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Na noite de 11 de Novembro de 1975, Angola tornou-se independente. Em Luanda, Agostinho Neto, poeta e médico, líder do MPLA, proclamava o nascimento de uma nova nação após quase cinco séculos de colonização portuguesa. Mas a conquista da liberdade, celebrada por uns, seria também o início de uma longa guerra e de um país dividido pelas visões distintas de independência.
Durante quase 500 anos, Angola foi colónia portuguesa. O regime de Lisboa explorava o território em nome de uma suposta "missão civilizadora", enquanto o trabalho forçado, a segregação racial e a ausência de direitos cívicos marcavam o dia-a-dia da maioria africana. “Muito antes, os brancos não se cruzavam com os pretos. E mesmo que estivéssemos a estudar, os pretos eram sempre penalizados”, recorda Maria Henriqueta Pedro, antiga combatente da UPA, depois FNLA. “O que nos incentivou mesmo foi a perseguição da PIDE. Éramos crianças, mas víamos: fulano foi preso porque estava do lado da UPA. Sentíamo-nos oprimidos. Então, se eles lutavam para que fôssemos livres, decidimos participar nessa luta.”
Nos anos 1950, as ideias de independência começaram a circular entre estudantes e trabalhadores, influenciadas pelo pan-africanismo e pelos ventos de descolonização que sopravam do Gana e do Congo. Em Fevereiro de 1961, o país foi abalado por revoltas e massacres que marcaram o início da guerra colonial. O então coronel português João Andrade da Silva, que combateu em Angola entre 1961 e 1962, lembra a doutrinação que precedia o embarque: “Nós aprendíamos que Angola, Moçambique e Guiné eram Portugal, como a minha Madeira. Íamos combater os chamados terroristas, que nos diziam que faziam mal à população e não representavam ninguém. Só mais tarde comecei a pensar que muita daquilo que chamavam incompetência militar era, afinal, resistência à guerra.”
A 15 de Março de 1961, a UPA, liderada por Holden Roberto, atacou posições coloniais no Norte. O regime português respondeu enviando milhares de soldados. Nasciam então três movimentos de libertação — a FNLA, o MPLA e a UNITA — unidos no objectivo da independência, mas divergentes na visão do país que queriam construir. “Entrei na UPA em 1964. Fazíamos o trabalho de mobilização em segredo, de boca a boca. Havia a PIDE atrás de nós e, entre os membros, ninguém sabia quem era quem”, recorda Henriqueta Pedro.
A guerra em Angola internacionalizou-se: o MPLA recebeu apoio da União Soviética e de Cuba, a FNLA dos Estados Unidos e do Zaire, e a UNITA da África do Sul. Angola tornou-se palco da Guerra Fria. Em Abril de 1974, em Portugal, a Revolução dos Cravos pôs fim à ditadura e precipitou a descolonização. “Os militares não estavam motivados. Nenhum queria continuar a guerra”, afirma o coronel Andrade da Silva. “Queríamos acabar com ela, mas o processo de descolonização ultrapassou-nos. Houve militares desarmados e humilhados. E o que aconteceu em Angola, com as lutas em Luanda, foi uma tragédia.”
Em Janeiro de 1975, os três movimentos assinaram em Alvor, no Algarve, um acordo que previa um governo de transição e eleições gerais. Por um breve momento, pareceu possível uma Angola unida e democrática. “Tive oportunidade de integrar a comissão que recebeu a delegação da FNLA no aeroporto 4 de Fevereiro”, recorda Henriqueta Pedro. “Trabalhámos para o governo de transição e fiquei como coordenadora de um comité no Rangel, que já existia clandestinamente antes de ser oficial.”
Mas o sonho desfez-se em meses. As tensões entre o MPLA, FNLA e UNITA explodiram em confrontos armados em Luanda. Cada força passou a controlar partes diferentes do território. “Em 1974 foi um horror”, lembra Henriqueta.
Na noite de 10 para 11 de Novembro de 1975, cada movimento preparava a sua proclamação. O MPLA, em Luanda, viria a ser o primeiro. “Eu estava no Nzeto, antigo Ambrizete, na província do Zaire. No dia da independência, o administrador português desceu a bandeira de Portugal e o delegado da FNLA, André Paulo, ergueu a bandeira da FNLA. Tudo correu calmo, graças a Deus. Mas pouco depois chegaram os cubanos e a guerra começou”, relata Henriqueta.
Agostinho Neto proclamou então a República Popular de Angola, com apoio de Cuba e da União Soviética. Poucos depois, o país mergulhava numa guerra civil que duraria 27 anos. Milhares de pessoas fugiram para o exílio. Henriqueta Pedro viveu dez anos na República do Zaire e regressou em 1985 a um país devastado. “Muitas vezes penso: será que valeu a pena? Porque hoje não somos independentes. Não temos liberdade de expressão. Lutámos por uma Angola que não é esta. A corrupção, o nepotismo… às vezes nem sabemos por que lutámos.”
Ainda assim, mantém o ideal: “Sem sentido de pátria nunca teremos Angola. Temos de nos despir do nepotismo e vestir a pátria. Só assim poderemos dizer que valeu a pena.”
Cinquenta anos após a independência, Angola continua a olhar para esse passado com emoção e feridas abertas. A luta pela liberdade deu origem a uma nação soberana, mas também a décadas de guerra e desigualdade. Nas vozes de antigos combatentes e soldados, persiste, contudo, a memória de um sonho comum: o de ser dono do próprio destino. “Uma pessoa livre é outra pessoa”, defende Henriqueta Pedro.
A cobertura dos 50 anos da independência de Angola teve de ser realizada exclusivamente à distância pelo facto de as autoridades de Luanda não terem validado atempadamente o pedido de visto submetido pela RFI.
O Museu Nacional da Marinha, em Paris, acolhe a exposição "Magalhães, uma viagem que mudou o Mundo" até Março e leva os visitante numa visita imersiva pelo périplo da circum-navegação, explicando as dificuldades da primeira travessia do Oceano Atlântico ao Oceano Pacífico e desvendando mais sobre a figura mítica de Fernão de Magalhães.
Mais de 500 anos após a sua morte, Fernão de Magalhães e a sua viagem de circum-navegação, a primeira registada na história da Humanidade, continua a suscitar interesse. Embora hoje seja difícil imaginar viagens que duram anos no mar por lugares nunca antes explorados, o Museu da Marinha, em Paris, quis colocar os seus visitantes na pele dos mais de 200 homens que em 1519 partiram de Sevilha com a missão de chegar às ilhas Molucas, que hoje integram a Indonésia, e que então era o único sítio no Mundo onde havia cravinho, uma especiaria tão rara que valia ouro.
Para assegurar a veracidade histórica desta aventura museológica, e até porque a organização dos diversos espaços é baseada nos relatos de Antonio Pigafetta, cronista, explorador e geógrafo que integrou esta viagem, o historiador Michel Chandeigne é o conselheiro científico desta exposição e explicou em entrevista à RFI que esta é uma experiência que quer tocar o máximo de visitantes.
"Claro que uma experiência imersiva tem o hábito de tocar um público maior, um público de jovens e também um público que não está habituado a descobrir a história das viagens nos livros, é uma coisa diferente. Um pouco lúdico, mas feito de uma maneira muito estética. Há uma beleza da cenografia que é simples", explicou.
O Museu da Marinha, recorreu a imagens desta aventura criadas para o documentário de François de Riberolles, que pode ser visto no canal ARTE, assim como a imagens reais dos sítios percorridos por Magalhães, mas também sons e projecções numa cenografia de Brigitte Poupart, que criam a exposição imersiva "Magellan, un voyage qui changea le monde", ou em português "Magalhães, uma viagem que mudou o Mundo".
O percurso começa no porto de Sevilha, em que se ouvem homens apressados de um lado para o outro, sons de navios e de mar. Aqui conhecemos as personagens principais desta viagem: Fernão de Magalhães, navegador português que vai apresentar os seus serviços ao então rei de Espanha, Carlos I, mas também Henrique, o escravo de Fernão de Magalhães que lhe vai servir de intérprete no Pacífico, o próprio Pagafetta ou ainda Juan Sebastián Elcano, que começa esta viagem como marinheiro experimentado e terminará como capitão-geral, já que será ele que regressará a Espanha em 1522, já que Magalhães morreu nas Filipinas.
Nas paredes das exposição vemos o número de homens, os cinco barcos e ainda o tipo de objectos que se levava nestas viagens como 100 toneladas de biscoitos duros, 600 quilos de mel, mas também 35 bussúlas, 4 mil flechas e duas toneladas de pólvora. O grande desafio desta viagem era encontrar uma passagem através do Oceano Atlântico para as ilhas repletas de especiarias, contornando assim o Tratado de Tordesilhas.
Nisso, e apesar dos percalços e dos meses de espera, Fernão de Magalhães foi bem sucedido, sendo o primeiro descobridor a atravessar o estreito que depois haveria de ficar com o seu próprio nome entre o Oceano Atlântico e o Oceano Pacífico. Passou pelo Rio de Janeiro e pelo Chile, onde teve contacto com os nativos. No entanto, após uma longa expedição, e chegando às Filipinas, acabou por se envolver em querelas locais e foi morto por Lapu Lapu, um chefe tribal.
Esta morte, considerada por muitos como "um suicídio", acabou por afastar Fernão de Magalhães das glórias do seu tempo, mas hoje é considerado como um dos maiores navegadores de sempre.
"Magalhães perdeu tudo, perdeu a vida. E também se enganou. As Molucas não eram do domínio espanhol. Magalhães não é um herói, é um perdedor magnífico. E tudo isso faz com que a lenda do Magalhães não tenha sido tratada pelos historiadores durante séculos. Para os espanhóis, era um homem que perdeu os espanhóis numa empresa devastadora e cara. E para os portugueses era um traidor. Para o historiador, porque Magalhães não serve nenhuma causa nacional", detalhou Michel Chandeigne.
Esta exposição termina com uma explicação de historiadores portugueses, espanhóis e franceses, mas também chilenos e argentinos, das interacções de Magalhães e dos seus marinheiros com os povos indígenas, sendo que houve vários episódios de violência, de detenções forçadas e violência sexual.
Para acompanhar esta exposição, as edições Chandeigne e Lima, fundadas por Michel Chandeigne, vão lançar a terceira edição de "Le Voyage de Magellan (1519-1522). La relation d'Antonio Pigafetta et autres témoignages". Esta é uma recolha que foi começado por Michel Chandeigne em 2007 e que esta semana foi relançada com várias actualizações.
O Festival Internacional de Cinema DocLisboa encerra este Domingo 26 de Outubro a sua 23ª edição. O festival que arrancou a 16 de Outubro na capital portuguesa com a exibição do filme With Hasan in Gaza, de Kamal Aljafari, e vai encerrar com A Árvore do Conhecimento, de Eugène Green, tem sido rico em momentos para ver, pensar, discutir e até mesmo criar filmes.
A programação, que inclui a exibição de 211 filmes de 54 países, faculta um olhar atento e enriquecedor sobre temas complexos e aflitivos da actualidade.
Destaque para a competição internacional, a competição portuguesa, os filmes com realização africana ou filmados em África e a retrospectiva dedicada a William Greaves.
A RFI falou com a realizadora e antropóloga Catarina Alves Costa, com o realizador Carlos Conceição, que apresentou em competição nacional o filme Baia dos Tigres, rodado em Angola, e com o director do DocLisboa, Hélder Beja.
Quais as grandes linhas definidoras da programação?
Hélder Beja, director do Festival Internacional de Cinema DocLisboa: A programação tem algumas linhas que são definidoras. Uma delas é o facto de, num mundo em que correria a toda hora aos gritos, muitos destes filmes são momentos de pausa. Servem para pensar, sente-se de facto que há uma reflexão nestes objectos artísticos por parte de quem os fez e uma necessidade mesmo de, de alguma maneira, acalmar e respirar, pensar sobre a nossa presença no mundo. Então, acho que desde logo há isso que atravessa muito o cinema que o Doc Lisboa mostra este ano.
Em segundo lugar, apesar de não fugirmos do conflito, temos filmes que abordam esta absoluta chacina na Palestina, temos filmes que abordam a guerra na Ucrânia, filmes que tratam outros conflitos e outras realidades muito duras à volta do globo. Mas são filmes que não são necessariamente gráficos, ou demasiado gráficos, e isso não foi uma preocupação, simplesmente foi acontecendo naturalmente. Os filmes que fomos seleccionando e aqueles que nos tocavam não eram os filmes mais óbvios do ponto de vista daquilo que todos os dias vemos através da televisão, etc.
