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By RFI Português
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  • Cabo Verde: Ilha de São Vicente procura recompor-se da tempestade

    São Vicente vive a consequência da tempestade Erin que se abateu sobre a ilha no passado dia 11 de agosto. Dezenas de famílias desalojadas, comércios que perderam praticamente tudo, edifícios públicos parcialmente destruídos. Em São Vicente toda a população sente os efeitos desta tempestade. Enquanto muitas famílias continuam a retirar a lama que invadiu as casas, vários cidadãos limpam as ruas lamancentas. 

    Em São Vicente, barlavento cabo-verdiano, em escolas ou centro sociais organizações da sociedade civil e instituições públicas distribuem alimentos e bens essenciais porque há famílias que estão a viver com muitas dificuldades.

    A RFI conversou com operador turístico, Ricardo Delgado no Polivalente de Ribeira Bote durante uma acção solidária e com a socióloga, Patrícia Silva em Chã de Alecrim, um dos bairros que mais sofreu com a tempestade. As enxurradas ultrapassaram os dois metros de altura e algumas casas de um único piso ficaram debaixo de terra.  A socióloga, Patrícia Silva critica a falta de acção dos poderes públicos e de uma certa desorganização nos trabalhos de limpeza das vias

     

    Na minha opinião, o que falta é talvez mais organização. Todos esses organismos ou instituições independentes que surgiram e que já existiam, mas a Protecção Civil, o Gabinete de Crise, vamos chamar assim, precisam centralizar-se e organizar-se. Está tudo muito disperso.

    Então, acabamos até, por exemplo, de ter famílias a receber mais do que uma ajuda, por exemplo. Como não há essa organização, as pessoas estão a fazer as coisas, meio que a senso comum. E o caso da nossa rua é um caso gravíssimo, porque as pessoas, não houve vítimas, digamos assim, porque a chuva parou.

    Porque se a chuva tivesse continuado, ela teria entrado no resto de chão da minha vizinha, no resto de chão da outra vizinha que tem problemas, que ela não consegue andar, não ia conseguir subir para o primeiro andar dela. Foi porque a chuva parou mesmo que não tivemos nada de mais grave, digamos assim, na minha rua. Temos resto de chão, temos garagens subterradas até hoje na terra, lama, pedregulhos.

    Temos aqui também água parada, problema de doenças que vai começar a surgir. Agora o problema do lixo também. E hoje, presencia aí trabalhadores da Câmara aqui a varrer a terra.

    Por exemplo, coisas, situações fora de sentido. A tirar lixo da terra, que está amontoada aqui em frente da rua. Muitos trabalhadores da Câmara com pás linchadas na mão, mas durante muito tempo sem fazer nada, vieram cá um único dia porque foi feita uma pressão.

     

    Que tipo de lição é que nós podemos tirar?

     

    Eu penso que o Cabo-verdiano precisa agora começar a usar a cabeça. Anos de investimentos na educação em Cabo Verde, as pessoas vão para fora estudar. Temos técnicos de todas as áreas que não é de hoje que estão a avisar dessas situações, não só na área da engenharia, da arquitectura, mas também a nível social.

    Temos muitos sociólogos que já falaram sobre isso, assistentes sociais. A Câmara tem, um dos melhores sectores da Câmara, mais apetrechado em termos humanos, é o sector social da Câmara Municipal de São Vicente. As pessoas não têm esse conhecimento, mas é. Eles têm técnicos lá formados que estão no terreno.

    Eles têm conhecimento da situação há muitos anos. Têm estudos que sabem perfeitamente das pessoas que vivem nas casas de tambor. Não é novidade.

    Parece que houve pessoas que tiveram "wake-up call" de casa de tambor. Já houve até homenagem do centro artesanal das casas de tambor. Quer dizer que é algo histórico e cultural.

    Está lá, sempre esteve lá, não é novidade. E na Câmara temos técnicos que trabalham nisso há muitos anos, só que o técnico não consegue fazer tudo. Nós temos depois quem está nas posições de decisão e de poder.

    E esse é que é o maior problema que temos em Cabo Verde. Quem está à frente e que pode decidir, e que pode tomar decisões que tenham reflexo na vida das pessoas. Era possível prevenir isso? Eu penso que sim.

     

    É um problema que em Cabo Verde nós temos a ciência, temos o conhecimento, mas depois não usámos. É isso que eu defendo. Temos os técnicos lá nos serviços de meteorologia, mas eles não usaram.

    Um simples senhor que entrou num aplicativo no telemóvel, avisou que ia haver essa tempestade. Outra coisa que não acontece é a responsabilização. Quem agora vai ser responsabilizada por essa situação que aconteceu? Não vamos responsabilizar a natureza.

    Há pessoas que deviam ser responsabilizadas. A Câmara Municipal deveria ser responsabilizada por essa situação de estar há anos a trabalhar sem um plano de director municipal, por exemplo. Por deixar as pessoas fazerem casas em lugares perigosos.

    Ou seja, há uma política assistencialista onde deixamos o povo fazer o que ele quer, porque precisamos dos votos do povo, e isso que ele quer o coloca em perigo. Não há fiscalização, deixamos fazer e a vida continua. Porque as pessoas acham que não chove em Cabo Verde, não há esses fenómenos em Cabo Verde, mas sabemos bem que com a mudança climática que está a acontecer a nível mundial, isso tudo vai modificar.

    E há anos estamos a ter vários sinais disso. Não é novidade. Só que desta vez foi pior.

    Ou seja, a tendência é piorar. Então poderia sim ter evitado, se houvesse um aviso, as pessoas pudessem dirigir isso, por exemplo, para centros de acolhimento. Mas não há essa cultura.

    Nós não temos essa cultura de prevenir, de preparar. Inclusive, a única disciplina que falava desses assuntos no sistema educativo foi retirada, que é a educação para a cidadania. Nós, no sétimo ano e no oitavo ano, nós leccionávamos isso.

    Nós ensinávamos aos alunos como reagir em situações de catástrofes, como reagir em situações de perigo, e hoje em dia não há nenhuma disciplina em que se fala disso. Não há educação para a cidadania, então é complicado.

     

    Por outro lado, o operador turístico, Ricardo Delgado praticamente parou o seu trabalho no sector do turismo para apoiar algumas organizações não governamentais a arrecadar e a distribuir alimentos, roupas e produtos de higiene. Ricardo Delgado queixa-se da falta de coordenação na distribuição das cestas básicas, revelou que o sector do turismo está a sofrer com muitos cancelamentos e adiamentos e afirma que mesmo com preparação era impossível evitar estragos.

     

    De facto, a chuva foi muita. Não estávamos preparados para esta chuva.

    São Vicente não está preparado para esta chuva. Embora já haja problemas que são de raiz, já são passados. Portanto, a chuva foi muita. Mesmo que houvesse uma melhor preparação, acho que haveria sempre estragos. Eu pessoalmente tive alguns estragos, mas não foram avultados comparando com outras desgraças.

    Houve gente que perdeu casas, perderam tudo o que tinham, ficaram com a roupa no corpo. Houve vidas que se perderam. Portanto, não há nada que pague isso. Acho que devemos tirar aprendizagens de tudo isto. Assim, a nível do turismo, que é a minha área, nós estamos a sofrer cancelamentos. Há pessoas que cancelaram pura e simplesmente as viagens. Há pessoas que adiaram as suas viagens. Tentaram fazer alterações dos voos. Temos que entender que um turista que está de férias pode não estar disponível para viver a miséria com que nos encontramos aqui e os problemas com que nos encontramos. Estamos, por exemplo, com praticamente esgoto a céu aberto.

    Temos problemas com recolha de lixo. Possivelmente, em muito em breve, vamos ter problemas de doenças. Temos de ter muito cuidado com isso.Tentar limpar o mais rapidamente possível. Protegermos-nos também, porque há questões de saúde pública que estão iminentes neste momento. Vai ser o nosso próximo desafio. Agora, em relação à prevenção, acho que temos de fazer um trabalho de raiz. O povo, a população, esteve sempre muito unida, tentando fazer um trabalho imediato de solução de necessidades imediatas da população. Isso só não chega, porque se fizermos trabalhos pontuais e não fizermos um trabalho para o futuro, iremos ter sempre problemas.Portanto, não estamos a resolver pela raiz, estamos apenas a atacar o problema imediato.

     

    O governo anunciou algumas medidas para ajudar micro e pequenas empresas, para tentar dar uma mão. Acha isso suficiente?

     

    A questão de ser suficiente é tudo muito relativo. Eu vi negócios que estão completamente destruídos. Retomá-los não vai ser nada fácil. Não vai ser nada fácil mesmo. O povo surpreendeu-me pela positiva, porque eu sou cabo-verdiano, nasci em Cabo Verde, vivi muitos anos fora. Acho que nós, sendo um país pequeno, temos uma força tremenda. O cabo-verdiano é um povo resiliente, muito lutador. Vamos atrás. Eu acho que será possível voltar novamente ao que éramos, mas isso vai levar tempo. Os apoios que podem vir de fora e do governo, nomeadamente, acho que podem dar sempre uma ajuda, mas não sei até que ponto serão suficientes.Eu acho que temos que tirar lições muito grandes daqui para o futuro, porque é assim, com o tempo que nos encontramos, o clima e tudo mais, essas alterações climáticas, estamos cada vez mais sujeitos a estas intempéries. Temos que fazer um trabalho de raiz, planeamento sobretudo, tem que haver muito planeamento, porque sem planeamento estaremos sempre a trabalhar em cima do joelho.

    Acho que deveria haver uma maior coordenação das ajudas. O que aconteceu, realmente, é que o povo agiu de uma forma imediata e quando se age nessa forma imediata, às vezes não há a coordenação desejada.) Mas também, a verdade é que se não houvesse ajuda imediata, se calhar o povo estava a passar muito mal, muitas dificuldades. Acho que o governo deveria ter sido mais célebre a agir.Não estou a dizer que não tenham agido, não é isso que está em causa, mas, pura e simplesmente, foi uma máquina que levou muito tempo a pôr em funcionamento. Temos que estar mais bem preparados para agir mais rapidamente.

     

    Muitos cidadãos responsabilizam os serviços de meteorologia e a protecção civil por não terem alertado a população da tempestade do dia 11 de agosto. Mas, as autoridades reafirmam que foi impossível prever a dimensão da onda tropical e especialistas dizem que as fortes chuvas que caíram na madrugada de segunda-feira, 11 de agosto acompanhada de trovoadas, raios e relâmpagos, ocorreram num lapso de tempo extraordinário, tornando-se imprevisível para a observação meteorológica habitual.

    11 min
  • Investigadora portuguesa premiada pela UNESCO por estudo de peixinho em São Tomé e Príncipe

    Vânia Baptista, investigadora cientifica portuguesa, venceu um prémio internacional da UNESCO com um estudo nunca realizado até então sobre um peixinho endémico de São Tomé e Príncipe. O projecto da investigadora do Centro de Ciências do Mar do Algarve (CCMAR) e professora auxiliar convidada da Universidade do Algarve une ciência, comunidades locais e instituições de São Tomé e Príncipe e foi distinguido com o Prémio Mário Ruivo 2025.

    O Prémio Mário Ruivo 2025 foi atribuído pela Comissão Oceanográfica Intergovernamental da UNESCO (UNESCO-IOC), em parceria com a Fundação EurOcean e o Governo Português, à investigadora lusa Vânia Baptista.

    Uma investigadora cientifica portuguesa venceu um prémio internacional da UNESCO com um estudo nunca realizado até então sobre um peixinho endémico de São Tomé e Príncipe.

    O projecto da investigadora do Centro de Ciências do Mar do Algarve (CCMAR) e professora auxiliar convidada da Universidade do Algarve, Vânia Baptista, que une ciência, comunidades locais e instituições de São Tomé e Príncipe, foi distinguido com o Prémio Mário Ruivo 2025, atribuído pela Comissão Oceanográfica Intergovernamental da UNESCO (UNESCO-IOC), em parceria com a Fundação EurOcean e o Governo Português.

    Vânia Baptista estudou uma pequena espécie marinha endémica denominada peixinho, que os investigadores identificam como Sicydium bustamantei.

    A pesca do peixinho é feita essencialmente por mulheres e crianças e é fundamental para a subsistência de comunidades ribeirinhas e costeiras.

    "Para além de gerar conhecimento científico sobre o ciclo de vida, ecologia, estado de conservação e o valor socioeconómico da espécie, o projecto envolveu directamente pescadores, estudantes e instituições locais, promovendo um modelo de ciência participativa adaptado aos desafios locais da conservação marinha", esclareceu o CCMAR.

    Em entrevista à RFI, Vânia Baptista esclarece que a investigação não teria sido possível sem o envolvimento das comunidades e instituiçoes de São Tomé e Príncipe.

    Como aconteceu a atribuição deste prémio da UNESCO?

    Candidatámo-nos com um projecto que era dirigido a cientistas mais jovens que lideravam ou co-lideravam um projecto de investigação e tinha que cumprir com o Objectivo 14 dos ODS, da UNESCO, da década dos oceanos. Concorri com o projeto Little Fish, que se desenvolve em São Tomé e Príncipe, e acabámos por ganhar esta distinção, este prémio. Eu digo ganhámos porque, apesar de ter sido eu a concorrer, este prémio é para toda a equipa do projecto, não é só para mim.

    Além de estarmos a estudar uma espécie que não foi estudada até então, é uma espécie com grande importância socioeconómica para o país. Também temos tido um grande envolvimento com as comunidades locais para o seu desenvolvimento e sustentabilidade.

    Como é que surgiu o interesse em fazer uma investigação sobre o peixinho em São Tomé e Príncipe?

    Em 2017, aqui no CCMAR, alguns professores, como a professora Alexandra Teodósio, a professora Ester Serrão, a professora Karim Erzini, organizaram um curso sobre Ecologia e Alimentação de Tartarugas Marinhas em São Tomé e Príncipe.

    Nós temos também já uma grande ligação à ONG do programa TATU. E foi durante esse curso, que eu fui como aluna, que, numa visita ao mercado de peixe da cidade de São Tomé, se encontrou uns alguidares cheios de um peixe, mas muito pequenino.

    Nós dizíamos que eram larvas de peixe, que eram os peixes bebés, mas as pessoas diziam que não. Diziam que era um adulto anão. Mas nós começámos a perceber que não, que realmente eram larvas de peixe.

