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A feira de arte "Art Paris" encerra neste domingo na capital francesa.
Um certame que vai já na sua vigésima sétima edição e que trouxe 170 expositores de 25 países com as tendências do mercado da arte contemporânea.
Com criadores de todo o mundo: destaque, por exemplo, para galeristas sul-africanos presentes no evento ou muitos criadores nigerianos, caso de Ozioma Onuzulike ou Boluwatife Oyediran.
Da lusofonia o foco foi para Portugal que trouxe duas galerias.
"This is not a white cube" trouxe três artistas. Graça Rodrigues, directora e curadora, começa por apresentar a selecção que a galeria trouxe a "Art Paris".
Do rol de artistas de "This is not a white cube" consta, pois, Manuela Pimentel.
Ela começa por nos contar como começou a sua criação artística que vai da arte de rua, ou "street art" a um trabalho em torno da memória.
A aposta da Galeria Jeanne Bucher Jaeger, implantada em Paris e em Lisboa, foi em obras de grandes dimensões de conceituados artistas internacionais.
A sua directora Véronique Jaeger estava satisfeita pelo regresso a este emblemático recinto parisiense que é o "Grand Palais", e a sua abóbada de vidro iluminada pelo sol primaveril.
Instantâneos de "Art Paris", uma feira de arte a fazer da capital francesa um ponto de encontro das tendências mundias da arte contemporânea.
Por exemplo a galeria suíça Gowen expôs a emblemática criadora portuguesa Joana Vasconcelos e as suas rãs de crochet.
Este ano "Art Paris" com um sector dedicado às tendências emergentes e, mesmo, ao design francês e respectiva integração na arte.
Globalmente, os vários indicadores concordam na conclusão de que no período recente há menos progressos na luta contra a pobreza em Portugal. O estudo recentemente apresentado indica, por exemplo, ter havido mesmo um "aumento do número de pessoas sem capacidade para ter uma alimentação adequada" e o número pessoas em situação de sem-abrigo mais que duplicou entre 2019 e 2023.
A percentagem de crianças em risco de pobreza está nos 18%, quando a Estratégia Nacional de Combate à Pobreza definia como objectivo os 10%.
Um estudo que pretende reflectir a realidade e alterar a situação de pobreza em Portugal, como indica a Presidente da Cáritas Portuguesa, Rita Valadas.
Presidente da Cáritas Portuguesa, Rita Valadas:
Este estudo, que se chama "Pobreza e Exclusão Social em Portugal, uma visão da Cáritas", neste caso para 2025, é o segundo do conjunto que nós queremos fazer.
O que nós nos apercebemos foi que, muito para além dos números certos e das leituras que se fazem, muita investigação que se faz sobre a pobreza, a verdade é que nós não temos conseguido erradicar o fenómeno.
Na verdade, são 40 anos de fenómeno de pobreza em Portugal, sendo que os números básicos são os mesmos. A que depois se acrescentam, de acordo com as situações de vulnerabilidade do país, porque o país passa, vão-se acrescentando números e pessoas que não são iguais às iniciais.
Nós temos aquilo que se pode dizer que é uma pobreza resistente, constituída por um conjunto de pessoas que nós não conseguimos retirar da pobreza, e isso é um desafio. O outro desafio é as mudanças sociais, a rapidez com que a vida das pessoas muda e aparecem novos fenómenos, traz novas realidades.
E isto complica ainda muito mais a capacidade que nós temos de olhar para a pobreza. O que é que é a pobreza? Porquê é que ela surge? Que tipo de pessoas afecta?
E aí, nós percebendo, com uma grande frustração, que nós não conseguimos erradicar o fenómeno da pobreza em Portugal, fomos tentar perceber se havia alguma coisa a que nós não tivéssemos estado especialmente atentos e vamos tentar ler, ao mesmo tempo que lemos os resultados dos estudos académicos focados em determinadas realidades, encontrar, olhar sobre outras realidades e percepcionar o que os territórios e as pessoas que estão nos territórios vêem na pobreza.
Este é o segundo estudo que existe. O objectivo é reflectir a realidade de forma a nós, tanto quanto possível, podermos ir a tempo de fazer alguma coisa para alterar a situação e proteger as pessoas antes que elas se confortem com a situação.
.Em Portugal existem 20 Cáritas Diocesanas. Para se ter uma melhor percepção do território, a RFI falou com o presidente da Cáritas Diocesana de Beja, Isaurindo Oliveira.
A capital do Baixo-Alentejo regista um grande número de pessoas em situação sem-abrigo e a exploração de imigrantes ainda faz parte da triste realidade que se vive no território.
Presidente da Cáritas Diocesana de Beja, Isaurindo Oliveira:
Beja, em termos proporcionais, é a segunda cidade do país com mais pessoas em situação de sem-abrigo. É Lisboa e Beja. O que é que acontece?
Quando a gente não mede, estas coisas não existem. Há dois anos, o número de sem-abrigos que aparecia nas estatísticas era reduzido . Nós percebemos que havia aqui algumas situações destas. Só em 2023, passaram-nos aqui pela Cáritas 400 pessoas.
Esse número normalmente vai aumentando. Vai aumentando porque, como temos também muitas pessoas emigrantes a quem depois falham os empregos, falham os contratos, falha tudo e mais alguma coisa, essas pessoas muitas vezes acabam por ficar na rua.
E, portanto, esse número tem tendência sempre a aumentar. Embora tenhamos também muitos nacionais, mas uma percentagem também grande é migrante.
Os migrantes que procuram a ajuda da Cáritas são pessoas que... ?
Presidente da Cáritas Diocesana de Beja, Isaurindo Oliveira:
...Tem de tudo um pouco. Temos aqui pessoas que vêm já de outros países porque se criou aqui a ideia de que Beja, principalmente quando havia as manifestações de interesse, Beja ajudava e que a Caritas ajudava e, portanto, havia muitas pessoas que vinham aqui.
Depois temos pessoas que, de alguma maneira, correm um pouco a Europa, pelo menos a Europa do Sul, à procura de alguma estabilidade.
Depois temos muitas outras pessoas que aparecem aqui e que vêm na pressuposição de que vão ter um emprego e depois chegam cá e não têm.
E depois aparecem aqui pessoas que tinham o seu emprego, mas os contratos são contratos muitas das vezes fictícios e que de um momento para o outro ficam sem nada.
Pessoas que, os documentos que tinham perderam a validade. Portanto, nós temos aqui de tudo. Portanto, são situações que nós vamos verificando que, embora tenhamos aumentado o número de técnicos, a gente não dá conta disto.
E estamos convencidos que a tendência é para aumentar porque a Alqueva ainda não atingiu o seu pico. Portanto, a maior parte destas culturas que aqui estão agora instaladas são culturas permanentes que exigem mão-de-obra. A mão-de-obra cá não existe. Portanto, ela acaba por vir de fora. E, portanto, são situações que nós não controlamos, mas cuja tendência é para aumentar.
