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  • "O nosso parlamento continua intacto e deve continuar a funcionar"

    A polícia guineense impediu esta quarta-feira, 13 de Dezembro, o acesso de deputados da coligação PAI - Terra Ranka à Assembleia Nacional Popular e dispersou as pessoas que se encontravam em frente ao Parlamento com recurso a granadas de gás lacrimogéneo.

     

    Entre as 10 e 10h30 da manhã, a Polícia de Intervenção Rápida atirou granadas de gás lacrimogéneo nas estradas que dão acesso ao parlamento, obrigando deputados cidadãos e crianças a fugir. Foi o caso do militante Queba que acompanhámos numa corrida à procura de um lugar seguro.

    "Estive em frente ao Parlamento esta manhã e, de repente, surgiram carros com polícias para dispersar as pessoas. As forças tomaram diferentes posições; norte, oeste e sul para impedir o avanço das pessoas. A polícia começou a dispersar as pessoas para que a comunidade internacional e o mundo não veja que os guineenses estão a reivindicar", conta o jovem militante.

    Sabino Junior, jovem quadro do partido PAIGC, defende que "o uso da violência contra a população foi inútil" e mostra-se surpreendido quanto "à agressão dos deputados pelas forças policiais".

    "Infelizmente, constatámos uma vez mais forças da ordem e segurança a usar a violência contra a população. Esta violência de forma inútil é dispensável. Ninguém está a fazer barulho ou a criticar. Todos estão parados a tentar ver o que está acontecer", alertou.

    O jovem quadro do partido PAIGC lamenta que "crianças a caminho da escolas assistam a cenas desta brutalidade. É triste que aconteçam estas coisas". A escola do primeiro ciclo Patrice Lumumba, que se encontra perto do parlamento, foi evacuada por causa do fumo do gás lacrimogéneo que chegou ao interior da escola.

    Depois da dispersão dos deputados, o porta-voz dos 54 deputados do PAI-Terra Ranka, Armando Mango, falou aos jornalistas na sede do PAIGC, defendeu que o "Parlamento não foi dissolvido uma vez que o decreto presidencial que tentou dissolver o parlamento não é constitucional".

    "O Presidente da Assembleia Nacional Popular convocou os deputados para dar continuação à sessão da Assembleia Nacional Popular, uma vez que tinha sido interrompida. Como deputados fomos cumprir a convocação, mas surpreendentemente encontrámos forças da ordem que nos impediram de entrar na casa do povo. Nós, deputados, fomos cumprir com a nossa obrigação na casa do povo e fomos recebidos com gás lacrimogéneo. O que é descabido e ilegal", afirmou.

    Armando Mango garantiu, ainda, que a Assembleia Nacional Popular continua intacta. "Esta tentativa de dissolver a Assembleia Nacional Popular é inconstitucional. O nosso parlamento continua intacto e deve continuar a funcionar. Quem interrompeu a continuação foram as autoridades policiais", acrescenta.

    "É preciso continuar a tentar cumprir a lei e estamos determinados em fazê-lo porque fomos eleitos para fazer com que haja legalidade na Guiné-Bissau", concluiu.

    Ate ao momento, a Presidência da República da GB escusou-se a fazer quaisquer comentário e não aceitou o pedido de entrevista da RFI.

    9 min
  • Guiné-Bissau: "O que está a acontecer tem a ver com as próximas presidenciais"

    Depois de ter dissolvido a Assembleia Nacional Popular e o governo, o Presidente guineense, Umaro Sissoco Embaló, reconduziu Geraldo Martins ao cargo de primeiro-ministro. "A grande agenda são as eleições presidenciais que devem acontecer, segundo o calendário eleitoral, a partir de Novembro do próximo ano. Esta é uma armadilha inconstitucional que pretende garantir a continuidade do poder político na Guiné-Bissau", afirma o politólogo, Rui Jorge Semedo.

