Reportagem

Reportagem

By RFI Português
Download on the App Store

Reportagem episodes

  • VivaTech 2025: Inovação portuguesa deixa marca em Paris

    Decorre até este sábado, 14 de Junho, uma das feiras de startups e tecnologia mais importantes da Europa. Na nona edição da VivaTech estão presentes nove startups portuguesas que se destacam ao conjugar inovação, impacto social e visão estratégica. Fomos descobrir três áreas distintas: publicidade digital, biotecnologia e inteligência artificial aplicada à gestão de fundos europeus, empresas que representam o vigor criativo e empreendedor de Portugal no universo tecnológico.

    A InsurAds apresentou-se em Paris com uma proposta arrojada e tecnológica para resolver um problema que atinge o mundo da publicidade digital: o desperdício de investimento. A empresa, através de uma tecnologia única no mundo, desenvolveu uma forma de medir o tempo real de atenção que os utilizadores dedicam à publicidade on-line.

    Segundo Gil Ferreira, que representa a empresa presente na feira, cerca de 40% do investimento publicitário digital é desperdiçado, entre cliques falsos, gerados por bots, e sobreexposição dos utilizadores a anúncios repetidos. A InsurAds combate essa ineficiência, permitindo que cada euro investido tenha um retorno estimado de 1,4€, em contraste com os 0,7€ habituais. É desta forma que a tecnologia consegue distinguir cliques reais de falsos, rastreando padrões e identificando endereços IP suspeitos, oferecendo aos anunciantes maior eficácia.

    Na área da saúde, a Neurosov trouxe à VivaTech uma história de ciência e determinação. Fundada por Dina Pereira e Ana Clara Cristóvão, a startup é uma spin-off da Universidade da Beira Interior e desenvolve um candidato a medicamento para travar a progressão da doença de Parkinson.

    Com 16 anos de investigação na base do projecto, motivada por uma experiência pessoal, a Neurosov já colabora com grandes farmacêuticas como a Bial e a AstraZeneca. Em Paris, conseguiu uma nova parceria com uma startup ligada à Sanofi, para incorporar inteligência artificial no desenho molecular antes dos ensaios pré-clínicos.

    “O nosso objectivo é usar IA para poupar milhões à indústria farmacêutica e acelerar a descoberta de novos medicamentos”, conta Dina Pereira. O medicamento em desenvolvimento destina-se a ser administrado nos estádios iniciais da doença, podendo desacelerar ou mesmo travar a progressão, mantendo a medicação existente e melhorando substancialmente a qualidade de vida dos doentes.

    A Neurosov é também um exemplo de coopetição: cooperação e competição em simultâneo. “Queremos que os pacientes tomem o nosso medicamento e o dos nossos concorrentes. A prioridade é sempre o doente”, concluem as fundadoras da startup, que també são docentes da Universidade da Beira Interior e investigadoras da RISE-Health.

    Já a Granter, liderada por Bernardo Seixas, assume uma missão impactante: simplificar o acesso a fundos europeus para pequenas e médias empresas. Através de um agente de inteligência artificial, a startup automatiza todo o processo: desde a pesquisa de oportunidades, passando pela verificação de elegibilidade, até à submissão das candidaturas.

    Em apenas 18 meses, a Granter já conseguiu fundos no valor de mais de 15 milhões de euros para os clientes. “Somos um colega virtual que trabalha 24/7 pelas empresas”, explica Bernardo Seixas. O reconhecimento chegou também com um prémio atribuído esta quinta-feira pela Agência para o Investimento e Comércio Externo de Portugal (AICEP) na VivaTech, ajudando a empresa a entrar no mercado francês.

    A Granter já opera em Espanha e Itália e quer expandir-se por toda a Europa, com foco não apenas nos fundos europeus, mas também no investimento. “O maior risco não é tecnológico, é regulatório”, alerta Bernardo, referindo-se à necessidade de a União Europeia criar uma regulamentação equilibrada para a IA que incentive, e não trave, a inovação.

    12 min
  • Artistas de Leiria apresentam-se em Paris no ciclo Mardis en Musique

    A música de artistas de Leiria tem ecoado na capital francesa, transportando o pulsar criativo de uma cidade portuguesa cada vez mais reconhecida internacionalmente. O projecto Leiria-Paris, inserido no ciclo mardis en Musique (Terças-feiras em Música), tem levado ao palco da Casa de Portugal André Gouveia, na cidade universitária de Paris, jovens músicos.

    “Queríamos músicos com um futuro promissor, mas também quisemos garantir a igualdade de género, uma vez que é uma questão central para nós enquanto cidade criativa da música”, começou por explicar o chefe da divisão de açcão cultural da Câmara Municipal de Leiria, Rui Cunha. A curadoria dos artistas teve como base a qualidade e a diversidade musical, reunindo nomes da electrónica, do jazz e da música clássica num palco parisiense.

    O projecto, mais do que uma simples apresentação musical, representa uma estratégia clara de internacionalização. “Leiria não está isolada. Trabalhamos em rede, apostamos em parcerias que criem oportunidades reais de exportação do nosso talento”, reforça Rui Cunha. A escolha de Paris não foi acidental. A capital francesa, com a sua densidade cultural, é uma montra privilegiada para mostrar a vitalidade de uma cidade portuguesa que há muito deixou de ser apenas local.

    A pianista e compositora Estela Alexandre, de 27 anos, foi uma dos quatro artistas escolhidos. Natural de Leiria, apresentou o seu álbum de estreia Cantomilo, um disco que nasceu durante os anos de pandemia e foi construído ao longo de cinco anos, reunindo quase 50 músicos, entre os quais algumas das figuras mais relevantes do jazz português.

    “Este disco nasceu de uma urgência de compor, de criar algo num momento em que tudo estava parado”, conta a pianista e compositora portuguesa. Sem apoios institucionais e sem editora, Cantomilo foi fruto de uma vontade de fazer acontecer. Gravado em condições pouco ortodoxas, incluindo sessões em despensas e com telemóveis, o álbum surpreende pela densidade dos arranjos, a sensibilidade cinematográfica e a força emocional das composições.

    Trazer Cantomilo a Paris foi, para Estela Alexandre, mais do que um passo na carreira. Foi também um reencontro com o público, fora das fronteiras do seu país. “É uma emoção muito grande. Há temas no disco que foram gravados com dezenas de músicos, mas agora, aqui, sozinha ao piano, tento levar o mesmo espírito, criando envolvência com o público francófono e misturando também repertório português que me inspira”, explica.

    A ligação da compositora à natureza, vivida durante o confinamento na zona das Cortes, em Leiria, marca profundamente a sua linguagem musical. “A natureza foi o berço deste disco. O nome Cantomilo é uma homenagem ao lugar onde tudo começou e onde me reencontrei com a composição”, contou-nos Estela Alexandre.

    Mas há também lugar para o activismo na sua música. A sua versão do tema Strange Fruit, eternizado por Billie Holiday, assume-se como uma homenagem simbólica às vítimas da violência racial, como George Floyd e Bruno Candé. “Tudo é político. A música, para mim, é também uma forma de dar voz a inquietações. A arte é reflexo de quem somos e do mundo em que vivemos", acrescentou.

    A presença de Estela Alexandre no projecto Leiria-Paris sublinha também o papel cada vez mais visível das mulheres no jazz português, numa área historicamente dominada por homens. “Felizmente, isso está a mudar. Vejo cada vez mais mulheres a estudar jazz, em instrumentos que antes quase não víamos. Ainda não se sente tanto no mercado, mas acredito que é uma questão de tempo”, acredita.

    Para Rui Cunha, estes passos são fundamentai: “Projectos como este respondem aos desafios da UNESCO em áreas como a igualdade de género e a internacionalização. Queremos continuar a dar palco aos nossos talentos, a partir de Leiria para o mundo”.