No ano passado, há dois anos, houve vários relatos de situações de tráfico de pessoas, de exploração laboral que os migrantes sofriam. Ainda têm relatos desse tipo de situação a acontecer no território?
Presidente da Cáritas Diocesana de Beja, Isaurindo Oliveira:
Sim, sim! Isso existe a toda a hora. Quando se consegue acabar com uma entidade que faz esse trabalho, nasce duas ou três a seguir com este negócio. Portanto, sempre que há dinheiro na questão, estas coisas não terminam só por decreto. Portanto, pessoas nessas situações continuam a haver. E todos os dias nós acabamos por ter relatos de situações dessas.
Os órgãos de segurança andam sempre aqui em cima. Enquanto houver aqui pessoas nestas condições, toda a gente ganha dinheiro à custa deles. É a habitação, é o contrato, é as legalizações. Seja aquilo que for, há sempre pessoas a ganhar dinheiro à custa destas pessoas vulneráveis.
Como é que a sociedade, os bejenses, e também as outras entidades de Beja, como é que entendem, como é que recebem, como é que olham para estes migrantes?
Presidente da Cáritas Diocesana de Beja, Isaurindo Oliveira:
Embora as forças populistas, muitas das vezes, venham a dizer que uma série de problemas que acontecem no território são devido aos migrantes. Aquilo que nós, pelo menos, e mesmo as próprias forças de segurança nos vão dizendo, é que isso, de facto, não é verdade.
Agora, aquilo que tem é que mudou a paisagem, por exemplo, dos aglomerados populacionais, nomeadamente Beja também mudou.
Mas são pessoas que, normalmente, não criam qualquer problema de segurança. Não quer dizer que não possa haver um problema ou outro, mas os nacionais também existem. E a maioria das pessoas, se nós fomos ver a parte criminal, etc., essencialmente são nacionais, não são migrantes. Mas sim, um dos trabalhos que nós gostaríamos de fazer é o trabalho de inclusão, ou seja, que estas pessoas pudessem vir e incluir na sociedade.
Mas quer dizer, não se misturam. Os bejenses e a maioria das entidades aceita estas pessoas, mas é sempre a mesma coisa. Toda a gente acha que estes problemas deviam ser solucionados, mas na sua rua, não na minha. Isso acontece aqui com a Cáritas, não só com os migrantes, mas acontece com todas estas pessoas em situação de sem abrigo. Há, aliás, até vozes que dizem que a Cáritas é a culpada disto tudo, porque se a Cáritas não tivesse estas estruturas que acolhem estas pessoas, estes problemas não existiam.
Como é que a sociedade olha para o trabalho que a Cáritas de Beja desenvolve, uma vez que lida com situações, com pessoas que são colocadas à margem da sociedade?
Presidente da Cáritas Diocesana de Beja, Isaurindo Oliveira:
Eu diria que 95%, sem que este número seja real, 95% das pessoas da cidade de Beja, do território, não sabem o que é que a Cáritas faz. Não sabem e criticam às vezes estas instituições. A maioria das pessoas acha que se deve dar atenção a todas estas pessoas vulneráveis, mas é longe de mim, longe da minha porta. Portanto, este trabalho de integração, este trabalho de corresponsabilização, é um trabalho que precisa ser feito. Está melhor do que estava há uns anos atrás, mas é um problema, esta tomada de consciência.
Às vezes, há determinadas forças que, quando nós temos que pedir o seu auxílio, dizem que não trabalham para a Cáritas. Nomeadamente forças policiais, ou coisas desse género. Nós já tivemos reuniões, quer com as chefias destas forças, quer com o próprio presidente do município, a dizerem-nos que eles não estão a trabalhar para a Cáritas, eles estão a trabalhar para a comunidade.
Se a Cáritas não ajudasse estas pessoas, estes problemas, se calhar, eram muito mais graves no seio da sociedade. Mas isto, muitas das vezes, eles não têm consciência disto. Portanto, isto é um trabalho de paciência, é um trabalho de relação entre a Cáritas e as outras instituições, a comunidade, as entidades, etc. É um trabalho que é extremamente necessário ser feito, porque uma parte significativa das pessoas não sabe o que é que estas entidades fazem.
O realizador português Ico Costa apresenta Balane 3 no festival Cinéma du Réel, em Paris. Filmado em 16 mm, o documentário retrata a vida da juventude de Inhambane, destacando o dia-a-dia, as relações interpessoais e a liberdade de expressão dos jovens moçambicanos. Ico Costa reflecte sobre a relação que tem com Moçambique, fala da importância das línguas locais e da crescente contestação política que se vive no país, impulsionada pelas redes sociais e pela luta pela democracia.
RFI: Este filme foi pensado como um antídoto a uma visão reducionista de Moçambique. A proposta é mostrar o país mais vivo, mais plural?
Ico Costa: Sim, de certeza forma sim. Este foi o terceiro filme que eu fiz, que rodei em Moçambique, e o quarto a sair, porque o filme anterior, "O Ouro e o Mundo", foi filmado depois, mas saiu antes. Já nessas duas últimas curtas-metragens, Nyo vweta Nafta e Domy + Ailucha: Cenas Kets!, havia essa minha vontade de mostrar que Moçambique, que África, não é só aquilo que vemos nas notícias. Raras são as vezes em que há notícias sobre coisas boas de lá. E mesmo os filmes que são feitos retratam muitas vezes a pobreza e os problemas sociais e económicos. Vou a Moçambique há muitos anos. Há mais de dez anos que lá vou e vejo muita vida a acontecer. Apesar de serem pobres, as pessoas são muito divertidas. Tenho muitos amigos e há muitas actividades lúdicas. Dançam, cantam, falam abertamente de tudo e têm menos tabus do que cá. Tenho muita vontade de mostrar isso.
Vimos precisamente esses momentos de dança e canto, uma proximidade com as personagens. Como é que se chega a este ponto em que a câmara quase se torna invisível?
Chega-se ganhando a confiança das pessoas, passando muito tempo com elas e criando um ambiente em que se sintam seguras para se abrirem. Muitas das pessoas que aparecem no filme são minhas amigas ou amigas de colegas que trabalharam no filme. Algumas lojas são locais que eu já visitava. Então, fui a uma loja, ouvi uma conversa engraçada e decidimos filmar lá. Os moçambicanos são um povo muito aberto e abrem-se facilmente. Foi tudo muito fácil em termos de conquistar a confiança das pessoas. Depois, a forma como eu filmo também ajuda: tenho uma equipa pequena, o que nos permite passar de alguns minutos a algumas horas nos mesmos locais. Muitas vezes, colocávamo-nos num cantinho e esperávamos pelo melhor momento. As pessoas acabavam por se esquecer da câmara e falavam do que queriam, sem pensarem em nós.
