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  • Ilha do Maio dá-se a conhecer em França como "a cereja no topo do bolo" de Cabo Verde

    A ilha do Maio esteve em destaque no fim de semana na região parisiense. As suas praias e a sua população acolhedora são algumas das vantagens desta ilha para atrair turistas franceses e cabo-verdianos residentes em França. No entanto, os transportes e a desertificação dificultam o desenvolvimento económico da "cereja no topo do bolo" de Cabo Verde".

    Para dar visibilidade em França a Cabo Verde, as suas gentes e a sua história, a empresária franco-cabo-verdiana Dina Mendes, criou o evento Concept Store, Cap Verte en Scene, em Epinay sur Seine, nos arredores de Paris. A RFI esteve presente na última edição em que as ilhas do Sotavento estiveram em destaque. Dina Mendes começou por nos explicar a importância desta promoção.

    "Queremos mostrar que há outros destinos de turismo em Cabo Verde. Não é só Sal e Boavista. A Boavista hoje é conhecida porque temos operadores turistícos que fazem voos com tudo incluído e directos. Cabo Verde tem dez ilhas e cada ilha tem uma história, tem um ecossistema. Cada ilha tem a sua diversidade. Então, a ideia é de promover essa diversidade cultural e ambiental, turística, de investimento e dar a conhece-las", disse Dina Mendes.

    Com pouco mais de 6.000 habitantes, a ilha do Maio, mesmo ficando ao lado da maior ilha de Cabo Verde, a ilha de Santiago, bate-se por maior visibilidade nos roteiros turísticos, embora seja a ilha deste arquipélago com mais praias e uma das que guarda com maior cuidado a autenticidade da morabeza que define este país. Assim, Emílio Ramos, vereador da Câmara Municipal do Maio com os pelouros da Educação, Comunicação e Sustentabilidade, entre outros, veio até Paris e explicou à RFI a importância desta presença em França.

    "Há um número razoável de franceses que já recebemos, mas a nossa estratégia é aumentar o número de franceses, e de europeus, que vão ao Maio. O turismo é o nosso motor de desenvolvimento. Pelo menos é assim que Cabo Verde concebe essa matéria. E a nossa vinda a Paris vai no sentido de divulgar a Ilha do Maio para os franceses e cabo verdianos também residentes na França", explicou.

    Emílio Ramos explica que não é fácil chegar ao Maio, devido aos "problemas de transportes" que afectam todo o arquipélago, com o Governo a prometer para breve novas soluções marítimas e aéreas. E esta é uma dificuldade que impacta todos os maenses, cabo-verdianos e estrangeiros que querem chegar a esta pérola do Oceano Atlântico como explicou Leonor Queiroz e Mello, team leader do projecto Maio 2025 apoiado pela União Europeia, que também marcou presença neste evento em Paris.

    "A principal dificuldade é os transportes. O vereador já disse, não é uma questão do Maio, é uma questão de Cabo Verde inteiro. Mas ainda agora estivemos praticamente três semanas sem abastecimento e pronto, isto impacta toda a gente", explicou.

    Para quem consegue chegar ao Maio, há algumas soluções de alojamento como pequenas residenciais ou ficar mesmo em casa de habitantes locais. Um ponto de partida para visitar as várias praias de areia cristalina da ilha.

    "Há muitas coisas que o turista pode descobrir. Primeiro, as lindas praias. É a ilha de Cabo que tem mais praias de areia branca, água cristalina, um bom sol, sol quente. Também pode ter contacto com com a nossa cultura, que é muito diversificada a nível musical, artesanato e não só. Os povoados estão bem organizados a nível geográfico. E também há a conectividade. Nenhum povoado está isolado, todos são conectados por estradas. É uma ilha de morabeza. As pessoas são muito simpáticas, acolhedoras. Para além de haver também oportunidades de investimento na ilha", detalhou Emílio Ramos.

    Mas este crescimento que os habitantes esperam para a ilha não se deve fazer de forma desorganizada nem demasiado depressa, já que isso pode prejudicar o equilíbrio desta "cereja no topo do bolo de Cabo Verde".

    "Neste momento não estamos no top. Temos algum desenvolvimento turístico e não só, mas para lá caminhamos. Eu creio que dentro de poucos anos seremos a cereja no topo do bolo de Cabo Verde. Nós temos a responsabilidade de defender o equilíbrio, já que com a ilha do Fogo somos a única Reserva Mundial da Biosfera da UNESCO de Cabo Verde então temos que promover o crescimento económico da ilha para gerar rendimento de riqueza, melhorar a condição de vida da população, mas também respeitar os recursos que existem na ilha", defendeu o vereador.

    A União Europeia tem desde 2021 um projecto na ilha do Maio com o financiamento de 3 milhões de euros para acompanhar esta ilha num momento de transição, de forma a que mantenha e preserve o estatuto de Reserva Mundial da Biosfera da UNESCO, conquistado em 2020.

    "Este projecto foi desenhado pela Câmara e pela União Europeia porque estava prevista a modernização do Porto e também estava a ser equacionada a perspectiva de haver um grande empreendimento turístico, a União Europeia sentiu a necessidade para preservar um bocadinho aquele investimento que já tem vindo a ser feito e também para o Maio não cair nos mesmos erros que outras ilhas. É um projecto para preparar o Maio para o turismo que se espera que venha a aumentar. Quando se fala do Maio, estamos a trabalhar com a Câmara Municipal, onde já fizemos, por exemplo, planos detalhados, cartografia, um plano de género, etc. Trabalhamos também com as delegações dos serviços descentralizados, trabalhamos com a sociedade civil, empreendedores, ambiente", indicou Leonor Queiroz e Mello.

    No entanto, este empreendimento turístico está a demorar a sair do papel. O empreendimento “Litlle Africa Maio”, com duas mil camas, já está previsto há alguns anos e visa resolver a situação da falta de hospedagem na ilha, mas também dar trabalho aos seus habitantes, permitindo a fixação da população na ilha.