    Para o analista guineense é preciso olhar "não apenas para o que está a acontecer neste momento na Guiné-Bissau", mas para o que tem vido a acontecer "desde Fevereiro de 2020". "O país continuou no mesmo modos operando à forma como o Presidente da República chegou ao poder. Contrariamente a todos os anteriores Presidentes que assumiram o mais alto cargo da magistratura na Guiné-Bissau, que passaram por um ritual Constitucional em termos de investidura, o actual Presidente não passou por esse ritual. As instituições responsáveis por essa regulação não se pronunciaram a até hoje", lembra Rui Jorge Semedo.

    Nos últimos três anos, o poder político tem vindo a "ter dificuldades no relacionamento com a Constituição da República da Guiné-Bissau e com os órgãos de soberania", descreve o analista, que questiona as intenções do Presidente; "não sei se o Presidente tem dificuldades em respeitar os órgãos de soberania ou se é intencional". "Mais do que ninguém, o Presidente da República e a sua família política sabem que a acção do Presidente é inconstitucional", acrescenta.

    "A situação política da Guiné-Bissau não é muito diferente do que se vive na Guiné Conacri, Mali, Níger, Burkina Faso, se compararmos com o que aconteceu aqui em 2019", compara. "Estes países sofreram reveses. São países democráticos que têm partidos a competir e leis que suportam o sistema, mas momentaneamente decidiram alterar o sistema. Na Guiné-Bissau nós não assumimos a posição como assumiram estes países, apesar da forma como as instituições se relacionam e a Presidência da República se posiciona como órgão detentora do poder. Em democracia não é assim", defende.

    O analista acrescenta que esta é uma situação "que pode ser má para o país caso a Guiné-Bissau queira consolidar as instituições do país e permitir que haja possibilidade de governabilidade. Nenhum país pode ser estável e progredir social e politicamente se continuar numa dinâmica de demonstração de força e de sequestro das instituições". Rui Jorge Semedo lembra, ainda, que este "não é apenas um erro do Presidente, mas também das forças de segurança, que deixam ser utilizadas pelas lideranças políticas e actual poder político na Guiné-Bissau".

    Tudo o que está a acontecer no país tem que ver com "a corrida eleitoral do próximo ano", acredita Rui Jorge Semedo, que compara a situação da Guiné-Bissau ao que está acontecer no Senegal entre Macky Sall e Ousmane Sonko. "A grande agenda são as eleições presidenciais que devem acontecer, segundo o calendário eleitoral, a partir de Novembro do próximo ano. Esta é uma armadilha inconstitucional que pretende garantir a continuidade do poder político na Guiné-Bissau. A CEDEAO é uma comunidade que tem patrocinado a ingovernabilidade e todas as crises um pouco por todos os países da comunidade, com excepção de Cabo Verde", concluiu.

    10 min
  • "Cesariny é actual porque é uma poesia da vida e a vida é sempre actual"

    A antologia bilingue da poesia de Mário Cesariny "Dever de Falar" acaba de ser publicada pelas edições Chandeigne e apresentada, através de uma leitura de poemas, ao público no Théâtre de la ville de Paris.

    O actor francês Denis Lavant e a actriz portuguesa Tersa Coutinho leram no domingo, 19 de Novembro, poemas de Mário Cesariny, no Théâtre de la ville de Paris. A antologia "Dever de Falar" de Mário Cesariny com tradução de Bernardo Haumont foi publicada pelas edições Chandeigne e apresenta um amplo panorama de obra de Cesariny.

    "Acho que [Mário Cesariny] teria gostado de Denis Lavant e de Teresa Coutinho, que é precisa na sua maneira de dizer os poemas de Cesariny. A escolha do Théâtre de la Ville foi justamente a de procurar um actor que seria parecido, de certa forma, na loucura, na voz e fisicamente com o Cesariny. Denis Lavant aceitou e gostou muito", descreve Bernardo Haumont.

    Mário Cesariny é um dos poetas mais atípicos do mundo artístico português e conhecido como uma das figura mais irritantes do surrealismo internacional. "Dever de falar" é uma recolha da obra escrita: uma poesia da exuberância, amor e sensualidade.

    O trabalho de tradução de Cesariny tem acompanhado Bernardo Haumont. "Não sei como é que se escolhem poemas [para fazer esta antologia], estou a traduzir Cesariny há muito tempo, na minha cabeça, porque gosto muito. Começou a tornar-se mais sério, fiz novas amizades que me levaram até à Emília Pinto de Almeida com quem fizemos este livro. A mesma amizade levou-me até à Ana Lima, que é directora de edição das edições Chandeigne e estas amizades fizeram este livro", conta-nos.