Então, foi muito interessante passar por essa experiência de não termos de ir à procura do mais óbvio para que conseguíssemos chegar às pessoas. Temos a sensação de que, de facto, com histórias de maior empatia, filmes que tocam o humanismo e não a desumanização, a empatia e não a indiferença, são capazes, neste momento, de chegar mais ao público, tocar mais as pessoas e de deixar essa centelha lá, essa pequena fagulha acesa e estimular o pensamento crítico. Parece-nos que esses filmes são mais capazes de fazer isto do que filmes que simplesmente nos choquem pelas imagens que nos trazem.
Essas duas linhas são bastante claras quando olho para a programação. Finalmente, o DocLisboa também é um festival que gosta de correr riscos e, portanto, também vamos sempre um bocadinho à procura da singularidade do gesto e de uma espécie de cinema do futuro.
Qual o lugar das competições Internacional e Nacional na programação?
A competição internacional do festival é o ponto mais importante da programação porque apenas aposta em filmes que vêm com estreia mundial ou internacional. Ou seja, filmes que estão agora a começar a encontrar o seu público e filmes que o festival defende desde a primeira hora.
Por vezes há uma excepção. Este ano tivemos um filme que vem com estreia portuguesa, mas apenas isso. Todos os outros filmes da competição internacional têm esse estatuto de premier . Isso é importante porque, de facto, é um risco, por um lado, que o festival corre em procurar novos filmes que queiram estrear connosco, mas ao mesmo tempo é a coisa mais bonita de fazer esta grande empreitada que é a programação do festival, ou uma das coisas mais bonitas, que é ir à procura desses filmes e desses filmes procurarem-nos a nós também.
Estamos muito, muito felizes com a programação internacional deste ano. Achamos que é extremamente forte, diversa, rica, original.
A competição portuguesa este ano tem sete estreias mundiais, o que é muito representativo também do desejo que os cineastas portugueses, ou da produção portuguesa, que querem que os filmes estreiem no DocLisboa, quando nós sabemos, obviamente, que é bastante fácil, ou relativamente fácil, para o cinema português internacionalizar-se e, portanto, poder ter a sua estreia mundial lá fora e depois regressar ao país para estrear nacionalmente.
É uma grande responsabilidade porque nós temos de apoiar os filmes, temos de ter a certeza que também os filmes conseguem circular depois de passarem aqui no nosso festival. Por isso também fizemos o esforço importante de ter ainda mais convidados internacionais presentes nesta edição. Convidados de todos os espectros, desde produtores, programadores, distribuidores, directores e directoras de festivais.
A competição portuguesa é uma competição também, ela, este ano, diversa.
Temos cineastas consagrados e consagradas e depois também há alguns mais jovens que estão a começar a sua carreira. Temos cinema experimental, temos filme-ensaio, temos ficção. O DocLisboa também já quebrou há muito tempo esse estigma da barreira entre documentário e ficção.
Portanto, eu diria que a competição portuguesa, pelos vistos e ainda bem, continua a ser importante para nós, para as produtoras portuguesas, para os directores portugueses e fico muito feliz com isso.
Carlos Conceição, para que serve o cinema?
Carlos Conceição, realizador: Eu acho que o cinema pode servir para tudo. Há uma certa obrigação antropológica em algum cinema, há uma responsabilidade histórica que o cinema deve atentar, mas eu não creio que o cinema deva ser uma arte utilitária exclusivamente.
Acho que o cinema é mais interessante quanto mais livre for e se calhar quanto mais fútil for. Eu vejo o cinema como uma espécie daqueles discos que se gravam e se mandam para o espaço. E acredito que daqui a uns anos, quando nós já cá não estivermos, vai aparecer uma espécie alienígena qualquer, ou uma espécie mais inteligente que nós, que tem estado aí escondida, que não aparece por nossa causa. E que vai descobrir uma carrada de filmes e vai dizer olha que interessante que era esta espécie que se autodestruiu. E é isso que eu acho que o cinema serve.
Eu vejo cada filme que faço como uma espécie de filho, até porque fazer um filme é uma espécie de gestação, dura o tempo de uma gestação, alguns mais, alguns trazem as mesmas dores de cabeça comparáveis e às vezes nós perguntamos para quê.
Para mim essa é a resposta, para deixar uma marca. Qualquer coisa que ajude a perceber como é que as coisas eram, como é que deviam ter sido, como é que não foram.
Baia dos Tigres está na competição nacional do DocLisboa, podemos dizer que é um documentário?
O Godard dizia que todos os filmes são documentários sobre a sua rodagem, sobre o seu processo de serem feitos.
O Baia dos Tigres é uma ficção filmada segundo alguns credos de documentário. Por ser o realizador do filme e o argumentista do filme, talvez não seja a pessoa mais indicada para o definir nesse sentido. Uma ideia que eu costumo tentar vender é que os filmes não são como são por acidente ou por ingenuidade ou porque a pessoa que os fez não soube fazer melhor.
Os filmes são, normalmente, resultado de um período de deliberação que é longo, ardo, obsessivo e desgastante para o seu realizador. Portanto, não há filme nenhum que seja como é porque o realizador não sabia fazer melhor. Isso quer dizer que, de certa forma, cada filme medita a sua própria gramática.
E eu acho que é muito interessante que possa haver fusões entre os sistemas clássicos narrativos, as formas do documentário, o cinema mais contemplativo, que eu considero que quebram todas as gaiolas e acho importante, se calhar, para lutar contra o mainstream. Eu acho o mainstream um bocadinho o inimigo principal do crescimento da arte.
A Catarina Alves Costa participou num debate que o DocLisboa organizou sobre a utilização de arquivos em filmes, como é que correu?
Catarina Alves Costa, realizadora e antropóloga: Foi interessante porque foi uma apresentação do que é que se pode fazer com arquivos e um questionar também dos próprios arquivos.
O que é que é o arquivo? Como é que ele pode ser usado?
Éramos três realizadoras que mostramos alguns excertos de trabalho feito e houve bastante conversa com o público e, no fundo, as questões são um bocado as questões de sempre que é o que é que os arquivos, nomeadamente os arquivos coloniais, carregam? Como trabalhar com estes arquivos? E desenvolvemos várias estratégias, por exemplo, a coisa da devolução dos arquivos às pessoas, de as levar para as comunidades originais, de as transformar em novas coisas. E falou-se também um pouco da linguagem cinematográfica associada ao arquivo, possibilidades de trabalhar esses arquivos de formas mais experimentais, mais criativas, etc. E, portanto, acho que foi uma conversa interessante.
Estava muita gente e eu acho que as pessoas precisam um pouco disto, ou seja, precisam de se juntar para falar sobre estas questões.
O seu mais recente trabalho é a longa-metragem sobre o músico Orlando Pantera. Confirma que o filme vai estar brevemente em Cabo Verde?
O filme vai passar no Festival Djarfogo (Djarfogo International Film Festival (DIFF)). É um festival internacional de cinema com uma programação vasta, com sessões que vão acontecer na Praia e na Ilha do Fogo. O filme vai ser visto na Praia no dia 4 de Novembro e no dia 7 na Ilha do Fogo.
A ideia, de facto, é nós voltarmos a mostrar o filme em Cabo Verde para o grande público e nós temos o plano, de facto, de fazer sessões na Cidade da Praia, na Assumada, no Mindelo. E, portanto, vamos fazer uma espécie de tour do filme em Cabo Verde, provavelmente em Março.
E em Portugal, quando é que pode ser visto?
Vai passar em Coimbra; dia 27 de Novembro, no Festival Caminhos do Cinema Português. 28 e 29 no Porto/Post/Doc, no Cinema Passos Manuel. Depois, no dia 9 de Dezembro, vamos fazer uma sessão na Cinemateca. A partir do dia 11 de Dezembro estará em sala em vários locais.
Timor-Leste vai passar a integrar a ASEAN, a organização do Sudeste Asiático, que proporciona livre comércio na região e promove laços mais estreitos entre países vizinhos. A cimeira da ASEAN começa no domingo, dia 26 de Outubro e vai decorrer até dia 28 de Outubro, em Kuala Lumpur, na Malásia, e Timor-Leste diz estar pronto para integrar este bloco.
Esta semana, na cimeira da ASEAN, em Kuala Lumpur, Timor-Leste vai tornar-se oficialmente membro deste grande bloco comercial do Sudeste Asiático que agrega 700 milhões de consumidores. O caminho de Timor-Leste até esta organização foi longo, quase 15 anos para conseguir entrar, mas o livre comércio nesta parte do continente traz oportunidades, assim como desafios para o país mais jovem do Mundo.
Juliette Chaignon, em serviço especial para a RFI, esteve em Timor-Leste e falou com responsáveis políticos, activistas e jovens para perceber o impacto desta entrada iminente do país nesta grande organização, um objectivo pelo qual o Presidente, José Ramos-Horta, se bate desde o seu primeiro mandato à frente do país.
"A nossa adesão é extremamente importante. Tem sido uma grande prioridade para mim. Enquanto timorense, enquanto líder, já desde 74 que eu advogava a adesão. E na minha primeira Presidência entre 2007 e 2012, em 2011 fui eu próprio que assinei uma carta apresentando o nosso pedido de adesão a um processo que levou mais de dez anos. É totalmente compreensível porque as exigências são grandes. Naquela época, nós tínhamos muito menos recursos humanos, progressos nas infraestruturas, no nosso edifício legal, arquitectura legal necessária porque a entrada na ASEAN exige a adesão a mais de 70 tratados. Nós entramos na WTO, na OMC com grande sucesso. Em menos de dez anos de processo, conseguimos aderir à OMC. Portanto, hoje entramos na ASEAN com total confiança", disse o Presidente.
Mesmo se a entrada é consensual no panorama político timorense, Mari Alkatiri, secretário-geral da FRETILIM, maior partido da oposição actualmente no país, alerta para os perigos de integrar uma organização como a ASEAN sem preparação e numa altura em que a economia mundial pode não ser favorável a um país como Timor-Leste.
"Nós tivemos tempo para nos prepararmos para isso. Vamos entrar depois de 24 anos de restauração da independência. Tivemos tempo suficiente, mas trabalha-se na improvisação. Não se trabalha com políticas e programas. De repente, duas pessoas que se sentem campeões de confiança de todo o processo acham que devemos entrar agora. E eu disse que apoio. mas os desafios são muitos. Fundamentalmente, o desafio da institucionalização da vida do Estado. Conjunturalmente, é mais difícil sermos membros agora do que era há cinco anos, porque a economia mundial está a sofrer mudanças terríveis. E ser membro da ASEAN é ser membro de uma plataforma de globalização. Mas o que é que vamos levar esta globalização? A insuficiência, a não existência de uma economia capaz de participar no comércio internacional? Não, isso não existe. Nós agora temos uma política completamente megalómana em ter grandes grandes projetos", lamentou o líder da oposição.
Esta adesão acontece numa altura em que o Fundo Petrolífero de Timor-Leste está cada vez mais perto da extinção – sendo que era até agora uma alavanca do crescimento do país e financiamento do Orçamento do Estado. Há ainda a possibilidade de continuar a explorar o gás no projecto Greater Sunrise, criticado devido à dependência do país face às energias fósseis.
"[O fundo] Já está no fim. Também com um orçamento despesista de grandes infraestruturas que custam duas ou três vezes mais do que do que o normal, mas com qualidade. E duas ou três vezes temos dinheiro para quatro para mais quatro anos. Isto é primeiro ministro a reconhecer. Levou 20 anos para reconhecer que este tipo de despesas não é economia e rebentar com a economia", criticou Mari Alkatiri.
Nas últimas semanas, o país tem sido abalado por protestos por parte dos jovens universitários que pedem, por um lado, melhores condições de vida, e, por outro, menos privilégios para a classe política, tendo em conta que sete em 10 família vivem na pobreza e o salário mínimo situa-se nos 115 dólares. Alito Freitas Moreira tem 20 anos, é estudante universitário em Díli e quer ser professor de Biologia, e conta as dificuldades da sua família em pagar os seus estudos na capital.
"A minha família enfrenta uma situação que é muito difícil, situação difícil da economia e situação de necessidades básicas. Por exemplo, eu venho de uma família que é pobre, então não tem dinheiro para pagar os meus estudos. Então, como o meu pai é agricultor e minha mãe vendedora, não podemos comparar. Por exemplo, quando cheguei para os meus estudos aqui a Díli não tinho casa permanente, podemos alugar uma casa, mas cada mês eu pago entre 50 e 60 dólares pelo alojamento. Minha família manda o dinheiro para mim mais ou menos 60 dolares. Eu tenho cinco irmãos e uma irmã", explicou o estudante.
Com a perspectiva da abertura de um mercado de mais 700 milhões de consumidores e de relações mais dinâmicas com os seus vizinhos mais próximos, Ramos-Horta tem uma perspectiva optimista sobre esta nova etapa do país.
