.
Os cidadãos de todos os territórios que congregam a província de Icolo e Bengo, serão úteis em função da sua capacidade intelectual, vontade, disponibilidade e compromisso.
Todos eles vão ser chamados, para cada colocar uma pedra para erguermos essa província que queremos que, daqui a uns tempos, se afirme no contexto das 21 províncias que Angola tem agora.
Entretanto, a Lei da Divisão Política e Administrativa de Angola, aprovada em Agosto do ano passado, entrou em vigor esta semana. O ministro da Administração do Território, Dionísio da Fonseca, esclarece que criação de três novas províncias não tem nada a ver com a divisão do país, mas sim com a redução das assimetrias locais para aproximar os serviços públicos à população.
A divisão política administrativa não tem como finalidade dividir os povos de Angola, pelo contrário, a ideia é reforçar a consolidação da nossa nação e focar na redução das assimetrias locais e aproximar os serviços públicos às populações, promovendo o desenvolvimento harmonioso e equilibrado do nosso território.
A soberania do nosso território deve ser plena e ser plena significa termos a capacidade necessária para prestarmos serviço a todos os angolanos, independentemente do local que eles escolhem para viver.
A recém criada província de Icolo e Bengo conta, actualmente, com sete municípios, nomeadamente Bom Jesus, Cabiri, Cabo Ledo, Calumbo, Catete, Quiçama, Sequele e ainda 11 comunas adstritas a esta jurisdição.
Não é a primeira vez que Luanda é dividida em duas províncias. Em 1980, da capital angolana surgiu a província do Bengo. Passados 45 anos, Luanda volta a ser dividida dando origem a Icolo e Bengo.
Este ano marca o centenário do nascimento de Amílcar Cabral, celebrado mundialmente com eventos que destacaram o seu papel como líder revolucionário e visionário africano. Ao longo do ano de 2024, houve conferências internacionais, exposições, publicações em Cabo Verde, Guiné-Bissau, Portugal, Brasil, Estados Unidos ou ainda em França. A Universidade Paris Sorbonne organizou um colóquio que juntou intelectuais que refelctiram sobre o legado de Amíilcar Cabral.
A Universidade Paris Sorbonne organizou no dia 21 de Novembro um colóquio em homenagem ao centenário do nascimento de Amílcar Cabral, líder revolucionário e pensador fundamental na luta pela independência de Cabo Verde e Guiné-Bissau. O colóquio juntou intelectuais que refelctiram sobre o legado de Amíilcar Cabral.
A professora de filosofia, Luísa Semedo, apresentou um texto sobre "a herança de Amílcar Cabral na luta afro queer: descolonização, identidade e resistência”. A docente destacou a importância do pensamento de Cabral na luta afro queer, lembrando que a filosofia de Cabral ainda inspira movimentos contemporâneos ao promover uma luta pela humanidade e pela desconstrução de preconceitos de gênero.
A questão afro queer junta vários tipos de opressão. É uma espécie de interseccionalidade e, portanto, uma pessoa afro queer, ou seja, uma pessoa que é queer e que tem origem africana, ou está no continente africano ou faz parte da diáspora afro descendente, acaba por criar uma só identidade que é complexa e que não é só uma justaposição de opressões ou de identidades, cria uma nova identidade.
Ele conseguiu juntar activismo e pensamento. A luta não era só uma luta contextual, não era só uma pessoa que ali estava e de repente foi obrigada a ir para a luta. Fazia parte da forma como ele via o mundo e da forma como ele achava que devia agir no mundo.
Djamila Cabral, filha de Luís Cabral e sobrinha de Amílcar Cabral, apresentou a reedição do livro "Luís Cabral, Crónica da Libertação, 2024", obra escrita pelo pai em 1980. A reedição pretende ressaltar a relevância e actualidade do relato sobre a luta pela independência da Guiné-Bissau e Cabo Verde.
Djamila Cabral partilha lembranças do tio, Amílcar Cabral, uma pessoa que conseguiu reunir pessoas de diferentes origens na luta pela independência. Para Djamila Cabral, a principal lição de Amílcar Cabral é a importância de procurar objectivos comuns em vez de interesses pessoais, uma mensagem que continua a ser crucial para os desafios existentes no continente africano.
A reedição deste livro foi motivada pela relevância e pela actualidade da obra, escrita pelo meu pai enquanto estava preso na década de 1980, e pela necessidade de divulgar mais amplamente a luta pela independência da Guiné-Bissau e Cabo Verde.
Como é que ele conseguiu fazer com que gente de todos os horizontes, dos mais diversos e mais contrários, pudessem abraçar uma causa. Para mim, está ali o fundamental... Precisamos ter uma causa, precisamos ter um objetivo comum.