    24 min
  • Conferência Mo Ibrahim trouxe lideranças africanas a Marrocos

    Durante três dias, políticos, economistas, representantes de organizações internacionais e não governamentais, académicos e activistas reuniram-se em Marraquexe, entre 1 e 3 de Junho, para a 11a edição da conferência Ibrahim Governance Weekend. Este ano, discutiu-se a necessidade de o continente mudar de mentalidade perante o declínio da ajuda internacional e perante a instabilidade geopolítica internacional.
     

    Todos os anos, a conferência Ibrahim Governance Weekend junta vozes de toda a África e do resto do mundo para debater questões de importância crucial para o desenvolvimento do continente.

    Organizada pela Fundação Mo Ibrahim, ao longo dos anos foram debatidos temas como a agricultura, a juventude, serviços públicos, migrações ou alterações climáticas.  

    Nesta 11ª. edição, a conferência encontra África perante um novo desafio. O declínio do volume de ajuda internacional, associado à instabilidade geopolítica . 

    Mas no que alguns analistas vêem um problema, outros identificam uma oportunidade. O economista Carlos Lopes acredita que a tensão entre a Europa e os Estados Unidos deve ser aproveitada por África para negociar melhores condições em projectos económicos, mas também para mudar a sua própria mentalidade na estratégia de desenvolvimento social e económico.

    "Existe uma divergência total de pontos de vista entre os principais actores, que até agora tinham uma espécie de condicionalidade na forma como prestavam assistência e ajuda. E, portanto, por essas razões, a África tem mais espaço de manobra. E esse espaço de manobra pode ser positivo se a África o aproveitar para fazer um determinado número de reformas importantes. Uma delas é ter muito mais atenção ao investimento interno doméstico africano, sabendo nós que, por exemplo, as grandes reservas da África em termos monetários, como, por exemplo, fundos de pensão, os fundos soberanos, etc., depositam as suas economias e os seus investimentos fora da África. Portanto, agora é o momento de apostar no continente. E também fazer com que a frente de discussão de políticas macroeconómicas não sejam tão penalizantes para a África como foram até agora, porque acabou a ortodoxia. Ninguém pode dizer que é assim que se fazem as coisas, porque toda a gente está a fazer o que não deveria, entre aspas, em termos de regulações internacionais. A guerra de tarifas é um bom exemplo, não é? É contrário a todas as normas da Organização Mundial de Comércio. Então, se os Estados Unidos, que são a principal economia mundial, o fazem, não pode exigir a essas organizações que os países mais vulneráveis respeitem as regras do jogo, não é? Portanto, este é um período de oportunidades, mas tem que ser utilizado. Se não for utilizado, passa”, disse.

    "Nós podemos dizer que, de uma certa forma, há duas indicações de como a África vai actuar. A primeira vem da forma como respondeu à pós-pandemia, porque durante a pandemia a África foi muito afectada pela estrutura internacional. Foram prometidas muitas coisas que não foram feitas. Esperava-se que a África ia entrar numa catástrofe total e seria a região do mundo com mais mortes, etc. Não foi isso que aconteceu. E, portanto, mostrou resiliência e mostrou também uma passagem ao período transaccional. Ou seja, começou a contar com as suas próprias forças, por um lado, e negociar com todos em pé de igualdade, ou seja, não escolher amigos preferenciais. E a segunda indicação é o estabelecimento da Zona de livre comércio. Porque nós entramos na Zona de livre comércio em plena pandemia. Um projecto dessa envergadura começar no meio de uma pandemia é uma indicação de forte vontade política. São processos complicados de integrar os mercados, como nós sabemos até pelo exemplo da União Europeia. Mas África está fazendo progresso. Já tem 90% das tarifas que estão harmonizadas internamente, o que é um passo gigantesco em relação à situação de há 10 anos atrás. E temos outras indicações como, por exemplo, na área da livre circulação das pessoas, na área dos serviços, comércio electrónico. Protocolos que foram assinados e que estavam mais ou menos dormentes estão agora a ser implementados a mais rápida velocidade. Acho que se continuarmos nessa linha, vamos atuar de uma forma conjunta. Mas é muito cedo ainda para dizer o que vai acontecer”, continuou.

    Na conferência estiveram o director-geral da Organização Mundial da Saúde (OMS), Tedros Ghebreyesus, a secretária-geral adjunta da ONU, Amina J. Mohammed, a directora-geral da Organização Mundial do Comércio (OMC), Ngozi Okonjo-Iweala, fez uma intervenção por videoconferência. A palavra de ordem foi a mudança de mentalidade dos países africanos. O continente deve abandonar o modelo ultrapassado de dependência do financiamento externo e das exportações de matérias-primas e passar a usar os seus próprios recursos de forma mais eficaz. África não deve pedir mais dinheiro, mas usar o dinheiro que tem de forma mais inteligente ou mobilizar os seus próprios recursos naturais para atrair capital do sector privado.

    A vice-presidente do MPLA, Mara Quiosa, liderou uma delegação angolana à conferência e mostrou-se entusiasmada. 

    "Estamos muito satisfeitos por estar aqui e por ter a oportunidade de participar de tão importantes painéis, com debates muito interessantes, com debates de África para africanos. Debates importantes como a questão e a necessidade de continuarmos a captar financiamento para que possamos continuar a aumentar as nossas infra-estruturas e quando falamos em infra-estrutura estamos a nos referir essencialmente à necessidade de construção de mais portos, aeroportos, vias de comunicação, equipamentos sociais básicos também em uma ou outra situação, como mais escolas, mais unidades sanitárias”, salientou.

    "Houve uma questão interessante que foi colocada ali que é exactamente que África queremos. É preciso termos noção do que é que queremos para podermos trabalhar, para podermos caminhar em direcção a este grande objectivo. Portanto, queremos uma África cada vez mais próspera, uma África cada vez mais mais envolvida e seguramente uma África que dependa cada vez menos de outros continentes. É preciso fazer a África, mas é preciso que esta África seja feita por africanos. Naturalmente que ali, onde houver alguma carência de algum 'know-how', de algum conhecimento ou mais, serão sempre muito bem-vindos, mas é preciso percebermos que nós, africanos, é que temos de fazer a África e deixar, como disse, de depender de outros continentes. Nós temos muitos recursos naturais, nós temos mais do que recursos naturais, nós temos recursos humanos, temos o capital humano que no fundo é a nossa grande bandeira. Homens e mulheres capazes de, com comprometimento, com responsabilidade, mas acima de tudo, com querer, com vontade de fazer de África um lugar cada vez melhor para se viver”, afirmou.

    O antigo presidente cabo-verdiano, Pedro Pires, avisou que, para concretizar esta ambição, é importante ter líderes africanos preparados. Pedro Pires foi reconhecido em 2011 com o Prémio Mo Ibrahim de Boa Governação em África por transformar Cabo Verde num modelo de democracia, estabilidade e prosperidade. Em 2013, criou o Instituto Pedro Pires para a Liderança (IPP) para formar líderes emergentes africanos lusófonos e passar o seu conhecimento e os seus valores.  

    "O debate aqui centrou-se sobre a mudança de mentalidade dos africanos, das lideranças africanas. Eu creio que a África tem recursos suficientes para garantir o seu desenvolvimento. Ficou provado pelos números apresentados que é possível. Agora, há a necessidade de mudança de mentalidade, acreditar que se pode e investir nessa direcção. E correr o risco de falhar. Porque o grande problema, geralmente, é que muitas vezes as pessoas têm medo de falhar. E ao ter medo de falhar, têm medo de inovar, têm medo de criar, têm medo de se confrontar com o imprevisível, com aquilo que não estamos a ver, mas que existe. Então, a formação da liderança, o debate sobre essas questões, sobre essas questões, é fundamental. África não pode estar de mãos estendidas quando tem recursos. Tem de se assumir, assumir os seus recursos, assumir a sua riqueza e utilizar melhor as suas riquezas”, exortou. 