"A adesão traz-nos grandes benefícios. Aderimos a um bloco regional de 700 milhões de pessoas, mais do que a população da União Europeia total, com um PIB conjunto de mais de 4 triliões de dólares e economias muito dinâmicas. Portanto, Timor-Leste será integrado e será arrastado pelo lado positivo. Maior comércio, maior investimentos em Timor-Leste, muitos países e muitas empresas neste momento querem instalar-se em Timor, desde o Japão à Coreia do Sul, à China", detalhou Ramos-Horta.
E também Alito Freitas Moreira espera que as oportunidades no país se abram para todos.
"Eu acho que há muitas vantagens para os timorenses. Vantagens porque tivemos a nossas independência em 2000 e então nação que nós consideramos uma nação mais jovem, precisa aprender a experiência e cultura de outras nações e ao mesmo tempo a a ciência que nós aprendemos na educação", considerou o estudante.
Carlos da Silva Lopes, conhecido como Saky, resistente e fundador do RENETIL, movimento estudante contra a ocupação da Indonésia, deposita a sua esperança na juventude, nas suas capacidades e no seu espírito crítico para que o país continue a crescer.
"A nova geração deve afirmar-se como a nova geração que tem os seus próprios pensamentos, têm os seus próprios as próprias ideias. Contribuímos todos para a independência de Timor-Leste. Não sou uma pessoa que libertou Timor ou um grupo que libertou Timor, mas todo o povo, toda a juventude. Então essa juventude também já é tempo de dizer que não. As coisas não correm bem. Temos que corrigir. Temos que mudar o rumo. Não pode manter o que não está bem e deixamos ficar assim. Temos que mudar. Não é mudar a mentalidade. É para mudar, para ter essa mentalidade. As pessoas têm de ter a coragem, porque num país democrático não pode ter um prisioneiro político. Portanto, todos têm o direito de expressar sua opinião. Tenho o direito porque é garantido na Constituição de Timor-Leste. Não podemos ser com essa mentalidade de colonizado a ser seguidistas ou seguidismo. Eu penso que essa é que tem de mudar", concluiu o resistente timorense.
O grupo hoteleiro sul-africano HBD anunciou nestes últimos dias a sua intenção de pôr fim aos seus investimentos turísticos no Príncipe, alegando não se "sentir mais bem-vindo" na ilha. Esta decisão levou o governo local e o executivo nacional a procurar um entendimento com aquele que é o principal investidor daquele território, com centenas de empregos em jogo.
De referir que este anúncio surge poucos meses depois de vozes locais, nomeadamente o Movimento Verde para o Desenvolvimento do Príncipe (MVDP), denunciarem em Junho a decisão da HBD de cobrar uma taxa para o acesso à praia do ilhéu Bombom, justificando tratar-se de custear a limpeza e segurança do local.
Perante a dimensão da controvérsia, com um deputado de oposição a acusar a HBD de "Apartheid", a taxa acabou por ser rapidamente retirada.
O mal-estar que surgiu durante esse período não estará, contudo, na origem da decisão do grupo dirigido pelo sul-africano Mark Shuttleworth de sair do Príncipe. Quem o diz é Nestor Umbelina, líder do MVDP, que ao dar conta sua preocupação perante esta situação, remete as culpas para o actual governo local que acusa de não envolver a oposição nas suas decisões.
RFI: Como encara a decisão da HBD de pôr fim aos seus investimentos na ilha do Príncipe?
Nestor Umbelina: Obviamente, como cidadão residente no Príncipe e como líder político, reajo com preocupação. A HBD é o maior investidor privado, o maior contribuinte regional, empregando cerca de 800 trabalhadores. Se multiplicar por três ou quatro, então vai ter noção de qual é a grandeza em termos económicos que a HBD representa para a região, numa população de 9000 habitantes. Portanto, nós encaramos a carta que recebemos com muita preocupação e agimos de imediato no sentido de perceber e saber qual é a razão objectiva que levou o empresário a tomar essa decisão.
RFI: Esta decisão surge depois de uma polémica desencadeada em Junho, após denúncias feitas pelo MVDP de que a unidade hoteleira da HBD estava a exigir o pagamento de uma taxa à população para ir à praia do Ilhéu Bombom, que depois motivou a retirada dessa taxa. Mas no meio de toda esta polémica, a HBD refere "não se sentir bem-vinda" na ilha do Príncipe.
Nestor Umbelina: Temos que recordar que HBD já está a investir na região há cerca de 14 anos. Portanto, este pequeno acontecimento isolado não levou, com certeza, à tomada dessa decisão. E na carta que o empresário escreve, ele diz que de algum tempo que vem sentindo estes 'inputs' vindos da governação, não é por causa desse incidente. Depois, diz, nomeadamente que, mais recentemente, aconteceram essas situações. Mas pronto, tomando em consideração essas situações que fomos nós que realmente intervimos, porque nós achámos que havia realmente uma violação de direitos. Primeiro, demos tempo ao governo para resolver. Quando percebemos que o governo não iria resolver e não estava a resolver, então recorremos às instituições da República com competência para dirimir esses conflitos. Em nenhum momento é para pôr em causa a capacidade ou a importância dos investimentos da HBD. Eu sempre fui um defensor dos investimentos da HBD, mas não pode ser contra a lei ou contra os costumes. Tem que ser enquadrado nessa perspectiva dos nossos interesses e o interesse do investidor. Portanto, não acredito. E eu recebi o enviado do investidor do Mark Shuttleworth e ele garantiu-me que não tem a ver com a questão da nossa reivindicação por causa da praia, muito embora ele reconheça que houve exageros. E nós também reconhecemos que possa haver exageros na linguagem, nomeadamente naquela que fala do 'Apartheid', mas tudo também provocado pelo director que ele tem aqui, que é uma pessoa também muito impulsiva e que, de vez em quando, uma acção tem tendência de gerar reacção. E foi nesse sentido que as coisas também tomaram um sentido um bocadinho exagerado em termos de linguagem. Mas não pode ser o facto de nós reivindicarmos os direitos que a população do Príncipe tem de ir para à praia, que os visitantes têm de ir para a praia sem pagar uma taxa, que o Mark (Shuttleworth) quer ir embora. Isto de certeza que não é verdade.
RFI: E a seu ver, o que é que poderá então ter motivado a decisão da HBD de deixar a Ilha do Príncipe?
Nestor Umbelina: Conhecendo um bocadinho o Mark (Shuttleworth) como eu conheço e lendo a carta dele, eu percebi logo que o que o Mark (Shuttleworth) quer é renovar a confiança, uma vez que já passaram 14 anos, renovar a confiança no seu investimento. Portanto, Mark (Shuttleworth) tem uma visão para a ilha e anda a investir muito dinheiro. Quem investe muito dinheiro, quer ter certeza de que estão todos alinhados. E ultimamente, nessa governação do Filipe Nascimento, deixou de haver aquela conexão que havia no passado. Porque é preciso que os políticos percebam que o facto de haver um governo eleito, é verdade, a maioria em democracia, a maioria que venceu, sim senhora, governa. Mas tem que ver a outra parte, que também teve votos e legitimação da população, para fazer o contraditório. E essa parte tem que ser respeitada. Essa parte tem que ser ouvida e tem que ser incluída na governação no seu momento. Só que após o ex-presidente afastar-se, o novo presidente não enveredou por estes caminhos. Foi fazendo as coisas sozinho e não envolvendo a oposição. E pronto, Mark (Shuttleworth) começou a sentir que realmente está a faltar um bocadinho de legitimação que ele gosta para garantir os investimentos dele. Eu acho que nós somos chamados muito poucos para intervir com essa nova governação. Então, não conhecemos exactamente o que é que se passa, o que é que está realmente na origem dessa decisão que Mark (Shuttleworth) quer tomar.
RFI: Esta decisão da HBD sair do Príncipe motivou algumas tomadas de posição tanto do governo do Príncipe como do próprio governo nacional. Há uma tentativa de negociação. O que é que se espera dessas discussões?
Nestor Umbelina: As movimentações foram feitas connosco. Nós tomamos a iniciativa de pedir ao presidente do Governo Regional para fazer o que é correcto, uma vez que ele não o fez quando recebeu a carta. Devia ter convidado a oposição, que também é mencionada na carta, para sentar e para nós discutirmos qual seria o passo a seguir. Não o fez. Pelo contrário, emitiu um comunicado incitando a população contra os líderes da oposição, que seria a culpa da oposição que o investidor estaria a sair. Portanto, isto é de reprovar. Mas eu depois intervim e pedi que o presidente fizesse aquilo que era correcto. Vamos reunir e vamos enviar uma mensagem ao empresário para que ele perceba que em nenhum momento nós deixamos de confiar nele. O facto de a oposição estar a manifestar-se contra alguns actos de gestão da HBD não quer dizer que estamos contra, mas ele também tem que ver que há que respeitar as leis e os costumes. Ou então teríamos que ter reunido e encontrado uma outra forma de ultrapassar essa situação. Não aconteceu. E nós emitimos um documento junto ao emissário que ele mandou trazer. Há negociações. Há bom feedback. Eu acredito que o empresário vai voltar à mesa de negociação e todos nós esperamos que venha, porque ele é bem-vindo e em nenhum momento nenhum dos cidadãos do Príncipe entendeu ou disse que o empresário não está a fazer aquilo que o Príncipe ou que os seus habitantes desejam, que é investir naquilo que é correcto, que é no turismo que nós achamos e pensamos que é amigo do ambiente, baseado em sustentabilidade, em benefícios directos para a população.
RFI: Já que está em cima da mesa o investimento da HBD no Príncipe, o que é que espera da HBD no caso de essa empresa permanecer no Príncipe? Que outras críticas ou eventualmente chamadas de atenção faz à HBD relativamente à sua forma de estar na ilha?
Nestor Umbelina: Como eu já disse, relativamente à questão da praia, para nós, é uma questão ultrapassada e nós fizemos a nossa parte. Entregamos isso às autoridades. Daqui para frente, será com as autoridades. Em nenhum momento se porá em causa a continuidade do HBD, porque nós só pedimos que fosse retirada a cláusula que fala do acesso à praia. Portanto, relativamente aos outros projectos, nós não tínhamos conhecimento. Mas de acordo com informações da própria HBD, agora o governo tem em cima da mesa uma série de projectos que o Mark (Shuttleworth) se predispõe a fazer, nomeadamente a construção do Porto da Pedreira, água, habitação social, energia solar que basicamente é aquilo que este governo não tem feito, porque são investimentos públicos e aquilo que é preciso fazer para que a ilha realmente comece a caminhar no caminho do desenvolvimento. E a HBD predispõe-se a fazer isso. O governo tem isso em cima da mesa, nós somos oposição e não conhecíamos. Mas também a HBD quererá alguma coisa em troca, daquilo que disse o enviado especial do Mark (Shuttleworth). A HBD simplesmente quer que seja respeitado o plano de desenvolvimento que propõe para a ilha e que o governo também tem e que nós também não conhecemos. Então, isto fica um bocadinho complicado nós emitirmos opinião porque não conhecemos. E ele quando percebe que realmente este governo não envolve a sociedade civil através dos partidos, dos movimentos que representam o Príncipe, eu acho que ele reage com a carta nesse sentido. E eu espero que agora ele venha. Porque nós nos reunimos e criámos uma plataforma de diálogo com o governo e pedimos que seja pedido com urgência que o Mark (Shuttleworth) venha sentar à mesa com o Governo e posteriormente connosco, para vermos tudo aquilo que realmente é preciso fazer para voltar a conquistar a confiança do investidor. O que nós já dissemos aqui é que é um investidor que o Príncipe precisa e que o Príncipe mantém muita confiança, porque realmente tem dado provas daquilo que têm prometido. Têm feito não a 100%, mas têm feito. E nós respeitamos bastante.
A compositora e pianista luso-angolana, é a primeira artista portuguesa a integrar a colectânea oficial do “Piano Day”, para onde compôs o tema “Translucente”. “Albúm de Retratos” é o nome do EP de apresentação de Gisela Mabel e foi distinguido como “Jazz Album Of The Year”, pelo SoloPiano.
O piano como elemento que nos leva a viajar por paisagens, memórias, emoções, esperanças, vitórias e desilusões. Podem ser múltiplas as marcas que nos ficam na pele quando nos permitimos usufruir da indescritível beleza do piano de Gisela Mabel.
A compositora e pianista luso-angolana, é a primeira artista portuguesa a integrar a colectânea oficial do “Piano Day”, para onde compôs o tema “Translucente”. “Albúm de Retratos” é o nome do EP de apresentação de Gisela Mabel e foi distinguido como “Jazz Album Of The Year”, pelo SoloPiano.