    Na altura, a professora Alexandra Teodósio recolheu uma amostra e trouxe para o laboratório. Depois acabou por identificar como sendo o Sicydium bustamantei. O professor Peter Wirtz acabou por confirmar. E depois começámos a perceber que não existiam estudos, apenas haviam alguns estudos científicos que diziam que, realmente, a espécie tinha sido descrita ali em São Tomé e Príncipe, que seria endémica, ou seja, que só vivia naquela região. A partir daí fomos tentando financiamento. Passado uns anos conseguimos este financiamento da Aga Khan e da FCT para desenvolver o projecto Little Fish.

    Esta larva de peixe, ou como as comunidades identificavam este peixe anão, ele é consumido? Como é que acontece a ligação da comunidade com este animal?

    Ele é muito consumido pelas comunidades. Então, tem um ciclo de vida que é chamado anfídromo. É espectacular este ciclo de vida. Os adultos vivem a montante dos rios, lá bastante em cima. As pessoas, muitas vezes, não veem os adultos, ou acham que são espécies diferentes. Depois, os adultos colocam as posturas dos ovos agarradas às rochas, e depois das larvas eclodirem, das larvas nascerem, elas vão para o mar através das correntes dos rios, porque não têm capacidades natatórias ainda para fazer face a essas correntes.

    Depois, estão alguns meses no mar, onde se alimentam, crescem, desenvolvem, e quando já têm capacidades sensoriais e natatórias, voltam a entrar nos rios, e é aí que são capturadas pelas pessoas. Além de trazerem outras espécies atrás delas, e as próprias espécies as vão consumindo, chegam em cardumes aos rios, e as pessoas já estão à espera delas, com armadilhas, com redes.

    Então, é uma pesca super intensiva nesta época. E claro que este peixinho também tem outra característica muito interessante, porque ele tem que, em alguns rios, escalar cascatas para chegar, depois, ao habitat onde se vai transformar em adulto. E aí ele desenvolveu uma ventosa na zona abdominal. Ele é um gobídeo, como os gobídeos que temos aqui nas pocinhas de maré, ele também. Só que essa metamorfose para o desenvolvimento dessa ventosa acontece assim que ele entra no rio. Ele, quando entra no rio ainda não tem essa ventosa. Assim que entra, numa questão de dias, essa ventosa transforma-se, ele está capaz de escalar as cascatas ou mesmo de se agarrar a outras rochas.

    E a população não consome o peixe adulto?

    Não os consomem adultos. Algumas comunidades já começam a perceber que o peixinho realmente é um bebé, mas algumas comunidades nem sequer chegam a ver o adulto, porque ele vive bastante longe, bastante acima dos rios. E outras acham que são espécies diferentes. Mas sim, eles só consomem durante a fase em que são bebés. Até achamos engraçado porque o peixinho quando entra nos rios é branco, tem uma fase de desenvolvimento mais precoce. Depois de alguns tempos nos rios, ele começa a desenvolver as barbatanas, e começa a ficar mais escuro. e eles chamam de peixinho preto. O peixinho branco e o peixinho preto. Eles têm todos mais preferência pelo peixinho branco. Aliás, a pesca pára quando começa a haver mais peixinho preto. Já tem uma textura provavelmente diferente e eles já não gostam tanto.

    É de imaginar que este tipo de captura terá um impacto na espécie. Já conseguiram documentar, ou não, o impacto desta prática?

    Nós entendemos e achamos que existe realmente um grande impacto, porque além da predação natural tem esta mortalidade imensa. Temos alguns dados para algumas comunidades, mas ainda não conseguimos documentar e comparar com anos anteriores, porque não existem dados do passado. Descobrimos há pouco, em conversas com alguns membros das comunidades, que na altura da época colonial, os portugueses proibiram a captura desta espécie. Na altura não se pescava porque já havia a ideia que era um bebé. No entanto, assim que os portugueses vieram embora, voltou a ser permitida esta pesca.

    As comunidades também acabam por já ter uma ideia de que não é correcto, e que o peixinho tem vindo a diminuir ao longo dos anos. Eles até dizem que há certos rios onde o peixinho já não sobe de todo. Associam muitas vezes à pesca, e também à poluição dos rios.

    Como é que é feita a captura de um elemento tão pequeno?

    Varia consoante comunidade para comunidade. Em algumas comunidades usam uma armadilha construída com folha de palmeira, que é chamada changa, que é tipo um cone, que é colocado submerso no rio, o rio não pode ter muita água, e depois o peixinho acaba por entrar nessa rede. Outras comunidades, onde o rio já tem mais água e a pesca é feita maioritariamente à noite, a pesca é feita com redes mosquiteiras, aquelas redes para proteger as janelas, muitas vezes também impregnadas com insecticida ainda, e aí depois também é usado uma lanterna, uma chama, para que o peixinho seja atraído para essas redes.

    Se é usada essa rede com insecticida, quer dizer que há uma quantidade de produtos químicos que, muito provavelmente, são libertados depois nos cursos de água?

    Sim, sim. Muitas vezes também acabam por lavar as redes antes da pesca, e também lavam-nas nos rios. Quem diz isso diz outros poluentes. A limpeza da maioria dos materiais de casa e de tudo o que eles usam é feita no rio, por isso os níveis de poluição são bastante elevados.

    Como é que as comunidades reagiram ou participaram, se envolveram ou não no trabalho, na investigação?

    Eu acho que isso foi a maior surpresa para todos nós, mesmo para os colegas de São Tomé e Príncipe, porque houve um envolvimento brutal. Na altura, nós organizámos a primeira reunião e decidimos que também iriam os membros das comunidades, também para nos explicarem como é que pescam, qual é a opinião deles, o que é que eles acham. É realmente muito importante. E logo durante essa reunião eles mostraram. Inicialmente acanhados, mas depois já quase que se empurravam, queriam todos mostrar como é que era. E foi-lhes explicado que nós não estaríamos ali para proibir nada, que nós só queríamos era saber mais e queríamos que os filhos e os netos e as gerações vindouras conhecessem o peixinho e que pudessem saborear o peixinho. Então, a partir daí, criámos todos uma ligação de amizade, que acho que é essencial e que move este projecto, essa ligação que temos de amizade com as comunidades.

    E eles têm-nos ajudado. Discutimos resultados, tentamos perceber quais são os melhores locais de amostragem, as melhores épocas. Eles mostram-nos como é que constroem as artes de pesca, como é que pescam. Se for preciso amostras, nós próprios compramos às comunidades e assim estamos a ajudar as comunidades, também.

    Tentamos arranjar alternativas para sustento, para conseguirmos diminuir um bocadinho a pesca. Organizámos, o ano passado, um curso de produção de holotúrias, os pepinos do mar, e de caranguejos, que são formas relativamente mais fáceis de gerar algum rendimento, principalmente para as mulheres e crianças, que são a maioria da comunidade que faz a pesca do peixinho.

    Encontrou alguma razão, alguma explicação para isso?

    É feita maioritariamente por mulheres e crianças, porque é uma pesca que não há perigo.

    Elas estão nos rios, os rios estão baixinhos, e acaba por ser fácil. No entanto, esta pesca também pode acontecer um bocadinho mais no mar, aí já são os homens que fazem. Mas quando é no interior dos rios, a mulher está ali ao pé de casa, pode ir pôr a armadilha durante o dia e depois vai lá tirar dali a umas horas. Ou está ali no rio a lavar e mete também as armadilhas. Acaba por ser muito uma parte do sustento da família criado pela mulher.

    Esta ligação das comunidades de São Tomé e Príncipe ao peixinho é algo que pode acontecer em outras partes do planeta, ou é algo muito específico de São Tomé e Príncipe?

    Desde o início que nos focámos muito em trabalhos desenvolvidos no Caribe, nomeadamente na Dominica, em que também existiam espécies até do mesmo género, ou seja, espécies muito semelhantes, a espécie é diferente. E nesse caso da Dominica até se verificou uma coisa muito triste, infelizmente, é que o peixinho deixou de ser um recurso local para as comunidades e que ficou tão caro que passou a ser um recurso para turistas. Em vez de, se calhar, se pagar um euro, como em São Tomé, ou menos de um euro por duas canecas de peixinho, porque a medida é uma caneca, lá é capaz de se chegar aos 50 dólares, porque é uma iguaria para turista e deixou de ser uma iguaria local. E não é isso que nós queremos que aconteça em São Tomé e Príncipe.

    Estas espécies com este ciclo de vida, estamos a perceber que existem ao longo do mundo. Têm de ser ilhas tropicais, de origem vulcânica, normalmente com rios, com grandes cascatas. E o engraçado, também, é que em muitas delas se tem verificado, em muitos destes locais, que as formas de captura são bastante semelhantes. E isso também é uma coisa muito interessante para continuarmos a estudar, tentar perceber esta ligação entre ilhas ao longo do mundo.

    Como é que tem sido a ligação, a pareceria, a colaboração com instituições em São Tomé e Príncipe?

    Este projecto não seria possível sem a Universidade de São Tomé e Príncipe e sem a ONG Marapa, que são os nossos parceiros directos do projecto. Eles estão connosco desde o início. E, depois, também temos tido o apoio do Programa Tatô, das Tartarugas Marinhas. E temos estado a trabalhar em estreita colaboração com a Direcção-Geral das Pescas e da Aquacultura. Temos desenvolvido cursos de formação, discutimos os resultados que vamos obtendo do projecto.

    Aliás, aquela instituição está sempre aberta para nós. Tentamos que também nos acompanhem nas saídas de campo, em discussão de vários resultados, metodologias, etc. É basicamente também um bocadinho a nossa casa.

    Quando é que prevê o regresso a São Tomé e Príncipe?

    Iremos em outubro. Vamos encerrar o projecto com uma conferência final para os stakeholders, para as instituições locais, para que também eles percebam um bocadinho dos resultados e para podermos chegar a algumas conclusões do que se possa fazer para gerir este recurso. Vão estar também envolvidas as comunidades locais nessa reunião. Iremos também apresentar um documentário mais caseiro que temos estado a fazer. E depois, o que queremos fazer, também, para que todas as comunidades tenham acesso a estes resultados é fazer mini-sessões, podem ser mini-festas, nas comunidades locais, onde vamos também discutir, já de uma forma se calhar mais leve, os resultados.

    E vamos também apresentar o documentário que estamos a desenvolver onde eles próprios também aparecem.

    Será muito giro ver as reacções de todo este envolvimento das comunidades, eles poderem ver que participaram e que a participação deles foi bastante significativa.

    Link Vídeo Explicativo Sobre o “Peixinho” : https://www.youtube.com/watch?v=xr5FDXWepg4

    16 min
  • Imigrantes, a face mais visível da crise da habitação em Portugal

    Em Loures, nos arredores de Lisboa, a Câmara Municipal demoliu mais de 50 barracas no bairro do Talude Militar, deixando centenas de pessoas sem casa. A operação levantou protestos e críticas, nomeadamente do deputado municipal eleito como independente pela CDU,  Kedy Santos,  também membro do movimento Vida Justa, que acusou a autarquia de actuar por motivações eleitoralistas e defendeu que a luta dos moradores reflecte a crise habitacional que afecta Portugal.
     

    Os salários baixos e a falta de habitação a um custo acessível estão a criar uma crise habitacional que não cessa de aumentar e é transversal à sociedade portuguesa, mas atinge com particular violência os mais desfavorecidos.

    A especulação imobiliária e a ausência de políticas públicas que fomentem a criação efectiva de habitação para as classes média e com menores rendimentos, fazem prever que nos próximos anos se verifique um agudizar da crise habitacional antes que se venha a sentir uma hipotética melhoria.

    Actualmente, de acordo com uma contagem feita pela LUSA, só na Área Metropolitana de Lisboa, mais de 30 mil famílias estão nas listas de espera por habitação.

    A impossibilidade de adquirir ou alugar casa a valores minimamente comportáveis faz com que, por exemplo, jovens se vejam obrigados a adiar ad aeternum o sair de casa dos pais, estudantes não prossigam os estudos por não poderem pagar os valores de um quarto quando estão deslocados, famílias se vejam obrigadas a viver em espaços exíguos ou a mudarem-se em busca de habitação a valores minimamente suportáveis, idosos tenham de abandonar as casas onde sempre viveram, trabalhadores vivam em tendas, famílias sejam obrigadas a morar em bairros de lata. Bairros que, nos últimos tempos, se multiplicam nas áreas urbanas e tèm sido alvo de acções de destruição espoletadas por diferentes autarcas.

    Um dos exemplos é o caso do bairro do Talude Militar, no Catujal, concelho de Loures. O bairro de génese clandestina surgiu nos anos 1970 e, recentemente, passou a ser notícia nos meios de comunicação social portugueses quando a Câmara Municipal de Loures, presidida por Ricardo Leão, do PS (Partido Socialista), avançou com a destruição de dezenas de barracas, deixando muitas famílias, literalmente, sem tecto. No bairro, que nos últimos anos se transformou em porto de abrigo para muitas famílias de trabalhadores são-tomenses, e também portugueses, cabo-verdianos, angolanos ou brasileiros, os buldozers da Câmara de Loures avançaram, mas, entretanto, o Tribunal disse para para se suspenderem as demolições. No momento da nossa reportagem, no local, poucos dias antes tinham sido destruídas 55 habitações.

    A RFI falou com Engels do Amaral, o professor são-tomense está em Portugal a trabalhar na construção e é representante dos moradores do bairro do Talude Militar, e com Kedy Santos, deputado municipal em Loures, eleito como independente pela CDU (Coligação Democrática Unitária), e é membro do movimento Vida Justa.

    RFI: Qual foi a cronologia dos acontecimentos?

    Kedy Santos: A Câmara colocou o edital numa sexta por volta das 19h, antes do jantar, e na segunda, acho que logo pela manhã, já estava cá a demolir. Então, as pessoas tiveram menos de 48 horas para retirarem os pertences de dentro de casa.

    RFI: Assim, a possibilidade de apresentarem um recurso em tribunal também fica bloqueada?

    Kedy Santos: A estratégia da Câmara foi consertada, mas para não dar a possibilidade de elas se defenderem. Não foi com o espírito de ajudar, não foi com a lógica de que vamos demolir, vocês cometeram uma ilegalidade, mas não é das piores ilegalidades do mundo. Essas pessoas, elas não tiveram hipótese nem de se reorganizarem para tirarem as coisas e saírem.

    Porque elas estavam sempre na dúvida, com uma esperança de resolver as coisas pacificamente. Elas, antes do despejo, enviaram cartas para a Câmara, para o nosso edil, mas nunca tiveram resposta. Já foram à Câmara alertar a Câmara para o risco, que havia muitas crianças aqui, cerca de 88 crianças, havia pessoas doentes e ainda continuam aqui. Havia muito risco social, estrutural e tentámos alertar a Câmara para a necessidade de encontrar uma solução conjunta.