    Como é comum, os participantes saíram da conferência determinados e cheios de boa vontade. Mas será preciso esperar vários anos, talvez décadas, para saber se as palavras e as boas intenções foram traduzidas na prática pelos políticos.

    Bruno Manteigas, de regresso de Marraquexe, RFI 

    10 min
  • Ténis português faz história em Roland Garros 2025

    Roland Garros 2025 fica marcado como um torneio histórico para o ténis português. Pela primeira vez, dois tenistas nacionais: Nuno Borges e Henrique Rocha atingiram a terceira ronda do quadro principal de singulares, uma demonstração do crescimento e ambição desta nova geração. A estes nomes juntou-se Jaime Faria, que se estreou directamente no quadro principal de um Grand Slam, consolidando a presença portuguesa nos maiores palcos do ténis mundial.

    Nuno Borges: da universidade ao topo

    Nuno Borges, de 28 anos, protagonizou uma das maiores surpresas da competição ao eliminar o norueguês Casper Ruud, 7.º cabeça de série e duas vezes finalista em Paris. Apesar da eliminação na terceira ronda frente ao australiano Alexei Popyrin, Nuno Borges reforça o seu estatuto como uma das principais figuras do ténis mundial.

    “Ter ido para a universidade ajudou-me a amadurecer, não só como jogador, mas principalmente como pessoa. Saí de casa, deixei de depender tanto dos meus pais e aprendi a resolver as coisas por mim”, explicou o tenista sobre o seu percurso atípico, marcado pela passagem pelo circuito universitário norte-americano.

    Sobre a sua evolução, Nuno Borges lembrou que os desafios eram cada vez mais maiores: “Obrigaram-me a crescer. Houve momentos em que estava no top 60 e sentia-me um 150. Agora já me permito sentir um top 40 mesmo que jogue como um 70 numa semana. Isso também é crescer”.

    Na terra batida, superfície tradicionalmente menos favorável, Nuno Borges revela ter feito ajustes importantes: “Na resposta, passei a sentir-me mais confortável em variar. Já consigo competir mesmo quando a bola não bate bem. A movimentação também evoluiu muito”.

    Após a eliminação nos singulares, o português mantém-se em prova na variante de pares, ao lado do francês Arthur Rinderknech: “É muito menos pressão. Estou a jogar com um amigo, com um sorriso na cara”, concluiu.

    Henrique Rocha: a revelação do torneio

    Com apenas 21 anos e vindo da fase de qualificação, Henrique Rocha surpreendeu tudo e todos ao alcançar a terceira ronda, com duas vitórias em cinco sets, incluindo uma reviravolta frente ao checo Jakub Mensik, 19.º cabeça de série.

    “Foi tudo muito intenso. Só o facto de vir do qualifying e chegar à terceira ronda foi incrível. Nunca pensei, há duas semanas, que conseguiria vencer um top 20. Isso dá-me confiança e experiência para o futuro”, afirmou o jovem tenista, actualmente no 200.º lugar do ranking ATP.

    Sobre o que leva deste torneio, destacou: “A experiência de jogar à melhor de cinco sets foi fundamental. Já consegui fazer ajustes em apenas três jogos e isso mostra-me que estou a evoluir. Fora do campo, os jantares com a equipa e a família também contam. Somos pessoas, não só jogadores”, contou-nos.

    Jaime Faria: estreia entrada directa no quadro principal de Roland Garros

    Jaime Faria, 21 anos, foi eliminado na primeira ronda, mas a entrada directa no quadro principal de Roland Garros representa um marco histórico. “O ano passado fiquei muito perto e doeu. Este ano foi especial. Sabia que estava perto com os pontos que somava e consegui alcançar esse marco”, contou.

    Com bons resultados no circuito Challenger, Jaime Faria acredita estar preparado para este novo patamar: “Sinto que tenho nível. O que me falta é consistência, física e mental. Mas estou a aprender. Os Challengers prepararam-me bem”.

    Sobre a presença portuguesa em Roland Garros, Jaime Faria sublinha: “Esta geração está a fazer história. Treinamos juntos no centro de rendimento, e isso mostra o bom trabalho da federação. Queremos levar Portugal mais longe na Davis Cup e continuar a crescer”, concluiu.

    Francisco Cabral: a força dos pares

    Especialista em pares, Francisco Cabral voltou a competir no Grand Slam francês, ainda que tenha sido eliminado na primeira ronda ao lado de Lucas Miedler. Sobre a experiência, destacou: “Singulares e pares são quase modalidades diferentes. Nos pares tudo é mais rápido e exige uma química muito boa”.

    E essa química tem funcionado: “Somos amigos, e isso facilita muito. Já tive experiências com parceiros com quem não tinha ligação fora do campo e é muito diferente”.

    Apesar dos desafios, Francisco Cabral vê com entusiasmo o crescimento de Portugal na modalidade: “Cada vez mais portugueses estão a jogar os grandes palcos. Espero que também as mulheres portuguesas comecem a marcar presença. Estamos só no início”.

    Independente dos resultados, a primeira semana de Roland Garros 2025 fica gravada na história do ténis português. Nuno Borges consolidou-se no topo, Henrique Rocha revelou-se ao mundo, Jaime Faria deu o seu primeiro passo num Grand Slam e Francisco Cabral reforçou a presença nacional nas duplas.

    Como disse Nuno Borges, “quanto menos eu competir contra mim mesmo, mais consigo ultrapassar os desafios”. E é exatamente isso que Portugal tem feito: superado obstáculos e mostrado que, em terra batida ou em qualquer superfície, o ténis português está para ficar.

    19 min
  • Gabriel Abrantes trouxe a Cannes curta metragem "Arguments in favor of love"

    Gabriel Abrantes, cineasta português, já premiado no passado em Cannes com a longa metragem Diamantino, mas na Semana da crítica, e ovacionado depois na Quinzena com Les mésaventures de la jeune fille de pierre integrou a competição da selecção oficial do Festival de cinema de Cannes. Desta feita com Arguments in favor of love, curta metragem de animação.

    Já na secção La Cinef, também na selecção oficial, vertente reservada a filmes de escolas de cinema, decorreu a estreia em Cannes de Laura Anahory.

    Uma curta metragem de animação intitulada O Pássaro de dentro.

    13 min
  • Associação cabo-verdiana em França junta jovens para praticar crioulo e cozinhar pastéis de milho

    A Associação Etoiles du Tarrafal, que actua em França e em Cabo Verde, uniu em Paris a língua e a gastronomia cabo-verdiana para aproximar um grupo de jovens franco-cabo-verdianos das suas origens. Entre batata doce, farinha de milho e atum, foram escapando algumas palavras em crioulo que trouxeram de volta os sons e os sabores da infância.

    Em Cabo Verde, a oficialização do crioulo como língua oficial já é uma certeza nos 50 anos da independência do país. Para os filhos da diáspora cabo-verdiana, o crioulo, mesmo sem reconhecimento oficial é o fio condutor que os leva directamente às suas raízes. É a língua dos afectos, das férias em Cabo Verde, da música, da família. No entanto, esse fio está a desvanecer, já que em muitas famílias cabo-verdianas em França, o crioulo foi sendo substituído gradualmente pelo francês como o idioma familiar.

    Assim, a Associação Etoiles du Tarrafal, ou Estrelas do Tarrafal, está a ajudar 15 jovens de origem cabo-verdiana a voltarem às suas raízes promovendo um curso de crioulo online, uma vez por semana. Para quebrar as barreiras da internet, a associação promove também encontros em pessoa. A RFI foi acompanhar um workshop de cozinha, em Paris, onde vários alunos das aulas de crioulo fizeram pastéis de milho pela primeira vez.