    "É um projecto de grande duração com investimento de 200 milhões de euros. Tudo indica que será o maior investimento privado alguma vez feito em Cabo Verde. Por isso houve uma série de negociações para acautelar que tudo esteja dentro da ordem e que finalmente o Maio não fique prejudicado. E faltava ainda o estudo de impacto ambiental. E este mês finaliza-se o período de produção de relatório e avaliação. E creio que em breve estaremos em condições de arrancar o empreendimento, que irá, portanto criar milhares de postos de trabalho. O Maio não tem tido o crescimento económico necessário para não só reter a população, mas tem estado a perder população a um ritmo galopante. Só para dar um exemplo, em 2010 éramos 8000 e tal, agora somos seis mil, perdemos cerca de 2000 pessoas em quase dez anos", contou Emílio Ramos.

    Sem oportunidade de trabalho no Maio e na procura de mais formação, muitos jovens maenses rumam a Portugal. De forma a apoiar estes jovens, no início dos anos 2000 foi criada a Associação Maense em Portugal, que apoia agora também jovens vindos de todos os países africanos de expressão portuguesa como explicou Marta Rodrigues dos Reis, membro desta associação.

    "A ideia era ajudar os estudantes da Ilha do Maio para vir para Portugal estudar. Só que neste momento a associação cresceu de tal modo que agora estamos nos PALOP. Ou seja, qualquer pessoa dos PALOP pode fazer uma candidatura, porque nós fazemos a ponte entre o aluno e a escola. Um ou uma estudante sai da ilha do Maio, faz uma candidatura através de nós e nós temos várias parcerias com escolas em Portugal, de formação profissional, profissional superior, licenciatura e mestrado. Quem faz candidatura connosco tem uma redução de propina que varia de escola para escola. Há escolas que nos dão, por exemplo o alojamento e neste momento com um problema de alojamento em Portugal, é um vantagem enorme", concluiu Marta Rodrigues dos Reis

    Os encontros da Concept Store, Cap Verte en Scene, em Epinay sur Seine, vão continuar durante o Verão, trazendo aos arredores de Paris a morabeza cabo-verdiana.

    18 min
  • Arquivo de Amílcar Cabral regista interesse crescente de investigadores

    Amílcar Cabral, o "pai da independência" da Guiné-Bissau e Cabo Verde, é uma figura de dimensão mundial e tem parte do legado num arquivo que, na Internet, disponibiliza mais de 10 mil documentos, entre os quais quase 1500 fotografias.

    Este arquivo, que está em Portugal há quase 25 anos, na Fundação Mário Soares e Maria Barroso, em Lisboa, é constituído por documentação produzida por Amílcar Cabral e representa vários aspectos da luta pela independência da Guiné-Bissau. Aqui estão reunidos textos emblemáticos para o conhecimento dos movimentos de libertação africanos, bem como documentação relacionada com o percurso pessoal de Amílcar Cabral.

    No ano em que se assinala o centenário de Amílcar Cabral, o interesse por uma das maiores figuras do nacionalismo africano não cessa de aumentar e o arquivo é um dos mais procurados por investigadores de todas as latitudes.

    A RFI visitou o espaço onde estão guardados os documentos produzidos por uma figura incontornável que tocou a vida de milhões de pessoas. Uma ocasião para uma conversa com o Director Executivo da Fundação Mário Soares e Maria Barroso, Filipe Silva, e com a arquivista Catarina Santos.

    Link para o Arquivo de Amilcar Cabral :

    http://casacomum.org/cc/arquivos?set=e_2617

    18 min
  • Roberto Chichorro apresenta a última exposição da carreira, "Entre Sonhos e Realidades"

    O artista plástico moçambicano Roberto Chichorro apresenta "a última exposição" da carreira, intitulada "Entre Sonhos e Realidades" no Centro Cultural de Cabo Verde, em Lisboa.

    Os sonhos e o encanto pela vida, foram, e continuam a ser, a grande inspiração, a grande força criativa de Roberto Chichorro.

    O artista plástico moçambicano Roberto Chichorro, que em cada trabalho nos diz "gosto das pessoas, gosto do mundo, gosto da vida", apresenta a exposição "Entre Sonhos e Realidades" no Centro Cultural de Cabo Verde, em Lisboa.

    Naquela que Roberto Chichorro diz que será "a última exposição" da carreira, podemos fruir de um conjunto de obras que representa o trajecto criativo de um nome ímpar da arte contemporânea.

    Alguns dias antes da inauguração da exposição, que se pode visitar até 30 de Junho, Roberto Chichorro recebeu a RFI no ateliê, em Ourém. Um momento para uma conversa onde o artista plástico nos fala do fascínio pelos pássaros, pelas mulheres, e nos revela como a infância em Moçambique alimenta a capacidade de sonhar e pintar. Um momento para se desenhar um percurso de vida onde, apesar das "histórias amargas", Roberto Chichorro prefere pintar as "histórias bonitas".

    13 min
  • O Tremor que dá a conhecer música e arte através da descoberta dos Açores

    "O cabeça de cartaz do Tremor é a ilha, o que nós fazemos é musicar as várias faces que esta ilha (São Miguel) tem", Márcio Laranjeiro, director do Festival Tremor.

    O Festival Tremor nasceu em 2014 para dar resposta ao desejo de "trazer vida até Ponta Delgada". Entretanto, a programação do festival que é concebido a pensar em quem vive nos Açores, mas que atrai muita gente de fora, ganhou grandeza. Actualmente o Tremor abrange mais dias, o número de projectos em cartaz aumentou e o espaço geográfico do festival dilatou-se, as iniciativas passaram a incorporar diferentes localidades da ilha de São Miguel.

    Este ano aconteceu a 11ª edição do Tremor, com uma programação que incluiu concertos, conversas, residências, exposições e laboratórios, onde se confirmou o cuidado na elaboração do cartaz assim como na relação com a natureza e população dos Açores.

    Durante cinco dias, a ilha de São Miguel foi o epicentro de um abalo de novas ideias que juntou mais de 40 projetos musicais, oriundos de todas as latitudes, num festival de música e arte pensado para inovar.