    Aqui não há uma guerra contra a Câmara, contra o Presidente da Câmara. Mas se ele também torna-se hostil, é necessário ver quem defende essas pessoas. E é aqui que entra o movimento Vida Justa, nós tentámos equilibrar as coisas. Se nós nem sequer tivéssemos aqui a auxiliarmos essas pessoas, elas nem sequer teriam comida no primeiro dia da demolição. Como repara, elas ficaram com os pertences todos ao deus dará. Houve casos em que a máquina da Câmara passou em cima de tudo. Pessoas que perderam documentação, pessoas que perderam os seus bens pessoais e de primeira necessidade. Então nós tivemos que, aqui,  assegurar isso. E não era o nosso papel, era o dever da Câmara, porque a Câmara tem a competência social.

    A Câmara tinha que vir aqui e demolir com assistentes sociais, com psicólogas. As crianças sofreram um imenso trauma ao ver isto.

    Engels do Amaral, quando chegou aqui ao bairro, antes de começar este processo de demolição da Câmara Municipal, como é que era este bairro?

    Engels do Amaral: Um bairro muito calmo. Já se começou a criar aqui um sentimento de bem-estar com as pessoas, porque as pessoas já tinham aqui um lar. Embora não fosse visto com bons olhos por uma certa franja da comunidade portuguesa, se calhar a maioria, mas era o que as pessoas conseguiram para não ficarem na rua. A maioria parte do pessoal aqui trabalha. São pessoas que têm um salário. São pessoas que acordam de madrugada, vão trabalhar. São empregadas de limpeza, trabalham em hotéis, na restauração, temos aqui pessoal geriátrico, temos aqui inclusive pessoas que trabalham na CARRIS metropolitana, e outras  coisas do género.Mas tem uma condicionante, que é conseguir aceder ao mercado de alojamento, tendo em conta os altos preços que se praticam hoje em dia no mercado de habitação português. Nós deparamos com essa situação que é a inacessibilidade ao mercado de alojamento. E, por outro  lado,  a classe média também se  depara com o problema que é a subida dos preços de habitação. Sentem-se impotentes, não conseguem pagar a renda, mesmo sendo pessoas que ganham um salário um bocadinho acima daquilo que nós ganhamos. Então isso não caracteriza esse problema como sendo um problema dos bairros, dos moradores do bairro, mas como um problema nacional.

    Como é que aqueles que têm crianças a seu cargo estão a fazer a vida com as barracas derrubadas?

    Engels do Amaral: Após as demolições, ficou aí um caos, mas, graças a Deus, aqui no bairro há o espírito de entreajuda. E com a campanha lançada pelo movimento Vida Justa, temos recebido muito apoio, tanto em género alimentares, produtos de higiene, todo um conjunto de apoio tem sido recebido. Quanto às crianças, nós,

    aqui criámos mecanismos para conseguir tê-las ocupadas ao longo do dia, com atividades recreativas e coisas do género, de forma a tentar aligeirar um bocadinho o peso que vem para essas crianças por  terem de viver essa situação.

    O que é que as crianças dizem quando vêem a casa, precária ou não, onde viviam, ser destruída?

    Engels do Amaral: Ficam destroçadas. Porque, se para um adulto é altamente complicado, imagine quanto mais para uma criança. Ver o que tem como seu lar ser destruído, fica desamparado. É uma situação bastante dramática para essas crianças e famílias. Elas ficam com sequelas. Há crianças que já assistiram à Câmara demolindo casa das suas famílias por três vezes, por duas vezes, e isso cria trauma. Eu digo, por experiência própria, o meu filho mais velho não pode ouvir falar de Câmara, ele entra logo em pânico.

    Os serviços sociais da Câmara funcionaram, estiveram cá?

    Engels do Amaral: Infelizmente não. Estiveram presentes aqui os fiscais e o policial. Um forte aparato policial e os fiscais da Câmara sempre que estiveram cá. Os serviços sociais nunca estiveram cá no terreno. A quando das demolições, nunca.

    Se bem que a Câmara deveria prever essa situação, tendo em conta que tem levantamento da composição de cada agregado familiar, sabe que aí temos muitas crianças. A Câmara podia acautelar essa situação e ter aqui serviços sociais, ou pelo menos tentar fazer a coisa de forma diferente. Não é demolir e só depois procurar uma solução para as famílias. Poderia, pelo menos, precaver situações deste género. Principalmente para casos onde há crianças, dar uma atenção especial. Porque, afinal de contas, são crianças como qualquer outra criança. É uma criança, embora de origem africana, mas é uma criança. Tem sentimentos, tem coração. Há todo um conjunto de cuidados que a Câmara poderia ter tomado para evitar esse caos, esse impacto negativo para as famílias, principalmente.

    Nós não queremos estar aqui para criar problemas para a comunidade, nem para o Concelho. Nós estamos aqui porque não temos outra alternativa, mas não com o propósito de permanecer aqui. Tanto é que há famílias que, por sua conta própria, têm conseguido deixar o bairro de forma gradual, por conta própria, sem mesmo ter passado por processo de demolição. E acredito que a maioria tem essa intenção. Mas nós sabemos as limitações que existem no mercado da habitação.

    Sabe-se que esse problema existe, mas, infelizmente, tenta-se empurrar para a classe mais desfavorecida e fazer parecer que esse é um problema de imigração, mas não é. Por que é que não é um problema de imigração? Porque as pessoas que estão aqui são pessoas com trabalho, têm um rendimento, contribuem para o sistema de Segurança Social do país, estão com documentos, têm a autorização para estar em Portugal, fazem os descontos necessários. Mas têm um problema, que é um problema generalizado do país. Se nós percorremos as artéiras de Lisboa e não só, também encontramos muita gente nas tendas, a dormir. Não são imigrantes, são portugueses, Mas estão assim porque querem? Com certeza não. Ou foram despejadas, porque já não conseguem pagar as rendas, ou estão impedidas de ter acesso ao mercado de arrendamento porque não cumprem os requisitos exigidos e não têm salário para fazer face aos preços de habitação hoje em dia.

    Ainda há aqui no bairro do Talude Militar muitas chapas de zinco, muita madeira, muito material que pode ser usado na construção, há também eletrodomésticos, camas desmontadas, colchões empilhados. Este bairro não vai desaparecer tão cedo. Haverá pessoas que vão reconstruir?

    Engels do Amaral: Certamente que sim. Passadas umas semanas as pessoas não têm conseguido a alternativa, a Câmara não tem conseguido alternativa para essas pessoas. A única alternativa que têm dado às pessoas é dizer para elas procurarem uma casa e eles pagam uma renda e uma caução. É uma alternativa que eles acham que podem propor, mas infelizmente com o valor da caução e da renda que dizem, as pessoas não conseguem encontrar uma casa ou um quarto que seja por 400 euros. E temos de adicionar outra condicionante que é, a maioria parte da pessoa trabalha no Concelho. Se calhar a encontrar uma casa ou um quarto de 400 euros, seria num distrito fora daqui. E o trabalho? A pessoa vai deixar o trabalho? Já tem criança aqui na escola. É todo um conjunto de coisas que tem que se tomar em consideração. Eu acho que é preciso que o Conselho veja a situação. Haja mais casas disponíveis para as pessoas alugaram, porque ninguém quer casa de graça.

    Ninguém veio aí, como dizem, fazer uma auto-construção para que a Câmara desse uma casa de graça. Nós sabemos que isso não existe. A Câmara diz que tem por volta de mil e tal a duas mil pessoas na lista de espera. E nós vamos avançar, passar  à frente dessa pessoas? Não, não é esse o propósito.

    Mas o Concelho tem que, se calhar, começar a resolver o problema, que é um problema que já há há muito tempo. Tem muita gente aí na lista de espera, a auto-construção já existia há muito tempo. Dados que o IHRU apresentou na semana passada, dizem que há mais de Duzentas e tal mil casas fechadas em Portugal, que estão em condições para entrar no mercado de arrendamento ou se calhar para venda.

    Então, se calhar, essas casas poderiam ser disponibilizadas de forma que o pessoal tivesse acesso à habitação e conseguisse arrendar uma casa e sair dessas condições.

    Como membro da Vida Justa e também da Assembleia Municipal, quais é que seriam as saídas para esta situação, que não acontece só aqui?

    Kedy Santos: Encontrar mecanismos sociais como, por exemplo, o Programa Porta de Entrada. Soube à pouco que existe uma verba do Orçamento do Estado de quase 100 milhões de euros que foi disponibilizado para apoiar esse Programa Porta de Entrada, mas que, em 550 e tal dias, o Governo ainda não regulamentou para ser desbloqueado para situações desta natureza, como também de construções de outras habitações e outras situações. Esta verba ainda não foi disponibilizada para o IHRU para poder aumentar o poder e a capacidade do Programa Porta de Entrada, o que é grave.

    Então, este Programa Porta de Entrada era essencial. Infelizmente, na reunião de Câmara de quarta-feira, essa proposta foi chumbada pelos partidos da direita, como a Iniciativa Liberal, o PSD e o PS, de Loures, que eu já considero da direita, e chumbaram a proposta de recorrer-se a esse mecanismo para ajudar essas pessoas. Então, nós agora vamos passar a nossa luta para o nível nacional,. Porque a responsabilidade da habitação não é só do município, a verdade é essa, é uma questão nacional.

    Então, há que lutar nesse sentido para dar dignidade a essas pessoas e a outras também a nível nacional.

    E, para que fique claro, essas pessoas não estão a lutar só por elas, elas não estão a lutar porque elas precisam de uma casa em detrimento de nenhum português. Elas estão a lutar inclusive para que todos os portugueses tenham melhores salários, tenham melhores casas, melhores condições de vida e que se encontrem consensos sociais para que se gere um melhor equilíbrio e de melhor qualidade e capacidade a todas as famílias.

    Mas também há uma questão que é importante nós colocarmos: o porquê de a dois meses das eleições autárquicas fazer-se isso desta forma. É importante nós questionarmos. É que em Portugal criou-se uma metodologia de que atacar imigrantes, atacar pessoas vulneráveis dá voto. E isso é que é grave, isso é que tem que ser denunciado. Mostra da forma mais execrável coisas mais bárbaras de uma sociedade. As pessoas que estão aqui são pessoas, não são números, não são invisíveis.

    Apesar de diligências neste sentido, a presidência da Câmara de Loures recusou o pedido de entrevista da RFI.

    13 min
  • Em Água Izé ainda há contratados da era colonial à espera que Portugal honre contratos

    Nas roças de São Tomé e Príncipe ainda há contratados que chegaram ao país para trabalhar nas roças antes da independência. A maior parte vive em condições precárias, com uma reforma muito baixa, já que os anos em que trabalharam para a potência colonial não contam para as autoridades são-tomenses e Portugal não lhes dá qualquer compensação. Em Água Izé, que chegou a ser uma das maiores roças do país, a RFI falou com dois contratados e com uma professora que está a tentar mudar esta situação.

    No início do século XX, as roças, grandes propriedades coloniais dedicadas à produção intensiva de cacau e café, ocupavam cerca de 90% do território de São Tomé e Príncipe. 

    Durante mais de um século, até ao 25 de Abril, o sistema das roças foi sustentado por trabalho de contratados vindos sobretudo de Angola, Moçambique e Cabo Verde. Muitos destes contratados acabavam por assinar contratos à vida, nunca regressando à sua terra natal, e levando a cabo uma forma de trabalho escravo. 

    Hoje, muitas dessas roças ainda existem, algumas delas com funções agrícolas, e outras abrigando comunidades que após o fim da colonização permaneceram nesses locais e adaptaram, como puderam, as infra-estruturas ao seu quotidiano. E nestas comunidades ainda se encontram alguns contratados da era colonial, maioritariamente vindos de Cabo Verde, muitos deles com idades muito avançadas e que no fim da vida não têm reconhecimento pelo seu trabalho tanto antes da independência como depois da transformação de São Tomé e Príncipe num Estado independente.

    Domingas Garcia, tem 50 anos e nasceu na roça de Água Izé, filha de contratados cabo-verdianos. Hoje é professora na escola de Água Izé e mobiliza-se juntamente com outras pessoas da comunidade para trazer mais condições para a comunidade e para que se reconheçam os direitos destes contratados que ajudaram a erguer São Tomé e Príncipe.

    "Desde a indepedência, o que mais se desenvolveu aqui na comunidade de Água Izé foi a intelectualidade. Muitos descendentes de contratados estudaram, formaram-se. Hoje as pessoas ocupam um determinado cargo na sociedade, não só homens, como mulheres também. Temos aqui enfermeiros. Temos professores, temos técnicos das Finança, temos pessoas em várias instituições. Isso demonstra um crescimento bom, mas em termos de pouco desenvolvimento, é a nível de infraestruturas que se degradou muito. Não houve melhorias. Outra coisa também  negativa, são os cabo verdianos que vieram e ficaram aqui atirados à sua sorte. Muitos não tiveram benefícios com distribuição de terras e recebem uma reforma que não dá para o seu dia a dia aos céus, os seus sustentos. E não só. Infelizmente temos ainda alguns que trabalharam e não beneficiaram de reforma", explicou a professora.

    Eduarda Semedo tem 91 anos e veio muito jovem para São Tomé e Príncipe a partir da ilha de São Vicente, em Cabo Verde, para trabalhar. Após um período na Roça Augusta, Eduarda ainda voltou para Cabo Verde, mas a seca trouxe-a novamente para São Tomé, com um novo contrato para Água Izé, onde vive há várias décadas.

    Também José de Pina, de 94 anos, está desde os anos 50 em São Tomé e Príncipe. Veio da ilha do Fogo, em Cabo Verde, e trabalhou quase 40 anos nas roças, metade para Portugal e a outra metade já após a independência de São Tomé e Príncipe. Lembra que ainda na era colonial, havia mais de 12 mil cabo-verdianos só em Água Izé.

    "Só aqui, nesse lugar, aqui devia ter cerca de 12.000 cabo-verdianos. Isso acabou, desses restam quatro ou cinco. Eu sou o mais velho que está aqui e eu estou a ver que vou  morrer sem nada. Isso é um perigo que está aqui, porque nós saímos para vir ajudar São Tomé a trabalhar nos princípios do contrato. 30 dias era 50 escudos que é salário dos homens, a mulher era 40. Todos esses 16 anos que trabalhei com branco, não houve nenhum momento bom. Portanto, vivemos na miséria todo o tempo de miséria. Deu 25 de Abril, o branco deixou-nos aqui. Fiquei com São Tomé mais de 19 anos, para além dos 16 mais 19 anos com que portanto eu trabalhei, 16 com Portugal, 19 com São Tomé. Agora estou há 31 anos com segurança social a ganhar quinhentinhos dobras", indica José de Pina, conhecido como Zézé.