    Elodie Mendes Tavares, vice-presidente da associação, explicou como surgiu a ideia de fazer uma aula de culinária.

    "As aulas de crioulo e estes momentos de partilha têm a ver com a nossa própria história pessoal, porque somos filhos de pais cabo-verdianos que nasceram em Cabo Verde e vieram para a França e nós, como segunda, terceira e até quarta geração temos algumas lacunas. Muitos de nós não estão à vontade para se expressarem em crioulo e isso afecta-nos especialmente quando vamos a Cabo Verde ou quando falamos com cabo-verdianos. Esta aula de culinária vem na continuidade das aulas de crioulo que criámos. Organizamos aulas de crioulo uma vez por semana, on-line, com um grupo de cerca de quinze alunos. Acabámos por criar estes eventos fora das aulas para que os alunos pudessem continuar a praticar o crioulo e também para que pudessem mergulhar um pouco mais na cultura cabo-verdiana. As aulas de culinária pareceram uma boa ideia como actividade de grupo, para continuar a promover o diálogo em crioulo e falar então sobre a cultura cabo-verdiana", disse a líder associativa.

    Já com quase oito meses de aulas, os alunos, como Jenny Varela, que vive na região parisiense, sentem progressos e mais legítimos como cabo-verdianos.

    "Decidi aprender crioulo porque nasci na França e cresci com minha mãe francesa e entendia algumas palavras, mas não sabia como conversar quando ia de férias. Isso era muito frustrante. Em casa só falávamos francês em casa e lembro-me de poucas palavras de crioulo. Desde que estou nas aulas, sinto que fiz muitos progressos, tanto na escrita quanto na oralidade. Sinto-me menos intimidada quando falo crioulo agora. Com estes meses de aulas de crioulo, sinto-me mais legítima. Eu sinto-me muito mais legítima, já que aqui muitas pessoas me questionam se venho das ilhas da Martinica ou Reunião ou de outros territórios ultramarinos franceses e não, sou de Cabo Verde", declarou a jovem aluna.

    Esta aula de cozinha foi liderada por Ayni Duarte, mais conhecida nas redes sociais como Sabura Kriolinha, e uma das mais conhecidas cozinheiras de comida cabo-verdiana na região de Paris. Ayni já nasceu em França e começou a cozinhar ainda criança para o pai, que trabalhava fora todo o dia.

    "Eu cozinho desde pequena, aprendi a cozinhar arroz aos sete ou oito anos de idade. Eu já sabia como fazer arroz para o meu pai, assim, quando ele saía do trabalho, era eu que preparava a comida. E foi assim. Foi assim que aprendi a cozinhar e aprendi a cozinhar sozinha, a fazer coisas. Eu invento e eu acho que corre bem porque misturo os sabores e, no fim, dá um gosto especial. O importante é testar e ver o que funciona em termos de sabor", indicou a especialista em cozinha cabo-verdiana.

    Para Ayni Duarte casar a cozinha tradicional como os pastéis de milho e a aprendizagem do crioulo é algo óbvio, já que através dos sabores também se pode viajar.

    "É possível viajar através da cozinha porque há muitos sabores a descobrir. Há muitos produtos saudáveis em Cabo Verde, é diferente da França. Como dizemos nos países africanos, tudo vem da terra, portanto é saudável e natural. Simplesmente, é preciso amar a culinária. E, dentro do possível, podemos adaptá-la porque eu já fiz isso. Por exemplo, agora mesmo estamos a fazer esta aula sobre pastéis, que são pastéis de milho feitos de batata-doce e farinha de milho e com atum. Já experimentei com carne e também não são nada maus. Então, cada um coloca seu próprio sabor na cozinha e é isso que a torna original. Quanto a vários pratos cabo-verdianos, cada região e cada ilha fazem-nos de forma diferente. Por exemplo, na ilha de Santiago, é feito com batata-doce e na ilha de São Vicente, por exemplo, é feito apenas com farinha e água", explicou.

    Com uma actividade social e humanitária em Cabo Verde há vários anos, a Associação Etoiles du Tarrafal quer também ter uma forte intervenção em França, junto da diáspora, e unir os franco-cabo-verdianos ao seu país de origem quer seja através da língua, da gastronomia ou da cultura.

    "Nós já suspeitávamos que a falta de bases em crioulo era um ponto em comum entre muitas pessoas da segunda e terceira gerações. Sabemos que há uma necessidade real de aprender um pouco mais sobre a nossa própria cultura. Mas é verdade que, quando oferecemos o curso, recebemos imediatamente solicitações de informações e inscrições. Ficámos surpreendidas, mas, de alguma forma, já esperávamos. As aulas de crioulo e esta aula de culinária são a nossa contribuição para que não percamos a nossa cultura. Estamos a tentar passar este conhecimento para as próximas gerações e como associação é importante falarmos da nossa cultura em França, até porque o que aconteceu connosco foi que os nossos pais nos falavam em crioulo e nós já só falávamos francês. E sabemos que perpetuar esse tipo de comportamento também significa perder nossa identidade. Mesmo tendo essa consciência, quem tem filhos faz o esforço, mas nem sempre é fácil. É, no entanto, extremamente importante", disse Elodie Mendes Tavares.

    Estas aulas abrem agora o caminho a que mais jovens em França com raízes cabo-verdianas se sintam mais próximos do país de origem dos seus pais.

    "Hoje sinto-me muito mais próxima de Cabo Verde. Já não tenho vergonha de falar com outras pessoas e o nosso professor fez questão de nos falar também da história de Cabo Verde e da sua geografia, assim como das suas tradicionais. O crioulo é muito mais do que uma língua", concluiu Jenny Varela.

    Os pastéis de midjo fizeram a unanimidade entre todos os presentes e muitos alunos já prometeram continuar as aulas de crioulo para o próximo ano.

    9 min
  • Sérgio Coragem: Rodagem na Guiné-Bissau foi "tsunami"

    O actor português Sérgio Coragem é o protagonista de O riso e a faca, longa metragem do seu compatriota Pedro Pinho, com estreia na prestigiosa mostra oficial Un certain regard do Festival de cinema de Cannes. O actor comentou com a RFI o desenrolar de uma experiência que o marcou profundamente na Guiné-Bissau, com um elenco internacional incluindo também guineenses, cabo-verdianos, brasileiros e romenos. Sérgio Coragem fala, mesmo, em "tsunami".

    O riso e a faca é uma longa metragem de 3 horas e meia do português Pedro Pinho, em competição na mostra oficial Un certain regard.

    A obra, rodada essencialmente, na Guiné-Bissau segue o engenheiro luso Sérgio que vem elaborar um relatório acerca do impacto ambiental da construção de uma estrada que deveria atravessar reservas naturais e campos de cultivo de arroz, as famosas bolanhas.

    Sérgio vai-se encontrar no centro de um triângulo íntimo com um brasileiro e uma local... enquanto ele se vai confrontar com os desafios colocados às populações por estas lógicas de cooperação vindas de fora, apreensivo por conhecer as razões do misterioso desaparecimento do seu antecessor no projecto.

     

    Sérgio Coragem, o actor português que encarna o protagonista, tem colaborado com vários realizadores e tem, aqui em Cannes também, uma segunda obra a ser exibida, Entroncamento de Pedro Cabeleira na mostra ACID.

     

    Ele admite que a experiência da rodagem deste filme, ao longo de seis meses na Guiné-Bissau, essencialmente, mexeu profundamente consigo.

    8 min
  • Longa metragem portuguesa Entroncamento em cartaz no ACID de Cannes

    Entroncamento é o título da segunda longa metragem do português Pedro Cabeleira que estreou este sábado na mostra de cinema independente ACID em Cannes. O cineasta comentou com a RFI a sua experiência no certame.

    Em 2025 o Brasil é o país convidado de honra do Mercado do filme, que decorre à margem do Festival de cinema de Cannes, no sul da França.