O escritor cabo-verdiano Filinto Silva apresentou um texto sobre o "centenário global com o signo do futuro", saudando a iniciativa da UNESCO em ter criado no calendário 2024 o dia Amílcar Cabral, para uma comemoração mundial. Filinto Silva comparou Amílcar Cabral a pensadores como Edgar Morin.
O mote foi dado pela própria UNESCO, que não só aceitou a candidatura dos seus escritos ao programa Memória do Mundo, mas criou no calendário, em 2024, o dia Amílcar Cabral para uma comemoração mundial. Todo o legado estudado sobre Amílcar Cabral mostra que há uma futuridade no pensamento e na obra de Amílcar Cabral.
Amílcar Cabral fez uma luta, uma guerra que, paradoxalmente, foi uma guerra libertadora, uma guerra poética, uma guerra utópica que permitia não só ao combater o exército colonial português. Ele tinha uma visão emancipadora para o inimigo. Ele diz: 'Essa luta vai permitir-nos libertar rumo à independência, mas vai permitir uma tomada de consciência do outro lado da trincheira para que se liberte do próprio colonialismo e do fascismo.
A antiga ministra francesa Elisabeth Moreno descreveu "Cabral e as diásporas", lembrando que Amílcar Cabral não é apenas uma figura central para a história africana, mas também para a diáspora africana, estabelecendo ligações essenciais entre as comunidades.
As diásporas existem hoje graças ao trabalho e da libertação do Cabral por causa da ideia de que nós também temos capacidade de pensar o nosso futuro, de ter uma visão de onde queremos ir. Se hoje a diáspora está livre e pode viver onde quer e fazer o que quer, é por causa de pessoas como Cabral que deram sua vida para que nós tentamos de ver o que podemos fazer com a nossa liberdade.
Cabral era um visionário que sabia que ninguém pode realmente ganhar as batalhas com armas, mas com ideias.
Este ano ficou marcado pelo centenário de Amílcar Cabral, celebrado mundialmente com eventos que destacaram o papel de Carbal como líder revolucionário e visionário africano. Ao longo do ano, houve conferências internacionais, exposições e publicações em países como Cabo Verde, Guiné-Bissau, Portugal, Brasil, Estados Unidos ou ainda aqui em França. As celebrações reuniram académicos, artistas e activistas para reflectirem sobre seu legado político, cultural e sua luta pela liberdade. As iniciativas revelaram a importância global de Cabral como símbolo de resistência, justiça social e unidade africana.
A actriz portuguesa Beatriz Batarda esteve em Paris para participar no Festival de cinema português Olá Paris! e em entrevista à RFI disse que o cinema português se tem aprimorado nos últimos 40 anos, considerando que apesar de poucos meios, se trata de um cinema "sério, profundo, pertinente, urgente e original".
A actriz portuguesa Beatriz Batarda esteve em Paris para participar no Festival de cinema português Olá Paris!, que exibiu o filme “Great Yarmouth: Provisional Figures”, de Marco Martins, e onde Beatriz Batarda desempenha o papel principal como Tânia. O filme, que estreou em 2023, conta a história de uma comunidade portuguesa no Reino Unido e a perversidade face ao trabalho intensivo, a falta de direitos e a discriminação.
"Os portugueses durante muito tempo foram a mão de obra forte das empresas de exploração aviária de perus em Great Yarmouth, porque eram conhecidos por serem trabalhadores muito regulares, muito cumpridores e, sobretudo, porque nunca barafustava com as condições e aguentavam tudo, aguentavam as temperaturas, aguentavam as horas de trabalho. As fábricas trabalham 24/24, portanto, com vários turnos. Os trabalhadores portugueses muitas vezes acumulavam turnos e não eram necessariamente protegidos, portanto, não tinham apoio do Serviço Nacional de Saúde e, portanto, eram todas circunstâncias muito difíceis. Com a integração na Europa as condições foram mudando e de certa maneira a postura destes trabalhadores foi mudando e estas fábricas começaram a procurar outro tipo de trabalhadores. Neste momento é outra comunidade", explicou a actriz.
Beatriz Batarda considera que mais do que uma memória da imigração portuguesa no Reino Unido, este é um filme que fala de exploração, não só das comunidades imigrantes, mas também dos animais e o consumo nas sociedades capitalistas que leva à exploração da mão-de-obra e dos recursos naturais.
"O filme, mais do que fazer um alerta, um julgamento moral ou ter uma agenda política, faz-nos sim pensar sobre esta nossa voracidade, esta nossa necessidade de consumo e o que isso provoca as pessoas? O que isso destrói? As comunidades, as famílias, as vidas de pessoas que vêm à procura de uma coisa melhor e que acabam por se ver enredadas numa teia de um falso sonho que, no fundo, as desgasta completamente", declarou.