São dez anos a ir e filmar em Moçambique. Porquê este interesse por Moçambique?
Em 2010 — já são mais de dez anos — ganhei uma bolsa da INOV-Art, que era destinada a recém-licenciados para estudarem artes pelo mundo fora. Por acaso, fui parar a Inhambane. Eu queria ir à África Lusófona e acabei por parar em Inhambane, onde trabalhei numa associação sociocultural que realizava actividades culturais para a prevenção do HIV/SIDA. Fiquei lá um ano. Desenvolvi amizades, conheci pessoas, conheci lugares, ouvi histórias e, cada vez que lá vou fazer um filme, tenho ideias para outros. Por isso, não consigo deixar de voltar.
Esta questão da intimidade é tratada de forma desarmante. O que leva a escolher este grau de exposição quase sem filtros?
Depende das cenas. As conversas sobre sexo, por exemplo, são coisas que se ouvem bastante na rua, num autocarro, num restaurante, nos passeios, numa paragem — em todo o lado. Então, é algo muito presente. Não direi que foi por acaso, mas havia uma grande vontade de mostrar essa realidade para o exterior. Na Europa, nomeadamente, há muitos tabus sobre vários temas, enquanto lá não. O mesmo acontece com as danças, que são muito sexuais. Às vezes, podem parecer demasiado sexuais, mas vêem-se crianças a dançarem dessa forma. Há uma cena no cabeleireiro onde uma rapariga está a ouvir conversas de teor sexual. Isso é normal. As pessoas lidam bem com esses temas, e eu queria simplesmente retratar esses momentos.
Neste filme há uma indicação temporal: a data de 2019, durante uma emissão radiofónica da Rádio de Moçambique. Houve algum tempo até que este filme saísse e fosse visto pelo público. O que aconteceu? Qual foi a trajectória e a história do filme até chegar aqui ao Festival de Cinema du Réel?
Filmei em Agosto de 2019 e comecei a montagem entre esse ano e 2020. Depois, surgiu o convite para outro projecto e a montagem foi suspensa. O filme foi rodado em película de 16 milímetros, mas a película teve um problema: foi exposta à radiação nas máquinas de raio-X do aeroporto de Moçambique. Foi necessário um longo trabalho de restauro, que durou meses. Entretanto, tive outra longa-metragem, "O Ouro e o Mundo", que estreou no ano passado aqui em França, no FID de Marseille. Como era um filme com mais dinheiro e uma produção maior, tinha prazos de entrega concretos. Assim, "Balane 3" acabou por ficar para depois. Além disso, não havia financiamento para a pós-produção, então tive de me candidatar a apoios. Foram várias circunstâncias que atrasaram o filme. Só finalizei toda a pós-produção no ano passado.
Este filme faz parte da competição do Cinema du Réel deste ano. A viagem está a começar bem?
O filme estreou há uns dias no CPH:DOX, um festival em Copenhaga. Foi uma estreia conjunta, pois os dois festivais acontecem nos mesmos dez dias. Têm sido boas experiências, com salas cheias e muitas perguntas.
A escolha de filmar em changana, em gitonga e xítsua foi uma decisão deliberada? Imagino que tenha importância para um retrato autêntico de Inhambane?
Acima de tudo, é em gitonga . O changana fala-se em Maputo. Em Inhambane falam-se gitonga e xitswa. Tem muita importância porque quando cheguei a Moçambique e vi vários filmes, percebi que quase todos eram falados em português. Isso é um pouco triste, porque, apesar de ser a língua oficial, Moçambique tem dezenas de línguas e, nos meios mais rurais e cidades pequenas, o português não é tão falado. Para mim, era essencial mostrar as pessoas a falar outras línguas. Nas minhas primeiras curtas-metragens, quis que falassem as línguas locais, e não o português. Neste documentário, a escolha dependeu dos grupos. Algumas pessoas falavam naturalmente gitonga , mas outras misturavam português, porque vinham de diferentes regiões.
Essa escolha faz com que o retrato desta população jovem de Inhambane seja mais fiel, mais próximo ao que se ouve nas ruas?
De facto, está ocorrendo um fenômeno em que as pessoas mais jovens estão falando cada vez mais português e cada vez menos as línguas locais. Muitos pais, actualmente, tentam falar português com seus filhos, pois sabem que, quando as crianças não falam português, ao chegar à escola primária, em vez de aprenderem a escrever, acabam aprendendo a falar. Assim, essas crianças começam com um atraso em relação às que já falam português. Por isso, há uma conscientização crescente entre muitas pessoas para falar português com seus filhos, mesmo que os pais sejam falantes nativos de línguas como o gitonga . Isso resulta num fenômeno que coloca em risco a preservação de línguas pouco faladas, como o gitonga , que é falado apenas na província de Inhambane e, mesmo assim, não em toda a província. Essas línguas correm o risco de desaparecer em poucas gerações.
Há consciência desse risco de desaparecimento da língua, pelo menos em Inhambane?
Não posso afirmar com certeza, mas sei que as pessoas, ponderando as circunstâncias, percebem que o mais importante é que seus filhos não comecem a escola com esse atraso. Porém, em relação ao governo, não se vê grandes esforços para evitar o desaparecimento das línguas locais. Acredito que isso varia conforme a região, mas, no caso do gitonga especificamente, sei que há um risco real de a língua desaparecer em breve.
O próximo filme de Ico Costa também é sobre Moçambique?
Sim. Estive no ano passado em Moçambique entre Agosto e Outubro. É um documentário, porque tenho feito tanto ficção como documentário. Acompanha a campanha para as eleições presidenciais de Outubro de 2024. Está em fase de montagem e espero terminá-lo este ano para estreá-lo no próximo.
Um filme sobre as eleições gerais em Moçambique, a contestação nas ruas, as manifestações, a agitação social e política. Como foi observar este movimento?
O filme não é só sobre isso, mas também sobre isso. É um retrato plural do país. Viajei por Moçambique inteiro. Foi duro. Os moçambicanos vivem um momento difícil e finalmente percebem que não estão numa democracia plena. Estão a lutar bastante pelos seus direitos, a perder o medo e a unir-se contra injustiças históricas. Há muita repressão, com mais de 400 mortos e milhares de feridos e presos sem julgamento. Será um filme menos alegre e mais político. Muito diferente de "Balane 3".
O facto de teres viajado em vários distritos do país, foi possível observar um comportamento diferente por parte dos moçambicanos em pontos diferentes do país?