    Morris Kachani do organismo Cinema do Brasil alega que este está a ser o ano do cinema brasileiro, depois do Óscar de melhor filme estrangeiro para "Ainda estou aqui" de Walter Salles.

     

    Entretanto as mostras de cinema propõem filmes de todo o mundo. A mostra independente ACID conta com a longa metragem Entroncamento do português Pedro Cabeleira que falou em Cannes à reportagem da RFI.

    18 min
  • Gunter Pauli sugere a Cabo Verde a união entre turismo e ciência

    No âmbito da rubrica Prime Minister’s Speaker Series, integrado no programa Cabo Verde Next que pretende projectar o futuro do país alicerçado na ciência, tecnologia, inovação e sustentabilidade. O primeiro-ministro cabo-verdiano, Ulisses Correia e Silva, convidou a estar no arquipélago, o economista belga e especialista em Economia Azul Gunter Pauli, autor do livro The Blue Economy.

    Especialista em Economia Azul, Gunter Pauli sugere a Cabo Verde a união entre turismo e ciência para explorar e proteger os mares  e o governo acolhe o sugestão

    No âmbito da rubrica Prime Minister’s Speaker Series, integrado no programa Cabo Verde Next que pretende projectar o futuro do país alicerçado na ciência, tecnologia, inovação e sustentabilidade. O primeiro-ministro cabo-verdiano, Ulisses Correia e Silva, convidou a estar no arquipélago, o economista belga e especialista em Economia Azul Gunter Pauli, autor do livro The Blue Economy.  Depois de estar numa conversa aberta com o chefe do governo sobre o potencial da Economia Azul para o desenvolvimento de Cabo Verde e de as ilhas de Santiago e São Vicente perguntámos qual é a ideia com que ficou de Cabo Verde. Gunter Pauli, disse que o país é desconhecido.

    Desconhecido. É como uma mulher que você vê pela primeira vez e diz que beleza, que beleza ela ! Mas não sabia que existia. Isso é Cabo Verde, o desconhecido, o país desconhecido. E você tem guardado muitos segredos e você não partilha seus segredos, você precisa de partilhar. Ontem aprendi que a primeira igreja fora da Europa foi construída aqui em Cabo Verde. E eu, membro da fundação do Vaticano, não sabia, não sabia como é possível ? Ontem falámos de escravos e eu falei de Gorée. Vocês têm transportado três, quatro vezes mais escravos que a [a ilha senegalesa de ] Gorée. Mas você não tem a história da escravidão contada no mundo. Esse é um turismo com conteúdo. O turismo com conteúdo é compreender, entender como piratas, como Espanha, como Portugal, como os ingleses desenvolveram o seu negócio de escravos aqui. Por isso digo, vocês têm muitos segredos.

    O especialista em Economia Azul, Gunter Pauli defende uma nova visão para o país, que junte o turismo à ciência, como forma de explorar e proteger os mares de Cabo Verde e que a estratégia de economia azul do país precisa de ser traduzida em projectos concretos para mobilizar investimentos.

    Cabo Verde tem muitas oportunidades, mas temos que traduzir a oportunidade, que é um sonho, em uma realidade. E isso precisa de uma estratégia.

    A estratégia, o país já tem uma estratégia de economia azul, mas a estratégia tem que traduzir em projectos concretos, um portfólio de oportunidades que podemos implementar. E a implementação precisa de um cliente, um cliente que paga, não é somente o governo, porque não tem que pagar tudo. O importante é desenvolver uma economia que tem clientes, e se você tem clientes você pode mobilizar investimentos.

    Qual é o caminho que Cabo Verde deve percorrer agora?

    Para mim, o mais importante é que você tem 730 mil quilómetros quadrados de mar. O mais importante é a vida no mar, e conhecer a vida no mar é conhecer o ADN, qual é a molécula da vida do mar. Você tem muitas espécies desconhecidas no mar e temos que descobrir a vida de Cabo Verde. Para mim, esse é um primeiro passo muito importante.

    Segundo, o descobrimento do mar passa pelo turismo, um turismo, por exemplo, de mergulho. Temos que fazer uma nova experiência para poder mergulhar em Cabo Verde, com dez experiências diferentes em dez ilhas de Cabo Verde. Isso precisa de uma estratégia para mergulho que é diferente do que só passar tempo na praia e ao sol, mas isso vai levar mais ingressos e a um entusiasmo do mergulhador, porque hoje há poucos que conhecem a grande beleza do mar do Cabo Verde.

    Outra oportunidade é a comunicação. Você precisa se comunicar, a comunicação hoje é com satélite, a nova tecnologia é com rádio AM, que se pode convergir em redes sociais, você pode ter luz como medium de comunicação na água, você pode nadar e falar com seus amigos na água, por graça de luz. A luz é uma técnica de comunicação. Penso que a estratégia da economia azul é uma estratégia de inovação com muita surpresa. Temos que sair do esquema tradicional de financiamento. No passado, a pesquisa era um custo. Temos que convergir pesquisa do mar em uma oportunidade de convidar mergulhadores profissionais da fora para mergulhar, para fotografar e filmar tudo e fazer o descobrimento de ADN. A nova técnica não é pensar em turismo e pesquisa, temos que unir num cluster, em uma agrupação de diferentes actividades, que permite que você possa ganhar dinheiro e fazer pesquisa.

    O novo modelo económico: Não precisamos de novos modelos de business, precisamos de novas técnicas, de fazer um serviço ao cliente, pelo qual o cliente está disposto a pagar e, ao mesmo tempo, fazer estratégias de conservação do meio ambiente e de fazer o descobrimento da biodiversidade. Temos que combinar as coisas e não separar”.

    A presença em Cabo Verde de Gunter Pauli, referência mundial no conceito de Economia Azul e reconhecido pela implementação de modelos de negócio que combinam sustentabilidade ambiental com crescimento económico, representa, segundo o governo de Cabo Verde uma oportunidade única de aprendizagem e inspiração.

    A RFI conversou com o Primeiro-Ministro, Ulisses Correia e Silva e perguntámos ao chefe do governo como o país recebe as sugestões de Gunter Pauli e se pretende colocá-las na prática.

    As sugestões do professor, Gunter Pauli, foram bem recebidas e com grande interesse porque são convergentes com a nossa estratégia nacional para a economia azul. Temos o IMAR, que é o Instituto do Mar, o Centro Oceanográfico do Mindelo, que intervem no domínio da investigação científica aplicada. Há muitas iniciativas em curso, mas nós precisamos estruturá-las para a criação de valor económico com maior impacto no crescimento e no emprego. Isto resultou um bocado daquilo que foi também  conversa com o professor Gunter Pauli  e a sua participação numa conferência aberta sobre a economia azul, em que nós acentuámos a possibilidade de desenvolvimento de nichos de turismo de alto valor, como a pesca desportiva e o mergulho. De certa forma, a pesca desportiva e o mergulho já se desenvolvem aqui em Cabo Verde, mas aquilo que foi resultado da conversa é que nós precisamos estruturá-la para criar ainda maior valor e desconcentrar e criar oportunidades também nas outras ilhas onde a actividade pode ser desenvolvida com qualidade e elevado valor em termos de retorno. E estivemos a conversar também sobre a biotecnologia azul, que é um domínio onde a investigação e a sua aplicação casam bem com a criação de valores e de economia acentuada, é algo que pode ter mercado e tem mercado externo importante, porque nós precisamos não só fazer a investigação, fazer a realização daquilo que é ensinado a preservação do nosso ecossistema, mas precisamos juntar tudo isto e transformar aquilo que são as potencialidades em produtos, em serviços que possam ser exportados e possam criar emprego, rendimento e desenvolvimento sustentável no país. Portanto, nós ficamos de estabelecer um quadro de colaboração e vamos continuar para aproveitar aquilo que é também a experiência vasta do professor Gunter, muito virado para questões muito pragmáticas, mas experiências comparadas também com outros sítios que tiveram sucesso.