Em Portugal e em festivais internacionais, este filme de Marco Martins foi aclamado pela crítica. O festival Olá Paris! dedicou três dias de cinema na capital francesa ao cinema português, um cinema que Batarda considera que merece cada vez mais destaque após se ter construído de forma sólida nas últimas décadas.
"O cinema português é uma construção que não se faz em cinco, dez anos. É uma construção que se tem vindo a fazer ao longo dos últimos 30, 40 anos. É um processo longo, lento. Foi uma identidade que levou tempo a definir-se. Teve muitas influências, desde Nouvelle Vague, no início do Fernando Lopes e já houve murais a APV, etc. E depois outras gerações seguintes que vieram consolidar uma visão, uma escola de cinema de autor. E hoje em dia há uma espécie de terceira ou quarta geração de realizadores portugueses, que é muito forte e que tem identidades, cada um deles muito próprias e com com percursos diferenciados uns dos outros. E que fazem todos eles em cinema de autor, mas com percursos muito, muito diferentes e visões muito diferentes do cinema. E nesse sentido, acho que o cinema português é muito rico, apesar de ser um país tão pequeno, com tantas dificuldades económicas, com muitas dificuldades para fazer este cinema, porque os meios são realmente miseráveis comparados com qualquer outro país da Europa e ainda assim consegue-se fazer um cinema sério, profundo, pertinente, urgente e original", concluiu.
A Manteigaria abriu uma segunda loja em Paris, em meados de Novembro, devido ao sucesso da sua primeira fábrica. Esta segunda loja situa-se junto à estação de comboios de Saint-Lazare, ponto de passagem diário para meio-milhão de pessoas vindas do mundo inteiro. Este segundo espaço da Manteigaria conta com algumas novidades, por enquanto ainda mantidas em segredo, tal como o é a receita do famoso pastel de nata.
Quem estiver curioso com a confecção de um pastel de nata sabe onde ir. Em Paris, a Manteigaria conta agora com duas fábricas da mais famosa pastelaria portuguesa.
No bairro do Marais ou junto à estação de Saint-Lazare, na capital francesa, os pasteleiros da Manteigaria, especializados no pastel de nata, preparam cada fornada face aos clientes e curiosos. Todo o processo é visível, mas a receita é segredo.
Raúl Andrade, director-geral da Manteigaria em Paris, conta-nos os desafios que se impõem com a rude concorrência da pastelaria francesa, mundialmente conhecida e reconhecida. O pastel de nata soube impôr-se nesta paisagem gastronómica e já é associado à cultura portuguesa.
O sucesso da primeira loja desta mítica casa portuguesa foi tão grande que levou à abertura deste segundo espaço, a 15 de Novembro, onde o interior é diferente e tem algumas novidades, o bairro onde se situa é diferente e o perfil dos clientes é outro. O pastel continua o mesmo.
A visão de Amilcar Cabral de uma África pan-africanista é um ideal que continua a ter uma força inspiradora de tal forma evidente que até nos negócios do mundo tecnológico se faz sentir.
Abel Djassi era o nome de guerra do revolucionário africano responsável por liderar a libertação de Guiné-Bissau e Cabo Verde da colonização portuguesa. Djassi Africa é o nome da empresa que apoia e promove inovadores africanos e da diáspora africana que criam startups tecnológicas.
Os fundadores da Djassi Africa são os irmãos Fernando e Rudolphe Cabral, o trajecto de vida é um dos elementos impulsionadores da linha de acção. Fernando e Rudolphe viveram a infância na Guiné-Bissau, a formação académica foi feita em Portugal, e, agora, é a partir de Londres que, numa perspectiva global mas dedicando um foco particular aos PALOP, apoiam empreendedores mais ousados com actividade em diferentes áreas de negócio.
Perceber o trabalho desenvolvido pela Djassi Africa ou como o programa Afropreneurs pretende envolver 500 startups até 2026 são alguns dos temas da entrevista que Rudolphe Cabral deu à RFI durante a WebSummit em Lisboa.
"Não sei o que o amanhã trará" é um verso do poeta português Fernando Pessoa repetido várias vezes no espectáculo "Pessoa, desde que eu sou eu", encenado pelo mestre do teatro norte-americano, Robert Wilson. O espectáculo de Bob Wilson nasce a partir de textos de Fernando Pessoa é falado em português, italiano, francês e inglês, idiomas que se reflectem também nas diferentes origens do elenco, do qual faz parte a portuguesa Maria de Medeiros.