    Mesmo com os contratos portugueses nas mãos e muitos com décadas de trabalho no pós-independência, muitos destes contratados nunca viram o seu trabalho reconhecido por São Tomé e Príncipe, vivendo de pensões de sobrevivência que faz com que estes idosos vivam hoje em condições muito precárias.

    "Por exemplo, a minha mãe é a prova disso. A minha mãe trabalhou e quando fomos lá tratar da reforma, dizem que não viram o nome, que praticamente perdeu reforma. Então, de três em três meses, às vezes davam-lhe 400 dobras. São os filhos graças aos estudos, né? E hoje temos um emprego e somos nós é que temos que assegurar a parte da mãe como muitas outras pessoas também. Graças à comunidade, mesmo os filhos e a comunidade, porque temos aqui uma cozinha social que neste momento carece muito da ajuda, porque tem funcionado graças a apoio das pessoas de boa vontade", indicou Domingas Garcia, que explica que falta reconhecimento por parte das autoridades são-tomenses em relação aos passado destes contratados.

    Para além da falta de reconhecimento administrativo, persistiu também durante vários anos a discriminação destes contratados que ficaram em São Tomé e Príncipe. Estima-se que cerca de 25 mil cabo-verdianos tenham abandonado São Tomé no pós-independência, mas os que escolheram ficar por razões familiares ou por amor à nova pátria, tiveram de enfrentar muitos desafios.

    Uma discriminação que magoa ainda mais quando foram os braços de homens e mulheres como José de Pina e outros milhares de cabo-verdianos, moçambicanos e angolanos que plantaram os pés de cacau que ainda hoje continuam a contribuir para a riqueza do país.

    "Nós é que plantámos todo o cacau que está no mato, toda a árvore de fruto que está no mato. Quem é que nos dá alimentação, quem nos compra comida? Isso é insultar a pessoa, escravizar a pessoa. Saiu o escravo branco, entrou negro. Nós estamos na mesma. Não há nenhuma hipótese para melhorar a vida", disse José de Pina.

    Desde meados dos anos 2010 que Cabo Verde reconheceu o trabalho forçado destes contratados em São Tomé e paga-lhes uma pensão trimestral que em 2019 foi aumentada para 1000 dobras, cerca de 40 euros. Até hoje, só Cabo Verde reconheceu o trabalho destes homens e mulheres antes da independência. Portugal ainda não deu qualquer passo para cumprir os contratos que ficaram por honrar.

    "No meu ponto de vista, eu gostaria que Portugal tivesse um posicionamento positivo em relação a isso. Até porque essas pessoas trabalharam mais para os portugueses. Porque vieram jovens para São Tomé. Mas contrato com os portugueses e os portugueses deviam também ter uma posição aqui em termos de ajudar aquelas pessoas mais idosas que trabalharam naquele tempo. Que nem receberam dinheiro de contrato, trabalharam e não foram beneficiados com dinheiro do contrato", concluiu Domingas Garcia.

    20 min
  • Nteregu. o filme que coloca a música guineense nos palcos do mundo

    A longa-metragem, já premiada, é um testemunho único que nos faz atravessar séculos de história da música guineense.

    Com uma carta de marear muito própria, Nteregu já regista rotas marítimas, ou de apresentações (como preferirem) que podem ir , por exemplo, de Bissau a Nova Iorque ou de Lisboa a São Paulo.

    Nteregu é, afinal, a nau Rainha da Música Guineense que é também um ponto de viragem pela abertura que permite ao conhecimento de parte do património cultural e imaterial da Guiné-Bissau.

    De importância capital, Nteregu é o mais rico documento alguma vez feito sobre o passado, presente e futuro do caleidoscópico universo musical para o qual contribuem dezenas de etnias.

    Com Nteregu, é de forma apaixonada que somos levados “Da Tina à cultura das mandjuandadi, das tabankas dos “griots” às pistas de dança na Europa”.

    Realizado por Manuel Loureiro e Roger  Mor, Nteregu é a celebração poética da música guineense em toda a sua diversidade e riqueza e para a qual contribuem os depoimentos de, entre outros, Ramiro Naka, Adriano Atchuchi, Eneida Marta, Miguel Barros, Tony Osvaldo, Ivan Barbosa, Karyna Gomes, As One, Juca Delgado, Odete Semedo, Dj Mandas, Nino Galissa, Dulce Neves ou Ernesto Dabó,

    Como é que surgiu a ideia de realizar esta longa-metragem sobre a música da Guiné-Bissau?

    Roger Mor, co-realizador do documentário Nteregu:

    O Nteregu veio na sequência do primeiro projecto, que era o Ntrudo. Nós tivemos este primeiro contacto com este rico universo da música tradicional guineense através deste primeiro filme, que foi o Ntrudo. A partir daí nós ficámos com vontade de explorar um pouco mais. A ideia propriamente surge da nossa intenção de ajudar a fazer um inventário da cultura guineense, que era um dos projectos de uma figura marcante do panorama cultural na Guiné-Bissau, que é o Dr. Cornélio.

    A vontade dele era começar a fazer esta inventariação, sobretudo dos ritmos tradicionais. E, efectivamente, a missão do filme é dar a conhecer a riqueza cultural da música da Guiné-Bissau. E vão às origens da música.

    Costuma-se dizer que os artistas e os loucos navegam nas mesmas águas, mas os artistas saem. Nós quase não saímos pela loucura que foi de querer criar uma peça que atravessasse tantos séculos. Esse foi o maior desafio, a meu ver.

    Hoje em dia, quando olho para trás, eu acho que se deu muito, mas também se deu aqui uma grande dor de cabeça, que foi o querer contar uma história de tantos séculos, com tanta riqueza, com tantos ritmos. É muita história, é muita história num filme só, o que agigantou o desafio em termos de edição. Nós tínhamos muitas, muitas horas de filmagem, tínhamos muitas histórias. Nós, se calhar, temos material, indo lá mais uma vez ou duas, para fazer mais, pelo menos, dois filmes.

    Temos muito, muito, muito material. Com esta loucura de querer contar a história de onde vem e para onde vai a música da Guiné-Bissau. E sim, isso foi um desafio.

    Neste filme, o que é que é identificado como as raízes mais profundas da música da Guiné-Bissau?

    Nós decidimos arrancar com as duas principais linhagens que estão identificadas, que é a do Balafon e a da Kora. Que inclusive, segundo alguns registos, tinham aqui um papel de conselheiros do rei. Quando o rei precisava de tomar uma decisão, era a Kora, por exemplo, que ajudava o rei a tomar essa decisão. Ou seja, nós começámos mais neste lado, digamos, mais espiritual, mais místico da própria música, com estas duas grandes linhagens.

    Por isso é que o filme começa na aldeia de Tabatô, onde esta linhagem ainda se mantém viva e toda a aldeia é de músicos. E, obviamente, não podíamos deixar de passar pelas raízes das Mandjuandadi com a questão da tina. Porque se hoje em dia há um elemento que é transversal à música moderna, talvez seja mesmo a tina. E efectivamente, há aqui uma ligação histórica à Portugal com a tina, porque a tina é o balde de água, não é?! Mas que é tocado com meia cabaça dentro, ou a tina é cheia de água. Se calhar se não chegassem lá as pipas de vinho, se calhar o instrumento seria o outro, não é? Eu diria que são estas três as grandes raízes que nos conduzem depois ao longo do filme.

    Manuel Loureiro, quais os grandes desafios de colocar toda esta história em imagens?

    Manuel Loureiro, co-realizador do documentário Nteregu:

    Para já, acho que concordo com o Roger, realmente tínhamos muita coisa para contar num filme só. Porque como não havia nada, era preciso contar tudo. Pelo menos, assim já está contado. Umas vezes com mais espaço para a poesia, mais espaço para uma linguagem mais cinematográfica, outras vezes uma linguagem mais condensada e mais informativa, mas está lá.

    Esse, acho que era o primeiro passo. O que eu senti foi, em fases da história, dificuldade em termos de imagem, arranjar imagens para ilustrar aquilo que estávamos a falar. Nós temos as histórias contadas na primeira pessoa pelos entrevistados, mas há muito poucas imagens de arquivo.

    Há muito poucas fotografias de algumas pessoas que são mencionadas e que são essenciais. Eu não conseguia encontrar, e bem que procurámos. Depois há outras fontes de arquivo que eram inacessíveis ao orçamento e aos meios que nós tínhamos.

    Acho que foi isso um bocadinho mais... A maior dificuldade, se calhar, que nós sentimos a fazer este filme foi estarmos a fazer um filme com muito pouco dinheiro. Nós quisemos fazer o filme, fomos fazer o filme, tivemos alguns apoios logísticos. No entanto, para este filme sair, tínhamos que ter realmente um apoio monetário, porque nós temos que pagar os direitos aos artistas que entram, das músicas, etc.

    Uma das minhas maiores dificuldades, pelo menos falando por mim, é estar a editar, a trabalhar, a dar o litro, sem saber se o filme ia sair. Porque se nós não tivéssemos o dinheiro para pagar realmente os direitos de autor e respeitar esse trabalho de artístico de todos, o filme não sairia. Mas tudo acabou bem.

    Roger Mor:

    E esta é a segunda vez que acontece. Ou seja, nós avançamos com a ideia e felizmente depois há quem se junta a nós, que é o caso da União Europeia na Guiné-Bissau. Foi quem acabou por garantir toda esta pós-produção, como o Manuel estava a dizer.

    Porque estes são projectos praticamente de voluntariado, desta equipa central, desta equipa nuclear, que se desloca ao terreno. Os maiores custos que nós temos é depois arranjar um profissional cá, que nos ajude com a questão da edição, a questão dos direitos das músicas, a questão da pós-produção. Ou seja, toda esta pós-produção foi garantida pela União Europeia.

    Se nós tivermos o apoio do Instituto Camões e da Embaixada de Portugal na Guiné-Bissau, mas num lado logístico, o apoio também do Dr. Cornelio, que foi incansável. Já o apoio da Euroatlântica, que também nos financiou com as viagens, aqui numa parceria em que nós cedemos o Ntrudo para eles porem nas televisões dos aviões, que é uma das estratégias que nós temos aqui em comunicação. Por exemplo, nós fizemos uma premuta, demos o Netrudo à Euroatlântica e eles deram-nos as viagens para irmos fazer este segundo filme Nteregu.

    Curiosamente, agora o Ntrudo, este primeiro filme, já está nos aviões de longo curso da TAP também. E, neste último Carnaval, toda a gente que ia para o Rio de Janeiro, levou com o Carnaval da Guiné-Bissau a caminho do Rio. E tivemos imensas reações ao filme. Pessoas que nos diziam: “Eu não conhecia nada da Guiné-Bissau”. “Eu no próximo ano vou ao Carnaval da Guiné-Bissau.” E é isto também que nós queremos que aconteça com a música.

    É que as pessoas, com o Nterego, depois de ouvirem alguns dos nomes que nós temos, e nós temos grandes nomes; se me perguntassem qual é que acho que é o ponto forte deste filme, para além de trazer pela primeira vez o tema à tona, eu acho que é mesmo o facto de juntar ali alguns dos maiores nomes vivos da música da Guiné-Bissau. O nosso grande objectivo é contribuir exatamente para esta questão, de criar memória, de começar a criar um arquivo. Nos ajuda também a perpetuar a história da Guiné-Bissau.

    Como é que foi feito o convite, a selecção, dos diferentes artistas que aparecem? Uns vivem na Guiné-Bissau, outros vivem na Europa, em particular em Portugal. Estou-me a lembrar, por exemplo, de Eneida Marta, de Karina Gomes.

    Roger Mor:

    Começámos por partilhar com a maior parte dos músicos que nós íamos fazer este filme, e depois a vida encarregou-se de nos pôr no guião aqueles que estavam disponíveis.

    Manuel Loureiro:

    O processo foi interessante porque reforçou a questão, nós não queríamos fazer um filme sobre músicos, queríamos fazer um filme com músicos. Portanto, os que entraram, quiseram mesmo entrar. Mostraram interesse, disponibilidade, e fizeram um filme connosco. E acho que isso é importante naquilo que nós queríamos fazer. Acho que nesse aspecto o filme é bastante bem conseguido.

    É um filme com músicos, não sobre músicos. Um filme com músicos, que estou-me a lembrar de uma passagem em que a Carina Gomes, ela própria, se mostra surpreendida com a riqueza da música, da Guiné-Bissau, e de ritmos que ela acaba por descobrir neste contexto. Um estilo que é apresentado no filme pelo Ramiro Naka.

    Roger Mor:

    O Ramiro Naka é uma personagem central no filme. Eu acho que só mesmo quem está mais voltado para o mundo da música é que conhece o Ramiro Naka. O Ramiro Naka é um fenómeno, um fenómeno musical. Musical e em termos de pessoa. Ele é um filósofo, um poeta. Aliás, nós, agora, quando estivemos lá, quase que selámos um acordo de cavalheiros de fazer um filme só sobre ele. E ele ficou muito interessado, e eu gostava muito que isso acontecesse, porque ele de facto é de uma riqueza.

    É uma pessoa que, apesar de ter vivido muitos anos fora, sempre continuou muito ligado à Guiné-Bissau. Ele dizia sempre que tinha a sensação de ter uma dívida para com a Guiné-Bissau. E esta dívida, ele agora quer pagá-la.

    Construir aquela escola de música. Comprou um terreno onde estava a dinamizar um espaço para eles fazerem os ensaios. É uma pessoa que tem muito conhecimento da cultura da Guiné-Bissau, apesar de ter estado tantos anos fora.

    Além de ter sido modelo em Paris e ter montes de histórias, é um bom exemplo da riqueza daquelas vidas. Muitas vezes têm de sair de lá para conseguirem viver da música.

    Outra das formas de selecionar músicos, nós também queríamos muito ter músicos que não tivessem saído de lá. São duas realidades completamente diferentes. E isso está espelhado no filme. Tens pessoas que saíram efectivamente lá e criaram carreiras, nomeadamente em França, nos Estados Unidos, ou na China como Mandas.