    Pode explicar para os ouvintes da RFI quais as estratégias que Cabo Verde tem para a economia azul?

    Dispomos de uma estratégia nacional para o mar e de um plano de acção que está projectado para até 2033 orientar as políticas públicas e as oportunidades de investimentos privados, nomeadamente aumentar o potencial de crescimento e diversificar a economia e criar empregos dignos. Isto tudo com o objectivo de valorizar e gerir de uma forma sustentável os recursos marinhos, que é o que transforma a economia marítima em economia azul. E esta estratégia tem várias vertentes. O desenvolvimento de competências, investigação científica e literacia azul, acção climática e ambiental, nomeadamente nas questões que têm a ver com conservação e protecção da biodiversidade. Uma atenção muito especial tem sido dada à poluição por plásticos, apesar de ainda termos este problema visível em Cabo Verde. Água e energia num país que tem problemas relativamente à seca e tem que encontrar soluções alternativas para a produção de água para o consumo humano. Economia para a agricultura, portanto nós recorremos já desde há 50 anos à dessalinização da água do mar para o consumo humano, agora estamos a investir fortemente na dessalinização da água do mar para a agricultura. Ali está mais um caso em que o mar dá-nos soluções alternativas e associar cada vez mais essa dessalinização às energias renováveis. A própria produção de energia renovável é um recurso também disponível a nível do nosso vasto mar, incluindo hidrogénio verde, cujos estudos estão em curso. Depois há a vertente económica, turismo, ecoturismo aquático, pescas, indústria pesqueira, aquacultura, que já está em desenvolvimento aqui em Cabo Verde, particularmente em São Vicente, através da Nortuna, mas também através da Fazenda de Camarão. A Nortuna produz atum rabilho para exportação, a Fazendade  Camarão produz em aquacultura camarão, que já está no mercado caboverdiano. A vertente da biotecnologia marinha e economia circular e, claramente, também os transportes e operações portuárias. Depois nós temos a vertente da segurança marítima, que é importantíssima, nós temos uma vasta zona económica exclusiva, temos que garantir a fiscalização, a prevenção e o combate à pesca ilegal e não declarada e fazer com que a nossa zona seja uma zona que seja cooperativa também a nível da segurança, com outros países tendo em conta aquilo que são vários fenómenos que acontecem nos corredores marítimos. Portanto, são estas as grandes áreas de intervenção estratégica que Cabo Verde definiu e tem estado a executar.

    Como Cabo Verde pretende unir ciência, inovação e sustentabilidade?

    O Campus do Mar, que se situa em São Vicente, foi criado precisamente com a intenção de unir a ciência, a inovação e a sustentabilidade. Temos a Universidade Técnica do Atlântico, que se dedica ao ensino superior, o EMAR, que é a Escola do Mar, que se dedica à formação profissional, o IMAR, que é o Instituto do Mar, que se dedica à investigação e desenvolvimento. Depois adicionamos ainda a literacia ambiental, climática e do oceano, que é importante que seja desenvolvida e, de certa forma, está a ser desenvolvida junto das escolas e das comunidades, porque uma atitude e comportamentos favoráveis à sustentabilidade é fundamental para que haja essa implicação social muito forte. Por outro lado, nós temos um ecossistema favorável ao empreendedorismo e ao fomento empresarial, que vai desde assistência técnica, financiamento e fiscalidade, para tornar realidades ou sonhos em projectos inovadores. Só com estes instrumentos que nós trabalhamos, temos esse sentido estratégico do desenvolvimento do Campus do Mar, para ser um grande promotor desta ligação e desta interacção, que depois cria soluções para transformação em projectos que sejam, de facto, criadores de valor económico e de valor ambiental integrado.

    O especialista belga Gunter Pauli, para além de defender que o país deve transformar o conhecimento do mar em oportunidades concretas, com impacto no turismo, na inovação e na preservação ambiental, disse que Cabo Verde é desconhecido. Como o governo pretende mostrar o país mais ao mundo e ser mais conhecido?

    Temos estado presentes e activos nos fóruns internacionais, como por exemplo a COP.

    Temos uma participação activa ao nível dos Pequenos Estados Insulares em desenvolvimento, porque nós somos um dos SIDS. Ocean Week, que realizamos anualmente em Mindelo, tem sido um palco de notoriedade de Cabo Verde no o domínio da economia azul. Preciso lembrar que em janeiro de 2023 recebemos em Mindelo uma etapa da maior regata do mundo, Ocean Race, que simultaneamente teve a realização do Ocean Summit, que contou com a participação do secretário-geral das Nações Unidas, António Guterres. Só este facto foi revelador daquilo que é a capacidade de Cabo Verde que se mostrou ao mundo. E temos que continuar a promover eventos e a participar em eventos relacionados com a economia azul, que é uma forma de aumentar a notoriedade do país. Fazemos parte da voz e das vozes que defendem a sustentabilidade, que defendem o ecossistema que seja perene, que defende acções relacionadas com a acção climática e ambiental, porque Cabo Verde, com as suas vulnerabilidades em todos os SIDS, coloca esta questão como uma grande prioridade nacional.E, ao mesmo tempo, sermos palcos conhecidos para a atracção de investimentos e criação de mercados que interessam a Cabo Verde a nível da sua atenção e a nível da sua propensão para investir no país.

    A visita do economista belga e especialista em Economia Azul Gunter Pauli, a Cabo Verde, que aconteceu, na última semana de Abril, reforça, segundo o governo o compromisso na transformação do país numa plataforma marítima e logística internacional, apostando em políticas de transição energética, turismo sustentável, formação e inovação tecnológica.

    14 min
  • Germano Almeida: “Não há ninguém, para nós, tão importante como Cabral”

    Germano Almeida tem um novo romance. Crime nas Correntes d’Escritas é a mais recente obra do autor cabo-verdiano a ser publicada e o primeiro trabalho cuja história se desenrola fora de Cabo Verde.

    Em Crime nas Correntes d’Escritas, a agilidade da pena do vencedor do Prémio Camões transporta-nos para o festival literário que anualmente acontece na cidade portuguesa de Póvoa do Varzim. No romance, é com um ritmo envolvente, e sempre com um perfume de humor no ar, que Germano Almeida nos abre a porta para um universo onde se reúnem protagonistas do mundo literário de língua portuguesa, e também hispânica.

    A presença do “contador de histórias” em Portugal foi a oportunidade para uma entrevista à RFI. Germano Almeida revela as primeiras influências e as primeiras leituras, fala das obras escritas que nunca foram publicadas porque “desapareceram”, como começou a publicar por “razões muito circunstanciais, de futuros trabalhos a serem publicados, da independência de Cabo Verde, da política cabo-verdiana e do como Amílcar Cabral é uma referência máxima.

     

    RFI: Já li que se identifica mais como contador do que como escritor. Esse contador é inspirado nos contos que ouvia ao fim do dia, ao cair da noite, em Cabo Verde?

    Germano Almeida: Exactamente, acertou em pleno. Quando eu digo que não sou escritor, que sou contador de histórias, é porque eu aprendi a contar histórias com os nossos contadores de histórias que nos contavam a história à noite, à porta de casa.

    Não havia luz eléctrica, não ouvia televisão, não havia nada. O divertimento era ouvir histórias.

    Quando eu escrevo, tem sempre alguém a quem estou a contar uma história.

    Tem sempre um interlocutor, ainda que invisível. Daí que eu digo sempre que sou contador de histórias.