Eu acho que o sítio até onde é mais diferente é a mesma Inhambane porque as pessoas são muito calmas. Acho que não tem havido tantas manifestações em Inhambane. Sempre foi muito associado como um dos bastiões da Frelimo, o partido no poder. Agora, por todo o país, de norte a sul, reparei que que a contestação é enorme. Mesmo em Gaza, que é também o grande reduto da Frelimo, têm havido manifestações, houve mortes, houve muita confusão. Mas eu acho que o povo, de certa forma, está bastante unido nesta causa. As redes sociais ajudam porque é uma forma de comunicação rápida. Ou seja, a internet tem um papel enorme aqui nestas contestações. Antes não acontecia porque na televisão a televisão é muito controlada pela Frelimo, pelo Estado. O advento da internet e maior acesso às redes sociais tem feito com que, de norte a sul, o povo sintonia nesta luta.
"Da luta pela independência de Cabo Verde às saudades do futuro" é o título do livro que Carlos Reis, antigo dirigente do PAIGC, lançou recentemente em Portugal.
O livro, que exalta a figura de Amílcar Cabral, os valores éticos e a nobreza da acção política do "pai da independência de Cabo Verde e Guiné Bissau" , é um testemunho que o autor produz para que se conheça melhor, com mais profundidade, o contributo de Cabral para a formação de um Estado Democrático.
No livro ( "Da luta pela independência de Cabo Verde às saudades do futuro" , Editora Rosa de Porcelana), rico em pormenores históricos, a contemporaneidade do pensamento de Amílcar Cabral torna-se evidente nos alicerces que a reflexão de Carlos Reis promove sobre a actualidade conturbada que a Humanidade enfrenta e o grande desafio que é o Desenvolvimento Humano.
Carlos Reis, Comandante reformado da Marinha de Cabo Verde, ex-ministro da Justiça e dos Assuntos Sociais no Governo de Transição para a Independência, posteriormente ministro da Educação e Cultura e Embaixador de Cabo Verde em Portugal, falou com a RFI em Lisboa.
Os momentos intensos do primeiro encontro do autor com Amílcar Cabral, o envolvimento na luta pela independência, a actualidade mundial e a Educação em Cabo Verde foram alguns dos temas da nossa entrevista com Carlos Reis.
Rómulo Santa Rita identifica-se como "artivista" e a exposição Black Lies Matter é um grito de revolta contra as injustiças e atrocidades que todos os dias atingem as pessoas em África. Com ADN português, angolano e moçambicano, o artista plástico começou por criar uma carreira no universo audiovisual.
A mudança de Lisboa para Luanda leva Rómulo Santa Rita a experimentar abraçar a pintura. Dá nova vida a materiais com um trabalho que ganha corpo, afirma-se, é crú, contundente e desmascara hipocrisias.
Reconhecendo o prazer de intervir na rua , e a "democratização" que aí encontra, em oposição ao elitismo de espaços de exposição, Rómulo Santa Rita usa os materiais reciclados para alimentar uma narrativa que impele à reflexão sobre refugiados, crianças-soldado, capitalismo.
Afinal, a exploração infantil e de matérias-primas, a guerra e a miséria, o chocolate, as baterias, os computadores, os carros eléctricos são faces de uma mesma moeda que é a África que nos mostra em "Black Lies Matter".
Na Etiópia, o combate à violência contra as mulheres é feito pela sociedade civil, com figuras de proa, como Hanna Lemma, a liderarem projectos que visam reduzir o número de feminícidios, mutilação genital feminina e casamentos infantis. Para isso, as mulheres etíopes estão a usar cada vez mais as redes sociais para serem ouvidas pelas autoridades.
Uma em quatro mulheres na Etiópia disse em 2016 já ter sido vítima de violência física ou sexual por parte de um homem. Esse número aumenta se falarmos em mulheres casadas, com 34% a relatarem maus tratos físicos ou psicológicos por parte dos seus companheiros. Após a recolha destes dados, há quase nove anos, não voltou a haver um recenseamento oficial da violência contra as mulheres no país.
É por isso que Hanna Lemma, uma jovem feminista etíope, fundou a Addis Power House, um colectivo de mulheres que dá visibilidade às desigualdades de género no país, divulgando nas redes sociais casos chocantes de violência feita contra meninas e mulheres um pouco por todo o país e também a expeirência de ser mulher actualmente na Etiópia. Hanna Lemma explicou em entrevista à RFI como é que o seu colectivo se organiza, não havendo estatísticas fiáveis sobre a violência contra as mulheres na Etiópia.
“A última vez que houve estatísticas sobre a violência contra as mulheres na Etiópia foi em 2016. Portanto, isto foi há quase dez anos. Então, tecnicamente é verdade que não temos informações actualizadas sobre a vida das mulheres e como elas estão a ser afectadas pela violência de género. O que nós tentamos fazer é acompanhar o que se passa no quotidiano das mulheres etíopes e, em seguida, tentamos fazer campanhas baseadas em factos. A maneira como levamos a cabo as nossas pesquisas é acompanhar as notícias, mas também recolhemos dados e usamo-los para defender os direitos das mulheres. Assim, constatamos que o feminicídio é uma questão emergente no país. Claro que sempre existiu, mas não nesta proporção. Por isso, tentamos acompanhar a polícia e todos os relatórios oficiais, assim como a informação que é partilhada nas redes sociais. Estas partilhas são uma tendência crescente no país. Por isso, tentamos manter-nos actualizadas para divulgarmos também estas situações e defender leis e políticas que protejam melhor as mulheres”, explicou Hanna Lemma.
Com uma grande extensão e diversidade cultural, em diferentes regiões do país, as mulheres vêm-se confrontadas com diferentes problemáticas ora ligadas à religião, ora ligadas às práticas tradicionais. Sem a centralização destas violências, a Addis Power House colabora com associações nas diferentes regiões do país, promovendo mesmo campanhas a nível internacional para tentar travar práticas como os feminícidios e a mutilição genital feminina.
“Consoante a região da Etiópia, tentamos estar atentas ao que se passa. No Tigray, as meninas muçulmanas não podem frequentar algumas escolas se se apresentarem com um véu e nós consideramos que isso vai contra a sua liberdade religiosa e denunciamos. No Sul, um dos maiores problemas é a mutilação genital feminina e tentamos impedir que esta prática continue. Depois juntamos as nossas vozes ao resto dos países da África Oriental, já que tanto a mutilação genital feminina como o feminícidio são problemas comuns em países como o Sudão ou o Quénia e vamos promovendo parcerias com outras organizações feministas nesses países para que em conjunto desenvolvamos campanhas que chamem a atenção para estes problemas”, explicou.
Recentemente, a organização de Hanna Lemma divulgou a história de Simbo Berhanu Bekele, uma menina de 10 anos, que vivia na região de Oromia, onde actualmente há combates entre as forças armadas etíopes e a Frente de Libertação de Oromia, e que morreu após ser violada e enforcada por um grupo de homens. Este é um caso que graças às redes sociais está a chamar a atenção para a violência contra as meninas e mulheres no país.