    Sinal do sucesso é o facto de muitos meses antes de se iniciar a mais recente edição, quando ainda faltava definir uma parte considerável do cartaz, já os bilhetes estavam completamente esgotados. Afinal, ir ao Tremor é uma experiência memorável que apela a todos os sentidos.

    A RFI falou com Márcio Laranjeiro, director do Tremor, que, entre outros temas, nos fala dos conceitos basilares do festival e como este nasceu.

    Tremor no Youtube: https://youtu.be/k1wdPr3Jo98?si=kSyF0i4l2EOB86Bt

    11 min
  • "As areias do imperador", peça sobre Moçambique colonial, em exibição na região de Paris

    Até este sábado está em cartaz a peça de teatro "As Areias do Imperador", na região de Paris. O espectáculo tem assinatura de Victor de Oliveira. O encenador e actor, nascido em Moçambique, já apresentou a obra em Lyon, centro sul da França, mas também em Aveiro, Porto e Lisboa, em Portugal. O Teatro de Bobigny, perto de Paris, propõe, pois desde esta quarta feira, uma obra baseada nos escritos de Mia Couto.

    Em causa o amor da jovem moçambicana Imani e do sargento português Germano no final do século XIX.

    Uma peça que conta com um elenco moçambicano e português essencialmente, e também com uma equipa francesa .

    O actor e encenador Victor de Oliveira começa por nos contar o que está na génese do projecto.

    Foi um longo trabalho. Quer dizer, a partir do momento em que eu comecei a ler o romance de Mia Couto, que é um romance longo na edição portuguesa, portanto, são três tomos. Ao fim, chegam a 1500 páginas de "Mulheres de Cinzas", o primeiro, depois "A Espada e Azagaia" e depois, finalmente, "O bebedor de Horizontes".

    Quando comecei a ler o primeiro tomo "Mulheres de cinzas", comecei a pensar: Isto é incrível!

    E quanto mais ia lendo, mais me convencia que esse era o melhor texto para eu continuar na minha relação com Moçambique, na minha relação com uma equipa de actores e actrizes moçambicanos com quem eu tinha trabalhado em 2019 para o "Incêndios", que é um outro espectáculo.

     

     

    E também uma maneira de continuar o meu questionamento às minhas questões em relação à colonização, a descolonização e toda esta relação entre Norte e Sul, entre a Europa e a África. Portanto, a partir desse momento em que eu comecei a dizer que eu tenho que fazer uma adaptação e comecei a trabalhar para a adaptação. Obviamente pedi os direitos ao Mia Couto e depois comecei a tentar ver em termos de produção, se seria possível, porque eu queria trabalhar com uma equipa moçambicana. Obviamente teria que trabalhar também com uma equipa portuguesa e com os meus técnicos franceses.

     

     

    Portanto, três países não é fácil. Com uma data de problemas, obviamente económicos, sobretudo, mas não apenas um projecto muito grande, porque há muitos actores. São 15 actores no palco, actores e actrizes, mas a equipa técnica são mais de 20 pessoas ao todo. Ou mesmo com a equipa de produção são quase 30 pessoas.

    Portanto, eu antes mesmo de começar a trabalhar na adaptação, eu teria que ver de que maneira é que seria possível em termos de meios para o fazer com os produtores. E pouco a pouco fui falando, fui encontrando pessoas e os meus parceiros tornaram-se co-produtores do projecto. E aí as coisas foram avançando também para conhecer uma parte dos actores portugueses que eu não conhecia, ter a certeza que poderíamos ter a primeira parte dos ensaios em Maputo. Portanto, eu diria que demorou mais ou menos três anos.

    Aliás, talvez um pouco mesmo, um pouco mais, porque no início o espectáculo deveria ter sido criado no Teatro Nacional D. Maria II, em Lisboa. Mas finalmente, o novo director do teatro Dona Maria, decidiu que não poderia ser nesse ano, porque eles não tinham orçamento. Então decidiu fazê-lo no ano seguinte. E no ano seguinte, que foi no ano passado, era impossível, porque o teatro começou em obras e o dona Maria II está em obras.

     

     

    Então foi por isso que nós, na semana passada apresentámos o espectáculo em Lisboa. Mas foi na Culturgest, integrado no ciclo "Abril Abriu", que é o ciclo que o Dona Maria II criou para as comemorações, digamos assim, da Revolução de 25 de Abril [de 1974 em Portugal].

    E tudo isso, como eu disse desde o princípio, foi muito tempo da ideia a partir da vontade e depois o trabalho da adaptação, o trabalho, a busca dos co-produtores, constituir toda a equipa artista e técnica. Até conseguirmos, em Setembro do ano passado, conseguirmos finalmente estrear o espectáculo no Teatro Aveirense, em Aveiro. Depois apresentámos no Teatro Nacional São João, no Porto, e depois apresentámos em Lyon, no Teatro Les Célestins. E agora vamos apresentar aqui em Bobigny, no MC93, e vamos estar aqui até sábado.

    Fazia referência ao facto de os ensaios terem tido lugar precisamente em Moçambique, em Maputo. Este espectáculo tem estado a viajar, como acabou de nos fazer referência. Ele vai viajar de novo para Moçambique?

    Nós esperamos que sim. Nós estamos a tentar que isso seja possível, porque, obviamente, o problema com Moçambique é que os meios não são muitos/ E se bem que uma parte da equipa é moçambicana, portanto eles já estão em casa. Mas há toda outra equipa dos portugueses e dos franceses que vive aqui em Portugal e em França. Portanto, para nós, conseguimos fazer com que 12 ou 13 pessoas possam vir da Europa para Moçambique não é fácil. Portanto, nós estamos a trabalhar com os nossos parceiros moçambicanos, portugueses e franceses para que isso seja possível. Mas quero acreditar que será possível, porque temos que o fazer lá, porque uma parte dos ensaios foi feita lá, faz parte da história de Moçambique.

    Uma parte da história é a captura do último imperador que se chamava Gungunhana pelo capitão Mouzinho de Albuquerque. Gungunhana tornou-se uma figura histórica.

     

     

    Lendária !