É a partir das influências da música clássica, jazz e contemporânea, que se misturam com ritmos africanos e brasileiros, que Gisela Mabel constrói uma identidade própria e estabelece a narrativa.
Em Gisela Mabel, cada nota, cada silêncio, tem uma história. O piano não deixa ninguém imune, é introspecção, é intimidade, é o prazer da partilha.
Na entrevista à RFI, entre outros temas, a pianista e compositora fala-nos das diferentes influências, do reconhecimento alcançado, do futuro e de como foram os primeiros passos no mundo do piano.
Gisela Mabel:
Tinha eu 13 anos, quando comecei a estudar piano no Conservatório de Música de Olhão, e, sinceramente, rapidamente descobri que o piano era uma companhia para a vida. Fosse onde fosse, estivesse onde estivesse, fosse profissionalmente ou não, eu sabia que ali estava a minha forma mais genuína de expressão. Eu acho que foi a partir daí que também comecei a compor, exactamente também nessa premissa de querer partilhar pensamentos, histórias, porque aliás, a música tem este poder de podermos partilhar humanidade, não é?! E quando é no colectivo, torna as coisas muito mais bonitas. E pronto, foi aí no Conservatório, em música clássica, que eu comecei esta jornada.
A Gisela Mabel começou na música clássica, mas depois houve um período em que decidiu transitar para o jazz. Como é que aconteceu essa transição?
Uma vez eu fui a um festival de música, eu ia participar também no festival, e esse tema era direcionado para o jazz.
Nós estávamos ali uma semana inteira a estudar temas de jazz, a conhecer a linguagem, e no final íamos apresentar aquilo que tínhamos estado a estudar. No final desse festival, eu vi um concerto do Mário Laginha com a Maria João, e houve um tema particularmente que me chamou muito a atenção, que é o Beatriz, do Chico Buarque, e a partir daí houve em mim um clique. O que é isto? Que linguagem é esta? E depois, pronto. Acabei por acabar o Conservatório, mas sempre com aquela semente em mim, de que eu quero ir ver o que é aquilo. E vim para Lisboa, estudar jazz.
Como é que foi a adaptação? Como é que foi o entrar nessa nova vertente, nesse novo manifestar no campo da música?
Foi muito natural, para ser muito sincera. Claro que nós estamos habituados, no clássico, a uma linguagem diferente, a uma interpretação diferente, e no jazz aquilo tem uma componente, até uma liberdade de expressão diferente.
Eu, sinceramente, acho que foi isso, foi muito natural. Obviamente que eu estive ali um ano a tentar entender, mas eu também já ouvia. Eu, a partir daquele momento, daquele festival, eu fui pesquisar, eu ouvi muito, eu já ouvia música jazz.
É engraçado que eu, quando estava no Conservatório, havia várias pessoas que me diziam assim, epá, tu tens que ver o que é o jazz. E para mim aquilo era chinês, a verdade é esta. E isso ficou-me na cabeça.
Mas, de uma forma geral, acho que foi super natural, porque eu também estava pré-disposta a isso.
A Gisela Mabel tem raízes também em África, mais concretamente em Angola. Há algo da música de Angola, da música africana, que transparece naquilo que a Gisela Mabel apresenta actualmente?
Sim, eu acho que as nossas experiências e a nossa identidade se expressam depois na música.
Eu, desde muito miúda, que oiço a música africana, artistas como Bonga, Cesária Évora, até mesmo Kuduro, Funaná, Kizomba. Essa música sempre esteve muito presente em mim. E é exactamente isso que estás a dizer, existe um ritmo e um balanço que eu acho que o encontro muito naturalmente. É difícil materializar isto.
Por exemplo, quando comecei a estudar jazz, nós estudámos os standards e houve ali um tema que se chama Blue Bossa, que é um tema que é mais direccionado para a música brasileira até. É uma bossa nova, assim dizendo. Eu toquei aquele tema e aquele tema disse-me coisas que outros ainda não tinham dito. Na altura, até queria explorar mais aquela vertente musical e por isso mesmo também é que saí da escola, porque não era tão abordada, e fui à procura de música brasileira.
A partir do momento em que eu fui estudando, com o passar do tempo, comecei-me a perceber que aquilo era muito próximo da música africana. O ritmo, a forma como vem a música, o paralelismo até da música com a vida. Acho que eu tinha em mim uma parte que realmente estava à espera de ser descoberta, que era essa forma de viver a música.
Parte dessa descoberta foi recentemente colocada em disco, com o lançamento do EP Álbum de Retratos. Como é que foi o trabalho de composição destes cinco temas?
Olha, desde o início que queria que este EP tivesse uma abordagem mais próxima, mais crua, até a nível de instrumentalização. Eu comecei por compor o piano, porque é onde eu componho.
A partir do piano eu tinha depois vários caminhos, várias possibilidades e eu tive que fazer o trabalho de perceber qual era a mensagem que eu queria passar e qual era a sonoridade que seria mais adequada a essa mensagem. Optei por escolher esse som mais fechado, mais próximo, porque este EP é uma abordagem até bastante pessoal. Ele é uma interpretação e uma reflexão minha a momentos, a pessoas, a histórias que fizeram parte da minha vida.
Qual o tema mais forte, que lhe é mais próximo?
Aquele que me é mais especial e que me toca mesmo, eu acho que é realmente o Sonho de Abril. O Sonho de Abril. Abril, para mim, já é um mês que sempre foi muito especial.
É um mês onde eu celebro a vida, as conquistas, onde se celebra a liberdade, onde nascem também as primeiras flores e que trazem com elas aquela conotação de renascimento e de esperança e já por si eu vejo este simbolismo no sonho de Abril. Depois, o Sonho de Abril é uma homenagem à minha mãe e é também uma procura de dar voz a mulheres guerreiras, invisíveis, a quem lhes foi privada esta liberdade de sonhar. Daí ser Sonho de Abril.
Translucent é um tema que compôs para a colectânea Piano Day, um momento especial, imagino. O que é que representa para a Gisela Mabel, enquanto jovem compositora e pianista, ter o convite e ter o Translucent como um dos temas da colectânea Piano Day?
Então, é muito especial, não é?! Isto é uma colectânea que todos os anos, para celebrar o Dia Mundial do Piano, são convidados pianistas de todo o mundo a comporem um tema inédito para depois fazerem parte deste lançamento. Eu receber este convite é uma surpresa muito bonita porque isto é um reconhecimento do trabalho que tenho vindo a desenvolver e eu acho que nós, como artistas, ou mesmo qualquer outra pessoa noutra área, o reconhecimento do trabalho é muito importante porque dá-nos uma motivação, é um sinal de que estamos num caminho bom. E fazer parte disto é uma forma também da minha música poder chegar a outros cantos do mundo e internacionalizar, que é também um dos meus objetivos.
O EP Álbum de Retratos tem tido belíssimas críticas em diversas plataformas dedicadas ao Jazz e ao Piano. Depois do Álbum de Retratos já há um próximo trabalho em perspectiva?
É assim, depois de um EP vem sempre um álbum, não é?! Sim, há um trabalho já a ser iniciado, já me estou a preparar para construir esta nova aventura. Há uma coisa essencial que eu faço comigo, que é preservar a minha liberdade criativa e isso significa ir onde eu quiser, sem fronteiras, e depois é ser o máximo genuína comigo própria e sincera. Portanto, a partir do momento em que eu faço isto, pode vir um mundo atrás.
Portanto, olha, o que eu tenho a dizer é estejam atentos às novidades.
“Imagens da Guiné-Bissau: Memória, Consciência e Futuro” é o nome do ciclo de cinema que reúne uma selecção de filmes que reflectem sobre o passado colonial e a identidade guineense, mas também são ferramentas para pensar o presente e perspectivar o futuro. Até 18 de Outubro, o Museu Nacional de Etnologia, em Lisboa, recebe, em parceria com a Casa da Cultura da Guiné-Bissau, o Ciclo de Cinema cuja selecção de filmes teve a curadoria de Onésio Soda e Welket Bungé
O ciclo inclui filmes realizados por Flora Gomes, Sana Na N’Hada, José Magro, José Bolama, Djalma Fettermann e Josefina Lopes Crato.
Em cada sessão, para além das exibições, há um momento de conversa com convidados especiais.
A RFI falou com Onésio Soda, que partilha a curadoria do Ciclo com Welket Bungué, e com Bia Djassi, da Casa da Cultura da Guiné-Bissau que começa por revelar como nasceu o Ciclo de Cinema “Imagens da Guiné-Bissau: Memória, Consciência e Futuro”.
Bia Djassi, Casa da Cultura da Guiné-Bissau:
Já o ano passado tínhamos realizado um ciclo de cinema e este ano surgiu a hipótese de ter acesso à filmografia do Flora Gomes. A partir daí começámos a pensar em fazer uma coisa diferente daquilo que foi feito o ano passado. Tudo começou aí. Depois começámos a pensar que não faria muito sentido ter apenas a filmografia do Flora Gomes e começámos a tentar perceber que outros cineastas é que iríamos conseguir agregar.
Chegámos ao Sana Na N’Hada. Outros foram também pensados e contactados mas não foi possível por diversos motivos.
Pensámos tudo isto em simultâneo. Quem seriam os curadores que íamos convidar? Convidámos inicialmente o Onésio. Depois fizemos um convite à Fundação Mo AC Biss (“ Mostra de Arte e Cultura da Guiné-Bissau) que teve a primeira Bienal de Arte e Cultura da Guiné-Bissau, que foi este ano em maio, em Bissau. A possibilidade de os convidarmos para serem nossos parceiros.
Nesse sentido, sendo o Welket Bungé um dos membros também da Fundação MoAC Biss, ficou o Welket também como curador deste ciclo de cinema em conjunto com o Onésio. Depois, a partir daí, foi tudo, digamos que, dividido e pensado por eles enquanto curadores.
Como a Casa da Cultura ainda não tem paredes mas temos sempre quem caminha connosco - estou sempre a dizer isto - fizemos um pedido de cedência de espaço ao Museu Nacional de Etnologia, que foi prontamente aceite por eles.
Abriram-nos as portas e a partir daí começámos a delinear o ciclo de cinema Imagens da Guiné-Bissau.
O Onésio Soda, a par do Welket Bungué, faz a curadoria deste ciclo de cinema.
O Welket Bungué não pode estar presente neste momento, está o Onésio Soda. Onésio, como é que pensaram a selecção dos filmes?
Onésio Soda, co-curador do Ciclo de Cinema “Imagens da Guiné-Bissau: Memória, Consciência e Futuro”:
Nós estivemos a pensar as imagens da Guiné e, pensando na imagem, pensámos também na memória, assim como também na consciência e no futuro. Tudo começou por aí. O que seleccionámos tem muito a ver com aquilo que é a memória da luta e da libertação, como também do Amílcar Cabral. Os filmes que estão seleccionados têm essa linha da memória. Porque, se vamos ver o momento que estamos a viver, um momento muito da questão da identidade, todo o mundo anda à procura da identidade.
A memória, neste caso, entra como um trampolim para chegarmos a esse futuro. Os filmes mostram isso mostram aquilo que foi a nossa memória colectiva como guineenses. São também os filmes que mostram os valores daquilo que foi a unidade dos guineenses e daquilo também que foi a honra.
Esses valores é que vão formar a nossa consciência. Nós percebemos assim. E dessa consciência é que podemos escrever um futuro em que vamos ser mais unidos.
Se pensamos, os filmes têm uma narrativa que é ligada àquilo que nos une, àquilo que nos vai levar a pensar de uns aos outros. Por exemplo, A República di Mininus (Flora Gomes) é um filme que mostra aquilo que é a responsabilidade das crianças com os líderes e também das próprias crianças. Neste caso, que têm de fazer para o desenvolvimento.
E temos também A Pegada de Todos os Tempos (Flora Gomes), um filme pan-africano que mostra, mais ou menos, aquilo que é a ideia da linhagem, da memória também. Isso com os outros filmes como Nha Fala (Flora Gomes) que é um filme, posso dizer assim, mítico mas também que mostra aquilo que é a voz de uma mulher. É uma sessão que temos para falar da mulher. Temos Bissau d’Isabel (Sana Na N’hada) que é um filme também que mostra aquilo que é a trajectória da mulher guineense, a sua vida, e como é que o próprio crioulo, a partir da luta de libertação, cresceu. Cada etnia tem uma forma de falar o crioulo. E não só, também o (filme) Nome (Sana Na N’hada) que é um documentário da Luta e Libertação. O nome do filme é Nome, mas os personagens também são chamados de nome em diferentes línguas étnicas do nosso país, e vão sempre buscar aquilo que é a unidade. Para nós faz muito sentido falar de uma coisa que traz uma memória boa, não só do nosso país como de uma memória que pode ser para todo mundo.