A actriz Maria de Medeiros interpreta Fernando Pessoa no espectáculo Since I’ve Been Me, Pessoa, desde que eu sou eu, de Bob Wilson. O último espectáculo do encenador norte-americano que, aos 83 anos, explora o universo do poeta português através de uma linguagem visual única que Bob Wilson inventou nos anos 60.
No final do espectáculo, Maria de Medeiros descreveu-nos o trabalho de Bob Wilson, um trabalho que se baseia na intuição e no uso da luz, movimento e cenografia para recriar o universo pessoano. A actriz portuguesa descreve este espectáculo como uma representação lúdica e infantil do próprio Fernando Pessoa, um poeta que questiona constantemente a identidade e o "não ser". Segundo a actriz portuguesa, o trabalho visual e os movimentos lentos no palco criam um espaço de concentração e interioridade que permite ao público embarcar numa viagem profunda, reflectindo sobre a multiplicidade dos heterónimos de Fernando Pessoa.
RFI: O espectáculo desde que eu sou eu encenado por Robert Wilson explora o universo complexo do poeta português Fernando Pessoa. O espectáculo mistura texto, movimento, luz, escultura. Explora temas como a identidade, a auto-representação, a multiplicidade do eu, além de homenagear a criatividade de Pessoa. O espectáculo utiliza elementos como espelhos, distorções para ilustrar a dificuldade de apreender a verdadeira essência de alguém. Maria de Medeiros interpreta uma das personagens de Pessoa ou até várias personagens de Pessoa e esta é a minha primeira questão.
Maria de Medeiros: Pessoa tinha o Fernando Pessoa [ortónimo ] e tinha os seus heterónimos. Sou como pessoa que, um pouco, organiza esse espaço lúdico interior que existe no Pessoa. Tudo o que referiu efectivamente está na peça. Para mim foi muito interessante ver a forma intuitiva do Bob Wilson trabalhar, onde vai buscar finalmente expressões pela luz, pelo trabalho visual, pelos movimentos, para de alguma forma restituir ou apreender o universo de Pessoa, mas sim a grande intuição e a infância porque ao longo da obra de Pessoa, há referência à criança, aos amigos imaginários, como se todo o universo sistema pessoano fosse uma organização lúdica de uma criança. O Bob tratou isso de alguma forma ou se apoiou nisso.
No texto, na interpretação ou na sonoridade. Há muito esta questão e lembra muito a infância, a questão do berço, da mãe. A primeira questão que se coloca é : quem é Fernando Pessoa? É preciso colocar a questão quem é a pessoa para perceber de onde é que vem esta multiplicidade de personagens?
Eu não sei se a questão é quem é Pessoa porque justamente ele é a multiplicidade, mas sendo essa multiplicidade, é matéria fértil para o teatro porque há um jogo de máscaras, há um jogo de vozes, há uma dança das imagens fugazes das personagens e efectivamente, o texto vai buscar fragmentos muito diversos. Todo o final é o Fausto, há uma grande parte do guardador de rebanhos, há Ricardo Reis, há pouco Álvaro de Campos, mas está também um bocadinho presente. São como impressões e acho que o espectáculo assume isso através dessas impressões, o Bob também conta alguma coisa de si no fundo da sua relação à poesia, que passa sempre pelo visual, porque foi interessante vê-lo trabalhar porque tudo parte sempre de uma imagem e, em geral, de uma imagem que ele desenha.
Neste caso, qual é que foi a imagem?
São várias imagens que ele traz desenhadas e que procura criar no espaço e com a luz. Só a partir daí é que se vêm escrever os textos como relâmpagos de sentido que aparecem, mas dentro de um espaço que é essencialmente visual.
E é também o uso de diferentes línguas no espectáculo. Isso contribuiu para explorar a identidade e as múltiplas facetas de pessoa?
Sim, acho que Pessoa é um poeta que se deixa traduzir muito bem. Existem grandes, excelentes traduções do poeta, tanto em francês como no italiano, que é a tradução do Tabucchi. Então é muito belo realmente sentir a vibração destes textos nas diferentes línguas e como não perde nunca no fundo a sua força poética.
Sentiu-o quando os recita em três línguas diferentes neste espectáculo?
Sinto absolutamente, claro, e cada língua Imprime uma perspectiva, um dramatismo diferente. Eu gosto muito desse exercício. Ainda por cima eu sou uma europeia convicta e acho que de alguma forma, é o Pessoa da Europa. É um poeta nosso, absolutamente nosso, mas é um poeta universal.
Como é que chegaram a este impacto visual e emocional da integração com a luz? Vocês são sete actores em palco que dançam com as luzes.