    Lendária em Moçambique ! Portanto, que nós possamos fazer um espectáculo em que essa figura lendária esteja em palco é muito importante. Tive ainda mais a certeza que temos que o ir fazer em Moçambique quando nós apresentamos o espetáculo em Lisboa, porque o autor do texto, Mia Couto, veio ver no dia da estreia. Ele adorou o espectáculo e falou bastante connosco. E também ele diz que é fundamental podermos apresentá-lo lá. Portanto, vamos tentar.

    Tem que ver com o amor entre uma moçambicana e um soldado português do final do século XIX, não é? Como é que esta história de facto, está a ser vivida? Como é que têm sido as reacções dos espectadores? Já fez referência às viagens que o espetáculo tem feito. Como tem sido o retorno ? Falou-nos agora do Mia Couto. Para além de ele, o que é que diz o público ?

    Tem sido incrível. Porque obviamente que não é... Por exemplo, quando apresentámos no Porto, em Aveiro, depois apresentamos a reacção não é a mesma dos portugueses e dos franceses.

    Para os franceses, eles estão deliciados em, de repente, descobrir o mundo, que eles não conhecem. Uma história que eles não conhecem, porque os franceses conhecem muito pouco da história colonial portuguesa, muito pouco. Moçambique, muitos deles nem sequer sabem geograficamente onde se situa Moçambique !

    Portanto, de repente, estar-se a ouvir uma história que é uma história sobre a colonização com moçambicanos, com actores moçambicanos que falam em changana, uma língua que eles não conhecem, nunca ouviram na vida, com actores portugueses ! E toda essa história estar a ser contada em palco para eles. É incrível ! Porque têm a impressão de viajar, de viajar no tempo e de viajar geograficamente. Têm essa impressão. Isso é muito bom. Para os portugueses e para os moçambicanos que viram o espectáculo em Aveiro, no Porto e em Lisboa é muito mais forte ! Porque de repente, é a própria história e a nossa história comum !

     

     

    A história de colonização, que em muitos aspectos, não foi ainda realmente cicatrizada. É a história de um amor, que é um amor que por muitas vezes é difícil, porque é entre um branco e uma negra. Portanto, tudo isso faz com que seja muito mais forte ! Porque de repente as pessoas são tocadas directamente. Houve pessoas no Porto e em Lisboa, que estavam extremamente tocadas, extremamente emocionadas, porque a história de amor entre a Imani e o sargento Germano é algo que lhes dizia pessoalmente e que estava ligada a algo muito maior, portanto.

    E para aqueles que não estavam talvez tão ligados em relação à história de amor e mais à história da descolonização... de repente é algo que foi muito forte. Porque muitas das deixas das personagens são destas que vão muito para além da história das personagens, vão muito para além, estão muito ligadas à história universal que é nossa.

    A história comum entre os moçambicanos e os portugueses, onde os portugueses e grande parte das ex-colónias. Portanto, e essa história é muito importante e as pessoas vêem, sentem. E eu estou agora muito curioso de ver como é que vai ser aqui em Bobigny porque o público parisiense é extremamente exigente e conhece pouco justamente essa história. Estamos todos muito curiosos em ver como é que eles vão para esta estreia.

    Essa estreia coincide com o Dia Mundial do Teatro, precisamente [27 de Março]. Você trabalha em teatro há muito tempo e agora aqui, como encenador. Em que medida é que já houve outros projectos em que você tenha feito também encenação ? Ou pretende, por ventura, no futuro, pegar noutros projectos para levá-los a cabo?

    Os projectos acontecem. Eu sou encenador há relativamente pouco tempo. Sou um actor já há muito, muito tempo, mas encenador há relativamente pouco tempo. E até agora, os projectos que eu tenho tido vontade de fazer e que eu tenho conseguido fazer são ligados a coisas muito pessoais, extremamente íntimas, que é a minha história com o meu país de nascimento, com as minhas raízes, com questões que me acompanharam durante a minha infância, a minha adolescência e enquanto adulto.

    Portanto, não é algo em que eu digo "O que é que eu vou fazer agora ? É algo que vem porque de repente encontro algo que me diz "Ah, isto eu tenho que fazer ! Disto tenho que falar !" Porque tenho vontade e porque tenho necessidade ! Por vezes, e isso é muito importante.

     

     

    O espectáculo, por exemplo, se estivermos a falar em termos daquilo que poderá acontecer depois, mais tarde... Há um espetáculo que eu fiz antes das "Areias do Imperador", em que o tema é relativamente à volta da mesma coisa. Chama-se "Limbo", mas é um aspecto muito diferente, que é um monólogo. É um monólogo que eu escrevi, que eu interpreto e que eu enceno, que foi criado em 2021 no Teatro do Bairro Alto, em Lisboa, mas que está em turnê um bocado por todo o lado e que na próxima temporada, em Janeiro de 2025, será apresentado aqui em Paris, no Théâtre National de la Colline.

    E eu estou extremamente contente e feliz por isso, porque é uma forma muito simples. É um monólogo que fala sobre, mais uma vez a colonização portuguesa, a mestiçagem e a política de assimilação portuguesa nas ex-colónias durante o período colonial do pós independência e depois do espaço e do lugar daqueles a quem chamamos afro-descendentes na Europa hoje.

    Portanto, são temas à volta dos temas de que eu falo nas "Areias do imperador" e que um espectáculo como este, que está tão ligado à história de Moçambique e de Portugal, que seja apresentado aqui em França, no Teatro Nacional, para mim é muito bom, mas tem a ver com coisas que são questões que me atravessam e que me parecem importantes tratá-las em termos artísticos. Portanto, para saber o que é que eu vou depois criar, por enquanto as coisas têm que vir, elas vêm !

    Sufaida Moyane, actriz moçambicana, encarna o papel de Imani. Ela começa por realçar a importância de trabalhar num projecto tão moçambicano falado tanto em português como em changana.

     

    Para nós, para começar, como actores moçambicanos, foi muito gratificante ter feito esse trabalho, ter trabalhado com uma coisa que é nossa, nossas línguas e tal. Bom, esta é uma ideia que começou com o encenador que é o Victor de Oliveira e convidou-nos a nós, que já tínhamos trabalhado com ele num projecto anterior.