E os valores que são retratados nos filmes, também faz sentido termos isso na exibição.
Falámos de realizadores guineenses, tudo homens. Onde é que está o espaço para as mulheres guineenses realizadoras? Porque é que há essa falta?
Onésio Soda:
Nós, logo no início, tivemos quatro pioneiros e lá está uma mulher que é Josefina Crato.
Nós tivemos isso. Bom, na minha opinião pessoal, eu posso dizer que não há um mercado do cinema guineense. A maior parte dos filmes que os realizadores fazem são, por exemplo, filmes encomendados. E também há uns filmes que não são uma produção que eu possa dizer independente. Mas há mulheres que fazem isso.
Por exemplo, na literatura já tínhamos Domingas Samy, que já publicava em 1973. Actualmente temos a Babetida, Babetida Sadjo com quem eu já estive num workshop. Já estive com mulheres mas são as mulheres que já escreveram, na verdade. Já têm um trabalho. Embora não seja publicado, nós sabemos. Há muita dificuldade. É um acto heroico quando se faz um filme na Guiné. E as mulheres sempre trabalharam. Por exemplo, Baptida eu conheci e também a Lizidória (Mendes), que é mais da literatura, estivemos também num workshop de cinema. Isso explica. Todo o mundo tem um desafio a cumprir. Na nova geração temos Baptida, está a fazer um trabalho fenomenal. Também há pessoas a escrever, talvez seja uma questão de tempo para vermos a publicação dos trabalhos dessas mulheres.
O Onésio Soda é realizador e escreve. Tem coisas para breve ou a acontecer?
Onésio Soda:
Tenho uma mini-série que estou a trabalhar no momento. Já tem o primeiro episódio. O nome da série é Marcha. Marcha com os dois pés. Um é do sacrifício e o outro é do humanismo. Nós sabemos que estamos a viver numa era de desumanização das pessoas e eu percebi que há valores que temos que contar. Amilcar Cabral, neste caso, tem frases mesmo célebres em que dizia que ele vai dar força e coragem por causa da humanidade. Ele, desde sempre, dizia que a sua luta não era contra o povo português. Ele percebia que nem todos os portugueses tinham a ideia da luta. Ele pensava que, independentemente de sermos portugueses, guineenses, africanos, europeus, somos, no fundo, o ser humano. Para ele se celebrarmos o humanismo, no fundo somos o ser humano. É isso que nos une, independentemente de sermos africanos ou sermos europeus. Marcha é nesse sentido de marcharmos para o humanismo.
"Meu Gastoso, Minha Gostosa, Meu Amor – Crónicas íntimas", é o mais recente livro de Rafael Branco lançado em Portugal.
A obra marca a estreia do Embaixador, professor universitário e político são-tomense num universo onde o escritor, de forma envolvente, nos faz entrar no fluxo de seiva que alimenta a árvore da condição humana e da intimidade do arquipélago.
Rafael Branco : “O reforço das instituições democráticas e o respeito pela lei são fundamentais para combater o autoritarismo, que neste momento é uma ameaça à nossa democracia.”
A edição do livro "Meu Gastoso, Minha Gostosa, Meu Amor" (editado em Portugal pela Perfil Criativo) , que “reúne histórias ficcionadas basedas em experiências reais, vividas por homens e mulheres que ousam amar em contextos de precariedade, incerteza e profunda complexidade social” foi o pretexto para a entrevista com um dos nomes marcantes da história política recente de São Tomé e Príncipe.
Os 50 anos de independência de São Tome e Príncipe e o momento político no país, a actualidade internacional e as tensões entre actores como Estados Unidos, Brasil, Rússia, Israel, Gaza ou Cisjordânia, são alguns dos temas abordados na entrevista com Rafael Branco. O autor começa por revelar como as conversas num popular café de São Tomé o fizeram colocar em escrita a aventura de amar.
Rafael Branco:
É a primeira vez que eu lido com relatos de acontecimentos reais. E numa área interessante, acho eu, na área dos relacionamentos entre pessoas. Relacionamentos de todo o tipo. Eu sou escritor recente, mas (este livro) é uma quebra com outros livros que escrevi, que são muito reflexivos, no sentido que os personagens vão revelando como é que veem o mundo, como é que sentem no mundo, como é que enfrentam os desafios, numa perspectiva muito íntima. Reflexiva ou, diria até, filosófica. E este não.
Este livro resulta de conversas de café. Há um café em São Tomé onde muita gente se reúne e lá ouvem-se histórias. Eu ouvi muitas dessas histórias.
As oito histórias resultam dessas conversas sobre diversos tipos de relacionamento. No livro só uma história é que é fora de São Tomé, porque é um relacionamento, digamos, no modelo ocidental. Os outros são relacionamentos marcados por alguns casos específicos de São Tomé e Príncipe, que é a precariedade, a natureza, o papel da natureza, e um amor quase tudo imprevisível. Mas a imprevisibilidade nessa área, em São Tomé e Príncipe, é bastante interessante.
Eu acredito que as realidades são socialmente construídas, são os homens e mulheres, e onde vivem, como vivem, é que determinam muito das suas ações. Os relacionamentos fazem grande parte da vida das pessoas. Eu tento, através das personagens e dos personagens, mostrar como é que eles encaram esses relacionamentos.
A maior parte das vezes são mulheres bastante conscientes de si mesmas, do seu papel, mulheres firmes. Aliás, o tema mulher percorre todos os meus livros. E pronto, eu descrevo esses relacionamentos.
Eu digo no livro que 90% são histórias ouvidas, mas 10% o autor tenta fazer alguma coisa e inventa algumas partes. Mas é basicamente isso.
Ainda falando de São Tomé e Príncipe, celebra 50 anos de independência.
Como é que olha para estes 50 anos de independência, qual é o balanço que é possível fazer?
É uma mistura de sentimentos. Primeiro, eu participei na luta pela independência, e daí estou orgulhoso por termos conquistado a nossa independência nacional. Orgulhoso porque também fui participante da transição para a democracia.
Passámos de 15 anos de um regime partido único para uma democracia no estilo ocidental em 1991. Esse é o lado do orgulho. Mas, por outro lado, com alguma desilusão, mas também com um espírito muito optimista em relação ao futuro. Eu sei que os relatos que se fazem sobre a independência são, no geral, negativos, até por razões demográficas sociais.
A maior parte da população, hoje, é jovem. A maior parte dessa população nasceu depois da independência, não conhece o passado colonial. O que conhecem são as dificuldades e os problemas do Estado pós-independência. Eu acho que as pessoas fazem uma confusão quando condenam a independência, quando acho que o que devíamos criticar e condenar é o desempenho do Estado pós-colonial.
Quer dizer, a independência é um facto único, histórico, que deve ser celebrado. Já o desempenho do Estado, que tomou conta do país depois da independência, sobretudo dos governos, não é tão bom como isso. E eu digo que encaro essas duas coisas com orgulho e alguma frustração, mas também com optimismo. Sendo (estudante) de Relações Internacionais, a história é muito parte dos fundamentos da minha maneira de pensar.
Eu digo às pessoas, "Olhem a Europa, em 20 anos teve duas Guerras Mundiais, uma das quais arrastou todo o mundo e matou milhões de pessoas". Mas isso passou. Hoje a Europa é uma potência no mundo. Eu digo mais, "Olhem para os Estados Unidos. Conquistou a independência dos britânicos, depois entrou numa guerra civil. Hoje é a maior potência do mundo."
Portanto, para mim, o estado do meu país, da África em geral, não é um destino que está marcado. É possível que os homens, as mulheres, sobretudo a nova geração, construam países e tenham populações com uma vida digna, porque a África tem tudo para dar felicidade aos seus povos. Precisamos de governos competentes, que trabalhem para o bem-estar da população.
Fala-se muito de corrupção, que é um problema na África e também em São Tomé e Príncipe. Mas, se olharmos bem, a corrupção encontramos em todo o lado. O que faz a diferença é como as sociedades lidam com isso, qual é o seu grau de intolerância e quais são as reformas que levam os seus líderes a fazer.
Portanto, desiludido, um pouco frustrado, mas com grande optimismo em relação ao futuro.
Imaginando o Rafael Branco, agora, à frente de um possível governo de São Tomé e Príncipe, onde é que iria focar a sua atenção para avançar o mais possível no desenvolvimento de São Tomé e Príncipe?
Eu, hoje, diria que a educação e a formação são a grande prioridade de São Tomé e Príncipe. Fizemos progressos importantes na alfabetização, o acesso à educação hoje é quase universal, incluindo a educação universitária, mas a qualidade está muito em baixo.
Isso é sempre o drama entre quantidade e qualidade. Mas isso, qualidade, é uma coisa que depende de vontade política, depende daquilo que investimos na formação dos professores e na formação técnica. Hoje eu colocaria isso como uma das maiores prioridades e também na parte de infra-estruturas. Portanto, eu vejo o futuro de São Tomé e Príncipe com optimismo, menos conflituoso politicamente. Porque uma das razões do nosso relativo, vamos utilizar a palavra “atraso”, é a falta de continuidade de Estado.
Os governos duram um ano, dois anos, e em nenhum país, nenhum projecto se realiza com eficácia, sem uma perspectiva de médio e longo prazo. Os governos têm a duração de quatro anos, constitucional, mas poucas vezes atingem os quatro anos. É sempre um recomeço, mesmo quando são governos do mesmo partido, que é preocupante. Portanto, esse aspecto eu acho que é importante. E sobretudo a luta, que trata-se mesmo de uma luta, para garantir que o autoritarismo não tenha lugar no país. Porque, até agora, o falhanço também se deve a uma fragilidade institucional muito grande. As instituições são novas, são construídas até em termos modernos, mas elas dependem muito do poder político, e quando o poder político é autoritário, elas não cumprem de maneira nenhuma a sua função. Portanto, o reforço das instituições democráticas e o respeito pela lei são fundamentais para combater o autoritarismo, que neste momento é uma ameaça à nossa democracia.
Como é que avalia, como é que olha para o desempenho do actual governo de São Tomé e Príncipe?
É um desempenho que não é adequado para a situação que vivemos. É verdade que é um governo com características muito próprias, é um governo que surge da cisão dentro de uma maioria. É um governo que perde o líder do partido, o grande maestro e orientador do partido, mas que vive uma espécie de bicefalia, no sentido que quem já foi o antigo primeiro-ministro continua a ter uma grande influência sobre as decisões do partido. Quem o contrariou ainda não tem capacidade de se afirmar por si. Está muito dependente da unidade dentro do partido, que não está garantida., está dependente do papel da oposição, está também dependente do Presidente da República, que é quem, de facto, permitiu que se pusesse travão à tendência ditatorial que se estava a materializar. Juntam-se depois todas as dificuldades que o mundo tem, que a economia tem.
Portanto, o desempenho do governo não é o que é desejável. Há muitas crises e, em alguns sentidos, o que eu vou percebendo é que continuam os vícios do passado, não do outro governo, mas de todos os outros governos, que privilegiaram gente de confiança contra o mérito a presidir a escolha das coisas. Negócios nem sempre feitos da maneira mais transparente. Mas, vendo tudo, acho que ainda é uma coisa boa em relação ao passado recente. Também tem pouco tempo de governação e tem pouco tempo para governar, porque em 2026 vão ter eleições, então o governo é condicionado pelas circunstâncias.
Em relação às eleições já de 2026, por onde é que gostaria que os santomenses avançassem? Em que direcção?
Eu sou do MLSTP, que é o partido histórico, mas hoje o meu grande partido é São Tomé e Príncipe.
De maneira que estou mais interessado num governo que tem a composição de coligação. A maioria absoluta eu não gosto muito. O poder absoluto tem algumas desvantagens, tem muitas desvantagens, mas tem algumas desvantagens. Eu quero é um governo competente. Um governo formado por gente patriota, competente, que coloca os interesses do país acima de tudo, que respeita o carácter democrático do nosso Estado. Quanto à composição, pode ser de coligação, pode ser de uma maioria relativa.
Nós, no Partido Único, tínhamos falta de liberdade, mas de uma certa maneira tínhamos um certo rumo. Pode-se discutir o rumo, mas havia rumo. Havia autoridade do Estado, havia respeito pelas instituições. O regime democrático veio criar dificuldades nisso tudo. Não há a tal união, não há o respeito que se deve às instituições, por culpa de quem dirige. Está-se a perder uma ética de trabalho séria. As pessoas investem o seu futuro na adesão a um partido, nos cargos que recebem.
Nenhuma sociedade de avança assim.