“É um assunto que está a receber cada vez mais atenção porque temos meninas cada vez mais novas a serem violadas e assassinadas. As pessoas estão mais sensíveis a esta causa. No entanto, quando se trata de mulheres mais velhas, as violações são quase algo comum. As pessoas presumem que se isso acontece, é culpa da mulher, por causa da forma como ela estava vestida, ou onde ela estava, ou porque estava a beber. No entanto, agora que há meninas tão jovens a sofrer este tipo de violência, algumas pessoas já se começam a interrogar sobre a legitimidade dos abusos sexuais contra as mulheres em geral e estão a compreender que se trata de uma questão cultural e isto está a ser cada vez mais debatido”, salientou a activista.
A violência contra as meninas generaliza-se na Etiópia devido aos casamentos precoces, com 4 em 10 raparigas a serem casadas antes dos 18 anos, e também com a prevalência da mutilação genital feminina. Na Etiópia, 65% das mulheres são vítimas desta prática, ou seja, cerca de 25 milhões de mulheres, segundo dados da UNICEF. Estas duas práticas são exacerbadas pelo conflito no Norte do país, onde Hanna Lemma explica que os pais preferem casar as filhas cada vez mais cedo devido à escassez de recursos.
“Nós estamos a tentar questionar práticas tradicionais prejudiciais para as mulheres. As questões mais graves com as quais nos confrontamos têm a ver com os casamentos precoces e com a mutilação genital feminina. Em relação aos casamentos, muitos acontecem na sequência de sequestros e são uniões forçadas, como é óbvio. E o número deste tipo de casamentos precoces está a aumentar devido aos conflitos e à insegurança alimentar. Muitos pais acabam por escolher casar as filhas muito cedo para que elas consigam comer. Portanto, defendemos leis e políticas que acabem com estas práticas e garantam que não haja casamentos precoces, ao mesmo tempo que tentamos sugerir soluções para o conflito para os pais não se vejam obrigados a casar as filhas tão cedo”, considerou a jovem etíope.
Esta pressão nas redes sociais e o fluxo de informação entre grupos de mulheres tem um efeito directo na tomada de posição do Governo. O primeiro-ministro Abiy Ahmed Ali chegou ao poder em 2018 com a intenção de promover uma maior participação das mulheres na vida política, chegando a bater-se pela paridade ministerial, mas rapidamente estes objectivos foram abandonados. Hanna Lemma e o seu colectivo lutam agora por mudanças inscritas na lei que tornem os direitos das mulheres em prioridades para o executivo.
“Em geral, as coisas estão melhores e somos mais capazes de nos defender. Estamos a ser ouvidas a nível nacional e a nível internacional e isso cria também uma pressão junto do Governo. Quanto à vontade do governo de promove ruma agenda feminista, não podemos deixar que isso dependa de uma vontade individual ou de promessas no ar, porque senão muda o Governo e mudam as ideias. O que queremos são leis que traduzam a necessidade de igualdade no país. Agora vemos que há o conflito no Norte e, de repente, os direitos das mulheres já não são uma prioridade. Empoderar as mulheres não é prioridade”,
Para a Addis Power House o caminho para fazer ouvir as vozes das mulheres na Etiópia só se pode fazer em conjunto, promovendo a união entre todas as mulheres, independentemente da sua idade, origem étnica, religião ou profissão.
“As mulheres juntas são mais fortes e foi por isso que chamámos à nossa organização Addis Power House, ou Addis Casa do Poder. Nós, as fundadoras, somos mulheres jovens, mas temos consciência do poder de um colectivo e, por isso, temos no nosso colectivo mulheres de todas as idades, todas as origens, todas as profissões. As mulheres etíopes estão a unir as suas vozes”, concluiu a activista.
A Ficção como História - este é o título e a premissa do livro de Dorothée Boulanger agora publicado em português, depois de uma primeira edição em inglês. A académica francesa analisou mais de 20 romances de autores angolanos como Pepetela, Manuel dos Santos Lima, Ondjaki, José Eduardo Agualusa ou Sousa Jamba, todos publicados no período pós-colonial. O objectivo era tentar perceber o papel da literatura na formação da identidade nacional nos primeiros anos da independência.
O trabalho é o resultado de uma investigação durante o doutoramento na Universidade de Oxford, onde continua como professora. O que levou a Dorothée a viver e a trabalhar em Angola e como é que esse período influenciou esta investigação?
Eu morei em Angola de 2009 a 2011, na cidade de Lobito. Foi, primeiro, uma oportunidade pessoal e familiar, mas, anteriormente, tinha-me formado em relações internacionais e estudos de género, especializando-me no assunto dos conflitos armados em África e em assuntos de pós-conflito, reconstrução, reconciliação. Por isso, o contexto angolano era muito interessante para mim. A guerra civil parou menos de uma década antes da minha chegada em Lobito. Morar mais de dois anos nessa cidade foi uma oportunidade preciosa para o meu trabalho, porque eu quero pensar a literatura como uma intervenção estética e política num contexto específico. A minha leitura das obras fez-se a partir da situação do país. Deu-me a possibilidade de ver a especificidade do discurso literário angolano e os desafios que a população enfrentava acerca da liberdade de expressão e da memória da guerra.
O que faz de Angola especial para que a literatura de ficção seja útil como fonte da história do país?
O papel de muitos escritores angolanos durante a guerra anticolonial, a sua participação na luta armada e dentro do MPLA, tornou-os atores políticos importantes e também testemunhas privilegiadas deste período. Por isso, as narrativas que eles fizeram têm um valor histórico. Também gozavam de um grande prestígio social. O primeiro presidente, Agostinho Neto, era chamado presidente-poeta. E a União dos Escritores Angolanos foi a primeira associação criada pelo Estado independente. Dentro do primeiro governo Neto, havia muitos escritores com função de ministros na saúde, como o Uanhenga Xitu, na cultura, como o António Jacinto. Então, realmente, os escritores estavam dentro do aparelho do poder.
O que é que os romances de ficção angolanos ensinam sobre Angola que não está nos manuais de história?
Uma das contribuições da literatura angolana é de oferecer um discurso angolano sobre a história do país. Um discurso angolano que se distancia do discurso oficial do regime, que fala das tensões dentro do MPLA, do oportunismo das elites pós-coloniais, das purgas. É importante ter vozes angolanas para contar esta história, centrando perspectivas autóctonas e referências culturais e linguísticas angolanas. Os escritores nem sempre concordam na sua maneira de contar ou analisar certos eventos históricos. Ver estes desacordos e estes conflitos é importante para deixar a história aberta e evitar mistificações. A literatura de ficção permite também transmitir de maneira clara, muito pedagógica, trajetórias históricas complexas, influências múltiplas que construíram a sociedade angolana desde o período da escravidão até hoje. A literatura torna-se um arquivo precioso do período revolucionário angolano. Estou pensando nas histórias de infância do Ondjaki, em Luanda, nos anos 1980, quando a cidade e o país eram fechados ao mundo. O romance de Pepetela, "O Planalto e a Estepe", por exemplo, fala das redes revolucionárias dos anos 1960 e 1970, de Cuba à Argélia e à União Soviética.