    Bernardo Haumont lembra que o trabalho de tradução "é trabalho e é gostar de uma coisa e tenta fazer o melhor que se pode". Neste processo, "foi mais o Cesariny que veio até nós. Ia lendo Cesariny, sempre gostei muito dele, do que ele dizia, da sua velocidade".

    "Cesariny é actual porque é uma poesia da vida e a vida é sempre actual. Cesariny é uma revolta e não é só uma revolta contra a ditadura, ele escreve nos anos 50, 60, 70, mas é uma revolta contra uma ditadura da linguagem, da civilização ocidental, do peso das instituições e de uma certa administração seja das estruturas políticas, sociais, mas também da língua e ele está sempre em revolta sobre essa coisa", explica.

    De Cesariny "resta traduzi-lo em muitas línguas. Resta traduzir outros livros em francês e torná-lo mais internacional porque é dos poetas mais importantes do século XX português, na sombra do Fernando Pessoa. A Fundação Cupertino de Miranda tem feito um excelente trabalho de relembrar e mostrar os poetas surrealistas portugueses. As edições Chandeigne têm feito a mesma coisa com a literatura portuguesa e brasileira", concluiu.

    A ideia deste livro surge de uma proposta do Bernardo; "o nosso papel é o de estarmos abertos e ver as possibilidades de publicação e sentir o investimento e desejo dos autores. Na nossa grande antologia da poesia portuguesa, publicada em 2021, também havia poemas de Cesariny integrados, mas não nada a ver com este trabalho", conta Ana Lima, directora de edição das edições Chandeigne. 

    11 min
  • Marco Mendonça: "No limite, seremos todos vítimas de uma ignorância colectiva"

    Blackface é o espectáculo que marca a estreia a solo de Marco Mendonça.

    O actor escreveu, encenou e apresenta no palco do Teatro do Bairro Alto, em Lisboa, um trabalho onde, a partir de "experiências pessoais e da história do blackface como prática teatral racista", "procura os limites do que pode ser representado num palco."

    Em cena, o monólogo Blackface é apresentado como uma "conferência musical, entre o stand-up e a fantasia, entre a sátira e o teatro físico, entre o burlesco e o documental".

    Marco Mendonça, que começa por fazer uma contextualização histórica apresentando as origens do blackface nos Estados Unidos da América, questiona a prática em Portugal no século XXI.

    "Isto não é um espectáculo que pretende acusar ninguém de nada, mas, acima de tudo, que as pessoas se divirtam a ver um espectáculo sobre um tema que podem não conhecer tão bem, ou, se o conhecem, podem não saber o quão longe é que vai a presença do blackface em Portugal," esclareceu Marco Mendonça na entrevista à RFI antes de subir ao palco com Blackface

    12 min
  • Alkantara Festival e os corpos que questionam e denunciam

    O Alkantara Festival decorre em Lisboa até 26 de Novembro e apresenta nos principais palcos da capital portuguesa espectáculos e projectos onde artistas nacionais e estrangeiros do universo da dança, do teatro e da performance "dialogam com questões urgentes nas sociedades contemporâneas".

    No ano em que se assinalam 30 anos de actividade, se tivermos em conta os anos iniciais da plataforma Danças na Cidade, a experimentação artística e o debate com diferentes contextos fazem parte de uma programação que na actual edição passa, por exemplo, pelo Teatro Nacional D. Maria II, Culturgest, São Luiz Teatro Municipal, Teatro do Bairro Alto, Centro Cultural de Belém e Espaço Alkantara.

     

     

    Pouco antes do início do festival, a RFI esteve no Espaço Alkantara e, no meio da azáfama da produção de um evento que só na equipa do festival e nas equipas dos artistas envolve mais de 230 pessoas, falou com os co-directores artísticos do Alkantara Festival, Carla Nobre Sousa e David Cabecinha, que contam como surgiu o festival e apontam destaques na edição de 2023.