O senhor foi vice-secretário-adjunto da CPLP (Comunidade de Países de Língua Portuguesa) . O Brasil é um dos membros da CPLP. Nos últimos tempos, o Brasil tem sido muito pressionado pelos Estados Unidos, onde o senhor também foi Embaixador. Como é que encara esta atitude dos Estados Unidos em relação ao Brasil?
Com preocupação. Eu sou estudante de Relações Internacionais, sou Embaixador de carreira, eu não reconheço este mundo, de facto. O mundo que temos depois de 1945 foi um mundo construído muito sob o impulso dos Estados Unidos e dos países ocidentais. Um mundo construído sob valores, princípios, sob o respeito pela autonomia dos países, baseado muito no multilateralismo, na procura de soluções consensuais. E, de há um tempo para cá, e não se resume só a Trump, estamos a assistir, em termos do poder mundial, a uma transição. Uma transição do poder, onde o poder dominante, encabeçado pelos Estados Unidos, é questionado por outras potências emergentes. China, Rússia, Brasil, e outros países que nós não falamos muito, mas há países muito importantes, como a Indonésia e outros, que têm uma importância muito grande. E vivemos com todas as dificuldades que temos disso. Mas havia princípios, havia valores que eram comungados por todos. Qualquer país que se tornasse independente, a primeira coisa que queria era ser membro das Nações Unidas, por causa da garantia, do respeito dos direitos, dos direitos do homem, por uma opção nem sempre conseguida por um conceito de segurança colectiva, por um comércio que era suposto ser livre.
Já não se respeitam aos valores que foram fundacionais para as Nações Unidas, já não se respeita o comércio livre. Estamos numa lógica de luta do poder pelo poder. Isso cria um mundo muito instável, um mundo propício aos mais fortes governarem. E, por outro lado, há um nacionalismo que se traduz num proteccionismo muito preocupante. Isso, em princípio, afecta os países, a economia dos países, mas afecta sobretudo a convicção num mundo a ser construído por todos.
Estamos a caminhar para um mundo construído pela força e por aqueles que têm poder suficiente para impô-lo. Este não é um mundo que dê muita segurança à humanidade. Tudo isso preocupa-me profundamente.
No caso do Brasil, eu acho que o Brasil é um grande país, com uma história rica. Independentemente dos governos, é um país que se afirma ainda na base de princípios e valores que nasceram em 1945. Eu creio que, possivelmente, o Brasil vai sofrer com essas tarifas, mas sei que o Brasil vai resistir.
O senhor foi Embaixador junto da ONU. O questionar de instituições, de valores, é procurado por países, e neste caso estou a pensar muito concretamente de países que já sofreram diferentes sanções, estou a pensar em Israel.
Sim. O que o Israel está a fazer é inadmissível. Não se pode usar a força, que eu nem posso dizer que é para a defesa de Israel concretamente, é para a defesa de um governo e de uma pessoa, e vitimizar tantas populações.
Em Gaza é o caso, no século XXI, as pessoas morreram de fome provocada. Em muitos países, na Ásia, as pessoas morreram de fome, mas são desastres naturais, são guerras civis.
Mas aí é uma tentativa de aniquilação de um povo. E o que me dói é que todos, pelo menos eu, não aceito a invasão da Ucrânia pela Rússia, está a fazer mortes, mas há um coro de suporte, de apoio, de condenação. E o que é que Israel faz de diferente, não só em Gaza, mas na Cisjordânia também, que é tão diferente daquilo que a Rússia faz na Ucrânia? Não se pode relativizar essas coisas.
Enquanto a Rússia está com a Ucrânia, tem razões históricas, tudo o que a gente pode discutir. Os árabes sempre estiveram na zona de Israel desde os tempos históricos. Mas o que se faz contra o Irão, o que se fez agora, recentemente, contra o Catar, o que se faz numa Síria, que parecia tentar encontrar um caminho com todas as dúvidas, isso não pode ser possível.
Eu acho que, mesmo em relação à Europa, está a perder os grandes líderes que já teve no passado, com a visão. Toda a criação da Comunidade Europeia, foi gente de visão que apostou no futuro. E agora são políticas para o noticiário do dia seguinte ou da semana, onde não se vê uma coerência entre os valores que se propagam, que se defendem, e as ações. Há aqui muita inconsistência, muita incoerência. É verdade que, estando em política, não podemos esquecer os interesses, mas acho que há limites para tudo.
O que se está a passar no Médio Oriente, em geral, em Gaza e Cisjordânia, em particular, é que, depois de tudo, as pessoas esquecem-se que Israel existe por causa de uma resolução das Nações Unidas que criou dois estados.
E agora, como é que se nega o direito de existência a um povo? Se humilha, como se humilha? Se aniquila pessoas? Mesmo nas áreas como a Cisjordãnia, permite-se a construção de colunatos? Isto... Desculpe, eu não procuro muitos adjetivos para qualificar essa situação. É condenável.
Uma última questão. Vamos voltar ao seu lado “Rafael Branco, autor”. Acaba de lançar (em Portugal) o livro "Meu Gostoso, Minha Gostosa, Meu Amor - Crónicas Íntimas". Já há qualquer coisa preparada para um futuro livro? Já está a pensar nisso?
Está aqui pronta a ser entregue ao editor. É uma obra... Eu chamo-lhe fragmentos de memória. Não será uma autobiografia no sentido estrito, mas é um visitar o meu percurso nesta vida, com o que eu fiz de bom, pouco, mas com muito o que eu fiz de mau, também. Mas que me permite, por um lado, atingir as novas gerações, para verem que isso do poder é qualquer coisa muito fortuito.
No meu caso, a minha experiência foi muito violenta. Eu fui objecto de dois golpes de Estado. Uma vez estive com uma arma apontada à cabeça durante quatro horas. Há decisões de vida e morte, que é uma coisa que acho muito violenta. Alguém, uma pessoa, só por ter um cargo, poder decidir se uma pessoa morre ou vive. Não por meios violentos, mas, por exemplo, não ter condições de dar uma saúde de qualidade ou promover uma evacuação. Tudo isso é muito violento.
Eu quero mostrar que isso de ser político, ser poder, não é só coisas grandes, como muitos políticos pretendem proclamar. Mas, lá está, também há episódios em que eu fui interveniente, quer principal, quer secundário, mas, apesar de tudo, interveniente. E, sobretudo, que a vida não pode resumir-se à política e ao poder. Uma vida resumida a isso não é vida.
Nós somos seres multidimensionais, com muita emoção, muita reacção, mas devemos manter essa ligação com a nossa condição humana. Nós nascemos imperfeitos. Só a vida é que nos vai aproximar, se nós estivermos determinados a isso, a estar perto da perfeição. Mas, sobretudo, o grande objectivo, devemos procurar ser boas pessoas.
Na cidade alentejana de Mértola, sul de Portugal, a Escola Profissonal ALSUD acolhe um grupo de jovens provenientes de Cabo Verde.
O correspondente, Luís Guita, esteve no local a falar com a equipa docente e com os e as alunas.
A vontade de crescer, de estudar, de aprender, de colocar esperança num futuro, já imaginado ou não, podem ser os elementos que numa determinada conjuntura inspiram a capacidade de enfrentar desafios, dar um passo em frente e ir além fronteiras, por vezes no sentido mais literal.
As oportunidades nem sempre são óbvias ou se encontram nos contextos mais facilmente identificáveis ou reconhecidos. Em Mértola, no baixo Alentejo, 250 quilómetros a sul de Lisboa e a uma dúzia de quilómetros de Espanha, na Escola Profissional ALSUD, é onde um conjunto de jovens estudantes de Cabo Verde está actualmente a preparar-se para o futuro.
As estudantes, porque a turma é essencialmente formada por raparigas, decidiram aproveitar o melhor que a escola ALSUD tem para dar, a formação e as condições para durante três anos conquistarem a valorização académica e profissional.
Na área de formação profissional a ALSUD tem actualmente dois cursos, o de Técnico de Gestão Cinegética e o de Técnico de Geriatria, o curso frequentado pelas jovens de Cabo Verde.
A RFI foi até Mértola, falou com as estudantes Cláudia Feire e Mayra Tavares, da Ilha de Santiago, que avançaram para o segundo ano do curso de Geriatria, e testemunham o ambiente acolhedor que encontraram na vila do Sul de Portugal, e falou também com a directora da Escola Profissional ALSUD, Isabel Campos, que começa por nos explicar o tipo de ensino que a ALSUD oferece e como funcionam as parcerias com os PALOP [Países africanos de língua oficial portuguesa].
Directora da Escola ALSUD, Isabel Campos:
Neste momento, a Escola Profissional ALSUD, na sua valência dos cursos profissionais, tem dois cursos, o curso técnico de Gestão Cinegética e o curso técnico de Geriatria. No curso técnico de Gestão Cinegética, estão predominantemente jovens cujo perfil é gostarem do campo, gostarem da natureza, gostarem de cães, gostarem de animais, gostarem de pesca … . Enfim, é um nicho de jovens muito interessantes que têm uma motivação muito particular e muito importante para Portugal em geral e para o interior em particular, porque são jovens que gostam do campo e têm pretensões de se fixar nele, o que é um perfil que interessa muito neste panorama que vivemos de despovoamento do interior e de falta de fixação de jovens. O curso de Geriatria tem alguns jovens nacionais também, portugueses, e tem um grande número de alunos de Cabo Verde, que resulta de parcerias que a Escola tem tido ao longo do tempo. A Geriatria tem outro perfil de jovens, mais virados para a área social e do cuidado. A Geriatria é um curso vocacionado para formar pessoas para trabalharem, sobretudo em IPSS e em ERPI’s, que são as estruturas de acolhimento de idosos em contexto domiciliar ou de lar, os chamados antigos lares, agora não se chamam assim, chamam-se ERPI. E são jovens que visam estar preparados para o envelhecimento da população, para dar resposta a uma necessidade de pessoal qualificado nestas áreas, para cuidar de quem está mais velho, mais vulnerável e com necessidades muito específicas.
Nesta parceria temos jovens de Cabo Verde que vieram também através de uma instituição que em Cabo Verde também trabalha com idosos.
Portanto são duas áreas muito diferentes, a Geriatria e a Cinegética, mas que nós conseguimos compatibilizar e acima de tudo têm o mesmo objectivo, que é formar pessoas para áreas onde há necessidade de técnicos qualificados e preparados para os desafios, seja das alterações climáticas, seja do envelhecimento da população, seja da fixação de pessoas no interior, seja das alterações demográficas que estamos a ter em geral.
Esses jovens que vêm de Cabo Verde vêm através de parcerias, como é que funcionam essas parcerias? É possível que jovens de outros países dos PALOP possam vir através de parcerias ou não?
Nestas duas últimas edições do curso de Geriatria e de outros anos noutras áreas, nós trabalhamos sempre com uma entidade parceira, porque é uma entidade a quem nós damos a possibilidade de fazer o papel de mediador entre os jovens de lá e nós aqui.
Nós fornecemos um conjunto de vagas para inserirmos aqueles jovens no nosso grupo dos alunos profissionais e nesse conjunto de jovens que é seleccionado por essa entidade parceira. É um conjunto de jovens que, à partida, já foram escolhidos pelo seu perfil para fazerem esta viagem de Cabo Verde a Portugal, esta grande mudança, mas que também têm perfil para a área, têm a maturidade suficiente, têm um perfil também social que se adapta a esta nova realidade que vão encontrar.
Embora nós, pontualmente, também vamos lá, a Cabo Verde, até para conhecermos a realidade de base; essa entidade também vem cá para os acompanhar. Em caso de algum problema, alguma questão, temos mais uma pessoa na discussão, depois temos grupos WhatsApp para ir gerindo estas coisas, para fazer também a ponte com a embaixada de Portugal em Cabo Verde. Portanto há toda uma fase inicial em que a entidade parceira é muito importante e depois ao longo do tempo a entidade parceira também acompanha os alunos. No caso deste ano, em que a entidade parceira é o Lar de São Francisco Xavier, na cidade da Praia, vem a Mértola para acompanhar os alunos uma ou duas vezes por ano.
É possível virem outros jovens de outros contextos PALOP, mas nós não fazemos parcerias, digamos, individuais, fazemos parcerias com entidades, nesta perspectiva de haver um mediador lá, para que o processo seja bem planeado, bem vivido, bem preparado.
Quanto tempo é que dura o curso de Geriatria e qual é o tipo de apoio, se existe, que estes alunos podem ter?
Os alunos ficam cá três anos. Portanto, eles têm que ter o nono ano ou o secundário incompleto e vêm cá durante estes três anos fazer uma formação de nível 4, que é reconhecida na União Europeia como formação profissional e ao mesmo tempo ter a equivalência do 12º ano.