Por outro lado, às vezes, é nos seus silêncios que a literatura angolana nos ensina muito sobre o papel dos intelectuais. A dificuldade, por exemplo, de falar da tentativa de golpe de Estado do 27 de maio de 1977 por parte dos escritores mais próximos do poder, mostra a dificuldade dos intelectuais em pensar também na sua cumplicidade com a violência do Estado.
O que é que descobriu que não estava à espera?
Tive várias surpresas. Eu acho que a primeira surpresa foi durante a minha primeira leitura dos romances, num contexto em que a população angolana não se sentia à vontade para falar da guerra ou do governo. Pelo contrário, os escritores contavam histórias difíceis, complexas, faziam acusações a propósito do papel das elites, também sobre a herança da escravidão, a falta de integridade ideológica e ética de muitos líderes políticos ou religiosos. Havia esta liberdade de tom dentro da literatura.
A segunda surpresa foi realizar, mais tarde, após ler muitos romances, a centralidade das perspectivas masculinas e a falta de substância de muitos personagens femininos, sobretudo com os escritores da geração da independência. Os seus romances eram anticoloniais, anti-racistas, que denunciam a dominação portuguesa e a propaganda do Estado Novo. Por isto, não pensava que adotariam com tamanha facilidade estereotipos sexistas. Ademais, o MPLA tinha um discurso de inclusão das mulheres na luta. Mas era só isso, discurso. Os romances angolanos revelam que a emancipação das mulheres e o privilégio masculino são pontos cegos para estes autores, todos homens. Estou pensando em "Sim Camarada!", de Manuel Rui, ou "Mayombe", de Pepetela, que são obras sexistas. Mas o que é muito interessante é que parece que estes autores depois tentaram corrigir um pouco esta propensão. "Lueji: O Nascimento de um Império", de Pepetela, "Rioseco", de Manuel Rui, tentam celebrar o papel das mulheres nas lutas e nas guerras em Angola. Mas até hoje há muito pouco mulheres escritoras no país, o que sublinha, eu acho, a persistência de uma atmosfera masculina acerca da literatura.
Há aqui um modelo para analisar a história de outros países da África lusófona da perspetiva da literatura?
Sim, a literatura africana sempre teve essa vontade de responder ao discurso colonial, de contar a história na perspectiva dos africanos e das africanas. Um dos aspectos do discurso colonial era negar a história africana, dizendo que a sua história começou com a chegada dos europeus. Muitos escritores africanos - Yvonne Vera, Ngugi wa Thiong’o, Assia Djebar e muitos outros - escreveram para contar a sua própria história e revelar a violência e a regressão histórica que constituiu a ocupação europeia do continente africano. Isto sendo dito, eu acho que o caso angolano tem as suas especificidades. No contexto do Estado Novo, a censura política, a propaganda portuguesa deram à literatura um papel importante para fazer ressoar o discurso anticolonial e nacionalista. Daqui, os escritores angolanos, que por razões sociais, familiares, tinham laços fortes com o MPLA, participaram fortemente na luta anticolonial, como escritores e como militantes, às vezes como guerreiros. Esta proximidade com a luta e depois com o aparelho de Estado dá este valor histórico à literatura angolana e à sua especificidade.
Analisou a literatura pós-colonial, de 1960 a 2010. A literatura angolana, ou africana em geral, é hoje menos ativista politica e socialmente?
É uma pergunta interessante, mas é uma pergunta difícil, porque, como eu expliquei, a literatura africana, de forma geral, tem esta dimensão política. Não se reduz a este discurso político, mas tem essas preocupações com o poder, as desigualdades, a dominação histórica. Eu acho que hoje esta dimensão combativa da literatura africana pode encarnar-se em outras lutas de género ou ambientais. Mas, no caso da literatura angolana, acho que é verdade que não encontramos o mesmo dinamismo, a mesma criatividade que há 30 anos. Angola teve uma geração excepcional de escritores desde os anos 60. É indisputável. Hoje em dia, não são tantos, e a luta encarna-se em outras formas de arte, como o hip-hop, por exemplo. A expressão crítica e criativa faz-se através das redes sociais. E temos também que dizer que a negligência do Estado angolano com a educação e a cultura não permitiu um forte desenvolvimento da leitura e da literatura dentro das gerações mais jovens.
O livro "A Ficção como História - Resistência e Cumplicidades na Literatura Angolana Pós-Colonial" publicado pela editora Mercado de Letras vai estar à venda em Angola a partir de Março e vai ficar disponível mais tarde em versão digital graças a uma parceria com a editora francesa Africae.
A TACV Cabo Verde Airlines está a operar, desde finais de janeiro, dois voos diários de ida e volta entre as ilhas de Santiago, São Vicente e Sal, disponibilizando ligações de manhã e ao final do dia, totalizando uma média de 115 voos semanais. A juntar a esse reforço de conectividade a TACV - Cabo Verde Airlines aumentou os voos de Santiago para a ilha do Fogo e nos últimos três meses a procura pelas ilhas do Maio e de São Nicolau aumentou com a redução de 40% no preço das passagens aéreas.
Enquanto a TACV Cabo Verde aumenta voos domésticos o governo faz aumentar a procura com a redução das tarifas para as ilhas do Maio, São Nicolau e Brava.
Estes foram os motivos para uma entrevista com o Presidente do Conselho de Administração da TACV - Cabo Verde Airlines, sobre o impacto destas medidas. Pedro Barros começou por explicar que o aumento dos voos domésticos entre as ilhas de Santiago, São Vicente e Sal foi ditado pelo mercado.
“A TACV optou por fazer esses dois voos, de manhã e à tarde, de ida e volta, porque o mercado é que acabou por obrigar a TACV a tomar essa opção. Existem passageiros,empresários e no geral, que têm outras ocupações que precisam de deslocar-se, por exemplo, da Praia para São Vicente, de manhã e regressar à tarde, ou de São Vicente para a Praia, ir de manhã e regressar à tarde, e do Sal também ir de manhã e regressar à tarde, portanto, nesse triângulo, ir de manhã e voltar à tarde, para não se pronoitarem nessas idas. Ficaram com essa opção.
E como tem sido a taxa de ocupação nesta ligação triangular?
A taxa de ocupação tem sido muito boa, anda em torno dos 80%. Naturalmente que há dias que é 100%, há dias que é menos do que 80%, por isso que a média ficou em 80%.
Regista-se a muita procura de turistas internacionais para os voos domésticos?