    Em Portugal, a Karina Gomes, a Eneida da Marta, o Bruno Tuma. Mas, por exemplo, nós temos muitos músicos que nunca saíram de lá, como a Dulce Neves. Ela sempre fez questão de dizer, “Eu quero cantar cá, porque esta é a minha terra”.

    E temos uma série de nomes que se dividem entre o desafio de ficar e, muitas das vezes, o desafio de partir.

    E depois, desta geração mais consagrada, o filme termina abordando o rap e hip-hop feita por guineenses.

    Roger Mor:

    Foi uma parte que acabámos por não explorar muito, porque, para isso ser possível, tu quase tinhas de mostrar o que é o rap de outras latitudes para mostrar qual é a diferença rítmica daquele rap.

    Mas há uma diferença rítmica. Aquele ritmo composto da tina está presente no rap e é possível identificar. Agora, era preciso explorar isso mais.

    Mas, pronto, a diferença rítmica é uma delas. E depois tem a ver com a questão da história, que, obviamente, conta a história da Guiné-Bissau. E depois é a questão das línguas.

    Calcula-se que ainda existam 32 línguas do país e há muitos músicos que ainda fazem questão de agarrar e pôr no rap uma parte daquilo que é a língua materna. E são as diferenças.

    A ideia de acabar o filme com as novas linguagens, na realidade, agora que falo enquanto guionista, nunca foi a intenção, em termos de guião, muito pelo contrário. Era exactamente o contrário. Nós começávamos nas novas linguagens e iríamos acabar nas raízes. Só que depois houve aqui uma série de mudanças, porque as novas linguagens eram o ponto de partida para irmos à descoberta das raízes.

    Manuel Loureiro:

    Se bem que o filme, na verdade, acaba com uma má desbandade. O filme volta às raízes, sim. Exactamente. O filme passa de uma afrotina para um som de tina pura e dura. Que se liga bem. Ou seja, alguém que tenha ouvido mais atento vai perceber que mesmo nestas novas linguagens, este ritmo único, porque o ritmo da tina é único no mundo, não existe em nenhum outro país que tenha este ritmo.

    Roger Mor:

    Esta transição que o Manuel acaba de falar, ela ficou perfeita, porque nós saímos de uma afrotina, que é um braço do afrohouse, e entra de novo na tina pura e dura, ali em Bolama, como um ponto final do filme.

    No documentário há uma fase dedicada contributo da música durante o processo de libertação, de combate às tropas coloniais, e onde há uma grande referência a José Carlos Schwarz.

    Roger Mor:

    Eu queria só fazer aqui um pequeno aparte antes de responder à tua questão, que tem a ver com a frase inicial do filme. Quando há bocadinho perguntavas como é que surge o filme, na realidade a primeira vez que eu desejei ver o filme foi quando estava a fazer pesquisa nos arquivos lá na Guiné-Bissau e encontro aquela frase de um inquérito etnográfico de 1945 a dizer que a música guineense é muito pobre em ritmos, rica em barulhos, sons infernais e apitos metálicos.

    Esta frase, é uma das, se calhar, menos chocantes que eu li nestes questionários, mas é muito difícil ler estes questionários que Portugal escrevia sobre as antigas colónias. Acho que foi aí que senti a primeira vez vontade de fazer um guião sobre a música da Guiné. E, obviamente, que depois quando olhamos para a nossa cultura, também com o papel que a música portuguesa teve na questão de acabar com o regime, isto também se colocou, obviamente, na Guiné.

    O mais engraçado foi ver como as letras que estão associadas à resistência são todas elas, de facto, verdadeiras histórias orais. Ou seja, o verdadeiro papel da música na Guiné-Bissau é um arquivo oral, que é importante que ele não se perca. E enquanto não for feito este registo, a verdade é que todos os dias, possivelmente, acabam por se perder coisas que nunca mais se irão recuperar.

    E nas letras da (música de) resistência acontece isso. Por isso é que nós fizemos questão de ter traduzidas as letras, não só do crioulo, mas como das outras várias línguas. Porque, aí sim, percebemos qual é que é o verdadeiro papel da música numa sociedade sem escrita.

    Este filme começou por ser apresentado na Guiné-Bissau. Qual foi a reacção dos guineenses?

    Roger Mor:

    Sim, o Manuel foi para Nova Iorque, eu fui para a Guiné-Bissau. Dividimos.

    Foram realidades completamente diferentes, seguramente, porque a antestreia (na Guiné) foi no pátio da Embaixada de Portugal. De todos os eventos a que eu fui, acho que foi um dos mais concorridos da primeira Bienal de Arte Contemporânea da Guiné-Bissau. E mostrar um filme sobre música da Guiné, na Guiné-Bissau… Foi uma surpresa. As palmas, as pessoas dançavam, as pessoas reconheciam as letras. E quase que dava para fazer uma brincadeira de baixar o som do filme, porque a música iria continuar ao vivo com a plateia. Foi incrível! E as reacções? As reacções foram... foi um momento emocionante. Isto acontece nos dois filmes que fizemos.

     

    As pessoas têm um novo olhar sobre si próprias. Há quase que, ao longo do filme, injceções de auto-estima naquele público. Como viste, é um filme que tem imagens lindíssimas, que eu acho que, muitas das vezes, os próprios guineenses ainda não conseguem reconhecer em si.

    E, às vezes, quando vêem no grande ecrã essa beleza, isso contribui também para uma autoestima, reconhecimento, amor próprio. Acho que isso é importante.

     

    Manuel Loureiro, como foi apresentar o filme sobre a Guiné-Bissau em Nova Iorque?

     

    Manuel Loureiro:

    No Africa Film Festival. Foi muito interessante. Também foi muito bem recebido, mas por razões completamente diferentes. Aliás, quase opostas.

    Enquanto na Guiné-Bissau tínhamos toda uma plateia a rever-se, se calhar de uma maneira como nunca tinha visto, em Nova Iorque, o que eu senti foi que a plateia era composta, maioritariamente, por profissionais de rádio, que tinham, por exemplo, muitos programas de rádio de world music. No filme, vieram dizer, muitos deles, que tinham estado em dezenas, 30 e tal países africanos, e que não conheciam nada sobre a Guiné-Bissau. O que é muito estranho. Nós conhecemos um bocadinho da Guiné-Bissau.

    É quase absurdo. Os interessados em música não irem conhecer a Guiné-Bissau, porque é fortíssimo, é poderosíssimo. Eles, acho que sentem isso, e sentem essa vontade. Muitos deles disseram-me que têm que ir à Guiné-Bissau.

    Saí de lá com uma lista de e-mails, inclusive, para responder. Respondi com os nomes dos artistas, e com dicas, porque todos eles ficaram muito entusiasmados com a ideia de visitar o país. Eu acho que isso é muito bonito, e acho que o filme funciona.

     

    E depois de Nova Iorque e Guiné-Bissau?

     

    Roger Mor:

    O Nterego, depois, acabou por estrear no (Festival de Cinema) Festin, e ganhou o prémio do público, o que nos deixou muito contentes, como é óbvio.

    Depois passou em São Paulo, no In-Edit. Já temos algumas reacções também, nomeadamente algumas universidades estão interessadas em criar uma parceria connosco para mostrar. Vamos estar, creio, na Austrália. Ou seja, o filme está, surpreendentemente, a entrar em circuitos onde nós até nem tínhamos pensado que ele poderia entrar tão facilmente.

    E nós estamos a falar do New York African Film Festival, que é um dos principais festivais de filmes de música africana do mundo. Ou seja, para nós também é um sinal que, de facto, conseguimos atrair a atenção de grandes faróis que têm a luz ligada sobre a música mundial. Este filme agora vai correr os festivais de cinema, depois, possivelmente, vai passar para as televisões nacionais, quer em Portugal, quer na Guiné-Bissau. Depois, a longo prazo, ficará disponível no nosso site, o sermudança.pt. Eu acho que este pode ser um início muito interessante para dar continuidade a este projecto. Nós gostávamos de fazer mais documentários sobre música na Guiné-Bissau.

    Basta pensar que, se ainda existem 20 etnias que sejam, cada etnia tem o seu ritmo, tem os seus músicos, tem os seus instrumentos, a sua língua. Ou seja, basta pensar nisso e pensamos logo numa série documental.

     

    O apelo que eu gostava de lançar aqui às pessoas é que, quando tiverem a oportunidade de ver o filme, que invistam estes 90 minutos. Há todo um mundo novo, que as escolas não nos deram a conhecer, que os meios de comunicação continuam a não nos dar a conhecer. Há um euro-centrismo na nossa cultura, que muitas das vezes nos afasta de uma riqueza da cultura, que não está na nossa latitude, simplesmente. E essa riqueza, muitas das vezes, ajuda-nos a criar algo novo.

    Eu sou uma pessoa completamente diferente depois de ter lidado com a cultura guineense. Porque há ali uma riqueza que me torna a mim mais rico também.

    25 min
  • Reino Unido: Campanha de luta contra a importação de troféus de caça

    Há 10 anos atrás, um leão foi morto no Zimbabué por um caçador norte-americano. A notícia teria passado despercebida, mas o leão, que era conhecido e até tinha um nome, Cecil, vivia numa reserva natural.

    A caçada foi ilegal e o incidente causou indignação por todo o mundo. O caso tornando-se emblemático na luta contra a caça desportiva de animais selvagens e contra os troféus de caça, como as cabeças ou as peles, usadas frequentemente como objectos de decoração.

    No Reino Unido, Eduardo Gonçalves lançou uma campanha para tentar ilegalizar a importação de troféus de caça. A campanha já teve o apoio de figuras públicas como o músico Ozzy Osbourne e a atriz Judi Dench.

    A RFI falou com Eduardo Goncalves sobre o impacto da morte do leão Cecil e sobre a realidade em Moçambique e Angola.

    "Há cerca de 10 anos, houve um caso que apareceu na comunicação social em todo o mundo, que foi o caso de um dentista norte-americano que matou um leão no Zimbábue. Toda a gente ficou muito chocada com isto e pensou que era um caso pontual. Mas, de facto, o que acontece é que ainda existe uma indústria internacional da caça desportiva de troféus de animais. Nos últimos 10 anos foram mortos cerca de 10 mil leões. Só 10 mil leões. E dezenas de milhares de outras espécies, muitas delas ameaçadas.

    Começámos esta campanha e já aqui no Reino Unido todos os partidos agora querem acabar com as importações dos troféus, ou seja, desincentivar os caçadores britânicos de irem para a África ou para o Norte da América para caçar leões, elefantes, ursos, etc., mas tem levado bastante tempo.

    No entanto, há vários países que já avançaram com proibições de troféus. Por exemplo, em França já não é possível trazer leões para casa. Na Bélgica, na Holanda, também na Polónia, e também está-se a falar de fazer a mesma coisa na Itália, na Alemanha, Finlândia, também na Austrália, e também até nos Estados Unidos já é proibido trazer algumas espécies, por exemplo, chitas, porque são espécies ameaçadas.

    Do ponto de vista da conservação da natureza, eu penso que não há justificação nenhuma para estas actividades. Nos anos 1970, por exemplo, havia cerca de 200 mil leões. Hoje há cerca de 20 mil. E todas as espécies caçadas pelos caçadores a troféus verificam-se na mesma situação. As populações estão a diminuir. E, numa altura em que tantas espécies encontram-se ameaçadas e, em alguns casos, mesmo em vias de extinção, não me parece que isto faça qualquer sentido."

    Mas a suspensão deste tipo de turismo não iria prejudicar as economias locais?

    "Este sector não tem trazido benefícios às populações locais, apenas aos grandes proprietários. Se olharmos para o caso do Moçambique, que está neste momento a fazer uma grande aposta neste sector, presumivelmente porque acha que isto irá trazer benefícios económicos e ajudar a promover o desenvolvimento das zonas rurais. Mas há aqui um problema: o mercado e a procura está a diminuir. Se olharmos para o volume total das exportações de troféus dos países, por exemplo, da África do Sul, que é o líder no mercado africano, o volume das exportações, hoje em dia, é metade do volume de há 10 anos atrás. Trata-se de uma actividade, de uma indústria, que não tem viabilidade a longo prazo, não tem sustentabilidade económica. Houve um estudo publicado na África do Sul há pouco tempo que mostrou que se a África do Sul fizesse uma mudança organizada deste sector para o eco-turismo, portanto, os safaris fotográficos, havia cerca de 11 vezes mais postos de trabalho criados nas zonas rurais."

    Porque é que houve uma aposta recente na caça desportiva em Moçambique?

    "No caso de Moçambique, trata-se de um fenómeno bastante ou relativamente recente. Há alguns tempos atrás não havia quase nenhuma actividade, isto também porque tem havido algum desgaste das populações selvagens em outros países sul-africanos. Por exemplo, na Zâmbia, no Zimbábue, na África do Sul até, as populações de leões e elefantes já foram todos caçados. Praticamente não há populações restantes nesses países. Portanto, agora as empresas envolvidas nestas indústrias estão olhando para outros países [onde] não tem havido tanta tanta caça desportiva, e Moçambique é um desses países. Portanto, há cada vez mais empresas norte-americanas e inglesas também que estão criando bases de actividade em Moçambique."

    E qual é a realidade em Angola?

    "Os últimos dados por parte das autoridades internacionais indicam que não houve qualquer caça a troféus em Angola. Houve em anos passados, mas temos verificado que populações, por exemplo, de leões e de elefantes, neste momento em Angola são muito inferiores às populações que houve antigamente. Isto não apenas por causa da caça desportiva, mas de facto a caça desportiva tem contribuído para esse problema. Neste momento não há animais para caçar. Ou seja, a população de leões neste momento em Angola é quase não existente."

    E quais são os animais mais procurados pelos caçadores? 

    De facto, os leões continuam a ser uma das espécies mais procuradas, mas há outras que são ainda mais populares. Ou seja, os ursos são uma das espécies mais populares. Até o urso polar, que encontra-se em vias de extinção, mas também as girafas, as zebras, os leopardos. Essas são algumas das espécies mais procuradas pelos caçadores.

    Realmente tem que haver um esforço de conservação destas espécies. Eu antigamente trabalhava na WWF e integrava uma equipa que publicava um estudo de dois em dois anos, que chamava-se o "Living Planet Report" e que mostrava as populações dos animais selvagens por todo o mundo, e verificámos no último relatório, em 2024, que as populações desde os anos 70 têm diminuído em cerca de 70%.

    Portanto, estamos perante de uma crise do ponto de vista da conservação da natureza e dos animais selvagens. Não faz sentido nenhum agravar ainda mais o problema e contribuir cada vez mais a esse problema com uma actividade completamente desnecessária, que não traz benefícios ao homem ou às pessoas, nem ao caçador, nem às populações locais, e muito menos às populações dos animais selvagens.