    O "Incêndios" em 2019.

    Exacto. Então ele levou a maior parte da equipa moçambicana para participar neste projecto também. E neste projecto foi muito mais participativo por parte de actores, porque, por exemplo, o Victor, ele não falava changana. Agora fala, ele actua. Nós tivemos que confirmar uma série de coisas da cultura dos Changanas. Tivemos que participar na adaptação para trazer algumas coisas culturais locais.

    Ele é moçambicano, mas há muito tempo que ele não está em Moçambique, então não é fácil saber de várias coisas. E foi um processo muito, muito, muito bonito !  E levou muito tempo também, porque, como vê, tem muitos actores, é longo. Fomos cortando, fomos acertando, foi doendo tirar algumas coisas que eram bonitas, boas, mas nós tínhamos que afinar a uma certa narrativa, não é?

    Então foi e está a ser ! Continua a ser um processo muito bom. Nós esperamos então levar esse espectáculo para Moçambique. E é muito bom para nós, como moçambicanos, a falar changana e perceber que o público está connosco a ouvir e a ver essa história.

     

     

    Aqui em França então é pior porque eles têm de ver a legenda quase todo o espectáculo ! Em Portugal ainda tem uma boa parte de português que não precisa de tradução e em Portugal também nós encontrámos muitos moçambicanos. Isso é bom, que não precisavam de nenhuma legenda, então podiam reagir directamente ao changana e ao português, ou seja, estavam livre de olhar para aquelas telas de legendas, simplesmente estar a curtir o espectáculo.

    Por isso nós achamos que devemos levar esse espetáculo para o nosso país, porque em Moçambique, apesar de nós trazermos o changana de lá, nós não fazemos espectáculo em changana, não temos este hábito de fazer as coisas nas nossas línguas, não é? Então fazemos em português.

    Então aqui, assim como em Moçambique, vai ser quase que uma surpresa, uma coisa diferente. Acho que não é comum as pessoas fazerem espectáculos e usar as línguas locais. Geralmente usam-se as línguas mais internacionais em inglês, francês. E quando se sai para um país diferente, usa-se aquela língua.

    Então é muito bom. Isso para nós é uma valorização. Estamos a dizer ao mundo que nós existimos, que nós falamos esta língua, que ela existe e que é linda acima de tudo !

     

     

    E como é que é contracenar precisamente, então, com portugueses, com franceses também ?

    É muito bom. Colhemos sempre a experiência. Eu sempre digo "Quando vou trabalhar com pessoas diferentes, vou sempre colher alguma coisa, um lugar diferente, um espaço diferente, um palco diferente, o encenador diferente, um texto diferente." Então, é sempre muito bom ! E depois existe aqui uma beleza neste espectáculo que é gente, ouvir uma certa música em termos de línguas diferentes, ouvir changana, ouvir o português, ver aquele sotaque, depois o outro, ouvir o francês e depois um francês que fala changana, um francês que fala português. Então é uma música linda. Eu acho que o público que vê pela primeira vez tudo isso sente muito mais do que eu estou a dizer. Mas mesmo eu sinto isso ! Então é uma experiência muito boa. A gente sempre colhe alguma coisa.

    É mais do que uma história de amor. Há uma história de amor, também há uma história de preconceito, de traição. O que é que você viu por detrás deste enredo?

    Nas "Areias do Imperador",  não é ? A trilogia toda do Mia Couto trata muitas coisas. É como se fosse, como se o Gungunhana fosse uma... não uma desculpa. 

    Um pretexto ?

    Sim, Mas é uma história sim, mas o Gungunhana é uma história. O Mia Couto é como se ele estivesse a contar as histórias das pessoas que estão também à volta do Gungunhana. Porque temos a Imani, que é a protagonista que conduz e que conta esta história toda.

    Mas também temos muita coisa lá dentro. As lutas, as guerras, as raças, as línguas. Há uma questão lá mesmo de línguas que é colocada na trilogia, que é o facto de uns pronunciarem assim os nomes. Uns, por exemplo, os portugueses acabam transformando alguns nomes. Isso é um facto real.

     

     

    Temos muitos nomes, muitos apelidos que estão transformados e agora estão registados desta forma porque o português não conseguia pronunciar. Então dizia assim "Olha, agora vai ser isso". E às vezes matava o significado.

    Por exemplo nós temos zixaxa. Os portugueses pronunciam de forma diferente. Temos um exemplo de nome como camadesolo. Em changana, quer dizer joelho. Significa que existe alguma história por detrás desse lugar e deram o nome de alguma coisa como "joelho". Se calhar era um lugar, eu não sei a história em que as pessoas iam lá e ajoelhavam, mas o português não conseguia pronunciar isso e disse "Não, isso é Matola !" Mas Matola não tem significado nenhum.

    E existem muitos outros nomes que estão a transformar. Então uma questão de línguas que está lá e que nós também tentamos trazer aqui. Alguns dizem zixaxa de forma diferente, consoante as pessoas. Por exemplo, eu corrijo o Germano. A Imani corrige o Germano. "Não é Gungunhana, é Ngungunhane". Então é uma série de coisas e pronto, existe. Acabamos escolhendo esta linha porque não podemos trazer tudo, que é esta linha da história da humanidade. Que é uma história de amor, mas que por detrás tem, isto estão as guerras. Em paralelo está a captura de Gungunhana. Então vamos contar tudo isso. Só que seguindo esta linha da Imani.

    Antes de ir para Moçambique, porque o projecto, de facto, é chegar a Moçambique. Já passaram por Portugal, pela França. Tem algum nervosismo especial por estrear perante estes públicos novos? E como é que eles têm reagido?

    Ah, temos sim. Sempre acho que o actor tem sempre algo, algo de nervosismo quando vai actuar. Eu em particular, quando não sinto, fico preocupada. Acho que alguma coisa não está bem, porque tem que se sentir. Sim, a gente sente. Por exemplo, ficamos muito preocupados pelo facto de trazer aqui na França e eles não falam português.