Com certeza, porque a partir do momento em que nós tivemos um grande aumento de turistas que vêm a Cabo Verde, não vão ficar só no Sal e na Boa Vista.Se bem que a maior parte fica nessas ilhas, mas há um número significativo de turistas que circulam por essas ilhas e com os voos que permitem ida e regresso no mesmo dia, isso torna-se muito mais atractivo para um turista que esteja com a sua base no Sal ou na Boa Vista e para facilitar a mobilidade dos residentes
Também, para atrair turistas, segundo nota da TACV Cabo Verde Airlines, a companhia passou a realizar 2 a 3 voos diários a partir da cidade da Praia para a cidade de São Filipe, na Ilha do Fogo. Tem havido um fluxo crescente de viajantes entre as duas cidades?Afirmativo.E, Praia e São Filipe é um eixo aqui no sul. E como sabe, o Fogo é uma ilha com potencialidades muito interessantes do ponto de vista turístico. Para já é a única ilha que tem um vulcão activo e até podemos dizer que é uma ilha singular.Nesse sentido, é uma ilha que atrai visitantes e é por isso que há essa procura de voos, de turistase tem havido um fluxo cada vez mais crescente. Estamos convencidos que provavelmente até no futuro vamos ter mais de 2 a 3 voos em média.
Turistas internacionais estão à procura da Ilha do Fogo como destino turístico alternativo ao sol e praia? Exactamente, alternativo ao sol e praia. Um turista que chega ao Sal ou à Boa Vista e que quer ir para outras ilhas escolhe nomeadamente o Fogo. Também escolhe outras ilhas, mas o Fogo, por ter a sua particularidade, e nós já sabemos que inclusive já temos tido até manifestação de interesse em fazer o tipo de voo charter para o Fogo para levar turistas.
Há mais de 3 meses, de e para as ilhas do Maio e de São Nicolau, foi adoptada a redução de 40% nos preços das passagens aéreas. Que impacto essa redução está a ter? Está a ter um impacto muito significativo, com taxas de ocupação também que rondam os 70% ou 80%.
70% no caso do Maio e 80% no caso de São Nicolau. Se eu for falar de média, de hoje praticamente cheio nos voos para as duas ilhas. Em termos de números, por exemplo, entre outubro e dezembro fizemos 44 voos para o Maio, transportando 2.300 passageiros e para São Nicolau fizemos 81 voos com um número também de passageiros, um número parecido, 2.400 passageiros.
A economia local está a ter muito dinamismo?
Naturalmente, na economia local e claramente porque a partir do momento em que há visitantes, há consumo, haverá maior dinamização da economia local, tanto no Maio como em São Nicolau.
Até quando a Cabo Verde Airlines fica com os voos domésticos e que a suporte dá ou vai dar a nova companhia, Linhas Aéreas de Cabo Verde, que o Governo já anunciou que vai iniciar as operações neste semestre?
Como sabe, o Governo contratou a TACV para fazer os voos domésticos a partir de fevereiro de 2024, sempre na expectativa de que quando for criada a nova companhia que se vai ocupar dos transportes domésticos, a TACV deixará de fazer esse serviço de transporte e passará a ser a LACV – Linhas Aéreas de Cabo Verde. A LACV, neste momento, está no processo de certificação e portanto logo que esteja operacional, essa tarefa de fazer o transporte doméstico passará para a nova companhia.
No Brasil, o fim do ano de 2024 trouxe uma notícia encorajadora: o número de partos na adolescência caiu para menos de metade em dez anos. Por detrás deste fenómeno está o melhor acesso a contraceptivos, à educação, e uma maior presença na internet.
Há dez anos, Maiara Aparecida dava à luz o seu primeiro filho, o Davi.
Eu fui mãe com 16 anos, engravidei com 15, tive com 16 na época pra mim foi assustador, porque tava aquilo "Eu tenho que estudar, eu tenho que fazer curso eu tenho que ser a filha perfeita". E do nada vem uma criança. Aí eu continuei estudando durante a gravidez do Davi mas depois eu parei. Porque você pára, pára sonhos para tudo, porque uma criança no mundo é uma responsabilidade danada e eu falo, "cara", Engravidar na adolescência pra mim foi uma das maiores loucuras que eu fiz na minha vida que eu fico, meu Deus do céu, eu parei tudo. (…) Eu me considerava, cara, gente, é uma criança com criança no colo.
Tal como esta moradora de um conjunto de favelas na cidade de São Gonçalo, nos subúrbios do Rio de Janeiro, 286 mil mães com menos de 19 anos deram à luz no primeiro semestre de 2014.
Uma década depois, esse número caiu para 141 mil no primeiro semestre de 2024. Pela primeira vez na sua história, a média de mães adolescentes no Brasil está a aproximar-se da média mundial – ou seja, 41,9 crianças por cada 1.000 adolescentes.
Um dos avanços mais significativos é a redução dos partos entre raparigas de 10 a 14 anos, que também quase caiu para metade. "Uma redução que nunca tinha sido registada no Brasil antes", explica Denise Leite Maia Monteiro, directora da Associação Brasileira de Obstetrícia e Ginecologia da Infância e Adolescência.
A mãe dessa adolescente, que hoje em dia, ela leva no médico. Com 10, 12 anos, elas levam na consulta com medo de que aconteça isso com a filha.
Outro factor é o aumento constante do nível médio de educação no país. Em 2022, o Brasil ultrapassou, pela primeira vez na sua história, a marca dos 50% da população com diploma do ensino secundário. Em 2024, essa taxa atingiu os 54,5%.
Se elas estudam, elas começam a ter outro horizonte que não é ser dona de casa. Então, elas podem pensar em ter uma profissão, elas estão mudando. Então, isso faz com que elas já se tem uma maior escolaridade, há uma redução. Isso está acontecendo até na África mesmo. À medida que elas estudam mais, estão reduzindo a gravidez na adolescência.
No entanto, o principal factor por detrás desta queda histórica é, provavelmente, a maior facilidade de acesso a métodos contraceptivos.
Destacam-se os Dispositivos Intrauterinos (DIUs), que permitem relações sexuais desprotegidas sem risco de gravidez. Os DIUs clássicos, feitos de cobre, já estão disponíveis em várias regiões do país. Já os DIUs hormonais, que ajudam a aliviar as dores menstruais, começam a chegar a algumas cidades, graças a iniciativas locais.
Em vários municípios, a gente já conseguiu colocar DIU, agora já está conseguindo colocar o DIU hormonal, e aqui no Rio, a gente já está com um implante subdérmico, aquele Implanon, que evita a gravidez por três anos, que é o ideal para a adolescente. Três anos, não engravida, troca por um outro, acabou a adolescência. (…) Então, acho que com a entrada do implante, do DIU e do DIU hormonal, a gente vai conseguir.