    O Eduardo conseguiu o apoio de pessoas de muito renome, incluindo a filha do Elvis Presley. Pode contar-nos como é  que isso aconteceu? 

    Eu fiz parte de um filme que saiu já há uns anos atrás, em que também apareceu a Priscilla Presley, e era sobre mais ou menos o mesmo tema. Ficámos com o contacto e então eu pedi: Dona Priscila, estou a escrever este livro, não sei se estará interessada neste livro, nesta campanha, mas se quisesse contribuir com umas palavras, eu ficaria muito agradecido. E ela respondeu logo. Eu recebi um email dela, em que ela tirou uma fotografia a si própria com uma t-shirt nossa que tem o desenho de um leão no meio. 

    O que é que espera alcançar a com a sua campanha?

    "A curto prazo, eu acho que devia haver uma moratória. Para trazer os troféus de espécies ameaçadas é preciso que haja autorização para importar esses troféus quando se trata de espécies ameaçadas. Por exemplo, se uma pessoa quer trazer para casa uma cabeça ou o corpo de um leão, é preciso que as autoridades portuguesas ou as autoridades belgas ou britânicas deem autorização ao caçador para trazer esse animal para casa."

    9 min
  • O outro lado do palco do festival de Avignon

    No centro do Festival de Avignon, muito para lá dos holofotes, Ivone Sens e Débora Carvalho garantem que tudo acontece com precisão e paixão. Entre bilhetes, bastidores e contactos internacionais, revelam-nos o lado invisível do teatro, onde o cansaço é diário, mas o brilho no olhar não falta. Um retrato íntimo da equipa que faz o palco levantar voo.

    Ivone Sens e Débora Carvalho integram a equipa do Festival de Avignon. Trabalham nos bastidores, longe da visibilidade do palco, mas com funções essenciais para o festival. São parte de uma estrutura logística e organizativa que garante que os espectáculos decorram sem falhas, desde a comunicação institucional até à gestão das reservas para as companhias.

    Débora Carvalho ocupa-se da bilheteira reservada às companhias. Corre de manhã cedo até à noite, numa coreografia de nomes, lugares e pedidos de última hora. Sabe de cor os espectáculos mais procurados Le Canard Sauvage ou NOT e conhece os ritmos frenéticos que antecedem cada estreia. “Há sempre filas enormes, pedidos em cima da hora, e a necessidade de acolher com sorriso mesmo quando o relógio já pesa”, conta.

    Ivone Sens é a ponte entre os artistas e o festival. Trabalha na comunicação, mas faz muito mais do que divulgar: colecta dados, organiza biografias, monta fichas técnicas, e prepara o terreno para que a arte aconteça sem tropeços. “É a minha primeira vez em Avignon, e já parece uma vida. Começámos em Janeiro, e agora ver os espectáculos em palco é como ver um filho crescer”, conta, com entusiasmo.

    Ambas chegaram a Avignon por amor ao teatro e à cultura, vindas de percursos distintos, mas movidas pelo mesmo impulso: fazer parte do festival. Débora, com cinco anos de festival, fala de uma aprendizagem contínua: “Nunca tinha trabalhado em bilheteira. Aqui, aprendi a resolver problemas em várias línguas, a lidar com um sistema gigante e a não perder o pé mesmo quando tudo parece andar depressa demais”.

    Ivone vê no trabalho uma forma de concretizar a vocação. “Sempre quis comunicar cultura. Aqui, estou a fazê-lo com intensidade. É exigente, mas incrivelmente gratificante”, explica. Para ambas, o contacto diário com artistas, técnicos e espectadores constrói um tecido invisível que sustenta o festival e que raramente é visto.

    Há um brilho especial quando falam dos espectáculos que conseguem ver. “Mesmo sentada na plateia, depois de horas de trabalho, sinto que faço parte daquele momento”, diz Débora. E Ivone completa: “Estar nos bastidores e depois assistir ao resultado é como fechar um ciclo. É perceber que, mesmo fora de cena, somos parte da criação”, conclui.

    10 min
  • Sítios da Guiné-Bissau e de Moçambique obtêm reconhecimento de Património Natural da UNESCO

    Dois recintos da África lusófona passaram neste domingo a constar da lista do Património Mundial Natural da humanidade.

    E isto segundo decisões da UNESCO, aqui em Paris.

    Foi o caso do Parque Nacional de Maputo, em Moçambique, após um longo processo de 14 anos.
    Também o arquipélago dos Bijagós, já Reserva da Biosfera desde 1996, passou a ser desde este domingo Património natural segundo decisão da Organização das Nações Unidas para a educação, ciência e cultura.
     

    Com uma área de 1 718 quilómetros quadrados, o Parque Nacional de Maputo é povoado, nomeadamente, por girafas e elefantes, está também ligado ao Parque das Zonas Húmidas iSimangaliso na África do Sul, que também já foi classificado como património mundial.

    Miguel Gonçalves, administrador deste Parque moçambicano, admitiu estar-se perante um momento deveras gratificante por a UNESCO ter neste domingo atribuído o estatuto de Património mundial a este recinto.

    14 anos a trabalhar neste processo e eu ainda estou para perceber o que é que estou a sentir. É uma emoção muito grande e um orgulho muito grande. É um orgulho na equipa toda do Parque Nacional. É um orgulho e um agradecimento a uma série de pessoas que trabalharam connosco neste processo. É o primeiro sítio Património Mundial Natural em Moçambique, no nosso país. É um sentimento de orgulho grande. Vamos ver. Temos expectativas grandes. Acreditamos que a exposição que estatuto vai trazer o parque vai beneficiar grandemente o Parque e, obviamente, todas as comunidades que circundam o Parque. É todo um desenvolvimento. A volta do parque muito focado na conservação. Basicamente, é isto: é a exposição que traz é trabalhar, agora, trabalhar.

    Acho que há um motivo para ter alguma preocupação para o facto de, se calhar, haver uma pressão demográfico de visitantes que possa vir a ameaçar, a colocar em risco estes habitats ?

    Nesta altura é um bocado prematuro. É sempre alguma coisa que temos que considerar. Não é a partir do momento também que obtemos este estatuto, tornámo-nos mais atractivos. Isto foi tudo acautelado, foi tudo pensado durante estes 14 anos. E agora, obviamente, vamos voltar para Moçambique, para casa e vamos ter que sentar com os vários sectores do governo para definir estratégias, porque acabámos de dizer ao mundo que temos um local especial que pertence à humanidade. E agora há uma responsabilidade acrescida a nossa com Moçambique, de o proteger.

    Como é que viveu este momento aqui? Havia muito nervosismo antes de se ter a certeza de que isto iria para a frente: muito stress ?

    Ui ! Olha, como disse, são 14 anos. A noite passada não dormi. Houve muitas noites nos últimos dois meses não dormidas, mas sim muito, muito mesmo. Ansioso para voltar para casa, para estar com os meus e festejarmos !

    Também o arquipélago dos Bijagós, já Reserva da Biosfera desde 1996, passou a ser desde este domingo Património natural segundo decisão da Organização das Nações Unidas para a educação, ciência e cultura.

    Um arquipélago de 88 ilhas, incluindo 21 habitadas.

    E com três parques naturais, nas ilhas de Orango, em João Vieira e Poilão e nas ilhas Urok.

    Uma área natural onde nidificam tartarugas, vivem hipópotamos e se alimentam aves migratórias, provenientes do norte da Europa.

    Viriato Cassamá, ministro guineense do ambiente, recorda que tinha havido um chumbo à primeira candidatura há mais de 10 anos, pelo que agora todas as providências tinham sido acauteladas para se obter o êxito pretendido.

    Houve várias recomendações por parte do Comité do Património Mundial e nós, ao longo desses últimos anos, trabalhámos arduamente a fim de podermos cumprir com todos os pressupostos elencados na altura pelo Comité e, felizmente, conseguimos cumprir com todos esses pressupostos. A razão pela qual reapresentámos a candidatura do arquipélago dos Bijagós ao sítio de Património Natural da UNESCO.

    Estamos a celebrar porque é um acontecimento que todo o povo e amigos da Guiné-Bissau tem acompanhado nestes últimos meses e, felizmente hoje, pela reacção de todo o pessoal, nota-se que todo o mundo está contente porque trata-se de um desígnio nacional, um património mundial natural no nosso país é muito importante. De mais a mais, é o primeiro que nós temos ao nível da Guiné-Bissau. Está todo o mundo contente. Estamos a festejar não só aqui em Paris, como também em Bissau, na sede do Instituto da Biodiversidade e Áreas Protegidas. Hoje, às 19h de Bissau, iremos celebrar, mas quando regressarmos vamos ter que celebrar em força esta acontecimento.

    Mas qual será, de facto, a grande diferença entre a Reserva da Biosfera que já era? Este arquipélago guineense  agora chegar a este patamar. Prevêem-se grandes mudanças ?

    A Reserva da Biosfera é uma classificação que não chega ao patamar do Património natural mundial. Com certeza... nós estamos muito contentes porque a partir de agora, a Guiné-Bissau irá figurar no mapa do mundo no que toca à conservação da biodiversidade e do ambiente no seu todo, não é?

    Mas não é uma faca de dois gumes ? Ou seja, mais visibilidade, maior notoriedade, talvez mais turismo, mais visitantes, maior pressão demográfica. E, de facto, o ambiente destas 88 ilhas é extremamente frágil, vulnerável, há muitas insuficiências a nível de infra-estruturas sanitárias e tantas outras.

    Como é que vai ser gerir isto? E em que medida é que, de facto, o que é o "Tesouro" da Guiné-Bissau, em relação a esta área natural, pode ser mesmo preservada sem um afluxo que possa vir a colocar em causa este "tesouro"?

    Sem sombra de dúvida. Por isso é que há o princípio do desenvolvimento sustentável nós temos que saber equilibrar o desenvolvimento económico, cultural e ambiental, não é?

    E é nesta base que se propôs a candidatura. Nós temos a plena consciência dos possíveis perigos, mas vamos trabalhar nisso porque agora a classificação passou, não é?

    Mas vamos ter que trabalhar nisso. Vamos ter que ter um plano de acção. Como é que vamos gerir isto tudo? Porque nós temos uma política da sustentabilidade no país e vamos promover muito mais o turismo sustentável, porque esta passagem para o Património Mundial natural da UNESCO tem uma importância não só estratégica como também ecológica, cultural e socio-económica. Não é pelas seguintes razões que eu posso elencar aqui. O reconhecimento internacional do valor excepcional do património natural da Guiné-Bissau vai, com certeza, em termos de biodiversidade e conservação ambiental, como eu disse, colocar a Guiné-Bissau no mapa global da excelência Ambiental.

    Também representa o reconhecimento oficial da comunidade internacional do valor universal que o arquipélago tem, particularmente pelas suas zonas húmidas, ecossistemas costeiros, florestas, mangais, praias onde se edificam as tartarugas marinhas e as zonas de alimentação de muitas aves migratórias que saem mesmo dos países nórdicos da Europa.

    E como segundo ponto, nós apontámos muito o reforço da protecção e da conservação ambiental que irá permitir, com certeza, fortalecer os mecanismos de gestão e de conservação dos ecossistemas sensíveis através de parcerias técnicas e financeiras com algumas instituições internacionais.

    Também iremos atrair muitos investimentos para protecção da biodiversidade. Neste caso, a protecção das espécies emblemáticas como o manatim africano, que estão em vias de extinção, as tartarugas marinhas, os hipopótamos e algumas aves migratórias.

    Também temos que promover o "saber fazer" tradicional, porque o que temos nos Bijagós é graças ao "saber fazer" tradicional das comunidades ancestrais e tem posto em prática e passar este conhecimento para as novas gerações, não é? Por isso é que temos todo esse manancial de biodiversidade no arquipélago dos Bijagós. E temos que continuar e valorizar o saber fazer tradicional, preservar a identidade cultural única dos Bijagós. Nós pensamos que essa nossa política irá continuar. Irá ser o apanágio de toda a nossa acção. A sua inscrição também trará, com certeza, as oportunidades do desenvolvimento sustentável.

    E o isolamento relativo em termos de acesso às comunicações aleatórias não podem ser um calcanhar de Aquiles para implementar muitas destas políticas ?

    Sem sombra de dúvida. Por isso é que existe um fundo do Comité do Património Mundial. É este fundo. Ainda tive reuniões paralelas antes de ontem. Fundo do Comité do Património Mundial está disposto para acompanhar a Guiné-Bissau. O arquipélago existe. Já há turismo na zona, independentemente de ser o Património natural mundial da UNESCO. Como disse e bem, já era Reserva da Biosfera. E, mas nós temos estado a equilibrar o turismo com a preservação da biodiversidade.

    Portanto, não será só Bubaque. João Vieira Outras ilhas poderão vir a ser apostas deste turismo tão ligado para o meio ambiente ?

    Sem sombra de dúvidas, sim, sim.

    10 min
  • Estreia em França do filme português "O riso e a faca", rodado na Guiné-Bissau

    A longa metragem "O riso e a faca" do português Pedro Pinho estreou nesta quarta-feira em França.

    O filme que na secção "Un certain regard" do Festival de cinema de Cannes, em Maio passado, tinha obtido o prémio de melhor actriz para a luso cabo-verdiana Cleo Diára.

    A obra, filmada essencialmente na Guiné-Bissau, conta o percurso de Sérgio, jovem engenheiro ambientalista português, que vem trabalhar no projecto de uma estrada a ligar o deserto à floresta.

    Sérgio vai envolver-se num triângulo amoroso com dois habitantes, e fica apreensivo ao se aperceber de que o seu antecessor tinha desaparecido misteriosamente.

    A equipa deslocou-se a França para esta estreia.

    Falámos com os actores Jonathan Guilherme, do Brasil, Sérgio Coragem, o protagonista, de Portugal, e Cleo Diára, luso cabo-verdiana, bem como com o realizador luso Pedro Pinho, à margem de uma ante estreia na região de Paris.

    Este começa por se referir à importância desta primeira estreia, fora do circuito do Festival de Cannes.