    E depois, por exemplo, em Portugal, acho que existem algumas pessoas que não conhecem essa história de Gungunhana. As pessoas novas porque não lhes ensinam, porque talvez não lhes interessa. Para alguns, Gungunhana não tem importância nenhuma. Era visto como um bêbado. como não sei o quê ! Representa isso, então ficamos de alguma forma até preocupados.

    "Será que o público há-de vir? Será que isto lhes interessa, não é"? Será que ao verem há a questão de raças também? Será que ao verem fotografias, cartazes de negros eles virão e lhes interessa ver esses africanos e estes moçambicanos? O que é que eles imaginam que hão-de vir cá ver? Será que eles não pensam que virão cá para... ? Será que não vai ser um espectáculo que vai acusar de racismo, ou o quê então ? E isto passa. E nós conversamos, sobretudo nós, os actores moçambicanos e negros, porque temos actores moçambicanos brancos neste espectáculo também. Então pensamos nisso. Tipo "Será que lhes interessa? Será que virão?" Então é sempre uma surpresa quando, de repente, que vemos o público lá e a reagir e a reagir bem, isso é muito bom.

    Por seu lado, Miguel Nunes encarna o sargento português Germano de Melo, que se apaixona por Imani. Ele começa por contar como é que se envolveu neste projecto sob a batuta de Victor de Oliveira.

     

    O Victor estava a procurar um actor para desempenhar este papel e contactou-me para fazer uma audição. Pediu-me para preparar uma das cartas do Germano que ele envia ao superior dele, militar. E preparei esse pequeno texto e ele convidou-me para fazer o espectáculo. E eu fiquei muito contente e tenho estado cada vez mais entusiasmado com esta aprendizagem constante que é fazer um espectáculo durante muito tempo, com alguns intervalos, mas que esse tempo permite que o espectáculo se transforme e que o personagem também se desenvolva, cresça, se solidifique.

    Imagino que seja gratificante. Sei que ensaiou em Moçambique que o espectáculo já passou por dois países distintos. Como é que isto está a tomar forma?

    Sim, eu acho que, apesar de tudo, o mais gratificante é uma peça que fala sobre o nosso passado e que é nos corpos presentes dos actores e das actrizes que o vivem em palco que este texto se torna vivo e que estas relações se tornam vivas com a dureza que têm, com a violência que têm. Mas também com a possibilidade de transformar essa violência noutra coisa.

    Foi muito especial voltar a fazer no Dia Mundial do Teatro [27 de Março]. Foi a minha estreia num palco fora de Portugal neste dia. E fazê-lo com estes actores, com estas palavras do Mia Couto e com esta encenação do Victor de Oliveira, num grupo muito grande e muito experiente, é assim muito gratificante.

    O que é que foi mais desafiante de tudo?

    O mais desafiante é sempre encontrar essa espécie de verdade, mesmo que...

    Aqui não há bom, não há vilão !

     

     

    Acho que os vilões, naturalmente... Quem iniciou esse percurso violento e agressivo fomos nós. Fomos nós, portugueses, nós, homens brancos, que despoletámos uma guerra num território que tentávamos dominar a partir dos gabinetes do Terreiro do Paço, como o próprio Santiago da Mata diz.

    E também como outro personagem diz, numa fala muito, que eu acho muito pertinente "Nesta guerra, quanto mais armados estamos, menos preparados estamos de verdade". E às vezes, o que é mais difícil é a cada dia renovar esse encontro com o texto, com as palavras, com essa verdade, para que aconteçam essas tensões no palco, para que o espectáculo não desmorone, porque vive sobretudo dessas relações e dessas tensões entre os personagens.

    Eu sei que o Victor [de Oliveira] gostaria também de a prazo de fazer com que o espectáculo chegasse a Moçambique. Acredita nisso? Gostaria também de lá ir agora já com o projecto terminado ?

    Sem dúvida. Acho que não vamos descansar enquanto não entregarmos este espectáculo à sua origem, a Moçambique. Acho que devemos isso ao texto, à história, ao país, aos moçambicanos, aos actores moçambicanos e às actrizes. E por isso acho que vai ser assim uma recta final que não vamos poder descansar enquanto não concretizarmos esse desejo.

    O espectáculo "As Areias do Imperador", está em cartaz em Bobigny, no MC93, perto de Paris, até este sábado, 30 de Março.

    23 min
  • Amílcar Cabral e Zeca Afonso juntos no filme "Bissau Vila Morena"

    O documentário "Bissau Vila Morena", realizado por Manuel Loureiro, mostra como o Teatro do Oprimido, na Guiné-Bissau, agarrou no tema de Zeca Afonso, Grândola Vila Morena, e o adaptou ao ritmo Tina.

    Bissau Vila Morena é o documentário que nos mostra como uma canção pode unir dois povos. A curta-metragem, que tem como referência duas grandes figuras comprometidas com a luta pela liberdade, Amílcar Cabral e Zeca Afonso, já iniciou o circuito dos festivais de cinema e arrebatou o galardão máximo no Portugal Indie Film Festival.

    O filme, realizado por Manuel Loureiro, mostra como o Teatro do Oprimido, na Guiné-Bissau, agarrou no tema de Zeca Afonso, Grândola Vila Morena, e o adaptou ao ritmo Tina. 

    A película, produzida pela Associação Ser Mudança, tem a força de um documento poético sobre a coesão entre as diferentes etnias guineenses e também nos pode remeter para a possível consonância entre o 25 de Abril português e o 24 de Setembro guineense. 

    A origem de Bissau Vila Morena, o resgate da cultura e identidade guineenses, os próximos projectos documentais, um sobre mutilação genital feminina e outro sobre a história da música da Guiné-Bissau, são alguns dos temas da entrevista com o realizador Manuel Loureiro e com o presidente da Associação Ser Mudança, Roger Mor.

    Site da Associação Ser Mudança :

    http://sermudanca.pt

     

    11 min
  • O belo na Ressonância do Ser que Nuno Martins apresenta em Lisboa

    Ressonância do Ser é o título da exposição de pintura que Nuno Martins apresenta no Centro Cultural de Cabo Verde. Na primeira mostra que o artista e poeta cabo-verdiano realiza em Lisboa, o fruidor é confrontado com um jogo de experiências que remetem para uma introspecção onde o ser e o outro se constroem enquanto átomos pictóricos e se prestam a serem representados.
     