    14 min
  • "Beyond Boundaries", a exposição que afirma a arte africana sem fronteiras

    "Beyond Boundaries" é a exposição colectiva que desafia o fruidor a participar numa viagem que atravessa o mundo de sete nomes da arte contemporânea africana, para quem a noção de fronteira pode ser constantemente questionada.

    Cristiano Mangovo, Gonçalo Mabunda, Luís Damião, Nelo Teixeira, Rómulo Santa Rita, Uólofe Griot e Samuel Nnorom são os artistas que, até 21 de Novembro, na Galeria This is Not a White Cube, em Lisboa, apresentam um conjunto de obras onde a celebração da liberdade se materializa.

    Na exposição com a curadoria de Graça Rodrigues, o alto poder da diversidade criativa apresentada está em perfeita sintonia com o engajamento social dos artistas.

    10 min
  • Portugal: Madeira e os desafios da insularidade em região ultraperiférica

    A Madeira, região autónoma portuguesa, é conhecida como a Pérola do Atlântico.

    Para além dos trunfos turísticos procurámos levantar o véu também sobre os constrangimentos ligados à insularidade desta região ultraperiférica.

    António Jardim Fernandes, responsável pelo turismo no seio da ACIF, Associação comercial e industrial do Funchal / Câmara de comércio e indústria da Madeira, e Carla Berenguer, da DECO, jurista da Associação de defesa do consumidor na Madeira falaram à reportagem da rfi.

    António Jardim Fernandes é responsável pelo turismo no seio da ACIF, Associação comercial e industrial do Funchal / Câmara de comércio e indústria da Madeira.

    Uma das maiores dificuldades é a distância ao mercado e os custos inerentes à insularidade.

    A inexistência de uma ligação marítima com outras parcelas do território português ou com arquipélagos vizinhos são temas abordados, para além da velocidade do crescimento do sector turístico.

    Os constrangimentos da insularidade, num território como a Madeira, têm impacto nos consumidores. Quais as respectivas queixas ?

    Carla Berenguer é jurista na delegação local da DECO, Associação de defesa do consumidor.

    Os essenciais são os transportes aéreos e o bloqueio geográfico.

    Questões que se prendem com conflitos relativos à obtenção a posteriori do subsídio de mobilidade ou o "bloqueio geográfico" e as empresas que não garantiriam entregas de artigos ao consumidor no arquipélago são dos temas que merecem mais denúncias por parte dos utentes madeirenses.

    Instantâneos de reportagens neste arquipélago português: para além do importante destino turístico a RFI procurou conhecer o que implica também viver nesta região ultraperiférica europeia.

    12 min
  • Cabo Verde: Turismo de Natureza na ilha de Santo Antão

    A ilha de Santo Antão vive no momento a época alta do turismo de natureza, é neste período que vai até Abril do próximo ano que a ilha mais montanhosa de Cabo Verde é frequentada por mais turistas internacionais, na sua maioria franceses. Para o presidente da Associação dos Guias de Turismo de Santo Antão, Odair Gomes, o turismo de natureza tem um impacto positivo na economia da segunda maior ilha do país.

    “O turismo de natureza é o que mais se pratica aqui na ilha de Santo Antão. O turista que vai aventurar pelas montanhas, conhecer os povoados que estão entre as montanhas e a biodiversidade da ilha. O mercado que mais procura o turismo para trekking é o francês, mas temos deparado um aumento de alemães, holandeses, belgas, polocas, espanhóis e portugueses, tambem” disse Odair Gomes

    Em Santo Antão há a maior rede de caminhos vicinais de Cabo Verde e esses trajectos são muito utilizados para a prática de caminhadas em trilhas, ou seja, trekking.

    O presidente da Associação dos Guias de Turismo de Santo Antão, Odair Gomes, explicou que todos os trilhos tem uma história por trás.

    “Nós temos os trilhos chamados de clássicos, que são os que normalmente os turistas fazem com maior facilidade, são os mais procurados, como Cova – Paul e Ponta do Sol – Cruzinha, os mais vendidos pelas agências. E, normalmente, fazemos um briefing com o turismo no sentido de lhes explicar o que vão ver ao longo do percurso e a sua história, bem como o porquê da construção desses trilhos”  afirmou o Guia de Turismo.