Sim. É um trabalho muito meticuloso, de muitas horas, sobretudo para definir a luz e as posições no espaço. Achei muito interessante dar esse protagonismo à dança, ao movimento, porque há muito trabalho do Bob sobre a lentidão, a imobilidade. Isso também está presente. Por exemplo, todo o início não é realmente um trabalho sobre a quase imobilidade. Mas depois há também o contraste com os corpos em movimento, exprimindo-se absolutamente pela dança.
O espectáculo começa com o público a entrar na sala porque a Maria de Medeiros já está em cena e o espectáculo começa nesse momento?
De alguma forma, já está ali uma figurinha do Pessoa a receber. Mas lá está a receber só com movimento e o movimento muito lento, uma coreografia muito, muito lenta. É engraçado porque muitas vezes as pessoas dizem 'você está completamente parada', quando eu não estou nunca parada, estou sempre em movimento, mas é tão lento que as pessoas têm a sensação da imobilidade e de alguma forma é acolher o público. Já para o universo no qual vamos todos viajar.
E por que esse movimento mais lento? Porque é que o Bob Wilson faz esta proposta, de haver movimentos num tempo muito menos acelerado?
Penso que é a lentidão, justamente essa dimensão de concentração e de interioridade, de nos prepararmos de alguma forma a entrar porque é uma viagem interior e uma grande viagem interior que vamos fazer juntamente ao público.
Essa viagem reflecte a relação de Pessoa com a própria identidade e com o desejo de ser ninguém. Como é que consegue interpretar esta personagem?
Somos máscaras, mas atrás de outra máscara, há outra máscara e há outra máscara é outra. Poder se á chamar a isso, ninguém. O assumirmos, sermos tantas máscaras, mas ou somos tudo isso ou nada.
Fernando Pessoa dizia há pouco continua a ser actual e muito mais hoje?
Muito. Há uma modernidade na língua que é absolutamente extraordinária. Tem sido muito bom voltar a esta poesia, a esta língua. Na verdade, a maior parte dos textos parecem escritos hoje. Daí, realmente, o génio do poeta.
Relativamente a esta questão que provoca um questionamento em relação às fronteiras, às fronteiras entre o outro é o nós mesmos. Essa foi a grande inquietação que ele escrevia e assinava como Bernardo Soares.
Realmente ele questiona até as últimas consequências o ser, e questiona o que é ser no Fausto e também no Livro do Desassossego há ânsia pelo não ser e como lidar com a angústia de ser. Justamente, eu acho interessante é abordar tudo isso numa perspectiva lúdica porque talvez não seja tão dramático nós sabermos ser.
Este não é o trabalho também de uma actriz. Essa procura em relação a outro ser é uma procura pela qual vocês passam e cada trabalho?
Absolutamente é uma representação. É uma imagem do teatro e do que é ser actor. No fundo, o assumir, o não ser ao ser outro, mas como um jogo com a alegria da infância.
A relação entre Bob Wilson e Fernando Pessoa oferece uma visão do poeta que vai além da sua "imagem portuguesa", propondo ao público francês uma leitura mais universal e profunda do poeta português, através da estética visual e poética de Bob Wilson. Para o director do Théâtre de la Ville, Emmanuel Demarcy-Mota, este é um momento aguardado há muitos anos, já que Bob Wilson é um dos maiores artistas da cena internacional, reconhecido pela revolução na arte cénica, que desafiou as convenções com a criações visuais únicas e inovadoras.
RFI: A peça resulta de uma colaboração entre o Théâtre de la Ville de Paris e o Teatro della Pergola de Florença e põem em cena o mundo multifacetado de Fernando Pessoa e dos seus heterónimos, abordando temas da infância, da identidade e da multiplicidade das máscaras humanas?
Emmanuel Demarcy-Mota: Estava à espera deste momento há muitos anos. Este momento em que um dos maiores artistas da cena internacional que é o Robert Wilson, um artista americano que cresceu nos Estados Unidos nos anos 60, que saiu do meio onde ele estava, emancipou-se e foi para Nova Iorque, onde conheceu os maiores artistas internacionais, num momento fundamental da história americana e europeia, onde a ideia da criação da liberdade é diferente do que se estava a passar no mundo. Estamos nos anos 60 e o que é que ele vai inventar? Ele é o criador do grande espectáculo, que é o que chamou "o olhar do surdo", que é um espectáculo em que não havia palavras e de repente as pessoas vão descobrir um espectáculo onde nenhum actor fala e o espectáculo dura 7 horas. Ele faz essa revolução. Ele é para o mundo um génio do espaço cénico.