Em 2023, a cidade do Rio de Janeiro começou a oferecer acesso ao DIU hormonal na sua rede municipal de saúde. A taxa de mães adolescentes já é ligeiramente inferior à média nacional, com a expectativa de que continue a diminuir.
No entanto, num dos países mais desiguais do mundo, a qualidade e o acesso aos serviços de saúde podem variar significativamente de uma localidade para outra.
No Complexo do Salgueiro, a apenas uma dezena de quilómetros do Rio, a realidade de Maiara Aparecida e dos seus vizinhos continua a ser muito diferente. Para mitigar estas desigualdades e enfrentar as violências médicas, Maiara criou o Espaço Gaia, um local onde as mulheres podem reunir-se, trocar experiências e obter informações.
Laura Torres, co-fundadora do Espaço Gaia, recorda alguns episódios marcantes.
Uma coisa que a gente percebe, tanto dentro da roda de gestantes quanto dentro do observatório, é que a galera [as pessoas] tem muitos filhos aqui, de facto, mas às vezes não necessariamente por falta...
Porque é muito fácil colocar a responsabilidade na pessoa que acabou engravidando, não é ? Tipo, "Ah, ela não se cuidou" e tal. Sendo que aí nessa pesquisa que a gente fez, a gente viu que tinha gente que estava usando camisinha [preservativo], tinha gente que quis colocar Dio, mas não conseguiu, porque colocar Dio aqui dentro da cidade é super complicado. A laqueadura parece ainda que não é direito aqui dentro de São Gonçalo, porque eles olham para a sua cara e falam assim, "Ah, você merece laqueadura, então vamos. Ah, você não merece laqueadura, pode ter mais de 10 filhos.
A gente viu um caso que foi assim, "Gente, não é possível, a mulher teve 6 filhos, não foi?!" (…) Ela falou que ela foi no médico e o médico falou não, "Você tem, é parideira, você tem corpo forte pra ter filho, você". E recusou esse acesso mesmo.(…) E aí ela teve seis filhos, sem ter condições, morando numa favela.
Uma dificuldade que se soma aos desafios do dia a dia dos moradores do Complexo do Salgueiro.
O posto de saúde mais próximo daqui é o do Campo de De 30 minutos andando. Andando. Para você ter acesso a um posto de saúde. E aí, esse posto de saúde mais próximo não tem tudo. Então a galera [as pessoas] precisa ir para o Portão do Rosa. Salgueiro, mas é um bairro bem próximo.(…) 20 minutos de carro. Tem outro ponto importante é que não tem transporte público e quando tem transporte, não tem o dia de passagem só tem dois ônibus [autocarros]).
Para Denise Leite Maia Monteiro, as redes sociais também desempenham um papel significativo neste fenómeno.
Eu nunca atendi tanto adolescente virgem, como depois da pandemia, elas começaram a retardar o início da actividade sexual, porque a vida se tornou online, com a pandemia, elas passaram a viver felizes, trancados em casa.
A afirmação é relativizada pelas intervenientes no terreno em São Gonçalo, como Lívia Santos.
Se você vai no TikTok, é muita informação, tipo, sobre qualquer coisa, e elas estão ali, fissuradas naquilo ali, aprendendo, e às vezes, claro, pode não ser aprendendo coisas boas, mas está aprendendo alguma coisa. (…) Mas essa questão da rede também influencia para outras coisas. Por exemplo, se uma coleguinha tira uma foto sensual, a outra coleguinha também vai achar normal.
No Brasil, 11,9% dos partos são realizados por mães adolescentes. Para alcançar um nível comparável ao da França, que regista 3%, o Brasil precisa de priorizar a redução do número de adolescentes a dar à luz várias vezes durante a adolescência, explica Denise Leite Maia Monteiro.
A gente viu que acontece porque tem vários motivos. Um dos motivos principais é o casamento. Então se essa adolescente que engravida se casa, ela cria uma estrutura familiar, ela relaxa na contracepção e engravida de novo. (…) O abandono escolar é outra causa Ela engravida, para de estudar Aí já engravida.
Em Março de 2019 que publicou essa lei, que alterou o Código Civil, proibindo o casamento de menores de 16 anos em qualquer hipótese, mesmo que elas estivessem grávidas. Porque antes a garota de 14 anos engravidou, ela se casava com o cara, o cara não ia preso porque ele resolveu o problema se casando com ela.(…) Então isso foi um grande passo.
Numa sociedade onde as relações amorosas entre menores e adultos ainda são normalizadas em muitas partes do país, todas concordam que a chave para qualquer melhoria passa por uma maior educação.
É muito difícil a gente culpabilizar a mãe por ela não ter conversado com essa criança quando ela ainda era uma criança... Sobre o que é usar uma camisinha [preservativo].
Porque às vezes as coisas estão passando por ali e ela não vai dar conta de ter essas conversas mesmo.
(…)
Ela precisa dar conta que a comida chegue no prato dessas crianças. Ela precisa dar conta que essas crianças tenham o que beber, sabe? Tenha onde dormir Então também é muito problemático
(…. Então assim, como que a gente faz com que elas não engravidem tão cedo? Dando elas para a gente, dando informações, elas não têm.
(…) E a gente tem uma roda que as crianças participam. Muito importante. Porque a gente não quer que essas crianças engravidem aqui dentro, sabe?
Neste contexto, a facilitação do acesso ao aborto legal é um dos maiores desafios. A interrupção da gravidez é autorizada apenas em casos de violação, se a vida da mãe estiver em risco ou se o bebé for diagnosticado com anencefalia. No entanto, num país onde 60% dos estupros envolvem menores de até 13 anos, são apenas algumas centenas de adolescentes por ano que recorrem ao aborto.
Em "Spera Mundo", o músico cabo-verdiano Tcheka volta a surpreender-nos com um conjunto de temas onde a liberdade criativa nos faz navegar entre os mares da tradição e da inovação.
Descobrir "Spera Mundo" é como embarcar numa fascinante nave musical onde o génio do comandante Tcheka nos leva numa odisseia que a cada audição permite o despontar de novas camadas de uma filigrana inigualável. "Spera Mundo" é a visão de um mundo novo, pautado pela paz, harmonia e um forte senso de comunidade, é a protecção da natureza e é também a valorização da mulher.
Em "Spera Mundo", sentamo-nos ao lado de Tcheka e olhamos o mar de Ribeira da Barca, na Ilha de Santiago, para ver o Mundo. Num mapa onde a ausência de coordenadas é sinónimo de liberdade, são a autenticidade e o poder transformador da Estrela Polar de Tcheka que nos fazem avançar e invadem os sentidos.
No momento que antecedeu o lançamento de "Spera Mundo", a RFI encontrou-se com o músico em Portugal. Tcheka começa por explicar que o novo trabalho discográfico reflecte experiência e maturidade.
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