    Por sua vez, Sandra Pereira que é gerente e directora de operações  da Atlantur, uma agência de viagens e turismo especializada em circuitos entre-ilhas e turismo de Natureza disse à RFI, na cidade do Porto Novo que para o turista conhecer Santo Antão é necessário ir a três pontos da ilha

    “Tem a estrada de Corda, não somente Cova-Paul, a estrada de Corda que vai do cais de Porto Novo até Ribeira Grande, com várias paragens. Depois temos Ponta do Sol com Fontaínhas, esta última considerada a segunda aldeia com a melhor vista do Mundo, isto é uma visita muito importante, porque dá a conhecer internacionalmente Fontaínhas. Tem o Vale do Paul que é jardim de Cabo Verde, onde se consegue encontrar toda a parte mais exótica com as papeiras, as bananeiras, tudo o que as pessoas vêem e querem entender o que é Santo Antão” disse Sandra Pereira afirmando que antigamente a ilha era conhecida somente pelas caminhadas, mas agora é destino aberto a todas as idades “onde se pode fazer pequenas caminhadas para conhecer a ilha e aproveitar Santo Antão o ano inteiro”.

    Por outro lado, a directora de operações da agência de Viagens e Turismo, Atlantur, considera  que o aeroporto não é prioridade, no momento, para a ilha de Santo Antão. “O aeroporto não é uma prioridade (…) traz sempre mais trabalho e possibilidade de se chegar mais rápido a Santo Antão, mas temos São Vicente logo ao lado, a opção deve ser a combinação dos horários dos ferrys com os voos” disse Sandra Pereira.

     Já o presidente da Associação dos Guias de Turismo de Santo Antão, Odair Gomes, defende que a ilha de Santo Antão tem de ter um aeroporto e continuar a apostar no turismo de natureza preservando a sua essência “Santo Antão tem de ter o seu aeroporto, mas é necessário estabelecer prioridades das infraestruturas a serem construídas nesta ilha que não tem condições de receber qualquer tipo de resort, vamos diversificar e se Santo Antão é Turismo de Natureza vamos concentrar e tentar transformar no turismo sustentável” disse Odair Gomes.

    Ainda de acordo com o presidente da Associação dos Guias de Turismo de Santo Antão, o turismo de natureza na ilha das montanhas tem contribuído para diversificar o produto ‘sol e praia’ e enriquece o destino turístico do arquipélago.

    11 min
  • Sismo em Marrocos: um mês depois, resiliência dos desalojados é posta à prova

    Em que estado se encontra Marrocos, mais de um mês depois do sismo que causou 3 000 mortes e feriu mais de 5 000 pessoas com o epicentro localizado na província de Al-Haouz, região de Marraquexe. Fomos tentar perceber qual é a situação neste território montanhoso do Alto Atlas. O que é feito das 50.000 habitações destruídas, segundo os dados de uma comissão ministerial mobilizada para avaliar os danos, e em que situação vivem os cerca de 300 000 desalojados?

    A 8 de Setembro de 2023, era já de noite, e as pessoas preparavam-se para ir dormir quando um sismo assolou uma das regiões mais pobres do país. 

    Em Outubro, cerca de um mês depois, avistam-se tendas da Proteção Civil marroquina, de associações nacionais e internacionais e por vezes, tendas de campismo, pelas aldeias do Alto Atlas, de Imlil a Taroudant e Ouarzazate. 

    Na cidade de Marraquexe, o ambiente é outro. Os comércios estão abertos, os turistas passeiam entre as bancas de sumo de abacate e as de tapeçaria marroquina e espalha-se pela medina, a parte velha da cidade, a voz do muezim, a pessoa que apela os muçulmanos à oração. 

    Sentada num café da muito movimentada praça Jama El Fnaa, no centro de Marraquexe, Patrícia Lorenzo, portuguesa a viver em Marrocos há 13 anos, onde é professora de yoga, recorda a noite do sismo.