    Porque, também, a ideia que eu tenho é que os escritores têm que ter regras e princípios que eu não quero ter. Por exemplo, o rigor na linguagem. Eu não quero ter esse rigor na linguagem. Não que eu escreva mal o português, obviamente. Mas não quero empregar aquilo que a gente chama de palavras difíceis. Quero empregar palavras do dia-a-dia. Por isso é que a minha escrita é coloquial. Exactamente porque eu estou a falar com as pessoas.

    E como é que começou o seu hábito de leitura? Quais foram os primeiros livros? Como é que conseguiu acesso aos primeiros livros em Cabo Verde?

    É uma coisa curiosa, porque na Boa Vista... Na Boa Vista não, na minha casa. Não havia muito hábito de leitura. Havia muito poucos livros lá em casa. Eu não sei como me cruzei com os livros. Mas, os meus primeiros livros eram aqueles que chamavam de romancinhos de cowboy, que agora acho que desapareceram. Mas eu lia milhares. Depois, romancinhos de amor, li também centenas. Depois descobri a ficção científica. Mas, eu sabia de gente, na Boa Vista, que tinha livros e ia pedir emprestado. Eu lembro ainda, com prazer, de ter lido o Volta-Mundo de Dois Aventureiros. São doze volumes deliciosos. Quando acabaram, fiquei triste, porque não havia mais continuação. Mas lia tudo o que encontrava para ler.

    Eu acho que, digamos, a gente gostar de ler quase que leva, por outro lado, também à tendência para escrever. Foi o que descobri em mim. De repente, as histórias que eu lia devem ter-se transformado em alguma coisa que eu senti a necessidade de dizer, de escrever. Sobretudo de dizer, porque no contar histórias a gente precisa de ter um interlocutor. Mas eu nem sempre tinha interlocutores. Nem sempre as pessoas apreciavam estarem a suportar-me com as minhas histórias. Então, resolvi escrever. Escrevia pelo prazer de contar histórias a mim próprio.

    Lembra-se, certamente, em que contexto é que escreveu o primeiro livro?

    O primeiro livro, que eu nunca publiquei... Não, que desapareceu, que nunca soube … . Escrevi-o a contar um acidente que tinha havido na Boa Vista. Digamos, de um barco que naufragou. Matou dez ou doze homens da ilha, que todos nós conhecíamos. Uns eram parentes, outros eram amigos. Um barco, saiu numa noite de mau tempo, saiu para ir da Boa Vista para o Sal, naufragou no canal que a gente chama de Pedrona. Morreram todos. Excepção de um rapazinho, o Roque. Era um jovem, talvez de 14 ou 15 anos, que era pescador também, como o pai. O pai morreu, estava a bordo, mas ele escapou, foi o único. Essa foi a primeira história que eu escrevi. Mas perdi-a, não sei o que foi feito dela.

    E depois?

    Bom, depois eu fui para a tropa. Eu, em Cabo Verde, tinha sempre a mania de escrever. Aliás, escrevia parvoíces também. Mas quando fui para a tropa, resolvi escrever sobre a Boa Vista. Porque em Angola dei conta que eu tinha perdido o meu paraíso, que era a Boa Vista. O deserto verde de Angola fez-me lembrar o deserto branco da Boa Vista, que na minha zona era cheio de areia, montes de areia branca. Resultado, comecei a escrever. Foi o primeiro livro que escrevi. Também perdi muitas daquelas histórias. O primeiro livro que eu vim a publicar, efectivamente, como livro, foi O testamento do Sr. Napumoceno da Silva Araújo.

    E desses tempos de Angola, no exército português, houve algo que o inspirou? Algumas memórias que lhe serviram para aplicar noutros livros?

    Eu fui para a tropa contrariado, não era o que eu queria. Naquela altura já queria fugir para ir para a luta do PAICV. Não consegui, então tive que ir para a tropa portuguesa.

    Encarei a tropa sempre como um episódio na minha vida. Preocupei-me muito mais em conhecer pessoas. Por isso é que eu escrevi muito pouco sobre a tropa. Escrevi algumas espécies de histórias sobre pessoas, soldados que eu conhecia, com quem me dava e que me inspiraram. Algumas histórias que ainda não publiquei, mas que hei-de publicar. Mas um trabalho efectivo sobre a tropa em si, nunca me ocorreu escrever, não creio que vá fazê-lo.

    Estávamos em que ano?

    Eu fui para a tropa, em Cabo Verde, em 67. Fui para Angola, creio que em 68. E fiquei lá até 70.

    Mesmo nesse período que estava em Angola, escrevia sobre Cabo Verde?

    Sim, sim! Escrevi sobretudo sobre Cabo Verde. Em Angola, mesmo nesse período. Aliás, (material) que vim depois a reunir, juntando outras coisas. Porque escrevi muito. Mas também perdi muito. Não ligava muito de importância a isto.

    Depois, quando resolvi publicar em livros, escrevi mais histórias e publiquei com o título, o livro que eu tenho que se chama Ilha Fantástica. É grande parte da recolha dessas histórias que eu escrevi durante o tempo de Angola.

    Mas, entretanto, parte dessas histórias perdeu-se. Não valorizava aquilo que produzia?

    Não. O meu prazer era produzir. Nunca tinha pensado em publicar. Aliás, vim a publicar por razões muito circunstanciais.

    Eu e mais dois amigos resolvemos fundar uma revista e convidámos as pessoas que a gente achava que tinham material para escrever. Convidámos-as para nos mandarem material. Recebemos pouco e, então, houve necessidade de preencher páginas. E eu disse-lhes: olha, eu tenho umas histórias. Vocês podem vê-las e verem se servem ou não. Leram, acharam que serviam e publicámos com o pseudónimo, o tal pseudónimo de Romualdo Cruz, que aparece como personagem neste livro aqui da Póvoa do Varzim. Só que, em Cabo Verde, ninguém aceita não conhecer pessoas. Como é que há um escritor chamado Romualdo Cruz que ninguém conhece? De maneira que as pessoas não descansaram enquanto não souberam quem era Romualdo Cruz. A partir daí, isso é inútil, digamos, estar a escrever sob pseudónimo. As pessoas não ligam.

    Que revista era essa para a qual escrevia e qual o tipo de trabalho que acabou por publicar aí?

    Foi uma revista que nós fundámos nos anos 80. Eu, o Leão Lopes, deve-se saber quem é, o Rui Figueiredo também, que entrou no MPD e foi governante até pouco tempo. A última coisa que desempenhou foi ministro dos Negócios Estrangeiros.

    Encontrávamo-nos à tarde, num espaço cultural que o Leão tinha criado, e, um dia em que estávamos a conversar, de repente: Espera, porque é que não fundamos uma revista? Falamos dessa história de não haver nada.

    Então, eu lembro-me de ter-lhes sugerido, vamos fundar uma revista. E foi isto. Daí que eu me tenha sentido na obrigação de levar as minhas histórias para a revista.

     

     

    Qual é o livro de escritores cabo-verdianos que considera que era bom que todos os políticos cabo-verdianos lessem?

    (Risos) Não me surpreende, nem me apanha desprevenido com esta pergunta, porque eu tenho sempre insistido que todos os políticos cabo-verdianos deviam-se fazer prova de leitura do livro Chiquinho, de Baltasar Lopes. Eu costumo dizer que o Chiquinho não é um romance, é a história de Cabo Verde, escrita e escarrada. De maneira que, quem lê Chiquinho conhece a história de Cabo Verde, não faz, não comete os erros que os nossos governantes têm vindo a cometer. Porque é um facto que ao longo de 50 anos tivemos coisas muito boas, mas também tivemos muitas asneiras, muitas coisas más. Por isso é que eu digo que os governantes deviam ler obrigatoriamente e fazer prova de leitura de Chiquinho antes de assumirem governar Cabo Verde.

    Este ano, Cabo Verde comemora os 50 anos de independência. Olhando para estes 50 anos, qual é o ideal que ficou por cumprir?

    Eu acho que seria injusto dizer que ficaram ideais por cumprir.