    Pedro Pinho: Esta é a primeira estreia. A seguir a Cannes. Ou seja, é o primeiro território, o primeiro país onde vamos estrear o filme em sala, comercialmente. E até agora está a correr muito bem. A reacção da crítica é maravilhosa. Temos tido uma presença muito boa em tudo o que são canais de comunicação, jornais. É graças à Meteore que são parceiros desde há muito tempo. Mathieu e Simon são os distribuidores franceses. Temos uma estreia em 9 salas em Paris e 65, 66 salas em toda a França. Portanto, há muitas possibilidades para toda a gente vir ver o filme. É um filme que diz muito a toda a gente, mas que eu acho que é especialmente apelativo a toda a gente que partilha esta língua nossa comum, pelo menos dos actores que estão aqui presentes, que é o português. E portanto, convidamos a vir, a vir ver o filme e depois, eventualmente, partilhar connosco essas impressões. E pelas redes sociais e por aí fora.

    Jonathan Guilherme, você veio da América do Sul, do Brasil, atravessou o Atlântico para ir até à Guiné-Bissau. Como é que foi esta primeira experiência africana, com este elenco sob a batuta do Pedro Pinho?

    Jonathan Guilheme: Uau! Foi muito especial. Tem sido muito especial, muito interessante, porque eu nunca imaginei que eu conseguiria estar onde eu estive na Guiné-Bissau e conhecer pessoas com quem eu tenho partilhado essa trajectória. O Sérgio Coragem, a Cleo Diára. Foi um encontro muito bonito, que já começou em Portugal, porque ali a gente começou fazendo nosso laboratório dos actores. E aí logo eu fui para Bissau passar 15 dias. E esses primeiros 15 dias aí eu conheci a Marcelina, que também tá no filme. Ali eu conheci o Cleiton, conheci todo aquele núcleo que tá muito partilhado comigo no filme. E foi ancestral. Acho que a palavra que define muito isso é o encontro de ancestralidade. Acho que ali a gente conseguiu encontrar mais que os nossos corpos, nossas mentes, nossas ideias. A gente conseguiu encontrar os nossos espíritos e curar feridas também.

    O Brasil tem muito de africano. Há ali uma conversa importante no filme onde se fala de graduação cromática. "Eu sou mais negro do que tu. Tu és branco porque és só mulato, ou és só mestiço". Como é que isso mexeu consigo e com a forma como os brasileiros numerosos de origem africana, se vêem?

    Jonathan Guilherme: Eu acho que isso nunca vai deixar de mexer comigo, porque sempre vai mexer quando eu entro nesse assunto. Porque eu fui para lá com essa perspectiva minha, de pessoa negra, de uma pessoa do Brasil que sempre escutou que eu sou daquele continente, que eu fui escravizado, trazido para o Brasil. Então eu fui para lá com essa consciência de que eu era essa pessoa. Mas chegando lá, eu também entendi que eu sou uma pessoa branca, também. Então, basicamente é um pouco esse encontro que me parece até um pouco difícil de assumi lo. Mas a Marcelina falou que eu tenho que falar.

    Sérgio Coragem: Você foi, então, numa epopeia de Portugal até à Guiné-Bissau. Agora está a ver o filme a germinar e estrear nos ecrãs internacionais. Em que estado de espírito em que se encontra agora? Como é que digeriu esta experiência toda? Agora que já passaram alguns meses sobre a pressão de Cannes, por exemplo.

    Sérgio Coragem: Então o que eu posso dizer é que parece que estou a viver um pouco algo virtual. Parece que é um sonho, ao mesmo tempo que é bastante real, porque estamos neste momento em França e a viver essa experiência. De facto, é muito importante que possamos também estar aqui presentes juntos, não só a partilhar com o país e com o mundo. Mas a partilhar entre nós o que vai reverberando da experiência de cada um das histórias que cada um vai vivendo. Quanto à digestão do que foi não só fazer o filme e estar em Cannes, acho que é uma digestão que vai durar quase até eu morrer, penso eu.

    Cleo Diára, o seu país de origem e acabou de festejar 50 anos de independência. No próximo sábado será São Tomé e Príncipe. Estamos nessa saga, não é, é meio século ?! Eu sei que você reivindica muito a sua africanidade e a sua pertença à ilha de Santiago, Cabo Verde. Como é que é? Cannes já está a mudar a sua vida. Imagina em relação à visibilidade que isso lhe está a dar?

    Cleo Diára: Eu reivindico muitas coisas, não só Cabo Verde como também Portugal. Acho que ficou esse mal entendido sobre algo que eu disse que vinha com muitas outras coisas, mas eu gosto sempre de frisar isso. Acho que sou um corpo do mundo e não quero que o mundo me coloque em caixinhas, porque eu sei aquilo que sou e eu decido aquilo que sou. Não é o olhar externo que decide aquilo que sou. Antes de comentar isso, queria só acrescentar outras coisas daquilo que o Pedro disse que para além do português, temos também o cabo verdiano, o guineense. Temos muitas outras línguas que possam também trazer outras pessoas. Que nos interessa também que a comunidade africana venha, que se sinta representado porque estão representados no filme como a comunidade brasileira.

    Então atrevo-me a dizer que temos aqui os PALOPs todos podem vir, que há espaço para todos nós, para todas nós. Relativamente ao mudar a minha vida, eu não sei. Sou uma pessoa muito pé no chão e eu acredito muito que o meu trabalho é que me tem levado a sítios. E é sobre isso que eu vou estar sempre ancorada, é continuar a trabalhar, continuar a sonhar, continuar a co-criar e continuar a fazer trabalhos que eu acredito e a dar o melhor de mim. A única coisa que eu posso fazer é dar o melhor de mim, aquilo que vem a seguir são sempre presentes que a vida vai nos dando. Então, eu acredito muito no trabalho, no trabalho muito bem feito. E esse trabalho foi reconhecido.

    Só é possível porque eu trabalhei com essas pessoas, porque eu trabalhei com esse realizador. Um actor não é sozinho. Mesmo que eu esteja a fazer um monólogo, vou sempre precisar de olhar de fora. E eu queria mesmo que ficasse assente que não é o prémio da Cleo Diára É um prémio do Riso e da Faca. E de um conjunto de pessoas que fizeram esse trabalho.

    Vocês parecem uma família tão coesa !

    Cleo Diára: É por isso temos realmente um grande filme, porque foi um trabalho que muita gente deu muita coisa. Todos nós aqui demos muito de nós, deixamos muito de nós. Atrevo-me a dizer, é um trabalho de sete anos do Pedro Pinho que ele coloca nesse filme. É um trabalho de muitos meses do Sérgio e é um trabalho de muitos meses do Jon. É um trabalho de muitos meses meus. Trabalhámos antes do filme. Trabalhámos durante o filme. Então, é um trabalho incansável de pessoas que acreditavam muito naquilo que estavam a fazer. Eu acho que isso se vê no filme. Acho que também o filme traz esse acreditar de uma equipa inteira que deslocou-se da sua casa e que foi para lá atrás de um sonho que começou com o Pedro Pinho e que foi indo para cada uma das pessoas que estão nesse filme. E queremos todos, e acho que posso falar por nós todos, agradecer à produção, à distribuição desse filme por termos sentido super bem tratado, super acarinhados, super bem nutridos. E não é todas as vezes que trazem actores de Portugal ou de Espanha para virem a uma estreia. Então deixamos aqui a nossa gratidão por tudo que temos vivido e pela forma como temos sido tratados.

    Então Pedro, esta família vai continuar a trabalhar junta ?

    Jonathan Guilherme: Gostámos ! Gostámos !

    Pedro Pinho: Infelizmente isso não depende só de mim. Ou seja, eu acho que é muito importante também que esta projeção e esta visibilidade de um filme português contribua para este tipo de trabalho ser valorizado em Portugal. E se perceber que todo o esquema de financiamento do cinema em Portugal é uma coisa sem a qual não é possível fazer estes filmes. Porque o mercado português é muito pequeno e porque nós precisamos mesmo de ter um conjunto de políticas que apoiem a produção cultural, não só do cinema, mas também do teatro e por aí fora. E, portanto, isso não depende só de mim. Mas a verdade é que eu acho que, mais uma vez, também como a Cleo dizia, acho que posso falar por todos nós, porque os laços que criámos ao longo deste processo são coisas que vão ficar para o resto da vida, num lugar do coração muito especial e que nos havemos de encontrar muitas vezes, em muitos lugares.

    12 min
  • Orlando Pantera, documentário premiado de Catarina Alves Costa sobre legado do músico cabo-verdiano

    Orlando Pantera é o filme de Catarina Alves Costa sobre o músico e compositor cabo-verdiano cuja vida foi interrompida aos 33 anos, um dia antes da viagem que o levaria ao estúdio para gravar o tão aguardado primeiro registo discográfico.

    O documentário teve a estreia mundial no Festival de Cinema IndieLisboa, onde, de salas sempre esgotadas, ganhou o prémio principal da secção IndieMusic e conquistou o Prémio do Público para Longa Metragem.

    Orlando Pantera é uma lenda que promoveu a reinvenção do som de Cabo Verde ao estabelecer a fusão entre a contemporaneidade e a ancestralidade com uma sensibilidade que não deixa ninguém indiferente. Pantera criou temas intemporais onde o que se fixa está num constante porvir e pintou no céu uma estrela polar.

    Entre as imagens de arquivo, os testemunhos e as encenações musicais, a obra de Catarina Alves Costa estabelece uma continuidade onde a ponte entre passado e presente aponta para o futuro.

    O filme, que conta com os testemunhos de artistas como Mayra Andrade, Princezito e Mário Lúcio, entre outros, demonstra a influência inspiradora de Pantera e oferece-nos um momento de comunhão.

    A RFI falou com a realizadora em Lisboa. Catarina Alves Costa começa por revelar como surgiu o documentário Orlando Pantera.

    Catarina Alves Costa: A ideia de fazer este filme é uma história já bem antiga. Em 2000 eu estive em Cabo Verde, estava na altura a fazer um outro filme, o Mais Alma, e estava também a fazer o Arquitecto e a Cidade Velha, que é um filme rodado e preparado nessa altura, e estava a viver no Mindelo, em Cabo Verde.

    Um dia fui assistir a um concerto do Pantera no Mindelo, um concerto que tinha pouquíssima gente na sala, estavam, não sei, no máximo umas 10 pessoas a assistir ao concerto do Pantera. O Pantera não era conhecido, ainda não tinha feito o seu caminho, e, na verdade, foi um ano antes dele ter morrido que eu vi este concerto. Este concerto tocou-me muito. Como eu estava na altura a fazer um filme sobre a vida dos artistas criativos, da dança, da música, jovens em Cabo Verde, como é que eles faziam para conseguir desenvolver a sua arte, e o Pantera parecia que cabia muito naquilo que eu estava a fazer. Interessou-me muito aquela coisa de uma pessoa que está a cantar uma música que parece que vem de um lugar que é ao mesmo tempo um lugar do passado, da tradição mais afro, mais ancestral, dos escravos, daquela coisa muito batuque, muito forte, e ao mesmo tempo é uma espécie de futuro. Porque ele está ali, é completamente contemporâneo, faz umas vocalizações jazzísticas, e pronto. Na altura ele tinha 30 e poucos anos, e eu também, portanto, estávamos numa idade em que acho que as coisas … . A coragem da música dele também me tocou muito. E eu, na altura, logo a seguir ao concerto fui falar com ele e disse:

    - Olha, eu gostava de conhecer um pouco melhor o teu trabalho.

    - Ah, mas eu vivo na ilha de Santiago, vivo na Assumada, mas apareçam lá. (Era eu, que fazia câmara, e o Olivier Blanc que fazia som) Vão lá, apareçam e falamos.

    E no dia seguinte, eu e o Olivier fomos para a Assumada. Fomos-lhe bater à porta de casa. Aliás, há umas cenas que aparecem neste filme,  dele em casa a cantar o Lapidu na bô, engana-se na letra, que foram filmadas nesse dia em que nós chegamos lá e almoçamos com ele e com a Carla, a Darlene era pequenina. Filmamos logo esse material. À tarde fomos com ele a uma tabanca. Ficámos ali dois ou três dias com o Pantera.

    O Pantera um dia disse-me: já que vocês têm um bom equipamento de som, podiam gravar as minhas músicas, porque eu não tenho gravações, assim, de qualidade.

    E nós: Tudo bem!

    Combinámos com ele na Casa Palha, que era num jardim, no meio da cidade. Ele cantou e tocou umas cinco músicas, que são as que estão no filme. Quando ele aparece sozinho com a guitarra, foi feito nessa altura. E foi assim que eu fiquei com esse material durante estes anos todos. Porque, entretanto, o Pantera morreu e eu nunca mais peguei neste material. Por pudor, por não saber muito bem o que fazer com isto. Por também não saber muito bem como lidar com esta morte prematura de uma pessoa que eu tinha conhecido de uma forma tão breve, tão intensa. Então, foi preciso estes anos todos, se calhar, para que isto acontecesse.

    E após estes anos todos, o que é que a motivou a decidir avançar para o filme?

    Um dia recebi um e-mail da Darlene a dizer: Olá, sou filha do Pantera, vivo em Lisboa, e gostava de te conhecer. Vamos tomar um café? Encontrámo-nos no Rossio, fomos tomar um café e ela disse-me: olha, eu não me lembro quase nada do meu pai, eu tinha seis anos quando o meu pai morreu, mas o que eu conheço do meu pai foi o que eu vi no Mais Alma, no teu filme. A maneira dele andar, dele rir, dele falar. Então, as memórias que eu tenho do meu pai são feitas, são gravadas por ti, então por causa disso quis-te conhecer. E foi assim só uma coisa de uma miúda a querer conhecer e de conversarmos um bocado.

    Um ou dois anos depois, um dia ela ligou-me, foi lá à casa e falou comigo da ideia de fazermos um documentário sobre o pai. E eu disse, `bora lá, vamos fazer. Eu tenho material, tu tens material, tens os direitos das músicas. Mas queremos fazer um bom projeto, um projeto bonito e eu preciso de tempo, preciso de pesquisa, sou antropóloga. Lá lhe expliquei a cena toda, sou antropóloga, preciso perceber as coisas de outra maneira, tenho uma outra

    complexidade, não quero fazer uma coisa a romantizar, o artista, que eu acho que ele não era, quero mostrar a pessoa. E ela: “claro, claro! Tudo bem!”. Começámos num processo de trabalho. Entretanto veio a Daniela Vitorino, uma produtora brasileira que está a viver em Lisboa,  que eu convidei para entrar no projecto. E nós as três começámos a conversar sobre o que é que podia ser este filme. E daí nasceu um projeto, um guião.  Concorremos a dinheiros, e, portanto, todo este processo  levou tempo.

    Qual foi o grande desafio, ou os grandes desafios, para a construção deste filme?