    "Estava em casa deitada no sofá, com o meu companheiro, a ver televisão. Eram 23h10 e de repente pôs-se tudo a tremer. Olhei para o meu companheiro do género "O que se está a passar ?" e depois saímos para o jardim. Isto tudo durou cerca de 40 segundos mas havia aquela adrenalina a passar pelo corpo porque realmente é impressionante sentir tudo a tremer à tua volta. Tudo. O chão, as paredes... Há pormenores... Por exemplo, havia o ruído... Parecia que absorvia todos os outros ruídos, era uma espécie de rugido da terra." 

     

    Passado o momento do choque, veio a consciência do drama. Em Marraquexe, nas noites seguintes, os habitantes dormiram ao relento nas praças da cidade, com medo das réplicas. Para as populações das aldeias do Alta Atlas a situação foi mais complicada devido ao acesso difícil, algumas não estando ligadas a qualquer estrada em betão, atrasando a chegada dos socorros e dos primeiros carregamentos de ajuda humanitária. Para Patrícia Lorenzo, habituada a uma Marraquexe efervescente, os dias que seguiram foram algo sombrios: 

    "Foi um bocado surreal saber que eu estava bem, que Marraquexe no geral estava bem, mas houve pessoas que perderam tudo. Muitas pessoas. No fim de semana a seguir havia um clima um bocado pesado na cidade. Marraquexe é uma cidade muito viva, como se está a ver agora. Há muita alegria, muito barulho. Mas a cidade parecia calma, estava tudo assim apaziguado. Era uma sensação um bocado estranha."    

     

      Casas destruídas: para onde ir?

    Al-Hassan é paraquedista no exército francês. Chegou a Marrocos inicialmente para formar militares marroquinos, mas dois dias depois o terramoto abalava o país e Al Hassan foi enviado para Marraquexe para participar nas missões que todos os dias partiam da cidade até às aldeias mais remotas, trazendo bens alimentares mas sobretudo tendas para abrigar os desalojados. 

    "Fomos até uma aldeia perto de Ouarzazate, aonde os carros não têm acesso. Fomos de helicóptero, não havia outra opção. Quando chegámos ainda havia corpos nos escombros das casas destruídas. Sim. Foi muito triste. 

    Há aldeias que já não existem, todas as habitações desmoronaram. Inicialmente, quando chegámos, o plano era levar os habitantes para outra aldeia, mais segura. Mas não quiseram. Não quiseram deixar a sua aldeia. Em muitos casos preferiram que lhes coinstruíssemos tendas para poderem ficar na sua aldeia."  

    As autoridades marroquinas distrubuíram tendas pelas aldeias, a Protecção Civil e as forças militares, auxiliadas no terreno por várias associações, responderam de forma rápida às necessidades mais urgentes: distribuição de comida, ajuda humanitária e até, apoio psicológico. 

    Um mês depois, desalojados continuam à espera de um tecto   

    Chegamos à aldeia de Imesker, 70 quilómetros a sul de Marraquexe, 1 500 metros de altitude. É aqui que vive Mustafa, 43 anos. De pé, no meio dos escombros de uma das casas destruídas, Mustafa recorda as primeiras semanas depois do terramoto, em que mulheres e crianças dormiam no chão, na rua, as tendas ainda não tinham chegado até à aldeia. 

    "A maioria das pessoas em Iskar ficou sem tecto, e agora vivem em tendas. Naquela casa morreu uma miúda. Ela tinha 18 anos e estava prestes a casar, agora em Outubro. A mãe da menina e o irmão ficaram feridos. O resto da família partiu para Marraquexe porque é difícil para eles ficar aqui e relembrar o acontecimento. Têem família em Marraquexe e preferiram ir para lá porque nos primeiros dias foi complicado... Tinham que dormir na rua, não havia tendas ainda nas primeiras semanas. Não era como agora."

     

    Quando vão começar as reconstruções? Ninguém sabe. Ou, pelo menos, ninguém recebeu a informação, relativiza Mustafa. 