    Eu considero que os 50 anos de independência foram vastamente positivos para nós. Eu considero que a independência foi uma revolução. Uma revolução, como todas revoluções, teve altos, tem baixos. Neste momento considero que está a ter um baixo. Portanto, eu considero que a política que o MPD está a seguir neste Cabo Verde é péssima para Cabo Verde. Mas eu considero que isto é um momento de contra-revolução. Digamos que haverá outros momentos que retomam outra vez a revolução.

     

    A independência foi a melhor coisa que nos aconteceu, incontestavelmente. Todo o homem cabo-verdiano, eu não creio que haja cabo-verdianos que não se sintam orgulhosos da independência.

     

    A independência foi a melhor coisa que nos aconteceu, incontestavelmente. Todo o homem cabo-verdiano, eu não creio que haja cabo-verdianos que não se sintam orgulhosos da independência. Não há nenhuma data maior para Cabo Verde do que a data de independência, por mais voltas que a gente queira dar e trocar por outras e apresentar outras. A independência, digamos, é o marco fundacional da nossa nacionalidade, e contra isso não há nada a fazer.

    Claro que fizeram-se imensas coisas boas. Fizeram algumas coisas más. Agora, a questão que se põe, que na minha opinião deve-se pôr, é: a gente pode deitar fora a água do banho, mas não deita o bebé, tem que conservá-lo.

    De alguma forma, já há alguma gente em Cabo Verde que quer deitar fora quer a água, quer o bebé. Por exemplo. A contestação que se vem fazendo à figura de Amílcar Cabral na sua importância para a Guiné e para Cabo Verde é uma coisa completamente absurda. Não há ninguém para nós tão importante como Cabral.

    É evidente que é uma luta absurda, uma luta inútil, também inglória, tentar retirar Cabral da nossa história, diminuir Cabral na nossa história. Mas incomoda ver gente que tinha a obrigação especial de defender esse legado a pôr em causa (o legado de Cabral).

    Será que este momento que coloca em causa o legado de Cabral poderá servir para o inspirar num futuro livro?

    Não creio que exactamente isto, não. Pode ser, digo, uma outra referência.

    Eu, por exemplo, escrevi um livro a que chamei de O Meu Poeta, mas escrevi O Meu Poeta ainda antes da abertura política de 1990 para tentar denunciar os oportunismos ligados, exactamente, ao Partido do poder. Mas os oportunistas que andaram à volta do PAICV são os mesmos que estão a andar à volta do MPD. De maneira que isso é capaz de ser um mal, digamos, nacional. Os oportunistas precisarem sempre de saber de que lado escorre a água e escorrerem por ali.

    Depois de uma extensa obra onde os seus livros são Cabo Verde, a mais recente publicação, Crime nas Correntes Escritas é o primeiro livro que se passa inteiramente fora de Cabo Verde, neste caso, na Póvoa de Varzim. Como é que surgiu este livro?

    Este livro surgiu como uma brincadeira. Eu sou frequentador das Correntes Escritas desde a primeira edição, que foi no ano 2000. Convidaram-me, eu aceitei, fui sendo convidado. Todas as vezes que me convidaram eu aceitei. Uma ou outra vez que eu não pude ir. Mas eu diria que num conjunto de 26 edições, participei pelo menos em 20. Porque eu gosto muito da festa das Correntes Escritas. Aliás, às vezes eu costumo dizer que aquilo é um piquenique que dura 4 dias. Gosto de estar naquele ambiente, conversar com as pessoas, discutir, rir, brincar, beber. Tudo isso, digamos, nesse período das Correntes Escritas. E isto faz com que a gente conheça pessoas e troque impressões com elas e converse. E é exactamente isto que aconteceu para a feitura deste livro.

    Achei que era importante homenagear as Correntes de Escritas. E a forma que achei para fazer a homenagem foi, exactamente, inventando a história do desaparecimento do manuscrito que um escritor ia apresentar lá. E a partir desse invento, dar a conhecer mais ou menos o que é as Correntes de Escritas.

    As Correntes Escritas é um festival dedicado à literatura, ao mundo literário, não só em língua portuguesa, pois também vai um pouco à América do Sul, à América Latina. Também acontece trazer-se autores, escritores dessa parte do globo. Neste Crime nas Correntes Escritas, onde desaparece o manuscrito do escritor e jornalista Mário Zambujal, são referidas dezenas de escritores. Mas depois toma a liberdade de enganar, entre aspas, o leitor, colocando uma personagem, que é uma personagem fictícia. O que é que o levou a colocar esta personagem no meio de tanta realidade?

    Houve um momento em que eu acreditei que essa personagem fictícia podia ter sido ela a roubar o manuscrito. E porquê? Porque ele tinha publicado, ao longo da vida dele, tinha publicado um livrinho com seis contos. Ele era convidado para ir para muitas actividades literárias à custa dessa pequena produção. Ele também se sentia envergonhado, porque não estava a conseguir produzir mais, mas não queria também dispensar os convites que aceitava. Então, daí ele ser um personagem, digamos, quase indicado para furtar o manuscrito do Zambujal. E, de certa maneira, houve uma altura em que os investigadores estiveram convencidos de que tinha sido ele. E, quando se preparavam para o denunciar, descobrem que ele foi-se embora. Ele já tinha ido embora. Portanto, se ele já foi embora, não se vê razão para o denunciar como que ele já não está cá.

    De maneira que o próprio personagem tomou o seu destino. Se bem me lembro, ele foi para Santiago de Compostela. Portanto, deixou de ser útil.

    Neste livro, logo nas primeiras páginas, há um jornalista da Rádio França Internacional (RFI) que está no encontro de escritores, o Veríssimo, e ele coloca uma pergunta cuja resposta no livro não me é muito clara. Agora, coloco-lhe a mesma pergunta: de que é que falam os escritores quando estão reunidos?

    (risos) De que é que falam os escritores? O João Ubaldo, que é um personagem também deste livro, diz que falam de direitos de autor. Porque, enquanto o jornalista lançou a pergunta, os escritores começam a inventar, porque o escritor tem que ter a resposta para alguma coisa, então começam a inventar as respostas. O João Ubaldo diz: não, não, não! Não fala nada disso. Falam é de dinheiro. Querem receber de direitos de autor.

    No fundo, é a ideia de que os escritores estão sempre tesos. Estão sempre com problemas de dinheiro. Todos os direitos que nos pagam, e, de facto, os direitos que nos pagam são miseráveis. Viver da escrita, pode haver algum escritor que viva da escrita mas devem ser muito poucos. E os que insistem em viver, eu acredito que vivem muito mal. Porque eu, por exemplo, trabalhei toda a minha vida como advogado e nunca pensei nos direitos de autor para sobreviver. Não poderia tomar um pequeno almoço com isto.

    12 min

About Reportagem

From the publisher's feed

Acompanhe os repórteres da RFI em conteúdos que ilustram o pulsar do mundo na sua diversidade.

More shows like Reportagem

Noticiários by RFI Português

Noticiários

0 Listeners

Desporto by RFI Português

Desporto

0 Listeners

Ciência by RFI Português

Ciência

0 Listeners

Artes by RFI Português

Artes

0 Listeners

Semana em África by RFI Português

Semana em África

0 Listeners

Lição de francês: Le Talisman Brisé by RFI Português

Lição de francês: Le Talisman Brisé

0 Listeners

Em linha com o correspondente by RFI Português

Em linha com o correspondente

0 Listeners

Em directo da redacção by RFI Português

Em directo da redacção

0 Listeners

Convidado by RFI Português

Convidado

0 Listeners

Moçambique 50 Anos de independência by RFI Português

Moçambique 50 Anos de independência

0 Listeners

Cabo Verde 50 Anos de Independência by RFI Português

Cabo Verde 50 Anos de Independência

0 Listeners