No fim desse percurso, os alunos podem ir trabalhar directamente para a área. No caso da Geriatria, os pedidos já existem e eles ainda nem sequer acabaram o curso, e também podem, no final do curso, seguir para o ensino superior. Enquanto eles cá estão e no período da formação, estes alunos estão, e muito justamente, equiparados a alunos nacionais. Eles têm o visto de estuddante, inicialmente dado pela Embaixada e depois pelos serviços da AIMA, que os acompanham, e a quem eles têm que submeter anualmente o seu pedido de autorização de residência.
Portanto, eles têm que passar por todo um processo burocrático, que tem muitos desafios, e nessa medida, a instituição que os acolhe lá também os ajuda, nós também os ajudamos, e a Embaixada de Portugal em Cabo Verde, numa fase inicial, é uma entidade fundamental. Depois, durante todo o processo, eles são apoiados, além obviamente da formação, do acompanhamento da entidade de Cabo Verde, acompanhamento presencial ou à distância. Eles são apoiados por nós na sua integração aqui em Mértola, que é um meio pequeno, e são apoiados também financeiramente para a questão da alimentação e para a questão do seu alojamento.
Esses apoios também são fundamentais para que eles tenham aqui uma vida bem integrada, tranquila, e para que o seu percurso seja tranquilo. Eles também têm famílias de acolhimento, que é a família que em Portugal se responsabiliza por eles. A maior parte deles já são maiores de idade, mas há alguns que são menores de idade, e, portanto, nesses casos, a família ainda é mais importante.
Essa família de acolhimento muitas vezes está em Lisboa, ou está normalmente numa cidade, e aos fins de semana e nas férias escolares, muitos deles também se juntam à família. Portanto, isso também é um elemento importante. Um outro elemento importante, que não é propriamente protocolado, mas que é muito importante, é que em Mértola nós já temos alguns ex-alunos que fizeram cá cursos de outras áreas e que por cá ficaram. Neste caso temos um grupo de ex-alunos de Cabo Verde, que fizeram as suas formações há 2, 3, 4, 5 anos, e que ficaram em Mértola. Aqui residem, aqui têm família, e são elementos também muito importantes, sobretudo na primeira integração, na chegada, que nos apoiam a receber estes seus conterrâneos, e que nos ajudam neste processo integrador inicial. São parceiros fundamentais nesse processo.
Falando concretamente dos casos dos alunos que ainda estão a frequentar a ALSUD, como é que está a ser a integração desses alunos?
Muito boa. Em termos de escola, são alunos e alunas, a maior parte são raparigas, extremamente aplicadas, muito interessadas na área, que estão a fazer um caminho num tipo de ensino que para eles é muito novo, mas tem sido uma descoberta de parte a parte, muitíssimo interessante. Portanto, em termos escolares, são alunos até com muito boa média em termos de aproveitamento. Depois, em termos daquilo que é a sua integração em Mértola, também está a correr muito bem.
Há um momento cultural importante para os apresentar à comunidade, e há sempre essa preocupação de os inserir na comunidade, e isso tem corrido sempre bem. Primeiro, porque o perfil deles é um bom perfil, são miúdos calmos, curiosos, miúdos e miúdas. Agora, mesmo em termos daquilo que são as suas férias escolares, muitos deles até estão a ser contratados para pequenos trabalhos, ou na sua área, ou em áreas ligadas ao turismo, aos restaurantes. Estão adaptar-se bem, não só em termos daquilo que é a escola, como em termos daquilo que é a comunidade, e as oportunidades que a comunidade lhes dá também de se inserirem naquilo que é a vivência da comunidade.
Mayra e Cláudia, como é que está a ser a integração com a comunidade, com os alentejanos?
A comunidade de Mértola é uma comunidade muito acolhedora, as pessoas daqui são muito simpáticas, mesmo. Eles nos acolheram muito bem quando chegámos aqui.
Mayra Tavares:
São mais as pessoas mais velhas com quem nos damos bem. Assim, os mais jovens não. Os mais velhos são todos bem acolhedores e simpáticos, mesmo.
Já há alunos que vieram de Cabo Verde para estudar na ALSUD e que, entretanto, se estabeleceram aqui. Esse foi um contributo para vocês se sentirem mais integradas?
Cláudia:
Um excelente contributo, mesmo. Eles foram pai para a gente, mesmo.
Mayra:
Eles nos ajudaram muito, mesmo muito. No início, e até agora.
A gente sabe o que sabe mesmo só por causa deles.
A ALSUDE dá-vos algumas condições para virem estudar para cá, paga-vos alojamento e alimentação. Foi um contributo grande para vocês decidirem vir fazer este curso aqui em Mértola?
Cláudia:
Sim, foi uma ajuda muito grande, se não tínhamos essa ajuda seria impossível estudar, mesmo. Somos de família pobre em Cabo Verde. Estudar não é fácil aqui em Portugal.
Mayra:
Essa ajuda foi uma grande contribuição para estarmos aqui, porque sem ela era impossível estar cá a estudar.
O ano letivo está quase a arrancar. Como é que se perspectiva? Quais são as novidades da ALSUDE para este ano?
Isabel Campos:
A ALSUD, como uma entidade polivalente que é, e dedicada ao seu território, tem como ambição, agora no próximo ano lectivo, desenvolver projectos que possam aproximar estes técnicos de geriatria do terreno, como já o faz, e com as entidades que trabalham nesta área, mas também aproximar as duas áreas de formação, a cinegética e a geriatria, e as valências de cursos profissionais jovens, e a Universidade Sénior, que é um projeto centralizado fantástico que existe nesta entidade, que tem 240 pessoas espalhadas por 14 locais.
A nossa perspectiva é desenvolver mais projectos intergeracionais entre as duas valências, e juntar também a questão do idoso à questão ambiental. O nosso propósito, inclusive, é através de um projeto que temos que se chama Germinar, Germinar Sementes de Intergeracionalidade, que visa justamente criar jardins terapêuticos e valências de hortoterapia em quatro localidades do concelho. Portanto, em quatro espaços, nós vamos desenvolver jardins para serem usados pelos idosos, cuidados pelos idosos, e criados pelos idosos e pelos jovens. Queremos fazer disto um grande projecto intergeracional. Vai ser um projecto que nos vai dar a capacidade de integrar as principais valências da nossa escola, a valência da cinegética com a parte ambiental, a valência dos idosos com a Universidade Sénior e o curso de geriatria, os jovens de geriatria e de cinegética, todos a trabalhar para um propósito comum, que é criar espaços públicos, pensados para todos e resistentes.
Ser bombeiro “É uma profissão nobre.” ... “É estar lá no momento que o próximo precisa mesmo.” Mussa Embaló nasceu na Guiné-Bissau e é 2º Comandante dos Bombeiros Voluntários de Mértola, no Alentejo, sul de Portugal. Na entrevista com Luís Guita, entre outros temas, fala-se da Guiné-Bissau e da carreira de bombeiro voluntário,
Chegou a Portugal através de um processo de reagrupamento familiar e é apontado como o primeiro estrangeiro no comando de Bombeiros Voluntários.
Inicialmente, não fazia parte dos sonhos de Mussa Embaló, abraçar a “nobre profissão”, onde ajudar o próximo, salvar vidas e proteger bens é a missão de todos os dias.
Quando deixou a Guiné-Bissau, na companhia de dois irmãos, o objectivo era vir viver com o pai, que já morava na grande Lisboa. Contudo, o falecimento do pai no ano em que os irmãos chegaram à capital portuguesa obriga o jovem Mussa a “lançar-se à vida”.
Portugal vivia a crise de 2008, Mussa vai somando empregos em diferentes áreas e , como o 12º ano do ensino guineense de nada lhe valia, vai estudar à noite para conseguir o 12º ano do ensino português.
É nas aulas à noite que acaba por conhecer Edmar, o amigo caboverdiano que lhe falou de uma escola em Mértola, no Baixo Alentejo, onde poderiam fazer um curso de Protecção Civil e receber apoio para estudarem e viverem.
O processo de candidatura à escola ALSUD decorre com sucesso e os dois jovens deixam a Damaia e a Cova da Moura para apostarem num curso de 3 anos na vila alentejana.
O curso de Protecção Civil e o ser bombeiro fundem-se de forma natural. Desde o primeiro estágio nos Bombeiros Voluntários de Mértola, Mussa Embaló foi avançando nas diferentes etapas dentro da estrutura da organização e hoje, enquanto 2º Comandante, continua a dar o máximo para ajudar o próximo.
A RFI foi ao encontro de Mussa Embaló no Quartel dos Bombeiros Voluntários de Mértola.
Na entrevista onde, entre outros temas, se fala da Guiné-Bissau e da carreira de bombeiro voluntário, Mussa Embaló começa por contar como foi a integração na vida da pacata vila alentejana à beira do rio Guadiana.
Mussa Embaló :
O curso, em si, foi interessante e a parte da integração na comunidade também foi muito fácil. Nós viemos estudar e acho que qualquer jovem que vem estudar, e também tendo a vantagem que é ser de um dos PALOP [Países africanos de língua oficial portuguesa], já fala o português, mesmo falando mal, com sotaque, percebe tudo. E a cultura também não é muito diferente. Há algumas coisas diferentes, mas não tanto.
E é sempre mais fácil para os jovens. Para os mais velhos também depende, se a pessoa fizer a vida casa-trabalho, trabalho-casa, a integração sempre é mais difícil. Os jovens, ao estarem numa escola com jovens locais, torna-se mais fácil e a aprendizagem também torna-se mais fácil. Até para ver os costumes locais, pronto, a maneira da comunidade local, a interação, torna-se mais fácil a integração. Portanto, essa parte não foi difícil. A minha turma era composta por 95% de jovens daqui, de Mértola, os estrangeiros era só eu, o Edmar, um outro que é o Anderson, também cabo-verdiano, e o resto eram todos jovens locais, de origens de Mértola, da Mina, … . Mértola e as aldeias à volta, pronto.
A ALSUD já teve várias turmas onde os jovens vêm de todo lado, Lisboa, Algarve, Alentejo Central, Alentejo Litoral, Cabo Verde, de São Tomé e Príncipe, já tiveram também uma turma com muitos guineenses. Eu acho que fui também o primeiro guineense, mas já tiveram mais guineenses, angolanos não sei se tiveram. Mas, a minha turma era isso.
Portanto, a minha integração aqui em Mértola aconteceu de uma forma fácil. Ajudou-me a conhecer as pessoas. Comecei a andar com eles fora do contexto escolar, a ir à caça, a ir à pesca, a ir à do tio não sei dos quantos, a ir ao café do não sei dos quantos, este é o meu tio, olha este é o tio e tia não sei o quê. Isto é também é um sítio pequeno, toda a gente conhece toda a gente, então tornou-se muito fácil.
E nessa altura, como é que estavam as saudades da Guiné-Bissau?
Muitas! Saudades, para quem está fora, é nos primeiros anos. Primeiro e segundo ano é mais forte. E não tendo possibilidade de voltar e ir ver, ainda torna as coisas mais difíceis.
Acho que todos os que, de alguma forma, tiveram necessidade de emigrar, sabem que nos primeiros seis meses e o primeiro ano, não tendo a possibilidade e as condições de voltar, torna as coisas mais difíceis. E a partir do terceiro ano, quarto, as saudades são poucas. Se tiver possibilidade vai, e se não for arranja-se de maneira de suportar. Eu estive oito anos sem ir (à Guiné-Bissau), e quando fui, só estive lá uma semana. Não é fácil, mas pronto.
Fez o curso de Protecção Civil na (Escola Profissional) ALSUD, três anos. A sua ligação aos Bombeiros Voluntários de Mértola aconteceu ainda durante o curso?
Foi logo durante o curso. Lá está, a Protecção Civil engloba tudo, várias entidades, e os Bombeiros somos um dos agentes principais da estrutura. No início do curso, o contexto estava mais direccionado para a organização dos Corpos de Bombeiros, como é que são organizados, as associações com o corpo bombeiro. A parte inicial do curso já era isso. Então, comigo (no curso) estava o meu amigo que sempre quis ser bombeiro. Então, o primeiro passo que demos foi: vamos inscrever-nos nos bombeiros. Enquanto estávamos aqui a fazer o curso. O nosso primeiro estágio foi logo aqui. Começámos logo a fazer a formação inicial dos bombeiros. No segundo ano já tínhamos terminado a formação inicial. Antes de acabar o segundo ano do curso, fomos promovidos para o bombeiro de 3ª. Depois, começámos a fazer voluntariado, a integrarmo-nos aqui, nesta casa, cada vez mais. Sempre que toca (a sirene), é aquilo, é ‘bora! Sempre que precisam, liga lá que eu estou pronto! E quando concluímos o curso, já estávamos aqui integrados, já com trabalho. E foi assim que se iniciou uma carreira.