    "Nos últimos três dias houve uma comissão de peritos que veio avaliar os danos. Mas quando é que poderemos reconstruir? Ainda não sabemos. Estamos à espera que o Governo diga algo. A vida continua. Estamos melhor do que na primeira semana. Mas ainda há um problema, são as escolas. As aulas não recomeçaram aqui. As crianças iam ao colégio e ao liceu em Asni, mas como está tudo destruído, têm que ir até Marraquexe. Para a escola primária, instalaram umas tendas aqui. Mas para o colégio e o liceu..... Nada." 

    O Ministério marroquino da educação anunciou que cerca de 530 escolas e 55 internatos foram destruídos ou danificados, interrompendo as aulas de muitos alunos. 

    Mustafa aponta ainda para a dificuldade de enviar diariamente as crianças de Imesker para a escola de substituição em Marraquexe, a 70 quilómetros de distância, numa região em que os transportes públicos são quase inexistentes: "Se tiveres família lá, é fácil. Mas sem familiares em Marraquexe, é um problema." 

    Uma semana depois do sismo, o Governo anunciou um plano de ajuda de emergência, com, nomeadamente, 250 euros por mês por família cuja habitação foi totalmente ou parcialmente destruída, e isto, durante um ano.  

    "Normalmente, o Governo vai nos dar 250 euros por mês. Vai ser melhor. Mas.... Ainda estamos à espera. A reconstrução vai demorar muito tempo, de três a cinco anos... Porque há muitas aldeias, e não sabemos exactamente como é que eles pretendem reconstruir." 

    Salima Naji, a arquitecta que defende construções de forma tradicional 

    Como reconstruir as aldeias do Alto Atlas, de forma eficaz, pouco custosa e garantindo a segurança dos habitantes? Colocámos a pergunta à arquitecta e antropóloga Salima Naji, membro da comissão de peritos mobilizada em Marrocos depois do sismo e titular de vários prémios internacionais como o Aga Khan, e condecorada como Cavaleiro das Artes e das Letras de França.

    Para Salima Naji o importante é reconstruir com base nos materiais do terreno e respeitando as tradições locais. 

    "Apercebemo-nos, com os outros membros da comissão, que todas as arquitecturas em betão armado, situadas perto do epicentro, colapsaram. Houve momentos de grande estupefacção porque havia arquitecturas em betão que tinham caído e outras, ao lado, arquitecturas vernaculares que tinham resistido.

    Hoje em dia, caímos por vezes na facilidade do "solucionismo". Acho que temos a oportunidade de repensar um modo de construção que sempre existiu nessas regiões. Estamos a falar de comunidades agro-pastorais, portanto não podemos chegar com planos de reconstrução e planos de realojamento.... Não faz sentido quando vemos a diversidade das situações na montanha. 

    Portanto espero que não vamos estragar uma arquitectura milenar para substituí-la por uma arquitectura de má qualidade, supostamente anti-sísmica com base em materiais inadaptados. 

    É preciso pensarmos que por exemplo se utilizarmos o betão armado, é um material extremamente poluente, e estamos longe das fábricas de cimento... Seria um disparate."  

    A outra proposta da arquitecta e antropóloga Salima Naji é a criação de grupos de trabalho com os próprios habitantes das aldeias, através de remunerações. 

    "Em vários municípios, fiz uma lista de todos os membros da comunidade que estão em condições de participar ans obras. A reconstrução tem que ser feita com os próprios habitantes das aldeias. Em primeiro lugar para lhes dar salários e, em seguida, para aproveitar os seus conhecimentos e técnicas ancestrais. Fiz então a proposta de uma cooperativa de serviços, com base num modelo que existe nas províncias, liderado pelo governador-geral e utilizado em obras, por exemplo, depois de inundações. Chamamos a isso "Al Kuraj" ou seja, construção, atelier... e então as pessoas são pagas pelo Estado para ajudar a reconstruir uma ponte, para ajudar a emendar uma série de danos materiais, depois de uma inundação, ou para reabilitar o património." 

    Depois do traumatismo, vem a resiliência das populações. As aldeias preparam-se para acolher o inverno, Marraquexe voltou à normalidade, irrequieta, agitada e festiva.

    A ajuda anunciada por Rabat de cerca de 11 mil milhões de euros para as zonas montanhosas sinistradas servirá para a reconstrução das habitações e poderá beneficiar para o desenvolvimento da agricultura local.  

    13 min

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