A ligação que tenho com ele é muito forte há muitos anos. Depois de ter feito vários espectáculos com ele, a minha ideia era convidá-lo a trabalhar sobre o Fernando Pessoa. Eu sabia que ele não tinha uma relação pessoal com o Fernando Pessoa, mas para mim, a questão da poesia do Fernando Pessoa era muito importante. Queria criar este encontro e escolhi o Robert Wilson para mostrar a diferença ao público francês também noutros países do mundo, através desta nova forma de olhar e descobrir que Pessoa. Não estamos aqui a fazer uma exportação cultural. Estamos a fazer um encontro profundo com dois grandes poetas do século XX o Robert Wilson e o Fernando Pessoa.
Esta é outra visão de Fernando Pessoa por Robert Wilson. Pessoa aparece aqui através de luzes, de espelhos, de movimentos mais lentos, da música e das línguas. É um espectáculo falado em quatro línguas diferentes.
Esse ponto das línguas é uma questão fundamental. A pluralidade linguística é fundamental. A língua é cultura, a cultura não é só arte e a arte não é só cultura e é também a pluralidade das línguas. Há língua italiana dentro deste espectáculo, a língua francesa, a língua portuguesa e a língua inglesa. Vamos levar um espectáculo de dois países, por exemplo, a Roménia. Gostaria que também se pudesse ouvir textos de Fernando Pessoa noutras línguas, como uma língua romena, que é muito importante também porque tem familiaridade com a língua portuguesa e a língua francesa, por exemplo. E essas proximidades dos sons da língua: uma língua e um som, uma língua e um espaço estrangeiro dentro de si próprio. Essa poética dentro do espaço teatral é fundamental porque isto é um poema em cena, com as línguas, com as culturas também dos actores. Porque aqui são actores que vêm alguns do Brasil ou Portugal, dessa lusofonia que conhecemos bem, mas também franceses que tiveram raízes nos Camarões.
Este texto tem que ver com o encontro entre Robert Wilson, que é americano que tem uma visão também da comédia musical do Buster Keaton, do que chamamos o burlesco, o Chaplin. E de repente, há um encontro dentro desse espectáculo, me parece, entre o Chaplin e o Pessoa, o Buster Keaton, que é fundamental dentro dos burlescos americanos, onde não há palavras. A poesia está numa cara, num olhar, num movimento. É o que diz o Pessoa tendo a poesia dele.
É tempo de Pessoa ser conhecido em França?
Sim, o trabalho é fundamental e para mim, é por isso que eu estava à espera deste momento, porque com o Bob Wilson eu fiz uma proposta que ele ensaiou, que ele encenou num espectáculo, o Jungle Book, que continua a viajar no mundo, que ainda não apresentámos em Portugal, mas também com a Isabelle Huppert, Mary Said, que apresentámos no CCB e no Festival de Almada, em Lisboa, e que continua a circular, que está neste momento em Tóquio, onde a Isabelle Huppert está a fazer o espectáculo.
Foi importante escolher este poeta português para essa sensação do mundo, num mundo que vai tão mal; com a eleição de Trump nos Estados Unidos, com a extrema-direita em França que obtem 42%, com Portugal que está também à procura de um caminho. Há um momento em que vamos acabar com os Estados Unidos, que são os Estados Desunidos. Não há nenhuma união nos Estados Unidos, que é tristeza absoluta. Precisamos de poesia, de um olhar sobre o mundo interior e exterior, onde a responsabilidade cultural de fazer conhecer Pessoa. Este espectáculo representa muito tempo de pensamento, de trabalho, de opções que têm que ser decididas para uma sala de 1000 lugares no centro de Paris. Não estamos a falar da pessoa numa sala de 80 lugares, estamos a falar num teatro central, uma das maiores salas parisienses.
Olinda Beja é actualmente o expoente máximo da poesia são-tomense, mas é também uma contadora de histórias e, desde 2022, embaixadora oficial da cultura de São Tomé e Príncipe no Mundo. Um título que mesmo ainda de forma informal já encarnava há muitos anos, desdobrando-se em participações em conferências, idas às escolas em Portugal e noutros locais do globo, leituras públicas, tudo para falar do seu país.
Olinda Beja esteve em Paris para participar no colóquio "São Tomé e Príncipe, as sementes da esperança, entre herança colonial e ecologia viva", organizado pela Sorbonne Nouvelle, e fez viver a todos os presentes um bocadinho de São Tomé e Príncipe.
Em entrevista à RFI explicou como é ser agora oficialmente a embaixadora cultural do seu pais.
"Eu fui descrita muitos anos como embaixadora cultural, porque os nossos jovens em São Tomé e as nossas crianças não tinham muitos livros, sobretudo os mais pequenos. E uma das minhas preocupações foi escrever um livro só para crianças. O primeiro livro que se escreveu em São Tomé para as crianças foi da minha autoria "Um Grão de Café". No entanto, em 2022, o meu país nomeou-me, agora sou a embaixadora nomeada. É realmente uma grande alegria para mim, embora eu o tenha sempre feito desde que eu regressei ao meu país. Há um deslumbramento imenso sobre a paisagem, sobre as pessoas, sobre, sobretudo as crianças, sobretudo os mais velhos, porque dei conta que eles eram um repositório de histórias", confidenciou a poetisa.