    A intensidade poética de Ressonância do Ser vai além das expressões que se nos mostram, apela à razão, à evolução filosófica e cognitiva para que nos aproximemos de uma contemplação do belo.

    A exposição, que apresenta uma selecção de obras do multifacetado artista, está dividida em três núcleos temáticos e pode ser visitada no Centro Cultural de Cabo Verde, em Lisboa, até 23 de Março.

    Clique aqui para conhecer a obra de Nuno Martins.

    Veja aqui algumas das pinturas do artista:

     

    12 min
  • "Maior sucesso para nós tem sido na área da reconciliação e pacificação" de Timor-Leste

    Ramos-Horta está em Paris onde teve um encontro com Emmanuel Macron e onde é patrono de um prémio da organização Líderes para a Paz. Em entrevista à RFI, o Presidente de Timor-Leste e Prémio Nobel disse que na Ucrânia vão ser precisos muitos anos para construir a paz e que a reconciliação entre timorenses é o maior sucesso do país.

    Em entrevista à RFI, o líder timorense falou sobre o encontro com o Presidente Emmanuel Macron, o interesse de França em Timor-Leste, mas também sobre a paz e a reconciliação em Timor-Leste como um potencial exemplo para os conflitos que existem actualmente no Mundo. José Ramos-Horta disse ainda estar preocupado com a situação na Guiné-Bissau, mas que espera que o seu homólogo Umaro Sissoco Embaló consiga dialogar com todos os guineense a bem da democracia no país.

    RFI: Como correu o encontro com Emmanuel Macron?

    José Ramos-Horta: Fui muito bem recebido por Emmanuel Macron. Falámos sobre Timor-Leste, eu dei-lhe as notícias, um quadro positivo de Timor-Leste tranquilo [...] Num quadro mundial tão negro, pelo menos há um oásis de tranquilidade.

    Do ponto de vista regional e internacional, falámos da China, de Myanmar, eu enfatizei o problema de Myanmar e outras questões. Falámos sobre a fome no Mundo e do meu papel com o Presidente do Chile para mobilizar e sensibilizar o Mundo para as pessoas com mais idade, mas também do combate à subnutrição infantil. É uma questão moral e ética.

    Falei no meu interesse em ver uma Embaixada francesa em Timor-Leste, ele reagiu bem e vamos ver agora como fazer o seguimento disto. O encontro foi magnífico e caloroso.

    Há actualmente em Timor-Leste um grande investimento francês, do grupo Bolloré, que é o porto de águas profundas de Tibar Bay. Falou com Emmanuel Macron sobre outros projectos e outras oportunidades de investimento em Timor?

    No sector hoteleiro, Timor-Leste tem urgência em atrair investimento. Desde logo, com a necessidade de diversificar a nossa economia, mas para além do turismo há muita coisa a fazer. Uma delas são as nossas infra-estruturas com a modernização do nosso aeroporto. Outra área são as telecomunicações, este ano esperamos receber o cabo submarino que vem da Austrália que vai modernizar as telecomunicações em Timor e precisamos de hotéis, para além do turismo, para a nossa adesão à ASEAN, já que vamos receber centenas de pessoas e falei da importância de mobilizar os grandes conglomerados franceses de hotéis.

    Falaram também desta adesão em curso à ASEAN? A França apoia a rápida adesão de Timor-Leste a esta organização?

    A União Europeia no seu todo e países individualmente como Portugal sempre apoiaram a adesão de Timor à ASEAN e, neste momento, vários países têm programas de apoio para acelerar e melhorar os nossos recursos humanos. É um enorme investimento e uma exigência para respondermos à agenda da ASEAN, como a União Europeia, com reuniões intermináveis e isso mobiliza centenas de pessoas. A França e a Inglaterra ofereceram-se para intensificar a formação de quadros timorenses.

    Está em França para participar na atribuição de um prémio da organização Líderes pela Paz do antigo primeiro-ministro francês Jean-Pierre Raffarin. O que pode dizer sobre a paz no Mundo actualmente?

    Já perdi a conta das intervenções que tenho feito ao longo de anos sobre a Paz e, às vezes, tenho dito até a outros Prémio Nobel, talvez tenhamos passado a mensagem errada porque há tanto tempo que falamos de paz e o Mundo está pior.

    Em Roma, falei com o Papa Francisco, que me recebeu em Roma calorosamente, sobre a Paz e a minha frustração e partilhamos estas angústias, mas ele disse que temos de continuar a combater pela Paz e não há que desistir.

    Esta iniciativa com a organização Líderes pela Paz é extremamente importante, sobretudo tendo às portas da França a guerra da Ucrânia, com todas as consequências e as feridas vão durar muitos e muitos anos.

    No dia em que as armas se calarem, começa a reconstrução do país e começa também o sarar das feridas e isso vai exigir líderes com credibilidade de parte a parte, na Rússia, na Ucrânia e na Europa toda. Sem sarar as feridas da guerra, a paz vai ser sempre frágil.

    E nisso Timor pode ser um exemplo?

    Eu não sei se seremos exemplo para alguém, mas a verdade é que o maior sucesso para nós tem sido na área da reconciliação e pacificação nas relações internas entre timorenses, entre timorenses com a Indonésia e com países que no passado apoiavam a Indonésia como os Estados Unidos ou a Austrália, hoje temos boas relações com eles. Assim como com o Japão ou com a China.

    Países pequenos têm muito menos responsabilidades. Isto é, temos capacidade para fazer mal a nós próprios, não temos capacidade para fazer mal aos outros. Agora os países grandes quando tomam decisões erradas, afectam todos nós.

    Sendo Timor um país pacífico e calmo, os nossos amigos como Portugal já não se preocupam connosco. Somos uma preocupação a menos. Ao longo de anos foi um angústia para Portugal e outros países amigos, hoje já não. Timor é uma consolação.