    O grande desafio era: Isto é um filme sobre a história de vida do Pantera, com arquivos e voz-off das entrevistas? Ou isto é um filme, hoje em Cabo Verde, acerca da maneira como a música dele ainda permanece lá em Cabo Verde. As pessoas sabem, tocam e cantam as coisas dele, e encontram-se, há ali um encontro em torno do Pantera? Ou isto é um filme sobre uma filha à procura do pai, de saber quem era o pai, de conhecer o pai?

    São os dilemas próprios dos filmes. Será sempre a minha história, será sempre uma história subjetiva contada por uma realizadora que sou eu. Portanto, são decisões próprias que não dependem de ninguém mas que têm que vir do nosso coração. Portanto, estes foram os dilemas com os quais nós fomos vivendo. E, de certa maneira, eu deixei um pouco tudo em aberto, na rodagem, para decidir na montagem o que fazer. Portanto, fiz tudo, recolhi muitos arquivos, fiz muitas entrevistas, mas também filmei tocatinas em Cabo Verde, que foram organizadas por mim, por nós, pela equipa, com músicos lá.

    Levámos as pessoas lá para um vale do interior da Ilha de Santiago, lá para a Cidade Velha, durante um dia. Ficámos lá. Encomendámos a comida a uma senhora. Filmámos a Darlene também, daqui para ali, a falar com as pessoas. Então, acho que o grande desafio foi a montagem mesmo, tínhamos muito material, muito material.

    Em todo esse material que recolheu para a realização do filme, e aquele que depois foi usado na construção do documentário, há pérolas,há momentos de completa surpresa para a realizadora?

    Sim, sim, sim! Eu sabia que havia uma VHS

    com imagens do enterro do Pantera, não sabia muito bem como falar disso com a família, mas depois vi-a lá pousada em casa e perguntei à Darlene e à Carla, que é mãe da Darlene:

    - Como é que é, posso ver isto? Posso olhar para isto?

    - Ah, sim! Leva, leva!

    Então, eu digitalizei aquela cassete. Quando percebi o que é que estava ali, e acho que é melhor não contar porque é um disclaimer do filme, eu acho que percebi que o que eu estava a fazer fazia sentido. Embora as imagens fossem muito fracas, uma VHS já muito destruída, imagens que se vêem muito mal, mas havia ali uma força naquelas imagens, mesmo para mim, do impacto que teve a morte do Pantera em Cabo Verde, nas pessoas, não só nas pessoas que o conheceram, que foram amigos, mas também na comunidade de músicos, de instrumentistas, aquilo foi … . O facto de ele ser muito novo, uma morte repentina. Ele teve uma pancreatite aguda e, portanto, foi uma coisa muito rápida que aconteceu.

    Nós dizemos  que a vida são dois dias, não é? Mas acho que, realmente, aqui a história é um pouco a história quase do anti-herói, da pessoa que não chega lá. É uma história muito dramática, eu acho, mas que, ao mesmo tempo, é um drama que mostra que o Pantera não estava … . A vida dele não era imaginar que ia ser uma estrela dos palcos. Acho  que a vida dele era trabalhar como educador social, trabalhar com crianças da Aldeia SOS. Viveu lá com os miúdos, com as crianças. Dava aulas de flauta, de guitarra, participou em espetáculos de dança com o Raiz di Polon, fez música para muita gente. Tunuca, por exemplo, é uma música que ele compôs para os Tubarões. Muitas músicas do Pantera foram compostas para outros que as cantaram,  às vezes sem sequer nomear que eram uma composição do Pantera. Portanto, muita gente nem sabe que aquelas músicas são do Pantera. Porque ele não estava investido nisso. Ele não estava investido na vida artística. Eu acho que ele estava a viver a vida, estava dentro da vida. E eu acho que ele foi crescendo como pessoa também, largando um pouco da timidez que ele tinha também do palco, não é? Para ele, talvez fosse mais fácil estar num espetáculo com outros, estar a fazer para outros. Por exemplo, um dos grandes dilemas que o Pantera viveu foi ter vindo para Lisboa trabalhar com a Clara Andermatt e com o João Lucas num espetáculo maravilhoso, o Uma História da Dúvida, nos anos 90, em que ele fez parte da direção musical e trabalhou muito. Aliás, eu conto essa história. Mas o dilema de “O que é que eu faço agora? Continuo aqui? É isto que eu quero fazer? Quero voltar para Cabo Verde? Quero fazer a minha coisa, a minha própria música? Sou capaz de fazer sozinho?”. E, ao mesmo tempo, quando vemos pessoas que hoje são adultos, que eram crianças na aldeia SOS, que contam que cantavam e tocavam as músicas dele quando eram crianças, sabemos que as músicas estavam lá, só que não estavam na sala.

    Quando vi o espectáculo dele no Mindelo, a primeira vez, percebi que as poucas pessoas que estavam ali adoravam o Pantera. Mas eram poucas, ainda. Então, para mim é uma história um pouco trágica, muito forte, muito cinematográfica, que eu tive que desenvolver cinematograficamente. Eu queria fazer um filme que não fosse uma romantização do génio.

    A importância do Orlando Pantera reflete-se na música de hoje de Cabo Verde. No filme, vemos, por exemplo, os depoimentos de Mário Lúcio, de Mayra Andrade, de Princezito.

    Sim, mas não só nessa geração, também na geração mais jovem. O Orlando Pantera continua a ser uma referência e, de facto, as pessoas, mesmo muito novas, algumas estão no filme, como o Marino, como a Fatu, como a Zula Alves, que são muito jovens e cantam Pantera. Ou pessoas que nem sequer são profissionais da música e que entram no filme a cantar, porque ali, naquele encontro, isso aconteceu. Sabem as letras, conhecem as músicas. Isso é muito surpreendente para nós. Porque não percebemos muito bem de onde é que isso vem. Eu tinha essa pergunta e o filme vai, um pouco, respondendo a essa pergunta. Porque me parece que há duas dimensões que permitem perceber porque é que a música do Orlando Pantera permanece hoje em Cabo Verde. Uma tem a ver com a qualidade das próprias músicas, a musicalidade, a composição, as letras, os conteúdos, portanto, todos esses aspectos formais, diria eu, e as músicas também serem músicas muito fortes, que ficam dentro de nós e que parece que ficam connosco. E, por outro lado, uma dimensão quase espiritual, no sentido em que o Pantera se tornou de facto um mito. Por ter morrido aos 33 anos, por ter morrido jovem, por ser alguém que estava a começar a ficar importante na cena musical e por ser a pessoa que ele era. Eu acho que há de facto uma aura em torno do Pantera, essa figura que é uma figura do bem, que trabalhou com crianças de rua, que trabalhou na aldeia SOS, fez trabalho social, compôs sempre músicas para outros que lhes pediam, como os Tubarões, mas também grupos de teatro, etc, que lhe pediam, ou de dança, que lhe pediam trabalho, colaborou muito com o Raiz di Polon e tinha uma grande generosidade. Portanto, quando uma personagem destas morre, o impacto não é só um impacto na cena musical, é um impacto também na própria cultura cabo-verdiana e, principalmente, na parte, enfim, diria eu, badia de Cabo Verde, ou seja, na Ilha de Santiago, etc. Portanto, o impacto dele foi muito grande e continua a ser. Eu acho que alguém diz: só daqui a 200 ou 300 anos vamos entender Pantera, É como se as pessoas projetassem o Pantera numa espécie de porvir, num futuro, num futuro um bocado idealizado. Mas é uma música para o futuro e, ao mesmo tempo, ela é também uma música do passado, porque ele vai buscar as tradições mais arcaicas, mais antigas de Cabo Verde. Portanto, é, ao mesmo tempo, passado e futuro, não é? É interessante.

    A capacidade criadora de Pantera aparece no filme, não só no lado da música, mas, depois, também no trabalho que desenvolve com a dança.

    Sim, eu acho que isso é muito interessante. A partir do momento em que o Pantera começa a entrar na colaboração com a dança e com dança contemporânea, e aqui a influência da Clara Andermatt, do João Lucas, é muito forte, porque, de facto, eles fizeram um trabalho nos anos 90, em Cabo Verde, que foi um trabalho de trazer o movimento do corpo para dentro da música. E, portanto, tocar guitarra, mas tocar guitarra dançando, levando a guitarra para o palco, movendo-se, era qualquer coisa que tinha muito a ver com a linguagem da Andermatt, mas também com a linguagem dos Raiz di Polon. E eu acho que isso libertou, de certa maneira, o Pantera daquela rigidez de palco que nós vemos, por exemplo, nos primeiros concertos dele, no centro cultural francês, em que ele está sentado numa cadeira a cantar com o microfone. Mas no fim do filme, quando o vemos em palco, ele está a dançar, está a correr, e, portanto, essa performatividade do Pantera, acho que é muito característica da música dele e da personalidade dele.

    Além dessa energia mais óbvia que vemos no Pantera, há, depois, uma energia própria do filme. Essa energia é algo que vem das filmagens em Cabo Verde?

    Acho que sim, essa energia vem das filmagens. Nós tivemos o cuidado de deixar um cenário natural, um cenário de natureza, lembrando um pouco às pessoas que estamos num mundo, estamos num planeta. Há umas árvores enormes, que são árvores que aparecem no filme, um bocado a lembrar-nos, ok, nós estávamos aqui antes de vocês estarem aqui, vamos continuar aqui depois. Então, para mim, há uma dimensão de uma energia que vem da própria paisagem, que vem da própria natureza. Claro que isto é uma construção cinematográfica minha, subjetiva, poética, etc., não é uma coisa que esteja lá. Cabo Verde não é um país assim tão verde como o nome pode indiciar, mas eu acho que havia ali uma energia, uma entrega muito interessante, uma entrega das pessoas. Depois, também, muita da energia vem da própria montagem dos materiais de arquivo com música. E aqui, eu, de facto, trabalhei com o montador, que é o Pedro Mateus Duarte, que fez um trabalho minucioso de trabalhar as músicas com as fotografias, trazendo sequências, que são quase sequências, eu diria, de transformação de uma música do Pantera, numa espécie de memória visual da vida dele, que também está no filme. Portanto, o filme tem esses tempos. Tem os tempos dos arquivos e tem os tempos das filmagens hoje.

    Essa energia é muito da imagem que o Pantera deixa transparecer, no sentido em que, estamos aqui neste momento, esta terra não é nossa, é de todos, e nós estamos só a ocupar um fragmento do tempo neste planeta.

    Sim, eu acho que um filme como este tem que nos dar a dimensão histórica de uma pessoa como o Pantera. Uma dimensão histórica no sentido de a história ser feita de pessoas que não estiveram necessariamente a imaginar que estavam a fazer história, ou que estavam a fazer arte, ou que estavam a fazer, mas simplesmente que estavam dentro de uma vida, que é a vida que há, e que foi dentro dessa vida que há que desenvolveram a sua arte. Quando nós temos as pessoas que eram crianças na aldeia SOS, órfãos, meninos de rua, que hoje são adultos, e que quando eram crianças cantavam as músicas do Pantera, e isso aparece no filme, eles a encontrarem-se hoje e a cantarem, percebemos que eles talvez tivessem sido os primeiros a conhecer a música do Orlando Pantera. No entanto estavam lá, numa aldeia SOS, numa instituição de acolhimento de crianças. Portanto, para mim, é muito um sinal e uma aprendizagem, porque às vezes andamos a correr um bocado na espuma dos dias e à procura de um certo estrelato mais imediato, ou de uma certa, como dizer, premiação do que fazemos, queremos isso rápido. O Pantera não tinha pressa. A Mayra Andrade diz isso no filme, ele não tinha pressa, foi fazendo, foi andando, a vida foi andando. Acho que esse tempo, cada vez mais, nós perdemos. Eu acho que hoje vivemos, mais do que há vinte e tal anos, vivemos num momento de aceleração em que tem que se fazer tudo rápido, tem que se lançar a música e aparecer, e ser visto, e ter likes, e ter visualizações, não sei, toda essa corrida, não é? Acho que a história do Pantera nos faz pensar de outra maneira. Pensar, não, vamos talvez viver a vida tal qual ela é, as coisas em que estamos, e se estivermos realmente dentro da vida tal qual ela é, talvez o que nós fazemos em termos artísticos seja mais autêntico.

    A estreia mundial do documentário Orlando Pantera aconteceu no Festival de Cinema IndieLisboa, no grande auditório da Culturgest, que estava cheio.

    Foi incrível! Foi lindo! Foi muito bonito!

    Estava muita gente de Cabo Verde. Pessoas da música, pessoas que vinham, também, chamadas também pela própria Darlene. Porque ela estava na sessão, ela veio de Cabo Verde de propósito. Foi muito bonito também porque, entretanto, neste processo todo, entretanto, a Darlene foi mãe de um bebê chamado Amir Pantera, e o Amir também subiu ao palco connosco. Portanto, quando eu falo do futuro também estou a pensar no Amir, a quem eu dedico o filme, que não conheceu o avô. Para quem talvez o filme possa servir de referência de quem foi o avô. E foi muito bonito porque estavam muitos amigos. Estavam pessoas que entraram no filme. A Mayra (Andrade), por exemplo. estava na sala. Isso deu um calor imenso à sala. Acho que a Lura também estava. Estava muita gente que sente a música do Pantera mesmo, e que também, se calhar, esteve à espera estes anos todos. Havia uma espécie de sensação de: espera lá, mas isto aconteceu, mas onde é que está? Como se ele tivesse estado aqui. Estava lá, não é? Como se fala no filme, não quero pôr uma coisa mística mas, essa luz estava lá. Então, foi muito bonito. Acho que eu senti que, pronto, olha, o filme acho que vai funcionar, e espero que chegue a muita gente.

    E qual é o caminho que este Orlando Pantera, o filme, vai ter?

    Primeira coisa, nós queremos levar o filme a Cabo Verde. Estamos a preparar uma série de sessões. Não temos ainda a data. Estamos a trabalhar com o Ministério de Cultura de Cabo Verde, estamos a trabalhar com a cooperação, estamos a trabalhar com as instituições para tentar, de facto, poder levar o filme a vários lugares, e de preferência também a várias ilhas de Cabo Verde. Uma coisa que eu gostava também, mas ainda não sabemos se vai acontecer, é, de facto, que o filme circulasse fora do contexto português e também de Cabo Verde, e que fizesse uma circulação internacional. Depois, imagino que vamos pôr o filme em sala, tentar fazer algumas exibições por Portugal. E, claro, depois as plataformas, as televisões que queiram comprar o filme. Agora é todo um trabalho de quem quer o filme. Nós, por nós, gostávamos muito que ele circulasse.

    34 min

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