No encontro em Paris, Olinda Beja contou histórias, declamou os seus poemas, cantou e tocou um tambor feito pelo seu avó, espalhando pela sala panos típicos de São Tomé e Príncipe. Um ambiente que fez viajar alunos, professores e investigadores que assistiram à sua apresentação.
"Eu gosto de fazer viver São Tomé. Eu posso-lhe dizer que já foi quase uma centena de pessoas a São Tomé por recomendação minha. Depois eu tenho o turismo rural lá e eu levo-os mesmo a São Tomé. Talvez as pessoas saibam do cacau, mas não sabem mais nada, não conhecem e nós temos de dar a conhecer", insistiu.
Com uma grande variedade cultural, diferentes géneros musicais e encenações como o Tchiloli, Olinda Beja lamenta que a cultura de São Tomé e Príncipe não seja mais conhecida e divulgada, com a poetisa a dizer que na comemoração dos 50 anos de independência haverá jovens são-tomenses a dançarem danças tradicionais um pouco por todo o Mundo.
Para os próximos 50 anos, Olinda Beja deseja uma maior aposta na juventude e na qualificação dos quadros do país para levar maior desenvolvimento ao arquipélago.
"Nós não podemos falar em 50 anos de independência, porque é uma gota de água no oceano. Um país que está quase durante 500 anos colonizado, que não tem quadros que quando fazem a proclamado da independência tínhamos meia dúzia de famílias ricas da elite negra santomense que mandaram os seus filhos a Lisboa e ao Porto e a Coimbra estudar mais nada. Os outros 119.000 eram povo anónimo, sem estudos, sem quadros, sabiam alguma coisa de mecânica porque viram, sabiam alguma coisa do cacau, porque viram, mas muito pouco. E isso é que tem sido um problema muito grave, porque logo a seguir à independência, os países de Leste abriram as portas para os jovens são-tomenses que queriam continuar a estudar. Formou-se muita gente, mas ficaram por lá. Já não voltaram ao seu país. Isso também é outro grave problema. As condições que o governo oferece são muito fracas e quem vem à Europa, apesar das dificuldades que há, vê que aqui tem outras condições. Fica. Já não volta, mesmo sabendo que aquilo é um paraíso, mesmo tendo saudades e mesmo chorando para o seu país. Isso faz com que São Tomé esteja à deriva. Eu digo isso num poema. Ainda é uma ilha que está à deriva, sem idade. Vamos ter esperança que haja uma nova geração que veja as coisas de outra maneira", concluiu.
O rapper Masta Tito é uma das figuras de maior relevo da música de intervenção da Guiné-Bissau. Autor de temas que ganharam grande popularidade por criticarem de forma frontal o Governo e os militares guineenses, o "rapper revolucionário", tal como se identifica, está na linha da frente da defesa dos direitos humanos e pela legalidade democrática. Recentemente lançou o disco "N'kala Kala", que em português se pode traduzir por "Não me vou calar", um trabalho onde, de forma contundente, Masta Tito volta a tecer duras críticas a quem detém o poder na Guiné-Bissau.
Se ao longo dos mais de vinte anos de carreira Masta Tito já tinha sido alvo de diferentes episódios em que tinha sido ameaçado, intimidado e mesmo espancado por, precisamente, denunciar os desmandos de governantes e militares, agora, com "Nkala Cala", voltou a colocar a vida a em risco por defender o povo guineense e denunciar o que identifica como a "ditadura do Presidente Umaro Sissoco Embaló".
Temas como Miti Medo, Nkala Kala, Matchu di Matchus ou Kafumbam são como Cavalos de Troia que Masta Tito plantou no seio da sociedade guineense, mas, por sentir que ao continuar na Guiné-Bissau estaria a colocar a própria vida em risco, o seu autor foi obrigado a fugir para Portugal.
A RFI encontrou-se com Masta Tito em Lisboa. O rapper começa por nos apresentar o disco "Nkala Kala" e revela que, mesmo na capital portuguesa, continua a receber ameaças.
Youtube oficial de Masta Tito: https://www.youtube.com/@mastatito/videos
Os eleitores moçambicanos votam, esta quarta-feira, nas eleições gerais. Muitos madrugaram, outros sonharam com o voto, uns votam pela primeira vez e alguns agradecem ainda poderem votar. “Eu não quis perder isto por nada! Faça sol ou faça chuva! Com ou sem bebé às costas”, resumiu uma jovem mamã.