Mussa Embaló, quando é que acontece o despertar do verdadeiro interesse em ser bombeiro? Foi durante o curso? Foi quando veio fazer o primeiro estágio? Como é que aconteceu?
Quando vim fazer o estágio, começou. Quando me inscrevi, quando recebi a farda, levei a farda para casa, vesti e fiquei à frente do espelho: “olha, fica-me bem!”. Mas despertou-me mais quando comecei a fazer a formação de primeiros socorros, que é para tripulante de ambulância de transporte. Durante a formação dos primeiros socorros é que comecei a ganhar mais o gostinho de poder ajudar o próximo, saber fazer para poder ajudar. Achei, logo na altura, “Mussa, isto que estás aqui a levar é uma bagagem para toda a vida, dentro ou fora dos bombeiros”. Saber socorrer, não é uma bagagem que utilizamos apenas em contexto de trabalho. Então comecei a ganhar gostinho, comecei a ver que isto não é só socorro directamente com as pessoas, mas engloba, como diz no curso, muitas áreas. E eu dizia-me: “agora, imagina lá tu sabendo fazer isto tudo, Mussa”.
Quem vem para o mundo dos bombeiros, vive bombeiros. A cada saída, a cada ocorrência é o máximo, é a adrenalina ao máximo. Isto puxa qualquer pessoa, mas também a pessoa tem que ver. Se estiver lá, a pessoa sente-o, que afinal tem vocação para isso, ou, afinal é isto que eu quero fazer da minha vida. Acho que em qualquer área é assim, a gente entra sem saber, depois já começamos a sentir e ver, olha, realmente sou feito para isto, ou tenho gosto em fazer isto. Posso passar aqui horas e horas e horas, chego a casa como se não tivesse feito nada, com vontade de voltar amanhã. Acho que isto há em qualquer profissão, não apenas nos bombeiros. A pessoa que sente isto, é a verdadeira profissão, é onde deve estar. Mas senti isto logo na primeira formação de primeiros socorros. As outras formações só vieram ajudar a encaixar-me em tudo isto.
Quer tenha a farda vestida ou não, é sempre bombeiro?
Sempre! É o que eu digo ao pessoal quando se vem inscrever: “queres mesmo entrar nessa porta?”. Isto é uma porta em que quando entras, ficas para sempre, com farda ou sem farda. Mesmo que um dia a pessoa fique inactiva, é sempre conhecida como bombeiro. O Zé foi bombeiro, o António bombeiro. Sempre que essa pessoa ouve falar em bombeiros, a pessoa tem sempre a tendência também de entrar na conversa. “Olha, já pertenci a essa corporação. Já fui bombeiro durante 5 ou 6 anos,” fica para sempre. Bombeiro uma vez é bombeiro para sempre. Não há bombeiro de folga. Se você estiver na praia, estiver a acontecer alguma coisa, a pessoa não aguenta, a pessoa chega ao pé. Se estiver a viajar de carro e verificar alguma coisa, não dá para passar sem fazer nada. Não dá para dizer, olha, estou de férias ou estou de folga.
Agora, olhando mais para as acções, para o trabalho do Mussa - Esteve durante uma série de anos numa posição mais operacional, como é que foi a transição dessa vida tão operacional para algo que, agora, imagino que não seja tão operacional, uma vez que tem de estar mais tempo dentro da unidade a coordenar tudo o que os bombeiros vão realizar no exterior?
Estive como bombeiro de 3ª durante 6 anos. Depois de 6 anos concorri para o bombeiro de 2ª. Passei para o bombeiro de 2ª. Passado algum tempo fui convidado pelo comandante Jorge Santos para pertencer ao quadro de comando como adjunto de comando. Um desafio que, na altura, achei que podia não estar já pronto para aceitar o desafio. Estive quase 3 meses a pensar bem se aceitava ou não, mas acabei por aceitar. A vida é mesmo assim. A transição de um momento para o outro nunca é fácil. Já conheci muitos elementos de comando de várias corporações para quem sair da parte operacional, da manobra para a parte táctica, o chip não sai de um dia para o outro, quando há uma ocorrência. Agora já não, agora já tirei o chip. Mas logo ao início, qualquer um que faz essa transição de manobra para o táctico, quando chega às ocorrências, quando dá por si está a fazer a manobra, esquece a parte táctica. Por acaso, é uma das primeiras coisas que começam a introduzir logo nos cursos do quadro de comando, esquecer a manobra, que já não estamos para a manobra. Mas não é fácil, até tirar ou formatar chip e voltar a formatar a outra parte.
E o resto, o que diz respeito à parte das disciplinas e condutas dos bombeiros, os operacionais têm. Temos as formas de hierarquia. As do comando, as chefes, as das graduações, então há sempre uma disciplina e um respeito enorme, não só do próprio corpo do bombeiro, mas de todos os bombeiros em geral. Por exemplo, quando há uma ocorrência, um incêndio, que junta mais de três corporações, quatro corporações, há sempre um chefe, que é o comandante operacional de socorro. Mesmo com bombeiros externos, há sempre aquela disciplina, aquele espírito de ajuda, a mesma missão. Mesmo comandando um grupo, uma brigada, a disciplina está lá. A malta também já está formatada para isso.
O Mussa Embaló foi apontado como o primeiro estrangeiro no comando de uma unidade de Bombeiros Voluntários em Portugal. Como é que foi acolhido, como é que é acolhido, enquanto guineense, no comando de Bombeiros Voluntários em Portugal?
Bem, nada de anormal, digamos assim. A nível da sub-região, bem, não vejo diferença. Nunca vi diferença. Nunca vi o facto de ser o primeiro ( primeiro estrangeiro no comando de uma corporação de Bombeiros Voluntários em Portugal), que nem sei se sou, se é na sub-região, se é na região, se é a nível nacional, não sei, foi a mídia que comentou isto, não sei se é, mas é indiferente. É indiferente para toda a gente, não houve estranheza, a nível operacional, até ao nível dos próprios colegas comandantes. É sempre com respeito para comigo e eu para com eles.
Falando agora desta época de fogos que, tristemente, se torna cíclica no Verão em Portugal, em Mértola não tem havido grandes incêndios, este ano estão a acontecer mais no Norte. Como é que acontece a mobilização, por exemplo, dos bombeiros que não estão nas zonas onde há os maiores incêndios? Os bombeiros de Mértola podem ser chamados para participarem nessas operações?
Sim, podem. Nós aqui, a partir do Comando Sub-regional, temos uma escala do grupo de reforço feita a nível da Sub-região, de todas as semanas, e vai rodando a todas as corporações da nossa Sub-região, que no total são 13. Quando há necessidade, são activados através do Comando Nacional, que solicita ao nosso Comando Sub-regional, e o Comando Sub-regional faz a activação do reforço. Há vários tipos de grupos de reforço. Neste momento temos uma equipa de Posto de Comando em Unhais-o-Velho (distrito de Coimbra). Se existir necessidade também de um grupo de reforço de combate, o Comando Nacional solicita e o nosso Comando Sub-regional acciona a tal escala que eu referi. A nível da nossa Sub-região, este ano estamos a ter mais ocorrências relativamente ao ano passado, que geralmente 90% ou 95% é logo resolvido em ATI, ataque inicial, em menos de 90 minutos, e ainda bem. Se ultrapassar 90 minutos, depois passa para o ATA, que é o ataque ampliado. Mas também, quando há ocorrências aqui a nível da Sub-região, ou a nível da região em si, temos estado a atacar logo em massa. Tem ajudado muito. A nível regional também temos tido muito trabalho. Aqui para as zonas da Alentejo Central, Alto Alentejo, também tem tido muitas ocorrências, já com ataque ampliado, 24 a 48 horas ou mais ainda.
Esses fogos, chegam a perceber o que é que os provoca? Serão causas naturais, ou mão humana?
Lá está, eu sou um operacional. Quando chego a uma ocorrência, tenho que perceber o ponto de início do incêndio para poder fazer a estratégia de combate. Não me preocupo com o que é que o provocou, porque nem é a minha área, nem é a minha função, nem é a área dos bombeiros. É com as autoridades competentes o fazer a respectiva investigação e chegar à conclusão se é natural ou se é provocado por um acidente ou se é propositadamente. Nunca penso nisso, do princípio ao fim da ocorrência. E tento também transmitir sempre isto aos meus elementos, nunca pensar o que é que o provocou, como é que começou. Não, temos que ser objectivos, o que é que nos trouxe aqui, é para normalizar os caos. O caos já está feito. Os bombeiros são para isso, chegam, normalizam os caos, para tudo continuar com a normalidade. Se há um indivíduo que queira fazer mal, posso me interessar, posso não querer que esse indivíduo continue a provocar o mesmo mal. Se eu souber de algo posso colaborar com a autoridade competente, está a ver. Mas, como frisei, desde o princípio da ocorrência, não penso nisso. Se alguém chegar até mim e disser, “olha, vi uma carrinha branca, azul, amarela, de matrícula X”, interessa-me, como comandante, o colaborar com a autoridade. Olhem, foi vista uma carrinha assim, com esta matricula, assim está bem. Agora, o porquê de ele o fazer também não me interessa, sinceramente.
Em relação à Guiné-Bissau, tem ideia de como é que estão a funcionar a Protecção Civil, o Corpo de Bombeiros?
Não faço ideia, sinceramente. Tenho estado desligado, por completo. Quanto à estrutura da Protecção Civil da Guiné, nem sei quem é o comandante, quem é quem e nem conheço as corporações. Desconheço a Protecção Civil, a estrutura, como é que está montada, se é igual ao que está aqui em Portugal, mas tenho interesse. Um dia, se calhar, vou, só por curiosidade, ver se é igual ou se não é igual, se é melhor ou se é pior. Se possivelmente, um dia, se eu puder ajudar em alguma coisa também, nunca sabe.
Há essa vontade de participar, de ajudar naquilo que for possível na Guiné-Bissau?
Sim, sempre há, é o meu país natal. Há sempre vontade de poder colaborar em alguma coisa, de poder ajudar no que a pessoa puder contribuir.
Essa vontade ninguém a pode tirar. Mesmo longe, tendo essa oportunidade, uma das coisas que não podemos dizer é que não, não podemos dizer não ao nosso próprio país. Mesmo estando cá já há alguns anos, ainda continuo a ser da Guiné-Bissau. Quando uma pessoa falar no meu nome, Mussa, a pessoa pensa, é da Guiné. Sou, e serei sempre um guineense.
Mas sim, qualquer dia vou começar a tentar conhecer a estrutura da protecção civil da Guiné, que desconheço por completo, sou sincero. Vou ver também se faço alguns contactos lá, e se um dia for de férias ter um objectivo - vou visitar o fulano X para ir conhecer a casa, ou um Corpo de Bombeiros, vou conhecer o comandante X finalmente e vou conhecer a casa. Tenho que fazer a partir aqui. Obrigado pela pergunta, agora já me fizeste um clique.
Como é que o Mussa Embaló poderia convidar jovens a serem bombeiros voluntários? O que é mais sedutor? Ou o que é que o Mussa Embaló acabou por descobrir e o fez sentir-se motivado para continuar?
É uma profissão nobre. Porque é uma profissão em que o que estamos a fazer é ajudar o próximo. É estar lá no momento que o próximo precisa mesmo. É estar lá para a protecção de bens e de vida humanas. Fácil também não é, porque muitas vezes vamos e não conseguimos alcançar o principal objectivo, que é salvar a vida. Mas lá está, também não somos quem está lá em cima. Mas sempre que voltamos pensamos sempre nisso, fizemos o nosso máximo. E quem está do lado de fora, a ver, também chega sempre a essa conclusão. Deram por tudo. É uma profissão nobre. Quem quiser é só experimentar. Eu acho que não custa nada entrar e ver. É o que me custou mais, a parte de entrar e ver. Eu entrei, vi e gostei, e cá estou. Quem quiser também, acho que é entrar e ver. Ter a coragem de dar o tal passo. É interessante.
Ao longo destes anos como bombeiro, qual foi o momento mais gratificante?
Falo uma ocorrência que aconteceu há dois anos aqui em Mértola. Um atropelamento, duas vítimas. Uma das vítimas teve logo morte instantânea. Quando chegámos estava já em paragem cardio-respiratória. A segunda vítima estava encarcerada, ainda debaixo do veículo.
O trabalho de desencarceramento não foi fácil. Inicialmente menos ainda, porque havia pessoas por todo lado. Não foi uma ocorrência qualquer para nós, mas tivemos capacidade de dar a resposta. E foi um momento que me marcou mesmo. Trazer essa jovem para cima, ainda viva. Ainda hoje, quando a vejo, não sei explicar o que é que eu sinto. Fiquei extremamente orgulhoso de todos os operacionais na altura, do trabalho desenvolvido.
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