    Esteve com o Papa Francisco que lhe disse que irá a Timor este ano. O que é que isso significa para os timorenses?

    Nada no Mundo é mais importante para os timorenses do que uma visita papal. E Sua Santidade disse-me que quer ir a Timor-Leste. Uma equipa papal já está a caminho de Timor para estudar o programa e todas as condições relacionadas com uma visita talvez este ano, eu digo talvez porque não posso adiantar o anúncio oficial por parte da Igreja.

    Uma visita de Sua Santidade é o acontecimento do século para nós, mas preocupa-me o estado de saúde do Papa Francisco.

    Foi durante um ano e meio enviado do secretário-geral das Nações Unidas para a Guiné-Bissau. Qual é a sua mensagem para este país que está passar um momento muito conturbado?

    Há muita preocupação perante as notícias vindas da Guiné-Bissau sobre a situação actual, mas eu acredito que o senhor Presidente Sissoco que eu conheço bem, esteve em Timor-Leste há pouco tempo, falo com ele muitas vezes ao telefone, que encontre uma oportunidade de diálogo com Domingos Simões Pereira, o presidente da Assembleia Nacional guineense e com todos os outros para que a Guiné-Bissau seja pacificada e estabilizada.

    Tem um potencial enorme para ser um país próspero na região. Tem todos os recursos naturais e estratégicos.

    Eu acredito que o Presidente Sissoco vai falar com os seus irmãos guineenses e é preciso que todos sejam humildes, disponíveis para o diálogo.

    Diferenças políticas há sempre numa democracia, mas temos de as saber gerir e aceita-las. Quem é eleito governa, nós facilitamos a vida a quem é eleito, não vamos criar obstáculos ou problemas. É a minha presidência em Timor-Leste.

    2 min
  • "Amílcar Cabral é uma bússola", Rita Ié, directora da Casa da Cultura da Guiné Bissau

    No dia em que se assinalam 51 anos do assassínio de Amílcar Cabral, em Conacri, a 20 de Janeiro de 1973, e no ano em que se comemora o centenário do nascimento de Cabral, foi inaugurada a Casa da Cultura da Guiné-Bissau.

    O projecto, que surge após alguns actores culturais reconhecerem a ausência de representação da cultura da Guiné-Bissau, foi apresentado na sede da UCCLA (União das Cidades Capitais de Língua Portuguesa), em Lisboa.

    "Albergar toda a vasta cultura da Guiné-Bissau e todos os actores culturais" são os objectivos da Casa da Cultura na capital portuguesa, por enquanto ainda sem espaço físico, que tem como directora a socióloga e escritora Rita Ié.

    O destaque que a programação da Casa da Cultura da Guiné-Bissau vai dar à celebração do centenário de Amílcar Cabral, a importância de realizar a inauguração da Casa da Cultura a 20 de Janeiro, o legado de Amílcar Cabral para as gerações mais novas e as situações complexas que se vivem actualmente na Guiné-Bissau, são alguns dos temas abordados ao longo da entrevista com Rita Ié.

    12 min
  • Encontro histórico de Jazz em Bissau

    Os músicos portugueses de Jazz André Sousa Machado, Bernardo Moreira, João Pedro Coelho e João Moreira estiveram em Bissau, onde tocaram um repertório que criou pontes entre Portugal e a Guiné-Bissau.

    Os músicos portugueses de Jazz André Sousa Machado, Bernardo Moreira, João Pedro Coelho e João Moreira estiveram em Bissau com três concertos: no Centro Cultural Português de Bissau, na escola de música Nino Galissa e no hotel Coimbra.

    Fazer estes três concertos na Guiné-Bissau "foi um sonho tornado realidade", começou por lembrar Bernardo Moreira. O convite partiu do Director do Centro Cultural Português em Bissau, António Nunes, que lançou o desafio de levar à Guiné-Bissau um grupo de jazz a tocar música instrumental.

    "Os concertos correram muito bem. As salas estiveram cheias e houve um lado emocional por tocar na escola em construção do Nino Galissa. O espaço é absolutamente fantástico. É um projecto embrionário e foi marcante poder inaugurar o espaço", afirma André Sousa Machado.

    Também João Pedro Coelho partilha a emoção que foi "chegar a Bissau e tocar com pessoas que estão a aprender música, com um background muito diferente, foi muito emocionante".

    Em Bissau, os músicos portugueses deram um workshop. Para João Moreira este foi "um desafio no sentido em que é pouco tempo para se falar de muita coisa. Naquele momento já não sou músico a tocar, nem o ouvinte na assistência, sou um professor. Tentei explicar  coisas que podem tomar o seu tempo, cinco a dez anos de estudo: o desafio foi tentar falar destas coisas de forma directa e inteligível",contou.

    "O músico jazz está preparado para ter uma capacidade de adaptação quase imediata e instantânea ao que ouve e o rodeia, mas claro que há químicas, como em tudo na vida. As relações musicais também vivem da química e é verdade que entre nós há uma cumplicidade que têm a ver com as nossas personalidades, gostamos das mesmas coisas. O público é sempre muito sensível àquilo que vê e que ouve e esse resultado é que faz com que haja essa troca de energia entre o palco e plateia. Quando as coisas funcionam dessa maneira é como que um somatório de emoções várias que circulam na sala", descreve Bernardo Moreira. 

    O repertório foi escolhido para criar uma ponte entre Portugal e Guiné-Bissau. "O João Pedro tem um trio onde eu e o André tocamos. Eu tenho alguns projectos em que cruzo a música popular portuguesa com o universo do Jazz. Propus mostrar este nosso percurso e trouxemos duas figuras absolutamente incontornáveis da história da musica popular em Portugal: trouxemos um tema do Zeca Afonso e outro tema do Carlos Paredes", descreve Bernardo Moreira.

    De Bissau, os músicos portugueses levam "uma colecção de emoções: muito do que vivemos aqui é absolutamente comovente, fascinante e fica um sentimento de maravilha e deslumbro. É inegável que há um choque com uma realidade duríssima e às vezes fica difícil conciliar sentimentos", concluiu João Moreira. 

    16 min

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