Ainda as mesas de voto não tinham aberto e já se faziam filas na Escola Secundária Josina Machel. Os eleitores fizeram questão de madrugar para ir exercer o seu direito de voto. Foi o caso de Vasco, de 57 anos, o primeiro a chegar às 4h30 da manhã, ainda a escola estava fechada. Duas horas e meia depois, Vasco leu um bom pedaço do livro que tem nas mãos.
Eu fui o primeiro a chegar. Cheguei às quatro e meia, ainda não estava ninguém, estava tudo fechado, depois apareceu a polícia e apareci eu! Estou aqui a ler para ver se o tempo passa rápido. Estas eleições representam uma viragem, estamos a sair de um determinado ciclo de governação para um novo. Teremos um novo Presidente, seja ele qual for, teremos uma assembleia totalmente diferente e nova. É uma viragem completamente grande.
Na linha da frente de uma das filas, está Jean Claude, de 22 anos, que vai votar pela primeira vez em eleições gerais, num país onde cerca de 80% da população tem menos de 35 anos.
Esta é a primeira vez que voto em eleições gerais. O voto é importante porque ajudará na definição dos próximos cinco anos de governação do nosso país. Espero que o candidato que for eleito seja um candidato que apoie os jovens, dê mais oportunidades e que os próximos cinco anos sejam anos que possam ajudar a defender uma geração inteira para que possamos desenvolver Moçambique.
A afluência à Escola Secundária Josina Machel foi-se acentuando durante a manhã, mas mais vale esperar sentada e foi o que fez Josina Nachaqui, 60 anos. Chegou às cinco da manhã e não pregou olho durante a noite porque só pensava em ir votar.
Quando dormia só sonhava em vir aqui votar ! Eu estou feliz hoje! Estou feliz por votar!
Com tantos eleitores, havia alguma descoordenação para se saber onde votar. De bebé de nove meses nas costas e uma menina de dois anos a passear por entre as dezenas de pessoas, Andreia Cossa, 34 anos, procurava a sua mesa de voto com um ar meio perdido, mas estava mais motivada que nunca. Nem a chuva, que acompanhou a abertura das urnas, fez Andreia esperar para ir votar.
Não quis perder esta oportunidade. Acho que é importante também para mostrar à nossa geração que a decisão do nosso país está nas nossas mãos. Então não quis perder isto por nada! Faça sol, faça chuva, com bebé nas costas ou não, estou aqui!
Também feliz estava a antiga primeira-dama, Graça Machel, que foi esposa do primeiro Presidente de Moçambique, Samora Machel, e que votou na Escola Secundária da Polana.
É um sentimento de dever cumprido. Faz parte da nossa escolha. Daquilo que nós queremos que seja o futuro, em particular dos nossos filhos, dos nossos netos e bisnetos. Por isso, eu estou feliz de ter vivido o suficiente para, mais uma vez, exercer este direito.
Para acompanhar estas eleições há 11.516 observadores nacionais e 412 observadores internacionais, incluindo Missões de Observação Eleitoral da União Europeia, da Comunidade de Países de Língua Portuguesa, da União Africana e da Comunidade de Desenvolvimento da África Austral, entre outras organizações.
Há, também organizações da sociedade civil, como o Conselho Nacional da Juventude que tem 500 observadores mobilizados em todo o país neste dia eleitoral. Um deles é Alexandre Mano, que encontrámos na Escola Secundária da Polana e falou em “afluência massiva às urnas”, maior do que nas eleições precedentes.
Também a observar na Escola Secundária da Polana está Sheila Massuque, da Comissão Nacional dos Direitos Humanos, que nos descreveu uma abertura das urnas "ordeira" .
Há mais de 184.500 membros de mesas de voto, distribuídos pelos 154 distritos do país e fora do país. Em Moçambique, no dia da votação, vão funcionar 8.737 locais de voto e no estrangeiro 334, correspondendo a 25.725 mesas de assembleia de voto em território nacional e 602 assembleias no exterior, cada uma com sete elementos.
Mais de 17 milhões de eleitores são chamados às urnas, incluindo acima de 300 mil recenseados no estrangeiro para escolher o Presidente da República, as assembleias provinciais e respectivos governadores, bem como 250 deputados da Assembleia da República. Na corrida à presidência, estão quatro candidatos: Daniel Chapo, apoiado pela Frelimo, no poder; Ossufo Momade, apoiado pela Renamo, principal partido de oposição; Lutero Simango, apoiado pelo MDM, terceira força parlamentar; e Venâncio Mondlane, apoiado pelo Podemos, sem representação parlamentar.
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